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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.44 no.4 São Paulo  2010

 

CONFERÊNCIA - COMENTÁRIOS

 

Psicanálise e tempo; Psicanálise e epistemologia hoje; O Anti-Narciso: lugar e função da Antropologia no mundo contemporâneo1

 

Psicoanálisis y tiempo; Psicoanálisis y epistemología hoy; El Anti-Narciso: lugar y función dela antropología en el mundo contemporáneo

 

Psychoanalysis and time; Pyschoanalysis and epistemology today; The Anti-Narcissus: place and role of Anthropology in the contemporary world

 

 

Adalberto A. Goulart2

Endereço para Correspondência

 

 


RESUMO

O autor tece comentários sobre a palestra do prof. Viveiros e propõe que podemos saber o que somos, quando somos, mas não temos nenhuma possibilidade de sabermos o que é ser o que não somos. Portanto, a diferença que torna possível a comunicação necessita que ponto e contraponto estejam inexoravelmente sempre presentes, porque isoladamente seriam inapreensíveis. Conclui dizendo que somos únicos em nossas diferenças, angústias, imperfeições e é daí que decorrem nossas semelhanças.

Palavras-chave: narcisismo; comunicação; cultura; psicanálise.


RESUMEN

El autor realiza su análisis en función de una conferencia del prof. Viveiros y propone la teoría de que sabemos qué somos, cuándo somos, pero no existe posibilidad de saber qué es ser lo que no somos. Por tanto, la diferencia que podría suponer la comunicación, requiere que el punto y contrapunto estén siempre presentes, porque solo cabría la dificultad en alcanzarlo. Concluye diciendo que somos únicos en nuestras diferencias, miedos, defectos y es por esta razón que somos similares.

Palabras clave: el narcisismo; la comunicación; la cultura; el psicoanálisis.


ABSTRACT

The author comments on a lecture by professor Viveiros and proposes that we know what we are, when we are, but we can not know what is to be what we are not. This would require that the point and counterpoint were always present to make the communication, because alone would be indescribable. Concludes by saying that we are unique in our differences, fears, faults, and exactly for this reason we are similars.

Keywords: narcissism; communication; culture; psychoanalysis.


 

 

Antes de tudo, desejo introduzir este comentário, agradecendo pela oportunidade de entrar em contato com a palestra proferida pelo prof. Eduardo Viveiros de Castro, transcrita por Regina Juvenal e a mim enviada pela colega Thais Blucher, que também me fez o honroso convite.

Aceitei de imediato o desafio, embora não soubesse exatamente o conteúdo da palestra, mas estimulado pelo rápido comentário feito por Thais. Sem dúvida trata-se de um tema estimulante e sobre o qual me interesso bastante, logo respondi. Mas com a transcrição em mãos pude perceber que se tratava de algo ainda mais estimulante e interessante do que supunha.

A primeira questão colocada diz respeito a como se comunicar por meio de uma diferença, logo seguida por outra, a saber, o que nos distingue dos outros. São questões antropológicas trazidas por um antropólogo, mas penso que para além da especificidade da disciplina, são questionamentos próprios da natureza da alma humana e a ela se referem, para ser mais exato, referem-se às profundezas desta alma humana.

"Nós" faz referência ao sujeito do discurso, não há dúvida, que, narcisicamente, coloca tudo aquilo que não é "nós" como sendo diferente. Convenhamos que não é tarefa fácil compreender o diferente, visto que jamais poderíamos saber como o diferente se sente, do contrário seríamos o próprio diferente e a questão permaneceria a mesma, invertida apenas.

O pensamento do prof. Viveiros convida-nos a questionar e, dentro do possível, abrir mão de nossos entraves narcísicos, ou ao menos do que for possível abrir mão nesses entraves, o que é necessário para que a humildade possa surgir e com ela o espaço para sentir e pensar livremente.

Assim podemos supor que a diferença estaria na base, como um requisito fundamental à comunicação, o que daria sentido à mesma e a justificaria. Não haveria sentido nem porquê na comunicação entre iguais, portanto, para que a dissonância do diferente justifique a comunicação e lhe dê sentido se faz fundamental que a diferença seja reconhecida e suportada. E como psicanalistas sabemos bem o que isto representa, com as estruturas ou traços de caráter precocemente feridos. Lembro um analisando que costuma ter a fantasia de um mundo habitado apenas por ele mesmo, bilhões dele mesmo. Não seriam clones, porque clone não é ele, seria toda a humanidade constituída por bilhões dele mesmo. Sem diferenças e, consequentemente, sem necessidade (e possibilidade) de comunicação. Isto inclui a comunicação com ele mesmo, visto que, como Narciso, não pode se conhecer.

