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Psychê

versão impressa ISSN 1415-1138

Psyche (Sao Paulo) v.9 n.16 São Paulo dez. 2005

 

ARTIGOS

 

A feminilidade como máscara 1, 2

 

Womanliness as a masquerade

 

 

Joan RiviereI; Ana Cecília Carvalho (trad.)II; Esther Carvalho (trad.)III

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A partir do caso clínico de uma mulher intelectual muito bem sucedida como profissional, mãe, esposa e dona de casa, e que sofria com uma ansiedade por reconhecimento logo após suas apresentações profissionais em público, a autora afirma que não existe diferença entre a feminilidade genuína e a máscara. Ou seja, a feminilidade é um disfarce cuja dupla função é tanto encobrir a fantasia de posse do pênis tomado do pai como também proteger a mulher contra o perigo de retaliação, que poderia ser feita pelas figuras parentais em decorrência disso.

Palavras-chave: Joan Riviere, Feminilidade, Máscara, Desenvolvimento sexual da mulher, Sexualidade infantil.


ABSTRACT

Based on a case history of a highly successful intellectual married woman, mother and house wife who suffered from an anxiety that made her obsessively seek for reassurance from men, following her public professional performances, the author states that there is no difference between genuine womanliness and the masquerade. Thus femininity is a mask whose double purpose is to deny the woman’s phantasy of the possession of the penis taken from father and also to protect her against the danger of retribution from the parental figures.

Keywords: Joan Riviere, Femininity, Masquerade, Women sexual development, Infantile sexuality.


 

 

Todas as direções indicadas pela pesquisa psicanalítica parecem ter, a seu modo, atraído o interesse de Ernest Jones, e agora que as investigações mais recentes têm começado a se expandir na direção do desenvolvimento da vida sexual das mulheres, consideramos que a contribuição dele ao assunto seja uma das mais importantes. Como sempre, ele ilumina esses temas com um talento especial tanto para esclarecer o conhecimento que já possuíamos como para enriquecê-lo com as observações de sua própria experiência.

Em seu ensaio sobre O desenvolvimento inicial da sexualidade feminina, Jones (1927) traça um esboço de tipos de desenvolvimento feminino, que primeiramente divide em heterossexual e homossexual, para em seguida dividir o grupo homossexual em dois tipos. Ele reconhece a natureza esquemática e imperfeita de sua classificação e postula um número maior de tipos intermediários. É com um desses tipos intermediários que me ocupo hoje. Na vida cotidiana encontramos constantemente tipos de homens e de mulheres, que conquanto basicamente heterossexuais em seu desenvolvimento, demonstram fortes características do outro sexo. Isto tem sido considerado uma expressão da bissexualidade inerente a todos nós; e a análise veio demonstrar que aquilo que aparece como traços homossexuais ou heterossexuais característicos, ou manifestações sexuais, é o resultado da interação de conflitos, e não necessariamente a evidência de uma tendência fundamental ou radical. A diferença entre o desenvolvimento homossexual e o heterossexual resulta das diferenças no grau de ansiedade, com o efeito correspondente que isso tem sobre o desenvolvimento. Ferenczi (1916) mencionou uma reação semelhante no comportamento, isto é, que os homens homossexuais exageram sua heterossexualidade como uma “defesa” contra sua homossexualidade. Tentarei mostrar que as mulheres que desejam a masculinidade podem colocar uma máscara de feminilidade para evitar a ansiedade e a vingança temida dos homens.

