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Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.50 no.92 São Paulo jun. 2017

 

HISTÓRIA PSICANÁLISE

 

Joan Riviere

 

Joan Riviere

 

Joan Riviere

 

Joan Riviere

 

 

Teresa Rocha Leite Haudenschild

Membro efetivo, analista didata e analista de crianças e adolescentes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP, São Paulo. thaudenschild@gmail.com

 

 


RESUMO

Este artigo é uma breve biografia de Joan Riviere, pioneira da Sociedade Britânica, que contribuiu para a psicanálise como tradutora do trabalho de Freud, Klein e outros autores. Revela como Joan, com sua característica timidez e simplicidade, teve um papel significativo no progresso da psicanálise. Joan trabalhou durante 17 anos como editora de tradução para o International Journal of Psychoanalysis. Além de críticas sobre inúmeras publicações, escreveu artigos originais que influenciaram o pensamento de vários autores, como Winnicott, Susan Isaacs, John Bowlby, Hanna Segal e Herbert Rosenfeld.

Palavras-chave: Freud, Klein, feminilidade, maternidade


ABSTRACT

This article is a brief biography of Joan Riviere, a pioneer of the British Society who contributed to Psychoanalysis as a translator of Freud's, Klein's, and other authors' work. This article reveals how Joan, with her characteristic shyness and simplicity, had a significant role in the progress of Psychoanalysis. Joan worked as a translation editor for the International Journal for 17 years. Besides her reviews and critiques of countless publications, she wrote original papers which have influenced the thinking of several authors, such as Winnicott, Susan Isaacs, John Bowlby, Hanna Segal, and Herbert Rosenfeld.

Keywords: Freud, Klein, femininity, maternity


RESUMEN

Este artículo es una breve biografía de Joan Riviere, pionera de la Sociedad Británica, que contribuyó con el psicoanálisis como traductora de Freud, Klein y otros autores. Revela como Joan, con la timidez y simplicidad que la caracterizan, tuvo un papel significativo en el progreso del psicoanálisis. Trabajó durante 17 años como editora de traducción para el International Journal of Psychoanalysis. Además de escribir críticas sobre numerosas publicaciones, escribió también artículos originales que influenciaron el pensamientos de varios autores, como Donald Winnicott, Susan Isaacs, John Bowlby, Hanna Segal y Herbert Rosenfeld.

Palabras clave: Freud, Klein, feminidad, maternidad


RÉSUMÉ

Cet article est une brève biographie de Joan Riviere, pionnière de la British Society, qui a contribué à la psychanalyse en tant que traductrice de l'œuvre de Freud, de Klein et d'autres auteurs. On y démontre comment, avec sa timidité et simplicité, elle a eu un rôle d'importance dans le progrès de la psychanalyse. Joan a travaillé pendant dix-sept ans comme éditrice de traduction de l'International Journal of Psychoanalysis. Outre les critiques concernant nombreuses publications, ele a écrit des articles originaux qui ont influencé la pensée de plusieurs auteurs tels que Winnicott, Susan Isaacs, John Bowlby, Hanna Segal et Herbert Rosenfeld.

Mots-clés: Freud, Klein, feminité, maternité


 

 

Joan

Joan nasceu em 28 de junho de 1883 em Brighton, Sussex, primeira filha do casal Hugh John Verral (advogado) e Ann (filha de um pároco). Ela nasceu um ano após a morte de um irmão recém-nascido. Sua irmã Molly nasceu dois anos depois, e Hugh Cuthbert, o caçula, após quatro anos. Nessa época sua mãe começava a ensiná-la a ler e escrever, mas Joan a sentia mais distante afetivamente que seu pai.

Joan tinha grande aptidão para línguas. Aos 15 anos foi para a Abbey School, em Wycombe, uma escola para moças, e aos 17 anos passou um ano em Gotha, na Alemanha, para adquirir fluência em alemão e estudar pintura e violino.

Ao retornar para a Inglaterra Joan aprendeu a desenhar moda e confeccionar vestidos, conciliando sua vontade de sair de casa e ao mesmo tempo agradar sua mãe, que valorizava os afazeres femininos da época.

