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Boletim - Academia Paulista de Psicologia

versão impressa ISSN 1415-711X

Bol. - Acad. Paul. Psicol. v.28 n.2 São Paulo dez. 2008

 

HISTÓRIA DA PSICOLOGIA

 

Resgatando a memória dos pioneiros: João Cruz Costa (* 13/02/1904 - † 10/10/1978) Patrono da cadeira nº 32

 

Redeeming the memory of the pioneers: João Cruz Costa (* 13/02/1904 - † 10/10/1978) Patrono da cadeira nº 32

 

 

Hebe C. Boa-Viagem A. Costa1

 

 


RESUMO

João Cruz Costa, filósofo brasileiro, foi Assistente de Jean Magüé na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e, em seguida, Professor Contratado para a Cadeira de Filosofia. Após concurso, aprovado com distinção, passou a ocupar o cargo de Professor Catedrático de Filosofia da referida Faculdade. Sua produção intelectual é grande e versátil, especialmente sobre o desenvolvimento das idéias filosóficas no Brasil, procurando estabelecer relações entre o pensamento e a realidade social, política e econômica do País através de sua história. Suas obras ultrapassaram nossas fronteiras. Ensaísta, crítico, sociólogo, biógrafo, além de filósofo, indicando com isso a diversidade dos seus conhecimentos. Divulgava-os pela docência e artigos em linguagem simples através de importantes jornais da época: Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Jornal de São Paulo, Minerva de Buenos Aires e Jornadas do México. Membro da Sociedade Paulista de Escritores, da Sociedade de Biologia, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Sociedade de História das Idéias, do México, comprovando assim a extensão dos seus conhecimentos. Foi aposentado, precocemente, em 1965 durante o período chamado de ditadura militar. Faleceu em 1978.

Palavras-chave: João Cruz Costa; Pioneiros; Filosofia.


ABSTRACT

Brazilian philosopher João Cruz Costa was an Assistant to Jean Magüé at the former Faculty of Philosophy, Sciences and Letters of the University of SP, and later was hired as Professor to the Chair of Philosophy. After examination, approved with honors, he was then elected as Catedratic Professor of Philosophy at that same Faculty. His intelectual production is large and versatile, especially on the development of the philosophical ideas in Brazil, seeking to establish relations between thought and the social reality, politics and the economy of our country through its history. His teachings surpassed our borders. Essayist, critic, sociologist, biographer, as well as philosopher, all this indicates the diversity of his knowledge. He divulged his works in a simple language, through teachings and articles in important newspapers of that time: Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Jornal de São Paulo, Minerva de Buenos Aires and Jornadas do México. He was also a member of the São Paulo Writers Society, the Biology Society, the São Paulo Historic and Geographic Society and the Mexican History of Ideas Society, which proves the vastness of his knowledge. He was retired precociously in 1965 during the period known as the military dictatorship. He passed away in 1978.

Keywords: João Cruz Costa; Pioneers; Philosophy.


 

 

1. Dados bibliográficos

Paulistano de nascimento, Cruz Costa fez seus primeiros estudos na sua cidade natal. Aos 18 anos, pretendendo estudar Ciências Sociais, Matemática e Medicina na Universidade de Iena (Alemanha), partiu para a Europa. Não tendo obtido visto no consulado alemão, ficou em Paris e iniciou sua preparação para a Faculdade de Medicina. Espírito inquieto, freqüentou cursos de Ciências Naturais do Museu de História Natural e, simultaneamente, assistiu conferências na Sorbonne e Colégio de França sobre temas filosóficos e sociológicos. Em 1925, já no Brasil, matriculou-se na Faculdade de Medicina de São Paulo e, dois anos depois, deixou o curso. Seu interesse estava em outro campo como bem mostra o seu trabalho inédito: Quelques aspects de la formation brasiliènne.

