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Estilos da Clinica

versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.22 no.2 São Paulo ago. 2017

http://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v22i2p299-318 

ARTIGO

 

Da vibração ao encontro com o outro: psicanálise, música e autismo

 

From vibration to meeting with other: phychoanalysis, music and autism

 

De la vibración al encuentro con el otro: psicoanálisis, música y autismo

 

 

Marina Batista de SouzaI; Mae Soares da SilvaII; Sandro RodriguesIII; Alexandra Avelar TavaresIV; Karen SousaV; Socorro SantosVI

IPesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise da Infância. Bolsista de Iniciação Científica do Centro Universitário do Maranhão (Ceuma), São Luís, MA, Brasil
IIPsicanalista. Docente e pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise da Infância do Centro Universitário do Maranhão (Ceuma), São Luís, MA, Brasil
IIIDocente. Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise da Infância do Centro Universitário do Maranhão (Ceuma), São Luís, MA, Brasil
IVPsicanalista. Docente e pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise da Infância do Centro Universitário do Maranhão (Ceuma), São Luís, MA, Brasil
VPesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise da Infância. Bolsista de Iniciação Científica do Centro Universitário do Maranhão (Ceuma), São Luís, MA, Brasil
VIPesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise da Infância do Centro Universitário do Maranhão (Ceuma), São Luís, MA, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

O estudo, partindo do princípio de que o ritmo permeia a estruturação psíquica, investigou os efeitos de um ateliê musical como formador de laço entre crianças autistas e seus semelhantes. O ateliê, com encontros semanais, era formado por crianças de dois a quatro anos. Foram interventores: psicólogas, psicanalistas, uma professora de música, uma fonoaudióloga e estudantes de psicologia da Universidade Ceuma. Os resultados foram descritos por meio de um estudo de caso, discutido sob o referencial da psicanálise. Conclui-se que a linguagem musical pode auxiliar no estabelecimento de vínculos, sendo esta linguagem não ameaçadora e intrusiva.

Descritores: ateliê musical; autismo; psicanálise.


ABSTRACT

The study investigated the effects of a musical atelier as in instrument to create bond between autistic children with pairs. It was assumed that rhythm permeates psychic structuring. The atelier, which happened once a week, was composed by children aged two to four. The interventors were: one speech therapist, psychologists and students of the Psychology at Ceuma University. The results were described through a case study, done with a three year old child and discussed under the theoretical reference of psychoanalysis. It concluded that the musical language can help in the establishment of bond with autistic children, since this language is not threatening and intrusive.

Index terms: musical atelier; autism; psychoanalysis.


RESUMEN

El estudio investigó los efectos de un taller musical como formador de lazos entre los niños autistas y sus semejantes. Se supone que el ritmo impregna la estructura psíquica. Formaran parte del taller, con reuniones semanales, niños de dos a cuatro años. Los interventores fueron: psicólogos, psicoanalistas, un profesor de música, un terapeuta del habla y estudiantes de psicología de la Universidad Ceuma. Los resultados fueron presentados en un estudio de caso analizado desde la teoria psicoanálitica. Llegamos a la conclusión de que el lenguaje musical puede ayudar a formar una unión que no sea amenazadora y intrusiva.

Palabras clave: taller musical; autismo; psicoanálisis.


 

 

Introdução

A questão do autismo é complexa, tendo diversas teorias e autores que versam a respeito do tema. A primeira tentativa de definição e descrição do autismo foi feita pelo psiquiatra Leo Kanner, em 1943, onde, entre outros sintomas, o autor ressaltava o "isolamento autístico" e os distúrbios da linguagem (Kanner, 1943).

Laznik (2004) propõe compreender o autismo a partir de uma falha no estabelecimento do laço primeiro com o Outro, sem o qual nenhum sujeito pode advir. Isto faz com que pensemos, nos casos de autismo, em um "sujeito anterior ao sujeito" (Catão & Vivès, 2011, p. 10), o que leva a psicanálise a buscar novos modos de intervenção frente a essa clínica.

Laznik, Maestro, Muratori e Parlato-Oliveira (2006) observaram em vídeos caseiros de bebês que viriam a ser diagnosticados com autismo que, embora eles apresentassem dificuldades em estabelecer laços com o outro, eram capazes de responder a uma convocação pela voz que tivesse as características prosódicas do "manhês" – também denominado "parentês" –, marcada por um "prolongamento das vogais, que a torna mais lenta e sonora, aumento da frequência, que a faz mais aguda, e glissandos característicos que a tornam mais musical" (p. 58).

Para a psicanálise, a voz representa um veículo da relação entre o infans e o outro, voz pensada como objeto da pulsão (Lacan, 1988). O que se transmite na voz é a pulsão invocante. Invocare, em latim, remete ao apelo, ao chamamento (Vivès, 2009). A partir dos trabalhos de Didier-Weill (1997), foi possível observar como a pulsão invocante, a dimensão material da voz, pela via da música, convida o sujeito a estar em continuidade com o Outro, com seu ritmo e melodia.

