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versão impressa ISSN 1415-1138

Psyche (Sao Paulo) v.12 n.23 São Paulo dez. 2008

 

ARTIGOS

 

O campo de problemas da psicanálise e os atos falhos

 

The range of problems in psychoanalysis and the freudian slips

 

 

Roberto Calazans I; Tiago Iwasawa Neves II

I Universidade Federal de São João del Rei
II Universidade Federal de Minas Gerais

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo pretende, em um primeiro momento, especificar o campo de problemas da psicanálise. Selecionamos alguns aforismos de Lacan sobre a relação da psicanálise com a ciência, que nos permitiu afirmar que a psicanálise, por ser um estudo que parte da noção de inconsciente, deve ser situada na dimensão da ética e não na dimensão da ciência. Esta especificação do campo de problemas da psicanálise – nossa primeira tese –, por outro lado, não deve deixar de considerar que se a psicanálise não é uma ciência, por outro é compatível logicamente com ela – nossa segunda tese. No segundo momento utilizamos a noção de atos falhos para demonstrar, a partir do texto freudiano, essas duas teses.

Palavras-chave: Psicanálise; Ciência; Ética; Inconsciente; Atos falhos.


ABSTRACT

This article intends to, at a first moment, specify the range of problems of psychoanalysis. We have selected some Lacan"s aphorisms about the relationship of psychoanalysis and science that has allowed us to state that psychoanalysis, since it is a study that originates from the notion of unconsciousness, must be situated in the ethical dimension and not in the scientific dimension. This specification of the range of problems of psychoanalysis – our first thesis –, must not forget to consider that although psychoanalysis is not a science it is logically compatible with it – our second thesis. At a second moment, we use the notion of Freudian slips to demonstrate, from the Freudian text, these two theses.

Keywords: Psychoanalysis; Science; Ethical; Unconsciousness; Freudian slips.


 

 

1. Introdução

Este artigo segue a linha de nossa pesquisa: especificar o campo da práxis psicanalítica. Aqui trataremos de alguns aforismos lacanianos para afirmar que o campo da psicanálise, tal como apontou Lacan em seu seminário intitulado A ética da psicanálise (1959-60), é o campo de problemas da ética. E que esse campo se especifica na psicanálise a partir de sua relação com a ciência, o que impede situar a ética no registro do ideal e a situemos no registro do real. Isso não deixa de ter efeitos sobre o modo de pensar e tratar as questões do sujeito. Longe de valorizar a assunção de um ideal, o que temos em jogo é o que podemos chamar de trabalho do inconsciente a partir do qual um real se produz.

Os aforismos são aqueles que aludem à relação da psicanálise com a ciência e que especificam a psicanálise como um pensamento ético. O fato de a psicanálise haver nascido da ciência é patente. Que pudesse ter surgido de outro campo, é inconcebível" (Lacan, 1966, p. 232). O sujeito sobre quem operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência" (1965, p. 873). E o estatuto do inconsciente, que eu lhes indico tão frágil no plano ôntico, é ético" (1964, p. 37).

Esta é a parte propositiva de nosso artigo. Na segunda parte, que será a demonstrativa, retomaremos essas proposições a partir da caracterização de uma das formações do inconsciente – as parapraxias – com o objetivo de trazer um exemplo e uma corroboração de nossa tese. Destacaremos nessa parte a demonstração de como o trabalho do inconsciente só pode ser entendido em sua extensão se levarmos em consideração a qual problema está referido – o sujeito – e o campo de problemas específico – o da ética.

Seguimos, portanto, como orientação de análise o que Georges Canguilhem (1963) define como trabalho de um conceito. Esta orientação visa levar o conceito a se articular com outros, com o objetivo de se testar sua fecundidade em produzir novos problemas, e explicar outros, indo até seus limites. Os limites de um conceito são estabelecidos em função da coerência lógica dessas articulações. Como escreve Canguilhem (1963): trabalhar um conceito é fazer variar sua extensão e compreensão, generalizá-lo mediante a importação de traços de exceção, exportá-lo para fora de sua região de origem, tomá-lo como modelo ou, inversamente, fornece-lhe um, em resumo, dar-lhe progressivamente a função de uma forma".

