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Revista Psicopedagogia

versão impressa ISSN 0103-8486

Rev. psicopedag. vol.25 no.76 São Paulo  2008

 

ARTIGO ESPECIAL

 

A emergência da Psicopedagogia como ciência

 

 

Nadia Aparecida Bossa

Pedagoga, Psicóloga, Psicopedagoga, Mestre em Psicologia da Educação PUC/SP, Doutora em Psicologia e Educação pela USP. Professora do curso de Psicopedagogia PUC/MINAS. Professora Titular do Mestrado em Psicopedagogia UNIFIEO. Diretora Cultural e Científica da ABPp

Correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo discute o fazer psicopedagógico na atualidade. Inicialmente, apresenta algumas considerações acerca do que se constitui nas chamadas práticas psicopedagógicas para, em seguida, expor considerações de natureza epistemológica a respeito da formação e, principalmente, da investigação psicopedagógica, que fundamenta essa prática. Finaliza discutindo a necessidade e a pertinência da pós-graduação strito sensu com área de concentração em Psicopedagogia.

Unitermos: Psicopedagogia. Conhecimento. Especialidade.


 

 

INTRODUÇÃO

O conjunto de considerações aqui apresentadas não constitui elaboração pessoal ou privada, mas é resultado do intercâmbio entre colegas que compartilham há quase 20 anos o desejo de construir um campo teórico específico da Psicopedagogia brasileira. São colegas professores de várias universidades do Brasil, psicopedagogos comprometidos com o processo de ensino-aprendizagem de crianças, adolescentes e adultos de diversas instituições do Brasil, e alunos dos cursos de especialização com os quais reconstruo permanentemente aspectos inerentes ao fazer psicopedagógico. Neste momento, nosso objetivo é contribuir para a constituição teórica do campo epistemológico da Psicopedagogia, definindo estratégias e procedimentos pertinentes ao objeto central da Psicopedagogia. Coll1, ao destacar a necessidade de pesquisas na área, enfatiza a dificuldade teórica imposta pela natureza do objeto de estudo da Psicopedagogia, que demanda conhecimentos de diversas disciplinas e a difícil arte de articular tais conhecimentos numa perspectiva interdisciplinar, mas sem perder de vista o objeto central da Psicopedagogia:

"Un consenso relativo se manifiesta al pretender caracterizar el campo de intervención psicopedagógico; los especialistas coinciden en señalar que la acumulación de funciones y la diversidad de referentes y marcos teóricos constituyen las premisas generales que configuran un complejo ámbito profesional y de investigación". (Coll, 19891)

A reflexão acerca do fazer psicopedagógico remete aos fatores sociais que determinam a necessidade de produzir conhecimento no campo da intervenção psicopedagógica. No Brasil, esse campo tem-se configurado como um espaço multi- e interdisciplinar. Há mais de três décadas, profissionais de várias áreas de formação, envolvidos no âmbito da educação e saúde, têm-se ocupado da questão das dificuldades de aprendizagem, motivados por uma questão que insiste em não se calar: o incontestável fracasso do sistema educacional brasileiro. Essa realidade é também observada em outros países. O campo da investigação psicoeducativa, segundo Coll1, "constituye, históricamente, un espacio común de intervención de diversas profesiones - especialistas en educación con orientación psicosociológica y de psicólogos con especialidad educacional - por lo que la denominación de psicopedagogía surge como necesidad de unificar la formación del conjunto de profesionales que interviene en el campo psicoeducativo, focalizando el estudio de los procesos de enseñanza y aprendizaje".

Segundo Coll, a literatura acerca das demandas da Psicopedagogia traz a questão da intervenção psicopedagógica em diferentes perspectivas2-10. Alguns autores descrevem práticas psicopedagógicas que se centram no processo de ensino-aprendizagem, outros, na intervenção dos aspectos prejudicados e preservados do processo de aprendizagem, com modelos de intervenção dirigidos tanto ao sujeito individual como ao grupo. Ainda de acordo com Coll1, os âmbitos da intervenção são múltiplos e diversos; temos modelos de intervenção no sistema educativo (desde a aula até a instituição), em clínicas, hospitais, centros de saúde, organizações empresariais, centros comunitários. Quanto às estratégias de intervenção, nas práticas psicopedagógicas verifica-se amplo espectro de técnicas: entrevistas, trabalho interdisciplinar, grupos terapêuticos, técnicas de recolocação de informação diagnóstica, estratégias terapêuticas, assessoramento e coordenação de projetos educativos institucionais e projetos pedagógicos inovadores, entre outras.

