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Estilos da Clinica

versão impressa ISSN 1415-7128versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.22 no.3 São Paulo dez. 2017

http://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v22i3p1-13 

ARTIGO

 

Estranho, familiar e pathos: apreensões psicanalíticas sobre a adoção da criança com deficiência

 

Strange, familiar and pathos: psychoanalytic apprehensions on disabled child adoption

 

Extraño, familiar y pathos: aprehensiones psicoanalíticas sobre la adopción del niño con discapacidad

 

 

Débora Ferreira BossaI; Anamaria Silva NevesII

IPsicóloga, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Aplicada pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Docente na Universidade Presidente Antônio Carlos, Barbacena, MG, Brasil
IIDocente associada II do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Apoiado na investigação psicanalítica, este estudo teve como objetivo compreender as movimentações psíquicas atuantes na escolha de uma mãe em adotar uma criança diagnosticada com paralisia cerebral. A interlocução entre os elementos estranho (unheimlich), familiar (heimlich) e paixão (pathos) foi realizada para a análise do caso. A análise indicou implicações no laço mãe-criança como condição de sobrevivência psíquica de ambos, a busca pela criança com deficiência como recurso materno para revisitar marcas de sua própria história e superinvestimento materno que restaurou a maternidade em integralidade.

Descritores: adoção; paralisia cerebral; psicanálise.


ABSTRACT

Supported by psychoanalytic research, this study aimed to understand the active psychic movements in a mother's choice of adopting a disabled child diagnosed with cerebral palsy. The interlocution between the elements strange (unheimlich), familiar (heimlich) and passion (pathos) was carried out for the analysis of the case. The psychoanalytic analysis indicated implications for the mother-child linkage as a condition for their psychic survival, the demand for a disabled child as a maternal resource to revisit the marks of their own history, and maternal overinvestment that integrally restored her motherhood.

Index terms: adoption; cerebral palsy; psychoanalysis.


RESUMEN

Apoyado en la investigación psicoanalítica, este estudio tuvo como objetivo comprender los movimientos psíquicos actuantes delante la elección de una madre en adoptar un niño con parálisis cerebral. El diálogo entre los elementos extraño (unheimlich), familiar (heimlich) y pasión (pathos) fue realizado para el análisis del caso. El análisis indicó implicaciones en el lazo madre-niño como condición de supervivencia psíquica de ambos, la búsqueda por el niño con discapacidad como recurso materno para revisar las marcas de su propia historia y la gran dedicación materna para restaurar la maternidad en integralidad.

Palabras clave: adopción; parálisis cerebral; psicoanálisis.


 

 

Introdução

Este estudo foi construído a partir da articulação entre os termos estranho, familiar e paixão (pathos), desvelados na análise do caso de adoção de uma criança com deficiência. Os termos são caros à psicanálise por se tratarem de manifestações inconscientes que movimentam o sujeito e ancoram a produção de subjetividade.

Na obra "O Estranho", também traduzida como "O Inquietante", Freud (1919/1985) apresentou a ambivalência do termo unheimlich, que indica algo assustador, que provoca medo e horror, ao mesmo tempo em que porta seu oposto heimlich, que diz respeito ao familiar, algo conhecido. Freud (1919/1985) considerou que a pesquisa em estética, como qualidade do sentir, pouco se insere em parte do mesmo assunto ao não recorrer ao assustador, negligenciando o estranho. No texto, o autor dedicou-se em reunir propriedades de pessoas, coisas, impressões sensórias, experiências e situações que despertam o sentimento de estranheza e a partir disso inferir a natureza desconhecida do estranho, cuja categoria do assustador remete ao conhecido, algo já apresentado como familiar.

Freud (1919/1985) aponta para além da operação que coloca em igualdade o estranho como não familiar, e conclui que o estranho (unheimlich) se apresenta como o horror, o assustador, o provocador de medo, e que porta o familiar (heimlich), o conhecido que se mantém oculto, constituindo a relação do termo unheimlich com seu próprio oposto, heimlich. Essa aproximação não se revela por antagonismo, uma vez que pertencem à mesma categoria. Freud (1919/1985) indica que a palavra heimlich se desenvolve na direção da ambivalência até encontrar com seu oposto, o unheimlich, sendo este uma subespécie de heimlich. Dessa forma, o estranho se desvela pela condição de ser familiar, ou seja, o unheimlich emerge do heimlich enquanto posto fora do campo consciente, o recalcado.