 

2. Proposições: os aforismos de Lacan

2.1 O fato de a psicanálise haver nascido da ciência é patente. Que pudesse ter surgido de outro campo, é inconcebível" (Lacan, 1966, p. 232)

Freud funda a psicanálise em 1900 com a formulação da hipótese do inconsciente. Este conceito fundamental da psicanálise é um dos que torna impossível situar o sujeito como senhor e mestre de si e da natureza, tal como definia Descartes. Ou seja, temos aqui o aparecimento de uma cisão no Homem, que não pode mais ser visto como uma unidade ou identidade sem abertura para uma alteridade. Eis um dos efeitos do conceito de inconsciente. Mas como demonstra Stella Adler (2002), encontramos esse movimento de descentramento do sujeito também no teatro moderno nas peças de autores como Henrik Ibsen e Anton Chekhov. O mesmo podemos dizer da poesia de Mallarmé (Campos, 2002) e da música de Debussy (Medaglia, 2003).

Esse descentramento não fica restrito aos problemas psíquicos ou artísticos. Nessa mesma época encontramos uma mudança na maneira de pensar a física – primeiramente com Plank, em 1900, e depois com Einstein, em 1905. Essa mudança na física acarreta, como demonstra Kojève (1990), em uma nova maneira de pensar o determinismo; este deixa de ser legalista – a toda causa se segue um efeito –, e passa a ser funcional – um efeito está logicamente ligado a uma causa, e não a partir de uma seqüência temporal.

Se seguirmos Michel Foucault (2002), temos também mudança no pensamento filosófico, com o aparecimento de Nietzsche e sua genealogia da moral, que não se ampara mais no estabelecimento de princípios fundamentais para o agir do sujeito, mas interroga sobre a vontade de poder. Também no pensamento social com Marx e a interpretação da história como sendo a luta de classes e a exploração produzindo restos que são apropriados pelos exploradores, como a mais-valia. Nesses dois últimos autores vemos a afirmação de um jogo de forças em detrimento ao pensamento que considera a história uma mera sucessão de acontecimentos.

Mudança no pensamento do sujeito, mudança no pensamento do teatro, no pensamento da música, no da poesia, no da sociedade, mudança no pensamento da física e mudança, principalmente, no pensamento da lógica. Tudo ocorrendo na mesma época. Será que podemos situar essas mudanças ocorrendo praticamente ao mesmo tempo em áreas tão diferentes como meros acidentes? Não seria antes uma mudança de episteme, tal como afirma Michel Foucault em As palavras e as coisas (1999)? E se temos uma mudança de episteme, como é que podemos qualificar essa nova episteme? O que há em comum entre todas essas novas maneiras de pensar? Em todas elas temos como traço comum o fim de um postulado que permita estabelecer o primado da identidade, e por conseguinte, estabelecer um fundamento indubitável, seja para o sujeito, seja para o pensamento científico.

Essa mudança implica em uma nova maneira de pensar. Nova maneira que constitui novas experiências. Experiências que não necessitam nem de identidade nem de hierarquia, e muito menos de uma lógica que não considera a contradição. Este novo modo de pensar e de constituir experiências permite situar o impossível como um operador lógico. Como afirma Jacques-Alain Miller, o impossível acontece" (2000, p. 38). Primeira conseqüência dessa mudança é a abolição de qualidades e hierarquia. A segunda conseqüência é a pluralização da lógica, em que a única lógica possível deixa de ser a aristotélica. E a terceira conseqüência que podemos extrair disso é a abolição da identidade.

Frente a essas conseqüências, duas posições são possíveis: ou de lógicos ou de dramáticos. No segundo caso, valoriza-se a maneira antiga de pensar, de organizar uma experiência, e sente-se a nova lógica como um absurdo ou como um erro a ser corrigido. A outra é extrair as conseqüências por saber que uma vez estabelecido um novo modo de pensar introduz-se também um corte que impossibilita retornar ao modo antigo. Não se pensa mais a física como Newton depois de Einstein, não se pensa a poesia como Goethe depois de Mallarmé, não se pensa a música como Wagner depois de Debussy, não se pensa a lógica como Aristóteles depois de Frege, e não se pensa o sujeito como Descartes depois de Freud.

