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Nova Perspectiva Sistêmica

Print version ISSN 0104-7841On-line version ISSN 2594-4363

Nova perspect. sist. vol.26 no.58 São Paulo Aug. 2017

 

ARTIGOS

 

Obesidade, família e transgeracionalidade: uma revisão integrativa da literatura

 

Obesity, family and transgenerationality: an integrative literature review

   

 

Aline Orlandi CoradiniI, Carmen Leontina Ojeda Ocampo MoréIIAlessandra D’ávila SchererIII

I Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC, Brasil.

II Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC, Brasil.

III Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC, Brasil.

 

 


RESUMO

A obesidade como doença crônica é considerada atualmente uma epidemia mundial. Este artigo apresenta uma revisão integrativa das produções científicas nacionais e internacionais sobre as relações entre obesidade, família e transgeracionalidade, com o intuito de compreender os fatores familiares que influenciam no processo de desenvolvimento da obesidade. Foi realizada busca nas bases de dados LILACS, Scopus, Web of Science e Medline, no período de 2006 a 2016. Foram utilizados os seguintes descritores: “Obesity”, “Family”, “Intergenerational relations”, “Generations”, “Genogram” e “Family Dynamic”. Após seleção de acordo com critérios estabelecidos, de um total de 384, foram incluídos 15 artigos que constituem o corpus do presente trabalho. Os resultados apontaram que ocorre a repetição da obesidade entre as gerações e que o ambiente familiar e hábitos alimentares são fatores que influenciam o desenvolvimento da obesidade desde a infância. Destaca-se a escassez de estudos que abordem especificamente a relação entre a história dos vínculos afetivos familiares e o desenvolvimento da obesidade. Conclui-se que há necessidade de uma maior produção científica em torno da compreensão dos padrões relacionais estabelecidos pela família ao longo do tempo, pois estes se constituem em recursos importantes de prevenção e intervenção no contexto da obesidade.

Palavras-chave: obesidade, família, transgeracionalidade, genograma, relações familiares.


ABSTRACT

Obesity as a chronic disease is currently considered a worldwide epidemic. This paper presents an integrative review of the national and international scientific production on the relationship between obesity, family and transgenerationality, in order to understand the family factors that influence the obesity development process. A search was performed in LILACS, Scopus, Web of Science and Medline databases, within the period 2006-2016. The following descriptors were used: "Obesity", "Family", "Intergenerational relations", "Generations", "Genogram" and "Family Dynamic". After a selection according to the established criteria, 15 out of 384 papers were included, which constitute the corpus of this work. Results showed that there is a repetition of obesity along generations and that family environment and nutrition habits are factors that influence the development of obesity since childhood. It stands out that there is a lack of studies that specifically address the relationship between the history of affective family ties and the development of obesity. In conclusion, a greater scientific production around the understanding of relational patterns established by the family over time is necessary, as they constitute important resources to prevent and intervene in the context of obesity.

Key Words: obesity, family, transgenerationality, genogram, family relationships.


 

 

Introdução

No contexto da psicologia da saúde, um fenômeno que vem despontando como uma das mais importantes epidemias do século XXI é a obesidade. No Brasil, a prevalência da doença entre a população, em diferentes faixas etárias, vem ganhando destaque, tornando-se umas das principais preocupações no âmbito da saúde pública no País. Dados recentes do IBGE (2015) apontam que 56,9% da população brasileira se encontram com sobrepeso e 20,8% estão obesas. Esses são dados preocupantes que evidenciam a necessidade cada vez maior de aprofundar o entendimento desse fenômeno, o qual tem se agravado consideravelmente nas últimas décadas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2015), a obesidade se caracteriza como o acúmulo anormal ou excessivo de gordura que pode ser prejudicial à saúde, sendo sua causa atribuída a um desequilíbrio energético entre as calorias gastas e consumidas. O órgão aponta como os principais fatores desencadeadores dessa crescente epidemia o aumento de ingestão de alimentos ricos em gorduras, sal e açúcares, e pobres em vitaminas e minerais, juntamente com a diminuição das atividades físicas, advindas do processo crescente de urbanização em todo o mundo.

Concomitantemente às alterações nas rotinas de alimentação e nos hábitos de vida da população, tidas como principais responsáveis pelo aumento da incidência de obesidade, outros fatores podem contribuir para sua ocorrência. A produção científica relacionada à temática apresenta a obesidade como uma doença crônica e multifatorial, integrando tanto aspectos biológicos, metabólicos e genéticos, quanto os aspectos culturais, sociais, econômicos e psicológicos (Nascimento, Bezerra, & Angelim, 2013; Pinheiro, Freitas, & Corso, 2004; Silva, 2005).

Nesse sentido, a obesidade pode ser entendida como um fenômeno complexo no qual, segundo afirma Morin (2011), convergem diferentes aspectos que se conjugam entre si. Segundo esse autor, o entendimento de um fenômeno complexo passa, necessariamente, pela análise das inter-relações estabelecidas entre os múltiplos aspectos que o constituem, sempre de forma contextualizada. Nessa perspectiva, os conhecimentos que se conjugam na tentativa de compreensão do fenômeno da obesidade se sustentam em uma interação constante entre o saber específico e a compreensão integral do fenômeno. Considera-se, assim, que a produção de conhecimento em torno da obesidade tem como condição necessária a construção de um diálogo profícuo entre diversas áreas do conhecimento, tais como a medicina, a nutrição, a biologia, a psicologia, entre outras ciências, no intuito de melhor apreender as características e singularidades inerentes a esse fenômeno.

Cabe destacar que os indivíduos afetados pela doença necessitam tratá-la durante toda a vida, pois esta é considerada integrante do grupo de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), tendo um curso clínico geralmente lento, prolongado e permanente. Por isso, o tratamento da obesidade constitui um desafio para os especialistas das áreas da saúde, já que a grande dificuldade é a manutenção do peso em longo prazo, que exige mudanças de hábitos alimentares e estilo de vida, bem como a percepção dos riscos envolvidos na doença. Atualmente, a maior parte das ferramentas terapêuticas utilizadas evidencia insucesso, não permitindo que o paciente estabilize seu peso (OMS, 2015; Pinheiro, Freitas, & Corso, 2004).

A influência que a família pode exercer no processo de desenvolvimento da obesidade desde a infância foi demonstrada no estudo desenvolvido por Steffen, Dai, Fulton e Labarthe (2009), o qual apontou que o IMC (índice de massa corporal) dos pais é um forte preditor de obesidade para os filhos, sugerindo que nesse processo ocorre uma interação entre fatores ambientais e genéticos. Indo ao encontro desse pressuposto, Brazão e Santos (2010), em seu estudo, consideram que os hábitos de vida, o ambiente familiar e as escolhas alimentares compartilhadas também são aspectos importantes no que se refere à transmissão transgeracional da obesidade infantil.