Joan cresceu num meio culto, mesmo sem nunca ter ido a uma universidade. Seu tio A. W. Verral, professor de línguas clássicas em Cambridge, introduziu Joan no mundo acadêmico. Stratchey recorda tê-la encontrado na casa desse tio, descrevendo-a como uma mulher "alta, impressionantemente bonita, de ar distinto" (Hughes, 1991, p. 10).

Seus interesses ligados a assuntos psíquicos surgiram aos 19 anos, em 1902, quando ficou interessada no "desenvolvimento do psiquismo" (Hughes, 1991, p. 15) e começou a frequentar, em 1913, os encontros da Society for

Psychical Research e a Medico-Psychologycal Society, que fundou a primeira clínica pública com tratamento psicanalítico na Inglaterra (Boll, 1962).

Joan tinha muitos amigos entre os intelectuais do Bloomsbury Group,1 escritores, como Enid Bagnold, E. M. Forster, Arthur Waley,2 e artistas plásticos, como Sickert, Vanessa Bell. Teve até um retrato feito por R. G. Eves em 1916.

Em 1905 Joan ia a encontros de mulheres que lutavam por direito ao voto e discutiam reformas para a lei do divórcio.

Casou-se aos 23 anos com Evelyn Riviere, advogado, filho de Briton Riviere, pintor vitoriano de sucesso. Após dois anos, nasceu Diana, única filha, que, com 1 mês, foi entregue aos cuidados da avó materna e da tia, pois Joan sofria de "neurastenia". Aos 26 anos teve um breakdown devido à morte do pai. A mãe era muito rígida, Molly, sua irmã, conta que uma vez ela as proibira de ir a um baile por terem derrubado uma gota de vela na mesa. Segundo o depoimento de sua filha Diana, Joan era tímida e insegura.

De 1914 a 1915, tratou-se num sanatório para doenças nervosas, em Walberswick, Suffolk, e por esse motivo, em 1916, aos 33 anos, iniciou sua análise com Jones. Ele diz que ela tinha insônia, enxaqueca e outros sintomas psicossomáticos, assim como uma "angústia generalizada" (Jones, 1921b).

Fez análise com Jones até 1920, interrompida por um ano em 1918, devido a uma nova internação.

Nesse período (Hughes, 1991, p. 10), Joan escreveu a Jones sobre seu medo de entrar num breakdown, como após a morte de seu pai.

A análise com Jones foi tumultuada, ele lhe fazia confidências pessoais, emprestava-lhe sua casa de campo; ela experimentou um amor de transferência sem nenhum insight e não foi auxiliada por ele nesse sentido.

De outubro de 1921 a maio de 1922 fez análise com Freud por pouco mais que um semestre, e depois, em 1924, por um mês e meio. Freud logo viu nela uma possível tradutora de artigos do alemão para o inglês. Freud comunicou a Jones, sobre a análise de Joan, que "a formação de um ego ideal muito severo iniciou-se nela numa idade muito precoce" (Hughes, 1991, p. 13), diagnosticando-a como um caso de neurose de caráter, e aconselhou a Jones que lhe desse uma oportunidade, pois ela possuía qualidades altamente valorosas. Mas o quanto Freud pôde trabalhar com Joan, nessa curta análise, o sentimento de confiança e segurança que faltava nela? Quanto seu trabalho com ele pôde proporcionar-lhe o insight que ela buscava na compreensão da relação com os outros, particularmente com mulheres? Herbert Rosenfeld (Hughes, 1991, p. 15) disse que Joan ressentiu-se pelo fato de Freud, antes que ela pudesse relacionar-se com ele como uma paciente em análise, tê-la usado como tradutora.

Joan era membro da British Psycho-Analytical Society e participou vivamente de suas atividades, até sua morte em 1962.

Jones, em carta a Freud de 21 de janeiro de 1921 (Jones, 1921a), diz: "ela pode ser uma tradutora valiosa, pois penso que compreende psicanálise melhor do que qualquer outro membro, exceto talvez Flugel" (Hughes, 1991, p. 15). Gay (1988) considera que Joan "conservava mais da energia do estilo de Freud do que qualquer outro tradutor" (Hughes, 1991, p. 18).

