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Revista Brasileira de Psicodrama

On-line version ISSN 2318-0498

Rev. bras. psicodrama vol.29 no.1 São Paulo Jan./Apr. 2021

 

https://doi.org/10.15329/2318-0498.00461
Editorial

 

O segundo século do psicodrama

 

El segundo siglo del psicodrama

 

 

Heloisa Junqueira FleuryI,*

I.Pesquisadora autônoma – São Paulo (SP), Brasil.

 

 

O nascimento do psicodrama remonta ao primeiro dia de abril, em 1921, quando Jacob Levy Moreno dirigiu o primeiro psicodrama público para a busca de um substituto para o reinante da época: convidou alguém da plateia para ocupar uma poltrona, simbolizando o trono de um rei, no palco do Komoedien Haus, um teatro dramático em Viena, na Áustria (Guimarães, 2020). Completa 100 anos, um centenário para a implantação de uma nova metodologia de trabalho com grupos e com pessoas, inicialmente nos Estados Unidos, e depois disseminada em todo o mundo.

Aproximando-se o final desse século, começaram a surgir indícios de que o psicodrama pode estar restrito às comunidades de psicodramatistas, dificultando o acesso de novas gerações de profissionais que se beneficiariam com o conhecimento dessa abordagem.

No Brasil, o psicodrama chegou na década de 1940, no Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias Nascimento, e espaço importante para o ativismo e estudos sobre as relações raciais por Guerreiro Ramos (Malaquias, 2007; Nascimento, 2020). O psicodrama chegou para fortalecer a proposta de inclusão em espaços de compartilhamento e solidariedade.

A partir de 1970, o psicodrama fortaleceu-se na psicoterapia, com influências da psicanálise (Motta, 2008). Posteriormente, com a abertura democrática, uma onda de práticas grupais surgiu em todo o país, estimulada, dentre outros, pela pedagogia de Paulo Freire, centrada na liberdade e na autonomia do ser, pelos projetos artísticos como intervenção social, visando à inclusão social e ao fortalecimento da cidadania, do Teatro do Oprimido de Augusto Boal e por muitas outras experiências da cultura local.

Os escritos de J. L. Moreno foram interpretados sob a perspectiva das demandas da sociedade e influenciados pela diversidade cultural, o que estimulou a fertilização com outras teorias, como o pensamento sistêmico, desenvolvendo novas metodologias sociopsicoeducacionais e gerando peculiaridades únicas do psicodrama brasileiro.

Apesar da consistência do psicodrama brasileiro, ele se mantém distante de outras comunidades psicodramáticas do mundo, sendo muito pouco citado em publicações internacionais (Orkibi & Feniger-Schaal, 2019) e, também, em revistas nacionais indexadas em bases de dados importantes (Fleury, 2019). Essa constatação poderá indicar novos rumos para o próximo século.

Este editorial tem como objetivo apresentar iniciativas desenvolvidas no início deste segundo século de existência do psicodrama que poderão estimular um novo desenvolvimento dessa metodologia revolucionária, uma ferramenta importante para a mobilização e a organização social.

A ideia de expandir a apresentação do psicodrama para jovens universitários de países em desenvolvimento foi dos editores Jochen Becker-Ebel e Scott Giacomucci. Lançaram pela Springer, uma das editoras mais valorizadas da atualidade, uma nova série de livros sobre psicodrama e sociometria (Becker-Ebel & Giacomucci, 2020), com o objetivo de promover o psicodrama psicoterapêutico e o socioeducacional aplicado em diferentes contextos. Embora o foco original fossem os estudos e pesquisas sobre o psicodrama desenvolvido na Ásia, ampliou-se para apresentar o contexto global e estará disponível nas principais universidades do mundo.

O primeiro livro publicado, Fundamentos do Psicodrama (von Ameln & Becker-Ebel, 2020), não compõe a série por ter sido publicado originalmente em alemão. Porém, pela sua característica didática, será o livro-texto para o público-alvo da série.

