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Estilos da Clinica

versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.22 no.3 São Paulo dez. 2017

http://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v22i3p1-16 

ARTIGO

 

Grupos heterogêneos de educação terapêutica: efeitos entre crianças e a emergência do prazer compartilhado e da interação social em um caso de autismo

 

Heterogeneous groups of therapeutic education: the emergence of shared pleasure and social interaction in a case of autism

 

Grupos heterogéneos de educación terapéutica: efectos entre niños y la emergencia del placer compartido y de la interacción social en un caso de autismo

 

 

Marina Belém LavradorI; Cristina Keiko Inafuku MerlettiII

IPsicanalista, membro do Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica. Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
IIPsicóloga, membro do Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica

Correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo é fruto de um semestre de estágio de uma aluna da graduação do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) em um grupo terapêutico heterogêneo do Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica. Será realizada uma discussão acerca dos efeitos terapêuticos que o encontro entre crianças em diferentes posições subjetivas e discursivas pode proporcionar, a partir de cenas clínicas. Posteriormente, apresentamos uma análise mais detida dos efeitos do encontro com o semelhante no tratamento de uma criança autista, no que concerne à (não) ocorrência do terceiro tempo do circuito pulsional nessa posição subjetiva.

Descritores: grupos de educação terapêutica; autismo; psicanálise; circuito pulsional; interação social.


ABSTRACT

This work derives from a one-semester internship experience of a graduation student of IPUSP (Psychology Institute of University of São Paulo) in a heterogeneous therapeutic group from Lugar de Vida – Center for Therapeutic Education. In this work, there will be a discussion about the therapeutic effects provided by the encounter of five children in different subjective and discursive positions. Subsequently, a more detailed analysis of these encounters effects for the treatment of an autistic child will be presented regarding the (non) occurrence of the third time drive circuit in autism.

Index terms: therapeutic education groups; autism; psychoanalysis; drive; social interaction.


RESUMEN

Este artículo deriva de un semestre de práctica de una estudiante de la graduación del IPUSP (Instituto de Psicología de la Universidad de São Paulo) en un grupo terapéutico heterogéneo del Lugar de Vida – Centro de Educación Terapéutica. Se realizará una discusión sobre los efectos terapéuticos que el encuentro entre niños en diferentes posiciones subjetivas y discursivas puede proporcionar, a partir de escenas clínicas. Posteriormente, se realizará un análisis más detenido de los efectos del encuentro con el semejante en el tratamiento de un niño autista, abordando lo que se refiere a la (no) ocurrencia del tercer tiempo del circuito pulsional en ese caso.

Palabras clave: grupos terapéuticos; autismo; psicoanálisis; pulsión; interacción social.


 

 

Introdução

Este artigo procurará expor algumas reflexões suscitadas a partir da experiência de um semestre de estágio de uma aluna de graduação em Psicologia na instituição Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica, em 2015. O estágio ocorreu no contexto de um convênio acadêmico entre a instituição supracitada e o Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). O Lugar de Vida é uma instituição que oferece tratamento para crianças com "problemas psíquicos", ancorada numa perspectiva de educação terapêutica, que articula psicanálise e educação. Possui diversas modalidades de tratamento: atendimento analítico individual, grupos terapêuticos, acompanhamento escolar, acompanhamento terapêutico, grupo de pais etc.

O estágio foi realizado com um grupo de Educação Terapêutica da instituição, ocorrido semanalmente. Logo após o atendimento, a estagiária também participava de reuniões com as profissionais coordenadoras do grupo, nas quais eram discutidos aspectos clínicos e interventivos relativos ao atendimento – chamada de "reunião de fio". Além disso, comparecia à supervisão semanal na universidade.

O trabalho nos grupos terapêuticos do Lugar de Vida parte do pressuposto teórico-clínico de que o encontro entre crianças, mediado por intervenções e provocações de adultos, pode produzir efeitos terapêuticos – ou seja, de que há algo que uma criança pode fazer pela outra. Já há alguns anos, devido a experiências bem-sucedidas anteriormente na história da instituição, procura-se ainda que no grupo convivam crianças que se encontram em diferentes posições, tanto subjetivas quanto discursivas – conceitos que serão mais bem definidos posteriormente.

Procuraremos levantar, neste trabalho, algumas reflexões acerca do potencial terapêutico que o dispositivo de grupo pode ter no tratamento de algumas crianças, delineando melhor os suportes teóricos e as apostas que sustentam tal proposta de tratamento no Lugar de Vida. Para isso, serão enfocadas algumas cenas vivenciadas durante o período de estágio.

