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Temas em Psicologia

versão impressa ISSN 1413-389X

Temas psicol. vol.24 no.3 Ribeirão Preto set. 2016

https://doi.org/10.9788/TP2016.3-05Pt 

ARTIGOS

 

Unidimensionalidade das escalas do Inventário de Estilos de Liderança de Professores - IELP

 

Unidimensionalidad de las escalas del Inventario de Estilos de Liderazgo de Profesores - IELP

 

 

Ana Priscila BatistaI; Lidia Natalia Dobrianskij WeberII; Plínio Marco de ToniIII

IDepartamento de Psicologia da Universidade Estadual do Centro-Oeste, Irati, PR, Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
IIIDepartamento de Psicologia da Universidade Estadual do Centro-Oeste, Irati, PR, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A análise fatorial exploratória pode ser utilizada para verificar a unidimensionalidade de escalas construídas para avaliar aspectos referentes a dimensões específicas da interação professor-aluno. O presente trabalho teve como objetivo demonstrar a avaliação da unidimensionalidade para as três Escalas (Responsividade, Exigência e Controle Coercitivo) do Inventário de Estilos de Liderança de Professores -IELP, utilizando-se os recursos da análise fatorial exploratória. Participaram dessa pesquisa 113 alunos de 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, com idade entre 8 e 11 anos, provenientes de escolas pública e privada de municípios do interior do Paraná. Foi utilizado o IELP com os 70 itens. A aplicação do instrumento foi coletiva com grupos de, no máximo, 25 alunos, em salas de aula. Nos resultados foi constatada a distribuição normal dos dados e que as escalas que compõem o IELP são unidimensionais. Em função da análise das cargas fatoriais, o número de itens em cada Escala foi reduzido: na Responsividade passou de 22 para 21 itens, na Exigência passou de 22 para 16 e na Escala Controle Coercitivo, passou de 26 para 19 itens. Dessa forma, a nova versão do IELP ficou com 56 itens que apresentaram carga fatorial > 0,3.

Palavras-chave: Unidimensionalidade, análise fatorial exploratória, interação professor-aluno.


RESUMEN

El análisis factorial exploratorio puede ser utilizado para averiguar la dimensionalidad de escalas construídas para evaluar aspectos relacionados a dimensiones específicas de la interacción profesor-alumno. El presente trabajo tuvo como objetivo demostrar la evaluación de la unidimensionalidad para las tres Escalas (responsividad, exigencia y control coercitivo) del Inventario de Estilos de Liderazgo de Profesores - IELP, utilizándose los recursos del análisis factorial exploratorio. Participaron de esa investigación 113 alumnos de 4º y 5º años de la Enseñanza Fundamental, con edad entre 8 y 11 años, provenientes de escuelas pública y privada de municipios del interior de Paraná. Fue utilizado el IELP con 70 artículos. La aplicación del instrumento fue colectiva con grupos de, al máximo, 25 alumnos, en salones de clase. En los resultados fue contatada la distribución normal de los datos y que las escalas que componen el IELP son unidimensionales. En función de las cargas factoriales, el número de artículos en cada Escala fue reducido: en responsividad fue de 22 para 21 artículos, en Exigencia fue de 22 para 16 y en la Escala Control Coercitivo, fue de 26 para 19 artículos. De esta manera, la versión de IELP quedó con 56 artículos que presentaron carga factorial > .3.

Palabras clave: Unidimensionalidad, análisis factorial exploratório, interacción profesor-alumno.


 

 

As relações estabelecidas na infância, tanto no contexto familiar quanto no escolar, são cruciais para o desenvolvimento da criança. Especificamente a escola, junto ao seu papel de transmissora de conteúdos acadêmicos, vem sendo considerada uma importante agência de socialização, um ambiente que pode propiciar tanto um desenvolvimento saudável quanto dificuldades e problemas que podem repercutir sobre a vida de um indivíduo (Del Prette & Del Prette, 2006; Hamre & Pianta, 2006; Novak & Pelaez, 2004). Compreender as interações em tal meio, principalmente aquelas estabelecidas entre professor e alunos, pode auxiliar tanto os pesquisadores quanto profissionais que atuam na Educação e na Saúde Mental a pensar em propostas de prevenção e intervenção eficazes para tal contexto. Wubbels (2005) ressalta que entender essas interações é uma importante forma de contribuir para a prevenção de problemas de comportamento em crianças, estresse e burnout em professores, além de auxiliar no desenvolvimento profissional dos docentes.

Sobre esse assunto fica claro, na revisão de estudos nacionais feita por Batista (2013), que há necessidade de estudos sobre a adaptação ou construção e validação de instrumentos nacionais direcionados à análise da interação professor-aluno dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nessa etapa, um mesmo professor passa um tempo maior com seus alunos, o que influencia de forma significativa os comportamentos dos envolvidos. Portanto, por mais que a interação professor-aluno venha sendo objeto de ampla investigação, ainda há necessidade de estudos sobre a adaptação ou construção e validação de instrumentos nacionais direcionados a essa análise, a partir de referenciais e conceitos bem operacionalizados (Batista, 2013).

Sobre modelos teóricos e dimensões específicas para análise da interação professor-aluno, Wentzel (2002) considera que processos de socialização estabelecidos por pais são robustos e generalizáveis, podendo ser utilizados para descrever maneiras pelas quais os professores influenciam seus alunos. O modelo de Estilos Parentais proposto por Maccoby e Martin (1983) fornece uma boa base teórica para pautar a análise dos estilos de professores, pois as dimensões "responsividade" e "exigência", analisadas por tal modelo, também estão presentes na interação professor-aluno (Gill, Ashton, & Algina, 2004; Pellerin, 2005; Walker, 2008). Além disso, o "controle coercitivo" também é importante de ser avaliado, sendo que diversos estudos fazem essa análise, muitas vezes descrita também como "conflito" (Birch & Ladd, 1997; Hamre & Pianta, 2006; Ladd & Burgess, 2001; Pianta & Steinberg, 1992).

Com base nessa literatura e a partir da perspectiva teórica da Análise do Comportamento foram delineados os Estilos de Liderança de Professores, com a análise das práticas educativas referentes aos anos iniciais do Ensino Fundamental. Dessa forma, eles são definidos como "um conjunto de atitudes direcionadas aos alunos e que, tomadas em conjunto, criam um clima emocional no qual os comportamentos são expressos, moderando a efetividade de uma prática particular e alterando a receptividade da criança à relação de ensino-aprendizagem" (Batista & Weber, 2015, p. 28). A dimensão Responsividade refere-se ao comportamento da professora de qualidade na comunicação, cordialidade, envolvimento, apoio, cuidado, reciprocidade e afetividade do professor em relação aos alunos. A dimensão Exigência refere-se às atitudes dos professores de estabelecer expectativas de desempenho, cobrar, monitorar, supervisionar e controlar o comportamento dos alunos de forma a impor limites e regras na sala de aula e em todo o ambiente escolar. A dimensão Controle Coercitivo refere-se ao comportamento do professor de impor um clima aversivo/negativo em sala de aula e na escola, utilizando ameaças e punições inadequadas para o comportamento dos alunos (Batista, 2013; Batista & Weber, 2015).

A partir desses construtos teóricos, Batista (2013) construiu o Inventário de Estilos de Liderança de Professores - IELP, que tem como objetivo identificar tais estilos a partir de itens sobre situações/comportamentos de professoras referentes às Escalas Responsividade, Exigência e Controle Coercitivo. O IELP identifica os Estilos de Liderança de Professores de 4º e 5º anos do Ensino Fundamental a partir de itens sobre situações/comportamentos dos professores referentes às Escalas Responsividade, Exigência e Controle Coercitivo. Esse instrumento foi construído por meio de procedimentos teóricos e empíricos. Inicialmente foram definidos e analisados os constructos teóricos. Após, também foram realizadas observações e entrevistas para a confecção dos itens, que foram submetidos à análise semântica e análise de conteúdo. Feito isso, o IELP apresentou 22 itens na Escala Responsividade, 22 em Exigência e 26 em Controle Coercitivo, num total de 70 itens.

Sobre a construção e análise de parâmetros psicométricos, é importante destacar que a psicometria moderna apresenta duas vertentes: a teoria clássica dos testes (TCT) e a teoria de resposta ao item (TRI). A TCT parte de uma concepção monista, sendo que os parâmetros envolvidos são comportamentos, ou seja, as tarefas do teste se definem em função de outros comportamentos (presentes ou futuros: o critério) que o teste pretende predizer. Por outro lado, a TRI se fundamenta em uma concepção dualista do ser humano. Assim, as tarefas do teste se definem e são efeito da aptidão ou traço latente. O parâmetro fundamental desse tipo de instrumento é a demonstração que a operacionalização do atributo latente em comportamentos (itens) de fato corresponde a este atributo (Pasquali, 2003).

Dessa forma, observa-se que existem dois conceitos de teste, conforme a teoria adotada. Porém, apesar de essas duas vertentes apresentarem concepções diferentes, em geral, um instrumento psicológico possui características que o definem e, muitas vezes, são utilizadas técnicas pertencentes às duas teorias para a construção e a análise dos parâmetros psicométricos. Segundo Toni, Romanelli e Salvo (2004), em instrumentos de avaliação psicológica, que avaliam construtos unidimensionais, tanto fundamentados na TCT quanto na TRI, o pressuposto da unidimensionalidade deve estar presente, sendo que o estudo dessa característica é um dos principais procedimentos na análise psicométrica de um instrumento, fundamental para estimar os demais parâmetros.

A unidimensionalidade dos itens de um teste é importante para verificar "se todos os comportamentos envolvidos no conjunto se referem à 'mesma coisa'" (Pasquali, 2007, p. 105), ou seja, se um conjunto de itens mede um único e mesmo constructo (Pasquali, 2003). Pasquali (1999) afirma que observar a unidimensionalidade de um instrumento já se constitui como uma primeira verificação da validade, pois se refere a uma análise do número de constructos teóricos medidos pelo teste.

Uma das formas de se verificar a unidimensionalidade pode ser por meio da análise fatorial, que agrupa determinado conjunto de itens em fatores, e determina as cargas de cada item nos fatores (Hair, Anderson, Tatham, & Black, 2009). Um dos usos da análise fatorial se refere à identificação de dimensões subjacentes de um domínio de funcionamento avaliado pelo instrumento (Floyd & Widaman, 1995; Hogan, 2003/2006). Segundo Floyd e Widaman (1995), a análise fatorial exploratória é um procedimento comum para o desenvolvimento de instrumentos de medida, pois agrupa itens em uma única dimensão, que corresponde ao constructo teórico relacionado aos comportamentos medidos pelos itens do teste. Ou seja, a análise fatorial agrupa determinado conjunto de itens em fatores, os quais apresentam forte interrelação indicando que estão medindo a mesma coisa, demonstrando assim a unidimensionalidade.

Nesse sentido, a análise fatorial exploratória também pode ser utilizada para verificar a unidimensionalidade de escalas construídas para avaliar aspectos referentes a dimensões específicas da interação professor-aluno. Assim, o presente trabalho teve como objetivo demonstrar a avaliação do parâmetro psicométrico de unidimensionalidade para as três Escalas (Responsividade, Exigência e Controle Coercitivo) do Inventário de Estilos de Liderança de Professores, utilizando-se os recursos da análise fatorial exploratória.

 

Método

Considerações Éticas

O presente projeto foi cadastrado na Plataforma Brasil, sendo submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme parecer Consubstanciado do CEP Nº 247.389.

Inicialmente foi realizado o contato com as Secretarias Municipais de Educação dos municípios participantes para apresentação do projeto e obtenção de autorização pelo responsável para a realização da pesquisa. Após, foi feito contato e apresentado o projeto para a direção e professores de Escolas Públicas e Privadas do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, selecionadas por conveniência. Após, foi entregue um Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE) solicitando a permissão para a pesquisa. Os professores encaminharam aos pais dos alunos, ou responsáveis por eles, um TCLE para que lessem e assinassem, caso concordassem com a participação de seus filhos no estudo. Somente aqueles alunos cujos pais assinaram o TCLE e devolve-ram à pesquisadora, responderam ao inventário, sendo essa participação voluntária.

Participantes

Foram participantes dessa pesquisa, 113 alunos de 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, com idade entre 8 e 11 anos, provenientes de escola pública e escola privada de municípios do interior do estado do Paraná. Foi utilizado como requisito para participação que as crianças deviam estar alfabetizadas, sendo que isso foi levantado junto às professoras e diretoras.

Estão apresentadas abaixo tabelas que mostram a distribuição dos dados dos 113 participantes quanto à idade e gênero (Tabela 1), ano escolar e tipo de escola (Tabela 2).

Instrumentos

Para a coleta de dados foi utilizado o IELP (Batista, 2013) com os 70 itens, conforme o formato obtido após a análise semântica e validade de conteúdo, com 22 itens na Escala Responsividade, 22 em Exigência e 26 em Controle Coercitivo, apresentados de forma embaralhada. Os itens são apresentados em formato escrito, com linguagem acessível à população a que se destina. São descritas algumas situações/comportamentos da professora referente a cada Escala, diante das quais os alunos devem responder (marcar um X) no quadrado referente à frequência com que aparecem: "Nunca ou quase nunca", "Às vezes", "Sempre ou quase sempre", o que configura uma escala Likert de três pontos.

Procedimento

A aplicação do instrumento foi feita de forma coletiva com grupos de, no máximo, 25 alunos por vez, em uma sala de aula da própria escola, durante o horário da aula. No início de cada aplicação, as crianças eram informadas sobre a pesquisa, a garantia da confidencialidade dos dados, o caráter voluntário da participação e a necessidade de não conversarem entre si durante o preenchimento do instrumento. As aplicações foram conduzidas pela pesquisadora, que, após as informações iniciais, realizava a leitura do IELP: das instruções gerais, do exemplo fornecido e de cada um dos itens, de forma que os alunos preenchiam concomitantemente. Uma pessoa treinada auxiliou nesse processo, monitorando o preenchimento do instrumento pelos alunos, passando entre as carteiras e ficando disponível para tirar dúvidas. O tempo necessário para a aplicação foi de, aproximadamente, 30 minutos.

Análise de Dados

O IELP preenchido por cada participante foi corrigido conforme o valor proposto para cada resposta do participante à Escala Likert de três pontos. Para "Nunca ou quase nunca", foi atribuído o valor 1, para "Às vezes", o valor 2 e para "Sempre ou quase sempre", o valor 3. Com a soma do valor referente às respostas de cada participante aos itens, foram obtidos os escores referentes a cada Escala.

A partir disso, foram realizadas análises utilizando o Software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão para Windows. Inicialmente foi verificada a normalidade da distribuição dos dados da pesquisa, observando:

(a)

possíveis valores extremos na amostra, por meio da observação de um boxplot, o que poderia descaracterizar a distribuição normal dos dados; (b) o teste de Kolmogorov-Smirnov, para o qual o valor-p deve ser maior que 0,05 para indicar a distribuição normal dos dados e (c) a análise do histograma para a observação da distribuição da frequência dos escores obtidos, sendo que o formato de sino indica a distribuição normal. Após isso, foi analisada a unidimensionalidade do conjunto de itens de cada Escala do IELP. Para verificar o quanto o conjunto de itens media um único e mesmo constructo/fator em cada escala, foi utilizada a análise fatorial exploratória. Inicialmente, para verificar se a análise fatorial seria apropriada, foi adotado o Teste de Esfericidade de Bartlett, com p abaixo de 0,05 para ser considerado significativo. Também foi examinado o índice Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) para verificar a medida de adequação da amostra, com valor mínimo de 0,6 para que a análise fatorial fosse considerada adequada. Para a análise da estrutura fatorial foi utilizado o método dos componentes principais, analisando o Teste Scree e a análise das cargas fatoriais, adotando o critério de cargas fatoriais iguais ou superiores a 0,3 para a inclusão dos itens (Pasquali, 2003).

 

Resultados e Discussão

Com o objetivo de verificar a distribuição normal dos dados (dos escores obtidos), primeiramente foi analisado o Gráfico Boxplot, para observação da presença de valores extremos (outliers), o que poderiam comprometer a interpretação dos dados. Nesse gráfico não houve a presença de outliers, ou seja, de valores extremos, o que poderia descaracterizar a distribuição normal dos dados. No Gráfico Histograma, observou-se que a frequência dos dados (escores) estava distribuída no formato de um sino, ou curva normal. Além disso, no teste de Kolmogorov-Smirnov, o valor-p foi maior que 0,05 (p=0,174), o que também indica a distribuição normal dos dados. Dessa forma, esses dados indicam a distribuição normal dos dados e considerando isto, optou-se por utilizar análise estatística inferencial paramétrica na investigação da estrutura fatorial do instrumento.

Para verificar se a análise fatorial seria apropriada para cada Escala, foram realizados: (a) o Teste de Esfericidade de Bartlett e (b) o índice KMO. Os resultados do Teste de Esfericidade de Bartlett, com p<0,001 para as três escalas, são considerados perfeitos para o nível de significação da análise. Isso evidencia que existe correlações significantes entre as variáveis (Hair et al., 2009). O índice KMO também demonstrou a adequação da amostra, com valores acima de 0,6 para as três Escalas (0,76 para Responsividade; 0,61 para Exigência e 0,65 para Controle Coercitivo).

Após a análise desses dois coeficientes para cada uma das escalas, procedeu-se à análise fatorial exploratória. Com o método dos componentes principais, buscou-se dimensionar o número mais adequado de fatores para cada escala, utilizando o critério do Teste Scree, o qual consiste em um gráfico formado pelos eigenvalues dos diferentes fatores, plotados em ordem decrescente. Segundo Hair et al. (2009, p. 114), "o ponto no qual o gráfico começa a ficar na horizontal é considerado indicativo do número máximo de fatores a serem extraídos". Abaixo segue a Figura 1 contendo os gráficos com os resultados do Teste Scree para cada Escala.

Observa-se nos três gráficos que o primeiro fator é o que apresenta o maior eigenvalue (24% da variância na Escala Responsividade; 17% da variância na Escala Exigência; 20% da variância na Escala Controle Coercitivo). Nos gráficos das três Escalas há uma mudança significativa de direção a partir do segundo fator, com pouca diferença entre os valores dos eigenvalues a partir disso, o que também se observa na linha menos inclinada entre esses valores comparada à linha entre o primeiro e o segundo fator.

Com a análise dos eigenvalues no Teste Scree e também analisando a coerência entre os itens e a descrição do constructo teórico que representam, foi realizada a extração de um único fator em cada Escala, sendo obtidas as cargas fatoriais referentes a cada um dos itens, conforme pode ser observado nas Tabelas 3, 4 e 5.

A carga fatorial de cada item demonstra se ele é um bom representante comportamental do fator, indicando a correlação existente entre o item e o constructo teórico que ele representa. Dessa forma, quanto maior a carga, maior a validade do item e sua representatividade. O critério utilizado para a inclusão/permanência do item foi de que ele deveria atingir uma carga fatorial igual ou superior a 0,3 e, caso grande parte dos itens não apresentassem carga alta no fator, seria preciso extrair mais fatores até que os itens se distribuíssem a contento (Pasquali, 2003).

Pode-se observar na Tabela 3 que as cargas fatoriais dos itens da Escala de Responsividade apresentaram valores acima de 0,30 e que apenas o item 27 não atingiu o critério de carga fatorial para a inclusão (0,08). Assim, esse item foi descartado e os demais permaneceram nesta escala. Na Escala Exigência, as cargas fatoriais dos itens variaram entre 0,01 e 0,67, sendo que os itens 41, 54, 33, 46, 3 e 9 não atingiram o critério de carga fatorial igual ou superior a 0,3 para a inclusão (Tabela 4). Finalmente, na Escala Controle Coercitivo, as cargas fatoriais dos itens variaram entre 0,09 e 0,67 e os itens 51, 64, 65, 4, 8, 14 e 44 não atingiram o critério para a inclusão (Tabela 5). Com essa análise, verifica-se que a maior parte dos itens são bons representantes comportamentais do único fator extraído, ou seja, de cada escala, sendo que não foi necessário extrair mais fatores.

Em função da análise das cargas fatoriais, o número de itens em cada Escala do Inventário de Estilos de Liderança de Professores foi reduzido: na escala de Responsividade passou de 22 para 21 itens, na de Exigência passou de 22 para 16 e na de Escala Controle Coercitivo, passou de 26 para 19 itens. Dessa forma, a nova versão do IELP ficou com 56 itens que apresentaram carga fatorial > 0,3.

Ressalta-se que a dimensão Exigência é a mais heterogênea das três dimensões. Os itens dessa Escala referem-se a uma variabilidade maior de comportamentos dos professores, tanto referente a contingências reforçadoras positivas quanto aversivas, relacionadas ao estabelecimento de expectativas de desempenho, cobrança, monitoria, supervisão e controle do comportamento dos alunos de forma a impor limites e regras na sala de aula e em todo o ambiente escolar. Isso pode ter influenciado as cargas fatoriais obtidas pelos itens, indicando que alguns não eram bons representantes comportamentais do constructo, sendo excluídos. Assim, essa dimensão ficou com um menor número de itens. Já as escalas Responsividade e Controle Coercitivo referem-se, de certa forma, a contingências mais homogêneas. Na primeira predominam as contingências de reforçamento positivo e, na segunda, contingências de punição e reforçamento negativo, que ocorrem de forma intensa, opressiva, não justificável e/ou independente de uma regra estabelecida, atendendo muito mais ao professor do que ao aluno (Batista & Weber, 2015).

 

Considerações Finais

A presente pesquisa teve por objetivo avaliar o parâmetro psicométrico de unidimensionalidade para as três Escalas (Responsividade, Exigência e Controle Coercitivo) do Inventário de Estilos de Liderança de Professores. Esse instrumento propõe identificar os Estilos de Liderança de Professores de 4º e 5º anos do Ensino Fundamental a partir de itens sobre situações/comportamentos dos professores referentes às Escalas Responsividade, Exigência e Controle Coercitivo.

A análise da unidimensionalidade, utilizando-se os recursos da análise fatorial exploratória, indicou a presença de um único fator para cada uma das Escalas que compõem o IELP, demonstrando que todos os itens de cada Escala são bons representantes comportamentais do constructo que representam. Isso inicialmente era previsto, dado que o instrumento foi construído com base em construtos bem definidos teoricamente. As três Escalas pertencentes ao IELP envolvem comportamentos dos professores que devem ser avaliados, pois podem influenciar o comportamento dos alunos, ao mesmo tempo em que também podem sofrer influência de diversas variáveis.

O IELP é um importante instrumento para avaliar a interação professor-aluno, sendo que não foi encontrado nenhum semelhante. Batista (2013) demonstra que na literatura nacional são escassos os instrumentos construídos e validados para analisar a interação professor-aluno no Ensino Fundamental. Em relação à literatura internacional, foi constatada a utilização de escalas e de instrumentos de autorrelato, entretanto, na maioria eram os professores quem respondiam, sendo a interação avaliada a partir da perspectiva do adulto, diferentemente do IELP, no qual os alunos é que respondem. Quando a professora responde, ela pode ficar mais sob controle de outras variáveis do que sob controle do comportamento dela na interação com os alunos em si como, por exemplo, marcar respostas mais socialmente aceitas. É importante verificar a concepção da criança acerca da interação com a professora, já que essa interação pode influenciar diversos aspectos do desenvolvimento infantil.

Com o resultado obtido, ressalta-se a importância ampliar a demonstração de pesquisas sobre os parâmetros psicométricos do IELP, dado que esse instrumento se apresenta como uma possível ferramenta a ser utilizada tanto em pesquisas quanto para a prática de profissionais da educação e do psicólogo Escolar/Educacional.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Ana Priscila Batista
Universidade Estadual do Centro-Oeste, Departamento de Psicologia
Campus de Irati, PR 153 Km 7, Riozinho
Irati, PR, Brasil 84500-000
E-mail: anapribatista@yahoo.com.br

Recebido: 21/10/2014
1ª revisão: 12/05/2015
2ª revisão: 24/07/2015
Aceite final: 13/08/2015

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