No contexto familiar, a obesidade se instala como uma doença crônica, que, devido às comorbidades comumente associadas a ela, tais como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares e/ou circulatórias, coloca em risco a vida do integrante familiar afetado (Ministério da Saúde, 2014a). Nesse sentido, a obesidade se constitui em um fator estressor no ciclo vital de desenvolvimento da família e do indivíduo, exigindo, por parte de seus membros, a mobilização em torno de ajustes na estrutura familiar e nos papéis desempenhados por cada um. Segundo as autoras Carter e McGoldrick (1995), os estressores no ciclo de vida podem ser classificados como sendo horizontais ou verticais. Os estressores horizontais se referem aos eventos que ocorrem ao longo de todo o desenvolvimento individual e familiar, demarcados pelas mudanças e pelas fases de transição em cada etapa desse ciclo. Já os estressores verticais se caracterizam pela existência de mitos, histórias, lealdades, crenças e padrões existentes na família, que se perpetuam de geração em geração, constituindo-se no que, nos estudos de família, se denomina de transgeracionalidade. Desta forma, entende-se, no presente trabalho, que é na intersecção entre os estressores horizontais e os verticais que se constitui o campo de estudos da obesidade no contexto da família, uma vez que padrões alimentares, relacionais e de estilo de vida, atualizados transgeracionalmente, contribuem para o surgimento e o desenvolvimento da doença (Rolland, 1995).

A família é considerada um sistema aberto, em constante transformação, cujo principal papel é a proteção psicossocial de seus membros e a transmissão de sua cultura aos seus descendentes (Minuchin, 1990). Nessa perspectiva, para que se possa compreender o fenômeno da obesidade e a sua evolução, torna-se necessária uma abordagem ampliada, em que o foco não esteja apenas no indivíduo afetado, mas em todo o seu contexto social, tendo a família um papel fundamental no processo de desenvolvimento humano e de socialização.

A transmissão de padrões de relação que sustentam o surgimento e o desenvolvimento da obesidade dentro da família congrega, também, aspectos relacionais e culturais presentes na dinâmica familiar. A dinâmica relacional familiar se apresenta a partir da história da construção e da manutenção dos vínculos afetivos na família e pode ser mais bem observada por meio de um instrumento denominado genograma. Tal instrumento tem sido utilizado em pesquisas qualitativas e possibilita o acesso e a visualização da dinâmica familiar estabelecida, na medida em que reconstrói eventos históricos importantes e emoções que ficaram registradas na memória de seus membros. Ao se conhecer a forma como foram construídos esses vínculos afetivos, é possível, também, compreender como estão sustentadas as lealdades, as crenças, os mitos e os padrões familiares transmitidos transgeracionalmente (Andolfi, 2003; Crepaldi, Moré, & Schultz, 2014).

Entre os aspectos presentes na dinâmica familiar transgeracional, as lealdades e o conjunto de valores e crenças compartilhados dentro da família são elementos importantes. As lealdades dizem respeito às expectativas que cada um dos membros tem em relação aos demais, sendo que seus principais elementos constituintes são o compromisso, o mérito, e a confiança depositados dentro do grupo familiar, os quais são repassados às próximas gerações (Boszormenyi-Nagy & Spark, 2003). Já os valores e as crenças culturais que se perpetuam na família se referem a um processo histórico em que ocorre o compartilhamento de histórias, as quais possibilitam a construção da identidade familiar e do sentimento de pertencimento a esse grupo (Scatamburlo, Moré, & Crepaldi, 2012). Todos esses componentes se articulam de maneira integrada e, por vezes, invisível para a maioria dos membros, fazendo com que a transmissão da obesidade, por exemplo, adquira caráter transgeracional.

Segundo Falcke e Wagner (2014), o conceito de transgeracionalidade diz respeito à transmissão de legados familiares de geração em geração por meio de uma perspectiva histórica. As autoras diferenciam ainda os termos “transgeracionalidade” e “intergeracionalidade”. O primeiro refere-se aos componentes que perpassam a história familiar e que permanecem ao longo das gerações, enquanto o segundo diz respeito à noção de reciprocidade, que sugere a passagem de uma geração para a outra (Falcke & Wagner, 2014). Nesse sentido, o conceito escolhido para ser utilizado no presente estudo foi o de transgeracionalidade, uma vez que este remete ao processo de transmissão da obesidade numa perspectiva longitudinal, entre as diversas gerações de uma família.

Diante disso, os estudos a respeito do caráter transgeracional da obesidade, o qual se assenta na dimensão relacional, constituem-se em ferramentas importantes para sustentar uma postura reflexiva e ampliada, que permita a compreensão acerca de como os diferentes elementos participam e/ou se conjugam no processo de desenvolvimento da doença. Com base no exposto, o presente trabalho apresenta uma revisão integrativa das produções científicas nacionais e internacionais sobre as relações entre obesidade, família e transgeracionalidade, com o intuito de compreender os fatores familiares que influenciam no processo de desenvolvimento da obesidade. Considera-se que a relevância deste estudo está na possibilidade de compreensão acerca de como os padrões relacionais familiares, que são transmitidos transgeracionalmente, podem influenciar no desenvolvimento da enfermidade. O conhecimento obtido sobre esses padrões é um importante recurso de intervenção para os profissionais das áreas da saúde no contexto da doença. Além disso, o presente trabalho permitirá a identificação do estado da arte produzido e as principais lacunas existentes na produção científica, o que irá facilitar o apontamento de futuras pesquisas envolvendo esta temática.

 

MÉTODO

A revisão integrativa é um recurso que permite a análise do estado de conhecimento de um determinado assunto e possibilita a síntese de múltiplos estudos publicados. Sua realização auxilia no apontamento de lacunas do conhecimento que precisam ser preenchidas com novas investigações (Mendes, Silveira, & Galvão, 2008).

Procedeu-se a uma busca por artigos indexados nas bases de dados eletrônicas LILACS, Scopus, Web of Science e Medline. A escolha dessas bases de dados se justifica pelo fato de que estas abrangem, em grande parte, as publicações das ciências médicas, humanas e sociais, as quais estão diretamente relacionadas ao fenômeno em questão. Nessas bases, estão indexados estudos desenvolvidos por diferentes áreas que investigam a obesidade, dentre as quais se destacam a medicina, a nutrição, a enfermagem, a psicologia e a biologia. A busca foi delimitada ao período dos últimos 10 anos por se considerar que as pesquisas desenvolvidas nessa época são as mais relevantes, além de apresentarem maior grau de impacto para os conhecimentos recentemente adquiridos sobre a temática. Os idiomas foram selecionados devido aos seguintes fatores: a língua inglesa, por contemplar a maior parte das publicações na área, pois abrange estudos realizados em diferentes países; a língua portuguesa, por incluir as pesquisas realizadas no contexto nacional; e o idioma espanhol, por abarcar estudos importantes realizados na América Latina.

Para isso, foram realizadas, em cada uma das bases selecionadas, três combinações de três descritores, sendo as combinações utilizadas as seguintes: “Obesity”, “Family” e “Generations”; “Obesity”, “Family” e “Intergenerational relations” e “Obesity”, “Family” e “Genogram”. Além disso, também foi feita a seguinte combinação com apenas dois descritores: “Obesity e Family Dynamic”. Após a busca por meio dos termos definidos com a utilização do operador booleano “AND”, realizou-se a leitura dos resumos dos estudos encontrados. Em seguida, procedeu-se à seleção dos artigos que atendiam aos critérios de inclusão definidos para esta pesquisa com base em seus resumos e, posteriormente, a sua leitura minuciosa na íntegra.

Os critérios de inclusão definidos para o presente estudo foram: (a) Ter sido publicado em formato de artigo científico, sendo estes empíricos ou teóricos; (b) Ter sido publicado entre os anos de 2006 e 2016; (c) Estar escrito em língua inglesa, portuguesa ou espanhola; (d) Investigar especificamente a relação entre obesidade, família e transgeracionalidade; e (e) Enfocar a transmissão da obesidade dentro da família e/ou do ambiente familiar entre, pelo menos, duas gerações.