Fez parte, desde seu início, do Comitê do Glossário de termos psicanalíticos, composto por ela, Freud, Anna Freud, Alix e James Strachey e Ernest Jones. Foi editora de tradução do International Journal of Psycho-Analysis de 1922 a 1937, tendo deixado esse cargo para dedicar-se a seus escritos e sua vida particular. Freud a considerava sua melhor tradutora, pois era sensível e criativa. Em carta de 23 de dezembro de 1923 disse não querer "ninguém, a não ser ela, para cuidar dos seus trabalhos" (Hughes, 1992, p. 266). Joan traduziu do alemão para o inglês muitos artigos de Freud, Klein e outros autores. Para Joan, tradução era uma arte.

Joan e Melanie Klein conheceram-se em 1924, quando esta apresentou seu artigo sobre técnica na análise infantil no Congresso de Salzburgo (Klein, 1986).

Joan era uma propagadora preciosa das ideias de Klein nas décadas de 1930 e 1940, além de publicar seus próprios artigos. Como "a mais eloquente colega de Klein, era capaz de mostrar, com notável lucidez, as ligações entre as teorias de Freud e as descobertas de Klein" (Hughes, 1991, p. 24).

Na última década de sua vida afastou-se gradualmente do grupo cada vez maior que cercava Klein, e quando morreu em 1962, aos 79 anos, devido a bronquite e enfisema, Joan tinha uma reconhecida reputação como tradutora de Freud e Klein, e como divulgadora didática de suas ideias. Strachey disse, nessa ocasião, que os dons de Joan para a tradução deviam-se a sua fluência no idioma alemão, seu estilo literário e seu intelecto penetrante.

O brilho dessa reputação, entretanto, obscureceu a importância e originalidade de suas próprias contribuições teóricas e práticas para a literatura psicanalítica.

 

Escritos

Joan tinha uma escrita elegante e clara, dizia ter aprendido muito com Freud. Ele lhe dissera que era necessário "pôr para fora" as ideias da própria mente, para lhes dar vida própria e terem uma existência por elas mesmas.

Ela mais admirava o estilo de Freud, sua simplicidade e preocupação com o leitor, pondo-se no seu lugar e escrevendo para ele.

Hanna Segal (Hughes, 1991, p. xiii) conta que ela gostava de escrever à mão, nunca escrevia à máquina ou ditava seus artigos.

Além de ter uma habilidade excepcional para expressar as ideias de Klein3 de maneira incisiva, Joan contribuiu para o conhecimento psicanalítico durante mais de quarenta anos de vida profissional, anos em que, não podemos esquecer, houve uma enorme reviravolta no conhecimento psicanalítico.

Segal disse que "todos os seus artigos contêm observações e ideias originais" (Hughes, 1991, p. xiv).

Em 1920, no primeiro número do International Journal, Joan publicou "Três anotações", em que mostra seu contato e entendimento da criança no adulto, pelo material de três pacientes adultos.

Publicou "A teoria dos sonhos",4 entre 1920 e 1921, e nele fala com muita clareza dos princípios de realidade e de prazer, mostrando que este último, de acordo com Freud, "não é nunca abolido ou erradicado, mas somente freado e remodelado", e então "acontece que um desejo que não pode ser gratificado na realidade procura outra saída, e uma delas é o Sonho" (Hughes, 1991, p. 55). Ela diz que para Freud o sonho nada mais é do que o resultado de "transformações de desejos inconscientes, com um significado que é pessoal e íntimo. Sua fonte é subjetiva, a mente do sonhador e seus conteúdos, seu propósito é o prazer e a preservação do sono" (Hughes, 1991, p. 58).

Publicou "O complexo de castração numa criança" (1924a), "Um símbolo de castração" (1924c) e "Simbolismo fálico" (1924b) no International Journal. Nos dois primeiros Joan mostra seu interesse no entendimento do mundo interno das crianças. No último, mostra novamente como essa criança fala por meio das associações de uma paciente adulta.

Controvérsias

Em maio de 1927 Joan, juntamente com Klein, Jones, Glover e Searl, participou de um Simpósio na British Society, organizado para responder às críticas de Anna Freud em Introdução à técnica da análise infantil, em que esta enfatizava as diferenças entre a sua abordagem e a kleiniana.