Alguns autores, como Laznik (2004), Catão (2009) e Lima (2012) sugerem que o laço com o Outro, para o sujeito autista, é invasivo, de modo que o sujeito ficaria à mercê dos caprichos de um Outro imperativo, sem limites, que lhe impõe o que fazer. Diante disso, Kupfer, Faria e Keiko (2007) apontam como possibilidade de tratamento do autismo e da psicose infantil um dispositivo institucional que incida sobre o Outro. Segundo Lima (2012), a música, no contexto do ateliê, apresentaria uma particularidade interessante, na medida em que, ao mesmo tempo em que não é dirigida diretamente à criança em forma de demanda, não pode ser evitada, chegando ao seu destinatário.

Com base nestas e outras pesquisas com pares mãe-bebê e com uso da música como instrumento facilitador da intervenção com crianças autistas, tais como as realizadas por Crespin (2004), Catão (2009) e Lima (2012), nos perguntamos se a música seria um modo de convocação do sujeito via pulsão invocante; e se um ateliê musical, cuja iniciativa é voltada à música e não a demandas endereçadas diretamente à criança, seria um dispositivo de tratamento do Outro. Este trabalho, pautado no referencial teórico da psicanálise, debruçou-se sobre essas questões a partir de um estudo de caso clínico em um ateliê musical.

 

Notas sobre o processo de constituição psíquica

Sabemos, pela via da psicanálise, que o sujeito, como ser de desejo, não nasce pronto, mas constitui-se por meio de interações mediadas pelo Outro, responsável por apresentar ao pequeno bebê o campo simbólico.

Lacan (1998a) nos fala de dois "outros": um com "O" maiúsculo, outro com "o" minúsculo. O outro com O maiúsculo é chamado de grande Outro e designa uma função que Lacan nomeou como "o lugar do significante'' (p. 827). Este Outro apresenta a cultura ao pequeno bebê, que, através do remate do circuito pulsional, atinge a dimensão simbólica do Outro, podendo assim alcançar a linguagem, entrando no discurso. O pequeno outro diz respeito à subjetividade daquele que representa o grande Outro.

Sobre o Outro, diz-nos Lacan (1988), no Seminário 11: "O Outro é o lugar em que se situa a cadeia do significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, é o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer. E eu disse – é do lado desse vivo, chamado à subjetividade, que se manifesta essencialmente a pulsão" (p. 194).

Neste trabalho, chamaremos atenção para o conceito de pulsão e principalmente para o processo de organização do circuito pulsional, o que nos parece essencial para pensar o que ocorre na clínica do autismo.

Três textos freudianos e alguns de seus pontos específicos são essenciais para que Lacan (2005) estruture o que podemos chamar de sua teoria a respeito da pulsão: do primeiro deles, "O projeto para uma psicologia científica" (Freud, 1990), Lacan (2005) utiliza principalmente o conceito de Coisa (objeto perdido), que nomeia como objeto a. Já a ideia contida nos "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (Freud, 1996a) é essencial por trazer a noção de que há um movimento próprio da pulsão, descrito por Lacan como um circuito em volta do objeto a. Finalmente, a partir de "A pulsão e suas vicissitudes" (Freud,1996b), Lacan enfatiza que a pulsão é essencialmente corporal e que sua satisfação é sempre parcial: "Se a pulsão pode ser satisfeita sem ter atingido aquilo que, em relação a totalização biológica da função, seria a satisfação ao seu fim de reprodução, é que ela é pulsão parcial, e que seu alvo não é outra coisa senão esse retorno em circuito" (Lacan, 1988, p. 170).

Em seu ensino, Lacan (1988) postula que há um movimento circular da pulsão que parte de uma borda erógena, retornando a ela como sendo seu alvo, mas apenas contornando o objeto perdido, a. É através deste trajeto circular que o sujeito atinge a dimensão do Outro.

Esse circuito deve ocorrer nos diversos níveis de satisfação corporal, ou seja, em todas as zonas erógenas. Lacan (2005), no Seminário 10, "A angústia", acrescenta o olhar e a voz à lista habitual dos objetos pulsionais. Nesse momento de seu ensino, Lacan articula os diferentes níveis da experiência corporal ao desejo, ao objeto a e à angustia, tema de seu seminário. Interessa-nos aqui o que se refere ao olhar (pulsão escópica) e à voz (pulsão invocante).

Lacan (2005) nos ensina que a pulsão escópica refere-se ao objeto olhar que, diferente da visão, diz respeito a uma função psíquica, que implica a representação. Na metapsicologia lacaniana, o olhar diz respeito a uma função psíquica intrinsecamente ligada à questão da representação e da presença. O nascimento é o tempo do encontro, ou do reconhecimento primordial. O bebê, por meio das semelhanças, é reconhecido como membro do grupo familiar, e a mãe, nesse momento, coloca-se no lugar de se identificar com aquele pequeno ser, podendo então atribuir sentido às suas manifestações.

Crespin (2004) nos alerta que a clínica do olhar é central no primeiro ano de vida, não somente por que sua ausência constitui o sinal fundamental das patologias autísticas, mas também porque a instauração do olhar, no sentido de acesso ao especular, constitui a entrada no registro do imaginário. Laznik (2004) compreende o não olhar entre mãe e bebê como um dos sinais que podem ser observados nos primeiros meses de vida e que nos aponta uma hipótese de autismo infantil, fortemente caracterizado por uma dificuldade na relação especular com o Outro, ficando o bebê impossibilitado de adentrar no campo do imaginário, compreendido como o registro da relação dual com a imagem e o lugar do eu por excelência.

