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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.44 no.4 São Paulo  2010

 

INTERCÂMBIO

 

Trabalho psicanalítico: psicanálise e atividade de pressuposto básico1

 

Trabajo psicoanalítico: psicoanálisis y actividad de premisas básicas

 

Psychoanalytic work: Psychoanalysis and basic assumption activity

 

 

Robert Caper2

Endereço para Correspondência

 

 


RESUMO

O autor tenta circunscrever a perspectiva singular do trabalho analítico que, como trabalho, é propenso a gerar ansiedades e inseguranças que a dupla tenta controlar engajando-se em uma atividade de pressuposto básico. A tarefa do trabalho da análise é lançar uma luz (torná-los conscientes) sobre as crenças operantes dos pressupostos básicos. Os impasses enfrentados nesta tarefa, seja do lado do paciente, seja do lado do analista são discutidos considerando os respectivos lugares do sintoma e das interpretações do analista. Os mitos de Édipo, Éden e Orestes são convocados para ilustrar a ameaça do superego arcaico, e seu moralismo sobre o alcance deste conhecimento e a implícita necessidade de tolerar a insegurança, a conexa inexatidão e a potencialidade destrutiva da interpretação. Assim, podese garantir uma proximidade à verdade e a criatividade como decorrência desta.

Palavras-chave: trabalho psicanalítico; pressupostos básicos; moralismo superegoico; verdade; criatividade.


RESUMEN

El autor trata de circunscribir la perspectiva singular de la labor analítica que, como trabajo, es propensa que generar ansiedades e inseguridades que un par intenta controlar participando en una actividad de premisas básicas. La tarea de la actividad de análisis es dar una idea (concientizarlos) sobre las creencias operantes de las premisas básicas.Los dilemas que enfrenta esta tarea, ya sea del lado del paciente, odel lado del analista se discuten considerando los respectivos lugares del síntoma y la interpretación del analista. Los mitos de Edipo, Edény y Orestes son utilizados para ilustrar la amenaza del superego arcaico, y el moralismo sobre el alcance de este conocimiento y la necesidad implícita de tolerar la inseguridad, imprecisión y la capacidad de relación destructiva de la interpretación. Por lo tanto, podemos garantizar una aproximación a la verdad y la creatividad como resultado de esta.

Palabras clave: trabajo psicoanalítico; premisas básicas; moral superegoica; verdad; creatividad.


ABSTRACT

In this paper, the author focuses on the specificity of the analytic work that, as such, has a propensity to generate anxieties and insecurities. The dyad, thus, tries to control these by engaging in a basic assumption type activity. The analytic work's objective should be that of bringing, such operating beliefs of the basic assumption functioning, to consciousness. The impasses faced in going about with this task, be it from the point of view of the patient or the analyst, are here discussed, considering the respective positions of both the patient's symptoms and the analyst's interpretations. The myths of Oedipus, Eden and Orestes are used to illustrate the threat imposed by the archaic superego to consciousness, ultimately striving to achieve a greater proximity with truth, thus enabling the emergence of creativity.

Keywords: psychoanalytical work; basic assumptions; superegoic morality; truth; creativity.


 

 

A psicanálise é uma atividade íntima em que duas pessoas, unidas pela força psicológica do trabalho comum, abordam a mente a partir de uma perspectiva singular. Neste trabalho, tentarei descrever essa perspectiva.

Dado que a psicanálise é uma forma de trabalho, ela é propensa às ansiedades e inseguranças que o trabalho causa. Os membros do grupo psicanalítico de dois, portanto, tentam controlar tais ansiedades se engajando numa atividade de Pressuposto Básico. Mas, como indiquei anteriormente,3 a díade psicanalítica arca com o que pode ser uma relação única com sua própria atividade de Pressuposto Básico: uma tarefa básica da psicanálise é trazer à luz as crenças de Pressuposto Básico da díade.

À medida que uma análise lança luz sobre o Pressuposto Básico operativo, torna o pressuposto passível de pensamento crítico. As ansiedades por trás da atividade se tornam, então, manifestas e disponíveis para a experiência consciente. Não é exagerado dizer que isso fornece quase tudo que é necessário para a análise seguir em frente (sem falar, naturalmente, na capacidade de tolerar a ansiedade resultante).