É essa a razão de Lacan afirmar que a psicanálise não pôde ser pensada em qualquer momento da história. O que nos coloca de saída que a psicanálise, por ter tido um começo, terá também um fim. Mas longe de qualquer relativismo ou de qualquer ceticismo, dizer que ela teve um começo e terá um fim não significa que ela não seja necessária, ou que ela não traga a marca de um real. Podemos dizer que a psicanálise refere-se ao que Foucault, analisando um texto de Nietzsche em A verdade e as formas jurídicas, chamou de Erfindung (invenção): quando diz invenção é para não dizer origem; quando diz Erfindung é para não dizer Ursprung" (1996, p. 14). Onde podemos falar em invenção, podemos falar em começo; onde podemos falar em começo, podemos falar em fim. Mas onde falamos em origem, estamos falando de algo que não é fabricado, e por conseguinte não pode ser colocado em questão. Mas para que haja começo é preciso pensar nas coordenadas que tornam possível tal começo. E o fim de uma prática será sempre tributário das mudanças das coordenadas.

A psicanálise surge como possibilidade a partir do momento em que temos como coordenadas o surgimento de uma atividade que deixa de lado a consideração de qualidades ou de naturezas na orientação do sujeito. A perda dessas coordenadas surge a partir do advento de uma atividade que faz sulcos no real, a saber, a ciência. A ciência, por sua vez, é operativa, mas em nada se preocupa com determinação de problemas que seriam próprios ao sujeito. O que significa que devemos especificar um outro campo de problemas e outra rede conceitos e de prática para tratar do problema que o termo sujeito especifica, e não simplesmente dizer que o sujeito não tem relação alguma com a atividade científica, e muito menos tentar reduzir o sujeito a uma objetivação. No primeiro caso, correríamos o risco de cair em um misticismo e deixaríamos de lado o que Lacan afirmou com todas as letras: que a psicanálise é um debate, sempre o mesmo, a saber, o das luzes. No segundo caso, correríamos o risco de desconsiderar os conceitos psicanalíticos e do problema que é especificado por esses conceitos, a saber, o sujeito, que não é de modo algum um dado de realidade. Para qualificar essa relação recorremos ao termo de extimidade: o sujeito não é subordinado à ciência nem indiferente a ela, mas como diz Jean Claude-Milner: em outras palavras, há algo na episteme que se liga de maneira radical à psicanálise; entender a episteme é, portanto, também entender a psicanálise. Não apenas por um contraste, mas por uma relação íntima de exclusão mútua" (1996, p. 44). Donde podemos concluir com o próximo aforismo, como segue.

2.2 O sujeito sobre quem operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência" (1965, p. 873)

Sujeito que surge na história como aquele que a partir do que Pascal chama de silêncio eternos do universo, não pode mais se orientar por noções qualitativas que ordenavam o mundo antigo. Como aponta Lacan:

O mundo, vemos que ele não se agüenta mais, pois mesmo no discurso científico é claro que não há mais mínimo mundo. A partir do momento em que vocês podem ajuntar aos átomos uns troços que se chama quark, e que é ali que o verdadeiro fio do discurso científico, vocês têm de qualquer modo que se dar conta de que se trata de outra coisa que não um mundo (1972-73, p. 51).