 

A voz como objeto da pulsão

Começaremos aqui a falar a respeito do objeto voz, denominado de pulsão invocante. A pulsão invocante remete ao chamamento. O circuito dessa pulsão se dá entre um "ser chamado", um "se fazer chamar" e um "chamar", falar em primeira pessoa. Falar não é um processo natural, apenas biológico, os seres humanos falam para se comunicar, fazer laço com seus semelhantes. Para que isso aconteça, faz-se necessário que, em um primeiro momento, o sujeito tenha recebido do Outro, o lugar do significante, uma voz, que responda ao seu grito e lhe dê significação. Posteriormente, este sujeito deve desligar-se desta voz, para dispor de voz própria.

É a materialidade acústica da voz, dimensão da linguagem que não tem significação, que comunica ao bebê o desejo do Outro materno. Essa materialidade é transmitida por meio de uma forma de comunicação específica, chamada de "parentês" ou manhês, que apresenta uma prosódia especial e características especificas na pontuação e escansão (Laznik, 2004). É a partir da convocação pela via da voz que o bebê pode, posteriormente, falar em primeira pessoa, indo de invocado (chamado pelo Outro) à invocante (onde pode falar em primeira pessoa), pois o que se transmite nesta voz, comparada ao que Laznik (2004) chama de canto de uma sereia, é a pulsão invocante. Laznik propõe compreender "os picos prosódicos como primeiros objetos da pulsão oral" (p. 69). A autora acrescenta ainda que um bebê que se torna autista só poderia olhar para sua mãe e sentir-se convocado quando ela produzisse essa prosódia específica. Essa experiência possibilitaria ao bebê identificar-se como objeto de gozo do Outro primordial, entrando no circuito da pulsão invocante.

Sabemos que a voz, como objeto da pulsão, é importante para constituição psíquica do sujeito, e que desde o nascimento o bebê é capaz de reconhecer a voz de sua mãe e manifestar preferência por ela. DeCasper e Spence (1986) corroboram esta ideia quando dizem que bebês humanos não são apenas ouvintes passivos e neutros, preferindo a voz da mãe à de outras mulheres, o que não ocorre em relação ao pai e outros homens. Os fetos de apenas três semestres apresentam características de sensibilidade ao som. A fala masculina é menos audível no útero, o que sustenta a teoria de que a relação do bebê humano com a voz materna é vivenciada antes mesmo do nascimento.

Além disso, Lima (2012) contribui dizendo que "o bebê se engaja numa 'protoconversação' rítmica e afetiva com o cuidador, a qual coordena modulações e expressões vocais com movimentos corporais e gestuais e com orientações do olhar" (p. 16). Deste modo, compreendemos a relação do bebê com o Outro marcada por um ritmo, presente nas trocas vocais e corporais.

Malloch e Trevarthen (2009) propõem designar "musicalidade comunicativa" uma habilidade inata e universal que se caracteriza pela capacidade de se combinar o ritmo com o gesto, seja ele motor ou sonoro. Desse modo, desde o nascimento, o bebê demonstra preferência por se engajar num contato com um outro que tenha certas características melódicas, rítmicas e dialógicas.

A partir destas contribuições articuladas ao conceito de pulsão, nos questionamos se a música, bem como a voz, seria facilitadora do engate da criança ao campo do Outro. Para Catão (2009), desde muito cedo a criança autista mostra sua escolha em não se deixar alienar aos significantes do campo do Outro, pelo menos não completamente. Isso ocorre por conta do que alguns autores (Catão e Vivès, 2011; Laznik, 2004) chamam de não instalação do terceiro tempo do circuito da pulsão. Didier-Weill (1997), ao tratar do circuito da pulsão invocante, articulando-a à música, diz que é no ultimo tempo da pulsão que o sujeito pode advir. No primeiro tempo, o sujeito é apenas ouvinte, já no segundo, reconhece-se enquanto ouvinte, e a partir disso surge para ele uma questão, o que o leva, no último momento, a ser falante, manifestando-se como sujeito de desejo.

A não instauração do tempo da alienação e o não remate do circuito pulsional trazem consequências clínicas importantes, como, por exemplo, a evitação do olhar. No que se refere à pulsão invocante, essas são crianças que "não ouvem" quando são chamadas nem "chamam" o outro, tem seu encontro com seus semelhantes dificultado. Isso ocorre porque, nesses casos, o enlace com o Outro é específico. Algo no enlace primordial falha, fazendo com que a criança evite entrar em contato direto com seus semelhantes, e essas características sutis diferenciam o autismo dos outros modos de estar na linguagem, como a psicose. Nesse ponto, pela especificidade da clínica, questionamo-nos se o tratamento institucional do autismo seria mais eficaz que o tratamento clínico individual.

Lima (2012) contribui dizendo que nem sempre a prática da psicanálise e as instituições combinaram-se, mas lembra-nos da função social desempenhada por estas instituições. Para Zenoni (2002, citado por Lima, 2012), o que devemos nos perguntar é se há espaço para que possamos exercer a prática clínica aliada à função social, tendo em vista as hipóteses da psicanálise no âmbito das instituições.

