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versão impressa ISSN 1415-8809

Psicol inf. vol.17 no.17 São Paulo dez. 2013

 

Artigo

 

 

Perfil do estudante universitário usuário de tecnologias

 

Profile of the college student user technologies

 

Felipe Costa Silva*; Marília Martins Vizzotto**

*Discente do 5º ano Formação de Psicólogo – Universidade Metodista de São Paulo.
**
Doutora pela Fac. C. Médicas – Universidade Estadual Campinas Unicamp; supervisora de estágios do curso de psicologia e docente de Pós-Graduação stricto sensu (mestrado) em Psicologia da Saúde – Universidade Metodista de São Paulo.

 

 


RESUMO

O presente descreve o perfil do estudante universitário usuário de tecnologias e relaciona o uso de tecnologias e variáveis comportamentais nesses universitários. Estudou-se uma amostra de 99 universitários homens e mulheres, acima de 18 anos dos cursos de Psicologia e Biomedicina de uma universidade privada de São Paulo. Utilizou-se um questionário para o levantamento dos dados. Os resultados mostraram um predomínio do uso de telefone móvel (celular) e computador/internet como as tecnologias mais utilizadas pela amostra; ultrapassou 236 horas mensais em uso. Também foi observado um grande número de respondentes que se privavam de necessidades fisiológicas (dormir, alimentar-se, urinar ou defecar) ou ainda o descuido de tarefas escolares, domésticas ou trabalho para permanecer mais tempo utilizando tecnologia. Contudo sugerem-se futuros estudos para expandir os conhecimentos encontrados nesta pesquisa.

Palavras-chave: estudantes universitários; tecnologia; computador.


ABSTRACT

This study describes the profile of the college student user technologies and the use of related technologies and behavioral variables in these universities. We studied a sample of 99 college men and women above 18 years of Psychology and Biomedical private university of São Paulo. We used a questionnaire to collect data. The results showed a prevalence of the use of mobile phone (cell phone) and computer / internet technologies as used by the sample; exceeded 236 hours monthly in use. We also observed a large number of respondents who deprived physiological needs (sleep, eat, urinate or defecate) or neglect of school work, domestic work or to stay more time using technology. However we suggest future studies to expand the knowledge found in this study.

Keywords: college students; technology; computer.


 

Introdução

Este estudo buscou investigar os níveis de ansiedade, depressão e estresse presentes em estudantes usuários de tecnologia. Justifica-se esta investigação, pois o fenômeno tecnológico trouxe alterações no modus vivendi das pessoas. Também ocasionou, como coloca Nicolaci-Costa (2002) certa parcela de "poder" em nossos hábitos, formas de agir, modo de ser, pensar, perceber, criando a hipótese de que há modificações socioculturais, de relações afetivas, e educacionais. A mesma autora relata que, enquanto profissionais de psicologia, se passarmos a ter uma postura em que desconsidera que o ser humano está sendo modificado pelas transformações que o mundo sofre, corremos o risco de perder a competência de estudá- -lo, descrevê-lo e consequentemente compreendê-lo. Nesse sentido, encontramos já estudos que se propuseram a investigar a saúde de usuários de tecnologias (NICOLACI-DA-COSTA, 2002; MARCOS, 2011); estudos esses que também vieram a destacar a importância do tema e a necessidade de muitas outras investigações para melhor compreensão do fenômeno; principalmente no que se refere às evoluções e às decorrentes modificações comportamentais e sociais que trouxeram as tecnologias.

Tal como apontou Nicolaci-da-Costa (2003, 2005), não precisamos voltar muito ao tempo para compreender as alterações que as evoluções trouxeram, basta recorrermos à época da Revolução Industrial, pois após a descoberta da mecanização industrial, a capacidade produtiva afetou a vida de todos. Entre os principais aspectos que modificaram a vida estão o surgimento de grandes complexos urbanos, novas regras sociais, econômicas e políticas e a necessidade de uma reorganização da carreira profissional e da vida pessoal. Já nos últimos anos, o impacto deixou de ser mecânico e passou a ser digital, trazendo novas alterações, exigindo do ser humano uma nova reorganização.