No prefácio desse livro, Jonathan Moreno relata lembranças dele criança visitando a Alemanha com os pais, onde J. L. Moreno ia ensinar psicodrama. Após seis décadas, esses ensinamentos, fertilizados pela cultura local, são apresentados com um detalhamento interessante da teoria, da prática e de muitos exemplos ilustrativos.

O livro é dividido em quatro partes. A primeira apresenta os fundamentos metodológicos do psicodrama. Começa com “O que é o psicodrama?”, trazendo uma visão geral da abordagem. Ao descrever as possibilidades de trabalho com o psicodrama, cativa o interessado em escolher uma abordagem. Reflete os avanços trazidos por novos estudos, ao apresentar, por exemplo, a constelação sistêmica para descrever a constelação psicodramática e o trabalho com esculturas. Embora seja um conteúdo conhecido, diferencia-se pela maneira didática da apresentação, apropriada para o ensino do psicodrama. Por exemplo, ao apresentar as técnicas básicas, descreve 11 modalidades de duplo e finaliza com a base teórica da técnica, os objetivos e as recomendações para o uso.

A segunda parte aborda os processos psicodramáticos, com esclarecimentos sobre o contrato, o planejamento dos objetivos e as fases de aquecimento, ação, integração e avaliação, definindo objetivos de cada uma delas e as funções do diretor. A seguir introduz os fundamentos teóricos, com a apresentação da vida de J. L. Moreno e as origens do psicodrama, os conceitos teóricos básicos e a sociometria. Finaliza com tópicos interdisciplinares, com a abordagem do trauma emocional, vergonha e tópicos tabus, resistência à mudança, dinâmicas de grupo, a dimensão intercultural e os fatores terapêuticos no psicodrama.

Além desse livro sobre os fundamentos do psicodrama, a Springer lançou o primeiro livro da série, com foco nas abordagens experienciais para o trabalho com grupos, comunidades e indivíduos (Giacomucci, 2021). Apresenta o psicodrama atualizado por pesquisas, inclusive as desenvolvidas por outras abordagens vivenciais e pela neurociência. Oferece ferramentas práticas para a avaliação, a intervenção e a direção do psicodrama.   

Pela sua atualidade, esse livro aborda os fatores terapêuticos do psicodrama, tecendo paralelos com a proposta original de Yalom e Leszcz (2006), aspecto valorizado pela nova geração. Sistematiza elementos para a prática baseada em pesquisa e evidências, em que apresenta o estado atual da pesquisa relacionada à psicoterapia em grupo, a psicoterapia experiencial, o psicodrama e o ensino/aprendizagem vivencial. Giacomucci (2021) reflete sobre as barreiras, as limitações e a cultura de pesquisa nas instituições formadoras de psicodrama, questão muito conhecida por ele, que está na função de presidente do comitê de pesquisa da Sociedade Americana de Psicoterapia de Grupo e Psicodrama.

Trata-se de um livro com 21 capítulos, com uma ampla e didática apresentação da teoria e da prática, ilustrada com vinhetas de casos. No último capítulo, o autor toma o papel de um psicoterapeuta do ano 2074, quando celebraremos 100 anos da morte de J. L. Moreno, para refletir sobre os benefícios que as psicoterapias em geral poderão alcançar com a integração da sociometria e do psicodrama ao seu arsenal de conhecimentos. No papel desse psicoterapeuta do futuro, escreve uma carta em que, além de outras considerações, menciona o fortalecimento da classe com o desenvolvimento de novas maneiras de usar a sociometria e as técnicas do psicodrama, sempre com atenção às referências de uma prática baseada em evidências.