Posteriormente, traremos à tona uma discussão acerca de alguns aspectos específicos da clínica do autismo, destacando elementos importantes para pensar a direção do tratamento nesses casos, de modo a enfocar efeitos clínicos percebidos ao longo do semestre no caso de um dos meninos do grupo. Serão destacadas, assim, cenas vividas que apontam para a importância que o grupo assumiu no tratamento da criança.

 

Discussão

Potências e possibilidades do tratamento em grupos terapêuticos de crianças

As diversas modalidades de tratamento do Lugar de Vida se ancoram na perspectiva de Educação Terapêutica, que articula referenciais psicanalíticos com uma determinada concepção acerca do que é educar. Assim, acredita-se que a educação tem papel crucial no tratamento de crianças com problemas psíquicos, como é o caso das psicoses. No tratamento dessas crianças, educar e tratar se alinham e se complementam na mesma direção. A Educação Terapêutica baseia-se em um conjunto de práticas interdisciplinares, entre as quais está o tratamento institucional a partir de vários dispositivos, sendo um deles o grupo terapêutico.

Os grupos terapêuticos de crianças do Lugar de Vida são sustentados, como possibilidade de tratamento, a partir do pressuposto teórico-clínico de que o encontro entre crianças abre espaço para que ocorram efeitos entre e para elas, dentro de certos objetivos terapêuticos.

Freud (1921) citado por Kupfer, Pinto e Voltolini (2010) aborda, em "Psicologia das massas e análise do eu", que os grupos entre neuróticos se formam a partir de uma identificação entre os sujeitos como semelhantes, que precisam irmanar-se diante da falta. Em grupos de crianças neuróticas, assim, todas se encontram em posição semelhante diante da castração simbólica. Como pensar, entretanto, a formação de grupos com a presença de crianças para quem tal operação de simbolização da falta não ocorreu?

Uma série de publicações de psicanalistas e outros profissionais que trabalharam com crianças não-neuróticas apontam para efeitos terapêuticos relevantes que a formação de grupos pode proporcionar no tratamento das mesmas. Geneviève Haag (1987), psicanalista francesa, realizou por anos grupos terapêuticos compostos de crianças diagnosticadas como autistas e psicóticas. Em um texto não publicado em português, "Petits groupes analytiques d'enfants autistes et psychotiques avec ou sans troubles organiques", ela destaca alguns efeitos terapêuticos bastante relevantes possibilitados nesses grupos. A autora observou a produção do que denomina "efeito grupal" nesses tratamentos, nos quais o grupo funcionava proporcionando um contorno às crianças. É importante lembrar que, com frequência, essas crianças vivenciam uma fragmentação corporal ou a não instauração de suas bordas; o grupo, assim, possibilitaria uma contenção de tal fragmentação por meio do outro semelhante. Apesar das diferentes categorias diagnósticas, por sua vez, Haag (1987) destaca que alguns núcleos de angústia comuns podiam ser trabalhados nas sessões, como a problemática do laço primitivo com o outro. Nenhuma das crianças dos grupos de Haag (1987) falava. Nas cenas clínicas por ela abordadas em seu trabalho, chama a atenção o fato de as terapeutas – elas sim – falarem sobre o que estava acontecendo, nomeando e fazendo interpretações, de modo a supor algo a respeito da angústia vivenciada por aqueles pacientes. Esse tipo de intervenção apoiada na atribuição de sentido, nomeação às experiências vivenciadas no grupo, é fundamental também na proposta de trabalho do Lugar de Vida.

Experiências como a de Haag (1987) demonstram que a reunião de crianças autistas e psicóticas já promove em si efeitos terapêuticos. Kupfer et al. (2010), por sua vez, resgatam o alerta da educadora francesa Mannoni, que apontava para o fato de que, se uma criança que não fala for rodeada apenas de crianças que não falam, ela nunca chegará a falar, mesmo na presença de adultos que falam. Os autores destacam, assim, a importância de que, se possível, os grupos terapêuticos de crianças possam contar com uma diversidade de posições subjetivas radical, incluindo não só crianças para quem a operação de castração simbólica não operou (autistas e psicóticas), como também crianças neuróticas. Espera-se que nesses grupos se desvelem efeitos terapêuticos para todos os casos.

A esse respeito, vale ressaltar que, do ponto de vista psicanalítico, há uma diferença importante no vínculo estabelecido entre duas ou mais crianças e entre uma criança e um adulto: as identificações que se produzem entre as crianças são de semelhantes, que, no caso dos neuróticos, conforme destacado, precisam irmanar-se no que lhes falta. No que diz respeito a crianças para quem a falta não se instalou, como é o caso das crianças autistas e psicóticas, os grupos abrem a possibilidade de que uma criança neurótica doe sua falta a essas crianças que não a têm instaurada (Kupfer et al., 2010). As crianças fazem um laço entre si a partir de uma mesma posição diante do infantil e do sexual, que o adulto não mais ocupa.