Os critérios de exclusão foram: (a) Estar disponibilizado em formato de tese, dissertação ou monografia; (b) O texto completo estar indisponível para a leitura na íntegra; (c) Publicações que enfocassem a transmissão da obesidade por meio da identificação genotípica, como os estudos com enfoque apenas na presença de genes associados à obesidade; e (d) Estudos cujo enfoque fosse a perda de massa corporal, comportamento alimentar ou o nível de atividades físicas. O critério de exclusão (c) se explica pelo fato de que esses estudos compreendem apenas os aspectos biogenéticos envolvidos na transmissão da obesidade, impossibilitando a análise dos fatores familiares e relacionais existentes nesse processo, o que diverge do intuito do presente trabalho. Já o critério de exclusão (d) se deve ao fato de que estes são considerados fenômenos diferentes da obesidade e que, portanto, incluem outras características e critérios de análise, o que poderia trazer vieses ao estudo.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

As buscas foram realizadas entre os meses de setembro a dezembro de 2016. Foram encontrados como resultados da busca pelos descritores 384 artigos em todas as bases de dados pesquisadas. Desse total, os artigos repetidos foram excluídos (n=92). Foram lidos e analisados, portanto, os resumos de 292 artigos, dos quais 223 se encontravam na base de dados Scopus, 34 na base de dados Web of Science, 25 na base de dados Medline e 10 na LILACS. Após realizadas as leituras dos títulos e resumos, foram selecionados 33 artigos que atenderam aos critérios de inclusão. Ao aplicar os critérios de exclusão, foram eliminados 9 estudos, o que reduziu o total de artigos para 24. Por fim, ao realizar a leitura dessas publicações na íntegra, 9 delas foram excluídas por não investigarem especificamente os fenômenos de interesse. Sendo assim, os artigos que compõem o corpus de análise do presente trabalho somam 15 publicações, sendo 13 delas em língua inglesa e apenas 2 em língua portuguesa. Ainda desse total, 14 são artigos empíricos e 1 artigo teórico, estando caracterizado como uma revisão de literatura. O fluxograma do processo de seleção dos artigos incluídos na presente revisão pode ser visualizado na Figura 1.

Figura 1: Fluxograma do processo de seleção dos artigos selecionados

 

 

CARACTERIZAÇÃO DOS ESTUDOS

As principais informações acerca dos estudos incluídos na presente revisão são disponibilizadas na Tabela 1. As referências completas estão listadas ao final do artigo acompanhadas de asterisco (*) e numeração atribuída a cada um dos artigos revisados.

Tabela 1: Categorização das informações obtidas nos artigos analisados

Nº do artigo Ano Área de conhecimento Objetivos Metodologia Participantes
1 2006 Enfermagem Testar a hipótese de que ambiente familiar dos adolescentes tem efeitos sobre o seu peso a longo prazo. Quantitativa 6.378 adolescentes e seus familiares
2 2006 Nutrição Investigar como os avós influenciam comportamentos alimentares dos netos em famílias de três gerações chinesas. Qualitativa 12 pais e 11 avós
3 2009 Saúde Pública Investigar o ambiente familiar e, especifícarnente, a cultura alimentar de diferentes gerações das famílias. Qualitativa 9 famílias (um membro de cada geração)
4 2010 Psiclogia Aprofundar a compreensão das interações interpessoais das crianças obesas no contexto familiar e social. Qualitativa 4 crianças e seus familiares (pai, mãe e irmãos)
5 2010 Medicina Determinar sc as influências sobre obesidade infantil mudaram em intensidade ou prevalência entre os membros do estudo de 1958 e seus descendentes. Quantitativa 8.552 membros de estudo de 1958 e 1.889 filhos
6 2010 Saúde Pública Examinar os padrões dc alimentação entre gerações dentro de dois conjuntos de famílias, aquelas com uma criança obesos c aquelas com crianças dc peso normal. Qualitativa Crianças de 11 e 12 anos, pais e avós
7 2011 Endermagem Explorai- através dc narrativas dos pais, a construção do ambiente alimentar e as práticas alimentares da família. Qualitativa 25 pais de 19 famílias de crianças com obesidade
8 2012 Psicologia Investigar a dinâmica de uma família que apresenta um membro com obesidade grave. Qualitativa A família de um paciente com obesidade grave
9 2013 Nutrição Analisar as práticas alimentares de mães obesas, descrever os potenciais mecanismos que ligam o comportamentos alimentares das mães ao risco de obesidade nas crianças. Revisão de literatura Revisão de literaturas
10 2014 Medicina Verificai a associação entre a dinâmica interpessoal e familiar relacionada a alimentação e a obesidade infantil. Quanti-Quali 120 crianças e seus pais
11 2014 Saúde Pública Examinar associações de índice de massa corporal (IMC) ao longo de três gerações das mesmas famílias. Quantitativa Membros de 556 famílias
12 2014 Medicina Investigar o impacto do trajetória educacional dos avós e dos pais no status de sobrepeso e obesidade nos filhos adultos. Quantitativa 5122 mulheres e 11.204 homens de 3 gerações
13 2014 Medicina Explorar a associação de história dos pais e o desenvolvimento de obesidade em seus descendentes ao longo do tempo. Quantitativa 952 membros do estudo original, 3318 descendentes de 3778 membros da terceira geração 
14 2015 Medicina Estimar a prevalência dc sobrepeso / obesidade e fatores associados ao estilo de vida em crianças dc Bento Gonçalves (RS). Quantitativa 590 alunos com idade média de 12,4 anos
15 2016 Psicologia Explorar como ocorre a interação entre a família c os alimentos c o lugar que o alimento ocupa na família dc Adolescentes obesos. acerca 11 pais, 1 avó e 7 adolescentes

No que concerne ao período de publicação dos trabalhos analisados, em 2010, foram identificadas 3 publicações e, no ano de 2014, verificou-se a maior quantidade, totalizando 4 estudos. Em 2008, não foram localizadas publicações de estudos relacionados à temática e, nos anos restantes, identificou-se 1 publicação em cada ano.

No que se refere aos idiomas, pode-se perceber o predomínio de artigos publicados em inglês (n=13) e apenas 2 em língua portuguesa. Não foram encontradas publicações que se referissem à temática na língua espanhola. É interessante ressaltar que 2 dos artigos, embora tenham sido escritos em língua inglesa, foram realizados no Brasil, sendo um deles na cidade de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul (Geremia, Cimadon, Souza, & Pellanda, 2015) e o outro na cidade de Fortaleza, no Ceará (Ramalho, Lachal, Bucher-Maluschke, Moro, & Revah-Levy, 2016). Por meio desse levantamento, pode-se perceber que os estudos realizados em outros idiomas diferentes do inglês ainda são pouco representativos, o que indica uma lacuna nas publicações realizadas nos países da América Latina, embora estes também sejam afetados pela epidemia de obesidade.

