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Aletheia

versão impressa ISSN 1413-0394

Aletheia vol.49 no.2 Canoas jul./dez. 2016

 

ARTIGOS TEÓRICOS - PSICOLOGIA

 

Da academia para o divã: reflexões sobre o narcisismo

 

From the gym to the divan: reflections on narcissism

 

 

Rodrigo Traple Wieczorek

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura

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RESUMO

O objetivo deste estudo foi investigar a relação do narcisismo com manifestações atuais de sofrimento relacionadas com a identidade e a imagem através das alterações no corpo. Foi exposta a existência do papel da cultura contemporânea nessa dinâmica, mas considerou-se principalmente a importância de questionar a constituição psíquica de cada sujeito e de que maneira ele comunica o seu sofrimento através das ofertas que a cultura faz. Como referencial teórico, utilizou-se a psicanálise freudiana e artigos que trabalham a vigorexia. Como metodologia, apresentaram-se recortes do discurso de participantes de um documentário sobre o fisiculturismo. Notou-se a importância da sensibilidade na escuta desses sujeitos que nem sempre nos comunicam seu padecer através do discurso, senão por atos – atos que podem camuflar-se nos discursos e nas normas que a nossa cultura estabelece.

Palavras-chave: Narcisismo, Imagem corporal, Vigorexia.


ABSTRACT

This study aims to observe the relation between narcissism and identity and image suffering related to body modifications. Here, it was uncovered the role of contemporary culture in this dynamics, also considering the importance of questioning the psychical constitution of each subject, and how they communicate the inner suffering by means of the offers that culture does. Freudian psychoanalysis papers and studies related to Muscle dysmorphia was used as bibliographical reference, and clippings of bodybuilding documentary with participants' speeches was presented as case reports. It was observed the importance of being sensitive in listening these subjects, that most part of the time are unable to report their suffering by their discourse, but, by acts that can camouflage themselves in speeches and standards that our culture establishes.

Keywords: Narcissism, Body image, Muscle dysmorphia.


 

 

Introdução

Ao nos referirmos ao termo narcisismo, faz-se necessário retornar à origem deste conceito e à sua evolução. A origem se dá no mito grego de Narciso, que sofre a vingança de uma ninfa rejeitada por ele. Ao deparar-se com seu reflexo nas águas de uma fonte, sem saber que lhe pertencia, apaixona-se pela própria imagem. Ao tentar tocar a imagem percebe que correspondia a ele mesmo. A partir daí, instalou-se a tragédia, Narciso depara-se com a impossibilidade de realizar o seu desejo. Frustrado, decide abandonar a própria imagem, se automutila e termina com a sua vida lentamente (Roudinesco & Plon, 1998).

Sobre o primeiro uso do termo no campo da psicologia, Roudinesco e Plon (1998) afirmam que Alfred Binet em 1887 foi o responsável, classificando como uma patologia no campo do fetichismo, sendo que o sujeito tomaria a si mesmo como objeto sexual. Já em 1898 seguindo uma linha semelhante, é encontrado na descrição de uma perversão por Havelock Ellis. No ano seguinte, Paul Näcke traz o termo para a língua alemã, e no texto "Introdução ao narcisismo", de 1914, vemos a referência que Freud faz ao autor. Freud comenta sobre a definição de narcisismo feita por Näcke: "Desenvolvido a esse ponto, o narcisismo tem o significado de uma perversão que absorveu toda a vida sexual da pessoa, e está sujeito às mesmas expectativas com que abordamos o estudo das perversões em geral" (Freud, 1914/2010, p.14). Freud, ao longo deste escrito, ao incluir esse conceito na psicanálise não outorga somente características de psicopatologia. Vai além, atribuindo-lhe um lugar fundamental no desenvolvimento do psiquismo humano.