No artigo "Simpósio sobre análise de crianças" (1927) Joan sustenta a teoria kleiniana do desenvolvimento precoce do superego, acrescentando que a severidade do superego pode estar ligada à privação. Mostra como ansiedade, culpa e frustração contribuem como fatores para a rigidez do superego, que pode ser modificada pela análise da ansiedade e da culpa relacionadas às figuras primárias, tornando conscientes as fantasias inconscientes primitivas e onipotentes relacionadas a essas figuras. A desidealização dessas figuras, assim como a aceitação da realidade de que, como crianças, vão ter de postergar a satisfação de seus desejos sexuais, faz a dor da frustração ser mais bem tolerada.

Nesse artigo Joan ainda rebate o argumento de Anna Freud de que o adulto tem um desejo consciente de se tratar e a criança não, dizendo que o que interessa são as motivações inconscientes, tanto no adulto quanto na criança. Finaliza afirmando que a transferência para o analista é similar à da análise de adultos e que a transferência negativa precisa ser analisada do mesmo modo.

Freud, em carta a Jones de 30 de setembro de 1927, pergunta-se "como uma pessoa tão inteligente como Mrs. Riviere permite-se fazer asserções teóricas que conflitam com todos os nossos conhecimentos e crenças e que abrem o caminho para tirar a análise da esfera da realidade" (Freud, 1927, p. 279).

Primeiros artigos

Em 1929 Joan fez sua primeira contribuição à constituição da feminilidade, com o artigo "Feminilidade como uma mascarada" (Riviere, 1929), em que mostra, por um caso clínico, como por trás de uma máscara de feminilidade pode estar escondido o desejo de masculinidade, em certos tipos de mulheres não abertamente homossexuais, mas não inteiramente heterossexuais. Propõe que a homossexualidade pode estar ligada à frustração na amamentação ou no desmame, que pode provocar um intenso sadismo em relação a ambas as figuras parentais (Klein, 1928).

Publicou "Regeneração mágica através da dança" (1930): "a dança pode representar o ato de recriar um objeto morto, trazendo-o à vida magicamente outra vez" (Hughes, 1991, p. 53).

Em "Ciúmes como mecanismo de defesa" (1932), provavelmente o primeiro artigo escrito sobre a inveja da cena primária, propõe que os ataques invejosos (em fantasia) às figuras parentais internalizadas são responsáveis pelo "agudo e desesperado sentimento de falta e perda, de terror, de vazio e desolação sentido pelo invejoso no triângulo" (Hughes, 1991, p. 103). O que parece ciúme edípico é inveja da relação do casal (lembremos que Klein vai desenvolver esse tema em Inveja e gratidão, publicado 25 anos depois).

Esse artigo é também uma contribuição ao conhecimento das complexidades do desenvolvimento da feminilidade. Nele Joan demonstra, pela clínica, que é a inveja oral que leva a mulher à procura de um amor inatingível e a se sentir sempre privada dele.

As controvérsias continuam

Em 1934, Joan fez para o International Journal uma resenha das "Novas leituras introdutórias à psicanálise", publicadas por Freud nesse ano, dizendo que ele próprio salienta que nenhuma de suas concepções é definitiva - nem sobre a ansiedade, nem sobre a autodestrutividade, nem sobre a formação do superego. E comentou quão difícil para ela é conceber que os conflitos internos só surjam na criança com o advento do complexo edípico, lamentando que Freud não aceite a evidência desses conflitos nos estágios pré-genitais, o que confirmaria e ampliaria as hipóteses quanto à severidade do superego expostas por ele poucos anos antes, em 1930, em "Mal-estar na civilização".

Artigos de madurez

Aos 53 anos, Joan publicou sua contribuição mais importante e original à teoria e técnica psicanalíticas, "Uma contribuição à análise da reação terapêutica negativa" (1936a), salientando a necessidade de focar as ansiedades subjacentes às relações objetais internas vividas em fantasia pelos pacientes que respondem à análise piorando. Sentindo intensa dor e culpa, defendem-se maniacamente de medos intensos: de que a depressão poderia avassalá-los, ou de que teriam de sacrificar suas vidas pelos danos feitos aos objetos.