É nesse contexto que nasce a ideia de um "tratamento do Outro", termo proposto por Zenoni (2002), como forma de barrar seu gozo. Podemos citar diversas instituições onde esse trabalho de ateliês está sendo feito, voltado tanto a crianças psicóticas quanto autistas, aqui pensados como estruturas clínicas distintas. É o caso da Escola Experimental Bonneuil-sur-Marne, fundada por Maud Mannoni e colaboradores, que se baseia fundamentalmente na alternância presença/ausência, proporcionando às crianças atividades internas (ateliês diversos) e externas (como alojamentos noturnos). E também da instituição paulistana Lugar de Vida, voltada a crianças de variados tipos clínicos, com abordagem pautada na Educação Terapêutica (Silva, 2008).

Com base nessas experiências, Kupfer et al. (2007) apontam como possibilidade de tratamento do autismo e da psicose infantil um dispositivo institucional que incida sobre o Outro, que torna-se invasivo no autismo. Nessa perspectiva, um tratamento institucional do autismo incidiria sobre o insuportável que a iniciativa do Outro introduz para a criança.

 

Método

Baseado nos modelos de intervenção apontados acima, foi desenvolvido um ateliê musical no Centro de Infância e Adolescência Maud Mannoni (CIAMM), instituição voltada a crianças e adolescentes com variados diagnósticos. O ateliê era composto tanto por crianças de desenvolvimento típico quanto por crianças com autismo e psicose infantil, de dois a cinco anos.

Os encontros semanais tiveram duração de 50 minutos, com crianças de variados tipos clínicos (típicas/atípicas) e profissionais, como psicólogos, psicanalistas, uma professora de música e uma fonoaudióloga, formando assim um trabalho interdisciplinar, onde os diversos saberes conversavam entre si. Eram cantadas onze músicas, dez pré-estabelecidas, escolhidas após entrevista com os pais, que relatavam quais músicas costumavam cantar em casa com seus filhos, e uma denominada "música-surpresa", onde as crianças podiam propor uma música para cantarmos juntos. Além disso, cantávamos músicas da cultura popular maranhense, compreendendo que, quando cantamos uma música em especial, estamos cantando de acordo com o contexto histórico e cultural em que estamos inseridos. Durante o ateliê, em determinados momentos as crianças podiam tocar instrumentos, ficar de pé ou dançar.

Após entrevistas com os pais e avaliação individual, um garoto de três anos e meio foi escolhido para a construção de um estudo de caso clínico, uma vez que, após aplicação da CARS (Childhood Autism Rating Scale), foi possível observar um alto grau de fechamento autístico dessa criança.

 

Gabriel, da vibração ao encontro com o outro

Gabriel1 tinha três anos e três meses quando chegou ao ateliê, não tinha nenhum diagnóstico e não fazia tratamento com outros profissionais. É filho único, mora com os pais e estuda em tempo integral em uma escola da cidade. Quanto aos primeiros momentos de desenvolvimento, a mãe relata que, quando pequeno, mamou nas primeiras horas de vida, porém "pegava pouco o peito e mamava por um curto período de tempo, virando o rosto em seguida". Quando passou a alimentar-se com alimentos sólidos, não recusava nenhum alimento, comportamento presente até o momento de nosso estudo.

Sabemos que o sujeito nasce pelo campo do Outro, responsável por apresentar ao bebê a cultura. Essa apresentação se dá via pulsão, conceito fundamental da psicanálise abordado anteriormente. Identificamos no discurso da mãe de Gabriel pontos que se entrelaçam aos conceitos apresentados. O fato de "pegar pouco peito" e "não recusar nenhum alimento" nos mostra que, desde os primórdios, esta relação já dava sinais de desarmonia, principalmente no que se refere à pulsão e ao encontro com o Outro primordial.

Em relação ao laço vivenciado entre o bebê e a mãe, Freud (1990) denominou "experiência primordial de satisfação" o que ocorre na primeira mamada do bebê. Ao mamar, a criança entra em contato com o prazer do sugar, proporcionado pelo seio materno, além da interrupção da fome, uma necessidade do organismo. Isto faz com que, ao sentir fome, a imagem do seio seja reativada como objeto detentor do prazer. Após essa primeira experiência de satisfação, ao entrar na fase da urgência, o bebê alucina, ativando os traços mnêmicos, buscando satisfazer-se novamente com o seio materno.

Essa experiência de primeira representação mental, com reativamento dos traços mnêmicos, chamada por Lacan (2007) de "incorporação das coordenadas de prazer", tem o objetivo de organizar a relação do bebê com o Outro. A partir desse relato, compreendemos que a necessidade de se alimentar ficaria em um segundo plano, e o que viria em primeiro lugar seria a presença do Outro nutridor, pela qualidade do investimento que este faz no pequeno bebê, ou seja, o lugar que a criança ocupa no Desejo do Outro materno (Crespin, 2004).

Essa experiência primordial de satisfação diz respeito a um desenvolvimento típico, o que não ocorre nos casos de autismo como o de Gabriel, que em alguns momentos demonstra passividade em relação ao desejo do Outro (quando não recusa nenhum alimento) e em outros demonstra-se ativo na tentativa de desvencilhar-se desse desejo invasivo (mama e vira-se).