O que os outros teriam que os tornaria diferentes de nós? Aqui poderíamos fazer uso de teses e argumentos e não seria difícil encontrar um grande punhado deles. Mas penso, como disse acima, que talvez esta seja uma pergunta que não admite resposta, visto que podemos saber o que somos, quando somos, mas não temos nenhuma possibilidade de sabermos o que é ser o que não somos. Portanto, a diferença que torna possível a comunicação necessita que ponto e contraponto estejam inexoravelmente sempre presentes, pois isoladamente seriam inapreensíveis.

Haveria algo próprio do ser humano? O que nos distinguiria do restante da criação? – questiona o professor, ao mesmo tempo em que aponta para a necessidade de descartarmos essa questão para podermos seguir adiante, sem desconsiderarmos nossa essência, mas também sem hipocrisias narcisistas. E sem hipocrisias a fronteira se faz delgada, frágil, tênue, seja do ponto de vista dos estudos sobre o genoma, seja a partir da própria observação despreconceitualizada.

O código genético dos chipanzés é praticamente idêntico ao nosso, sendo que este "praticamente" sinaliza toda a diferença de menos de 1%. Macacos prego descobriram que podem quebrar cocos utilizando uma base de pedra grande e plana como apoio e batendo sobre o fruto com uma pedra específica. Específica porque necessita de um determinado tamanho e grau de dureza para ser capaz de quebrar o coco. E transmitem esse aprendizado aos filhotes que desde cedo começam a exercitá-lo. O que significa isso? Um ancestral de Processo Secundário? Um ancestral de Princípio da Realidade?

Poderíamos argumentar em função do conhecimento que temos sobre o tempo, enquanto flecha que segue em uma única direção e sentido, lembrando Ferrari (2004), e da finitude das coisas, inclusive da existência humana, como algo fundamental que nos diferencia. Temos de imediato aqui dois problemas: o primeiro é que não podemos afirmar não existir alguma outra espécie não humana com noções de tempo, porque ainda pouco sabemos sobre elas. E segundo, ainda que soubéssemos existir tal espécie, jamais poderíamos conhecer o que significa isso sendo outra espécie, o que se sente sendo não eu. Sei o que entendo por tempo, mas não sei o que você entende quando diz tempo. Quer dizer, quando eu digo que algo é diferente quero dizer apenas que isso não sou eu, o que já é uma grande coisa, convenhamos. Se sou o que sou e sei o que sou, isso decorre da realidade de que tenho um corpo único e específico e que este corpo único e específico é capaz de produzir uma mente única e específica portanto (Ferrari, 1995). Já o que seria ser em outro corpo único e específico que não o meu, não tenho a menor chance de saber.

Diz Viveiros que o filósofo se volta para dentro, introspectivamente, diante de uma questão difícil, à procura de um conceito e de sua crítica. O antropólogo se volta para o lado, comparando a resposta que ele tem com a que ele não tem, mas pensa saber, em busca de verificar a adequação da resposta que vem do outro quando confrontada com a sua. E o psicanalista, o que faz diante de uma questão difícil? Penso que para nós se faz necessário suportar o exercício da mais plena ignorância, seja em relação ao que está do lado, seja ainda em relação a nós mesmos. Falo da humildade de onde poderá surgir algum saber, algum conhecimento afetivo que em um segundo momento poderá ser organizado pelo pensamento e então comunicado ao diferente. Mesmo assim, sabemos que isso poderá fazer algum sentido ou ressignificação ao diferente, ou simplesmente nenhum. Se um paciente me diz, ao iniciar uma sessão de análise, que não tem nada para dizer, eu poderia lhe dizer o mesmo, ou seja, eu também não. Afinal como poderíamos saber o que teremos para dizer antes que a experiência do encontro seja vivida e se processe? Além do mais, o que eu penso sobre determinada coisa não é, nem poderia jamais ser, o mesmo que meu paciente pensa sobre determinada e mesma coisa. Simplesmente porque eu não posso saber o que é determinada coisa para alguém que não seja eu, nem tampouco o que seria pensar sobre essa coisa não pensando como eu penso. Assim, se tenho respostas, elas não interessam ao meu paciente, a ele interessam as respostas dele e as respostas dele são únicas e específicas dentro do sistema que o constitui, assim como o são para mim dentro do sistema que me constitui. Posso, enquanto psicanalista, tentar ajudá-lo a encontrar perguntas e/ou respostas produzidas pelo seu único e específico sistema, o que mais?