É com um tipo especial de mulheres intelectuais que irei tratar. Há não muito tempo, os objetivos intelectuais das mulheres associavam-se quase exclusivamente com um tipo manifestadamente masculino de mulher, que em casos declarados não fazia segredo de seu desejo de ser um homem. Isto agora mudou. De todas as mulheres atualmente engajadas em trabalho profissional, seria difícil dizer se a maioria é mais feminina do que masculina em seu modo de vida e em sua personalidade. Na vida universitária, nas profissões científicas e nos negócios deparamo-nos constantemente com mulheres que parecem atender a todos os critérios de um desenvolvimento feminino completo. São excelentes esposas e mães, donas de casa competentes; mantêm vida social e cultural; não carecem de interesses femininos como, por exemplo, em sua aparência pessoal, e quando necessário, ainda acham tempo para desempenhar o papel de mães-substitutas devotadas e abnegadas em um vasto círculo de parentes e amigos. Ao mesmo tempo, cumprem seus deveres profissionais no mínimo tão bem quanto o homem médio. É realmente um enigma saber como classificar psicologicamente este tipo.

Há algum tempo, no decorrer da análise de uma dessas mulheres, fiz algumas descobertas interessantes. Ela enquadrava-se, sob todos os aspectos, na descrição acima: suas excelentes relações conjugais incluíam uma ligação muito íntima e afetuosa com o marido, assim como um relacionamento sexual freqüente e perfeito entre eles; ela orgulhava-se de sua eficiência como dona de casa. Tinha exercido sua profissão com sucesso marcante durante toda a vida. Revelava um grau elevado de adaptação à realidade e conseguia manter relações boas e adequadas com quase todos com quem tinha contato.

Todavia, certas reações em sua vida indicavam que a estabilidade não era tão perfeita quanto parecia; uma delas ilustrará meu tema. Tratava-se de uma mulher americana engajada em trabalho publicitário, que consistia principalmente em falar e escrever. Durante toda a vida um certo grau de ansiedade, por vezes muito intenso, ocorria após cada apresentação em público, como ao falar para uma audiência. A despeito de seu inquestionável êxito e habilidade, tanto do ponto de vista intelectual como prático, e de sua capacidade para lidar com audiências, no trato de discussões etc, ficava excitada e apreensiva na noite que se seguia, preocupada se teria cometido alguma impropriedade e obcecada, com uma necessidade de reconhecimento. Essa necessidade de reconhecimento levava-a compulsivamente a buscar a atenção ou o elogio de um ou mais homens ao final do evento em que participara ou no qual tinha sido a figura principal; e logo tornou-se evidente que os homens escolhidos para isso eram sempre, inegavelmente, figuras paternas, muito embora, com alguma freqüência, fossem pessoas cujo julgamento sobre seu desempenho na realidade não tivesse muita importância. Havia claramente dois tipos de reconhecimento buscados nessa figuras paternas: primeiro, um reconhecimento direto sob a forma de elogios sobre sua atuação; segundo, e mais importante, um reconhecimento indireto, sob a forma de atenções sexuais por parte desses homens. De maneira ampla, a análise de seu comportamento após seu desempenho mostrava que ela tentava obter investidas sexuais daquele tipo especial de homem, por meio de flerte e de coquetismo, de forma mais ou menos velada. A extraordinária incongruência dessa atitude em comparação à sua postura altamente impessoal e objetiva durante as apresentações intelectuais, e que se seguia imediatamente a elas, constituía um problema.

A análise mostrou que a situação edipiana de rivalidade com a mãe era aguda ao extremo e nunca fora resolvida satisfatoriamente. Voltarei a isto mais adiante. Mas além do conflito com a mãe, a rivalidade com o pai também era muito grande. Seu trabalho intelectual, na forma de expressão verbal e escrita, baseava-se em uma identificação evidente com o pai, que havia sido no início um literato e posteriormente voltara-se à política; sua adolescência caracterizara-se por uma revolta consciente contra o pai, com rivalidade e desprezo por ele. Sonhos e fantasias dessa natureza, castrando o marido, foram descobertos com freqüência no decorrer da análise. Ela tinha sentimentos bem conscientes de rivalidade e afirmações de superioridade com relação a muitas das “figuras paternas”, cujos favores buscaria após se apresentar em público. Ressentia amargamente qualquer suposição de que não fosse igual a eles e (secretamente) rejeitava a idéia de estar sujeita a seu julgamento ou crítica. Nisso correspondia claramente ao tipo que Ernest Jones esboçara: seu primeiro grupo de mulheres homossexuais, que embora não tenham interesse em outra mulher, desejam “reconhecimento” de sua masculinidade por outros homens e pretendem ser iguais a eles, ou em outras palavras, serem homens elas mesmas. Seu ressentimento, no entanto, não era expresso de maneira evidente: publicamente ela assumia sua condição de mulher.