Quanto ao tipo de pesquisa realizada, observou-se que, dos 15 artigos analisados, 8 foram realizados com abordagem qualitativa, 6 deles com abordagem quantitativa e 1 artigo com ambas as abordagens. No que se refere aos procedimentos de pesquisa mais utilizados, verificou-se que há um predomínio da utilização de entrevistas semiestruturadas (n=7). Entre os estudos quantitativos, foi possível constatar a utilização de escalas que avaliam a qualidade da alimentação e os hábitos alimentares, como o Home Food Inventary (HFI) (Berge et al., 2014) e o Food Frequency Questionnaire for Children and Adolescents (Geremia et al., 2015), bem como das medidas antropométricas, como peso e altura dos participantes. Já entre os estudos qualitativos destacam-se, além das entrevistas semiestruturadas, a utilização de instrumentos e técnicas de pesquisa como o genograma, o desenho de imagem corporal (Tassara, Norton, & Marques, 2010), a técnica de colagem da família (Otto & Ribeiro, 2012) e os grupos focais (Kime, 2009, 2010).

É interessante destacar, ainda, que, em 5 dos 6 estudos quantitativos, foram utilizados dados recortados de pesquisas longitudinais de grande escala realizadas para registro da saúde de seus respectivos países como, por exemplo, dos Estados Unidos (The National Longitudinal Study of Adolescent to Adult Health e Framingham Heart Study), da Suécia (Uppsala Birth Cohort Multigenerational Study) e do Reino Unido (British Birth Cohort e Lifeways Cross-Generation Cohort Study). Esse fato chama a atenção e denota a importância do desenvolvimento de pesquisas longitudinais para as áreas da saúde, o que contribui para o aprimorando do conhecimento sobre essas temáticas.

No que tange aos participantes das pesquisas, foram observadas diferentes configurações, sendo que em 2 dos estudos foram investigados adolescentes e seus familiares (Crossman, Sullivan, & Benin, 2006; Ramalho et al., 2016) e, em outro, os pais e os avós das crianças (Jingxiong et al., 2007). Já em outros 2 estudos, foram realizados grupos focais com 3 gerações diferentes, não necessariamente da mesma família (Kime, 2009, 2010). O estudo desenvolvido por Otto e Ribeiro (2012), por sua vez, teve como participantes a família de um adulto obeso, ao passo que o estudo de Geremia et al. (2015) foi realizado apenas com as crianças em idade escolar. Já na pesquisa de Curtis, Stapleton e James (2011), foram investigados apenas os pais de crianças com excesso de peso.

A ênfase em estudos realizados com crianças e seus familiares pode ser observada nas pesquisas realizadas por Berge et al. (2014) e Moira, Power e Li (2010), em que os participantes eram as crianças e os seus pais. No estudo de Tassara et al. (2010), os participantes eram as crianças e os membros da família nuclear, dentre eles, pai, mãe e irmãos. Na mesma direção, foram identificados estudos com a participação de três gerações, incluindo a criança, seus pais e seus avós conjuntamente (Chaparro & Koupil, 2014; Fox et al., 2013; Kelly, Murrin, Viljoen, O’Brien, & Kelleher, 2014). Não foram encontrados estudos que investigassem mais do que três gerações de uma mesma família, fato que pode ser explicado pela dificuldade de obtenção de informações com relação aos antepassados da família, o que acaba por limitar as investigações a, no máximo, 2 ou 3 gerações.

A partir desses dados, pode-se perceber que há a predominância de pesquisas realizadas com enfoque no desenvolvimento da obesidade infantil. Evidencia-se que ainda há desconhecimento a respeito das características transgeracionais e das consequências da doença quando esta se desenvolve em outras etapas do ciclo de vida. Segundo Carter e McGoldrick (1995), em uma família, existem três ou quatro diferentes gerações que estão, simultaneamente, passando por processos de acomodação às transições do ciclo de vida. Enquanto uma geração está envelhecendo, a próxima está vendo seus filhos saindo de casa, a seguinte está se casando e formando uma nova família, e uma quarta está sendo incluída no sistema. Nesse sentido, cada uma das etapas do ciclo de vida possui particularidades diferentes. Por isso, investigações que abordem o efeito transgeracional da obesidade em momentos distintos de vida são relevantes, pois, assim, pode-se compreender a doença como um processo dinâmico e interacional. Tais contribuições são importantes aportes teóricos que podem auxiliar os profissionais na compreensão sobre o fenômeno em cada uma das etapas do ciclo de vida familiar.

CONTRIBUIÇÕES A RESPEITO DA RELAÇÃO ENTRE OBESIDADE E TRANSGERACIONALIDADE

As pesquisas que compõem o corpus de análise deste trabalho apresentam diferentes enfoques a respeito da transmissão da obesidade entre as gerações. Assim, foram estabelecidas 4 categorias de análise, que congregaram os diferentes enfoques observados. São elas: (a) enfoque ambiental; (b) enfoque na hereditariedade; (c) enfoque nos hábitos alimentares; e (d) enfoque nas lealdades e crenças familiares. Seguem abaixo os principais resultados encontrados em tais investigações.

ENFOQUE AMBIENTAL

As investigações congregadas nesta categoria apontam o ambiente familiar e a qualidade das relações na família como um importante fator influenciador no ganho excessivo de peso. A pesquisa realizada por Crossman et al. (2006) nos Estados Unidos teve por objetivo investigar se o ambiente familiar dos adolescentes tem efeitos em longo prazo sobre o seu peso. Para o estudo de abordagem quantitativa foi utilizado um recorte dos dados da pesquisa National Longitudinal Study of Adolescent Health, que foi correlacionado com aspectos da interação familiar, como a percepção do controle dos pais, a percepção de cuidado parental e a estrutura familiar. Um dos resultados da pesquisa apontou que o ambiente familiar dos adolescentes exerce influência em seu peso até a idade adulta. No estudo, não foram encontradas evidências de que a estrutura familiar de um adolescente é preditiva de seu peso quando Jovem adulto. O conceito de estrutura familiar, nesse caso, refere-se ao modo como a família está organizada e aos membros que a constituem.

Já na pesquisa de Curtis et al. (2011), realizada na Inglaterra, buscou-se explorar a construção do ambiente alimentar e as práticas alimentares da família por meio de narrativas de pais cujos filhos apresentavam obesidade. Foram entrevistadas 18 mães, 6 pais e 1 padrasto. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, em que foi utilizada a entrevista semiestruturada para coleta de dados. Os resultados mostraram que, dos 25 pais investigados, aqueles que procuravam demonstrar apoio aos seus filhos por meio da busca de tratamento para eles também tiveram problemas com seu próprio peso e o tamanho de seu corpo ao longo de seu desenvolvimento vital. Em particular, as mães haviam tentado uma variedade de medidas de controle de peso e apetite, muitas vezes sem sucesso. No estudo, principalmente as mães apresentaram sentimentos de vergonha e culpa em relação ao excesso de peso de seu filho. Os autores sugerem que esse sentimento de "fracasso" pode diminuir a confiança e a qualidade das relações parentais e interações sociais dentro da família. Esses resultados apontam para a importância da experiência pessoal das mães que sofrem com o problema ao terem que lidar com a obesidade de seus próprios filhos.

O fato de as mães terem sido mencionadas mais vezes como aquelas que carregam os sentimentos de vergonha e culpa em relação à obesidade em seus descendentes parece estar de acordo com o que aponta a literatura, a partir da qual se afirma que o papel da mulher construído socialmente ainda é o de ser a responsável pela criação, cuidados e educação dos filhos (Borsa & Nunes, 2011). Nesse sentido, a responsabilização das mães pelo aumento excessivo de peso nas crianças, combinado à sua própria experiência de obesidade, pode gerar consequências diversas, dentre elas, a dificuldade de conseguirem tomar atitudes protetivas em relação à alimentação e ao controle de peso de seus filhos.