A observação de que sua abordagem é justamente o oposto da abordagem psiquiátrica convencional da remoção de sintomas pode ajudar a compreender como a psicanálise funciona. Em vez de tentar eliminar ou destruir sintomas, ela visa integrá-los na mente do paciente por meio da elucidação do seu significado. Para a psicanálise, os sintomas psicológicos são um tipo de verdade estrangulada e, mais do que mirá-los no sentido de eliminá-los, ela os vê como sinais de que alguma coisa levou uma experiência significativa a se desconectar da massa de outras experiências significativas não sintomáticas. Do ponto de vista psicanalítico, o sintoma é uma distorção da experiência, ocasionada por essa desconexão. O objetivo da psicanálise é restaurar a conexão quebrada, convertendo, dessa maneira, a experiência distorcida, desconectada (do sintoma) em uma experiência conectada comum.4

Os sintomas desaparecerão no decorrer de uma análise, não porque a psicanálise os remova diretamente, ou mesmo porque os remova indiretamente. Não faz nem uma coisa nem outra; em vez disso, torna-os irrelevantes. No curso de uma análise bem-sucedida, podemos observar o paciente perdendo interesse no sintoma que o preocupava no início da análise, à medida que fica mais interessado no que o sintoma indica. Nesse estágio, o sintoma está prestes a desaparecer, ou melhor, está prestes a ser substituído pelo pensamento ou experiência comum dos quais era uma expressão estrangulada.

A diferença fundamental entre o objetivo psicanalítico da integração e o objetivo psiquiátrico de remoção de sintomas fica clara quando consideramos que, uma vez que os psicanalistas encaram os sintomas como indicadores de conteúdos mentais que perderam a conexão com o resto da mente, o objetivo de remover o sintoma diretamente lhes parece equivalente a destruir a evidência que ajudaria um grupo de socorro a localizar os sobreviventes de um desastre. Mesmo esta analogia não consegue transmitir a extensão plena do dano que a remoção de sintomas faz do ponto de vista analítico: para a psicanálise, o desastre em questão é justamente o corte das conexões na mente, do qual o sintoma é um sinal e uma ligação indispensável. Removê-lo, portanto, se agrega ao dano que deu origem ao sintoma em primeiro lugar, o que, do ponto de vista psicanalítico, é um segundo desastre.5

Mas há aqui um dilema: a alternativa para esse segundo desastre – reconhecer o desastre original e repará-lo por meio da reconexão de partes excindidas da mente – pode requerer uma dedicação tão extrema que pode parecer um descaso irresponsável com relação às consequências. Bion sugeriu, certa vez, que focalizássemos o papel de Tirésias no mito de Édipo, e se o fizermos, a história passa a ser uma história de cautela tanto quanto a uma busca tão implacável da verdade.

Quando Édipo, rei de Tebas, fica sabendo pelo Oráculo que a praga que devastava sua cidade decorria de uma ofensa aos deuses, jurou buscar a fonte da ofensa. Mas o vidente cego, Tirésias, alertou-o que, ao fazê-lo, ele estava cometendo hubris e se pondo em perigo. Apesar disso, Édipo insistiu, inflexível, até identificar a ofensa, mas ao preço de revelar uma verdade tão inaceitável que precipitou seu ostracismo em Tebas, o suicídio de sua mãe e sua automutilação. Essa desgraça terrível pareceu validar o aviso de Tirésias de que, ao empreender investigações, Édipo estava cometendo um ato de hubris.

Se por um lado podemos reconhecer o realismo psicológico desse mito – a mente se comporta como se a busca da verdade acarretasse as consequências medonhas que Édipo sofreu no mito – também é importante observar que o curso de ação contra o qual a história nos previne é justamente aquele que, do ponto de vista psicanalítico, precisamos adotar para aliviar a incapacidade neurótica. Toleramos a praga de nossos sintomas neuróticos por temermos que descobrir as verdades em que eles estão apoiados, e ao mesmo tempo encobrem, levará à nossa destruição. Para o paciente, que está tão cego quanto o cego Tirésias, eles são uma maneira de evitar o desastre; mas, para o psicanalista, desastre são as conexões cortadas na mente.

