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Aletheia

Print version ISSN 1413-0394

Aletheia  no.26 Canoas Dec. 2007

 

ARTIGOS DE ATUALIZAÇÃO

 

Estados de identidade: uma análise da nomenclatura

 

Identity states: Analyzes of the terms

 

 

Maria Aznar-FariasI,*; Teresa Helena Schoen-Ferreira**

I Universidade Católica de Santos &– Unisantos. Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicologia “Carolina Bori”

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente trabalho analisa os termos utilizados para traduzir os estados de identidade propostos por Marcia em consonância com a teoria psicossocial de Erikson. Discute o significado dos termos e propõe uma nomenclatura para uso em Língua Portuguesa no Brasil.

Palavras-chave: Adolescência, Desenvolvimento de identidade.


ABSTRACT

The present work analyzes the terms used to translate the identity states proposed by Marcia, according to Erickson’s psychosocial theory. It discusses the meaning of the terms and proposes names for their use in Brazilian Portuguese.

Keywords: Adolescence, Identity development.


 

 

Introdução

A formação da identidade está intimamente associada ao estudo da adolescência. Muitos são os autores que estabelecem a aquisição da identidade como a principal tarefa desse período. Por englobar tarefas específicas dos diversos segmentos da formação total do indivíduo, podemos centrá-la com a tarefa principal.

Na realidade deveríamos falar em evolução para indicar o verdadeiro transcurso de um processo que, segundo Erickson (1968/1972), dura toda a vida, chamado por ele de ciclo vital. A cada etapa temos características típicas e distintivas que vão sucessivamente sendo transformadas pela ação das vivências da interação indivíduo/meio.

Essa é uma cadeia evolutiva na qual o presente é o elo entre o passado e o futuro. Cada ocorrência funciona ao mesmo tempo como causa e como efeito.

O primeiro autor a falar em desenvolvimento da identidade foi Erikson (1968/1972). Ele propôs dois pólos opostos no desenvolvimento da identidade, que seriam a construção da identidade (identity achievement) e uma identidade difusa (identity diffusion) ou confusão de papéis. A construção da identidade seria o resultado positivo das explorações ocorridas na adolescência e seu conseqüente comprometimento, no final deste período, com alguma ocupação ou ideologia.

A Teoria Psicossocial de Erikson, de elaboração bastante complexa, deteve-se no terreno terminológico e estudos de caso. O progresso da teoria Psicossocial dependeu do trabalho preliminar, porém necessário, de desenvolvimento de medidas específicas dos conceitos abordados. Marcia, em 1966, publicou um artigo operacionalizando o conceito de identidade e sistematizando, de forma bastante simples, as duas dimensões essenciais na formação da identidade pelo adolescente: exploração e compromisso.

Por exploração, Márcia (1966) entendia o período de tomada de decisão, quando antigos e novos valores e escolhas são examinados. Época em que o indivíduo ativamente se envolve na exploração de alternativas ocupacionais ou ideológicas. O resultado desejado da exploração é o compromisso com alguma idéia ou papel específico.

Por compromisso ou comprometimento, Márcia (1966) supõe que o indivíduo tenha realizado uma escolha relativamente firme, servindo como base ou guia para sua ação. O comprometimento é medido pelo grau de investimento pessoal que o indivíduo expressa. Corresponde às questões que mais valoriza e com as quais mais se preocupa, refletindo o sentimento de identidade pessoal.

Para estudar como é o desenvolvimento da identidade, Márcia (1966) utilizou medidas e critérios congruentes com as postulações da Teoria Psicossocial. Elaborou uma entrevista semi-estruturada, formulando perguntas destinadas a revelar em que medida os adolescentes estão explorando ou se comprometendo com os temas. Medindo as duas dimensões &– exploração e compromisso &–, propôs quatro estados de identidade: foreclosure, moratorium, diffusion e achievement.