Mas qual mundo não é mais tratado pelo discurso científico? O mundo antigo, no qual noções que eram oriundas da Natureza ou de uma Teologia orientavam os homens. Com o advento da atividade científica, esse mundo qualitativo desaba e aparece um novo modo de conceber os problemas que não indicam mais qualidades. É a esse sem qualidades que Pascal se refere quando fala em silêncio. Mas nesse universo em silêncio um problema grita: o da ação. Eis a razão de Lacan afirmar que a ciência foraclui o sujeito, uma vez que a ciência não pretende tratar de questões que sejam relativas ao problema da ação. Pois o que se pretende com o termo sujeito é pensar a possibilidade de uma ação que possa ser válida não somente pela via da individualidade, mas que ganhe o aspecto de universalidade. É a questão colocada por Descartes ao tentar formular os princípios dessa ação em princípios que fossem indubitáveis, a saber: como devo me conduzir na vida. Ou nos termos de Aristóteles retomados por Lacan no seminário sobre a ética: como encontrar o Bem Supremo, que está para além de todos os bens empíricos? Essa definição de sujeito pela via da filosofia nos ajuda a especificar o campo de problemas: tratar do Bem supremo ou da ação moral leva-nos diretamente para o registro da ética.

No entanto, a ciência não segue esse modo de tratar os problemas, que é a busca de um indubitável. Onde temos a busca de um indubitável, temos a promoção de um ideal. A ciência não busca o ideal, e sim o real. Se a psicanálise, ao contrário da filosofia, surge no mesmo mundo em que aparece também a atividade científica, é por não seguir também a busca de um ideal. Buscar na ética um ideal é algo que não podemos considerar como algo compatível com o pensamento científico. E por que não? Porque um ideal pressupõe princípios indubitáveis. E nada mais afastado da prática científica do que essa busca. Do mesmo modo em Freud: se ele buscasse um ideal para o sujeito não poderia ter lançado mão da associação livre. E por que não? Porque a associação livre pressupõe três aspectos: o primeiro é que não temos mais um saber sobre o sujeito do lado do analista; em segundo lugar, pressupõe que os significantes em torno do qual giram as questões do sujeito nãotêm significação em si, mas ganha algum sentido em função do modo como se arranjam; e em terceiro, que algo se produz nessa associação, de modo que ela só é livre para começar, mas que depois perde cada vez mais liberdade ao se configurar uma rede de repetições. E nesses três aspectos não podemos salientar nem a existência de princípios a priori, nem de ideais reguladores. Desse modo, temos uma definição de funcionamento que é para além dos princípios que comandam o sistema consciente, como o princípio de não-contradição e o princípio de identidade. E onde Freud sustenta que há pensamento que não se ampara em índices de não contradição e que depende uma alteridade? No inconsciente. Ora, se a psicanálise trata de um sujeito, e esse sujeito não pode se situar nem como um princípio a priori nem como aquele que busca um ideal, ele só pode ser um sujeito do inconsciente. E como afirma Lacan...

2.3 O estatuto do inconsciente, que eu lhes indico tão frágil no plano ôntico, é ético" (1964, p. 37)

A psicanálise é compatível com o pensamento científico não somente na questão da produção de um real. Mas também na definição desse real como um impossível. É pela via do que é declarado como impossível que a ciência se realiza. Foi pela produção de uma física matematizada que era declarada impossível pelo aristotelismo que algo se produziu. Do mesmo modo podemos pensar no sintoma em psicanálise: é a realização do que é declarado impossível pela censura que se realiza no sintoma, a partir do trabalho do inconsciente1.

No entanto, se falamos em compatibilidade é para não falar em redução de problemas objetivos a problemas éticos. Pois a tentativa de reduzir o sujeito a um problema objetivo como vemos hoje em empreendimentos diversos (só para citar um, a redução de problemas de sujeito a redes neuronais e produzir um híbrido chamado neuropsicanálise) é justamente não querer encontrar o sujeito (Miller, 1998, p. 236). Pois a questão primordial que o sujeito se coloca é sobre quem sou eu. Questão colocada devido ao produto do inconsciente como algo estranho ao sujeito. Como diz Jean-Louis Gault (2006), a hipótese do inconsciente introduzida por Freud visa, apesar deste caráter de aparente exterioridade, a por o sintoma a cargo do sujeito". Poderíamos até formular a questão do sujeito de outra maneira: como posso me situar frente ao Outro uma vez que em mundo afetado pela atividade científica só temos significantes sem qualidades. Daí a necessidade de não confundir os campos de problemas e Lacan especificar que o estatuto do inconsciente é ético; pois afinal, o que é o inconsciente senão o discurso do Outro, um discurso que ultrapassa o sujeito e o coloca descentrado em relação a si mesmo?