Contudo, o medo que o paciente tem de descobrir a verdade não é inteiramente irracional. A menos que algo intervenha para evitá-lo, o paciente será destruído pelo que descobrir. Seu superego arcaico, sempre intolerante com a natureza humana, o levará ao ostracismo e o cegará. O que a psicanálise acrescenta à discussão é a observação de que aquilo que o mito retrata como sendo a lei natural da hubris e da nemesis é, na verdade, um artefato produzido pelo superego arcaico que ameaça nos destruir pelo fato de sermos humanos.

(O mito de Édipo tem uma contrapartida no mito do Jardim do Éden, no qual Jeová desempenha o papel de Tirésias, avisando que comer o fruto da árvore do conhecimento levará tão somente à destruição. Se, de um lado, é verdade que a desobediência de Adão e Eva traz a morte para o mundo, de outro, ela também traz a criatividade sexual – em outras palavras, a vida. Ao desobedecer a proibição de Jeová, o casal escapou de um estado em que não era nem vivo nem morto.)

Pelo fato de o superego arcaico ser uma força psicológica tão destrutiva, podemos simpatizar com o pavor de Tirésias de descobrir a verdade: Édipo descobriu ter violado tabus poderosos, injunções contra desejos, ações e ideias tão poderosas que até mesmo pensar nelas sujeita o autor à destruição pelo Grupo de Pressuposto Básico (cujo lema poderia ser "tranquilidade a qualquer custo"), ou pelo seu representante psíquico, o superego arcaico. Só matando essas ideias – desconectando-as da parte principal de nossa mente – encobrindo, então, a desconexão (por um tipo de automutilação da nossa consciência), é que podemos nos salvar de sermos identificados com elas e, desse modo, passarmos a ser alvo do superego com características de multidão e da multidão com características de superego.

No final, Édipo, tendo vagado em desgraça pelo mundo durante muitos anos, finalmente compreendeu sua humanidade e alcançou algum abrigo contra as depredações de seu superego. Em casa, por fim, entre os cidadãos de Colona, cuja piedade por ele alguns enxergam como uma antecipação de Sófocles da caridade cristã, morreu em paz num estado de graça que foi negado aos que o rejeitaram e o desprezaram. Ele tinha atingido o que é raro entre os homens, e ainda mais entre os poderosos: foi um homem honesto.

 

A integridade psicanalítica

Woruber man nicht sprechen kann, daruber muss man schweigen.6 Com este aforisma, Wittgenstein expressou seu respeito à verdade, admoestando-nos a não fingir que sabemos ou expressamos aquilo que não podemos saber ou expressar; se você não sabe do que está falando, não diga nada. Esse conselho fundamental se aplica a qualquer pessoa que tenta falar com integridade, que não quer representar de forma distorcida aquilo de que está falando e que não quer distorcer a si mesmo, criando a impressão de saber algo que de fato não sabe. Os psicanalistas violam constantemente esta admoestação. Pelo fato de o psicanalista não poder conhecer a experiência de outra pessoa, qualquer interpretação inevitavelmente representa essa experiência de modo distorcido em alguma medida. O artigo de Edward Glover (1931) "O efeito terapêutico da interpretação inexata: uma contribuição para a teoria da sugestão" lida com os perigos de o analista dar uma interpretação que, ainda que não perfeitamente acurada, chega suficientemente perto para ser usada como um afastamento plausível da verdade. Glover está sublinhando um aspecto importante, mas o faz estabelecendo uma dicotomia entre interpretações exatas e inexatas, o que não é propriamente verdadeiro: todas as interpretações são inexatas, isto é, são menos do que perfeitamente plenas e acuradas. Já que o analista não pode ser onisciente, as interpretações são apenas mais ou menos inexatas. Mas, uma vez que o paciente sempre está buscando a segurança que vem da certeza, uma interpretação bastante perto da verdade tem o perigo de fazer o paciente desistir das suas faculdades críticas e engolir a coisa toda.7 Este dano incontornável é decorrente da atividade de Pressuposto Básico que, na forma do desejo de um conhecimento seguro, operando às expensas da verdade, sempre supera o insight que poderíamos ter quanto às suas inúmeras operações.