No estado de foreclosure, o adolescente persegue metas ideológicas e profissionais eleitas por outros (pais, figuras de autoridade). O adolescente não explora, porque aceita os valores e expectativas dos outros. Compromete-se com o que foi definido pelos pais ou pela cultura. Pode ser o estado inicial do processo de formação da identidade adulta, partindo dos valores infantis (Stephen, Fraser & Marcia, 1992).

No estado de moratorium, os compromissos são postergados e o adolescente debate-se com temas profissionais ou ideológicos. Está explorando as alternativas e ainda não escolheu nenhuma.

No estado de achievement, o jovem fez suas escolhas e persegue metas profissionais ou ideológicas. Explorou e chegou a algum compromisso.

No estado de diffusion, o adolescente não está explorando, embora possa tê-lo feito no passado, e não chegou a nenhum compromisso. Pode ter tentado tratar algum tema ou ignorado, mas não tomou decisões e não está preocupado em fazê-lo. O jovem não se sente pressionado neste sentido. Pode representar um estágio inicial no processo de aquisição de identidade, no período da adolescência inicial, ou representar o fracasso em estabelecer compromissos.

Após esta primeira pesquisa de Marcia, muitos autores continuaram estudando o desenvolvimento da identidade, inclusive desenvolvendo novos instrumentos.

A tradução dos termos utilizados originalmente por Marcia varia entre os diversos seguidores de língua não inglesa. Matos, Barbosa e Costa (2000) optaram por não traduzir, utilizando os termos em inglês.

O presente trabalho tem por objetivo analisar os termos propostos por Márcia (1966) nas diversas traduções dos trabalhos que utilizam a Teoria Psicossocial, procurando propor palavras, em português, que mais se aproximem do significado original. Para tanto, inicialmente foi feita uma busca em livros de desenvolvimento &– originais ou traduzidos &–, que estão em português ou espanhol, para verificar quais as palavras escolhidas para traduzir cada um dos estados de identidade. Também foi feita uma busca em artigos sobre identidade escritos em espanhol ou em português, para saber quais as palavras que os autores escolheram. Os livros sobre desenvolvimento que eram de língua inglesa foram traduzidos sob a supervisão de renomados psicólogos, ligados a importantes instituições de ensino.

Observamos que no estado diffusion não há problemas quanto à escolha do termo. Os autores usam a tradução exata da palavra ou alguma variante próxima. A palavra difusão transmite claramente a noção de que o indivíduo não se comprometeu com nenhuma idéia ou papel. Na tradução espanhola de Kimmel e Weiner (1998) também é utilizado o termo identidade não estabelecida, bem próximo ao que Erikson coloca como fracasso na tarefa de construir uma identidade pessoal. Os termos difusão de identidade ou identidade difusa transmitem a idéia de uma identidade amorfa, nebulosa, sem contorno definido, típico de um estado de indefinição e apatia em relação a idéias ou projetos.

Outro termo que não apresentou dificuldades de tradução foi moratorium. A palavra moratória transmite a idéia de postergação, de dilatação de prazo para o cumprimento dos compromissos. A adolescência é um período no qual o indivíduo pode explorar as diversas opções propostas pela sociedade. Dessa forma, ele vai se conhecendo antes de comprometer-se com alguma ideologia ou papel. É um período para integração dos elementos da identidade.