Essa reorganização veio a afetar todo o mundo, tanto em mudanças de hábitos e costumes, quanto na própria maneira de receber, quanto de dar informações. E isso também implicou uma nova forma de consumo. E, sobre esse aspecto, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2011) relata que, no Brasil, no ano de 2009 para 2011, os bens duráveis com maior crescimento foram o computador com acesso à internet 39,8%, computador 29,7% e telefone celular 26,6%. E, em relação ao último, é interessante relatar que em novembro de 2012, segundo a Agência Nacional de Telecomunicação (ANATEL, 2012) o Brasil atingiu a 260,04 milhões de linhas ativas de telefone celulares; número crescente em relação ao mês de julho de 2012, que atingiu a 256 milhões de linhas ativas.

O mesmo instituto (IBGE, 2011) expõe que 69,1% da população brasileira possui telefone celular para uso pessoal, enquanto que no ano de 2005 (IBGE, 2008) esse número atingia 36,6%, e em 2008 já alcançava 53,8% da população.

Com relação à utilização da internet (IBGE, 2011) em 2011, 77,7 milhões de pessoas usaram a internet entre um período de três meses; um aumento de 14,7% em comparação ao ano de 2009. O grupo de 15 a 17 anos de idade foi o que mais acessou a internet. O Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE, 2012) registrou que 70,9 milhões de pessoas acessaram a rede "internet" em casa ou no local de trabalho; em agosto de 2011, esse registro era de 61,2 milhões. Se considerarmos todos os ambientes, o número de 70,9 milhões passaria para 83,4 milhões de pessoas. O Brasil continua registrando a maior expansão do acesso à internet domiciliar, comparado a outros países.

Ainda com relação à internet no Brasil (IBOPE, 2013), metade das residências metropolitanas tem acesso à internet; como Campinas, com 60%, Belo Horizonte e São Paulo, com 50%. Em poucos anos, a população de internautas brasileiros passou do uso em "lan houses" para o acesso domiciliar, e o percentual em "lan houses", que era de 26%, passou para 13%.

O Interactive Advertising Bureau (IAB, 2012) relata que para cada três brasileiros a média de utilização da internet é de duas horas por dia, em quatro aparelhos distintos, sendo que apenas 25% destes conseguem gastar o mesmo tempo assistindo TV. Desta forma, destaca que a internet é a mídia mais consumida no Brasil.

Assim, é possível entender que o Brasil é um grande utilizador de tecnologia digital, uma vez que tem havido um crescimento bastante significativo no número de usuário.

Com os números sempre crescentes, a tecnologia trouxe certas preocupações quanto ao uso e aos riscos para a saúde.

 

Tecnologia e Saúde

Por essa demanda apontada, alguns pesquisadores procuraram investigar o fenômeno da tecnologia e suas relações com saúde mental. Marcos (2011) avaliou a saúde mental de internautas universitários, numa amostra de 150 universitários; seus resultados mostram que 58% dos universitários têm boas condições de saúde mental, e os outros 42% apresentaram sintomas como transtorno de humor, ansiedade, somatização, irritabilidade e depressão. Concluiu ainda que a internet não se mostrou como um fator de risco para a saúde mental dos usuários, mas uma ferramenta facilitadora de agravamento de transtornos já existentes. Carlotto (2010) apontou para um estado emocional negativo relacionado com o uso de tecnologias, denominado tecnoestresse; e ao analisar a associação entre as dimensões de tecnoestresse e as variáveis demográficas, laborais e psicossociais de trabalhadores e o uso de tecnologias, concluiu um baixo índice de tecnoestresse, mas, um alto índice de fadiga e ansiedade.