O analista é como o cirurgião cortando o corpo. Por mais benignas que sejam as intenções do analisa e por melhor que seja o resultado geral, não adianta fingir que não está causando nenhum mal. Na verdade, fingir é até pior do que ser inútil: a análise deve, ela mesma, entre outras coisas, tentar reparar o dano continuamente infligido ao paciente. Esse dano é parte integral da psicanálise, e deve ser reconhecido se a análise quiser preservar sua integridade.

O contato psicológico íntimo da análise, não importa quão boa e benéfica seja, de certo modo é, além do mais, uma violação no sentido que Wittgenstein nos alertou ("Quando não podemos falar, calemos"). A tentativa do analista de estabelecer contato com o paciente inevitavelmente é imperfeita e – à medida que o paciente a aceita sem crítica – danosa. A interpretação sempre coloca um perigo para o paciente, uma vez que sempre é potencialmente errada. Não é motivo, naturalmente, para abandonar a busca da verdade. O perigo não consiste na busca da verdade pelo analista, nem no fato de suas interpretações serem inevitavelmente imperfeitas, mas no fato de ele não reconhecer que assim é; não em ele tentar dizer algo anteriormente desconhecido do paciente, que o toque profundamente, mas em não reconhecer que suas tentativas de fazê-lo inevitavelmente são imperfeitas e não fazem jus ao assunto. O dano ocorre quando analista e paciente sentem que as interpretações podem ser enunciadas sem que façam qualquer mal.8

Esse dano não é o resultado de uma análise desajeitada; decorre de uma análise hábil. À medida que os analistas sabem do que estão falando, suas palavras penetram no paciente para produzir sentimentos poderosos de amor (porque o paciente se sente compreendido pelo analista) e de temor (porque o paciente teme que o analista usará mal essa compreensão, para não compreendê-lo da próxima vez). Esse temor não é infundado.

Os analistas não podem evitar causar dano aos pacientes. Mas se estiverem cientes da violência que a relação íntima da psicanálise pode fazer na mente do paciente, e da necessidade de salvaguardar e policiar a capacidade deste de pensar por si, mesmo sob a circunstância difícil e desafiadora de estar em análise, os analistas estarão em posição de causar mal a seus pacientes de maneira responsável.

Os analistas precisam ter uma atitude de ceticismo e de humildade com relação às suas próprias observações, e reconhecer que nenhuma interpretação é tão acurada a ponto de o paciente aceitá-la sem crítica. Essa atitude protegerá os analistas da hubris analítica, e criará, ao mesmo tempo, um setting que reconhece a destrutividade, inclusive a destrutividade da psicanálise, como parte inevitável do viver e da criatividade.

O setting oferece abrigo contra a perseguição como aquele que foi dado a Édipo pelos cidadãos de Colona: permeado por um sentimento de tristeza, reverência e limitações humanas – e livre de uma violência desmentalizada.

O tema da violência e do abrigo no Édipo de Sófocles encontra paralelo em outro ciclo dramático grego antigo, a Oresteia de Ésquilo: Orestes é atormentado pelas Eríneas, criaturas bizarras, meio mulheres, meio pássaros, que o perseguem por ter assassinado a mãe, Clitemnestra, e o amante desta, Egisto.9 Orestes os matou vingando o assassinato de Agamenon, seu pai. Clitemnestra tinha conspirado com Egisto para matar Agamenon por ele ter sacrificado a filha deles, Ifigênia, para apaziguar Poseidon. Todas essas calamidades eram manifestações de uma maldição lançada contra o pai de Agamenon, Atreus, por seu irmão depois dele ter assassinado e assado os filhos do irmão e, à guisa de hospitalidade, tê-los servido a ele em banquete.

Depois de anos de perseguição pelas Eríneas, Orestes finalmente foge para Atenas, onde a deusa Atena põe fim ao ciclo de represália assassina, concedendo-lhe abrigo e estabelecendo a regra da lei, convertendo as Eríneas, desse modo, em guardiãs benignas do lar (as Eumênides).

Pelo reconhecimento e pela integração da inevitabilidade da destrutividade humana, a psicanálise, como os cidadãos de Colona e a deusa Atena, põe fim ao ciclo de violência e de represália presidido pelo superego arcaico. Protege os pacientes de seu superego perseguidor, parecido com uma malta – o aspecto deles próprios que quer matá-los, cegá-los e torná-los loucos, por serem humanos.