A análise então revelou que a explicação para o flerte e o coquetismo compulsivos – de que ela realmente não se dava conta até que a análise os tornasse manifestos – era a seguinte: tratava-se de uma tentativa inconsciente de desviar a ansiedade que resultaria devido às represálias que ela antecipava por parte das figuras paternas após seu desempenho intelectual. A exibição pública de sua capacidade intelectual realizada com êxito significava uma exibição de si mesma em posse do pênis de seu pai, tendo-o castrado. Terminada a exibição, ela era tomada por um temor terrível da restituição que o pai então lhe cobraria. Obviamente isto era um passo para apaziguar o vingador, com a tentativa de se oferecer sexualmente a ele. Essa fantasia, então evidenciada, tinha sido muito comum em sua infância e juventude, passadas no sul dos Estados Unidos; se um negro viesse atacá-la, ela planejava defender-se fazendo com que ele a beijasse e fizesse amor com ela (no final das contas, para que pudesse entregá-lo às autoridades). Mas havia outro determinante do comportamento obsessivo. Em um sonho com conteúdo mais ou menos semelhante a essa fantasia infantil, ela achava-se sozinha e aterrorizada em casa; um negro entrava e a encontrava lavando roupa, com as mangas arregaçadas e os braços expostos. Ela resistia a ele, com a intenção secreta de atraí-lo sexualmente, e então ele começava a admirar seus braços e seios, acariciando-os. Isto significava que ela tinha matado o pai e a mãe e obtido tudo para si (sozinha em casa), mas tornando-se aterrorizada por sua vingança (expectativa de tiros através da janela), o que a levava a defender-se desempenhando um papel subalterno (lavar roupa) e limpando a sujeira e o suor, culpa e sangue, tudo o que obtivera com o feito, “disfarçando-se” simplesmente como uma mulher castrada. Com esse disfarce, o homem não encontraria com ela nenhum objeto roubado, de modo que fosse necessário atacá-la para os recuperar, e além disso, julgá-la-ia atraente como objeto de amor. Portanto, o objetivo da compulsão não era apenas garantir o reconhecimento, provocando sentimentos amistosos para si por parte do homem; era sobretudo garantir segurança, mascarando-se como alguém sem culpas e inocente. Era uma reversão compulsiva de seu desempenho intelectual; e ambos compunham a “dupla ação” de um ato obsessivo, assim como sua vida como um todo consistia em atividades femininas e masculinas.

Antes desse sonho ela tivera outros, com pessoas colocando máscaras sobre os rostos para evitar um desastre. Em um deles, uma torre situada em uma elevação desabava sobre os habitantes de uma vila embaixo; mas as pessoas colocavam as máscaras e escapavam ilesas dos ferimentos!

A feminilidade, portanto, podia ser assumida e usada como uma máscara, tanto para ocultar a posse da masculinidade, como para evitar as represálias esperadas, se fosse apanhada possuindo-a; tal como um ladrão que revira os bolsos e pede para ser revistado a fim de provar que não furtou os bens roubados. O leitor poderá agora perguntar como defino a feminilidade, ou onde traço a linha divisória entre a feminilidade genuína e a “máscara”. Minha sugestão é, entretanto, a de que não existe essa diferença: quer radical ou superficial, elas são a mesma coisa. A capacidade de feminilidade existia nessa mulher – poderíamos mesmo dizer que existe na mais completa mulher homossexual – mas devido a seus conflitos, não representava seu desenvolvimento principal e era usada muito mais como um artifício para evitar a ansiedade do que como uma forma primária de prazer sexual.

