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Revista Brasileira de Psicodrama

versão On-line ISSN 2318-0498

Rev. bras. psicodrama vol.19 no.2 São Paulo  2011

 

SEÇÃO TEMÁTICA: Psicodrama público: Por quê? Para quê?

Thematic section: Public Psychodrama: What for? Who for?

 

 

Psicodrama público: um projeto social em Campinas

 

Public psychodrama: a social project in Campinas

 

 

Julia M. Casulari Motta*; Maria Ester R. Esteves**; Luís Falivene Alves***

Endereço para Correspondência

 

 


Resumo

Este artigo origina-se da experiência dos autores na constituição de um espaço público para a ressonância de temas psicossociais, desenvolvido em Campinas desde fevereiro de 2010, com encontros mensais. Busca-se uma compreensão do que é 'psicodrama público', quando e para quê utilizá-lo.

Palavras-chave: Psicodrama público, intersubjetividades, coinconsciente, coconsciente.


Abstract

This article is the result of the author's experience with setting up a public space where psycho-social themes can reverberate, a space that has been developed in Campinas since February 2010, with monthly meetings. We try to explore what is 'public psychodrama', and when and for whom to use it.

Keywords: Public psychodrama; inter-subjectivity; co-unconscious; co-conscious


 

 

Fragmentos de História

É possível dizer-se que a vida de J. L. Moreno foi uma sequência de vivências e experiências que o preparou para a descoberta/ criação do que chamamos Psicodrama público. Destes atos públicos nasceu sua obra terapêutica, ao delimitar plateia e objetivos, focando temas, criando método e metodologias e, como um expoente de originalidade da sua obra, a descoberta da possibilidade de uma ação dramática representativa das intersubjetividades através de um ator protagônico.

Dos jardins de Viena e suas crianças às ruas da cidade com seus dramas sociais, passando pela busca da inclusão social para si e as minorias da época - sem nos esquecermos da chamada "primeira sessão de psicodrama", em abril de 1921 -, o jovem Moreno ansiava por marcar a história com contribuições originais ao desenvolvimento da consciência social, o que certamente abriria espaço para a participação da população nas decisões que afetavam seu destino.

Da Europa para os Estados Unidos, de lá para América do Sul, este método e estas metodologias vêm sendo revistas, recriadas, reproduzidas, desconstruídas e reconstruídas, num incessante movimento de busca por novas formas de andar na vida.

No Brasil, já na década de 40-50, o sociólogo baiano Guerreiro Ramos, radicado na então capital nacional, Rio de Janeiro, utilizou metodologia sociopsicodramática para trabalhar questões étnicas, mais especificamente questões da negritude, conflitos no trabalho e falta de trabalho. A intervenção deste profissional teve como tema central a inclusão social de brasileiros descendentes de negros libertos, negros analfabetos, desprovidos de condições de profissionalização num país ansioso por ser "moderno" (Motta, 2008).

A partir deste trabalho pioneiro com sociodramas, axiodramas e psicodramas públicos no Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de Janeiro, a proposta moreniana passou, no Brasil, por um período de esquecimento, até que, na década de 1960, reapareceu de várias formas.

Notável foi, durante o V Congresso Latino-Americano de Psicoterapia de Grupo (1967), a ocorrência de um psicodrama público dirigido por Rojas Bermúdez, que causou grande impacto entre os presentes e redundou, em fevereiro de 1968, na organização dos primeiros grupos de formação em psicodrama. (Cesarino, A. C., in Castello de Almeida, 1999).

Em 1970, o chamado Congresso do Masp (Cepeda e Martin, 2010), pelo seu valor histórico como evento durante a ditadura militar, é considerado um marco do psicodrama no Brasil.

Também pioneiro podemos considerar o psicodrama das "Diretas já!", em abril de 1984, em frente à Câmara Municipal de São Paulo, dirigido por Regina Fourneaut Monteiro, do qual participaram cerca de seiscentas pessoas. Este pode ser considerado o primeiro psicodrama público brasileiro, depois das experiências de Guerreiro Ramos, no Rio de Janeiro.

Em meados da década de 1980, dezenas de psicodramas públicos com temas sociais foram realizados na cidade de São Paulo, segundo relatam Ronaldo Pamplona e Carlos Borba, que os gravaram (Motta,2008). Da mesma forma, muitos dos Congressos Brasileiros de Psicodrama ofereciam atividades chamadas 'psicodrama público' - no caso, eram abertas a toda a população de congressistas. Várias entidades, provavelmente em muitas cidades brasileiras, passaram a promover psicodramas abertos como atividade regular (caso do Daimon, em São Paulo, 1984), ou como evento esporádico. Em Campinas também fizemos alguns.

Em 1990, outro marco: em palco montado na Praça da Sé, em São Paulo, a realização de um psicodrama público a céu aberto, em comemoração ao Dia da Luta Antimanicomial, com direção de Regina F. Monteiro e participação de equipe de psicodramatistas.

Vale assinalar que os congressos brasileiros de psicodrama, gradativamente, foram espelhando esse movimento de ir até a comunidade. Em Campos do Jordão (1998), pela primeira vez foi realizada uma atividade externa ao espaço do congresso, com participação da comunidade: em uma escola, com direção de Ana Maria Zampieri. O movimento cresceu e resultou na incorporação das atividades "Comunidade em cena", que vêm fazendo parte de nossos congressos nos anos 2000.

Em março de 2001, a partir de convite da prefeita Marta Suplicy e pela articulação da psicodramatista Marisa Greeb, cerca de 150 eventos psicodramáticos foram realizados simultaneamente na cidade de São Paulo,