Nesse mesmo sentido, Servino (2010) procurou identificar os principais fatores estressores em profissionais da área da Tecnologia da Informação e estratégias de enfrentamento mais utilizadas; seus resultados indicam um nível moderado de estresse, mas a fonte estressora foi identificada como a quantidade de trabalho ou sobrecarga. Em outra perspectiva, Borges (2007) investigou a influência da televisão na prevalência de obesidade infantil e conclui que longos períodos a assistir televisão podem conduzir ao sedentarismo, com consequências negativas fisiológicas e/ou psicológicas. Suruki (2009) estudou o tempo despendido em jogos eletrônicos entre universitários e concluiu que apenas uma pequena parcela (5%) tinha problemas de excesso de tempo, pois eles jogavam quatro horas diárias ou mais, com necessidade de serem interrompidos.

A diversidade de resultados em relação ao uso da tecnologia parece indicar que o equilíbrio e o bom senso no uso das tecnologias disponíveis estão muito mais relacionados a uma condição individual.

Nesse sentido nos chama a atenção o estudo de níveis de estresse, e ansiedade em amostras de estudantes. Os estados emocionais são advindos de uma inter-relação entre as condições internas e pessoais com outras condições ambientais e, notadamente, como o sujeito reage a tais condições. Por isso, ao definir ansiedade, Spilberger (1981) o faz como uma reação frente à situação geradora de tensão, a qual esta reação pode ser influenciada paralelamente aos perigos potenciais reais e às avaliações dadas pelo indivíduo. Quando o indivíduo interpreta uma situação tensa como perigosa ou ameaçadora, vêm sentimentos de tensão, apreensão e preocupação, passando por uma série de alterações no sistema nervoso, alteração emocional e mudanças fisiológicas como: tremores, palpitações e vertigens que costumam ser sintomas de ansiedade. O estado de ansiedade é posterior a uma percepção de ameaça.

Tendo em vista essas preocupações dos diferentes pesquisadores acerca do uso de tecnologias e sua relação com condições de vida e saúde de jovens é que o presente estudo propôs-se a investigar tal tema e com os seguintes objetivos:

Para responder ao instrumento, o participante deverá indicar o grau de importância que cada um dos valores tem como um princípio guia na sua vida, utilizando uma escala de resposta de sete pontos, com os seguintes extremos: 1 – Totalmente não importante e 7 = Extremamente importante. De acordo com as 199 análises fatoriais confirmatórias efetuadas (GOUVEIA; MILFONT; FISCHER; SANTOS, 2008), este instrumento apresenta índices de bondade de ajuste satisfatórios: c²/gl = 2,67, GFI = 0,91, AGFI = 0,89 e RMSEA = 0,05; sua consistência interna (Alfa de Cronbach) média foi de 0,51 para o conjunto das seis subfunções: Existência, Realização, Normativa, Suprapessoal, Experimentação e Interacional. Caracterização Sociodemográfica – Foram elaboradas perguntas que contribuíram para caracterizar os participantes deste estudo (por exemplo, sexo, idade, estado civil, classe social).

Descrever o perfil do estudante universitário usuário de diferentes tecnologias.

Relacionar o uso de tecnologias e variáveis comportamentais nesses universitários.

 

Método

Optou-se, no presente estudo, por um delineamento de corte transversal, cujas características (HULLEY; CUMMINGS; BROWNER; GRAND; HEARST; NEWMAN, 2003) deste tipo de desenho são as medições das variáveis realizadas em um único momento, sem período de acompanhamento, e o pesquisador seleciona uma parte da população. O ponto forte deste estudo transversal, também, é o seu tempo e custo.