Nessa direção, os autores se remetem à noção de formação discursiva, no sentido introduzido por Foucault, que a define como

um conjunto complexo de relações que funcionam como regra: ela prescreve o que deve ser correlacionado, numa matriz discursiva, para que esta se refira a tal ou qual objeto, para que empregue tal ou qual enunciação, para que utilize tal e qual conceito, para que organize tal ou qual estratégia (Kupfer et al., 2010, p. 101).

Trata-se de uma matriz de sentido, que produz significações que parecem óbvias, naturais.

A conceituação lacaniana acerca dos quatro discursos especifica como discurso e sujeito são indissociáveis. O trabalho psicanalítico individual possibilitaria que, a partir do ato analítico, um sujeito passe por diferentes posições discursivas, de modo a se produzir uma mudança subjetiva duradoura (Kupfer, et al., 2010). Por sua vez, em grupos heterogêneos de crianças, é possível apostar que o encontro entre elas, a partir de "provocações" geradas por adultos coordenadores, possa abrir espaço para uma circulação delas por posições discursivas diferentes das que se encontram encerradas em outros contextos sociais, proporcionando assim efeitos terapêuticos, na direção de "sacudir o sujeito" (Kupfer et al., 2010, p. 105) e mesmo de produzir uma alteração na posição subjetiva. Trabalha-se, portanto, a partir da hipótese de que a diversidade é terapêutica.

O grupo que abordaremos nesse trabalho contava, tomando como base os princípios expostos, com crianças em diferentes posições subjetivas e discursivas. Assim, o quadro de Antônio¹ e Gustavo se aproximava mais do autismo; o de Elisa, de uma psicose infantil; e as estruturas clínicas de Ana e Joaquim eram então pensadas como neuróticas pelas terapeutas do Lugar de Vida. Gustavo era a única criança do grupo que não falava. Destaca-se que Joaquim tinha uma síndrome orgânica: síndrome de Down. Todas as crianças, exceto Joaquim, estavam também em atendimento individual no Lugar de Vida. A maior parte das cenas clínicas que serão abordadas neste trabalho ocorreu antes da entrada de Joaquim no grupo.

Ao longo do tempo de estágio, pôde-se vivenciar a potência proporcionada pelo trabalho em grupo com aquelas crianças. Houve a possibilidade de abertura em diversos momentos, no caso das crianças autistas e psicóticas, para um enlace com o outro, e de saída das estereotipias para a articulação de um brincar. Ana, por sua vez, que já possuía mais recursos simbólicos e um brincar mais recheado de fantasia, pouco a pouco passou a se descobrir "potente" no grupo, posição muito diferente da que ela se encontrava em outros contextos de sua vida.

Em um dia do grupo no qual Antônio e Elisa faltaram, tendo comparecido apenas Gustavo e Ana, se deu um exemplo de interação entre crianças produtora de efeitos terapêuticos para ambas. Ana subiu em um banco que fica no espaço externo do Lugar de Vida, pedindo que olhássemos para ela. Pouco depois, Gustavo subiu também no banco e ensaiou pular, como tinha feito Ana. Utilizou o corpo de uma das estagiárias para "cair" do banco num primeiro momento, e depois lhe deu as mãos e fez impulso para pular sozinho. Repetiu esse jogo algumas vezes, eufórico, rindo muito. Posteriormente, Ana quis brincar no balanço, dando voltas ao seu redor e girando. Gustavo, atento ao que a menina fazia, se aproximou também do balanço, embora ainda não tivesse ousado se sentar nele. Em outro momento, Ana brincou de escalar o poste do Lugar de Vida. Gustavo olhou para o que ela estava fazendo e riu muito. Ana então perguntou à estagiária: "Ele gostou?", ao que ela respondeu: "Parece que ele gostou e achou engraçado". A menina então, muito feliz, começou a subir mais animadamente ainda no poste, olhando para Gustavo.

Ana, que era falada e posta, na família e na escola, como uma menina que não sabia e que não conseguia, muitas vezes, no grupo se colocava também nesse lugar: pedia ajuda para realizar tarefas simples, afirmava não ter conhecimento acerca de assuntos ou conceitos que anteriormente já tinha demonstrado fazer parte do seu repertório etc.

As coordenadoras e as estagiárias procuraram orientar as intervenções diante de Ana no sentido de apostar na potencialidade da menina de se posicionar diante dos outros e de realizar as ações que queria, sozinha ou com ajuda. A interação de Ana com as outras crianças do grupo permitiu que, em diversos momentos, ela se posicionasse de maneira diferente da implicada na formação discursiva na qual se encontrava encerrada na maior parte dos contextos sociais que frequentava. Na cena destacada, por exemplo, a menina pode se descobrir na posição de quem podia ensinar o outro, de quem sabia algo a mais que o outro, diferentemente da que geralmente era imposta pela família e pela escola: uma criança com muitas dificuldades, inibida e com certa deficiência intelectual.