Essa atenção aos desenvolvimentos contemporâneos da teoria e prática psicodramática também está presente na principal iniciativa brasileira, o projeto Revista Viva, que tem como objetivo apresentar as publicações da Revista Brasileira de Psicodrama (Fleury & Kim, 2020). O projeto-piloto ocorreu de agosto a dezembro de 2020, com bons resultados, expressos no aumento do número de visualizações dos artigos no website da Revista1. Trinta e oito por cento dos visitantes foram de outros países, em ordem pelo número de acessos: Portugal, Espanha, México, Turquia, Argentina, Croácia, Áustria, Equador e outros. 

Nos eventos do projeto Revista Viva tivemos participação de autores e interessados de países da América do Sul e Portugal. A questão do idioma, representada pela impossibilidade de participação de interessados sem o domínio do português e do espanhol, é um importante limitador do compartilhamento entre psicodramatistas e tem dificultado o reconhecimento internacional das peculiaridades do psicodrama brasileiro.

Para o segundo século de existência do psicodrama, incentivar trocas entre diferentes linhagens do mesmo psicodrama moreniano, cada uma delas enriquecida pela sua cultura local, poderá trazer uma nova possibilidade de desenvolvimento.

Alguns artigos publicados em inglês na Revista Brasileira de Psicodrama estão iniciando esse processo de compartilhamento. Precisamos do empenho de todos para criarmos linhas de desenvolvimento para esse novo período.

Essas iniciativas indicam a premência da conquista de uma nova geração de psicodramatistas, que foi forjada numa realidade de valorização do conhecimento e da pesquisa e que exige novas maneiras de ensinar. A Revista Brasileira de Psicodrama está se consolidando como o arauto de apresentação do psicodrama brasileiro e promotora da fertilização com outras linhagens do psicodrama e das abordagens experienciais.

 

REFERÊNCIAS

Becker-Ebel, J. & Giacomucci, S. (2020). Psychodrama in Counselling, Coaching and Education (serie).         [ Links ]

Fleury, H. J. (2019). O psicodrama brasileiro na próxima década. Revista Brasileira De Psicodrama, 27(2), 149-151. https://doi.org/10.15329/2318-0498.20190017        [ Links ]

Fleury, H. J. & Kim, L. (2020). Ciência aberta em entrevistas e em sociodramas: A Revista Brasileira de Psicodrama torna-se REVISTA VIVA. Anais do ABEC Meeting Live 2020. ABEC. https://doi.org/10.21452/abecmeeting2020.05        [ Links ]

Guimarães, S. (2020). Moreno, o mestre: Origem e desenvolvimento do psicodrama como método de mudança psicossocial. Ágora.         [ Links ]

Giacomucci, S. (2021). Social Work, Sociometry, and Psychodrama: Experiential Approaches for Group Therapists, Community Leaders and Social Workers. Series: Psychodrama in Counselling, Coaching and Education, Vol. 1        [ Links ]

Malaquias, M. C. (2007). Percurso do psicodrama no Brasil: Década de 40 – o pioneirismo de Guerreiro Ramos. Revista Brasileira De Psicodrama, 15(1), 33-39.         [ Links ]

Motta, J. M. C. (Org.). (2008). Psicodrama brasileiro: História e memórias. Ágora.         [ Links ]

Nascimento, E. L. (2020). O Teatro Experimental do Negro: Berço do psicodrama no Brasil. In M. C. Malaquias (Org.), Psicodrama e Relações Étnico-Raciais: Diálogos e reflexões. Ágora.         [ Links ]

Orkibi, H. & Feniger-Schaal, R. (2019). Integrative systematic review of psychodrama psychotherapy research: Trends and methodological implications. Plos One, 14(2), 1-26. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0212575        [ Links ]

von Ameln, F. & Becker-Ebel, J. (2020). Fundamentals of Psychodrama. https://doi.org/10.1007/978-981-15-4427-9_21        [ Links ]

Yalom, I. D. & Leszcz, M. (2006). Psicoterapia de grupo: Teoria e prática. Artmed.         [ Links ]

 

 

1. https://revbraspsicodrama.org.br/rbp/issue/archive

 

 

*Autora correspondente:  hjfleury@uol.com.br

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