Na definição dos marcos conceituais subjacentes às intervenções psicopedagógicas, procura-se articular conhecimentos procedentes de várias disciplinas e desenvolvimentos teóricos, às vezes complementares, às vezes contraditórios. Em uma enumeração certamente incompleta, podemos dizer que atualmente as disciplinas que fundamentam a prática psicopedagógica são: a Psicologia do Desenvolvimento, as teorias da aprendizagem, as teorias da Educação, a teoria psicanalítica, a Psicologia Psicodinâmica, a Psicologia Social e Organizacional, a Sociologia, as neurociências, a Didática, as disciplinas que tratam do currículo, a Epistemologia.

Muito embora o fazer psicopedagógico venha se constituindo num crescendo, ampliando seu âmbito de ação e modelos de intervenção, muito ainda há a se fazer no que se refere ao campo da investigação científica para que se possa verdadeiramente fazer frente à demanda que a originou. Somente pesquisas realizadas no contexto acadêmico poderão resultar numa produção de conhecimento capaz de transformar tal realidade. Não se trata apenas de pensar sobre o fenômeno empírico que nos ocupa, mas também de pensar sobre o pensamento que o pensa.

 

A MULTIDIMENSIONALIDADE DO OBJETO PSICOPEDAGÓGICO

As tentativas de definição do campo psicopedagógico consideram que a Psicopedagogia constitui um conjunto de práticas institucionalizadas de intervenção no campo da aprendizagem, seja no âmbito da prevenção, seja como diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem, seja, ainda, como intervenção específica no processo de aprendizagem escolar; portanto, uma área que estuda e trabalha com o processo de aprendizagem e os fatores que a favorecem, bem como com aqueles que comprometem esse processo, gerando as dificuldades de aprendizagem. Seus domínios específicos são: o sujeito do conhecimento, o agente de transmissão e suas dimensões constitutivas; logo, o sujeito-objeto da Psicopedagogia é o ser humano contextualizado em situação de aprendizagem. Assim, o campo da Psicopedagogia resulta numa convergência conceitual ao caracterizar a aprendizagem, o sujeito contextualizado em situação de aprendizagem e os processos psicoeducativos como objetos da intervenção e da reflexão psicopedagógica. Segundo Muller11, tais aspectos constituem uma problemática multidimensional que envolve uma complexa série de fatores. Para a autora, no âmbito da Psicopedagogia, "...intervienen cuestiones pre-subjetivas: lo social, el lenguaje, la conformación neurobiológica; cuestiones subjetivas: el proceso de construcción del conocimiento, procesos de desarrollo y cambio conceptual, procesos de constitución de la subjetividad y la dinámica afectiva; cuestiones, ambas, contextualizadas en un sistema de relaciones ínter subjetivas y por la confluencia de aspectos intra subjetivos y situacionales. La contextualización del aprendizaje supone las restricciones, las limitaciones y posibilidades cognitivas y subjetivas, educacionales, económicas, culturales y socio-ambientale".

A natureza do objeto da intervenção psicopedagógica, em sua complexidade real, demanda um acúmulo progressivo de ações e uma heterogeneidade de disciplinas na formação teórico-estratégica do profissional de psicopedagogia.

A pluridimensionalidade dos processos psicoeducativos escolares e extra-escolares excede em vários sentidos os aportes de uma disciplina única, hegemônica, da qual derivam marcos conceituais interpretativos e técnicas adequadas para a intervenção psicopedagógica.

O conceito de convergência disciplinar (a interdisciplinaridade em sentido estrito) não implica simplesmente importar teorias de referência para o campo psicopedagógico, num sentido unidirecional. Como diz Castorina12, "la psicopedagogía debe partir de la originalidad de su campo de trabajo, de la índole de sus problemas, para seleccionar los aspectos significativos de las teorías de referencia, recrear sus hipótesis y reformular sus instrumentos para adecuarlos a las cuestiones estrictamente psicopedagógicas, e incluso, plantear cuestiones que representen auténticos desafíos para el desarrollo de aquellas teorías procurando, entonces, una relación bidireccional entre las teorías de referencia y las prácticas psicopedagógicas".