No caso de Gabriel, percebe-se uma falha no circuito pulsional, desde os primórdios das trocas com o Outro. Isto pôde ser observado no comportamento de deixar-se preencher, sem incluir o Outro no trajeto da pulsão (comer sem recusar). Esta é uma das maneiras de indiferenciação do laço, que muitas vezes pode ser tomado como um sinal positivo de desenvolvimento, mas que entra como um sinal autístico de série silenciosa (Crespin, 2004). Trata-se aqui de uma falha no enodamento entre o alimento e o investimento na relação com o Outro, que traz diversas consequências clínicas observáveis, como o não uso da linguagem para fazer laço (as ecolalias), também apresentadas por Gabriel.

Em relação à linguagem oral, suas primeiras palavras foram nomes de cores e animais. Gabriel, segundo seu pai, desde muito cedo "diferencia um animal do outro, identificando-os pelo nome, repetindo diversas vezes".

Para a psicanálise, a linguagem, compreendida como o campo simbólico, tem uma função primordial e fundamental na constituição do sujeito, sendo condição para que este expresse sua singularidade. Lacan (1998b), ao se utilizar da linguística, articula o sujeito do inconsciente e a fala, postulando que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem" (p. 135), sendo subordinado às leis desta. O sujeito do inconsciente é o sujeito do desejo definido pela linguagem. Esta operação é possível através do enlaçamento da pulsão invocante, que, como já dissemos, diz respeito ao chamamento e à função atributiva da mãe. A linguagem é transmitida por meio da pulsão invocante, e é através dessa transmissão que o bebê pode falar em primeira pessoa.

Deixemos um pouco as questões relacionadas aos primeiros momentos de constituição para entendermos como essa falha primeira se atualiza. Os pais procuram o ateliê porque Gabriel "não fala, quando fala é pouco e não dá pra entender". O que ocorre no caso de Gabriel é uma fala sem laço, sem articulação, não endereçada ao Outro, mas apenas repetida, como demonstra a repetição de nomes de animais e cores. Embora os humanos nasçam no campo da linguagem, é necessário que cada um percorra seu caminho em direção à fala, o que não acontece com Gabriel. Isso porque o aparecimento do sujeito só se dá de maneira efetiva a partir da introdução, por meio da pulsão invocante, de um significante primordial, chamado significante mestre (S1), também chamado de traço unário, doado pelo Outro e que, para além deste, venham os (S2), que representam o sujeito, formando o primeiro par de significantes. Esta operação é chamada de simbolização primordial.

Nos casos de autismo, como no de Gabriel, a simbolização primordial falha, ou seja, não se estabelece uma cadeia simbólica (S1-S2), o S1 não remete ao S2. O não estabelecimento desta operação culmina em uma fala não articulada, que pode nomear objetos, como faz Gabriel com as cores e animais, mas que não pode estabelecer uma relação de afeto, ou investida libidinalmente, com eles.

Interessa-nos aqui o que se refere à pulsão invocante e sua função de enlace, uma vez que nossas apostas e intervenções foram pautadas na música, por sua ligação com esse tipo de pulsão. A música contém traços que se assemelham ao parentês, por isso, ao ouvi-la a criança é tocada por algo implacável, que não se traduz de maneira verbal. O poder da música é o de evocar um além do sentido, remetendo o sujeito a um ponto zero de significados, mas dotado de significantes, por sua dimensão material.

Amparamo-nos nos estudos de Laznik, Maestro, Muratori e Parlato (2005), que observaram, em vídeos caseiros de bebês que viriam a ser diagnosticados com autismo, que estes, embora apresentassem dificuldades em estabelecer o enlace com o outro, eram capazes de responder a uma conversação que tivesse as características do parentês. Além disso, pesquisas psicanalíticas demonstram que crianças diagnosticadas com autismo, apesar de não entrarem no tempo da alienação, mantêm a dimensão musical preservada, aqui compreendida como a dimensão material da voz (Laznik, 2004). Essa dimensão material da voz é compreendida como aquilo da música que é significante e incide no real do corpo. Sendo o ouvido um orifício que não se fecha, a música e sua dimensão não podem ser evitadas. Cabe-nos lembrar o que Malloch e Trevarthen (2002) denominaram de "musicalidade comunicativa", que está presente em crianças autistas, apesar de não adentrarem no tempo da alienação, conforme nos lembra Lima (2002).

Passaremos agora a descrever cenas e percursos de Gabriel no âmbito do ateliê. Em sua primeira participação, mostrou-se bastante ativo ao chegar com a mãe, correu para todos os lados no jardim e, quando convocado para entrar na sala, não demostrou nenhuma oposição. Durante o ateliê, gostou de uma flauta e ficou com ela do começo ao fim. Em nenhum momento sentou conosco na roda. Demonstrou gostar de rodar, pois rodopiou bastante. Cantou, apesar de seu discurso ser pouco compreensível. Participou da música "Avião", mas logo esquivou-se e continuou a brincar com a flauta. O ritmo mais rápido chamou sua atenção, enquanto o lento parecia deixar-lhe ansioso. Comportamentos semelhantes repetiram-se durante cerca de um mês.

Das músicas cantadas, algumas ganharam atenção especial pela forma com que Gabriel relacionava-se com elas. Era o caso das músicas "Sapinho", "Avião", "Jabuti sabe ler" e "Jacaré".