A deficiência é um fenômeno inerente à espécie humana, algo familiar (heimlich), porém, a subjetividade humana mostra que a deficiência passou por insistentes tentativas de exclusão, abandono e rejeição, configurando o estranhamento que essa condição familiar provoca (unheimlich). É possível perceber essas movimentações a partir da obra Os anormais (Foucault, 2002). O autor apresenta as principais práticas para impingir poder aos corpos defeituosos, ou monstruosos, cabendo punição por isolamento, maus-tratos, castigos ou morte.

Diniz, Barbosa e Santos (2009) esclarecem que a deficiência, na contemporaneidade, pode ser compreendida a partir do modelo de reabilitação visando à recuperação das debilidades apresentadas como desvantagem em relação ao corpo normal; ou pela compreensão e responsabilização da sociedade e das atuais políticas públicas que configuraram a partir da proposta de inserção social e rompimento das barreiras agentes de desigualdade ao desconsiderar as diferentes mobilidades e necessidades dos corpos.

Na relação entre "o unheimlich e o heimlich", observada a partir da deficiência, é possível perceber que esta, como uma condição biológica da espécie humana, encontra dificuldades em se fazer valer enquanto familiar ao vivenciar diferentes modos de refreamento, punição, reabilitação e a atual tentativa de inserção social, que diz respeito à inclusão de algo que deveria estar incluído mas que é tendenciosamente posto à parte.

Quanto ao termo paixão, este é oriundo da palavra grega pathos, que carrega o significado de "excesso, passagem, passividade, sofrimento, assujeitamento" (Ceccarelli, 2005, p. 471). O autor propõe que pathos se correlaciona ao adoecimento, ao excesso pulsional, e manifesta a subjetividade, de modo que pela escuta da paixão é possível transformar o sofrimento em vivência, servindo à própria existência do sujeito, dor que produz subjetividade. O autor considera que o pathos nada produz se não transformado em paixão, a não ser a morte.

A clínica psicanalítica está, portanto, associada ao caminho para a compreensão e o exercício analítico frente ao pathos do sujeito. Mezan (2006) aponta que Freud não desvencilhava a investigação científica da tarefa terapêutica, de modo que a simultaneidade dessas atividades é a importante forma de trabalho em psicanálise. A experiência clínica não propicia conhecimento a respeito de apenas um caso a ser tratado, mas para descobertas que foram integradas à teoria sobre o psiquismo, seu funcionamento e transtornos.

Nesta pesquisa, a entrada analítica para a aproximação entre unheimlich, heimlich e pathos é apontada pela revelação dos aspectos psíquicos apresentados no caso-narrativa Enzo. O entrelaçamento desses elementos foi possível a partir da compreensão analítica de duas entrevistas realizadas com Jaciara (mãe de Enzo – criança adotada, com paralisia cerebral), em hospital universitário, enquanto aguardavam atendimento no ambulatório de pediatria. O desdobramento dos fenômenos apresentados resultou na construção da narrativa Enzo, cuja denominação faz referência a uma história que porta um enigma a ser desvelado, apresentando a busca de Jaciara em resgatar crianças da vulnerabilidade, da violência e dos abusos.

Para a narrativa Enzo, a aproximação entre unheimlich e heimlich é permeada pelo pathos de uma mãe, Jaciara, que adotou cinco crianças no período de um ano e meio, dado seu desejo por salvaguardar crianças fragilizadas.

Enzo foi adotado aos três anos de idade e já apresentava sinais de comprometimento em seu desenvolvimento – não conseguia falar ou andar –, mas se mostrava receptivo a brincadeiras, colo, batia palmas quando o chamavam ou cantavam músicas que ele gostava, sentava, mas não engatinhava. Com o passar dos anos, Enzo vivenciou perdas gradativas de suas funções orgânicas, principalmente após as crises convulsivas, o que o levou à condição de acamado, alimentado e oxigenado por sondas fixadas em seu estômago e traqueia.

