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Psychê

versión impresa ISSN 1415-1138

Psyche (Sao Paulo) v.12 n.23 São Paulo dic. 2008

 

ARTIGOS

 

Testemunho: metáforas do lembrar

 

Testimonial: metaphors of remembering

 

 

Márcia Barcellos Alves; Edson Luiz André de Sousa I,II

I Universidade Federal do Rio Grande do Sul
II Associação Psicanalítica de Porto Alegre

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente trabalho propõe pensar sobre a temática da narratividade e do testemunho a partir da obra É isto um homem, de Primo Levi, em um diálogo com a construção do caso clínico na psicanálise. Para tanto, este estudo se reporta ao testemunho de Levi e a aspectos constituintes do processo narrativo por intermédio de autores como Sigmund Freud, Walter Benjamin, Jeanne Marie Gagnebin, Márcio Seligmann-Silva, entre outros. Questiona os impasses da memória na dialética das realidades factual e ficcional e interroga o conceito de irrepresentabilidade. Em seguida, sugere que se pense em uma clínica do testemunho e reflete sobre implicações desse narrar e contar histórias.

Palavras-chave: Testemunho; Psicanálise; História; Representação; Memória.


ABSTRACT

The present work reflects about the thematic of the narrative dialogue and the testimonial situation evidenced in the book This is a man" of Primo Levi, relating it with the construction of the clinic case in psychoanalysis. For this aim, the study refers to Levi"s testimonial and to constituent aspects of the narrative process through authors as Sigmund Freud, Walter Benjamin, Jeanne Marie Gagnebin, Márcio Seligmann-Silva, among others. It questions the impasses of memory on the dialectics of the factual and fictional realities and interrogates the concept of no-representation. Then, it suggests for clinical issues the testimonial and reflects about the implications of the narrative and telling stories.

Keywords: Testimonial; Psychoanalysis; Story; Representation; Memory.


 

 

Um sentimento exclusivamente pessoal, uma infelicidade só sua" (Kenzaburo Oe, 2003).

Simon Srebnik é uma das primeiras vozes no impressionante filme Shoah1, de Claude Lanzmann, de 1987. Ele, junto com Mordechai Podchlebinik, foram os únicos dois judeus sobreviventes dos campos de Chelmno, na Polônia. Calcula-se que cerca de 400.000 judeus morreram nessa região. Foi em Chelmno onde aconteceram os primeiros extermínios de judeus pelo gás. Lanzmann foi buscá-lo em Israel, com 47 anos, para percorrerem juntos a paisagem do massacre. O filme inicia com sua voz deslizando no pequeno riacho, cantarolando clássicas canções do folclore polonês:

Uma casinha branca
permanece na minha memória.
Com essa casinha branca
todas as noites sonho (Lanzmann, 1987, p. 19).

A voz do menino Simon, de 13 anos – idade que tinha na época dos campos nazistas –, mistura-se a sua voz atual, e somos lançados no turbilhão da cena que se apresenta em um silêncio inquietante. Tudo parece dentro da ordem: a suavidade do rio, a beleza da paisagem, o equilíbrio da vida. Contudo, suas primeiras palavras devolvem à cena seu fundo de rumor, e a história vai se fazendo presente mostrando os mata-borrões da paisagem. Palavras que vão abrindo furos no cenário e revelando outras imagens por trás da aparente serenidade.

Difícil reconhecer, mas era aqui.
Aqui, queimavam-se pessoas.
Muitas pessoas foram queimadas aqui.
Sim, este é o lugar.
Ninguém jamais tornava a partir.
Os caminhões de gás chegavam ali...
Havia dois imensos fornos...
e em seguida, jogavam-se os corpos nesses fornos,
e as chamas subiam até o céu (Lanzmann, 1987, p. 20).

Era a primeira vez que Srebnik voltava a Chelmno. O espectador assiste perplexo seu espanto, sua dor e sua incompreensão com o que vai vendo e lembrando. Estamos todos na cena, como se ali pudéssemos também testemunhar a história com o repertório de imagens que temos. Srebnik viu, nessa paisagem, seu pai ser abatido diante de seus olhos, e sua mãe asfixiada nos caminhões dos SS. O que vemos subitamente adquire uma densidade de verdade e responsabilidade. Somos todos responsáveis por essa história: os que contam, os que mostram e os que escutam. Assim, podemos, como testemunhas, continuar a narrar o que vemos no desafio de capturar este excesso de real. Diz ainda Srebnik:

Não se pode contar isso.
Ninguém pode
imaginar o que se passou aqui.
Impossível. E ninguém pode compreender isso (Lanzmann, 1987, p. 21).

As reflexões presentes no corpo deste artigo vêm interrogar, discutir e elucidar questões concernentes ao tema da função da narrativa como valor de testemunho. Narrando histórias e amarrando" idéias, criam-se versões, dão-se depoimentos, contam-se experiências: testemunha-se.

O testemunho de quem conta uma história, de quem relata uma experiência, de quem fala ou (des)escreve uma realidade dá lugar, abre espaço para metáforas do próprio lembrar. Por outro lado, o testemunho de quem escuta a história, esse público" que dá ouvidos à trama, que também se faz testemunho de uma experiência, e que através dela também potencializa a re-significação, a metaforização de suas próprias histórias.

A possibilidade de se entender e criticar a questão do testemunho como uma metáfora do lembrar produziu um espaço de interrogações e de fecundas interlocuções com a clínica psicanalítica: a psicanálise é toda baseada na situação dialógica da clínica, que tem o testemunho no seu centro", escreve Seligmann-Silva (2005, p. 72).

Na clínica psicanalítica, um sujeito vem contar uma história... E que história é essa que um sujeito vem contar ao analista? A psicanálise, ao longo de toda sua construção, não cansa de tentar encontrar formulações que possam contribuir na montagem desse quebra-cabeça envolvido na escolha de como contar uma história. Pois trata-se de uma escolha em meio a infinitas possibilidades. Trata-se de uma escolha orientada", uma escolha possível", e que se vai revelar nos ditames do discurso. Podemos entender o testemunho que o sujeito produz, na cena analítica, também como uma espécie de metáfora do lembrar?

Entendendo a narrativa como um aspecto constituinte da vida e da condição humana (bem como algo completamente intrínseco ao processo analítico), e atentando aos percalços constituintes da tarefa de quem conta uma história, lancemo-nos nas produções de alguns dos principais autores preocupados com a questão da narrativa e do testemunho, em um diálogo com a obra de Primo Levi.

A escolha justifica-se: em É isto um homem?, Primo Levi2 (1988) dá seu depoimento, testemunha sua experiência no campo de concentração de Auschwitz, no sul da Polônia. A obra de Levi mantém-se como um clássico da literatura de testemunho – além do fato de que, como diz Seligmann-Silva, à ‘era das catástrofes" corresponde a ‘era dos testemunhos"" (2005, p. 82).

Deportado em 1944, juntamente com mais seiscentos e cinqüenta judeus, Levi foi um dos três sobreviventes. Já no Prefácio do livro Se questo è un uomo, o autor esclarece que não pretende tecer novas denúncias sobre os horrores dos campos de extermínio, até porque teve a