Darei alguns detalhes para ilustrar esse fato. Ela se casara mais velha, aos vinte e nove anos; era muito ansiosa em relação ao defloramento, e antes do casamento mandou que o hímen fosse dilatado ou rompido por uma médica. Sua atitude para com a relação sexual, antes do casamento, era uma determinação firme de obter e experimentar o gozo e o prazer que sabia ser experimentado por algumas mulheres, bem como o orgasmo. Ela temia a impotência exatamente como um homem. Isto consistia, em parte, em uma determinação para ultrapassar certas figuras maternas que eram frígidas, mas em níveis mais profundos, representava uma determinação de não ser vencida pelo homem3. Com efeito, seu prazer sexual era completo e freqüente, com orgasmo; mas surgia o fato de que a gratificação daí obtida era de natureza tranqüilizadora e de restituição de algo perdido e não, em última instância, de puro deleite. O amor do homem devolvia-lhe a auto-estima. No decorrer da análise, enquanto os impulsos hostis de castração contra o marido estavam em processo de vir à luz, o desejo de relacionamento sexual decrescia e ela tornava-se por algum tempo relativamente frígida. A máscara da feminilidade estava sendo retirada e ela revelava-se castrada (sem vida, incapaz de prazer) ou desejosa de castrar (portanto, temerosa de receber o pênis ou de acolhê-lo com gratificação). Uma vez em que durante certo período seu marido manteve um caso amoroso com outra mulher, ela detectou uma identificação muito intensa com ele em relação à rival. É impressionante que ela não tivesse nenhuma experiência homossexual (salvo antes da puberdade, com uma irmã mais nova); mas tornou-se evidente, durante a análise, que essa falta era compensada por sonhos homossexuais freqüentes, com intenso orgasmo.

É possível observar na vida cotidiana a máscara da feminilidade tomar formas curiosas. Uma competente dona de casa de minhas relações é mulher de grande habilidade e capaz de desempenhar tarefas tipicamente masculinas. Entretanto, quando chama por exemplo um pedreiro ou estofador, ela sente-se compelida a ocultar todo o seu conhecimento técnico, demonstrando respeito pelo operário, fazendo sugestões de maneira inocente e leiga, como se fossem “palpites ao acaso”. Ela confessou que mesmo com o açougueiro e com o padeiro, que na verdade comanda com mão de ferro, não consegue assumir abertamente uma posição firme; sente-se como se estivesse “desempenhando um papel”; assume a aparência de mulher sem instrução, tola e confusa, mas sempre no final alcança seu objetivo. Em todas as outras relações de sua vida essa mulher é uma senhora afável, culta, competente e bem informada, e sabe conduzir seus assuntos com um comportamento sensato, racional e sem subterfúgios. Tem atualmente cinqüenta anos de idade, mas contou-me que em sua juventude padecia de grande ansiedade ao lidar com porteiros, garçons, motoristas, comerciantes ou quaisquer outras figuras paternas potencialmente hostis, como médicos, construtores e advogados; mais do que isso, freqüentemente brigava e discutia com eles, acusando-os de lhe causarem prejuízo e assim por diante.

Outro exemplo tirado da observação cotidiana é o de uma mulher inteligente, esposa e mãe, professora universitária de uma matéria complexa que raramente atrai as mulheres. Ao fazer uma preleção, não para estudantes, mas para colegas, escolhe roupas marcadamente femininas. Seu comportamento nessas ocasiões também é caracterizado por um aspecto inapropriado: torna-se irreverente e zombeteira, a ponto de causar comentários e repreensão. Ela tem de lidar com a situação de expor sua masculinidade aos homens como um “jogo”, como algo irreal, como uma “brincadeira”. Não consegue tratar a si mesma e à sua matéria seriamente, não consegue ver a si mesma seriamente em igualdade com os homens; além do mais, sua atitude irreverente permite que parte do seu sadismo escape, daí a afronta que isso causa.