Ressalta-se ainda a importância das experimentações que envolviam coordenação motora, como subir no banco, saltar e escalar o poste, no contexto do tratamento de Ana. A menina chegou à instituição demonstrando grandes dificuldades nesse tipo de atividade, tendo muito medo até de descer sozinha a escada que levava ao espaço de atendimento na instituição. Nesse dia, porém, ela pôde não só experimentar, como também vivenciar a possibilidade de servir de "modelo" para outra criança.

A relação estabelecida nesse dia entre as duas crianças permitiu, ainda, que Gustavo se identificasse com Ana e imitasse seus movimentos, num primeiro estágio de relação com o outro, que remete ao estádio do espelho proposto por Lacan. Nas primeiras sessões do grupo, Gustavo era um menino de pouquíssimo endereçamento aos outros, permanecendo a maior parte do tempo com uma expressão que parecia vazia, olhando para baixo. Nesse dia, no entanto, o menino pôde se enlaçar a outra criança e ter uma experiência de prazer compartilhado. A mudança na expressão do menino era visível, e chamou a atenção de todas as terapeutas; realmente, parecia aparecer ali um "moleque", como disse uma das coordenadoras do grupo na reunião de fio, um certo "sujeito" (em um sentido que será desdobrado posteriormente neste trabalho).

Outra cena bastante marcante que ilustra efeitos que o grupo pode produzir para as crianças ocorreu entre Antônio e Gustavo. Antônio era um menino que estava em tratamento no Lugar de Vida há alguns anos. De acordo com as coordenadoras do grupo, ele chegara à instituição sem uma fala clara e sem poder sequer fazer uma diferenciação e escolha por um objeto. Atualmente, falava e se endereçava aos outros. Mesmo assim, em diversos dias do grupo, o víamos distanciado das outras crianças, respondendo pouco aos nossos chamados e bastante imerso em suas estereotipias. Muito surpreendente, portanto, foi a cena ocorrida em certo encontro, no qual Antônio se mostrou bastante animado com um novo escorregador do Lugar de Vida. Chamou então Gustavo, que se encontrava próximo, para brincar com ele: "Vem, Gustavo!". Gustavo respondeu ao chamado de Antônio e os dois meninos puderam, por um momento, brincar juntos no escorregador. Posteriormente, nesse e em outros dias, Antônio se aproximou do escorregador, sorrindo e olhando Gustavo, como se quisesse convidá-lo também. Essas cenas evidenciam a ocorrência de um endereçamento de um menino ao outro, proporcionando uma abertura para a formação de um laço social possível entre eles.

Por fim, gostaríamos de abordar uma cena a respeito da menina Elisa. Em certo encontro, ainda no começo do semestre, foi realizada uma filmagem do grupo, por conta de Elisa, que estava tendo alguns momentos do seu cotidiano filmados para a produção de um documentário. Nesse dia, houve uma brincadeira na qual Elisa e Ana vestiram fantasias. Elisa espontaneamente foi para outro espaço da sala onde normalmente ocorriam as sessões do grupo (trata-se de uma sala subdividida em três; são espaços interligados entre si, mas também separados uns dos outros, possibilitando que uma criança se afaste das outras e vá para outro ambiente), fechando a porta e dizendo que ia se trocar. Essa possibilidade de reconhecer no grupo um espaço onde operava um limite social – no qual ela não podia tirar a roupa e se trocar na frente das outras crianças, das terapeutas ou da filmagem – era bastante importante no processo terapêutico de Elisa, então considerada uma menina psicótica. Destacou-se, também, na discussão ocorrida no fio, que esse movimento de Elisa no grupo marcava uma diferenciação realizada pela menina entre os atendimentos grupal e individual: no atendimento individual, os aspectos da sexualidade de Elisa vinham à tona de maneira bastante explícita, sem barreiras, de modo a ocorrer um aprofundamento na sua produção delirante; já no grupo, em alguns momentos mais organizados, Elisa podia reconhecer limites envolvidos em uma relação social, como é o caso da cena destacada. Isso exemplifica que as funções terapêuticas de ambas as modalidades de atendimento são igualmente importantes e diferem entre si.