A carreira que o tornaria famoso nacional e internacionalmente teve início, simultaneamente, com a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Em 1934 João Cruz Costa matriculou-se no curso de Filosofia, licenciando-se em 1937. O contato com os professores da missão francesa, em especial Jean Maugüé foi significativo para ele. Por outro lado, o mestre francês encantou-se com o novo aluno e o indicou para uma Bolsa de Estudo na França que, infelizmente, não pôde aceitar. Outras oportunidades foram surgindo: tornou-se professor do Instituto de Educação e, mais tarde, assistente de Jean Maugüé na Cadeira de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e professor do Mackenzie College. A partir daí preparou-se para o doutoramento com a tese Crítica das idéias políticas tomistas de Suarez e a defendeu na USP (1940).

Quando Maugüé retornou a França, foi indicado, juntamente com Livio Teixeira, para assumir interinamente a Cadeira de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. O Concurso para provimento dessa Cadeira provocou uma celeuma que durou anos. Inscreveramse diversos candidatos, inclusive João Cruz Costa que já ocupava o cargo. Os demais provinham da Faculdade de Direito ou então não tinham diploma de curso superior. Os concursos para provimento de Cátedra e Livre-Docência para cursos superiores seguiam o regulamento segundo o decreto-lei 13.426 de 23/06/45.

De conformidade com esse decreto-lei, a Congregação da Faculdade que não possuísse 2/3 de professores efetivos tinha que delegar todas as suas atribuições no referente a concursos ao Conselho Universitário. Também permitia que acolhesse a inscrição de candidatos não portadores de diplomas de curso superior. Os concursos anteriores obedeciam a esse critério. Entretanto, a Lei 851 de 07/10/49 alterou a situação vigente até então. Determinou que as Congregações com menos de 2/3 de professores efetivos fossem completadas com professores universitários de estabelecimentos congêneres desde que fossem de Notório Saber, com atividades e obras publicadas na especialidade da Cadeira em concurso. Com esse dispositivo estava assegurada a autonomia da Faculdade para fins de concurso. Outra mudança: os candidatos deveriam ter diploma universitário em cujo curso constasse a Cadeira de Filosofia, então em concurso.

A Faculdade de Filosofia, seguindo a nova lei, recebeu condicionalmente a inscrição de dois candidatos que não tinham diploma de curso superior. O Conselho Técnico Administrativo, entretanto, seguindo a orientação do decretolei 13.426, aceitou a inscrição desses candidatos e encaminhou o processo para a Reitoria da Universidade que, por sua vez, o submeteu à Comissão de Legislação e Recursos. Esta pronunciou-se favorável à inscrição dos candidatos. A reação da Faculdade de Filosofia foi imediata contra essa decisão. Fernando de Azevedo (Patrono da Cad. 3) solicitou que Miguel Reale elucidasse, como jurisconsulto, essa pendência. Miguel Reale, então Reitor da Universidade, manteve seu ponto de vista e foram escolhidos os membros e respectivos suplentes para a comissão examinadora.

Ante essa decisão esdrúxula, a Faculdade de Filosofia protestou e enviou recurso para o Ministro da Educação e Saúde Pública e ao egrégio Conselho Nacional de Educação. Em maio, por unanimidade de votos, foi aprovado favoravelmente o recurso em pauta. Em outubro, a Congregação da Faculdade considerou inscrito apenas João Cruz Costa.

Em novembro, novo recurso foi feito pelos candidatos formados em Direito, agora contra a decisão da Congregação da Faculdade de Filosofia. Novamente o Conselho Universitário acolhe o recurso e dá provimento favorável no sentido de serem aceitas suas inscrições. Todavia uma questão impunha-se: A Filosofia do Direito atende os reclamos da lei, na sua letra e no seu espírito para garantir aos bacharéis de Direito inscrição no concurso de Filosofia da Faculdade de Filosofia da USP? (Histórico do Concurso, 1952, p. 49).