Participantes - foram 99 estudantes universitários, sendo 84 = 84,85% do sexo feminino e 15 = 15,15% do sexo masculino, com 20 e 50 anos de idade, de diferentes cursos, dos períodos matutino e noturno. A escolha dos participantes contou com o critério de conveniência (REA; PARKER, 2002) não probabilístico, e cuja amostra é selecionada de acordo com a conveniência presumida pelo pesquisador e disponibilidade de ambas as partes. Destaca-se que neste tipo de método a generalização não é possível e seus benefícios são o tempo hábil, baixo custo, e uma boa quantidade de participantes.

Local - a coleta de dados foi realizada nas dependências de uma universidade privada, localizada na cidade de São Bernardo do Campo, São Paulo. O instrumento foi aplicado nas próprias salas de aula onde esses participantes estudavam.

Instrumentos – Questionário Levantamento de Dados de Uso de Tecnologia - desenvolvido especialmente para o presente estudo, mas baseado no instrumento utilizado por Marcos (2011). Neste buscou-se a caracterização da amostra, os dados demográficos, curso, semestre e período de estudo. Também levantaram dados acerca do uso e tipo de tecnologia, tempo, frequência e ambiente de utilização.

Procedimento – A presente investigação foi iniciada após autorização da instituição, aprovação pelo Comitê de Ética em pesquisa da universidade, anuência dos docentes para a aplicação em sala de aula e, foi aplicado naqueles estudantes que assinaram o TCLE – termo de consentimento livre e esclarecido. Após a coleta de dados, o tratamento estatístico foi feito por intermédio do software Microsoft Office Excel.

Quanto aos Aspectos Éticos Ricos e Benefícios, ressalta-se que a presente investigação oferece riscos mínimos para os participantes. Diz-se mínimos, pois, como já afirmou Spilberger (1981), qualquer situação em que o comportamento de uma pessoa é avaliado por outras pode ser geradora de estresse. Entretanto, sendo um dos autores psicólogo, este se comprometeu em atender e encaminhar os casos que apresentarem com riscos ou que solicitassem esse auxílio. Também foram dadas devolutivas para todos aqueles que se interessaram. Assim, o presente estudo seguiu as normas éticas da resolução 196/96-CNF sobre ética na pesquisa com seres humanos.

 

Resultados e discussão

A seguir, será apresentada uma descrição geral dos dados socioeconômico e cultural, da amostra estudada, estado civil, e seus hábitos e uso de tecnologias.

 

Caracterização da amostra

A tabela 1 indica os dados relativos ao gênero, idade e faixa etária, estado civil, atividade laboral, renda familiar dos universitários. Observa-se uma maioria de participantes do gênero feminino (84,85%), com idade média de 23 anos, e o estado civil predominante foi o de solteiro (88,90%). Com relação às atividades laborais, verifica-se apenas uma pequena parcela de universitários que se dedicam apenas aos estudos e sua formação, pois, somados, 95,9% dos estudantes exerciam atividades como estagiários (35,35%), trabalhos formais (32,30%) ou informais (28,30%). Apenas 78 do total de participantes informaram sobre a renda familiar e, entre esses, a média foi de R$ 6.250,00 (aproximados oito salários mínimos vigentes).

 

 

Essas características da amostra indicam um perfil de estudantes jovens, solteiros, predominantemente feminino, e que trabalham. Com relação ao predomínio feminino, pode-se verificar uma consistência em relação aos indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2008a, 2008b) que registrou, em síntese do ano de 2008, um predomínio de mulheres a ocuparem os bancos escolares universitários e que, em dez anos, subiu de 53,6% para 57,1% o percentual. Com relação à média de renda mensal familiar, a indicação de oito salários mínimos aponta que esses jovens são pertencentes à classe social "B", seguindo critérios Abipeme. Esse aspecto mostra que o perfil econômico desses estudantes não é similar ao de uma grande parcela da população brasileira em ascensão, como revela o levantamento feito pelo Instituto Data Popular (2012) que mostrou que sete em cada dez universitários brasileiros pertencem à nova classe média (ou classe C), ou seja, aqueles com renda familiar média de R$ 2.295,00; o mesmo estudo revelou que 18,3% dos estudantes universitários pertencem à classe B – fatia populacional estudantil onde se encontram os universitários da amostra do presente estudo.