 

Uma reflexão possível acerca da direção do tratamento e do efeito do grupo terapêutico na clínica do autismo

As cenas clínicas abordadas evidenciam que a formação de grupos terapêuticos de crianças pode proporcionar múltiplos efeitos relevantes e singulares na direção de tratamento de diversos pacientes. Por sua vez, desvelaremos agora, mais especificamente, algumas considerações teórico-clínicas acerca dos efeitos que o grupo terapêutico aqui abordado proporcionou a um dos meninos – Gustavo – ao longo do semestre, focando em uma discussão acerca de alguns operadores teóricos úteis na clínica psicanalítica do autismo.

No seu seminário 11, "Os quatro conceitos fundamentais de psicanálise", Lacan (1985) expõe uma concepção bastante interessante do conceito psicanalítico de pulsão, de grande utilidade para pensarmos a clínica do autismo. O autor francês parte de uma releitura do texto freudiano "Pulsões e destinos da pulsão" (1915/2004), de modo a trabalhar e aprofundar inclusive os paradoxos nele envolvidos. A partir dessa leitura, analisando os quatro termos referentes à pulsão propostos por Freud (pressão, meta, objeto e fonte), Lacan se refere à pulsão como uma montagem. Apresentaremos brevemente, a seguir, alguns aspectos expostos por Freud (1915/2004) e certos desdobramentos lacanianos sobre eles.

Freud (1915/2004) define a pressão da pulsão – a própria força motora relativa às pulsões – como constante, que não para jamais de pulsar. Lacan (1985) destaca essa constância como elemento fundamental que diferencia a pulsão de qualquer estímulo orgânico de função biológica. Assim, o corpo que está em jogo na psicanálise, esse corpo marcado pela pulsão, não é o corpo orgânico.

Freud (1915/2004) propõe que a meta de toda pulsão é a satisfação. Ainda orientando seu pensamento de acordo com o princípio do prazer, o autor define, nesse momento de sua obra, desprazer como aumento de excitação de estímulos internos, e prazer como abaixamento desses estímulos. A satisfação da pulsão, seguindo a lógica do princípio do prazer, não poderia ser alcançada senão pela supressão do estado aumentado de estímulo da fonte pulsional – ou seja, a partir da suspensão da excitação que originou o estímulo pulsional.

O objeto da pulsão, destacado por Freud como variável, é colocado por Lacan como sendo o objeto a – objeto causa de desejo. Erik Porge (2006) ressalta que o objeto a é uma das únicas invenções que Lacan atribui a si mesmo em toda sua obra, sendo uma pedra angular da teoria do autor; é a marca da relação do sujeito com o que ele não é, com o que lhe falta, sustentando um furo na cadeia de significantes inconscientes e também no registro imaginário. Trata-se da perda originária do sujeito, do resto da divisão do sujeito e da entrada na linguagem. Lacan propõe que a pulsão contorna o objeto a.

Por sua vez, ao abordar o quarto termo do texto freudiano – a fonte da pulsão, que se localiza sempre no corpo – Lacan (1985) ressalta as zonas erógenas como sendo estruturas de borda (como a boca e o ânus), marcando uma relação do sujeito com o Outro da cultura. Marie-Christine Laznik (2000) aponta que, no caso de muitas crianças autistas, se observa que essa função de borda da boca e do ânus não opera.

Nesse ponto, ressalta-se que a leitura cuidadosa do texto freudiano evidencia que a noção de satisfação pulsional nele exposta traz à tona a categoria do impossível: se de um lado a satisfação pulsional se daria a partir da supressão dos estímulos internos aumentados, de outro, a pulsão é definida como uma força constante, que jamais para de pulsar. Depreende-se, assim, que a satisfação pulsional total não poderia ocorrer, sendo portanto, na realidade, impossível em vida.

A esse respeito, Lacan (1985) destaca que toda satisfação pulsional é parcial. O psicanalista francês também enfatiza o movimento da pulsão, a possibilidade de inversão do próprio mecanismo pulsional, abordando tal movimento como circular, contornando o objeto a – o que denomina circuito da pulsão. Uma vez que a satisfação não se dá alcançando o suposto alvo da pulsão parcial, ela só ocorre sendo o seu alvo o próprio retorno ao circuito. Assim, nenhum objeto satisfaz a pulsão, seja ela oral, anal, escópica ou invocante (as duas últimas formas de pulsão parcial citadas são específicas da concepção lacaniana): a satisfação parcial de gozo só se daria a partir do contorno de um eterno objeto faltante – objeto a. A meta da pulsão, portanto, na releitura lacaniana de Freud, é completar o próprio circuito pulsional, e recomeçá-lo, incessantemente.

O autor frisa a importância clínica de se levar em conta o caminho do sujeito em relação à satisfação pulsional, afirmando que o que vivem os pacientes, incluindo os seus sintomas, é em última instância um sistema arranjado de acordo com um tipo de satisfação.