 

Construindo o campo de análise

Os recursos teórico-metodológicos utilizados para a composição da narrativa foram: entrevista, escuta, escrita e transferência; construção perpassada pela compreensão psicanalítica. Mannoni (1980) aponta que a entrevista tem por ênfase permitir a leitura dos conteúdos apresentados nas entrelinhas da fala do sujeito, investigando a partir do discurso as angústias e os sofrimentos para o surgimento da questão pessoal que diz respeito ao seu desejo mais profundo. A fala promove efeito revelador obtido pela escuta atenta e pela não-resposta ao pedido de ajuda que tenta aplacar a angústia. A autora ainda afirma que "o psicanalista, suscitando a verdade do sujeito, suscita ao mesmo tempo o sujeito e sua verdade" (Mannoni, 1980, p. 12).

Minerbo (2009) comenta que a escuta psicanalítica não se dedica à narração dos fatos dados, mas pelo percurso de aspectos peculiares do discurso do analisado, reconhecendo seus elementos marginais ou dissonantes. Esses elementos correspondem a duas manifestações: o processo primário, a mobilização das associações livres que conduzem à lógica do inconsciente; e os conteúdos não-verbais, como o estilo, a estrutura da fala e o clima emocional. Esses elementos não são expressos a priori, aparecem ao ser recortados pela escuta analítica, permeada pela atenção flutuante que se apega ao que é mais significativo e transforma o conteúdo em algo novo, ampliando o olhar sobre os fenômenos subjetivos.

A escrita também não equivale à revelação dos fatos tais como são narrados, mas à produção possível a partir dos restos do encontro. Vorcaro (2010) compreende que a escrita do caso clínico está submetida às mesmas regras estruturais do ato clínico, de modo que a transmissão da clínica psicanalítica pelo que se escreve circunda a singularidade no encontro ou desencontro da experiência. Poli (2008) considera que a escrita, em psicanálise, convoca o autor para o encontro com o real, provocando inquietações ao saber, cuja produção opera privilegiada pela transferência.

A escrita da clínica é, para Guimarães e Bento (2008), o estudo de caso em psicanálise, que se refere à descrição e teorização do pathos. Os autores consideram que o estudo de caso em psicanálise está inteiramente relacionado à experiência clínica, seguindo a construção de interpretação sobre aquilo que se apresenta no espaço analítico. Desse modo, a teoria psicanalítica percorre o caminho do pathos do paciente, em que a escrita é fundamental para o exercício da interpretação, associação e compreensão da singularidade do caso, além de participar do compartilhamento do conhecimento, da teorização da clínica e da ampliação da rede de significações sobre os processos psicopatológicos.

Por fim, a transferência, segundo Lacan (1998), é o aparecimento, em momento de estagnação da dialética analítica, dos modos permanentes em que constituiu seus objetos. A interpretação mediante a transferência é o preenchimento do vazio nesse ponto morto, e remete ao engodo que visa à reativa do processo. A transferência, desse modo, tem o valor de indicar o momento de errância e orientação do analista e pesquisador em psicanálise. Poli (2008) relembra que a transferência não é exclusividade da psicanálise, mas um fenômeno que perpassa as relações humanas e se apresenta como parte integrante da pesquisa ao possibilitar a questão e a construção de um saber singular suscetível a sofrer o processo de recalque.

 

O enredo materno e a adoção da criança com deficiência

O nome fictício de origem indígena, Jaciara, que significa "nascida da lua", "senhora da lua", identifica uma característica que ela tende a manter muito viva em si: o sentimento de admiração que lhe recobre ao olhar para a lua. Jaciara nasceu e cresceu em uma fazenda com os pais e irmãos, a família era numerosa, e alguns tios foram caracterizados como "pessoas ruins". A lua e o cheiro da noite são suas paixões desde a adolescência. Nesse tempo, olhar para a lua a fazia imaginar que poderia conquistar muito mais do que já havia conhecido. Aos dezessete anos, Jaciara migrou da zona rural para a cidade e começou a trabalhar como garçonete. Nesse mesmo ano engravidou e se casou. Dois anos depois estava novamente grávida. Jaciara, o esposo e os dois filhos mudaram de cidade para que pudessem ter melhor qualidade de vida.