Muitos outros exemplos poderiam ser citados, e já encontrei um mecanismo semelhante na análise de homens declaradamente homossexuais. Em um desses homens, portador de grave inibição e ansiedade, as atividades homossexuais realmente ocupavam um segundo lugar, sendo a fonte de maior gratificação sexual a masturbação sob condições especiais, tal como ao mirar-se em um espelho vestido de forma especial. A excitação era produzida ao enxergar-se com os cabelos partidos ao meio, usando uma gravata borboleta. Esses “fetiches” extraordinários representavam um disfarce de si mesmo como sua irmã; o cabelo e a gravata borboleta eram tirados dela. Sua atitude consciente era o desejo de ser uma mulher, porém suas relações manifestas com os homens jamais haviam sido estáveis. Inconscientemente, a relação homossexual demonstrava ser inteiramente sádica e baseada na rivalidade masculina. As fantasias de sadismo e de “posse de um pênis” poderiam ser toleradas somente enquanto lhe fosse dada, do espelho, uma garantia contra a ansiedade, estando ele protegido, “disfarçado de mulher”.

Retorno ao caso que descrevi no início. Sob sua heterossexualidade aparentemente satisfatória, é evidente que essa mulher apresentava as conhecidas manifestações do complexo de castração. Horney foi a primeira a mostrar as fontes desse complexo na situação edipiana; minha convicção é a de que o fato de a feminilidade poder ser assumida como máscara pode contribuir mais na direção da análise do desenvolvimento feminino. Tendo isto em vista, vou agora traçar o desenvolvimento inicial da libido nesse caso.

Antes, porém, devo fazer um relato de suas relações com as mulheres. Ela tinha consciência da rivalidade com qualquer mulher de boa aparência ou com pretensões intelectuais. Tinha consciência dos lampejos de ódio contra qualquer mulher com a qual tivesse muito em comum; mas onde houvesse relações permanentes ou próximas com mulheres era capaz, não obstante, de estabelecer uma relação muito satisfatória. Inconscientemente, agia assim por sentir-se superior a elas de algum modo (o relacionamento com suas inferiores era igualmente excelente). Sua competência como dona de casa baseava-se, em grande parte, nesse ponto. Por essa via ultrapassou a mãe, conquistou sua aprovação e provou sua superioridade entre mulheres “femininas” rivais. Suas qualificações intelectuais tinham inegavelmente, em parte, o mesmo objetivo. Elas provavam sua superioridade também em relação à mãe; parecia provável que tendo atingido a idade adulta, sua rivalidade com as mulheres se aguçara em relação às coisas do intelecto mais do que em relação à beleza, já que geralmente ela podia refugiar-se na superioridade da sua mente quando a beleza estava em questão.