Em 5 de maio de 1936, quando Freud fez 80 anos, Joan foi a Viena representando a British Society, como parte de um programa instituído por Jones para discutir as diferenças teóricas entre a psicanálise vigente em Viena e a de Londres. Com esse propósito Joan apresentou um extenso artigo, "Sobre a gênese do conflito psíquico na infância inicial" (1936b), nele expressando com muita clareza a teoria kleiniana da época, as dores e lutas da criança entre seus amores e ódios aos objetos, principalmente a mãe, a qual sente inicialmente como sua extensão.

Joan acentua a importância da relação primária da criança com a mãe, dizendo que

para a criança é uma experiência constante que suas satisfações e seus alívios dos estímulos dolorosos, internos ou externos, venham da mãe externa. Então, desde o início toda a inexorável necessidade externa é, como uma demanda, relacionada à mãe externa: ela e a necessidade são a mesma coisa (Mesmo uma resposta ansiosa agressiva constitui-se num apelo a ela [mãe]). Se ela é inexorável, do mesmo modo que a necessidade interna, então [a mãe] fica identificada com a dor e a necessidade internas.5 (Hughes, 1991, p. 282)

No meu entender, Joan já falava de experiências que mais tarde serão nomeadas por Bion (1962b), de relação com um objeto-que-não-aceita-identificação-projetiva, contraposto a um objeto com reverie - um "objeto compreensivo".

Joan e Klein

Em 1936, juntamente com Melanie Klein, Joan fez as "Leituras públicas", Klein falando sobre "Amor, culpa e reparação", as forças construtivas humanas, e Joan, sobre "Ódio, voracidade e agressão" (1937), as forças destrutivas, ilustrando-as na vida de cada dia e sublinhando a necessidade de compreendê-las: somente sendo aceitas e avaliadas em seu valor potencial é que o medo delas pode diminuir e ser contido. Joan sugeriu que o severo sentimento de culpa pode ser devido a privações iniciais, reais ou imaginadas.

Joan e Freud

Em 1937, Joan publicou no British Journal of Medical Psychology uma resenha sobre "Um estudo autobiográfico" de Freud, escrito em 1925. Lembrando que a história de Freud é a história da psicanálise, Joan interroga-se sobre o que nele permitiu que "forçasse uma brecha em barreiras que nunca antes tinham sido franqueadas" (Hughes, 1991, p. 155). Além de seus traços de caráter,

foram sua capacidade de adaptação, sua habilidade para tolerar perdas e frustrações em busca de um ganho maior que lhe permitiram reconciliar as experiências subjetivas da mente humana com a realidade externa de suas vidas. Por esse processo ele descobre uma unidade na vida humana. (Hughes, p. 156)

Uma semana após a morte de Freud, em 23 de setembro de 1939 em Londres, Joan escreveu "Uma impressão íntima", falando dele como homem - uma pessoa íntegra, com muita sensibilidade e humor - e como o criador da psicanálise. Descreveu os encontros com ele desde 1920, quando o conheceu no primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, em Haia, suas impressões ao fazer análise com ele, sempre vívido, indiferente a superficialidades, curioso. "Havia uma tal simplicidade em sua impessoal vivacidade, em seu ímpeto [eagerness], que era talvez a coisa mais significativa sobre ele" (Hughes, 1991, p. 210). Mas "seu poder de ver fatos novos e de conferir observações diminuiu após sua cirurgia de 1924" (Hughes, 1991, p. 207).

Ainda as controvérsias

Em 1943 e 1944 Joan participou das controvérsias da British Society com o artigo "Contribuições às discussões controversas da British Psycho-Analytical Society", publicado em seu boletim científico.

Joan viúva

Após a Segunda Guerra, escreveu "A esposa desolada" (1945), dedicado às viúvas da guerra. Ela fala da catástrofe que a guerra traz para a esposa e os filhos dos soldados mortos. E concluiu lembrando que "o que cada ser humano ama e procura encontrar, outra vez em sua vida, são as figuras de pai e mãe, indelevelmente preservadas no mais profundo de sua mente" (Hughes, 1991, p. 226). Esse artigo fez parte do luto de Joan por seu marido, que morrera de câncer nesse ano.