Não podemos esquecer que essa definição do estatuto do inconsciente como ético é feito a partir do questionamento da possibilidade ou não de cientificidade da psicanálise. Pois se a relação da psicanálise com a ciência é uma relação de exclusão íntima, e isso leva Lacan ao mesmo tempo em que se refere à ciência a especificar um campo de problemas para ela, é por seguir o Espírito Científico definido por Gaston Bachelard: é justamente esse sentido do problema que caracteriza o verdadeiro espírito científico" (1996, p. 18). Os conceitos psicanalíticos só adquirem sentido em relação ao sentido do problema que é ético.

Ora, em um problema definido dessa maneira, quais conseqüências podemos tirar? Gostaríamos de apontar que as conseqüências que são coordenadas do mundo em que a psicanálise é possível. Acreditamos que, em primeiro lugar, devemos abrir mão do discurso nostálgico de um mundo em que havia orientações e ideais, e abrir mão também de um discurso acusatório de que a ciência foi responsável por essa queda. Acompanhar esse discurso é aliar-se de algum modo a uma ética do ideal que nunca acompanhará o real da ciência e sustentará um discurso que produz uma ética superegóica. Pois uma ética que pretende estabelecer um ideal é uma ética que quer especificar o possível. Ora, a psicanálise, no dizer de Lacan, é uma clínica do real como impossível de suportar.

A segunda conseqüência é relativa à definição de significante. Um significante é o correspondente ao sem qualidades do mundo científico. Um significante não tem significado nele mesmo, mas só produz efeitos a partir da articulação com outros significantes. Nesta articulação entre os significantes, que independe de um significado, de qualidades, indica para o que desde Freud é conhecido como trabalho do inconsciente; não temos mais um sentido orientando o sujeito, mas uma série de operadores – condensação e deslocamento em Freud (1900); metáfora e metonímia em Lacan (1957) –, que tem como efeito a produção de um sujeito. É deste modo que Lacan é levado a definir o inconsciente como saber que não pensa, nem calcula, nem julga, o que não o impede de trabalhar (no sonho, por exemplo)" (2003, p. 517). Este trabalho, como aponta Milner (1996), é um trabalho sem qualidades, em que não podemos mais falar em uma lógica geral de produção de sujeito idênticos, mas em uma lógica fragmentária, plural.

A terceira conseqüência é relativa à maneira pela qual podemos entender o sujeito uma vez que abraçamos a hipótese do inconsciente. Se o estatuto do inconsciente é ético, é por ele se referir a um sujeito. Mas se dizemos que a possibilidade de pensar o inconsciente e os efeitos deste sobre o sujeito só é possível em um mundo em que a ciência é possível, não podemos mais considerar o sujeito como um ponto a partir do qual partem as intenções. Ao contrário, o sujeito, como efeito do inconsciente, deve ser lido a partir do que Lacan afirma no capítulo 10 do Seminário 11: o inconsciente é a soma dos efeitos da fala sobre um sujeito, nesse nível em que o sujeito se constitui pelos efeitos do significante" (1964, p. 122). Ou seja, o sujeito aqui, longe de ser o fundamento de uma ação, é um efeito. O sujeito é o que não se situa nem em um significante nem em outro significante, mas o sujeito não é outra coisa senão o que desliza numa cadeia de significantes" (Lacan, 1972-73, p. 68). Esse deslizamento impede que possamos situar o sujeito como dotado de uma identidade.

Dedicar-nos-emos na próxima seção a demonstrar como essas conseqüências de um sujeito não idêntico a si mesmo, da falta de qualidades que permeia a constituição do sujeito e do trabalho do inconsciente ajudam a compreender que o campo do sujeito psicanalítico é o campo dos problemas éticos. Freud parte da clínica, mas se ele se preocupa em falar em sonhos, atos falhos e chistes não é somente por que ilustram o inconsciente, mas por que eles são da mesma tessitura do sintoma produzido pelo inconsciente: estruturado pela lógica do significante, que como indica Jacques-Alain Miller, não se preocupa com significados, mas com o que se produz a partir da relação dos significantes. Por esta razão que na próxima seção consideraremos em demonstrar as teses avançadas até aqui a partir dos atos falhos, pois nele fica evidenciada a dimensão de trabalho, de não-sentido do significante, dos efeitos sobre o sujeito, e principalmente porque nos permite evidenciar por esses traços a compatibilidade lógica da psicanálise com a ciência.