A música "Sapinho" era cantada logo no começo de nosso encontro, quando estávamos sentados em roda. Nessa música, oscilávamos entre um ritmo mais lento e mais rápido, cantando: "salta... salta... o sapinho salta, pula, pula lá no brejo até se cansar". Nesse momento da música, dávamos ênfase a nossa voz, cantando baixo, como uma canção de ninar, e todos gesticulavam com as mãos imitando um sapinho. Isto ocorria pois a música alterna silêncio e som, assim como as idas e vindas do Outro, alternando presença e ausência, fundamental para a constituição psíquica. Após esse momento, todos os "sapinhos" dormiam e fazíamos alguns segundos de silêncio, sendo acordados pelo comando "acorda sapinho", feito bem devagar. Essa música repetia-se diversas vezes, aumentando sua velocidade, cantada em um ritmo mais rápido e mais alto. Além disso, incentivávamos as crianças a darem o comando final, apostando que, no silêncio ofertado pela música, um sujeito pudesse se manifestar.

A música "Avião" era cantada enquanto estávamos de pé, e a executávamos da seguinte maneira: colocávamos um tecido azul (nosso céu) esticado na sala e as crianças poderiam passar por baixo, imitando um avião. Começávamos a cantar baixo e devagar "O avião quando está no céu, ele está bem longe do chão", momento em que todas as crianças dançavam em volta do pano. No segundo momento da música, uma criança de cada vez era convocada a passar por baixo do tecido: "voa, voa José, vai bem longe do chão". O que nos chamou atenção na execução dessa música foi a relação que as crianças estabeleceram com o tecido, jogando-se nele, abraçando-o, mesmo sem passar por baixo. Em uma ocasião, uma criança escondeu-se no tecido e fizemos uma brincadeira, "Cadê José? Achouuu". Essa brincadeira nos acompanhou durante todo o percurso do grupo, fazendo-nos pensar: é possível estabelecer uma articulação entre o tecido e as relações de borda, ou contorno, vivenciadas durante o processo do circuito pulsional?

Ainda de pé, quase no fim do grupo, duas músicas da cultura popular eram cantadas. Nos dividíamos em dois grupos, cada um de um lado da parede, e com auxílio de um tambor e pandeiro, cantávamos: "Jabuti sabe ler, não sabe escrever, trepa no pau e não sabe descer, lê lê...". Nesse momento havia uma pausa e cantávamos: "tô saindô entrando". Então, os grupos deveriam mudar de lugar, indo para o outro lado da parede. É importante salientar que, nos momentos de pausa, deixávamos as crianças livres para que pudessem expressar os comandos, o que acontecia na maioria das vezes.

Quando as músicas estavam sendo tocadas, Gabriel oscilava entre momentos de total passividade, em que preferia estar sozinho brincando na sala, e momentos eufóricos, em que se alegrava com a música. Quanto aos instrumentos, em músicas em que os trocávamos de acordo com o comando, Gabriel continuava com o mesmo ou trocava-os compulsivamente sem se importar com a regra. Ao tocar a flauta, tocava-a mecanicamente sem a intenção de se fazer ouvir.

Tomamos este fato como o modo com que o sujeito se relaciona com o mundo. No caso de Gabriel, faltava contorno, por isso oscilava entre momentos de passividade e euforia. A maioria de nossas intervenções quanto a esse modo de relacionar-se (mostrando ao lado dele como se tocava flauta) parecia não surtir efeito, incidindo no corpo, Gabriel agitava-se, pulava e corria e quando estava na roda, tocando, algo não se enlaçava, quebrava.

Esse traço nos lembra o que Laznik (2004, citado por Catão, 2009) denominou de "impermeabilidade absoluta a todas as formas de alienação" (p. 124). A autora propõe dividir a alienação em três tipos: alienação imaginária, onde o bebê se percebe como aquele que o olhar do outro constitui; alienação real, onde o bebê se faz objeto do Outro no real; e alienação simbólica, produzida pela possibilidade do estabelecimento de uma protoconversação mãe-bebê. Essa falha no circuito pulsional faz com que a criança receba no corpo os investimentos que o Outro lhe faz, não se identificando com ele. Isso é o que ocorre com Gabriel durante as primeiras intervenções.

A cena relatada a seguir ocorreu dois meses após a entrada de Gabriel no ateliê, durante a execução da música "Sapinho". Nesse momento, Gabriel aceitou sentar-se na roda e cantar conosco no ritmo tocado. Quando foi proposto que o sapinho dormisse, ele atendeu, dizendo "acorda sapinho" momentos depois.

Há nessa música uma pausa que consideramos importante, no momento em que o sapinho dorme e todos ficam em silêncio. Silêncio este primordial para a constituição psíquica do sujeito. Sabemos que no âmbito da pulsão invocante, a alternância da voz, do silêncio e do som indica para a criança a dimensão da falta e, portanto, a ausência na presença da mãe. Desse modo, sustentar o silêncio representa sustentar a presença na ausência, entrar em contato com a dimensão da falta e também suspender as estereotipias e ecolalias utilizadas como escape, proporcionando ao sujeito o encontro com seu próprio ritmo. É por meio dessa característica musical que Gabriel consegue dizer-se, entrar em contato com seu ritmo e pronunciar-se em primeira pessoa, o que não era possível em suas primeiras participações. É a articulação entre música e o referencial teórico da psicanálise que nos permite fazer tais elaborações

Desse modo, faz-se necessário clarear alguns conceitos musicais e como eles se articulam com o referencial teórico da psicanálise. Falamos anteriormente que a música é feita de som e silêncio, alto e baixo, mas é importante frisar que: "Em termos da física do som, quando dizemos 'alto', como acima, estamos nos referindo ao volume do som, ou seja, ao grau de intensidade de sua amplitude; dizemos que está alto demais! Para não dizermos que está amplo demais! Ou intenso demais! Mas, em física, assim como em música, alto e baixo dizem respeito à frequência das ondas sonoras. Quanto mais alta é a frequência, quanto mais pulsações comparecem ao longo de certo intervalo de tempo, mais a onda é considerada aguda" (Rodrigues, 2009, p. 10).