A respeito desse circuito pulsional, Lacan (1985) destaca três tempos que já haviam sido descritos por Freud (1915/2004): ativo, reflexivo e passivo. Por sua vez, o autor francês atribui uma nova interpretação a esse terceiro tempo: não se trataria de mero tempo de passividade, mas de um "se fazer" objeto de um novo sujeito (se fazer comer, se fazer olhar, se fazer ouvir). Nesse terceiro tempo do circuito ocorreria, ainda, o aparecimento de certo sujeito – um sujeito da pulsão. Citando o autor:

É preciso bem distinguir a volta em circuito de uma pulsão do que aparece – mas também por não aparecer, – num terceiro tempo. Isto é, o aparecimento de ein neues Subjekt que é preciso entender assim – não que ali já não houvesse um, a saber, sujeito da pulsão, mas que é novo ver aparecer um sujeito. Esse sujeito, que é propriamente o outro, aparece no que a pulsão pôde fechar seu curso circular. É somente com sua aparição no nível do outro que pode ser realizado o que é da função da pulsão. (Lacan, 1985, p. 169)

Destacando esse aspecto da leitura lacaniana das pulsões, Marie Christine Laznik (2000) sustenta uma hipótese teórica e clínica bastante interessante: para bebês e crianças autistas ou com "risco de autismo", o circuito pulsional ocorreria de maneira incompleta, de modo a haver ausência desse terceiro tempo. É importante destacar que ao realizar essa proposição, a psicanalista lançou mão da teoria lacaniana para contemplar um fenômeno que ela observava, antes de tudo, na clínica. Ao longo de seu percurso clínico, e também a partir do trabalho de outros pesquisadores, Laznik se viu confrontada por bebês que por algum motivo não apresentavam esse movimento de "fazer-se olhar" pelo outro (busca ativa do olhar do outro), "fazer-se comer" pelo outro (estender o pezinho para a mãe morder) etc.

Laznik (2000) defende que o reconhecimento desses fatores justifica a intervenção analítica precoce a esses bebês; a não ocorrência do circuito pulsional completo neles seria um importante indicativo de que algo da ordem do sofrimento psíquico estaria aí implicado, podendo apontar para um possível risco de autismo.

A autora pontua que a ocorrência do terceiro tempo do circuito pulsional é necessária para que possa haver uma alienação do bebê tanto no que diz respeito ao registro imaginário quanto no que diz respeito ao campo do simbólico do sujeito. Ou seja, é o circuito pulsional completo que permite que a criança passe pela experiência de jubilação do estádio do espelho – a partir da qual há a constituição de uma imagem corporal – e que ela possa entrar na linguagem. No caso do autismo, nenhuma das duas operações poderia acontecer devido, primeiramente, à ausência desse terceiro tempo do circuito pulsional.

Pode-se pensar, além disso, que o terceiro tempo da pulsão também seria fundamental para a ocorrência da própria produção de uma demanda pelo sujeito – sem a qual, por sua vez, não há possibilidade de advento do desejo.

As hipóteses de Laznik (2000) têm consequências importantes quando se pensa na direção do tratamento e das intervenções analíticas na clínica do autismo. Um objetivo relevante em tal clínica seria o de possibilitar à criança a ocorrência desse terceiro tempo do circuito pulsional, de modo que possa aparecer esse "sujeito da pulsão". Um primeiro espaço para a produção de demanda pela criança, assim, se abriria. Alguns recortes clínicos acerca do paciente Gustavo fazem pensar a respeito da importância de um tratamento que leve tais aspectos em consideração.

Desde o início, no grupo, Gustavo chamou particular atenção da estagiária, em parte pelo estranhamento que gerava nela – uma criança que parecia não se dirigir em nenhum momento aos outros, e cuja expressão a maior parte do tempo era impassível e não se alterava. Nos primeiros grupos que acompanhou, havia no máximo momentos nos quais o menino se desorganizava e chorava muito – um choro que foi bem nomeado por outra menina do grupo, Elisa, como "choro de um bebezinho", uma vez que remetia ao choro dos bebês bem novos. Nos primeiros momentos do grupo, esse terceiro tempo do circuito pulsional – esse fazer-se ativamente objeto de gozo do outro – realmente parecia ausente para Gustavo.

Laznik (2000) destaca que o terceiro tempo do circuito pulsional permite que algo relativo ao gozo do Outro barrado entre em jogo para a criança. Esse gozo ao qual a criança é confrontada é de um Outro marcado pela falta, que pode se deixar surpreender e rir; a simbolização da falta abre espaço para que o que é enigmático, o que escapa, tenha vez. Assim, a estupefação e o riso são marca do terceiro tempo do circuito pulsional. Trata-se de uma experiência de prazer compartilhado, na qual há de fato um enlaçamento da criança a esse Outro faltante.