Sobre o uso do termo narcisismo em psicanálise, Laplanche e Pontalis (2001) propõem que existe uma relação com o mito de Narciso, ou seja, onde existe amor por si próprio, pela própria imagem. Os autores demonstram que para Freud é um estágio do desenvolvimento de qualquer indivíduo, no qual o investimento libidinal é direcionado para o próprio ser, o corpo torna-se destino das pulsões sexuais. Este narcisismo infantil é fundamental no desenvolvimento, tem papel estruturante na formação do Eu1. É o momento em que o pequeno ser é investido de todas as qualidades pelos pais, ato em que o narcisismo infantil desses pais é revivido e projetado no filho. Um momento particular, retratado por essa passagem: "Mas também se verifica, a tendência a suspender, face à criança, todas as conquistas culturais que o seu próprio narcisismo foi obrigado a reconhecer, e a nela renovar as exigências de privilégios há muito renunciados" (Freud, 1914/2010, p.36-37). Muito se ampliou o conhecimento na psicanálise sobre o desenvolvimento psíquico, suas fases fundamentais e possíveis desfechos graças ao estudo das neuroses e psicoses, as perguntas que tomam lugar neste momento são: E quando essa fase estruturante não se dá de forma a sustentar e estruturar a imagem de si do sujeito? Que possíveis manifestações de sofrimento podem tomar lugar?

Além da investigação sobre o desenvolvimento psíquicos do indivíduo, é importante lembrar que a cultura contemporânea tem preparado um terreno propício para manifestações de sofrimento através do narcisismo, que contribuem com a formação de uma ilusão de autossuficiência. Quanto a isso, Freud afirma sobre o ideal do Eu ao final do trabalho "Introdução ao narcisismo": "Além do seu lado individual, ele tem o social, é também o ideal comum de uma família, uma classe, uma nação" (Freud, 1914/2010, p.50). Mas isso não parece ser suficiente, mesmo que seja confortador. Como exalta Fransischelli (2007) sobre a simplificação das problemáticas da clínica a partir das demandas sociais, é necessário o exercício de pensar o papel do psicanalista frente a tais demandas. O presente trabalho pretende contribuir ao pensamento da clínica contemporânea com algumas reflexões acerca dos sujeitos que expõem seu sofrimento predominantemente através do seu corpo, da posição que tem em relação a sua imagem e do uso que fazem de ferramentas disponíveis na atualidade para alterá-los.

A popularização de espaços que promovem saúde, incentivo ao exercício físico e ao cuidado são extremamente importantes. Entretanto, a reflexão de como esses espaços vem sendo utilizados se torna pertinente. Nas redes sociais, na mídia e no dia a dia das academias, vemos uma popularização do culto ao corpo perfeito e definido. Além disso, é presente a má utilização de suplementação alimentar, o uso de esteroides anabólicos sem necessidade indicada pela medicina e um excesso de exercícios físicos. O termo vigorexia é utilizado atualmente para descrever esse conjunto de manifestações, antes chamado de "anorexia nervosa inversa" e de "complexo de Adonis" (Molina, 2007). No estudo realizado por Molina (2007), são expostas pesquisas que apontam, que 10% dos frequentadores habituais de academias expunham essas características. Este autor ainda considera que a vigorexia perpassa os campos das novas adicções, da obsessão, dos transtornos alimentares e da percepção alterada da própria imagem. Um aumento no número de indivíduos que sofrem com transtornos da imagem corporal e gastam tempo descomedido realizando exercícios sem qualquer moderação foi apontado por Castro-Lopez, Molero, Cachón-Zagalaz, e Zagalaz-Sánchez (2014). O trabalho de Petroski, Pelegrini e Glaner (2012) mostra que atualmente existe uma grande insatisfação com a imagem corporal, essa insatisfação pode ser um dos fatores que levam a tentativas de solução que são conduzidas de maneira exagerada. Um estudo feito sob um olhar psicanalítico da vigorexia realizado por Feitosa Filho (2014) mostra esse sintoma como uma expressão do mal-estar na cultura atual. Alguns dados locais são apresentados no estudo de Silva et al. (2007), realizado em 13 academias da cidade de Porto Alegre, apontou que 11,1 % dos praticantes de musculação desses espaços faz uso de esteroides anabólicos androgênicos. O artigo de Soler, Fernandes, Damasceno e Novaes (2013) mostra que é recorrente que esses indivíduos passem mais tempo do que pretendem praticando exercícios e que quanto mais tempo é dispensado nas sessões de treino maior o risco à desenvolver abstinência. Isso pode levar a considerar que a perda de controle em relação às atividades que servem para moldar o corpo tem um papel importante.

Que vida é essa que precisa ser preenchida concretamente por músculos e substâncias? A serviço de que está esse imperativo ao corpo perfeito? A partir do trabalho de reflexão sobre a atualidade, o narcisismo e como a psicanálise pode colocar suas ferramentas para fazer uma compreensão, surge esse trabalho que se inicia com a retomada do conceito de narcisismo na obra de Freud e posteriormente é feita uma leitura da vigorexia e das alterações do corpo como forma de sintoma e manifestação de sofrimento contemporâneo. Como recurso de ilustração foram utilizados recortes do discurso de participantes do documentário Generation Iron (Yudin, 2013), no qual acompanham a preparação de participantes do concurso de fisiculturismo Mister Olympia que ocorreu no ano de 2012 em Las Vegas.

Narcisismo em Freud

Freud (1914/2010) traz que o narcisismo é: "[...] complemento libidinal do egoísmo do instinto de autoconservação, do qual justificadamente atribuímos uma porção a cada ser vivo" (Freud, 1914/2010, p.15). Seguindo essa definição, ele traz que na psicose, mais especificamente na esquizofrenia, e na neurose há uma retirada da libido dos objetos da realidade externa. Na neurose ainda existe um investimento, mesmo que este se suceda na fantasia. Já o esquizofrênico não faz essa substituição na fantasia.

Para pensar a constituição do narcisismo no desenvolvimento psicossexual, devemos voltar ao conceito de autoerotismo. Considera-se o autoerotismo o momento inicial, mais primitivo da sexualidade infantil. Explica Garcia-Roza (1995, p.42), esse momento: "[...] no qual a pulsão sexual encontra satisfação sem recorrer a um objeto externo". Há uma desarticulação das pulsões parciais à procura de satisfação pelas zonas erógenas do corpo. Assim, não há unificação do ser. E é necessário existir um Eu, para existir o narcisismo. É relevante lembrar que durante esse início da vida, o pequeno ser não faz a diferenciação do eu – não eu, por isso é possível que o destino de toda a libido seja o próprio sujeito, já que não há essa diferenciação. É a libidinização de seu corpo, de sua imagem que começa a dar sustentação e unidade para o pequeno ser anteriormente indiferenciado e fragmentado. Momento rudimentar, onde há unificação das pulsões sexuais segundo Laplanche e Pontalis (2001).

Sobre o narcisismo primário podemos destacar essa síntese de Freud: "Formamos assim a ideia de um originário investimento libidinal do Eu, de que algo é depois cedido aos objetos, mas que persiste fundamentalmente, relacionando-se aos investimentos de objeto como o corpo de uma ameba aos pseudópodes que dele avançam" (Freud, 1914/2010, p.17). Nota-se como o narcisismo primário se conserva, sendo esse interjogo econômico de libido muito importante. Entende-se que o Eu foi inicialmente tomado como objeto de investimento da libido, para em um segundo momento poder investir nos objetos externos contando com esse primeiro investimento libidinal estruturante para o indivíduo. Pois, no autoerotismo não há um objeto externo definido. Então, a libido percorre o caminho da constituição de possibilidades de investimento em objetos externos (Garcia-Roza, 1995).

O narcisismo secundário se dá através do retorno da libido para o Eu. De maneira que, a libido que estava no Eu é investida em direção ao objeto e o retorno dessa libido para o Eu é o que caracteriza o intercâmbio que dá destino a essas moções. Assim Freud mostra que a libido pode ser investida no Eu e também em objetos externos. Nesta gangorra entre libido do Eu e libido de objeto, sempre que há mais investimento no Eu, acarretará menos investimento nos objetos externos e o contrário, seguindo essa mesma regra.

Destacando certas possibilidades de escolha de objeto Freud (1914/2010) as separa em dois grupos, um conforme o tipo narcísico: o que ela mesma é; o que ela mesma foi; o que ela mesma gostaria de ser ou a pessoa que foi parte dela mesma, e outro conforme o tipo de apoio: a mulher nutriz ou o homem protetor e as formações substitutas em outros objetos que se referem a essas figuras primordiais.

A esse ideal do Eu dirige-se então o amor a si mesmo, que o Eu real desfrutou na infância. O narcisismo aparece deslocado para esse novo Eu ideal, que como o infantil se acha de posse de toda preciosa perfeição. Aqui, como sempre no âmbito da libido, o indivíduo se revelou incapaz de renunciar à satisfação que uma vez foi desfrutada. Ele não quer se privar da perfeição narcísica de sua infância, e se não pôde mantê-la, perturbado por admoestações durante seu desenvolvimento e tendo seu juízo despertado, procura readquiri-la na forma nova do ideal do Eu (Freud, 1914/2010, p.40)

Nesta passagem de Freud ainda podemos destacar que o desenvolvimento do sujeito se dá através dessa passagem de um Eu ideal, que tem a necessária ilusão de completude e de alvo de todos os investimentos para um ideal de Eu que possa adaptar-se ao princípio da realidade e está relacionado à falta constituinte desse sujeito, de forma que esse ideal de Eu está relacionado ao exclusivamente ao princípio do prazer.

É de notável importância o narcisismo e o destino das pulsões estarem a serviço do Eu para a constituição do ser, sua autopercepção e as possibilidades de relacionar-se com a realidade exterior no futuro. Sobre a autoestima ilustra bem a passagem de Freud: "Tudo o que se tem e o que se alcançou, todo o resíduo do primitivo sentimento de onipotência que a experiência confirmou, ajuda a aumentar o amor próprio" (Freud, 1914/2010, p.45). Após essa descrição ele esclarece que a condição do amor-próprio está relacionada com a libido narcísica.

Sabe-se desde Freud, que mesmo existindo intercâmbio de libido para o objeto, a escolha de objeto é feita a partir de referências primitivas, relacionadas com o narcisismo, com as identificações e destinos advindos da situação edípica. Mas ele também nos esclarece, que esse movimento do sujeito só tem sucesso quando há retorno desse investimento aumentando a libido narcísica. Contudo, no decorrer do texto "Introdução ao narcisismo", Freud (1914/2010) apresenta a constituição do ideal de Eu e propõe que além dessas duas possibilidades de enriquecimento do amor-próprio, há ainda, a volta da onipotência por meio das vivências relacionadas ao cumprimento do ideal do Eu.

Pelo trabalho de Garcia-Roza (1995) sobre o narcisismo na metapsicologia freudiana, entende-se o Eu ideal como relativo à onipotência e a um Eu idealizado, portanto impossível. O ideal de Eu é formado internamente, mas a partir do externo, dos objetos externos e das identificações com os mesmos. Contido no ideal de Eu estão regras normativas e exigências que mediam as relações. Ao investir nesse ideal de Eu, abre-se a possibilidade de circulação da libido nas relações e intercâmbios com os objetos. Circulação que se faz elementar, dado que Freud aponta o problema de uma grande retenção de libido no Eu e da necessidade de se colocar essa energia em movimento, direcionando-a aos objetos exteriores: "Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando devido à frustração, não se pode amar" (Freud, 1914/2010, p.29). Logo, mostra-se imprescindível na escuta de um sujeito pensar sobre seus investimentos em si mesmo, nos objetos, quais recursos tem disponíveis para si e para se relacionar.

Alterações na imagem, alterações no corpo: o narcisismo em jogo

Por que estes indivíduos, praticantes do fisiculturismo, se recobrem de músculos a ponto de alterar drasticamente sua imagem? Essa armadura é construída frente ameaças percebidas no exterior ou para proteger um interior fragilizado? Ou, ainda, para buscar no olhar do outro sua sustentação, a formação de uma identidade?

A relação entre vigorexia e distorção da imagem corporal é apontada por Castro-Lopez et al. (2014). Esse estudo ainda propõe que a origem dessa obsessão por transformar o corpo está em ver defeitos físicos no mesmo, que deixam o indivíduo insatisfeito. Porém essa insatisfação não se restringe somente a imagem do corpo, mas também ao treinamento físico que empreendem. Quando não podem ou não conseguem treinar o que consideram suficiente em sua percepção, são acometidos por sentimentos de culpa e alteração no humor (Castro-Lopez et al., 2014).

O trabalho de Santos, Marques, Santos, Benute e Lucia (2012) leva em consideração o desinteresse do indivíduo no âmbito profissional, social e nos relacionamentos amorosos. "O desesperado anseio pelo perfeccionismo corporal e o acentuado investimento narcísico onde o ganho de músculos define o indivíduo, qualificando-o como bom ou ruim capaz ou incapaz, prende o indivíduo aos imediatismos" (Santos et al., 2012, p.9). O imediatismo da nossa cultura se encaixa com firmeza na resposta rápida que as substâncias químicas proporcionam. Essa é uma condição que auxilia na manutenção da ilusão de ascensão ao corpo perfeito (Santos et al., 2012).

O uso de medicamentos é presente no cotidiano dos praticantes de fisiculturismo. Os esteroides anabólicos são usados com o fim de fazer crescer, ou seja, de preencher o corpo de massa muscular, entretanto, o seu efeito máximo e "ideal" não perdura por muito tempo. De modo que é comum que os usuários dessas substâncias realizem novas aplicações, sendo cada sequência de aplicação chamada de "ciclo". Parece ser importante olhar para o conjunto de significados que são atribuídos a essas substâncias, para além do seu efeito de fazer crescer musculatura. Lembremos que essas substâncias são utilizadas no campo da medicina em pacientes que tem alguma deficiência na produção de testosterona, por alguma causa endógena ou pelo resultado de alguma intervenção externa, como por exemplo um acidente ou uma cirurgia. Então, essas substâncias produzem testosterona no corpo, potencializam essa produção, preenchem o indivíduo de potência, de certa forma imaginária o completam. Com o uso de esteroides anabólicos sentem-se seguros, protegidos e autoconfiantes (Santos et al., 2012)

Essas manifestações podem indicar que o que está fora, externo ao sujeito recebe um papel importante na sustentação da própria imagem. O interno que sustentaria essa imagem mostra indícios de uma fragilização? A autoestima torna-se muito volátil quando seu parâmetro de ideal é colocado em demasia no exterior. De modo que, essa dinâmica constantemente se manifesta através da insatisfação e recorre a respostas emergenciais. Frente a isso, o seguinte trecho demonstra: "O narcisista se desespera por substituir esse déficit com admiração externa. Uma sede que nunca se sacia" (Hornstein, 2013, p.242). A constante metamorfose do corpo, manifestação da busca pela meta impossível desvela a não constituição de um Eu sólido, resultando em uma identidade fragilizada que busca sustentação concreta no exterior. Existem lacunas na história de suas identificações e na construção de sua própria imagem, carregada de investimentos desde a relação com os objetos de identificação (Hornstein, 2013).

Parece que na vigorexia ocorre o contrário do que Freud coloca sobre a distribuição da libido. Sendo influenciada pelas alterações do Eu, não há oscilação na balança de libido do Eu versus libido do objeto. Os investimentos estão colocados na própria imagem e em sua alteração, há uma introversão do sujeito revelada em repetitivas e exaustivas práticas. Não há possibilidade de investimento em um objeto e posterior retorno desse investimento para o Eu através da retirada dessa energia do outro. As intermináveis e repetitivas sessões de exercícios preenchem um grande espaço na vida do sujeito. Figura uma falta de espaço para outros destinos de investimento libidinal. Este, enclausura-se na imagem ideal, e fica refém de uma repetição que se dá pela retenção de toda essa libido no Eu. "O corpo musculoso os remete ao desejo de crescerem e se fortalecerem subjetivamente, promovendo mesmo uma construção identitária" (Santos et al., 2012, p.10). Os investimentos são prisioneiros de um Eu ideal, numa incessante busca pela perfeição, por não se deparar com a falta, logo, o sujeito não se reconhece como um ser faltante atravessado pela castração.

Se torna difícil o reconhecimento do outro como ser diferente e assim abrir a possibilidade de investir ativamente no que está no exterior. Em seu texto de 1914, Freud pergunta qual a conveniência do sujeito investir sua libido nos objetos, ou seja, qual a importância de deslocamento dessa libido do Eu para os objetos, no seguimento do texto ele formula uma resposta:

Sendo a libido reprimida, o investimento amoroso é sentido como grave diminuição do Eu, a satisfação amorosa é impossível, o enriquecimento do Eu torna-se possível apenas retirando a libido dos objetos. O retorno da libido objetal ao Eu, sua transformação em narcisismo, representa como que um amor feliz novamente e, por outro lado, um real amor feliz correspondente ao estado primordial em que libido de objeto e libido do Eu não se distinguem uma da outra. (Freud, 1914/2010, p.48)

Na vigorexia e nas alterações corporais pelo uso de esteroides anabólicos, não se percebe uma distribuição da libido no interesse do indivíduo. Os investimentos se detêm no corpo em uma busca de completude e perfeição. A libido fica represada no Eu, com isso a pulsão de morte opera e em um ciclo de repetição, o psiquismo tenta dar conta dessas pulsões. Por consequência, essas repetições e atuações levam o sujeito a uma autodestruição, expondo o corpo aos extremos.

A seguir, seguem recortes de falas dos participantes do documentário Generation iron que ajudam a ilustrar. participante 1 contando sobre o que aconteceu após ter conquistado o troféu do concurso mais importante do fisiculturismo, o chamado Mister Olympia: "E foi no dia seguinte em uma sessão de fotos, eu sabia: 'Eu não gosto da forma que me vejo aqui'. E as pessoas diziam: 'Você está louco? Você acabou de ganhar de todo mundo. Você ganhou com a nota perfeita"2. Mostra a insatisfação com o seu feito, o quanto se tornou sem valor o que ele investiu por anos para conquistar e o que fica mais evidente é a continuação da insatisfação como a imagem de seu corpo. O participante 3 relata sobre o lugar que o fisiculturismo ocupa na sua vida: "Eu acho que eu nunca estava contente, nunca estava feliz com meu corpo. Isso foi realmente, você sabe, onde isso começou para mim". Tanto no relato do participante 1 que obteve diversos títulos, quanto no do participante 3 que fala sobre a motivação no início da prática do fisiculturismo mostra-se a insatisfação com a própria imagem e sua forma corporal. Assim, pode-se relacionar essa permanente insatisfação com uma fragmentação, um empobrecimento na constituição do Eu ideal. De modo que isto inviabilizaria o sujeito a passar a identificações com os objetos primários e constituir um ideal de Eu. Um ideal que seja marcado pelo princípio da realidade, ou seja, que suporte a incompletude do corpo, e suporte a impossibilidade de ver-se perfeito.

Nessa dinâmica da vigorexia se busca constituir algo que não foi vivido na constituição do psiquismo e do narcisismo, nem em ilusão. Participante 1: "Se você quer algo que nunca teve antes, você tem que estar disposto a fazer algo que nunca fez antes. E é por isso que eu vivo". O participante 2 relata lembranças da juventude: "As sensações de estar inseguro, se sentir inseguro, constantemente sob ameaça". Ele segue sua fala: "E as pessoas estavam na minha vida, há muito tempo prosseguiram. A única coisa que se mantém consistente, é ainda, você sabe, o foco para alcançar este objetivo final". Percebe-se a prática do fisiculturismo toma um lugar dominante na vida de alguns participantes do documentário, sendo que outros investimentos não se viabilizam. Quando se apresentam fragilidades na constituição da identidade e da imagem de si, isso pode levar o sujeito a ter prejuízos nas suas relações objetais. Sobre o reconhecimento do sujeito como como unidade, em uma totalidade de seu eu através do vínculo com o outro Garcia-Roza (1995, p.66) define: "Há um primeiro narcisismo que se relaciona à imagem corporal e um segundo narcisismo que implica a relação ao outro". Pois é na imagem do outro que é possível apropriar-se de sua imagem e desse ponto operar uma transformação psíquica.

Hornstein (2013) salienta a construção identificatória como possibilidade de estabelecer uma identidade, identidade não estática e finalizada, certamente. Todavia, na medida em que é possível que o sujeito tenha recursos internos para valer-se. Seguimos com mais um recorte do discurso do participante 1: "Existem muitas pessoas lá fora se perguntando: ' Ele pode conseguir de novo? ' Então é o meu trabalho lembrar eles e o mundo que eu sou o campeão". Sobre esta fala, a passagem seguinte se faz importante: "O narcisista intenta infrutuosamente substituir o amor próprio pela admiração externa. Seu eu é deficitário. Está ameaçado pela desvalorização ou por uma sensação de vazio interior" (Hornstein, 2013, p.119). A busca de valoração do sujeito se dá predominantemente no exterior, sua imagem e sua identidade estão enfraquecidos, desinvestidos. Assim, o outro vira um recurso sobreinvestido de sustentação de sua identidade e imagem.

Hornstein (2013) em sua contribuição, aponta a necessidade de elucidar os conflitos por trás da patologia. Nesse sentido, não basta fechar as possibilidades de escuta através de um diagnóstico fechado não abrindo espaço para a subjetividade. Devemos ter em mente que nossas afirmações sobre a psicopatologia são provisórias. Nos diz esse autor: "Não há para nenhum paciente um só registro. O identificatório (ser) e o objetal (ter), mesclados, esquivos também para o analista, atuam em todos" (Hornstein, 2013, p.117). No entanto, ele segue e traz que relativo ao narcisismo, ao eu e as patologias do narcisismo é preciso destacar a identidade, a valorização, a alteridade e as inibições do eu. Entende-se aqui, que esses elementos da constituição psíquica de um sujeito devem ser considerados especialmente na escuta dos indivíduos que apresentam seu sofrimento pela vigorexia e os excessos que estão implicados nela. Excessos que acabam por expor o sofrimento psíquico e a dificuldade de uma integração subjetiva. Finalmente, Hornstein (2013) coloca que nessa clínica é demandado ao analista uma potencialidade simbolizante, no sentido que, se faz necessário participar da produção de algo que nunca foi possível para aquele psiquismo. Entende-se que há maior necessidade de construção do que desvelamento de um conflito que está posto, através da interpretação.

 

Considerações finais

No sofrimento desses indivíduos, parece que se encontra presente a dependência da imagem completa e perfeita do corpo, uma total satisfação a partir do olhar do outro. A seguinte frase ilustra: "O narcisismo patológico implica a carência crônica de amor próprio e, não excesso, como geralmente se pensa" (Hornstein, 2013, p.242). A partir do que foi revisado, conclui-se que é considerável levar os aspectos que Hornstein (2013) destaca, e nos questionarmos para poder pensar essa patologia. Como se deram as identificações desse sujeito no percurso do desenvolvimento da sua subjetividade? Como foi a formação da sua identidade? Assim poderemos pensar quais recursos internos tem para posicionar-se frente às exigências internas e externas. Que valor atribui a si mesmo? Escutar sua verdadeira autoestima, pensar os investimentos no Eu. A capacidade de preservar-se e a possibilidade de estar à deriva em um estado de repetição mortífera. Como o sujeito se relaciona com os objetos? Analisar se reconhece a respectiva alteridade desses objetos ou estabelece uma relação uma relação dual, fundada na imaginação. As funções do Eu estão disponíveis? Tais funções podem estar investidas ou estarem esvaziadas pela inibição.

É imprescindível a sensibilidade na escuta desses sujeitos que nem sempre nos comunicam seu padecer através do discurso, senão, por atos, incluem-se aqui os exercícios em excesso e o seu resultado, que são as marcas no corpo. Tais atos que podem camuflar-se nos discursos e normas que a nossa cultura estabelece. Não basta somente a denúncia de dilemas da cultura, também não cabe, por outro lado, patologizar expressões do sofrimento natural da existência humana. Faz-se necessário problematizar e trazer contribuições desde o lugar que a psicanálise oferece, de reconhecimento da complexidade do psiquismo do ser humano.

 

Referências

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Freud, S. (2010). Introdução ao narcisismo. In S. Freud, Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (Paulo César, Trad.) (Vol. 12 pp.13-50). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra originalmente publicada em 1914).

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Hornstein, L. (2013). Las encrucijadas del psicoanálisis: subjetividade y vida cotidiana. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica.

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Endereço para contato
E-mail: rodrigotw4@hotmail.com

Recebido em: outubro de 2015
Aprovado em: maio de 2016

 

 

Rodrigo Traple Wieczorek: Psicólogo graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Atualmente cursando o mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
1 Justifica-se a utilização de Eu e não ego pela escolha da tradução das obras completas de Freud feita diretamente da língua alemã para o português indicada nas referências bibliográficas deste artigo.
2 Tradução nossa.

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