Esta complexidade relaciona-se ao que o prof. Viveiros chama de homo duplex, ou seja, temos um corpo biológico, fruto da criação e com a qual nos misturamos, mas temos ainda uma alma cultural produzida por este corpo e que se desenvolve e se define por uma certa e razoável falta. Lembrando que a certa e razoável falta precisa ser suportada para que o desenvolvimento se dê também de maneira minimamente razoável e para que as diferenças não sejam extintas como propõe meu paciente. Da perspectiva da natureza poderíamos dizer, então, que somos, neste duplo que nos constitui humanos, criaturas mutantes.

Mudando a perspectiva, o prof. Viveiros nos traz ainda a visão indígena de mundo, em um universo encantado, animado, fantasmático, onde tudo é gente, mais próximo do que conhecemos como Princípio do Prazer e menos mutantes do que nós, civilizados, quer dizer, mais criaturas da natureza e menos homo duplex. Não sei se isso os torna menos complexos, mas, segundo o palestrante, é um mundo mais perigoso porque tudo é humano, ou foi, ou será. Então tudo depende do olhar de quem vê: para os outros animais, humano é ser como eles são, ou em outras palavras, para uma onça, em sua ilustração, o seu igual é humano e o humano é que seria bicho. Dessa forma, ver um animal de outra espécie como humano significaria ter perdido a humanidade e não mais reconhecer o seu semelhante como humano, o que seria patológico. Na compreensão de mundo do índio, segundo o professor, cada espécie animal vê o mundo da mesma maneira, o que muda é apenas a perspectiva dos olhos de quem vê. A alma é semelhante, o corpo é que é diferente, mas no fundo isto pouco significa dentro desta compreensão de como as coisas funcionam. Já para nós, civilizados, os corpos biológicos são iguais, à medida que são constituídos da mesma matéria e nos diferenciamos na alma cultural.

Assim sendo, enquanto psicanalistas, podemos pensar com o prof. Viveiros e sua antropologia contemporânea, que nada pode ser mais diferente de nós, civilizados, do que o índio, ou do que o nosso vizinho do lado civilizado. E, portanto, nada mais semelhante. Somos únicos em nossas diferenças, angústias, imperfeições e é daí que decorrem nossas semelhanças.

 

 

Referências

Ferrari, A. (1995). O eclipse do objeto originário concreto. Revista Brasileira de Psicanálise. 29 (2), 253-62

Ferrari, A. (2000). O tempo da vida. Alter, 19 (2), 279-286.

Ferrari, A. (2004). Só amanhã. In A. Ferrari, Vida e tempo. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Ferrari, A. (2004). From the eclipse of the body to dawn of thought. London: Free Association Books.

Freud, S. (1974). Os instintos e suas vicissitudes. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 129-162). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1915)

Freud, S. (1974). Sobre o narcisismo: uma introdução. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 89-119). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914)

Goulart, A. (2005). O Poder do Biológico: o que pode a Psicanálise? In Revista Brasileira de Psicanálise, 39 (2), 27-36.

Goulart, A. (2005). Narcisismo e cultura. Psicanálise em Revista, 3 (1/2),13-24.

 

Endereço para correspondência

Adalberto A. Goulart
[Sociedade Psicanalítica do Recife SPR e Núcleo Psicanalítico de Aracaju NPA]
Av. Anísio Azevedo, 675/304 | Salgado Filho
49020-240 Aracaju, SE
e-mail: adalbertogoulart@uol.com.br

 

[Recebido em 13.10.2010, aceito em 12.11.2010]

 

 

1 Comentários à palestra proferida pelo prof. Eduardo Viveiros de Castro.
2 Membro titular e didata da Sociedade Psicanalítica do Recife SPR, fundador e Presidente do Núcleo Psicanalítico de Aracaju.