Quanto ao silêncio e o som, "para a abordagem musical tradicional, o som é a nota e o silêncio é a pausa" (Rodrigues, 2009, p. 18). A sucessão de silêncios e sons, de tempos fortes e fracos que se apresentam de maneira alternada e regular, é chamada de ritmo. Assim como o ritmo musical, o ritmo das trocas entre o pequeno bebê e seu Outro cuidador deve ser vivenciado de maneira alternada e regular.

Outro ponto importante diz respeito à Lei, transmitida pela própria música, e não por um outro. Pesaro e Kupfer (2003) afirmam que há quatro eixos que balizam a constituição da subjetividade e que, caso estejam ausentes, apontam para problemas na estruturação da subjetividade. Os quatro eixos são: supor um sujeito; estabelecer a demanda da criança; alternar presença-ausência; Função Paterna (alterização). Esta última, quando instalada, faz com que a criança renuncie a suas satisfações imediatas. Para que isso ocorra, é necessário que a mãe situe a Lei como uma referência a um terceiro em seu laço com a criança, não fazendo da criança o seu único objeto de satisfação.

Além dos eixos citados acima, que tiveram como base a pesquisa IRDI2, há também a AP33, que nos auxilia a pensar na função da Lei no âmbito do ateliê. Segundo Kupfer et al. (2009), esta função refere-se à observância de limites, à restrição dos próprios impulsos em concordância com a situação, ou seja, são critérios que indicam a interiorização, pelo sujeito, de uma instância de interdição que sustenta nele as diversas formas que a Lei pode adotar. No ateliê, as músicas que são escolhidas previamente, os silêncios e sons presentes na música, fazem com que o sujeito entre em contato com a dimensão da interdição.

Como já citado, Gabriel demonstrava uma relação com a Lei que nos chamava atenção, sendo em determinado momento tomada como um traço de psicose infantil. O que compreendemos é que a Lei proporcionada pelo ateliê também contribuiu para o avanço de Gabriel, principalmente no que diz respeito à linguagem.

É importante que a criança consiga assimilar a Lei para adentrar no campo do discurso, mas não de forma intrusiva. Desse modo, compreendemos o ateliê como um tratamento institucional que incide sobre o insuportável que a iniciativa do outro produz na criança, sendo esse Outro, para o sujeito autista, invasivo. Uma vez que o autista não dispõe do recurso da linguagem para se defender desse Outro, anula os outros que encarnam essa função, ignorando-os, mantendo-os à distância, na tentativa de barrar sua invasão (Kupfer et al., 2007).

Outra cena ocorreu cinco meses após a entrada de Gabriel no grupo. Executávamos a música "Um, dois feijão com arroz", cantada de pé, em ritmo mais acelerado, sendo possível observar a euforia das crianças. Enquanto todas marchavam, Gabriel continuou a rodar pela sala, olhando para nós em alguns momentos. Ao término da música, todos batiam palmas, entusiasmados. Gabriel virou-se até o tambor e bateu com entusiasmo, em um ritmo semelhante ao de nossas palmas.

Considerando que o comportamento de Gabriel não seria uma mera imitação estereotipada, atribuímos significado às batidas do tambor. Por conta desse acontecimento, o tambor passou a fazer parte integrante de nosso ateliê. A interventora tocava em determinados momentos, e em outros o instrumento estava disponível para que as crianças pudessem tocar. Certo dia, quando Gabriel chegou mais cedo ao ateliê, a interventora já estava na sala, perto do tambor. O menino, então, se interessou pelo instrumento e correu para tocá-lo. Tocou freneticamente, mas por vezes olhou para a interventora, que se aproximou e começou a tocar lentamente, dizendo "1, 2", como forma de contornar a batida estereotipada. Gabriel e a interventora conseguiram emitir sons ritmados, entrando em sintonia por alguns minutos.

O que se passa nesta cena nos lembra o que Stern (1992) definiu como "sintonia afetiva", que vai além da simples imitação. É preciso ser capaz de ler um estado afetivo interno, realizar um comportamento semelhante ao da criança e demonstrar a ela que compartilha de seu sentimento. O autor identificou essa troca intersubjetiva na relação mãe-bebê e concluiu que, para uma interação satisfatória, faz-se necessário alguns mecanismos, uma interação reciproca de qualidades que se assemelham aos componentes musicais: intensidade e tempo, altura, duração, intensidade e timbre (características do som). Além do exposto, compreendemos que não só a música cantada, mas também a vibração sentida através do tambor possibilitam ao sujeito entrar em contato com seu ritmo e com o ritmo de seu semelhante. Dessa forma, as musicalidades pressupõem, fundamentalmente, a intersubjetividade e o laço social constituído pelo contágio musicante (Tavares, 2014).