 

3. O campo ético de problemas e os atos falhos

Na Psicopatologia da vida cotidiana (1901), Freud afirma que a psicanálise se debruça sobre eventos tão presentes na vida de qualquer sujeito e que a princípio ninguém lhes dá atenção, a saber, os atos falhos. A atenção da psicanálise se volta para esses fenômenos na medida em que eles demonstram, para além de uma lógica meramente consciencial, um sentido produzido pelo trabalho do inconsciente. Os atos falhos, como uma das manifestações do inconsciente, são um elemento singular que nos permite dimensionar o campo freudiano como um campo ético. Para tanto, partimos de uma afirmação de Jacques Lacan, em Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), em que ele afirma que o estatuto do inconsciente freudiano é ético. Tal afirmação é feita no momento em que Lacan se preocupa em definir a dimensão de problemas da qual Freud se ocupa quando elabora o conceito de inconsciente.

Lacan acrescenta ainda que a hipótese do inconsciente está intimamente relacionada às formas de tropeço e de falha que Freud observava nas manifestações de alguns eventos – sonhos, atos falhos, chistes e lapsos. Freud propõe o termo atos falhos2 em suas Conferências introdutórias sobre psicanálise (1916), com o objetivo de tratar de alguns desses eventos dos quais Lacan faz referência. Nessas conferências, vemos Freud preocupado em demonstrar que os atos falhos são resultados do trabalho do inconsciente, que segue operadores específicos – condensação e deslocamento –, ao contrário do que geralmente pressupõe a psicologia, que sempre procura reduzir esses fenômenos a explicações como a fadiga ou a falta de atenção.

A partir dessas duas afirmações – de que o estatuto do inconsciente é ético e que suas formações são resultados do trabalho desse mesmo inconsciente – é que podemos concluir que a dimensão de problemas da qual Freud se preocupa não é a científica. Logo no início de suas conferências sobre os atos falhos, Freud já nos dá a pista: nada acontece em um tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista. O paciente conversa, fala de suas experiências passadas e de suas impressões atuais, queixa-se, reconhece seus desejos e seus impulsos emocionais" (1916, p. 29). Se há uma implicação do sujeito na forma como os atos falhos se manifestam, por definição, não estamos mais em um campo científico de problemas, mas sim em um campo de problemas éticos, no qual a questão gira em torno de uma decisão a ser tomada, e de um conflito decorrente dessa decisão, o que envolve necessariamente um sujeito.

Dessa forma, partimos da tese de que a psicanálise não se afirma como uma ciência do psiquismo, ou mesmo do inconsciente. O que não significa que a psicanálise não seja compatível com o pensamento científico. E quando falamos em compatibilidade é para não falar em subordinação; seja a subordinação de um sujeito a procedimentos objetivos, seja a subordinação de problemas objetivos a critérios morais de um sujeito. Se na atividade científica moderna os objetos são produzidos em função de um problema, não existindo uma realidade que se impõe por si mesma, da mesma forma a psicanálise afirma que não há um sintoma anterior a certo tipo de organização entre as representações psíquicas. Um problema, a partir de então, só pode ser considerado a partir de conceitos específicos que são produzidos para explicá-lo.

Podemos apontar, portanto, que uma preocupação de Freud ao postular a hipótese do inconsciente é de afirmar que a topografia psíquica que apresenta do aparelho psíquico não possui um tipo de relação com a estratificação anatômica ou com as camadas histológicas. A lógica de funcionamento psíquico proposta por ele não se estende nem se reduz ao domínio biológico. Ao contrário, Freud na análise dos sonhos sempre rejeitou hipóteses que procuravam relacionar os atos falhos como uma reação de um órgão mental aos estímulos físicos aos quais era submetido em estado de sono. Podemos dizer que seu interesse era outro, pois o problema do qual tratava é de outra ordem do que biológica.