Os termos utilizados para traduzir o estado de foreclosure foram, em espanhol, identidad prematura (Berger & Thompson, 1997; Zacarés, 1997), compromiso (Hoffman, Paris & Hall, 1997), identidad de compromiso (Berk, 2001), cerrazón (Zacarés, 1997), hipoteca (Fierro, 2000), identidad hipotecada (Zacarés, 1997) e identidad prestada (Kimmel & Weiner, 1998), e, em português, execução (Schoen-Ferreira, Aznar-Farias & Silvares, 2003), pré-fechamento (Atkinson, Atkinson, Smith, Bem & Nolen-Hoeksema, 2002; Papalia, Olds & Feldman 2006), hipoteca (Atkinson & cols., 2002; Fierro, 1995), cobrança de identidade (Santrock, 2003), insolvência identitária (Sprinthall & Collins, 1999) e exclusão (Cole & Cole, 2004). Entendemos a idéia do tradutor de Cole e Cole (2004) ao utilizar a palavra exclusão como a retirada de toda a possibilidade de explorar opções que não sejam aquelas transmitidas por seu grupo social mais influente. Os tradutores que escolheram a palavra execução fazem quase que uma analogia com os operários, que executam as ordens dos chefes sem terem a possibilidade de questioná-las. O termo identidade hipotecada transmite a noção de que a casa não lhe pertence, você mora numa casa que é de outro. Do mesmo modo, identidad prestada, dá a idéia de que os valores e ideologias são tomados temporária ou permanentemente de outrem. Estes dois últimos termos, porém, parecem que a qualquer momento temos que devolver o que pedimos emprestado, ou a casa será tomada. Achamos, no entanto, que a palavra em português, que melhor traduz o termo, é pré-fechamento. O indivíduo em pré-fechamento compromete-se com idéias e valores antes de explorar o campo. Assume compromissos prematuramente, sem ter tido a oportunidade de verificar quais as idéias ou opções que mais está de acordo com seu modo de ser. Ele pode estar em pré-fechamento pelas mais diversas razões: 1) cognitiva, onde o indivíduo não alcançou o desenvolvimento do pensamento abstrato e do raciocínio hipotético-dedutivo necessário para avaliar os campos ideológicos, ocupacionais e interpessoais; 2) social, onde simplesmente o grupo social em que o indivíduo se encontra inserido não oferece opções a serem exploradas; ou 3) familiar, onde pais autocráticos não desenvolvem em seus filhos a habilidade de explorar e nem aceitam que estes discutam seus valores ou opções de vida. O termo pré-fechamento transmite esta idéia de fechar compromissos precocemente, sem que o indivíduo tenha analisado as opções possíveis. O processo foi encerrado antes de ser concluído.

O termo identity achievment, como o anterior, tem diversas traduções. Em espanhol encontramos consecución (Berger & Thompson, 1997), construcción de la identidad (Hoffman e cols., 1997), logro de identidad (Berk, 2001; Zacarés, 1997), logro ou estado de logro (Kimmel & Weiner, 1998), realización de la identidad (Fierro, 1998). Em português: obtenção da identidade (Bee, 1996), realização da identidade (Atkinson & cols., 2002; Fierro, 1995; Santrock, 2003; Sprinthall & Collins, 1999), conquista da identidade (Cole & Cole, 2004; Papalia & cols., 2006), construção da identidade (Schoen-Ferreira e cols, 2003), identidade integrada (Hockenbury & Hockenbury, 2003) e aquisição ou conquista da identidade (Cole & Cole, 2004; Papalia & Olds, 2000).

Pensamos que talvez devamos traduzir para a nossa língua o sentido do termo original, um que não cause confusão, encerrando nele uma idéia de processo. Os termos construção e aquisição dão a idéia de processo em andamento, quando o sentido de Márcia (1966) é o de identidade estabelecida por intermédio dos compromissos assumidos. Assim propomos o termo identidade estabelecida. O verbo estabelecer embute a ação de obter dados para a decisão. Como por exemplo, quando uma mãe fala que quer estabelecer as regras de casa, significa que muitos comportamentos existem, mas somente alguns serão os escolhidos. No caso da Teoria Psicossocial, implica em explorar ideologias, papéis e ações para assunção do compromisso.

Concluindo, a nossa proposta é de utilizar para diffusion, difusão de identidade, para o termo foreclosure, pré-fechamento, para o termo moratorium, moratória, e para identity achievement utilizar o termo identidade estabelecida.

 

Referências

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Endereço para correspondência
E-mail: maznar@unisantos.br

Recebido em setembro de 2006
Aceito em abril de 2007

 

 

* Maria Aznar-Farias: psicóloga; doutora do Curso de Psicologia da Universidade Católica de Santos &– Unisantos; coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicologia “Carolina Bori” da Unisantos.
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Teresa Helena Schoen-Ferreira: psicóloga; mestre em Ciências Aplicadas à Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo &– UNIFESP.

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