A respeito da relação mãe-bebê no desenvolvimento da obesidade, os autores Henriques, Falbo, Sampaio, da Fonte e Krause (2015), em seu estudo de abordagem psicanalítica desenvolvido no Brasil, chamam a atenção para o fato de que algumas mães parecem apresentar dificuldades no processo de alienação/separação. Os autores ressaltam que a interpretação delas sobre as demandas e necessidades alimentares de seus filhos quando bebês está relacionada à sua própria impossibilidade de recusar o objeto-alimento e de conseguir dizer não. Dessa maneira, há uma sobrecarga do sujeito pelas imposições maternas, que se origina diante de sua dificuldade em estabelecer limites, inclusive no que se refere aos alimentos.

Os resultados do estudo de Curtis et al. (2011) apontam, ainda, para a importância da qualidade do relacionamento da família como um possível preditor da obesidade infantil. Destaca-se, nesse processo, o papel fundamental que o ambiente familiar pode desempenhar na construção do que se tem chamado de “ambiente obesogênico”. Este pode ser definido como um ambiente cujas influências, oportunidades ou condições de vida agem para a promoção da obesidade em indivíduos ou populações (Swinburn, Egger, & Raza, 1999). Isto é, trata-se de um ambiente cujas influências nele presentes, tais como os padrões alimentares e o estilo de vida compartilhados, agem de forma a favorecer o desenvolvimento da obesidade.

Nessa mesma perspectiva, o estudo internacional desenvolvido por Berge et al. (2014) teve por objetivo verificar a associação entre a obesidade infantil e a dinâmica interpessoal e familiar relacionada à alimentação. Para atingir esse objetivo, os autores gravaram as refeições da família em vídeo, utilizaram a entrevista qualitativa e aplicaram outros dois instrumentos, o Home Food Inventary (HFI) e o Iowa Family Interaction Rating Scales (IFIRS). Os resultados indicaram que a maioria das famílias que apresentaram uma dinâmica familiar e interpessoal positiva (por exemplo, com momentos de diversão em grupo e bom relacionamento familiar) obteve uma menor prevalência de sobrepeso na infância. Já a maioria das famílias que apresentavam uma dinâmica familiar negativa (como a presença de hostilidade parental, permissividade ou disciplina inconsistente) teve associação com um aumento no nível de sobrepeso da criança.

Os resultados encontrados pelas pesquisas apresentadas nessa categoria se coadunam e assinalam a importância que os fatores ambientais e familiares têm no desenvolvimento da obesidade. Esses achados são importantes, pois apontam para a relação existente entre a qualidade dos vínculos afetivos familiares, bem como do ambiente familiar, no desenvolvimento da obesidade, que passa a ser vista, nesses casos, como um sinal e/ou sintoma que emerge a partir da vivência de possíveis conflitos e crises importantes do ciclo vital. Nesse sentido, é necessário considerar os padrões de relação familiares que possam estar envolvidos no processo de desenvolvimento da obesidade, que são transmitidos transgeracionalmente.

Considera-se relevante destacar também que a família contemporânea encontra-se inserida em um contexto sociocultural cujos padrões estéticos envolvem a valorização da imagem corporal e a busca por corpos cada vez mais magros (Goldenberg & Ramos, 2007; Vasques, Martins, & Azevedo, 2004). Assim, a insatisfação com o próprio corpo devido ao excesso de peso é capaz de gerar sofrimento para os sujeitos obesos pelo fato de não se enquadrarem nestes padrões, e deve ser considerada como um fator ambiental significativo nesse cenário. Em síntese, entende-se que as características do ambiente familiar podem ser tanto um importante fator potencialmente de risco para o desenvolvimento da doença, como um fator potencialmente de proteção, o que torna necessário que esse aspecto seja observado nos processos de intervenção em famílias com membros obesos.

ENFOQUE NA HEREDITARIEDADE

Os estudos enquadrados nesta categoria foram desenvolvidos com foco na difusão da obesidade entre as diferentes gerações da família e na prevalência da doença dentro do sistema familiar. A pesquisa desenvolvida por Moira et al. (2010) na Grã-Bretanha tinha por objetivo determinar se a prevalência da obesidade infantil mudou entre a geração dos pais nascidos em 1958 e seus descendentes e se essas mudanças teriam contribuído para a tendência de obesidade infantil. Os pesquisadores utilizaram recortes dos dados da pesquisa longitudinal British Birth Cohort para estabelecer relações entre os IMCs (índices de massa corporal) apresentados por pais e seus respectivos filhos. Os resultados do estudo evidenciaram que a prevalência de sobrepeso/obesidade aumentou em mais de 50% entre as gerações. Os principais fatores preditivos do aumento no peso das crianças foram, além do IMC dos pais, o trabalho materno em tempo integral. Tal constatação poderia ser explicada pelas funções e papéis tradicionalmente atribuídos pela sociedade às mulheres dentro do contexto familiar. A literatura relacionada à temática da obesidade infantil aponta que, ainda na sociedade atual, as mães ocupam um papel fundamental na gestão dos processos de alimentação das crianças desde a infância, em aspectos como o aleitamento materno, a quantidade do consumo dos alimentos e os horários designados às refeições (Brazão & Santos, 2010). Nesse sentido, considera-se pertinente a reflexão a respeito da necessidade de reorganização das funções dos pais e/ou responsáveis pela criança, no que se refere à gestão dos hábitos e rotinas alimentares. Ressalta-se a importância da presença do adulto nessa tarefa, de forma a evitar a alimentação inadequada por parte das crianças e o consequente ganho excessivo de peso na infância. Tal necessidade evidencia-se a partir das novas configurações familiares da contemporaneidade, as quais podem abarcar diferentes composições, funções e relações estabelecidas entre os membros (Böing, Crepaldi, & Moré, 2008).

Na pesquisa internacional de Fox et al. (2013) também foram encontrados fatores que associam a presença da obesidade entre as gerações. O objetivo do estudo era explorar a associação entre o histórico de obesidade dos pais e o desenvolvimento da doença em seus descendentes ao longo do tempo. Os autores utilizaram dados de 3 gerações para comparar o desenvolvimento da obesidade ao longo de 60 anos. Os achados mostraram que a história familiar de obesidade é um fator de risco importante para o aumento do IMC entre os filhos de pais afetados, sendo que essa associação ocorre com maior força na terceira geração. A pesquisa mostrou que indivíduos com um dos pais obesos não apresentaram maior risco de desenvolver obesidade, enquanto aqueles indivíduos cujos dois pais eram obesos apresentaram um aumento de 37% no risco de desenvolvimento de obesidade. Esses dados se coadunam com os da pesquisa desenvolvida por Mascarenhas et al. (2013) em contexto brasileiro, que encontrou dados semelhantes, em que foi possível verificar que o risco de desenvolvimento de sobrepeso/obesidade nos filhos é 2,65 vezes maior quando ambos os pais apresentam sobrepeso.