Além disso, ao tratar dos sonhos (outra das formações do inconsciente), ele nunca se deteve ao conteúdo manifesto do sonho, sendo o processo de deformação onírica e suas conseqüências, seu real interesse. A elaboração onírica e o processo de formação dos atos falhos conduziram Freud a pensar uma atividade psíquica inconsciente mais importante e abrangente que a atividade consciente, e ao mesmo tempo, estranha e desconhecida, fazendo apenas se conhecer por seus efeitos. Os sistemas que compõem essa topografia psíquica – o sistema Inconsciente e o Consciente – estão em constante conflito. As representações inconscientes são impedidas de entrar diretamente na consciência, sendo os processos de deslocamento e condensação responsáveis pelo conteúdo distorcido dos sonhos e dos atos falhos.

O pensamento de Freud converge para a explicação desses fenômenos que até então eram designados patológicos, exatamente por serem condicionados a uma lógica de funcionamento consciente.

Todos esses atos conscientes permanecerão desligados e ininteligíveis, se insistirmos em sustentar que todo ato mental que ocorre conosco necessariamente deve também ser experimentado por nós através da consciência; por outro lado, esses atos se enquadrarão numa ligação demonstrável, se interpolarmos entre eles os atos inconscientes sobre os quais estamos conjeturando. Uma apreensão maior do significado das coisas constitui motivo perfeitamente justificável para ir além dos limites da experiência direta (Freud, 1915, p. 192).

O relato de um sonho, ou a confissão de uma intenção contingente para um ato falho, não podem ser considerados como uma realidade mental reduzida ao que é consciente. Assim como a afirmação de que a Terra é redonda não é um fato em si, mas sim produto de um pensamento, Freud se esforça para o reconhecimento de que o processo de deformação onírica já é em si o próprio trabalho do inconsciente que trabalha no atendimento de duas exigências: a da pulsão que exige satisfação e uma segunda, do eu exigindo o recalque de uma idéia que perturbe o princípio de organização consciente. Afirmar que os sonhos e as parapraxias são produtos de certa lógica é o interesse da psicanálise, em contraposição à psicologia dita científica, que relega a esses fenômenos uma especial condição de serem reais, e por isso, desprovido de organização. Se assim tratados, ou seja, se os sonhos e os atos falhos denotam uma experiência real, todo o trabalho do inconsciente é renegado, e o que Freud chama de processo primário – deslocamento e condensação – é no mínimo criticado por ser desprovido de provas empíricas.

Ora, a hipótese do inconsciente não foi postulada por Freud anteriormente ao problema que ele se coloca. Não existe um inconsciente que precede e determina o sonho ou um ato falho. Se assim fosse, um conceito sempre seria subordinado à materialidade do qual foi produzido para explicar. A diferenciação entre uma hipótese postulada e uma produzida é esboçada por Freud em seu texto Algumas lições elementares de psicanálise. Segundo ele, uma hipótese postulada implica em uma subordinação do conceito à realidade material, sendo a comprovação dessa hipótese necessariamente de cunho empírico, em que o leitor ou o estudioso, a partir desse recurso (comprovação empírica do fato), segue o caminho ao longo do qual o próprio investigador viajou anteriormente" (1938, p. 315).

Já a hipótese produzida sempre aparece como um efeito de uma lógica de pensamento. Uma novidade se estabelece, uma vez que esta hipótese sempre se apresenta como uma conclusão antecipada" do que se segue posteriormente como explicação. O sentido do problema não é mais de uma hipótese real ou irreal, mas sim de um pensamento – uma vez que uma hipótese expressa o que se pode concluir de um pensamento –, que pode ser verdadeiro ou falso.

Portanto, o sentido de um conceito em psicanálise afasta de imediato a idéia de uma natureza, ou mesmo de uma realidade, uma vez que as relações que este pretende explicar de forma alguma são consideradas reais, mas somente verdadeiras – como aponta Blanché (1935). Não se trata de um problema a ser objetivado.