A psicanálise não opera apenas por ter compaixão com as paixões humanas, como os cidadãos de Colona, mas também por ser ao mesmo tempo desapaixonada acerca delas, como Atena, a deusa da sabedoria. Um hábito mental que atribui alto valor à verdade, à observação desapaixonada e ao pensamento crítico, cria um setting que controla a violência. 10 Um compromisso inflexível com a evidência protege os pacientes de serem levados à loucura por seu superego arcaico. Como Atena, a psicanálise torna a responsabilidade suportável, oferecendo uma alternativa ordeira para a represália assassina: pouco a pouco, ela converte o superego arcaico persecutório, como as Eríneas, num superego maduro, guardião bondoso do lar interno, um superego de face humana.

Enquanto o superego arcaico opera em termos morais absolutos e de conhecimento certo (como os religiosos fundamentalistas, cujas atividades os tornam uma versão externa, ou social, do superego arcaico), a psicanálise está preocupada com a realidade e as limitações do conhecimento. Reconhece que a realidade é o que é e assim se mantém, independentemente das nossas opiniões, que não são mais do que reflexos imperfeitos dela.

A pretensão de conhecer em sentido absoluto – perder de vista o fato de que nosso conhecimento sobre qualquer coisa sempre é incompleto – está ligada à nossa necessidade de escapar da dor e do terror de reconhecer como é vasta a distância entre nossa mente e o resto do mundo. Nossa necessidade de conhecer mais do que podemos, de modo a sentir que temos todo o controle sobre o mundo além de nós, do qual depende a nossa própria sobrevivência, nos leva ao delírio de conhecer absolutamente.

Ao favorecer os esforços do paciente para escapar desse tipo de absolutismo e aguentar o terror e a insegurança de enfrentar uma realidade incontrolável, a análise ajuda o ego do paciente a ganhar ascendência sobre o superego arcaico e a transformá-lo num superego maduro – uma transformação do moralismo baseado na onisciência e delírio de controle em moralidade baseada na verdade e na consciência dos limites.

 

Psicanálise e verdade

No livro Transformações, Bion (1965, pp. 37-38) procura investigar a relação da psicanálise com a verdade, delineando a diferença entre propaganda e as investigações que levam à verdade. Começa assinalando que o que o analista faz com as comunicações do paciente pode ser dividido em duas grandes categorias, dependendo da intenção do analista.

A primeira consiste nas verbalizações pelo analista de suas experiências na sessão. Esse tipo de interpretação não tem a pretensão de saber o que está na mente do paciente, é apenas uma tentativa de o analista transmitir a sua própria experiência – de dar a sua própria versão (reconhecida como tal) a respeito do que o paciente está comunicando – visando demonstrar algo que o analista sinta valer a pena o paciente levar em conta, não implicando que seja verdade nem em estar preocupado em como o paciente poderia responder a ela emocionalmente. De acordo com Bion, quando o analista está fazendo isso,

a posição do analista é semelhante à do pintor que, pela sua arte, acrescenta algo à experiência do público. Uma vez que a psicanálise não visa controlar a vida do paciente, mas capacitá-lo a vivê-la de acordo com suas luzes e, portanto, saber quais são essas luzes, [a interpretação do analista] deveria ser a representação verbal do psicanalista de uma experiência emocional... [Essa] expressão verbal deve ser limitada, de modo a exprimir a verdade sem qualquer implicação que não seja a de ser verdade na opinião do analista. (1965, p. 37, ênfase original)

Os analistas devem deixar claro que estão apenas transmitindo uma opinião, diminuindo, dessa maneira, as idealizações que o paciente faz das palavras do analista como sendo a verdade revelada ou a verdade absoluta, idealização que coloca os analistas na posição de um superego arcaico; isso não só alivia o paciente da necessidade de pensar mais, como também o inibe de fazer isso, mesmo que ele queira.