Jaciara mantinha a vontade de ser mãe de uma menina, mas, com receio de ter uma terceira gravidez e novamente nascer um menino, ela optou por se inscrever no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). No cadastro ela não deixou assinaladas, sobre o perfil da criança, informações que restringiam o sexo e a idade da criança, bem como a ausência ou não de deficiências e doenças crônicas.

Apesar da inscrição no CNA, a primeira adoção não seguiu os critérios legais. Jaciara foi informada de que uma mãe estava doando o filho, pois não tinha condições afetivas e financeiras para cuidar da criança, fruto de violência sexual. Ao visitar a mulher que cedia o filho, esta lhe entregou uma bolsa com poucos pertences de Pedro e pediu para que o levasse embora. Pedro estava com três anos de idade. Ao narrar sobre esta adoção, ela comentou: "o bracinho dele era dessa 'finurinha' [e me mostra o dedo mínimo da mão]. Tão magrinho, ele parecia quebrar".

A segunda adoção foi de Érica, que estava institucionalizada. Ao visitar a instituição de acolhimento, Jaciara conheceu também Enzo e o irmão, Breno, decidindo adotar as três crianças. Sobre Enzo ela disse: "foi amor à primeira vista" (sic), e justifica que sentiu por ele uma "paixão inexplicável". Depois de ter acolhido as quatro crianças, Jaciara ainda recebeu mais uma menina, Graça.

Jaciara recorreu à adoção para realizar o desejo de ser mãe de uma menina, mas, evitando fazer uso de seu corpo para a gestação, buscou outras mães que apresentavam, em comum, a marca da fragilidade, da vulnerabilidade e da violência. Para ela, o acolhimento de crianças frágeis, abusadas, desprezadas e com suspeita de deficiência era uma via para a maternidade.

Zalcberg (2003) considera que a maternidade ocupa o espaço de tomar a mãe em sua falta. E, afirma que a mulher que não conseguiu superar a falta instaurada pela castração desenvolve formas de preservar esse lugar em sua vida, uma vez que sem a falta não é possível a emergência do desejo. A dificuldade materna em manter ou sustentar o lugar da falta leva a mulher à busca compulsiva para o desejo de amor, uma vez que se instituiu pouco espaço para suportar as demandas não satisfeitas.

Stellin, Monteiro, Albuquerque e Marques (2011) apontam que, na relação entre a mãe e a criança, esta experimenta a condição de falo, ou seja, o que faltava para completar a mãe. Na condição de a mãe desejar o falo, a criança quer satisfazê-la, colocando-se como objeto de desejo da mãe. É a partir desse desejo que a criança é capturada pelo significante primordial, e direciona a mulher para o lugar de mãe.

Ainda nessa perspectiva, Miller (2014), no estudo "A criança entre a mãe e a mulher", apresenta a dupla função da criança para a mulher. A primeira diz respeito ao portar-se como o objeto que a preenche, e a segunda remete à divisão entre a mãe e a mulher, sendo essencial que a mãe continue desejando outros objetos para além da criança, inclusive o desejo do homem. A criança como objeto de amor exerce a função de velar o nada, ou seja, ser o falo enquanto este falta à mulher. Na narrativa, Enzo assume esse lugar de ser o complemento materno, o amor de Jaciara por Enzo sucumbe às outras formas de desejar como mulher.

Jaciara contou que o abandono é algo que a perturba muito: "eu morro de medo de meus filhos se sentirem abandonados. . . . Sou como uma coruja mesmo, uma 'mãe coruja'. . . . preciso escutar o Enzo até dormindo pra evitar que ele engasgue". Ela fica atenta à respiração de Enzo, pois o barulho mais acentuado equivale à dificuldade de respiração ou sufocamento e, nessas situações, ela precisa inserir uma sonda na cânula e aspirar as secreções da traqueia. Ela comentou: "Se eu escuto que a respiração dele está pesada, eu corro para poder ver se precisa aspirar; ele pode engasgar e morrer. . . . Eu sei que as pessoas não aguentam, só eu aguento tudo isso que eu passo com ele".