A análise revelou que a origem de todas essas reações, tanto para com os homens como para com as mulheres, jazia na reação aos pais durante a fase sádica da mordida oral. Estas reações tomavam a forma das fantasias traçadas por Melanie Klein (1928), em seu ensaio para o Congresso, em 1927. Em conseqüência da decepção ou frustração na amamentação ou no desmame, associadas com as experiências durante a cena primitiva, interpretada em termos orais, o sadismo intenso ao extremo desenvolve-se contra ambos os pais4. O desejo de arrancar os mamilos muda, e os desejos de destruir, penetrar e estripar a mãe, de devorá-la e aos conteúdos de seu corpo, se seguem. Estes conteúdos incluem o pênis do pai, os filhos e as fezes da mãe – todas as suas posses e objetos de amor, imaginados no interior de seu corpo5. O desejo de arrancar o bico do seio também muda, como sabemos, para o desejo de castrar o pai, arrancando com os dentes o seu pênis. Ambos os pais são rivais nesse estádio, ambos possuem objetos de desejo; o sadismo é dirigido contra ambos e a vingança de ambos é temida. Porém, como sempre acontece com as meninas, a mãe é a mais odiada, e conseqüentemente, a mais temida. Ela executará a punição devida ao crime – destruirá o corpo da menina, sua beleza, seus filhos, sua capacidade de ter filhos, mutilará, devorará, torturará e, finalmente, a matará. Nesta situação pavorosa, a única garantia da menina consiste em apaziguar a mãe e reparar seu crime. Ela deve abandonar a rivalidade com a mãe e, se puder, tentar restituir-lhe o que foi roubado. Como sabemos, ela identifica-se com o pai; e então usa a masculinidade assim alcançada, colocando-a a serviço da mãe. Ela torna-se o pai e toma seu lugar; assim, ela pode “restituí-lo” à mãe. Esta posição era muito clara em várias situações típicas na vida de minha paciente. Ela tinha grande prazer em usar sua grande habilidade prática para ajudar ou prestar assistência a mulheres mais fracas ou desamparadas, e conseguia manter essa atitude com êxito enquanto a rivalidade não emergisse com muita intensidade. Mas essa restituição só podia ser feita sob uma única condição: devia proporcionar-lhe generosa recompensa sob a forma de gratidão e de “reconhecimento”. Ela supunha que o reconhecimento almejado lhe era devido por seu auto-sacrifício; mais inconscientemente do que alegava, era o reconhecimento de sua supremacia em ter o pênis para devolver. Se sua supremacia não fosse reconhecida, então imediatamente a rivalidade tornava-se aguda; se a gratidão e o reconhecimento fossem negados, seu sadismo irrompia com força total e ela ficava sujeita (na intimidade) a paroxismos de fúria sádico-oral, exatamente como um bebê furioso.

Com relação ao pai, seu ressentimento surgia de dois modos: (1) durante a cena primitiva, em que ele tirava da mãe o leite etc que faltava à criança; (2) ao mesmo tempo, ele dava à mãe o pênis ou crianças, ao invés de dá-los a ela. Portanto, tudo que ele tinha ou tomava, devia ser tomado dele por ela; ele ficava castrado e reduzido a nada, como a mãe. O medo por ele, embora nunca tão intenso como o medo pela mãe, continuava; em parte, também, porque sua vingança pela morte e destruição da mãe já era esperada. Assim, ele também devia ser apaziguado e tranqüilizado. Isto era feito pelo mascaramento sob o disfarce feminino com o qual ela mostrava ao pai, desse modo, seu “amor” e inocência em relação a ele. É significativo que a máscara dessa mulher, embora transparente para outras mulheres, tivesse êxito com os homens e servisse muito bem a seus propósitos. Muitos homens eram atraídos dessa maneira e lhe transmitiam segurança ao serem obsequiosos com ela. Um exame mais detalhado mostrou que esses homens eram do tipo que teme a mulher ultra-feminina. Eles preferem uma mulher com atributos masculinos, pois assim suas exigências para com eles são menores.

Na cena primitiva, o talismã que ambos os pais possuem e que falta a ela é o pênis do pai; daí sua ira e também o terror e o desamparo (Searl, 1929). Ao privar seu pai da posse, ela mesma obtém o talismã – a espada invencível, o “órgão do sadismo”; ele torna-se impotente e desamparado (seu marido gentil), mas ela se resguarda do ataque usando contra ele a máscara da subserviência feminina, e sob essa tela realizando ela mesma muitas de suas funções masculinas – “para ele” – (sua habilidade e conduta eficiente). Do mesmo modo com a mãe: tendo-lhe roubado o pênis, destruído e reduzido à inferioridade lastimável, ela triunfa sobre a mãe, porém uma vez mais, em segredo; externamente, reconhece e admira as virtudes das mulheres “femininas”. Mas a tarefa de resguardar-se contra a vingança feminina é mais difícil do que com o homem; seus esforços para aplacar e reparar, por meio da restituição e uso do pênis a serviço da mãe, jamais bastavam; esse recurso foi manipulado até a morte, e algumas vezes quase a levou à morte.