Para esclarecer essa dúvida do relator foram convocados Prof. Miguel Reale e o Prof. Leonardo Van Acker que opinaram a favor do ponto de vista do Conselho Universitário. Novamente a Congregação da Faculdade de Filosofia contestou a equivalência das Cadeiras de Filosofia e de Filosofia do Direito. A comparação dos referidos cursos mostrava a diversidade dos programas de uma e outra Cadeira, como também de sua duração (1 ano de Filosofia do Direito e 4 da Filosofia na F.F.C e Letras da USP). Mesmo diante dessa argumentação, o Conselho Universitário, após debate, votou a favor dos bacharéis de Direito.

O Conselheiro Eurípides Simões de Paula, também Diretor da F.F.C.L, encaminhou essa decisão à Congregação dessa Faculdade que houve por bem encaminhar um recurso ao Exmo. Sr. Ministro da Educação.

Após apresentar um histórico da questão, o recurso analisa o artigo 84 do Estatuto da Universidade de São Paulo e demonstra que o mais alto órgão de nossa Universidade, preferiu, desprezando a evidência dos argumentos, seguir caminho diverso daquele que lhe era imposto pelo texto legal e bom senso. Lembra também o voto do Conselheiro prof. Dr. Cesário de Andrade, ao parecer nº 357 -51 do Conselho Nacional de Educação referente a uma consulta feita pelo Diretor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais: A razão do legislador exigir do candidato a concurso de uma determinada Cadeira, diploma profissional ou cientifico de curso reconhecido, onde se ministra o ensino da disciplina a cujo concurso se propõe, razoavelmente se entende que ele seja diplomado na disciplina submetida a concurso. De outro modo, não seria razoável que o legislador pretendesse do candidato noções gerais e não particulares da matéria que deseja professar (voto dado em 19/11/51). E conclui: Uma parte não é o todo. Quem sabe o todo pode ensinar uma parte, mas quem sabe apenas uma parte não pode ensinar o todo.

Em seguida o recurso apresenta o programa de Filosofia do Direito ministrado no 5º ano do curso de bacharelado de Direito e o de Filosofia ministrado nos seus quatro anos de estudos e compara-os. Relata que a Faculdade de Filosofia já produzira seus frutos e, finalmente, trata dos candidatos em causa e apresenta sua conclusão.

Este recurso foi aprovado e a Congregação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras pôde realizar o concurso segundo suas normas e firmar sua autonomia. Não resta dúvida que, mesmo antes do concurso, João Cruz Costa foi reconhecido como o mais capaz para ocupar essa Cadeira.

Quatro anos depois de aberta a inscrição do referido concurso, ele aconteceu. Fizeram parte da Comissão Julgadora os seguintes professores: Milton da Silva Rodrigues (Patrono da Cad. 6), Fernando de Azevedo (Patrono da Cad. nº 3), Arthur Versiani Velloso, Orlando Villela e Arnulf Konrad Ansorge.

Entre os dias 24 e 28 de maio de 1954, foram realizadas as provas escrita, julgamento de títulos, defesa de tese (O desenvolvimento da Filosofia no Brasil no século XIX e a evolução histórica nacional) e a prova didática. Foi aprovado com distinção e o Diretor, Eurípides Simões de Paula, comunicou o resultado ao Magnífico Reitor solicitando providências para nomeação do Professor João Cruz Costa para o cargo de Catedrático, em regime de tempo integral, ficando rescindido o seu contrato para a regência interina da mesma Cadeira. (USP, 1952, p. 61)

João Cruz Costa desempenhou funções relevantes: Conselheiro da Biblioteca do Congresso de Washington, a convite do governo norte-americano; membro da Comissão de Historia das Idéias do Instituto Pan-americano de Geografia e História; delegado por São Paulo no 1º Congresso Brasileiro de escritores e correspondente da Cátedra Alejandro Korn, de Buenos Aires.