 

A PESQUISA PSICOPEDAGÓGICA

As circunstâncias especiais do fazer psicopedagógico levaram à adoção de uma metodologia de pesquisa inspirada nas idéias de Boaventura Souza Santos13. Segundo Santos13, o conhecimento pós-moderno é um conhecimento sobre as condições de possibilidade da ação humana projetada no mundo a partir de um espaço-tempo local. É, portanto, não-metódico, constitui-se com base em uma pluralidade metodológica. Para o autor, cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada. Só uma constelação de métodos pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta. Numa fase de revolução científica como a que atravessamos, essa pluralidade de métodos só é possível mediante transgressão metodológica. A transgressão metodológica repercute nos estilos e gêneros literários que presidem a escrita científica. A ciência pós-moderna não segue um estilo; é uma configuração de estilos construída segundo o critério e a imaginação pessoal do cientista. A tolerância discursiva é o outro lado da pluralidade metodológica.

É justamente essa inspiração pós-moderna que se faz presente e no modo de a Psicopedagogia fazer pesquisa hoje. Em síntese, podemos dizer que o objetivo das pesquisas nessa área emergente é a articulação e a convergência do repertório conceitual e instrumental das diversas disciplinas que norteiam a prática psicopedagógica, construindo modelos explicativos mais integradores, realísticos e contextualizados dos processos de ensino-aprendizagem, de forma a permitir desenhar procedimentos gerais e específicos de intervenção psicopedagógica e articular tais conhecimentos (modelos explicativos e procedimentais) para a resolução de problemas concretos e singulares, elaborando estratégias de intervenção psicopedagógica nas dificuldades de aprendizagem, bem como desenvolvendo ações preventivas que sejam pertinentes e relevantes no atual contexto da realidade brasileira.

A aprendizagem humana em sua complexidade exige postura investigativa integradora dos vários saberes que tratam da vida humana. As dimensões biopsicossocial e cultural de nossa espécie concorrem integralmente no processo de aprendizagem, determinando suas vicissitudes. A Psicopedagogia constituiu-se e diferenciou-se de outras áreas de conhecimento justamente por esse princípio fundamental. A ação psicopedagógica foi se estruturando na integração dos conhecimentos de Psicologia, Psicanálise, Pedagogia, Biologia, Filosofia, Lingüística, Antropologia, Neurologia e tantos outros quantos se fizerem necessários para a apreensão do fenômeno que nos ocupa: o processo de aprendizagem na sua singularidade, no contexto cultural e no âmbito dos fins e meios a que se destina.

A Psicopedagogia caracteriza-se por um raciocínio diagnóstico e uma metodologia de intervenção que busca olhar o sujeito na relação com o objeto de conhecimento em situação de aprendizagem; busca considerar sujeito e objeto como entidades indissociáveis; conceber o sujeito em seu contexto sociohistórico; admitir a possibilidade de um conhecimento transdisciplinar, embora ele se tenha construído na perspectiva interdisciplinar; e ter a clínica das dificuldades de aprendizagem como espaço privilegiado para o desenvolvimento da teoria psicopedagógica.

 

A BUSCA DE LEGITIMAÇÃO DA ÁREA

A legitimidade da produção teórica do campo da Psicopedagogia tem sido buscada pelos psicopedagogos e vários esforços têm sido feitos para ascender os degraus para a constituição de um campo de conhecimento científico que possibilite à Psicopedagogia estar na academia, desfrutando dos assentamentos necessários para a produção do saber, ou seja, para que possamos ter os subsídios e o apoio destinados à pesquisa em nosso país. Durante quase três décadas, temos trabalhado com obstinação, superando obstáculos de toda ordem, na crença inabalável de que esse conhecimento representa enorme avanço no desenvolvimento do ser humano. Uma verdadeira compreensão acerca da aprendizagem representa a construção de uma nova concepção de ser humano. Revoluciona conceitos fundamentais de áreas como Educação, Saúde e outras.

Tratar a questão dos entraves no processo de aprendizagem escolar da perspectiva psicopedagógica exige um meticuloso exercício para postar a questão de forma a não fazer do sujeito da Psicopedagogia uma mera abstração teórica. O aporte teórico do diagnóstico e do tratamento dos problemas escolares tem como objeto o sujeito da aprendizagem em sua dimensão biopsicocultural, o professor enquanto mediador na construção do conhecimento, a escola enquanto instituição sujeita às leis e à tradição da educação em nosso país, a família como instância responsável pela constituição e pelo desenvolvimento do sujeito. Todos esses aspectos são contemplados numa análise histórica. Por outro lado, o caráter da singularidade do processo individual deve estar no centro da cena. Estudar com profundidade esse complexo sistema e, ao mesmo tempo, atender aos paradigmas científicos sem sucumbir ao aprisionamento conceitual, construindo uma concepção psicótica da realidade, resulta num extraordinário amadurecimento teórico. A exemplo de outras disciplinas, é preciso seguir em frente, como bem sugeriu Hermann (apud Minerbo14), ao referir-se ao compromisso da Psicanálise:

"Entrando em seu segundo século de existência, [...] a psicanálise já não pode ignorar o vácuo interrogativo do tempo futuro. Este lhe questiona o projeto: ficará prisioneira do círculo traçado pela inegável eficácia de sua terapia na cura do indivíduo ou seguirá até a linha do seu horizonte de vocação, convertendo-se em ciência geral da psique? Na primeira hipótese, [...] uma teoria regional a que falta a correspondente teoria geral. [...] Na segunda, terá de se inventar como ciência, fora dos modelos atuais, e, de passagem, inovar o sentido de ser ciência. Ao gosto deste fim de século, dir-se-ia talvez dessa psicanálise a ser criada: pós-ciência. Ou, acorde à sua posição de matriz de um novo conhecimento: ciência futura. Em todo caso, optando por ir em frente, nossa disciplina não se pode furtar ao compromisso com a investigação".

Há alguns anos vem crescendo a demanda por cursos de mestrado e doutorado em Psicopedagogia. Os alunos que concluem os cursos de especialização e desejam dar prosseguimento ao trabalho monográfico dos cursos lato sensu raramente encontram espaços acadêmicos em que possam viabilizar o aprofundamento da pesquisa sem descaracterizar o objeto de estudo. Por outro lado, aqueles que concluem suas dissertações e teses o fazem ajustando seu trabalho às linhas de pesquisa dos programas stricto sensu aos quais se vincularam, o que muitas vezes exige profundas mudanças no tratamento dado à questão, de forma que esses trabalhos, que originalmente seriam produção científica do âmbito da Psicopedagogia, acabam por perder sua especificidade.

Ainda que os obstáculos sejam muitos, a Psicopedagogia se constrói incessantemente, como que voltando para si aquilo a que se propõe: auxiliar o ser humano a superar-se nas adversidades por meio da aprendizagem. Assim, aprende a Psicopedagogia que argumentar sobre seu direito de existir já é prova de sua existência. Sabe-se existindo; consciente de sua responsabilidade, reivindica tenazmente espaço para sua autoria.

 

REFERÊNCIAS

1. Coll C. Conocimiento psicologico y practica educativa: introducción a las relaciones entre psicología y educación. Barcelona:Barganova;1989.

2. Ageno R. Clínica grupal en educación. Aprendizaje Hoy. 1992;23/24:19-25.

3. Arzeno M. Aportes de la clínica psicopedagógica a la comprensión de los procesos de aprendizaje. Escritos de la Infancia. 1995;6:115-24.

4. Butelman I. Psicopedagía institucional. Buenos Aires:Paidós;1991.

5. Dabas E. Teoría y técnica en psicopedagogía: el abordaje clínico a través de la creación de un spacio de juego entre el psicopedagogo y el niño. Apredizaje Hoy. 1986;14:19-29.

6. Levy E. El proceso diagnóstico en la intervención psicopedagógica. Aprendizaje Hoy. 1992;23/24:7-14.

7. Lajonquière L. De Piaget a Freud: para repensar as aprendizagens. A (psico) pedagogia entre o conhecimento e o saber. Petrópolis:Vozes;1992.

8. Matteoda M. Conversaciones con César Coll. Aprendizaje Hoy. 1993;25:13-23.

9. Perkins D. La scuela inteligente. Barcelona:Gedisa;1995.

10. Vinh-Bang. La intervention psychopedagogique. Archives de Psychologie. 1990;58:123-35.

11. Muller M. Psicología y psicopedagogos. Acerca del campo ocupacional y la clínica psicopedagógica. Temas de Psicopedagogía. 1984;1:7-20.

12. Castorina J. Obstáculos epistemológicos en la constitución de la disciplina psicopedagógica. In: Castorina J, Aisemberg B, Ure CD, Palau G, Colinvaux C, eds. Problemas en psicología genética. Buenos Aires:Miño y Dávila;1989.

13. Santos BS. Um discurso sobre as ciências. 11ª ed. Porto:Afrontamento;1999.

14. Minerbo M. Estratégias de investigação em psicanálise: desconstrução e reconstrução do conhecimento. São Paulo:Casa do Psicólogo;2000.

 

 

Correspondência:
Rua Celso de Azevedo Marques, 395- sala 13
Mooca - São Paulo - SP - CEP 03122 010
Fone 11 2268 4545
email nbossa@terra.com.br
home page www.psicopedagogianet.com.br

Artigo recebido: 03/11/2007
Aprovado: 05/03/2008

 

 

Trabalho realizado no consultório privado da autora, São Paulo, SP.

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