Além do mais, o conceito elaborado por Freud de inconsciente não possui sentido isoladamente; ele só chega a se concretizar pela relação que este mantém com outros conceitos psicanalíticos. Não faz sentido falar em inconsciente em psicanálise sem mencionar os conceitos de pulsão e sexualidade infantil, por exemplo.

O inconsciente freudiano não opera sobre uma realidade; o inconsciente é um conceito que pretende explicar e dar inteligibilidade às formações do inconsciente. Com efeito, quando Freud afirma ser o psíquico inconsciente3, o uso da palavra inconsciente nos remete a uma idéia de corte com o pensamento consciencial. Sua referência ao psíquico não subordina a psicanálise às ciências psicológicas". Ao contrário, a referência ao psíquico implica necessariamente uma delimitação do sentido do problema que está em jogo para a psicanálise, e se é possível falarmos de uma delimitação dos problemas, é porque uma subordinação da psicanálise a qualquer tentativa de objetivação é injustificável.

 

4. Conclusão

Dessa forma, a maneira como Freud coloca o problema dos atos falhos nos aponta para um campo de problemas que não pode ser definido pela busca objetiva de uma causa para o sujeito. O problema não é biológico: a topografia psíquica que Freud apresenta não possui um tipo de implicação na anatomia cerebral. Da mesma forma que a lógica de funcionamento psíquico que ele nos apresenta é dinâmica: o ato falho já é em si um efeito do trabalho do inconsciente no atendimento de duas exigências – uma da pulsão e outra do eu –, que são contraditórias. O conceito de inconsciente na teoria freudiana encontra-se amparado por ambas as teses: não é uma instância que podemos localizá-la anatomicamente, por isso só fazemos reconhecer suas manifestações. Dito de outra maneira, a própria maneira freudiana de articulação dos conceitos nos indicam a dimensão ética dos problemas da psicanálise: Freud não busca a partir da hipótese do inconsciente traçar um plano de orientação para um sujeito que sofre com os efeitos dos atos falhos. Ao contrário, ele coloca o problema de um sofrimento que só existe a partir de um critério de conduta que é assumido por um sujeito.

 

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Endereço para correspondência
Roberto Calazans
Rua Praça dom Helvécio, 74 – 36301-160 – Dom Bosco – São João del Rei/MG
Tel: + 55 32 3379-2457
E-mail: calazans@ufsj.edu.br

Tiago Iwasawa Neves
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH/UFMG)
Av. Antônio Carlos, 6.627 – 31270-90 – Campus Pampulha – Belo Horizonte/MG
Tel: (31) 3499-5042
E-mail: tiagoiwasawa@yahoo.com.br

Recebido em: 27/06/06
Versão revisada recebida em: 15/09/07
Aprovado em: 05/08/08

 

 

Roberto Calazans

Doutor em Teoria Psicanalítica (Universidade Federal do Rio de Janeiro); Professor Adjunto (Departamento de Psicologia/Universidade Federal de São João del Rei).

Tiago Iwasawa Neves

Mestrando em Psicologia (Universidade Federal de Minas Gerais); Bolsista do CNPq.

 

Notas

1 Lacan (1957-58) utiliza a denominação formações do inconsciente para designar o resultado do trabalho do inconsciente. Ela especifica os quatro modos analisados por Freud de retorno do recalcado, a saber: o sintoma, o sonho, o ato falho e as frases de espírito. O que há em comum entre todos eles é que são resultados da operação de deslocamento e condensação das representações que atuam no inconsciente.
2 O termo alemão utilizado por Freud é Fehlleistungen, literalmente atos falhos" ou funções falhas". Geralmente ele é traduzido em português por parapraxias.
3 A psicanálise escapou a dificuldades como essas, negando energicamente a igualação entre o que é psíquico e o que é consciente. Não; ser consciente não pode ser a essência do que é psíquico. É apenas uma qualidade do que é psíquico, e uma qualidade inconstante – uma qualidade que está com muito mais freqüência ausente do que presente. O psíquico, seja qual for sua natureza, é em si mesmo inconsciente" (Freud, 1938, p. 317).