 

2. Como era o Prof. Cruz Costa?

Dois valiosos depoimentos respondem essa pergunta:

1- José Sebastião Witter – “Inesquecível figura humana. Um dos MESTRES de verdade que a USP teve em seus quadros. Convivi com ele por vinte anos, desde que cheguei, como estudante, ao Departamento de História, em 1958, até sua morte em 1978.

Uma das suas participações em minha vida foi como argüidor de minha Tese de Doutoramento. Outros tempos!!! Naquela época, na década de 70 do século XX, uma defesa de tese fazia com que os auditórios do prédio de História e Geografia ficassem lotados. Lembro-me até hoje de tantos e tantos amigos e alunos, atrasados para o início da argüição, olhando-me das portas laterais de um dos anfiteatros; outros bem no fundo da sala, todos em pé. E as pessoas ficavam até o término e o anúncio da nota obtida pelo candidato. Na verdade, todos queriam ouvir pessoas como o grande sábio e mestre João Cruz Costa. Como me lembro dele apontando as minhas falhas, até com certa ironia, mas com elegância e respeito. Afinal, depois dos abraços, chamou-me de lado para dizer-me que não publicasse a tese sem reparos na introdução (sugeriu que eu a excluísse - o que fiz) e em dois capítulos que não comentou. Ético, sobretudo, mostrou-me com detalhes porque não deveria deixar como estava. Linda a argüição particular e a forma de dizer-me que o que eu fizera estava muito ruim. Não fez de público porque o “conjunto era promissor e eu inspirava-lhe confiança”. Procurei nunca trair Cruz Costa em toda minha carreira universitária. Procuro seguir sempre o muito que ele me ensinou.

Não convivi muito com ele porque vivíamos em departamentos diferentes, embora na mesma Faculdade e eu não tinha a coragem de aproximar-me voluntariamente. Esperava as oportunidades de estar com ele, quase sempre através de Sergio Buarque de Holanda e Eurípides Simões de Paula.

Vivíamos outro momento da vida universitária. Quando cheguei à USP, em 1958, desejava muito conhecer Cruz Costa, um professor que enfrentara o Governador, então Jânio Quadros, que, de alguma forma, desrespeitara a Autonomia Universitária. A veemência de Cruz Costa valeu-lhe uma admoestação e uma suspensão de três dias.

A coragem de João Cruz Costa marcou este, hoje, velho professor; na época um aluno que começava a viver seus sonhos. Mestres como Cruz Costa, por seu saber e atitudes, formavam os estudantes naquele tempo. Os exemplos dados em todos os momentos da vida de homens como ele estão presentes na vida de cada um de nós até hoje.

Quando, em 1978, escrevi sobre o MESTRE, na Ciência e Cultura, afirmava: Cruz Costa viraria um símbolo de resistência à ingerência indevida, que feria o princípio de autonomia, norteador do trabalho universitário. Infelizmente, parece que a voz de Cruz Costa, levantada em 1958 (...) não foi ouvida e nem acalentada como deveria. (...) Como precisamos hoje (em 1958) de um Cruz Costa. Repito, cinqüenta anos depois: Como precisamos, hoje, de um CRUZ COSTA.

Lembrar do MESTRE Cruz Costa é voltar a um momento em que a Universidade era o verdadeiro centro de irradiação da cultura e do conhecimento.

A este sempre aluno dele é um privilegio deixar estas poucas palavras, que traduzem todo o meu carinho e respeito por ele. Se tivesse fôlego, gostaria de recuperar a sua História, que é, sem dúvida, um MARCO na História da USP, do Estado de São Paulo e do Brasil.”

2. A descrição feita por J.A.Giannotti, seu sucessor, bem mostra o professor especial que era ele:

Seu maior êxito, entretanto, foi sua própria vida. A reflexão rente aos acontecimentos, exercia-se cotidianamente no círculo de alunos e dos amigos. Nunca conseguiu dar uma aula magna. Mas com pontualidade e persistência de fazer inveja aos relógios, durante trinta anos, entrava numa sala, tirava do bolso umas pequenas folhas de papel, preenchidas com sua letra gorda, e começava a conversa com os alunos. Esta girava em torno de um tema central, mas, pouco a pouco, ia divergindo, entremeando um comentário sobre um livro lido na véspera ou sobre um acontecimento político. Não havia reflexão que não tentasse agarrar o cotidiano muito nosso.