Se no início do trabalho essa experiência parecia não ocorrer para Gustavo, no desenrolar do semestre algumas cenas vivenciadas entre a estagiária e o menino fizeram aparecer esse sujeito que vem à tona no terceiro tempo pulsional. O menino, depois de um tempo no grupo, se mostrou bastante vinculado às letras e aos números. Certo dia, uma das coordenadoras estendeu um grande papel no chão. Primeiro ela, e depois a estagiária, começaram a pintar as letras com Gustavo. Ele estava verbalizando muito nesse dia, falando uma série de balbucios; a estagiária, escutando as letras que ele dizia (especialmente vogais), as repetia para ele e as pintava. O menino, visivelmente eufórico, pôde segurar o pincel em alguns momentos e escrever também. Além disso, foram marcantes momentos em que ele se dirigia a ela, numa busca ativa do seu olhar, emitindo alguns balbucios específicos. Portanto, nessa cena é possível pensar no endereçamento ativo do menino à estagiária, momentos considerados por ela como manifestações de sujeito.

Destaca-se, pelo exposto, a particular posição da estagiária, na medida em que não estava apenas como observadora, mas especialmente intrigada e indagada pela pouca expressividade e demanda da criança. Ela claramente apostava que o garoto pudesse brincar, assim como responder em certa medida ao seu endereçamento, mostrando-se jubilosa quando Gustavo lhe dirigia um simples olhar ou um fugaz sorriso.

Por sua vez, uma nova relação entre Ana e Gustavo foi se configurando nas últimas sessões do semestre, e produziram efeitos terapêuticos evidentes no menino. Ana se mostrou, progressivamente, "apaixonada" por Gustavo, numa série de cenas que foram se desdobrando gradualmente, ao longo de alguns encontros. Dizia às coordenadoras que ele era "muito lindo", dava beijos na sua bochecha e pedia outros de volta, procurava segurar suas mãos, evocá-lo e abraçá-lo. Dizia gostar muito dele, e que achava que o sentimento era recíproco. No penúltimo grupo do semestre, Gustavo se encontrava absorto na manipulação de uma massinha de modelar, não respondendo aos chamados de nenhum adulto. Quando Ana o chamou e o puxou, ele rapidamente ascendeu, com uma expressão no rosto que remetia a prazer.

Esse encantamento evidente de Ana por Gustavo produziu efeitos claros no menino, que não era acometido pela excitação causada pelas ações de Ana de maneira puramente passiva. Pelo contrário: em diversos momentos nessa relação era possível reconhecer uma atitude ativa do menino de "se fazer" objeto de gozo de outro sujeito. O menino estendeu sua bochecha para ser beijado, puxou Ana para dançar, riu eufórico. O advento do terceiro tempo pulsional podia, portanto, ser constatado nessas cenas. Além disso, talvez pela primeira vez de forma clara, Gustavo pôde produzir em algum nível uma demanda, quando puxou Ana indicando que queria dançar com ela.

A menina, enquanto criança, estava na mesma posição em relação à sexualidade que o menino, possibilitando a ocorrência de uma satisfação prazerosa erótica, oriunda do terceiro tempo pulsional, de maneira muito diferente do que a interação do menino com os adultos possibilitaria. Destaca-se que, além de criança, o fato de Ana ser neurótica e, portanto, marcada pela castração, permitiram que a menina assumisse diante de Gustavo esse lugar de Outro barrado que pode se espantar e rir de prazer diante do que lhe é enigmático. Os efeitos da paixão de Ana por Gustavo no menino foram evidentes e repercutiram; na sessão seguinte à que tinha puxado Ana para dançar, ele também puxou, por exemplo, a estagiária e uma das coordenadoras para brincar. Além disso, tivemos notícia, na última reunião de fio do semestre, por parte da analista individual de Gustavo, de que a mãe dele havia se surpreendido recentemente ao ver o menino seguindo uma menina de sua turma da escola, em uma festa infantil, fazendo ela fazer carinho nele – descrição explícita desse terceiro tempo do circuito pulsional operando.

Laznik (2005) destaca que a possibilidade de ocorrência do circuito pulsional completo é condição necessária para que a criança possa estabelecer um primeiro tipo de laço com o Outro e com o outro. Assim, acredita-se que as cenas vividas por Gustavo no grupo, nas quais a experiência de se fazer objeto de gozo diante do Outro barrado aparentemente pôde vigorar, são extremamente relevantes no que diz respeito à continuidade do seu tratamento, abrindo espaço para a ocorrência futura de um trabalho de constituição da imagem corporal do menino. Esse corpo para além do orgânico, pulsional e erógeno, pode assim ter vez para esse paciente.