Parecia, pois, que essa mulher se salvara da intolerável ansiedade resultante de sua fúria sádica contra os pais, criando em fantasia uma situação em que ela se tornava superior e nenhum mal lhe poderia ser causado. A essência da fantasia era sua supremacia sobre os pais-objeto; por esse meio seu sadismo era gratificado e ela triunfava sobre eles. Por essa mesma supremacia ela também conseguia evitar a vingança deles; os meios que ela adotava para isso eram formações reativas e ocultação de sua hostilidade. Assim, podia gratificar seus impulsos do id, seu ego narcisista e seu superego, tudo ao mesmo tempo. A fantasia era a mola mestra de toda sua vida e caráter, e ela esteve bem próxima de alcançar o limite da perfeição. Mas seu ponto fraco era o caráter megalomaníaco, sob todos os disfarces, da necessidade de supremacia. Quando esta supremacia era seriamente perturbada durante a análise, ela caía em um abismo de ansiedade, ira e depressão miserável; antes da análise, adoecia.

Eu gostaria de dizer uma palavra a respeito do tipo da mulher homossexual descrita por Ernest Jones, cujo objetivo é o de obter o “reconhecimento” de sua masculinidade por parte dos homens. A questão que emerge é se a necessidade do reconhecimento está, nesse tipo, relacionada com o mecanismo da mesma necessidade, operando de modo diferente (reconhecimento por serviços realizados) no caso que descrevi. No meu caso, o reconhecimento direto da posse do pênis não era declarado abertamente; era indicado pelas formações reativas, embora somente a posse do pênis as tornasse possíveis. Indiretamente, contudo, o reconhecimento nem por isso deixava de ser reclamado para o pênis. Essa obliqüidade era devida à apreensão de que sua posse de um pênis deveria ser “reconhecida”, em outras palavras, “descoberta”. Pode-se ver que com menos ansiedade, minha paciente também poderia claramente ter reclamado o reconhecimento dos homens por sua posse de um pênis, e de fato na intimidade o fazia, como nos casos de Ernest Jones, ao ressentir-se amargamente por qualquer falta desse reconhecimento direto. Fica claro que nos casos de Jones o sadismo primário obtém maior gratificação; o pai foi castrado e até reconhecerá sua derrota. Como, então, a ansiedade é evitada por essas mulheres? Em relação à mãe, isto é naturalmente alcançado negando sua existência. Julgando a partir das indicações nas análises que realizei, concluo que, primeiro, como Jones sugere, essa demanda é simplesmente um deslocamento da demanda original sádica de que o objeto desejado, bico do seio, leite ou pênis, fosse instantaneamente concedido; segundo, a necessidade de reconhecimento é em grande parte uma necessidade de absolvição. Nesse ponto a mãe foi relegada ao limbo; nenhuma relação com ela é possível. Sua existência parece ser negada, embora na verdade seja por demais temida. Assim, a culpa de haver triunfado sobre ambos só pode ser absolvida pelo pai; se ele sancionar a posse dela pelo pênis, ao reconhecê-la ela está salva. Ao dar-lhe reconhecimento, ele lhe o pênis, ao invés de dá-lo à mãe; ela então o tem, e pode tê-lo, e tudo fica bem. “Reconhecimento” é sempre em parte segurança, sanção, amor; além do mais, torna-a novamente superior. Por menos que ele saiba disso, para ela o homem admitiu que foi derrotado. Assim, em seu conteúdo, a fantasia de relação dessa mulher com seu pai é semelhante à fantasia edipiana normal; a diferença é que ela repousa sobre uma base de sadismo. A mãe, ela de fato matou, mas a partir disso fica excluída do gozo que a mãe tinha, e o que ela consegue obter do pai ela ainda tem em grande medida de extorquir e arrancar.