Essa abordagem dos temas filosóficos não era comum entre a maioria dos professores dessa matéria. Para ele a Filosofia não é, pois exterior ao mundo. Não é simplesmente uma aventura do espírito, mas uma aventura humana, total, que se expressa freqüentemente, de modo sutil, mas cujas raízes estão na terra. Mais adiante acrescenta: A Filosofia encontra a verdade na sua adequação com a realidade (...) Essa realidade não é permanente, mas histórica. Não é, pois, possível, saltar a barreira da história. Quando muda a história, necessariamente tem que mudar também a Filosofia. (Cruz Costa, 1956, p. 24).

João Cruz Costa preocupava-se com a formação dos professores de Filosofia. Criticava a proliferação de faculdades, muitas vezes de má qualidade e, portanto, incapazes de formarem bons professores. Para ele a ênfase que se costuma dar a preparação de programas de ensino é desproporcional. O importante é cuidar da formação de professores. Um programa ruim pode ser salvo por um bom professor. E o bom programa com um professor incompetente está fadado ao fracasso. Defendia também a inclusão da Filosofia no final do ensino médio, posto que ela representa, na formação do jovem, o espírito da liberdade. E quem mais do que as jovens gerações do nosso tempo têm necessidade do aprendizado refletido da liberdade? De onde esta desaparece, extingue-se a verdadeira cultura. O que apenas resta é o marasmo, conformismo, mormaço, o pesadume de uma erudição tão oca quanto estéril.. Em defesa da inclusão da Filosofia no curso médio, cita as palavras do escritor Jean-Richard Bloch: ...todo homem está ocupado com um pensamento, obcecado por uma tarefa e uma paixão. Através dos acidentes da vida, ele formula a questão fundamental do seu destino. Que ser sou eu? Que faço na terra? Qual é a minha razão de ser? Como explicar essa atividade incessante que me caracteriza? Como justificar estes desejos que me agitam, essas inquietações que me preocupam? Quem me dará, enfim, do que sou, uma definição capaz de esclarecer-me, de aquietar-me, de contentar-me? (Cruz Costa, 1960, p. 113).

Para Cruz Costa todos esses problemas são filosóficos. Por que então não apresentá-los aos jovens?

J. C. Costa, através da sua maneira de ensinar, dialogando sempre, levando o aluno a refletir sobre um tema que poderia resultar numa excelente pesquisa. Foi o que aconteceu com a judia Anita Novinski. Numa aula, com sua atitude socrática, descobriu que ela não sabia nada sobre a Santa Inquisição. Indicou e deu-lhe livros sobre esse tema. Estudando a história desse fato na Espanha e Portugal, ao acabar o curso de Filosofia, Anita foi convidada a desenvolver uma tese, sob a orientação de Lourival Gomes Machado, por indicação de Cruz Costa. Ela passou, assim, para o campo da História e fez estudos em Portugal e Israel. Foi orientador de diversas teses inclusive a de dois Patronos desta Academia: Laerte Ramos de Carvalho (Cadeira 8) e Dante Moreira Leite (Cadeira 23).

É da Folha de São Paulo a seguinte observação: Cruz Costa não impunha doutrinas ou sistemas filosóficos, respeitava a liberdade de pensar, sempre dono de uma fina ironia. Mesmo assim foi vítima do autoritarismo que grassou no Brasil a partir de 1964 e aposentado precocemente. Passou os últimos anos de sua vida amargurado, distante de sua sala de aula onde, tão eficientemente, fizera uma juventude refletir buscando sua própria identidade e produzindo frutos.