 

Considerações finais

Neste trabalho, procurou-se articular teoria e prática de modo a discutir, primeiramente, os princípios e efeitos dos grupos de criança do Lugar de Vida, tomando a experiência de um grupo terapêutico em particular, e, num segundo momento, questões relativas ao tratamento específico do autismo, abordando as mudanças que esse grupo pôde proporcionar a um menino que se constituía, então, nessa posição subjetiva.

Fica evidente, a partir das diversas cenas descritas ao longo do relatório, que os grupos terapêuticos de crianças possibilitam efeitos terapêuticos importantes nos casos de neurose, psicose ou autismo. Esses efeitos, produzidos a partir do encontro das crianças, são diferentes dos obtidos no tratamento analítico individual, de modo que não cabe privilegiar a priori uma modalidade de tratamento em relação à outra; as duas propostas cumprem funções distintas, podendo, no caso de algumas crianças, se complementar.

Destaca-se, nas cenas descritas, os efeitos particulares que uma criança pode ter sobre a outra, produzindo giros na posição discursiva em que estão encerradas e possibilitando mudanças nas suas posições subjetivas. A esse respeito, destacamos que o fato de as crianças ocuparem o mesmo lugar na cultura, podendo fazer função de semelhante umas para as outras, é essencial: é justamente por poderem se identificar, ao ocupar a mesma posição discursiva de criança, que o encontro das diferenças entre elas pode operar, de maneira distinta da que a relação com um adulto proporciona.

Ao discutir mais detidamente o caso de Gustavo, destacamos a dimensão do estabelecimento do circuito pulsional completo como ponto-chave para pensar a clínica do autismo, explicitando a hipótese de uma ausência ou falha, nesses casos, justamente do terceiro tempo do circuito, que marca a experiência de prazer compartilhado – fundamental para que haja um laço com o outro. Nesse sentido frisamos como, para esse paciente em particular, o encontro com outra criança, neurótica, faltante e que fazia ali função de semelhante, possibilitou efeitos inéditos. Gustavo aparentemente pôde experimentar essa experiência jubilosa do terceiro tempo do circuito e da relação com o outro, ainda que por alguns momentos apenas, dando notícias então de movimentos incipientes na direção da produção de uma demanda.

Consideramos de fundamental importância esta discussão, que resgata a dimensão pulsional, libidinal, para pensar a clínica do autismo. Conforme destacado na revisão teórica apresentada, o conceito de pulsão é revolucionário ao trazer à tona uma concepção de corpo que rompe com a dicotomia entre mente e organismo. Corpo marcado pelas experiências primordiais de satisfação na relação com o outro humano, articulado, portanto, com a história de cada sujeito, atravessado pela linguagem e tocado pela cultura. Diante do discurso medicalizante que habita os debates atuais acerca da psicopatologia e do sofrimento na infância, que em muitos momentos reduz as questões subjetivas a um diagnóstico ou às questões orgânicas envolvidas, a psicanálise segue nos lembrando de que todo ser humano é ser de cultura, e que há aspectos a serem pensados a respeito do corpo e do modo de cada um estar no mundo para além do que concerne às necessidades biológicas.

 

REFERÊNCIAS

Freud, S. (2004). Pulsões e destinos da pulsão. In S. Freud, Escritos sobre a psicologia inconsciente (L. A. Hanns, trad., Vol. 1, pp. 133-145). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1915)

Haag, G. (1987). Petits groupes analytiques d'enfants autistes et psychotiques avec ou sans troubles organiques. Revue de Psychothérapie Psychanalytique de Groupe, (7-8), 73-86.

Kupfer, M. C., Pinto, F. S. C. N., & Voltolini, R. (2010). O que uma criança pode fazer por outra? Sobre grupos terapêuticos de crianças. In M. C. Kupfer & F. S. C. N. Pinto (Orgs.), Lugar de Vida, vinte anos depois (pp. 97-101). São Paulo, SP: Escuta.

Lacan, J. (1985) O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1964 (V. Ribeiro, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.

Laznik, M. C. (2000). La théorie lacanienne de de la pulsion permettrait de faire avancer la recherche sur l'autisme. La Célibataire: Révue de Psychanalyse, 4, 67-78.

Laznik, M. C. (2005). Rôle fondateur du regard de l'Autre maternel dans la constituition de l'image du corps. Visages: Cahiers de l'Infantile, 4.

Porge, E. (2006). Jacques Lacan, un psychanalyste. Ramonville Saint-Agne, France: Érès.

 

 

Endereço para correspondência
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05469-000 – São Paulo – SP – Brasil.
marina.lavrador@gmail.com

Recebido em agosto/2017.
Aceito em dezembro/2017.

 

 

NOTA

1. Os nomes dos pacientes usados neste artigo são fictícios, de modo a preservar o sigilo.

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