Esses dados parecem fornecer uma explicação para a epidemia de obesidade no mundo, uma vez que as gerações mais recentes têm vivido com maior intensidade os efeitos dessa associação. Nessa direção, cabe também o questionamento a respeito das consequências e efeitos em longo prazo da transmissão da obesidade, já que o aumento na prevalência da doença no contexto familiar pode acarretar uma naturalização do processo de ganho excessivo de peso dentro da família, de maneira a dificultar a percepção acerca dos riscos envolvidos e da necessidade de tratamento para os indivíduos afetados.

Na mesma perspectiva, tanto a pesquisa de Kelly et al. (2014), realizada em contexto internacional, como a de Geremia et al. (2015), realizada em contexto brasileiro, encontraram resultados semelhantes e identificaram fortes associações entre a presença de excesso de peso nas mães e o excesso de peso nas crianças, sugerindo que a tendência ao desenvolvimento de obesidade está predominantemente associada à linha materna. Sobre a influência materna no peso das crianças, Mascarenhas et al. (2013) também identificaram que a obesidade materna é um fator de risco para o desenvolvimento de sobrepeso/obesidade nos filhos, ocorrendo tanto nos de sexo masculino quanto nos de sexo feminino.

Nesse sentido, é interessante destacar, no conjunto das investigações observadas, o papel da mãe como um dos principais protagonistas pela transmissão da obesidade entre as gerações. Considera-se importante refletir sobre o papel materno na sociedade, bem como no contexto da produção científica, o qual, necessariamente, precisa ser analisado na inter-relação com os demais aspectos que convergem no surgimento da obesidade, evitando, assim, a excessiva responsabilização da figura materna pelo problema.

Já o estudo realizado na Suécia por Chaparro e Koupil (2014) abordou o problema sob a ótica das questões socioeconômicas envolvidas na transmissão da obesidade. O objetivo do estudo era investigar o impacto da trajetória educacional dos avós e dos pais no status de sobrepeso e obesidade nos filhos adultos. Para isso, os autores correlacionaram os dados socioeconômicos de duas pesquisas longitudinais com o IMC de 3 gerações dessas famílias. Os resultados obtidos sugerem que tanto a educação dos avós como a dos pais têm impacto sobre o excesso de peso/obesidade de seus filhos adultos. Tanto para o sexo feminino como para o sexo masculino, as famílias cujos pais sempre pertenceram a um grupo socioeconômico desfavorecido obtiveram cerca de duas vezes mais chances de ter excesso de peso ou obesidade, em comparação com as famílias que sempre pertenceram ao grupo socioeconômico favorecido. O estudo foi realizado na Suécia, que é considerado um país desenvolvido, mas resultados semelhantes também podem ser encontrados em países menos desenvolvidos como o Brasil, a Argentina e o Chile. Nesses países, pesquisas indicaram que a presença das maiores taxas de excesso de peso e obesidade é encontrada entre a população de baixa renda e baixa escolaridade (Ministério da Saúde, 2014b; Peña & Bacallao, 2000). Esses achados parecem trazer à tona um paradoxo, uma vez que se percebe entre a população de baixa renda a presença cada vez maior da obesidade quando comparada à desnutrição, o que aponta não para a carência de alimentos, mas, sim, para uma má qualidade nutricional destes (Baratieri, 2005). Nesse contexto paradoxal, a obesidade se apresenta como um grave problema de saúde pública em nível mundial, desafiando a produção científica no desenvolvimento de mais pesquisas que auxiliem na compreensão acerca das influências sobre os padrões alimentares dessas populações na perspectiva da hereditariedade.

ENFOQUE NOS HÁBITOS ALIMENTARES

Os estudos abarcados nesta categoria abordam a temática da transmissão transgeracional por meio dos hábitos alimentares e do estilo de vida compartilhados dentro da família. É o caso da pesquisa desenvolvida por Jingxiong et al. (2007) na China, a qual teve como objetivo investigar como os avós influenciam comportamentos alimentares dos netos em três gerações de famílias chinesas. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade e os resultados obtidos mostraram que os avós desempenham um papel crucial na formação do ambiente dietético da família. Os avós relataram a experiência de pobreza e de fome vivida por eles e relacionaram-na com a crença de que cuidar e amar as crianças significa alimentá-las bem. Dentre os hábitos alimentares, os avós tendiam a fornecer às crianças comida em excesso, além de permitirem a seus netos o livre acesso a alimentos ricos em calorias e de baixa qualidade nutritiva imediatamente após as refeições.

Outro dado interessante da pesquisa demonstrou que, enquanto para os pais o excesso de peso dos filhos era visto como um motivo de preocupação, para os avós, era significado de uma criança forte, feliz e saudável. Esses achados são convergentes, na medida em que a explicação para as diferentes percepções entre pais e avós pode estar no significado atribuído à alimentação em cada uma das gerações. O significado de alimentar-se, ou alimentar-se em excesso, pode estar relacionado às experiências adquiridas durante a infância e ao contexto de vida de cada um deles. Tais experiências, como a pobreza e a fome, foram vivenciadas de formas distintas, com maior e menor acesso aos diferentes tipos de alimentos, o que irá repercutir em como cada uma das gerações significa o ato de se alimentar. Portanto, o excesso de peso das crianças também poderá ser percebido de maneiras diferentes, sendo em uma geração significado de saúde, enquanto, para a outra, é sinônimo de preocupação e cuidado.

Em outros 2 estudos realizados na Inglaterra com abordagem qualitativa foi utilizada a técnica de grupo focal e a entrevista semiestruturada para investigar a cultura alimentar de diferentes gerações das famílias, bem como avaliar o impacto das gerações sobre a alimentação infantil (Kime, 2009, 2010). Nos resultados de ambas as pesquisas, verificou-se que os padrões alimentares mudaram, independentemente da existência ou não de crianças obesas nas famílias. Na geração dos avós, o ato de comer, na família, era mais ordenado e estruturado do que atualmente, envolvendo uma rotina alimentar. Na geração de pais, evidenciou-se uma maior possibilidade de escolha dos alimentos, o que levou a uma maior liberdade não apenas em termos de o que comer, mas também quando e onde comer, pois o acesso às diferentes opções alimentares era mais facilitado do que na geração anterior. Novamente, evidencia-se a importância da experiência de cada uma das gerações, a qual tem influência sobre a dieta, as escolhas e os hábitos alimentares das crianças e de seus pais.

Outro importante achado da pesquisa foi que, em famílias com crianças obesas, a alimentação é ainda menos ordenada quando comparada àquelas famílias com uma criança de peso normal. Nesse sentido, ambos os estudos destacam as mudanças ocorridas nas rotinas de alimentação da família ao longo das gerações. Na geração dos avós, a alimentação era tida como um momento de união com os demais membros da família, não havendo a influência externa de outras distrações, como a televisão, por exemplo, além de as refeições serem realizadas sempre nos mesmos horários.

Uma importante mudança percebida pelos avós foi de que, em sua geração, raramente eram consumidos alimentos fora das refeições e as guloseimas eram dadas apenas em ocasiões especiais, diferentemente do que tem acontecido na geração atual. Esses achados se coadunam com o que apontam Mendonça e dos Anjos (2004) sobre as principais mudanças ocorridas nas práticas alimentares da população brasileira nos últimos anos, que têm sido consideradas como importantes responsáveis pelo aumento da prevalência da obesidade. Os autores afirmam que as alterações dos padrões alimentares se devem principalmente ao crescimento na oferta de refeições rápidas (fast food), à ampliação do uso de alimentos industrializados/processados, além da alimentação fora de casa, que tem ocorrido com frequência cada vez maior.