A segunda categoria consiste de interpretações que tentam induzir, de modo calculado, um estado emocional no paciente, por razões "terapêuticas". Bion descreve isso como

repugnante à teoria e à prática psicanalítica. O pintor que trabalha sobre as emoções do público com uma finalidade em vista é um propagandista com a aparência de um artista de cartazes. Ele não tem a intenção de que seu público esteja livre para escolher o uso que bem entender de como tomar a comunicação que ele faz. (1965, p. 37)

Bion acha valioso distinguir a manipulação tendenciosa das emoções do paciente (i.e., fazer propaganda ao paciente) de algo como integridade artística ou científica – por que os analistas precisam fazer essa distinção se quiserem preservar a integridade do trabalho. Mas, prossegue e pergunta: o que significa integridade, em psicanálise?

Como é que a verdade deve ser, para ser um critério? ... Em relação a quê ela tem que ser verdadeira e como decidir se é ou não? ... Recorrer à experiência analítica para encontrar uma pista? ... o problema surge com personalidades esquizoides, cujo superego aparece, em termos de desenvolvimento, como anterior ao ego e não concedendo ao ego desenvolvimento e existência própria. A usurpação, pelo superego, da posição que deveria ser ocupada pelo ego, envolve um desenvolvimento imperfeito do princípio de realidade, a exaltação de uma perspectiva "moral" e falta de respeito à verdade. O resultado é a inanição da psique e a atrofia do crescimento. Encararei esta afirmação como um axioma que resolve mais dificuldades do que cria. (1965, pp. 37-38)

O axioma de Bion implica que a busca da verdade é vital para a mente como o é a busca da comida para o organismo. Qualquer coisa que ameace seriamente a busca pela verdade ameaça a vida da mente.

Quando Pilatos perguntou "O que é a verdade?", Jesus respondeu que era o homem que estava de pé diante dele. Bion responde, com efeito, "observações feitas a partir de um estado mental cuja função egoica não foi usurpada pelo superego", uma resposta talvez mais seca e menos poética do que a mais famosa, mas bastante boa para os nossos propósitos.

O superego arcaico – o superego que usurpa a função do ego – substitui o aprender pela experiência por uma perspectiva "moral", que está bem expressa na mutilação de Édipo e na perseguição de Orestes pelas Eríneas. O ponto, naturalmente, não é de não haver nada de errado com o incesto ou o matricídio. É que a punição desses dois homens (o crime de um, baseado na ignorância, e do outro no desejo de vingar o assassinato do pai) é tão implacável, destrutiva e intensa que se torna ela própria um ato criminoso. Um superego como esse preside um regime fundamentalista, em que a investigação livre é inimiga do estado (como Laio, pai de Édipo, via o bebê Édipo), a ser morta no nascimento (como Édipo teria sido, se o plano do pai não tivesse dado errado). Tal severidade torna impossível o exame livre, imaginativo de que a personalidade precisa, se quiser observar, pensar e descobrir a verdade que a sustenta.

A criatividade é disciplinada pela observação, e uma verdadeira criação (artística ou científica) transmite a observação de alguma verdade, simplesmente por transmiti-la, não com o propósito de propaganda. A observação depende, por sua vez, da liberdade criativa de ver as coisas como elas são.

A criatividade reside na parte da personalidade em que a beleza do mundo combina com a coragem de se engajar nela, incentivando o ego a criar por si mesmo. O modelo intrapsíquico de beleza se encontra na apreensão da criança da sua bela mãe, bela por ser a fonte da sua vida, bem como da continência psicológica que ajuda a criança a suportar o terror da beleza dela. O modelo intrapsíquico de coragem decorre da maneira como a criança vê o pai – corajoso porque, apesar de seus próprios medos, ele põe sua segurança em risco para abrigar e defender a mãe contra os perigos que a danificariam ou a destruiriam.11

O desenvolvimento da criatividade das crianças depende de elas permitirem que essas características parentais misteriosas se combinem em uma relação sexual espontânea e criativa. Quando a beleza da verdade (que também é aterradora) se combina com a coragem, para defendê-la dos ataques, o resultado é a criatividade. Ao passo que o superego arcaico, de um lado, usurpa a função do ego e destrói a criatividade, o superego maduro promove a função do ego e é fonte da criatividade. O superego maduro é produto da luta edipiana bem-sucedida da criança para permitir que os pais se combinem espontânea e misteriosamente – isto é, para além do seu controle e de maneiras que vão além da sua compreensão. Se a criança resolveu seu conflito edipiano de modo saudável, aceitando a distância entre ela mesma e os pais (que é outro jeito de dizer que ela aceitou sua posição no triângulo edipiano), ela pode permitir que os pais tenham as qualidades de beleza e coragem e que eles as combinem em união criativa. Consequentemente, ela terá um superego maduro, que não só lhe permite criar por si mesma, como também lhe fornece uma fonte de inspiração criativa ao feitio de uma musa.