Giannotti conclui: Sem Cruz Costa, a nova geração que começa a ocupar os postos da Filosofia paulista não seria o que é, não teria encontrado a ponte entre o ensino francês que, vindo de fora, punha em perigo as possibilidades de enraizamento e a tradição portuguesa do soldado prático, ao mesmo tempo gatuno e pensador.

Cruz Costa faleceu em São Paulo, em 1978. Segundo Vitor Knoll: desaparece, assim, uma figura que teve uma das mais sadias preocupações com as coisas do Brasil.

 

3. Considerações finais

Não fui aluna dele, mas tive contato, no curso de Didática, com colegas de outras áreas e aí constatei o quanto os alunos de Filosofia admiravam o professor João Cruz Costa. Ele foi nosso paraninfo, turma de 1949 e, através do seu discurso, entendi que eram justos os comentários dos meus colegas. João Cruz Costa era mesmo um professor excepcional. Em 1954 retornei à Faculdade para cursar Ciências Sociais. Foi justamente no ano do concurso para a Cátedra de Filosofia depois de toda aquela celeuma: Congregação da F.F.C.L. x Congregação da Faculdade de Direito. Assisti, com alegria, a consolidação da autonomia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras com relação aos concursos de Cátedra e licenciatura e, também, a aprovação, com distinção, de Cruz Costa para provimento do cargo em questão.

Muitos dos seus alunos, hoje Titulares da Academia Paulista de Psicologia, tiveram a honra de receber seus ensinamentos e mais ainda aprender dele a atitude de reflexão e de crítica.

 

Algumas de suas Publicações

• (1940) Crítica das idéias tomistas de Suarez (Tese de doutorado). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras - Universidade de São Paulo.

• (1942) Ensaio sobre a vida e obra de Francisco Sanches, São Paulo: Editora Faculdade de Filosofia;

• (1946) O pensamento brasileiro – Boletim da USP – LXVII –Filosofia nº 2 – São Paulo;

• (1956) A contribuição à Historia das Idéias no Brasil – A evolução histórica nacional - Coleção de Documentos Brasileiros – Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora – (tese para a Cátedra traduzida para várias línguas);

• (1960) Panorama da História da Filosofia no Brasil – São Paulo: Editora Cultrix;

• (1972) Pequena História da República – Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira;

 

Algumas Homenagens

• João Cruz Costa - Professor “Honoris Causa” da Universidade Reims, na França e Cavaleiro da Legião de Honra;

• Centro Acadêmico de Filosofia João Cruz Costa – USP (denominação)

• João Cruz Costa – Patrono da Cadeira 32 da Academia Paulista de Psicologia – São Paulo.

• Escola Estadual João Cruz Costa – São Paulo (denominação);

• Rua João Cruz Costa – Rio de Janeiro (denominação)

 

Referências bibliográficas

• Cordeiro, H.D. (2003) Entrevistando Anita Novinski – Revista Judaica – n.º 65;

• Costa, J. C (1960) Panorama da História da Filosofia no Brasil – São Paulo: Editora Cultrix;

• Costa, J. C. (1972) Pequena História da República – Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira;

• Cresson, A. (1931) A posição atual dos problemas filosóficos (trad. e prefácio de Lourenço Filho). São Paulo: Edições Melhoramentos;

• Giannotti, J. A. (1944) Perfis de mestres – João Cruz Costa – Estudos Avançados - Vol. 8 – nº 22.

• Mello, L. C. (1954) Dicionário de Autores Paulistas – Comemorações Culturais– Arquivo do Estado;

• USP – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (1952). Histórico do Concurso da Cadeira de Filosofia. Seção de Publicação da F.F.C.L.

• Witter, J. S. (1979) João Cruz Costa. Ciência e Cultura, 31(3).

 

 

1 Pedagoga e Socióloga pela USP. Advogada pela F.D.G. Contato – e-mail: hebejose@uol.com.br

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