Analistas leigos, como ela

Fez uma resenha (1948a) de "Uma análise leiga", publicado por Freud em 1925 na Alemanha e somente em 1947 na Inglaterra. Ela diz que "este pequeno livro consiste numa descrição do que é a terapia [psicanalítica] e não dedica mais que umas poucas páginas ao final à questão de se o analista deve ser médico ou não" (Hughes, 1991, p. 229). Enfatizou também o ponto de vista de Freud de que um "certo talento natural e certos traços de caráter são indispensáveis para um psicanalista clínico" (Hughes, 1991, p. 229). Não esqueçamos que Joan era de fato uma "analista leiga": nem ao menos fizera uma universidade, mas Freud, desde o início, vira nela uma pessoa de talento para a psicanálise.

Joan e os progressos da psicanálise

Apresentou na British "Notas sobre atitudes paranoides observadas na análise e na vida cotidiana" (1948b) com uma grande quantidade de material em que aparece a identificação projetiva.

Em 1952 fez a introdução de Progressos em psicanálise, em que descreve a teoria kleiniana como extensão das ideias de Freud, e não um desvio delas: é uma teoria integrada que dá conta de todas as manifestações psíquicas, incluindo o desenvolvimento inicial infantil e os processos psicóticos. Joan introduz cada trabalho publicado (de Melanie Klein, Paula Heimann e dela própria) com comentários interessantes e, na apresentação de seu artigo "A gênese do conflito psíquico na primeira infância", já publicado em 1936, ela corrige suas concepções anteriores, dizendo que, além das relações hostis com o mundo externo, a criança mantém uma relação amorosa com sua mãe externa desde muito cedo.

Joan e a literatura

"A fantasia inconsciente de um mundo interno refletida em exemplos da literatura" (1952b) mostra como a fantasia inconsciente (e consciente) de que albergamos vivamente pessoas em nosso mundo interno, assim como sentimentos de amor e ódio, idealização e perseguição em relação a elas, aparece claramente nos escritos literários, citando Dante, Ibsen, John Donne, Joseph Conrad, Guillaume Apollinaire, Wordsworth, Samuel Rogers, T. S. Eliot, R. L. Stevenson.

"O mundo interno de Ibsen em O arquiteto" (1952a) mostra como o arquiteto tenta satisfazer os desejos de Hilda, que o usa, assim como ele a usa, para reparar maniacamente seu mundo interno destruído. Em ambos, a não elaboração do luto pelas perdas (desde as mais precoces), acarretando fantasias onipotentes competitivas em relação aos pais internos (primários e edípicos), leva à atuação e até à morte.

A simplicidade de Freud

Em 1956, por ocasião do centenário de nascimento de Freud, Joan escreveu sua última contribuição, publicada em 1958: "Um traço de caráter de Freud" (1958), dizendo que nele era marcante a ingenuidade:

sua simples e direta resposta pessoal a qualquer coisa que ele percebia, [considerando-a] como válida em si mesma, era a característica única desse gênio ... e desse modo ele descobriu o inconsciente ... do qual não conhecemos nada, mas, no entanto, está nos impelindo e dirigindo. (Hughes, 1991, p. 353-354)

Penso que numa análise é necessário ter em mente o quanto é forte para nós o não visto e o não conhecido, para aprender tudo o que precisamos sobre o que é o inconsciente. (Hughes, 1991, p. 20)

Ela começa o artigo dizendo que o que mais a impressionava em Freud era a escrita, dirigida diretamente aos leitores: "havia uma qualidade pessoal, uma relação pessoal, implícita em seu estilo" (Hughes, 1991, p. 350). Seus leitores envolviam-se no processo da procura da verdade que ele estava buscando, embora, paradoxalmente, "ele não tentasse convencer ninguém: a meta de impressionar as pessoas parecia faltar ou ser mínima nele" (Hughes, 1991, p. 351).

 

Analista e supervisora

Susan Isaacs, John Bowlby, Donald Winnicott e Ernest Trist foram analisandos de Joan; e Hanna Segal, Herbert Rosenfeld e Henry Rey, seus supervisionandos. Ao contribuir com a formação desses psicanalistas, Joan certamente cooperou com os progressos que eles implementaram na psicanálise.

Joan dedicava uma atenção profunda a tudo o que fazia, sempre reconhecia um trabalho cuidadoso e nunca deixava de criticar as falhas. Alguns a admiravam, como atestam os depoimentos de Isaacs, Segal, Rosenfeld, e outros a temiam (Hughes, 1991).