Jaciara toma para si o cuidado de Enzo, pois, segundo ela, ninguém mais conseguiria suportar. De fato, essa relação íntima entre violência e sobrevivência tem a ver com o modo como Enzo e Jaciara enlaçam seus desejos. Uma mãe que adota a deficiência para tomá-la como totalidade, e uma criança que se mantém viva diante da condição de nada ser de si, para tudo ser para a mãe. A violência do laço, que remete à existência da mãe e do filho, pode ser compreendida pela pulsão de morte, contra a qual ambos lutam para se manterem vivos mediante o falecimento subjetivo de cada um. Ambos estão muito vivos, mas a relação faz falecer um pouco de cada um deles na tentativa de recorrer à vida. O unheimlich do laço é habitado pela iminência da morte como pulsão que toma o corpo e a relação mãe-filho. A criança nada mais pode ser do que o acabamento que garante a sobrevivência de ambos. A narrativa esbarra na eminência da morte de Enzo e na escolha de Jaciara em se colocar como acompanhante desse corpo que falece.

Perguntei "o que fez você conseguir suportar tanta coisa?". Ela respondeu: "Vida difícil. Cresci num meio de pessoas ruins. Tive que aprender a me virar sozinha. . . . Quando meu pai saía de casa, ela recebia a visita de alguns homens em casa, eu, às vezes, presenciava algumas cenas que eu não queria ver. Aquilo me dava nojo e raiva. Mas meu pai sempre foi um homem bom".

O amor objetal, descrito por Freud (1920/1996), representa uma das polaridades das pulsões de morte e de vida, e indica a coexistência entre o amor (ternura) e o ódio (agressão). O sadismo compreende a pulsão de morte afastada do eu pela libido narcísica, e para as situações em que o sadismo original não foi orientado ou fusionado a outros elementos, instaura-se na vida amorosa a ambivalência amor-ódio. Para Jaciara, o ódio persiste com o respaldo na imagem de mãe-toda, como resposta à sua própria mãe que, para ela, é falha. Porém, tanto o sadismo que garante a sobrevivência de Enzo, pela aspiração, quanto o ódio que sucumbe em amor aos filhos são colocados no campo do unheimlich. O amor de Jaciara é invadido pela noção de necessidade, ser tudo para o outro. A saúde de Enzo exige contínuos cuidados, mas não a totalidade da mãe, e Jaciara se entrega por inteiro em nome desse amor. O amor que ela porta tem a ver com sua fantasia enquanto filha. Quando seu pai saía para trabalhar e a deixava em casa com os irmãos, e a mãe recebia visitas de alguns homens, ela se sentia abandonada. O abandono a habita enquanto algo aterrorizante, e é ela quem se coloca para ser a "mãe coruja" que está sempre perto e que nunca abandona seus filhos, e jamais se distancia de Enzo. Jaciara criou, em fantasia, a mãe que gostaria de ter tido, e faz de si a materialização dessa mãe que é completa e integral para Enzo.

Jaciara mencionou também que tem uma paixão enorme por Enzo. "Eu adotei ele sabendo que ele tinha alguma deficiência, mas não sabia o que era. Meu amor por ele foi tão grande que eu precisava dele . . . . Se eu não estiver perto, ele não sobrevive" (sic).

Jaciara reconhece que a síndrome de Enzo o conduz para a morte, diante disso ela aguarda, mas também se apavora: "Eu sei que a síndrome dele pode tirar o sopro de vida. Eu já sofri demais esperando por esse dia. . . . Mas eu parei de chorar quando percebi que tenho que aproveitar cada segundo que tenho com ele vivo". Jaciara também acrescentou que se Enzo perdesse seu "sopro de vida" equivaleria perder uma parte de si: "Ele é uma parte de mim, se ele morrer é como seu eu perdesse uma parte do meu corpo. Como se arrancasse um braço meu e eu tivesse que continuar viva vendo que um pedaço foi embora".