Só ficamos livres para criar à medida que superamos a nossa necessidade, impulsionada por medo e insegurança, de aprisionar essas presenças parentais vitais dentro de nós mesmos. Esse aprisionamento as sufoca e as priva de sua própria criatividade livre, deixando- nos aptos apenas para fazer uma mímica da sua existência asfixiada. Libertando-as, e pagando o preço pela insegurança decorrente, podemos viver sob a sua égide, respeitados por elas assim como as respeitamos, livres para conhecer e para criar, para nós mesmos, o que é real.

 

Referências

Bion, W.R. (1961). Experiences in groups and other papers. New York: Basic Books.

Bion, W.R. (1965). Transformations. London: Heinemann.

Breuer, J. & Freud, S. (1953). Studies on Hysteria. In S. Freud, Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 2, p. 35). London: Hogarth Press. (Trabalho original publicado em 1895)

Caper, R. (2009). Building out into the Dark: Theory and observation in science and psychoanalysis. London: Routledge.

Glover, E. (1931). The therapeutic effect of inexact interpretation: a contribution to the theory of suggestion. International Journal of Psychoanalysis, 12: 397-411.

Wittgenstein, L. (2001). Tractatus Logico Philosophicus. London: Routledge.

 

Tradução: Liana Pinto Chaves
Revisão Técnica: Haroldo Pedreira

 

Endereço para correspondência

Robert Caper
[Universidade da Califórnia UCLA]
Bedford Wilshire Building
360N Bedford Dr Ste 44
Beverly Hills, CA
USA
e-mail: caper@ucla.edu

 

[Recebido em 20.7.2010, aceito em 20.8.2010]

 

 

1 Este trabalho compõe o capítulo 10 do recente livro do autor com o título, Building out into the the dark. Theory and observation in science and psychoanalysis. London: Routledge, 2009.
2 Psicanalista. Professor assistente de Clínica na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em Los Angeles e autor de vários artigos e livros, entre os quais Fatos imateriais e Tendo mente própria lançados no Brasil pela editora Imago em 1990 e 2010, respectivamente.
3 Capítulo 9 do livro.
4 Como Freud (1895/1953, p. 35) disse, com a dose certa de ironia pesarosa, a psicanálise converte a miséria histérica em sofrimento humano comum.
5 A remoção de sintomas pela farmacologia ou pela terapia comportamental oferece, sem dúvida alguma, alívio imediato do sofrimento. Além disso, essas abordagens são, para muitos pacientes, as únicas abordagens práticas. O ponto que quero acentuar é que elas podem ter consequências de longo prazo que precisam ser levadas a sério.
6 Aquilo de que não se pode falar, deve-se calar. (37, p. 89)
7
Este é o perigo do qual nos alertava Glover (1931). O fato de o paciente poder ser cúmplice voluntário não alivia o analista da responsabilidade pelo seu papel na questão.
8
Édipo acreditava poder livrar a cidade da praga sem estragar nada valioso. Na minha leitura do mito, essa era a verdadeira hubris.
9
Os gregos acreditavam que as Eríneas operavam sobre suas vítimas perturbando suas mentes com sentimentos intoleráveis de perseguição, que levavam à loucura. O superego arcaico trabalha da mesma maneira.
10 Esse hábito mental faz parte da perspectiva psicanalítica a que me referi no parágrafo de abertura deste trabalho.
11 Chamo essas presenças de modelos intrapsíquicos por elas existirem na mente. A relação delas com os pais externos é complexa. Elas são modelos ou ideais, e o importante é que a criança tenha na mente o conceito dessa beleza e coragem como algo a que ela pode aspirar, independentemente do grau em que os pais reais corporificam ou não essas qualidades.