 

Joan e a feminilidade

Joan e a maternagem

Segundo Ana Verral, a mãe de Joan, ela era um bebê "perfeitamente saudável, com 4,200 kg, corpo e pernas longas, mãos lindas como as do pai e uma grande quantidade de longos cabelos castanhos" (Hughes, 1997, p. 904). Entretanto, o "bebê era muito nervoso e facilmente amedrontável por barulhos ou movimentos repentinos, e necessitava ser tratado delicadamente" (Hughes, 1997, p. 904).

Apesar dessa capacidade de observar, Ana parecia não se dar conta do valor da relação materna primária, pois Joan bebê e seus irmãos foram deixados pela mãe para viajar com o marido.

Mesmo no contexto da época e de sua classe social, deixar um bebê para viajar é um exemplo de extrema negação das necessidades infantis. Ela não era uma mãe continente para as angústias da criança. Isso era responsabilidade da babá.

Ana põe em primeiro lugar as suas necessidades, e é assim que, embora deseje amamentar, diz que "ela requer mais [leite] do que eu posso lhe dar" (Hughes, 1997, p. 904) e então vai substituindo a amamentação por mamadeiras. Aos 9 meses Joan já era capaz de mover-se pelo quarto para onde queria.

Além das dificuldades de Ana para se aperceber de sua importância na maternagem, seu marido, com diagnóstico de febre reumatoide, exigia sua constante dedicação. As crianças ficavam por conta da babá, costume nas famílias abastadas da época.

Poderíamos, então, nos perguntar como se constituiu inicialmente o mundo interno de Joan, e o quanto a transgeracionalidade pode ter marcado seu psiquismo. Sua severa doença psíquica após o nascimento de sua filha não estaria ligada a dificuldades na identificação com uma boa mãe interna? A ideia de catástrofe inicial, descrita por Winnicott (1974) como "medo de um colapso que já acontecera", aparece claramente quarenta anos antes, em "Uma contribuição à reação terapêutica negativa" (Riviere, 1936a).

É digno de nota, também, que Diana, sua única filha, nunca tenha se casado ou tido filhos.

Joan, entretanto, sempre salientou em seus artigos a importância do período da amamentação e desmame e a elaboração das frustrações e do sadismo inerentes às relações iniciais. E não podemos nos esquecer de que Winnicott, que forjou as concepções de "preocupação materna primária" e "mãe suficientemente boa", foi analisando dela.

Joan mulher

Segundo o diário de sua mãe, Joan deixou os estudos aos 17 anos e se sentia muito infeliz em casa, motivo provável de não ter tido interesse em entrar numa universidade. Foi para a Alemanha com "um guarda-roupa fino, quase todo feito em casa, seu gosto para vestir-se é excelente..." (Hughes, 1997, p. 906), como se isso pudesse suprir as necessidades de uma mocinha deprimida e só, num país estranho.

Ao retornar, além de desenhar e fazer roupas, frequentava círculos intelectuais e artísticos; sua semelhança com a avó paterna era surpreendente, com o mesmo "ar de superioridade", talvez inconsciente (Hughes, 1997, p. 906).

Mas esse "ar", essa retração de Joan nos meios sociais, mascarava uma depressão que a levara a procurar o dr. Griffith em Londres, em 1905, e a fazer uma pequena cirurgia, o primeiro dos muitos esforços feitos por ela para tratar de problemas ginecológicos que a levaram a fazer uma histerectomia em 1923.

Desde 1905 participou de movimentos sufragistas e frequentou encontros sobre a reforma da lei do divórcio. E desde 1913 trabalhou na Society for Psychical Research introduzida por seu tio, e participou dos encontros da Medical-Psychological Society.

Em 1919 foi decretada, na Inglaterra, a abertura para as mulheres atuarem em todas as profissões, em paridade com os homens. Nesse mesmo ano Joan, Alix Strachey, Sylvia Payne, Susan Isaacs, Ella Freeman Sharpe e Bárbara Low entram para a British Society como membros fundadores (6 mulheres entre 24 homens).

A "timidez" de Joan

Apesar de sua capacidade de compreender e inter-relacionar as teorias de Freud e Klein, por que Joan, que apresentava ideias originais em quase todos os seus trabalhos, não contribuiu ainda mais com os progressos das teorias psicanalíticas?