Já no estudo teórico internacional desenvolvido por Thompson (2013), foi realizada uma revisão de literatura, cujo objetivo era analisar as práticas alimentares de mães obesas e descrever os potenciais mecanismos que ligam comportamentos alimentares das mães ao risco de desenvolvimento de obesidade nas crianças. Os achados enfatizam a relação mãe-bebê apontados pela literatura e dão conta de que, quando a qualidade da dieta das crianças é pobre no início da vida, caracterizada por um curto período de amamentação e um consumo antecipado de alimentos ricos em gorduras, há um aumento do risco de essas crianças desenvolverem a obesidade na fase adulta.

Além disso, a autora afirma que o modelo de dieta da mãe, os alimentos disponíveis na casa e o clima emocional em torno da alimentação, mais tarde, irão moldar os sinais de saciedade e aceitação de alimentos. Os resultados apontam, ainda, que as mães obesas podem ser mais ou menos responsivas aos sinais de fome e de saciedade infantil e esse fator, quando combinado com uma alimentação sólida antecipada, ou com uma alimentação de má qualidade, contribuem para o risco de ganho de peso nos filhos. Esses dados são condizentes com os de estudos apresentados na categoria “Enfoque Ambiental”, que abordam a relação mãe-bebê e a dificuldade de interpretação delas sobre as demandas e necessidades alimentares de seus filhos, baseando-se em suas próprias experiências.

Os artigos selecionados para esta categoria demonstram a importância das mudanças ocorridas nos hábitos alimentares ao longo das gerações. Desde alterações no acesso aos alimentos e nas rotinas de alimentação e até os modelos de dieta adotados pela família podem influenciar o ganho de peso excessivo nas gerações mais jovens. Esses dados chamam atenção para o fato de que a alimentação em outras décadas era considerada um momento de convivência em família, em que se priorizavam as interações face a face, o que, nos dias atuais, tem ocorrido com uma frequência cada vez menor. Tais alterações no contexto de vida das famílias precisam ser mais bem compreendidas, tanto para sustentar a intervenção profissional junto a elas, como para subsidiar programas de prevenção da obesidade nas diferentes fases do ciclo de desenvolvimento vital. Entende-se ainda que a relação dessas alterações com a epidemia de obesidade requer a realização de mais investigações, sobretudo as de natureza longitudinal. Considera-se que tais investigações possibilitarão o acesso a mais informações a respeito de como tem ocorrido esse processo ao longo do tempo, com o intuito de visibilizar as consequências das interações entre os hábitos alimentares e o desenvolvimento psicossocial dos indivíduos.


ENFOQUE NAS LEALDADES E CRENÇAS FAMILIARES

Os estudos enquadrados nesta categoria se voltam principalmente aos padrões relacionais da família envolvidos na questão da obesidade. Nesta categoria, encontram-se 3 pesquisas de abordagem qualitativa realizadas no contexto brasileiro. A pesquisa de Tassara et al., (2010) tinha por objetivo aprofundar a compreensão das interações interpessoais das crianças obesas em seu contexto familiar e social. Para alcançar esse propósito, foram realizadas entrevistas em profundidade, além da aplicação do genograma e da técnica de desenho da imagem corporal. Os resultados apontaram a presença de segredos familiares existentes nas histórias das figuras parentais, bem como a existência de relação emaranhada entre mães e filhos.

Segundo os autores do estudo, a existência de segredos familiares como abuso sexual e gravidez indesejada se reflete em sentimento de insegurança, medo e fracasso por parte dos pais. Tais sentimentos são traduzidos no relacionamento mãe e filho, em que são percebidas atitudes de dependência, superproteção ou cuidado excessivo com a alimentação, contribuindo para o surgimento de uma relação fusionada entre ambos. O padrão de funcionamento emaranhado pode ser definido como a ausência de limites claros entre os subsistemas familiares, o que torna a diferenciação entre os membros do sistema mais difícil (Minuchin, 1990). Os autores afirmam, também, que as famílias que operam sob o padrão de emaranhamento não permitem que os seus filhos ajam de maneira autônoma, causando uma sobrecarga psicológica invisível, que pode se transformar em um importante fator de desenvolvimento de sintomas como a obesidade (Tassara et al., 2010).

Imberblack (1994) e Bowen (1991) escrevem a respeito desses temas e ressaltam aspectos importantes da presença do segredo dentro do sistema familiar. Segundo estes, os segredos são capazes de gerar alianças encobertas e rompimentos, além de regular os distanciamentos e intimidades das relações. Assim, a presença de um segredo como o abuso sexual pode modular a intensidade e o tipo de relações existentes dentro da família, podendo contribuir com o processo de indiferenciação familiar. Sobre esse conceito, Bowen (1991) afirma que a família se comporta como uma “massa indiferenciada do eu”, que se caracteriza como uma fusão entre os seus membros. Nessa linha de pensamento, torna-se necessário que os indivíduos alcancem progressivamente, ao longo da vida, sua autonomia emocional, denominada de “diferenciação de si-mesmo”, permitindo, assim, que estes atinjam o amadurecimento psicossocial do qual necessitam para se desenvolver de forma saudável.

Outro importante achado da pesquisa de Tassara et al. (2010) demonstrou que aspectos simbólicos da obesidade se fizeram presentes em três gerações dos grupos familiares estudados. Foi identificada a presença de mitos e lealdades familiares relacionadas à identidade pessoal e familiar de ser “gordo”. Nesse sentido, foi possível perceber, no estudo, a perpetuação do significado de “ser gordo” em suas famílias por meio dos relatos dos pais, das mães e das crianças sobre sua relação com a alimentação. Assim, a presença das lealdades favoreceu a constituição da identidade familiar desses sujeitos. Boszormenyi-Nagy e Spark (2003) afirmam que a lealdade familiar é uma trama invisível, na qual se constituem sentimentos como o dever e o comprometimento para com o sistema familiar. A incapacidade de cumprir com tais obrigações faz com que venham à tona sentimentos de culpa. Dessa forma, a identidade de ser “gordo” sustenta uma lealdade invisível para com a família, dificultando a saída deste modelo transgeracional, pois o processo de emagrecimento nesses sujeitos pode ser vivido com extrema dificuldade, uma vez que implicaria uma desvinculação ao sentimento de pertença à identidade familiar.

Na investigação de Ramalho et al. (2016), os objetivos foram explorar como ocorre a interação entre a família e a alimentação, bem como o lugar que o alimento ocupa na família de adolescentes obesos. Para isso, os autores utilizaram a técnica de entrevista semiestruturada subsidiada pela fotografia, em que os próprios adolescentes eram instruídos a fotografar a mesa imediatamente após as refeições da família. Foram realizadas 19 entrevistas com 11 dos pais, 1 das avós e 7 dos adolescentes que estavam realizando tratamento para obesidade em dois centros médicos de Fortaleza. Foi possível identificar que os pais dos adolescentes tendiam a utilizar a comida como forma de expressão de afetividade, o que, de certo modo, faz com que os laços de dependência emocional entre o adolescente e a família sejam sustentados pelo alimento. De diferentes maneiras, principalmente entre as mães e seus filhos, a relação parecia ser mediada pela alimentação e pelo preparo dos alimentos.

