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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.44 no.4 São Paulo  2010

 

CONFERÊNCIA - COMENTÁRIOS

 

Antropologia ataca narcisismo1

 

Antropología ataca narcisismo

 

Anthropology attacks narcissism

 

 

Wagner Francisco Vidille2

Endereço para Correspondência

 

 


RESUMO

O autor, ao comentar o texto do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, enfatiza a importância do uso de conceitos freudianos (narcisismo, inconsciente, estranhamento e familiaridade) como contribuição ao novo viés teórico de observação antropológica (área da Filosofia da Etnologia), proposto pelo palestrante. Essa nova condição de olhar o objeto, feita de um ângulo "invertido-revertido" em relação ao antropólogo, por ser menos investida de "amor próprio", visa reduzir as influências da autorreferência.

Palavras-chave: antropologia; psicanálise; cultura; narcisismo; estranhamento; familiaridade.


RESUMEN

El autor al comentar el texto del antropólogo Eduardo Viveiros de Castro hace énfasis en la importancia del uso de conceptos freudianos (Narcisismo, Inconsciente, Extrañeza y Familiaridad) como una contribución a la nueva tendencia teórica de observación antropológica (área de Filosofía de la Etnología), propuesto por el conferencista. Esta nueva condición de examinar el objeto, llevada a cabo desde un ángulo "invertido-revertido" en relación al antropólogo, por estar menos cargada de "amor proprio", tiene como objetivo reducir la influencia de la autorreferencia.

Palabras clave: antropología; psicoanálisis; cultura; narcisismo; extrañeza; familiaridad.


ABSTRACT

The author, upon commenting on a text by the anthropologist Eduardo Viveiros Castro, emphasizes the importance of the use of Freudian concepts (Narcissism, Unconscious, the foreign, Familiarity) as a contribution to the new line of theory regarding anthropological observation (fields of Philosophy of Ethnology), as proposed by the lecturer. This new view on the object, having less "self-love", aims to reduce the influences of self-reference.

Keywords: anthropology; psychoanalysis; culture; narcissism; the foreign; familiarity.


 

 

"Instigante" é a palavra mais adequada para resumir meus comentários à palestra dada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, há pouco mais de um ano, na sede da SBPSP. Com uma fala bem-humorada, num tom aparentemente despretensioso, permeada por certo atrevimento e irreverência, muito longe do empolamento acadêmico esperado de espertos, Eduardo vai placidamente "desfiando seu rosário", trazendo à tona questionamentos humanos ancestrais – tipo "quem somos? de onde viemos? para onde vamos?" –, conduzindo seus ouvintes na direção de um campo de indefinições e incertezas, próximo do Aleph borgiano – conjunto imaginário em que se entrecruzariam a epistemologia, ciência, religião, psicanálise e filosofia.

A ressaltar, de antemão, que o conteúdo da palestra é absolutamente contraindicado aos ouvintes passivos, aos leitores ávidos por certezas, aos adeptos do magister dixit, aos que buscam soluções evidentes, uma vez que sua fala remete mais a questionamentos que a respostas.

Apesar de, como psicanalistas, termos focos de interesse distintos, Eduardo nos traz muitas "coisas" em que pensar. Seus exercícios de lógica, mansamente, vão nos acantoando em direção ao velho e incômodo lugar das perguntas sem resposta, do qual, até por mera questão de sobrevivência diária, dele sempre procuramos nos desvencilhar. Lugar da incompletude e das incertezas que, àqueles que dele ousam se aproximar, fugindo do lugar-comum, cobra as devidas penalidades ao atrevimento, como o ter que olhar em várias direções e suportar as angústias das interfaces.

Pressuposto básico: adotamos, nós, psicanalistas, e eles, antropólogos, pronomes pessoais determinantes de epistemologias diversas. No exercício da Psicanálise, como é notório, o campo de interesse é o "eu" individual, o inconsciente dinâmico e as relações vinculares, incluindo, aí, uma "ferramenta" essencial para a abordagem: outro ser humano que, autorizado, dará diferentes e novas versões sobre nós mesmos. Os antropólogos, por seu lado, tratam do "nós", seres humanos agrupados em sociedades, em todas as suas múltiplas dimensões. Entretanto, fato comum às técnicas, nas duas disciplinas, é o escrutínio das diferenças como único caminho para a compreensão e desenvolvimento. Trocando em miúdos: para nos compreendermos – seres humanos, individualmente ou em grupos–, necessitamos de um "outro" (outro ser humano ou outro agrupamento humano); além disso – dura verdade! –, este "outro" será sempre um estranho. Vale lembrar aqui "O estranho" (Freud, 1919/1969c), texto em que Freud refere-se à palavra alemã heimlich (identificada com o nosso termo "familiaridade"), cujo significado se desenvolve no sentido da ambivalência, chegando, em certo ponto, a coincidir com seu antônimo, unheimlich. Assim, o eterno problema do confronto com o estranho, a todo momento reencarnado e travestido, "nos remete a sentimentos de silêncio, solidão e escuridão, dos quais, infantilmente, a maioria dos seres humanos nunca se liberta totalmente", como afirmou Freud.