Estas conclusões nos levam uma vez mais a enfrentar a questão: o que é a natureza essencial de uma feminilidade inteiramente desenvolvida? O que é das ewig Weibliche. A concepção da feminilidade como uma máscara, sob a qual o homem suspeita haver algum perigo oculto, joga um pouco de luz sobre esse enigma. A feminilidade heterossexual inteiramente desenvolvida está fundada, como afirmaram Helene Deutsch e Ernest Jones, no estádio oral da sucção. A única gratificação de ordem primária é a de receber (o bico do seio, o leite) pênis, sêmen, um filho do pai. No restante, depende de formações reativas. A aceitação da “castração”, a humildade e a admiração dos homens provêm, parcialmente, da superestima do objeto no plano da sucção oral; mas, sobretudo, da renúncia (em menor intensidade) aos desejos sádicos de castração derivados do plano posterior da mordida oral. “Não devo tomar, não devo ao menos pedir; isto me deve ser dado”. A capacidade de auto-sacrifício, devoção e abnegação expressa o esforço para restaurar e tornar bom, tanto em relaçãoà figura materna como à paterna, daquilo que lhes foi tomado. É também o que Radó denominou de “seguro narcisista” da mais alta valia.

Torna-se claro como o alcance da completa heterossexualidade coincide com o da genitalidade. E vemos uma vez mais, como Abraham primeiro afirmou, que a genitalidade implica o alcance de um estado pós-ambivalente. Tanto a mulher “normal” como a homossexual desejam o pênis do pai e se rebelam contra a frustração (ou castração); mas uma das diferenças entre elas está na diferença do grau de sadismo e do poder de lidar com ele e com a ansiedade daí resultante, nos dois tipos de mulher.

 

Referências Bibliográficas

FERENCZI, S. (1914). The nosology of male homosexuality. In: ___. Contributions to Psychoanalysis. London: Routledge & Kegan Paul. [O homoerotismo: nosologia da sexualidade masculina. In: ___. Escritos psicanalíticos, vol. II. São Paulo: Martins Fontes, s/d].

FREUD, S. (1918-17). O tabu da virgindade. In: ___. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1975. vol. XI.

JONES, Ernest. O desenvolvimento inicial da sexualidade feminina. IJP. vol. VIII, 1927.

KLEIN, Melanie. Early stages of the OEdipus conflict. International Journal of Psychoanalysis. vol. IX, 1928.

RIVIERE, Joan. Womanliness as a masquerade. International Journal of Psychoanalysis. (10): 303-313, 1929.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

SEARL, M.N. Danger Situations of the Immature Ego. Oxford Congress, 1929.

 

 

Endereço para correspondência
Ana Cecilia Carvalho
Rua Califórnia 729 / 401 – 30315-500 – Sion – Belo Horizonte/MG
tel: (31) 3285-1893
e-mail: anneoakwood@yahoo.com.br

Esther Carvalho
Rua dos Estados 396 – 31560-030 – Jardim Atlântico – Belo Horizonte/MG
tel: (31) 3441-8899
e-mail: anneoakwood@yahoo.com.br

recebido em 22/08/05
aprovado em 09/09/05

 

 

Notas

IPsicanalista inglesa, nasceu em 1883 e morreu em 1962. Participou da fundação da British Psychoanalytical Society e ajudou James Strachey na realização do glossário terminológico da tradução inglesa da Edição Standard das Obras Completas de S. Freud.
IIPsicanalista; Doutora em Literatura Comparada (UFMG); Professora Adjunta no Departamento de Psicologia da FAFICH-UFMG.
IIIEconomista (UFMG).
1Este artigo foi publicado originalmente em 1929 no International Journal of Psychoanalysis. Segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon (1998, p. 663), esse texto, escrito no quadro das grandes discussões sobre a sexualidade feminina realizadas na época, é em parte autobiográfico.
2Traduzido por Ana Cecília Carvalho e Esther Carvalho.
3Encontrei essa atitude em diversas analisandas, e em quase todas (cinco casos), o defloramento foi efetuado desse mesmo modo. Sob a luz de O tabu da virgindade, de Freud, esse ato sintomático é ilustrativo.
4Jones considera a intensificação do estádio sádico-oral como a característica central do desenvolvimento homossexual das mulheres (1927, p. 469).
5Por não ser essencial ao argumento, omiti todas as referências ao desenvolvimento posterior da relação às crianças.