A pesquisa revelou ainda a existência de conflitos e ambivalências quanto à autonomia do adolescente na gestão de sua alimentação. Os autores afirmam que, ao tentar controlar a alimentação de seus filhos, os pais acabavam por dificultar o processo de desenvolvimento de sua autonomia. Sobre esse aspecto, considera-se importante a reflexão acerca dessa fase do desenvolvimento, pois, segundo afirmam Carter e McGoldrick (1995), a adolescência é caracterizada como uma etapa do ciclo de vida fundamental para que o indivíduo atinja, progressivamente, a independência afetivo-emocional que a fase adulta requer, tornando-o cada vez mais responsável por suas próprias decisões. Assim, os processos de intervenção com indivíduos dessa faixa etária devem também permitir ao jovem a conscientização acerca de suas próprias escolhas alimentares, auxiliando-o no processo de diferenciação familiar, com vistas a desenvolver suas próprias estratégias no que se refere ao tratamento da obesidade.

Já a pesquisa realizada por Otto e Ribeiro (2012) teve como propósito de investigação a dinâmica de uma família que apresentava um membro com obesidade grave, em termos de coesão familiar, fronteiras, comunicação, padrões transgeracionais, resolução de conflitos e alimentação. Foi utilizada a construção do genograma familiar, colagem feita pela família e a realização de duas tarefas. Como resultado, as autoras encontraram uma forte ligação entre a alimentação e o pertencimento familiar. A família investigada apresentou fronteiras internas difusas e externas rígidas, ou seja, novamente fez-se presente o padrão de emaranhamento entre os membros da família, sendo que a existência de fronteiras externas rígidas faz com que a convivência desses membros com outros contextos sociais seja mais restrita. Esse fato pode ser constatado pelos raros momentos de lazer relatados fora do ambiente familiar.

No estudo realizado, pode-se perceber a presença da lealdade familiar, ligada principalmente às questões de alimentação e sentimentos de afetividade e pertencimento, sendo observadas, ainda, constantes tentativas de evitação de conflitos. Segundo as autoras, ao evitar os conflitos, a família estabelece padrões comunicacionais disfuncionais, que podem favorecer o desenvolvimento de sintomas como a obesidade, sendo esta a forma encontrada por ela de manter a estabilidade das relações quando há dificuldade em lidar com a expressão de sentimentos (Otto & Ribeiro, 2012). As autoras concluem afirmando que o processo alimentar na família de pacientes obesos parece estar intimamente ligado às interações familiares.

Nesta categoria, os estudos enfatizaram a importância dos padrões relacionais familiares no desenvolvimento da obesidade em diferentes etapas do ciclo vital. Nos estudos analisados, foi possível identificar que a expressão daquilo que não pode ser dito com palavras dentro da família é capaz de manifestar-se no corpo, que está em evidência e revela, ainda que silenciosamente, um pedido de ajuda. Destaca-se a necessidade da realização de novas investigações que abordem os vínculos afetivos familiares, no sentido de melhor compreender os elementos e aspectos presentes na família que interagem tanto para o processo de desenvolvimento da obesidade, como para sua transmissão transgeracional.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo apresentou uma revisão integrativa das produções científicas nacionais e internacionais sobre as relações entre obesidade, família e transgeracionalidade, no intuito de compreender os fatores familiares que influenciam no processo de desenvolvimento da obesidade. A partir de sua realização, foi possível verificar a predominância de estudos de abordagem qualitativa, sendo utilizadas principalmente as entrevistas semiestruturadas. Os estudos quantitativos foram mais comumente associados às investigações que buscaram verificar a prevalência da obesidade através das gerações, enquanto os estudos qualitativos, em sua maioria, exploraram aspectos relacionados aos padrões de alimentação e de relacionamento existentes no sistema familiar. Considera-se que a articulação entre os diferentes tipos de pesquisa foi importante, pois permitiu que se apresentasse uma visão ampliada acerca das características da obesidade e de suas repercussões na família.

Além disso, observou-se um predomínio de pesquisas que detiveram o foco de investigação na obesidade infantil e sua relação com os aspectos transgeracionais. Nesse sentido, considera-se importante o desenvolvimento de pesquisas longitudinais que busquem investigar as repercussões dos hábitos alimentares adquiridos e das experiências vividas não apenas na infância, mas também ao longo de todo o ciclo de vida. As pesquisas analisadas encontraram associações importantes entre obesidade, família e transgeracionalidade. Considerando as diferentes ênfases de abordagem do problema, seja pelos aspectos sociais, hereditários, comportamentais, psicológicos ou culturais, os resultados dos estudos se coadunam no reconhecimento da relação entre a transgeracionalidade, o processo de desenvolvimento individual e o desenvolvimento da obesidade.

No que se refere ao caráter hereditário da doença, foi possível identificar que ocorre a repetição dela entre as diferentes gerações. Observou-se, também, que o ambiente familiar e os hábitos alimentares são fatores que se conjugam e influenciam o desenvolvimento da obesidade desde a infância. Destaca-se a escassez da produção científica que aborde especificamente a relação entre a história dos vínculos afetivos familiares e o desenvolvimento da obesidade, visto que apenas três das publicações analisadas se referiam a esse aspecto, todas realizadas no contexto brasileiro. Este parece ser um diferencial do País em relação às pesquisas estrangeiras, uma vez que nestas não foram destacados os aspectos relacionais presentes na dinâmica familiar de indivíduos obesos.

Considera-se que as diferentes categorias apresentadas no presente trabalho evidenciaram a multiplicidade de olhares que o fenômeno da obesidade no contexto familiar possibilita. Os artigos apresentados trazem contribuições importantes de diferentes áreas do conhecimento, como a biologia, a medicina, a nutrição, a enfermagem e a psicologia, o que parece convergir para o que aponta a literatura, a qual caracteriza o fenômeno da obesidade como multideterminado. No que se refere às limitações do presente estudo, pode-se considerar que o período de seleção dos artigos, que incluiu os últimos 10 anos, poderia ser ampliado para 20 anos, dada a escassez de publicações encontradas sobre a temática.

Ressalta-se a importância do desenvolvimento de pesquisas que enfoquem os aspectos relacionais envolvidos no processo da obesidade, pois esses achados permitirão ampliar a compreensão a respeito dos padrões relacionais estabelecidos em famílias acometidas pelo problema. Esses padrões relacionais, que são transmitidos às gerações seguintes, são considerados elementos importantes, capazes de modular a construção dos hábitos alimentares e estilo de vida compartilhados pelos membros da família.

A realização de novos estudos que abordem a relação entre transgeracionalidade, família e obesidade se faz necessária para que seja possível, cada vez mais, compreender os elementos que se conjugam nos processos de desenvolvimento humano e no surgimento da doença, à luz dos contextos em que se inserem. Por fim, considera-se que os resultados obtidos por essas investigações serão subsídios importantes para serem utilizados em programas de prevenção da obesidade, em que a família seja o principal alvo de intervenção.


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Recebido em: 21/02/2017
Aprovado em: 15/06/2017

I Aline Orlandi Coradini, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: line_orlandi@hotmail.com

II Carmen Leontina Ojeda Ocampo Moré, Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: carmen.more@ufsc.br

III Alessandra D’ávila Scherer,  Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: alessandra.scherer@hotmail.com

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