Embora Jaciara busque a continuidade dos corpos como complemento de cada um como faltosos, Enzo marca uma diferença importante – ele teme a noite. Devido às persistentes crises convulsivas e consequentes comprometimentos orgânicos, a rotina de Enzo é marcada por frequentes internações e intervenções médicas e terapêuticas. Ela explicou que durante os períodos de internação, Enzo fica agitado à noite, buscando barulhos que ele reconheça, e dorme com tranquilidade durante o dia, pois se sente mais confortável com a rotina do hospital e sua presença. Na analogia entre Jaciara e sua ligação com a lua, emerge Enzo, agitado e não conseguindo dormir à noite. Parece temer a escuridão, o desconhecido. Se Jaciara é a noite, Enzo é o dia. O unheimlich é a diferença que Enzo tenta apresentar, mas que Jaciara nega. Ela narra que Enzo teme a noite, ao mesmo tempo em que ela revela sua paixão pela noite. O som de sua respiração denota o quanto ele se esforça contra a asfixia. Embora, Jaciara tente se fusionar ao corpo de Enzo, o temor à noite e o esforço para respirar e o manter vivo são elementos que marcam a distinção entre Enzo e Jaciara. Mas, na incompreensão da separação, Jaciara quer ausentar essa diferença, tornando o corpo dele seu heimlich.

Na dimensão de continuidade dos corpos, Jaciara considerou: "eu sou o pulmão, o coração, o estômago e a cognição dele. Ele sou eu, eu sou ele". Nesse argumento, é possível perceber que Jaciara oferece partes do corpo, e não o corpo todo, pois há um hiato entre a imagem cedida e a imagem alcançada como revelador do corpo. Nesse movimento, Jaciara também se vê em falecimento e paralisada mediante o inexplicável do comprometimento orgânico que toma o corpo de Enzo e o coloca na antinomia entre o idêntico e o diferente: ela perde a si mesma se Enzo vir a falecer.

Para a psicanálise, o corpo é compreendido como o princípio de vida e de individuação. Ao considerá-lo erógeno, compreende-se a passagem do corpo autoerótico ao corpo narcísico, devido à imersão pelo campo do Outro. Ordenado pelo regime libidinal, o corpo articula a necessidade e a demanda, sendo o lugar de transição do objeto e do Outro, onde nasce o sujeito, que se apropria do corpo como objeto de amor do Outro. Desse modo, o corpo, para a psicanálise, é construído a partir da alteridade (Fernandes, 2011). No entanto, Jaciara toma para si o corpo de Enzo – não há diferença entre o eu e o outro, não há marca de alteridade, há em seu discurso um só corpo.

No primeiro encontro, a filha Érica (12 anos) estava presente para ajudar a mãe e levar o galão de oxigênio de Enzo. A garota ficou no canto da sala e muito quieta. Jaciara saiu para buscar água para Enzo e questionei como Érica estava se sentindo. Ela disse que tinha fome, pois saiu da escola e foi direto para o hospital com a mãe e, como não tinha almoço em casa, comeu um pão. A menina identifica a impossibilidade de Jaciara ser total para seus sete filhos. É presumível que seja mãe integral, mãe-toda, apenas para Enzo, complemento impossível de si mesma. Na consideração, Jaciara buscava meninas para se sentir mãe-toda, mas retomou sua busca, pois não se tratava do sexo da criança, e sim do modo como a relação mãe-criança poderia movimentar sua condição subjetiva entre a mãe e a mulher.

É importante acrescentar que, na narrativa de Jaciara, seu marido mantém-se em obscuro. Há um pai que não assume sua função ao ser excluído da relação que mantém com Enzo. O unheimlich remete à deficiência escolhida para contemplar a maternidade integral dessa mãe; o heimlich à aproximação massiva entre os corpos, de modo que Jaciara se oferece para ser o corpo, a emoção e a cognição de Enzo, enquanto o pathos, vivenciado como amor, recobre o hiato que existe entre o estranho e o familiar, da mesma forma que se configura como o corpo da criança que ocupa o espaço entre a mãe e a mulher em Jaciara. Assim, Jaciara elege Enzo para realizar a parcialidade da maternidade como total.

 

Considerações finais

A narrativa Enzo contribuiu para a compreensão de que a deficiência foi uma escolha depositada na criança de realização materna. Jaciara inicialmente adota a deficiência de Enzo, e depois reconhece a criança. O desejo de ser mãe de uma menina é colocado de lado quando Jaciara encontra Enzo. Ela se apaixona perdidamente pelo menino com indícios de uma doença crônica e incapacitante. Os desdobramentos se assemelham ao momento em que Jaciara reconheceu em Enzo a singularidade de seu comprometimento e apresentou novos caminhos para o impacto diante da ruptura com o ideal narcísico e para o desejo de maternidade. A adoção de Enzo aconteceu em nome de uma paixão/pahtos que tomou Jaciara por completo. Paixão que tem a função de tamponar o vazio impossível de ser suplantado com o nascimento ou adoção de qualquer outro entre os filhos, sendo Enzo o escolhido. Nesse sentido, a adoção da deficiência cumpre, como qualquer outro modo de construção da maternidade, a busca pelo preenchimento imaginário da falta.