Durante o ateliê, há o momento da "música surpresa", em que é permitido às crianças cantar as músicas que preferirem e que não estavam no planejamento. A música-surpresa causa uma escansão na alternância presente no ateliê, possibilitando às crianças um elemento novo que já é aguardado, porém não se sabe quando vem.

Vorcaro (2002), ao estudar os jogos infantis, encontrou essa especificidade e a denominou de andamento. Essa mesma característica está presente na relação mãe-bebê: no momento em que o bebê sente necessidade e chama a mãe, esta pode demorar, criando um tempo entre a necessidade e a satisfação. No início, esse tempo será compreendido pelo bebê como surpresa, mas, com a repetição, este passa a antecipar também a novidade, porém sem saber quando esta vem: "Em seu engajamento, [a criança] experimenta a tensão da antecipação que a alternância do andamento lhe permite supor, passa a esperar a surpresa, que se faz passível de cálculo pela mudança abrupta imposta – a qualquer momento – provocando uma espécie de deslocamento a um só tempo esperado e conhecido. Afinal, a criança não sabe quando virá, mas sabe que virá" (p. 68).

Gabriel demonstra bastante interesse pela dimensão de surpresa da música. Percebemos que há um prazer envolvido tanto na música do sapinho quanto nas que chamávamos de música-surpresa. Nesse momento, Gabriel geralmente sentava-se na roda conosco. Em determinado encontro, decidimos cantar a música-surpresa com instrumentos. O garoto sentou-se e, mesmo com um pouco de angústia, aceitou tocar um único instrumento. Ao término da canção, ficamos em silêncio, Gabriel falou "có có có" e cantou uma música conhecida, da "Galinha Pintadinha". O garoto repetiu a música e cantamos juntos.

Tanto nessa intervenção quanto na anterior, percebemos a convocação pela via da musicalidade, atribuindo diversos sentidos e significados aos comportamentos das crianças. Atribuímos ao som "có" um elemento da cultura, contornando e dando significado ao que é dito pelo sujeito. Além disso, a dimensão de surpresa proporciona à criança entrar em contato com a alteridade, marca fundamental do Outro, que tanto lhe angustia.

 

Considerações finais

A infância é o espaço em que se passa de infans a sujeito desejante. Para que isso ocorra, a criança deve dar conta de sua existência biológica e simbólica, uma vez que o campo simbólico antecede o sujeito. Desse modo, o bebê terá que, em um primeiro momento, encontrar um Outro humano que o tome como objeto de desejo, para então tornar-se desejante. Durante esse percurso podem ocorrer entraves que, como consequência, trazem novos modos de estar na linguagem, como o autismo.

O percurso de Gabriel no ateliê demonstrou que mesmo crianças identificadas com psicopatologias na infância, como o autismo, expressam interesse por uma comunicação musicalizada, isto porque a voz, tendo um caráter significante, por meio da pulsão invocante, apresenta-se de maneira cadenciada, pertencente a um ritmo, como o "canto da sereia" que encanta, seduz e convoca o sujeito pela via do ouvido, o orifício que não se fecha, convidando-o a fazer parte do campo simbólico. A música, dotada de significantes, assim como a voz cadenciada dos pais no começo da vida psíquica do bebê, faz com que a criança recorde momentos arcaicos de seu desenvolvimento, convidando-a a entrar em contato com outro, com sua diferença, com sua alteridade, diminuindo assim o insuportável que a iniciativa do Outro produz nos casos de autismo.

Vemos, no caso de Gabriel, o quanto o ritmo musical se articula ao corpo, incitando-o a movimentar-se, dando sincronia aos fenômenos vivenciados. Essa capacidade de movimentar-se e entrar em sintonia com os sons que entram pelos ouvidos proporciona um contorno corporal, que falta nos casos de autismo, dando entorno ao circuito pulsional. O contexto do ateliê proporcionou a Gabriel elementos importantes, que proporcionaram vislumbres e momentos em que ele pôde colocar-se subjetivamente, entrando em um ritmo compartilhado, reconhecendo elementos de cultura simbólica e internalizando-os lentamente, enquanto encontrava e entrava em contato com seu próprio ritmo, além de entrar em contato com a função da Lei, presente também na música e fundamental para o desenvolvimento do sujeito.

Compreendemos que a falha no enlace primordial com o Outro nos casos de autismo implica um sujeito não alienado, anterior ao sujeito do inconsciente, porém suscetível à convocação da voz por meio da pulsão invocante. Nos casos de autismo, como diz Catão (2009), não há déficit nem doença a ser curada, nem comportamento a ser retificado, mas um sujeito a ser escutado. Desse modo, estudos e pesquisas nessa área proporcionariam modos de intervenção eficazes que tenham como objetivo escutar o sujeito que fala, respeitando seu modo singular e trazendo consequências positivas principalmente no que se refere à linguagem e interação social.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
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Recebido em janeiro/2017.
Aceito em agosto/2017.

 

 

NOTAS

1. Nome fictício.
2. Indicadores de Risco para o Desenvolvimento Infantil.
3. Avaliação Psicanalítica aos 3 Anos.

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