Em meio aos pensamentos que a fala de Eduardo me provocou quando se refere à anedota de Lévi-Strauss sobre os diferentes procedimentos adotados por espanhóis e por índios para a identificação mútua, lembrei-me de duas ou três curiosidades sobre Colombo, que talvez sejam elementos agregadores à ideia central de meus comentários. O herói da descoberta, cuja saga fez acender – sem o querer – o rastilho do maior genocídio perpetrado na história da humanidade, deixou registrado nas Cartas aos Reis de Espanha (31.8.1498) que sua intenção primeira, ao navegar em direção ao Ocidente, era promover a expansão do Cristianismo e, ato contínuo, organizar uma cruzada de libertação à Terra Santa para o resgate do Santo Sepulcro (Todorov, 2003). É bom lembrar que, naqueles ilusórios tempos libertários, Gerusalemme Liberata, de Tasso, foi publicado pela primeira vez, quase cem anos depois da descoberta da América. Em suas viagens ao Novo Continente, empreitada que ele mesmo definia como "missão divina", Colombo relata ter descoberto que "o mundo não era redondo", como se imaginava até então, mas que teria "a forma de uma pera"; e que, "em um certo ponto, estaria algo como uma teta de mulher"; além disso, continuava ele, "na parte deste mamilo mais elevada e próxima do céu estaria o Paraíso terrestre". Citado por Freud (1927/1969a) em "O futuro de uma ilusão", para diferenciar "erro" de "ilusão", Colombo, descobridor da declinação magnética e sabidamente um grande intérprete dos sinais da natureza, tinha amplas noções de Astronomia, conhecimento que o ajudou, durante a segunda expedição, a alimentar a tripulação esfomeada. Sabedor do exato dia e hora em que se daria um eclipse lunar (29.2.1504) ameaçou os chefes caribais (daí a palavra canibal) com o "roubo da lua", chegando a encenar uma espécie de "mini apagão lunar", caso não lhe trouxessem alimentos gratuitamente. Como propunham os velhos gregos, aos heróis, hábeis em Métis (sagacidade), admitir-se-á o uso de meios ilícitos – a fraude e o engano –, para a consecução dos fins.

Submetimento do homem pelo homem não é nenhuma novidade na história humana (basta relembrar a máxima latina: Homo homini lúpus) e, como afirmou Freud num de seus textos tardios ("O mal-estar na civilização, 1930), temos "uma poderosa quota de agressividade disponível, que poderá ser satisfeita pela exploração do outro no trabalho, na utilização sexual sem consentimento, humilhação etc.". Levando estas ideias ao terreno da Antropologia, levantamentos etnográficos para usos variados, dentre eles o controle e submetimento de populações, não são comuns, mas já foram possíveis. Ruth Benedict, no Japão do pós-guerra, Cocco com os Ianomâmis da Venezuela com a finalidade da catequização e – se a arte imita a vida – na fantasia hi-tech de Cameron em que o clã Omaticaya é investigado pelo avatar de Jake Sully. É importante frisar que a questão não é relativa a determinada área do conhecimento, mas à natureza humana.

Relendo algumas vezes a transcrição da palestra do Eduardo, entendo que a ideia central do texto, que se encaixaria no âmbito da filosofia da etnologia, seja propor um novo viés de observação antropológica, de um ângulo de observação "invertido-revertido", ou seja, a partir do objeto observado, e pelo avesso. Uma maneira de olhar menos investida de "amor próprio" – se é que podemos assim falar –, visando reduzir as influências do observador autorreferente. Esta inversão-reversão de perspectiva teria uma equivalência metafórica com a álgebra elementar, no mesmo sentido que a expressão [-1/x]. Em Psicanálise, o recurso da análise pessoal do analista (componente do tripé essencial) contribui, sobremaneira, para a diminuição das interferências pessoais do observador sobre o que é observado.