Jaciara encontrou na adoção de Enzo a manifestação do amor como complemento do vazio e realização do desejo de maternidade. Enzo, por sua vez, fez-se filho amparado pelo cuidado e pelo amor apresentado por ela. Os elementos singulares da narrativa, compreendida pelo olhar da psicanálise, possibilitaram o reconhecimento do objeto paixão pelo estranho, de modo que o corpo de Enzo representa o estranho pelo qual Jaciara tenta configurar sua paixão como a totalidade do laço. A adoção de Enzo cumpre a sina, a busca de Jaciara pela maternidade toda. O corpo do menino está submetido ao silêncio que sua paralisia orgânica o condiciona, não restando modo de aparecimento possível da criança sem estar fundida ao corpo da mãe. Apesar de Enzo estar preso às impossibilidades que a deficiência o paralisa, ainda há algo que afirma a existência do sujeito – ele teme a noite e sua respiração faz um barulho de sufocamento. Ele resiste em se fundir à mãe, há um sujeito que persiste em existir diante do laço fusional que Jaciara o coloca a estabelecer para ela o objeto que tampona a falta.

Jaciara busca a realização da maternidade engendrada na construção da imagem da mulher, a partir da ressignificação das experiências com a própria origem familiar, de modo que ela se propõe a ser para Enzo a figura que exclui a função paterna, exerce a função materna e personifica o amor incondicional, do mesmo modo que ela gostaria de ter sido acolhida. A maternidade passa pela repetição de seu posicionamento enquanto filha, efeito que não está restrito à vivência de Jaciara, mas do próprio processo de maternidade de filiação. Conforme Jaciara narrou, sua história familiar é marcada por tragédias e momentos que gostaria de ter apagado de sua memória, mas que ela revive na tentativa de garantir a vida de Enzo e de sua existência emocional e psíquica no reconhecimento dessa relação como necessária a ambos.

A narrativa apresentou o entrelaçamento dos elementos estranho (unheimlich), familiar (heimlich) e paixão (pathos), sendo que, para cada família que adota uma criança com deficiência, os elementos acompanham a história singular e única de cada laço. A importância do estudo enfatiza o infringir do sintoma científico sobre o corpo de potência, e se atenta à configuração familiar por adoção, inserindo nesse contexto o corpo da deficiência.

A compreensão da adoção da criança com deficiência abre espaço para o estudo das manifestações subjetivas como resgate da história materna na família. A paixão pelo estranho porta a recuperação do amor deixado enquanto marca pela busca de preenchimento da falta e tampona a condição estranha vista sob o desamparo humano. Desse modo, a paixão totaliza, ou sucumbe, o estranho tornando-o familiar. A violência, o abuso, o abandono são termos que totalizam a "vida difícil", significante intercorrente também na vida de Jaciara. A "vida difícil" é o familiar que une a história de Jaciara às de seus filhos, sendo também o elemento que causa horror e a conduz a dispor-se de todo empreendimento afetivo para transpor, repetindo pela vida de seus filhos sua própria tragédia.

O unheimlich, o heimlich e pathos dizem respeito à relação estabelecida pela adoção de Enzo por Jaciara e apontam para as movimentações psíquicas necessárias para a construção desse laço. Os fenômenos estranho, familiar e paixão se inter-relacionam de modo que o último ocupa o distanciamento entre os anteriores, cujo entrelaçamento transforma o estranho em familiar. Nesse sentido, o pathos – sofrimento fantasiado em amor – totaliza o vazio entre o unheimlich e o heimlich. É importante inferir que esses elementos se enlaçam dessa forma, pois dizem respeito ao entendimento da narrativa Enzo. Para cada família, haverá uma nova história, e esses elementos se entrelaçarão de um modo único e específico para cada narrativa.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em junho/2017.
Aceito em dezembro/2017.

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