Os jovens universitários amostrados no presente estudo estão acomodados entre os 18,3% dos estudantes universitários brasileiros, porém, é similar aos dados daquele levantamento do Instituto Data Popular (2012) no que se refere ao trabalho, pois o instituto indicou que sete, em cada dez universitários brasileiros, trabalham. Ainda em relação à média etária, é interessante ressaltar que, segundo relatório do Ministério de Planejamento (BRASIL, 2012), embora o Brasil tenha tido avanços no campo da educação superior em anos recentes, pois as matrículas em graduação aumentaram de 3,94 milhões em 2003 para 5,95 milhões em 2009, a proporção de jovens de 18 a 24 anos que frequentavam o ensino superior em todo país ainda era de 14,4% em 2009. Ainda que essa taxa seja sempre maior na região sudeste, verifica-se assim que os estudantes amostrados encontram-se numa faixa etária consideravelmente boa no que concerne às perspectivas de estudo e formação superior.

Com relação aos cursos, a amostra foi predominantemente composta por estudantes de psicologia (45,45 %) e de biomedicina (54,55%) de diferentes semestres e houve predomínio de estudantes do período noturno em 82,80%. Tratando-se de uma amostra por conveniência (REA; PARKER, 2000) não se pode dizer de uma maioria de estudantes desse ou daquele curso, mas apenas considerar que os que responderam aos instrumentos tiveram essa maioria ou minoria amostral.

 

Padrões de uso tecnológico pelos universitários

É possível observar pela tabela 2 as tecnologias mais utilizadas pelos participantes.

Os dados indicam que, independente do curso, os maiores scores estão entre tecnologias como celular, computador e TV, sendo as mais utilizadas.

 

 

Nessa mesma tabela 2, pode-se observar que a soma dos participantes de ambos os cursos aponta a tecnologia celular com maior frequência (94,9%) dos participantes e em seguida o computador com 90,9% e a TV com 56,5%. As demais tecnologias obtiveram uma pontuação abaixo de 12,2%. Tais resultados parecem coincidir com aqueles apontados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2011) de que 69,1% da população brasileira possui telefone celular e o maior percentual é o grupo etário de 25 e 29 anos e que corresponde a 83,1% dos possuidores de telefones móveis. Também coincide com as cifras apontadas pela Anatel (2012) de que o Brasil atingiu 260,04 milhões de linhas ativas de telefone celulares e apenas no Estado de São Paulo atingiu 63 milhões.

 

 

A tabela 3 indica que na categoria (totais de horas semanais) a tecnologia celular é considerada a mais utilizada pelos estudantes, com o total de 59 horas semanais. Estes dados parecem coincidir com aqueles apresentados pelo (IBOPE, 2013) de que 45% dos usuários de celular usam o aparelho antes de dormir e 29% o utilizam assim que acordam. Já os usuários de smartphone (60%) alegam utilizá-lo quando esperam por algo, por exemplo; em congestionamentos, filas e salas de espera, os outros 21% o utilizam durante o trabalho, 14% durante refeições e 18% no banheiro. No mesmo estudo o instituto (IBOPE) relata que o avanço tecnológico do celular trouxe a possibilidade de maior mobilidade, permitindo aos usuários utilizá-lo em diferentes momentos e lugares, aumentando assim o tempo de utilização. Pelos dados apresentados, cria-se a hipótese de que o celular é a tecnologia com maior tempo de utilização também pela facilidade de portabilidade.

Entre os dados, estranhamente, a internet surgiu com número horas mais baixo. Esse aspecto nos leva a crer que pode ter havido "pouca compreensã" dos respondentes ao questionário em face da ordem de respostas propostas; de modo que ao responderem sobre computadores e celulares a internet poderia ter sido já entendida como parte do uso dessas tecnologias. