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Psicologia Escolar e Educacional

Print version ISSN 1413-8557

Psicol. esc. educ. vol.10 no.2 Campinas Dec. 2006

 

ARTIGOS

 

Escala de afeto positivo e negativo para crianças: estudos de construção e validação

 

Positive and negative affect schedule for children: development and validation studies

 

Escala de afecto positivo y negativo para niños: estudios de construcción y validez

 

 

 

Claudia Hofheinz GiacomoniI,*; Cláudio Simon HutzII,**

I Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria
II Programa de Pós-graduação stricto Sensu em Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi desenvolver uma Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças. São apresentados dois estudos: de construção da escala, bem como de validação concorrente. Além disso, procurou-se avaliar o nível de afeto positivo e negativo das crianças dessa amostra, assim como, verificar possíveis diferenças entre sexos, faixa etária e tipo de escola. Participaram do estudo de construção da escala 661 crianças (52,2% meninos) entre sete e 12 anos (m = 10,6 anos; d.p. = 1,7 anos) de escolas públicas estaduais (54%) e privadas (46%) de Porto Alegre. A versão final da Escala de Afeto Positivo e Negativo é composta por 34 itens, 17 itens em cada subescala. Os coeficientes Alpha obtidos para as subescalas de Afeto Positivo (0,88) e de Afeto Negativo (0,84) apontam evidências de confiabilidade. Análises Fatoriais confirmaram a estrutura da escala através da solução de dois fatores em ambos estudos. A Escala também apresentou boas evidências de validação concorrente. Através de correlações coerentes com as apontadas pela literatura, os resultados indicam que a Escala de Afeto Negativo pode ser utilizada como instrumento de avaliação de desajustamento emocional. O desenvolvimento da Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças incrementa o processo de elaboração de instrumentos para avaliarmos o bemestar subjetivo infantil.

Palavras-clave: Afeto positivo, Afeto negativo, Escala.


ABSTRACT

The main purpose of this study was to develop a Children’s Positive and Negative Affect Schedule. We presented two studies - development and validation studies. We evaluated the children’s positive and negative affect level, as well possible differences between sex, age and kind of school (private x public). 661 children (52.2% boys), age seven to 12 years (m = 10.6 years; d.p. = 1.7) participated scale development’ studies, from public (54%) and private schools in Porto Alegre. The Positive and Negative Affect Schedule finalized with 34 items, 17 in each subscale. The subscales demonstrate acceptable internal consistency (Positive Affect Subscale = 0.88; Negative Affect Subscale = 0.84). The results of Factor Analysis confirmed a two factor solution. Were obtained concurrent validation. The results indicated that Children’s Positive and Negative Affect Schedule correlated as expected with various criterion measures. The Children’s Positive and Negative Affect Schedule appears useful for research and to develop the subjective well-being area.

Keywords: Positive affect, Negative affect, Measure.


Resumen

El objetivo de este estudio fue desarrollar una Escala de Afecto Positivo y Negativo para Niños. Son presentados dos estudios: de construcción de la escala, así como de validación concorrente. Además de eso, se ha buscado evaluar el nivel de afecto positivo y negativo de los niños de esa muestra, así como verificar posibles diferencias entre sexos, grupos de edad y tipo de escuela. La versión final de la Escala de Afecto Positivo y Negativo es compuesta por 34 ítems, 17 ítems en cada sub-escala. Los coeficientes Alpha obtenidos para las sub-escalas de Afecto Positivo (0,88) y de Afecto Negativo (0,84) apuntan evidencias de fiabilidad. Análisis Factoriales confirmaron la estructura de la escala a través de la solución de dos factores en los dos estudios. La Escala también presentó buenas evidencias de validación concorrente. A través de correlaciones coherentes con las apuntadas por la literatura, los resultados indican que la Escala de Afecto Negativo puede ser utilizada como instrumento de evaluación de desajuste emocional. El desarrollo de la Escala de Afecto Positivo y Negativo para Niños incrementa el proceso de elaboración de instrumentos para que evaluemos el bien estar subjetivo infantil.

Palabras-clave: Afecto positivo, Afecto negativo, Escala


 

 

Introdução

Bem-estar subjetivo é definido como a avaliação cognitiva e afetiva que a pessoa faz sobre a própria vida. Essa avaliação inclui as reações emocionais aos eventos, assim como os julgamentos cognitivos de satisfação para com a própria vida. Sendo assim, bemestar subjetivo é um conceito amplo que inclui experienciar emoções prazerosas, baixos níveis de afeto negativo e altos níveis de satisfação de vida (Diener, Lucas & Oishi, 2005). O afeto, segundo componente do bem-estar subjetivo, é composto pelas respostas afetivas das pessoas, incluindo afetos prazerosos e desprazerosos (Andrews & Withey, 1976; Campbell, Converse & Rodgers, 1976; Diener, 1984, 1994; Diener & cols, 1999). Segundo Watson, Clark e Tellegen (1988), duas dimensões consistentes emergem nos estudos sobre a estrutura afetiva ao longo das culturas: afeto positivo e afeto negativo.

O afeto positivo reflete o quanto uma pessoa está sentindo-se entusiástica, ativa e alerta, enquanto o afeto negativo é uma dimensão geral da angústia e insatisfação, o qual inclui uma variedade de estados de humor aversivos, incluindo raiva, culpa, desgosto, medo (Watson, Clark & Tellegen, 1988).

Considerando-se que faz-se necessária a avaliação das duas dimensões de afeto (Lucas, Diener & Larsen, 2003) para uma completa avaliação do bem-estar subjetivo e constatando a inexistência de medidas adequadamente elaboradas para crianças e desenvolvidas a partir de nossa cultura, o objetivo deste estudo foi desenvolver uma Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças. São apresentados os estudos de construção da escala, bem como de validação concorrente. Além disso, procurou-se avaliar o nível de afeto positivo e negativo das crianças dessa amostra, assim como, verificar possíveis diferenças entre sexos, faixa etária e tipo de escola.

 

Estudo 1

Construção da Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças

Para a elaboração da escala proposta, optou-se por compor os itens através de adjetivos descritores de afeto positivo e negativo, seguindo a opção de outros pesquisadores que investigaram o afeto através de adjetivos marcadores (Giacomoni & Hutz, 1997; Watson, Clark & Tellegen, 1988; Laurent & cols., 1999). Os itens-adjetivos foram selecionados a partir da análise de 200 entrevistas conduzidas sobre o conceito de felicidade e suas características em crianças de cinco a doze anos descritos no estudo de Giacomoni (2002). Além disso, também foram consultados livros da literatura infantil, aproximadamente 30 obras, com o objetivo de identificar os adjetivos utilizados com maior freqüência na literatura infantil. Também foram verificados os adjetivos finais da Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças de Laurent e colaboradores (1999), com o intuito de explorar seus principais itens, entretanto, esses não foram meramente traduzidos e utilizados, já que a literatura de construção de instrumentos desaconselha tal prática. Inicialmente, foi elaborada uma listagem de aproximadamente 80 itens, sendo 40 positivos e 40 negativos, provenientes do estudo de Giacomoni (2002), do levantamento da literatura infantil e Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças de Laurent e colaboradores (1999). Todo o processo de elaboração dos itens foi realizado por um grupo de pesquisa formado por pesquisadores em Psicologia do Desenvolvimento e por alunos de graduação em Psicologia. Após esta etapa, os itens foram analisados individualmente por cada membro da equipe de pesquisa, que elaborou um ranking dos itens considerados mais adequados e consistentes para as dimensões positiva e negativa. Com a comparação dos rankings obtidos, foram selecionados os itens que obtiveram maior predileção. Após essa seleção, os itens finais foram analisados por um juiz que possui conhecimento na área. Foram então selecionados 50 itens.

Por sua vez, esses 50 itens foram mostrados para 10 crianças entre sete e doze anos de idade. Foi utilizada uma escala de respostas do tipo Likert de 5 pontos, que variavam de 1 a 5, (1) nem um pouco; (2) um pouco; (3) mais ou menos; (4) bastante; (5) muitíssimo, para indicar o quanto elas estavam sentindo-se de acordo com o item. Por meio desse procedimento, foram eliminados seis itens devido ao grau de dificuldade dos mesmos. Foi comprovado o nível de compreensão da escala de resposta de cinco pontos. A versão preliminar da escala finalizou com 44 itens, sendo 18 itens positivos e 26 itens negativos. A próxima etapa realizada foi a testagem desta versão preliminar da escala.

 

Método

Participantes

O número de participantes desta etapa do estudo foi calculado procurando atender ao critério da “razão itens/sujeito”, geralmente utilizado para o cálculo amostral quando são necessárias Análises Fatoriais. Conforme tal critério, para que se possa realizar uma Análise Fatorial confiável é importante que a amostra contenha pelo menos cinco vezes o número de itens do instrumento a ser avaliado.

Participaram deste estudo 661 crianças de ambos os sexos, 345 meninos (52,2%) e 316 meninas (47,8%). A faixa etária variou entre sete e 12 anos (M= 10,6 anos; DP= 1,7 anos). As crianças freqüentavam o ensino fundamental, entre a 2ª e 6ª séries, de escolas públicas estaduais (54%) e privadas (46%) de Porto Alegre. Desta amostra, 66% das crianças moravam com ambos os pais, 31% viviam com somente um dos pais e 3% não viviam com esses. O número médio de irmãos relatados pelas crianças foi de 1,5 irmãos (DP = 1,30). Os dados demográficos da amostra são descritos na Tabela 1.

 

Procedimento

A seleção das escolas foi feita através de amostragem por área (Cozby, 1981). Inicialmente, foi feito o contato com as escolas para apresentação do projeto de pesquisa e da documentação necessária. Obtida a aprovação do projeto pela equipe técnica da escola e pelos professores, foram encaminhados para os pais ou responsáveis os termos de consentimento. O presente estudo está de acordo com o Conselho Nacional de Saúde e com a Resolução n°. 016/2000 do Conselho Federal de Psicologia, que versam sobre os aspectos éticos da pesquisa com seres humanos. Salvaguardou-se a todos os participantes o direito de sigilo, voluntariado e interrupção da participação. A explicação do estudo, seus objetivos e finalidades foram apresentadas de forma coletiva para as crianças na própria sala de aula. Mediante os termos assinados pelos pais e/ou responsáveis, a escala foi aplicada coletivamente na sala de aula. Durante a aplicação, a presença dos professores foi facultativa. A aplicação foi realizada pelo pesquisador coordenador e por um auxiliar de pesquisa. Com o objetivo de instruir as crianças sobre o preenchimento da escala e da correta utilização da escala tipo Likert do instrumento, as crianças recebiam as seguintes instruções, que eram acompanhadas pelo desenho da escala de respostas no quadro-negro da sala.

 

Resultados

A análise dos itens da Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças ocorreu em várias etapas. Primeiramente, realizou-se uma Análise Fatorial Exploratória que permitiu identificar entre quatro fatores que emergiram uma solução de dois fatores, os quais claramente identificavam o primeiro e segundo fatores como o afeto negativo e o positivo, respectivamente. Os fatores restantes agrupavam poucos itens de forma sem significado. A seguir, foi conduzida uma outra Análise Fatorial, através do Método dos Componentes Principais, utilizando a rotação Varimax, devido à baixa correlação entre os fatores, apontada pela literatura (Watson, Clark & Tellegen, 1988), especificando dois fatores. Confirmou-se que a melhor solução fatorial, evidenciada pela literatura, foi a extração de dois fatores: um positivo e um negativo. Através desta análise, identificou-se que o item 21 (“emocionado”) carregou nos dois fatores, sendo então eliminado. Uma nova análise foi realizada com os 43 itens da escala. A escala de afeto negativo apresentou 26 itens e a escala de afeto positivo 17. Optou-se, com a finalidade de reduzir o tamanho da escala e parear as subescalas, por excluir nove itens da escala de afeto negativo com as menores cargas fatoriais. Através deste procedimento, a Escala de Afeto Positivo e Negativo finalizou com 34 itens, 17 itens em cada subescala. Na Tabela 2, é apresentada a Matriz Fatorial dos Itens da Escala de Afeto Positivo e Negativo, composta pelos itens que permaneceram, agrupados pelas dimensões as quais pertencem, em ordem decrescente de suas cargas fatoriais. Além disso, é apresentado na Tabela 2 os valores dos Eigenvalues, os valores da variância explicada, do Alpha de Cronbach, da Média e do Desvio Padrão.

 

Observa-se que neste estudo, o primeiro fator extraído foi o negativo, enquanto em outros estudos foi o fator positivo (Watson, Clark & Tellegen, 1988; Laurents & cols., 1999). A amplitude das subescalas varia de 17 a 85. As subescalas apresentaram elevados níveis de fidedignidade. O Alpha da Escala total foi de 0,90. A versão final da Escala de Afeto Positivo e Negativo é apresentada no ANEXO A.

Para investigar os efeitos do sexo, do tipo de escola e da faixa etária das crianças foi realizada uma Análise de Variância Multivariada (MANOVA) 2x2x3, tendo como variáveis dependentes as duas subescalas de afeto. Não foram encontrados efeitos de interação tanto para Afeto Positivo [F(2,621) = 1,24; p<0,29] quanto para Afeto Negativo [F(2,621) = 1,20; p<0,30]. Foram identificados efeitos principais para sexo [F(1,621) = 5,15; p<0,02] e faixa etária [F(2,621) = 9,02; p<0,01] somente na subescala de Afeto Positivo. Quanto ao sexo, observou-se que as meninas (M=3,93; DP=0,60) reportaram menores níveis de afeto positivo do que os meninos (M=4,03; DP=0,59). Não foram encontradas diferenças significativas quanto ao afeto negativo. Quanto à faixa etária, através do Teste para Comparação de Médias a posteriori, Tukey, foram constatadas diferenças significativas entre as crianças de 7-8 anos (M=4,20; DP=0,56; p=0,01), que relataram maiores níveis de afeto positivo, e as crianças de 9-10 anos (M=3,99; DP=0,59) e as crianças de 11-12 anos (M=3,91;DP=0,59), que reportaram menores níveis de afeto positivo.

 

Estudo 2

Estudo de Validação Concorrente da Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças

 

Método

Participantes

Para a realização do estudo de validação concorrente participaram 230 crianças de ambos os sexos, 117 meninos (50,9%) e 113 meninas (49,18%). A faixa etária variou entre oito e 12 anos (M= 10,6 anos; DP= 1,7 anos). As crianças freqüentavam o ensino fundamental (de 3ª a 6ª série) de escolas públicas estaduais (57,4%) e privadas (42,6%) de Porto Alegre.

Instrumentos

Para avaliar as variáveis correlatas foram eleitas as variáveis relativas à auto-estima, ansiedade e depressão, tendo em vista que em alguns estudos encontraram-se correlações significativas dessas com o afeto positivo e negativo (Laurent e cols., 1999), assim como com a satisfação de vida global e multidimensional (Giacomoni, 2002), outros componentes do bem-estar subjetivo.

Para avaliar auto-estima foi utilizada a versão adaptada para o português (Hutz, 2000) da Escala de Auto- Estima de Rosenberg (1965). Esse instrumento é uma escala de auto-relato do tipo Likert (quatro pontos 1- 4) composta originalmente por dez itens que investigam aspectos globais da auto-estima. A escala foi desenvolvida para adolescentes, sendo bastante difundida devido à sua praticidade de aplicação, entretanto, sua aplicação em crianças a partir de oito anos de idade tem sido comum (Houtte & Jarvis, 1995). A versão adaptada da escala adicionou mais um item, mantendo-se a estrutura unidimensional da mesma (Hutz, 2000). Os participantes devem indicar o grau de concordância com o item descrito. Quanto maior o escore obtido, maior a auto-estima. A escala tem apresentado índices de fidedignidade constantes e aceitáveis para uso em pesquisa (acima de 0,80). A pesquisa realizada com a escala adaptada demonstrou parâmetros psicométricos apropriados (Hutz, 2000). No presente estudo de validação da Escala de Afeto, a Escala de Auto-Estima apresentou um índice de consistência interno de 0,75 (Alpha de Cronbach).

A ansiedade foi medida utilizando-se o IDATE - C (Spielberger, 1983), Inventário de Ansiedade Traço- Estado, já adaptado e padronizado para o seu uso no Brasil por Biaggio (1980). O IDATE-C foi desenvolvido a partir do Inventário de Ansiedade Traço-Estado na forma adulta (Spielberger, Gorsuch & Lushene, 1979; Biaggio, Natalício & Spielberger, 1977). A forma infantil é composta por duas escalas do tipo auto-relato que visam medir a ansiedade-estado (FORMA C-1) e a ansiedade-traço (FORMA C-2), dois conceitos distintos de ansiedade. Utilizada com crianças de ensino fundamental, essa escala é composta por 20 itens em cada subescala, podendo ser aplicada de forma coletiva. Neste estudo, os valores encontrados quanto à fidedignidade foram satisfatórios. Para forma C-1 foi encontrado um Alpha de Cronbach de 0,84, para a forma C-2, Alfa de Cronbach de 0,73.

Para avaliar a depressão, foi utilizado o Children’s Depression Inventory (CDI) elaborado por Kovacs (1983, 1992), a partir do Beck Depression Inventory para adultos. O objetivo do CDI é detectar a presença e a severidade do transtorno depressivo na infância. Destina-se a identificar alterações afetivas em crianças e adolescentes dos sete aos dezessete anos. É uma medida unifatorial composta por 27 itens, cada um com três opções de resposta (pontuada como 0, 1 ou 2), na qual a criança deve assinalar a que melhor descreve o seu estado nos últimos tempos. O CDI pode ser aplicado tanto individualmente quanto coletivamente. Em relação às propriedades psicométricas da escala, a consistência interna descrita por Kovacs (1980/1981) mostrou-se adequada (0,86). Kovacs estabeleceu como ponto de corte do CDI o escore 19. No Brasil, o CDI foi adaptado por Hutz e Giacomoni (2000). As pesquisas que utilizaram versões adaptadas para o contexto brasileiro vêm apresentando condições psicométricas adequadas. O Alpha de Cronbach do inventário adaptado para o uso no nordeste do país por Gouveia, Barbosa, Almeida e Gaião (1995) foi de 0,81. Em pesquisas realizadas com amostras infantis no Rio Grande do Sul, observaramse os seguintes coeficientes de Alpha de Cronbach: 0,80 (Giacomoni, 1998) e 0,92 (Reppold, 2001). Outros estudos que avaliaram crianças e adolescentes do Rio Grande do Sul em situação de risco obtiveram um Alpha de até 0,79 (Dell’Aglio, 2000; Silva, 2001). No presente estudo, foi encontrado um Alpha de Cronbach de 0,81. Cabe ressaltar que faltam estudos brasileiros sobre o ponto de corte da escala.

A satisfação de vida, que pode ser avaliada da vida como um todo ou sobre domínios específicos (por exemplo: escola, família, amizade), foi medida através dois instrumentos construídos e desenvolvidos especialmente em nosso meio: Escala de Satisfação de Vida Global Infantil e Escala Multidimensional de Satisfação de Vida para Crianças (Giacomoni, 2002). A Escala de Satisfação de Vida Global Infantil é um instrumento unidimensional de tipo likert (5 pontos) composto por 7 itens que avalia a satisfação de vida de forma global (por exemplo: “estou satisfeito com a minha vida”). A Escala Multidimensional de Satisfação de Vida para crianças possui com 50 itens, distribuídos em seis fatores: Self, Self Comparado, Não-Violência, Família, Amizade e Escola. Foram encontradas consistências internas adequadas para cada uma das escalas, Alfa de Cronbach acima de 0,80. Os estudos de construção e validação das escalas foram submetidos para publicação.

Procedimento

As escolas foram contatadas para a apresentação do projeto e para o encaminhamento dos termos de consentimento informado aos pais e/ou responsáveis. As escalas foram aplicadas de forma coletiva em sala de aula durante um único encontro. A ordem de aplicação dos instrumentos foi aleatória.

 

Resultados

Para a verificação da validade concorrente da Escala de Afeto Positivo e Negativo foram examinados os padrões de correlações entre as suas subescalas e a Escala de Auto-Estima, o Inventário de Depressão Infantil (CDI), as Subescalas do Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE-C FORMA C1-Estado, FORMA C2-Traço) e as Medidas de Satisfação de Vida desenvolvidas por Giacomoni (2002) (Escala de Satisfação de Vida Global Infantil e Escala Multidimensional de Satisfação de Vida para Crianças). A Tabela 3 apresenta as correlações entre as Escalas de Afeto e a Escala de Satisfação de Vida Global e os fatores da Escala Multidimensional de Satisfação de Vida. A Tabela 4 apresenta as correlações entre as subescalas de afeto e entre os instrumentos que avaliaram auto-estima, depressão e ansiedade.

 

 

A correlação encontrada entre Afeto Positivo e Negativo foi relativamente pequena, de -0,15 (n = 654; p< 0,01). Esse valor de correlação entre as subescalas de Afeto Positivo e Afeto Negativo é consistente com os resultados reportados por Watson, Clark e Tellegen (1988) no estudo de construção da PANAS para adultos (r = -0,08) e é equivalente ao encontrado por Laurent e colaboradores (1999) no estudo de construção da versão infantil da PANAS (r = -0,16). Além disso, as correlações obtidas entre a Escala de Afeto Positivo e Afeto Negativo e as medidas de Satisfação de Vida Global e com os Domínios reforçam as evidências de validade concorrente, uma vez que se esperaria uma correlação positiva de média à elevada entre as medidas de afeto positivo e satisfação e uma correlação negativa média entre afeto negativo e satisfação de vida. Observa-se que entre os domínios, o Self, a Família e a Amizade despontam entre os principais domínios de afeto positivo. Novamente encontramos evidências de que as relações interpessoais e os recursos do Self estão entre os maiores promotores de bem-estar subjetivo. As correlações entre as medidas de desajustamento emocional, como depressão e ansiedade e a medida de afeto negativo foram nas magnitudes e sentido esperados. Laurent e seus colaboradores (1999) encontraram uma correlação de 0,59 entre o CDI e a subescala de afeto negativo da PANAS –C e uma correlação de 0,68 entre a subescala de ansiedadetraço e a subescala de afeto negativo. O mesmo ocorreu entre a medida de auto-estima e afeto positivo.

 

Considerações Finais

Foram apresentadas informações sobre o desenvolvimento de escalas curtas que medem os dois aspectos primários do afeto - o positivo e o negativo - componentes do bem-estar subjetivo infantil. A Escala de Afeto Positivo e Negativo para crianças demonstrou características psicométricas adequadas muito parecidas as da PANAS na versão infantil (Laurent & cols., 1999). Neste estudo, os coeficientes Alpha obtidos, foram para a subescala de Afeto Positivo foi 0,88 e de 0,84 para a subescala de Afeto Negativo, sendo considerados satisfatório. Laurent e seus colaboradores (1999) reportaram coeficientes de Alpha de 0,90 para Afeto Positivo e 0,92 para Afeto Negativo. Também foi obtida uma solução de dois fatores em ambos estudos. A baixa correlação entre os fatores reforça a evidência da independência dos mesmos. Pode-se indicar através deste estudo indícios de validade de construto da escala.

Além das características psicométricas adequadas, a Escala apresentou boas evidências de validação concorrente. Através de correlações coerentes com as apontadas pela literatura, os resultados indicam que a Escala de Afeto Negativo pode ser utilizada como instrumento de avaliação de desajustamento emocional. Quanto ao afeto positivo, observou-se uma correlação média entre esse e auto-estima (0,48). Indica-se a necessidade de uma maior investigação deste componente do afeto junto a outras variáveis do Self, como, por exemplo, capacidade de socialização e auto-eficácia. Observa-se na literatura uma ausência de estudos de validação para essa medida positiva.

Os resultados referentes às diferenças de gênero quanto ao afeto, indicaram que as meninas apresentam menores níveis de afeto positivo. Esse resultado não é corroborado pela literatura que aponta que as mulheres apresentam maiores índices de felicidade (Nolen-Hoeksema & Rusting, 1999; Nolen-Hoeksema & Girgus, 1994), no entanto, cabe ressaltar que são praticamente inexistentes estudos sobre afeto de crianças. Não foi confirmada a premissa teórica de que meninas apresentam maiores níveis de afeto negativo (Fujita, Diener & Sandvik, 1991). Malatesta e colaboradores (1986) relataram uma diminuição de afeto negativo e um aumento linear de afeto positivo em crianças entre dois anos e meio e sete anos. Os resultados, pelo contrário, apontaram uma baixa de afeto positivo ao longo das faixas etárias, fato que não havia sido confirmado em estudos com amostras infantis até então. No entanto, Diener e Suh (1998) relataram, em seu grande estudo transcultural, essa tendência entre adultos. Não foram encontradas diferenças quanto ao tipo de escola, indicando uma possível ausência da importância dos aspectos sócioeconômicos nessa avaliação.

Os valores de correlação de médio a elevados entre a subescala de afeto positivo e as medidas de satisfação de vida também proporcionaram mais evidências de validade para ambas as medidas de bemestar subjetivo. Entretanto, cabe indicar a necessidade de maiores estudos para completar o processo de validação das escalas. Também caberiam maiores investigações sobre a natureza dos fatores. A literatura apresenta de forma bastante ampla os aspectos relacionados ao afeto negativo, mas a lacuna é ainda maior quando se trata do afeto positivo.

São reconhecidas algumas limitações, quanto à amostra e ao método no que tange ao presente estudo. A amostra deve ser ampliada para grupos clínicos e para outras regiões do país, além de outras realidades sócio-econômicas e culturais. Quanto aos tipos de medidas, uma ressalva deve ser feita para o fato de que foram utilizadas somente medidas de auto-relato, indicando-se a ampliação das técnicas de avaliação para proporcionar maior validade. Além disso, novos estudos com replicação devem ser conduzidos para também promoverem novas formas de validação.

O desenvolvimento da Escala de Afeto Positivo e Negativo para Crianças incrementa o processo de elaboração de instrumentos para avaliarmos o bemestar subjetivo infantil. Os resultados encontrados indicam que as escalas serão de grande utilidade para o desenvolvimento da área de estudos do bem-estar subjetivo infantil, incentivando o prosseguimento de novas pesquisas.

 

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Endereço para correspondência
Claudia H. Giacomoni
UFSM Rua Floriano Peixoto, 1750 sala 307
97015-372 - Santa Maria, RS

Recebido em: 22/08/2006
Revisado em: 30/11/2006
Aprovado em: 19/12/2006

 

 

Sobre os autores:
*
Claudia Hofheinz Giacomoni (giacomon@uol.com.br) é doutora pelo Curso de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento da UFRGS e Professora do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria
** Cláudio Simon Hutz é doutor pela University of Iowa, EUA e Professor do Programa de Pós-graduação stricto Sensu em Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
1 Pesquisa com apoio da CAPES
2 Os autores agradecem a colaboração dos alunos do Curso de Psicologia da UFRGS, Ana Paula Tibulo, Gabriel da Silva Mazzini e Joceline Fátima Zanchetin pela participação na coleta, digitação e análise dos dados.