Desde 1906, os antropólogos utilizam o conceito de Etnocentrismo, proposto por Sumner, segundo o qual a visão ou avaliação que um indivíduo (ou grupo de pessoas) faz de um grupo social diferente do seu é apenas baseada em valores, referências e padrões adotados pelo grupo social do qual o próprio indivíduo (ou grupo) faz parte. Implica em uma disposição autorreferente, geralmente vinculada a sentimentos próprios de superioridade e parece ser equivalente, aplicado em larga escala, ao conceito de narcisismo, abordado contínua e extensivamente pela disciplina psicanalítica. É interessante lembrar que "Sobre o narcisismo: uma introdução" foi publicado por Freud (1914/1969d) oito anos depois e parece indicar que as Ciências da Cultura caminham pari passu, apesar de independentes, em direção a destinos comuns. Entretanto, como psicanalista, não me sinto em condições de fazer uma avaliação mais acurada do conceito sob o ponto de vista antropológico porque penso que psicanalistas, em geral, têm forte tendência a ler mal os antropólogos, assim como os antropólogos, os psicanalistas.

Chama a atenção que Eduardo se refira aos povos indígenas das Américas – de todos os tempos, independentemente das várias classificações etno-linguísticas consagradas –, de uma maneira generalizada, tratando-os simplesmente como "índios". O uso desta nomenclatura incontrastada, diferente do recomendado pelos cânones do "politicamente correto", traz-me, devo confessar, um certo alívio. Pessoalmente, por razões históricoculturais, sinto-me afetivamente mais próximo dela. Explico: os índios apaches – "nossos tradicionais inimigos", responsáveis pela orfandade imposta ao Cabo Rusty – são, para mim, tão "índios" quanto nossos belicosos tupinambás, antigos habitantes das bandas de Bertioga. E todos, simplesmente, "índios"! Entretanto, nos trabalhos de campo que levei a cabo recentemente, tanto nas selvas tropicais do longínquo e desabitado noroeste do Brasil (com os Ianomâmis), como por aqui, nos arrabaldes do município de São Paulo (pasmem alguns, há várias comunidades indígenas M-Byá Guarani, no sul da cidade, vivendo de maneira relativamente próxima à ancestral), pude observar a existência de costumes, línguas, cosmologias, cosmogonias absolutamente diversas entre si. Por isso, suponho que o uso certamente intencional do termo homogeneizante por Eduardo seja uma forma facilitadora para a explicitação do conceito relativo a "eles", os que são diferentes de nós.

Desde os pioneiros Tyler e Frazer e depois dos vários modelos totalizantes na Antropologia, passando pelas correntes do culturalismo, do funcionalismo e do estruturalismo (o último dos modelos totalizantes de explicação), parece hoje vigorar um tempo de calmaria baseado num certo ceticismo intelectual, descrente do encontro de uma lógica sob os escombros da História e da Cultura.

E, em relação a nós psicanalistas, que tipo de interesse a palestra de Eduardo poderia ter? Na minha maneira de ver, reafirmar a importância das descobertas freudianas (narcisismo, inconsciente, transferência etc.), adaptados a outros campos do saber, num exercício de Psicanálise Aplicada. Além disso, como tenho afirmado reiteradas vezes, acredito firmemente na cooperação e enriquecimento mútuo entre as duas disciplinas.

 

Referências

Benedict, R. (2002). O crisântemo e a espada. (3ª ed.). São Paulo: Perspectiva. (Trabalho original publicado em 1946)

Borges, J.L. (1949). O Aleph. In J.L. Borges, Obras Completas de Jorge Luis Borges. (Vol. 1, pp. 686-700). São Paulo: Globo.

Cameron, J. (Dir.). (2009). Avatar. (filme 166') Prod: Lightstorm Entertainment. Distr: 20th Century Fox.

Cocco, L. (1972). Iyëwei-Teri: quince años entre los yanomamos. Caracas: Escuela Técnica Popular Don Bosco.

Freud, S. (1969a). O futuro de uma ilusão. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 21, pp. 13-71). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1927)

Freud, S. (1969b). O mal-estar na civilização. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 21, pp. 75-171). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1929/1930)

Freud, S. (1969c). O estranho. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 17, pp. 273-318). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1919)

Freud, S. (1969d). Sobre o narcisismo. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 14, pp. 84-119). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914)

Todorov, T. (2003). A conquista da América: a questão do outro. (B. Perrone-Moisés, trad., 3ª ed.). São Paulo: Martins Fontes.

Vidille, W.F. (2002). A saga de Antígone. Revista Brasileira de Psicanálise, 36 (2), 127-144.

Vidille, W.F. (2005). Práticas terapêuticas entre indígenas do Alto Rio Negro: reflexões teóricas. Dissertação de mestrado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

 

Endereço para correspondência

Wagner Francisco Vidille
[Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo SBPSP]
Rua Antonio Alves Magan, 62 – Sumaré
01251-150 São Paulo, SP
e-mail: wvidille@terra.com.br

 

[Recebido em 17.11.2010, aceito em 3.12.2010]

 

 

1 Comentários à palestra proferida pelo prof. Eduardo Viveiros de Castro.
2 Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo SBPSP.