Diana, sua filha, conta que a avó Ana exigia perfeição. E Joan, a começar pelos cuidados da casa, exigia também de si mesma, tinha a reputação de ser uma hostess e uma dona de casa perfeita (Heimann, 1963).

Será que a dívida para com sua mãe, devido aos ataques sádicos a ela (como a paciente de "Feminilidade como mascarada"), só poderia ser aplacada - exigindo a oferenda de toda uma vida -, e então Joan teria que sacrificar seus talentos, adotando a máscara da feminilidade? As ansiedades relatadas pela "paciente" de Joan quanto a seu sadismo eram as mesmas que a impediam de participar mais e falar nos encontros da British?

"Sabemos que a resolução do sadismo na posição depressiva não leva à negação de recursos próprios ou ao autossacrifício, mas a regeneração e fortalecimento" (Hughes, 1997, p. 903). Em termos kleinianos poderíamos dizer que houve passagem da posição esquizoparanoide, em que predominam angústias de ser atacado por seus perseguidores, à posição depressiva, com angústias de danificar os objetos amados e os perder. Mas esse temor de perder os objetos amados, quando a posição depressiva é elaborada, dá lugar à solicitude para com eles, e não a autossacrifício (Klein, 1952).

Artigos sobre a feminilidade

Em seu artigo "Feminilidade como uma mascarada" (1929), Joan fala da feminilidade como um disfarce utilizado por certas mulheres que a usam para esconder sua rivalidade e ódio dos homens, oferecendo-se como seres castrados para aplacar alguns homens que são como figuras paternas virtuais. Fazem isso devido a um forte desejo de castrar os homens e roubar sua potência.

Em "Ciúmes como mecanismo de defesa" (1932) descreve o ciúme como defesa contra a inveja do casal, antecedendo em 25 anos o livro Inveja e gratidão, publicado por Klein em 1957.

Na "Resenha das Leituras introdutórias de Freud" (1934), Joan critica a visão da mulher apresentada na quinta Leitura, e diz estranhar que ele ignore a essencial coqueteria da menina e seu interesse por homens, expressa em seu brincar com bonecas.

Em "A esposa desolada" (1945), Joan fala dos sofrimentos enfrentados pelas viúvas de guerra que, além de perderem os maridos, perdem também a casa, sentindo-se desvalorizadas, ainda mais quando não têm filhos. Esse é o artigo em que Joan mais fala da importância do marido para a esposa: "a perda de seu amado a priva de repente de sua fonte principal de crédito em si mesma" (Riviere, 1945, p. 216).

 

Palavras finais

As contribuições originais à psicanálise feitas por Joan estão perpassadas por experiências profundas de desamparo e dor, desde o início de sua vida.

Athol Hughes (1997) diz que ela em seu diário conta ter consultado onze vezes em 1915 o dr. M. B. Wright, o mesmo que tratava de Virginia Woolf, cujo marido, Leonard, em sua autobiografia, diz que "ele (o dr. Wright) não tinha a menor ideia da natureza ou da causa do seu estado mental, nenhum conhecimento científico ou real de como curá-la" (Woolf, 1964, p. 160). E Hughes diz que "Virginia não procurou a psicanálise para ajudá-la, mas Joan procurou, para o benefício de todos nós" (Hughes, 1997, p. 908).

 

Referências

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Recebido em: 30/8/2016
Aceito em: 30/8/2016

 

 

1 Grupo de escritores, intelectuais e artistas que se reunia em Bloomsbury, em Londres, influenciando a produção artística da época e atitudes em relação a feminismo, pacifismo e sexualidade. Entre muitos, podemos destacar Virginia e Leonard Woolf, John Maynard Keynes e Litton Strachey.
2 Tradutor de poesia chinesa.
3 Segal (Hughes, 1991, pp. xiii-xiv) diz que ela era capaz de comunicar algumas ideias de Klein muito vividamente, de um modo que nem a própria Klein ou qualquer de seus colaboradores conseguia, sendo a expositora mais articulada das ideias daquela.
4 Publicado no Suplemento feminino de um jornal. Fonte desconhecida (Hughes, 1991).
5 Symposium of Child Analysis (1927).

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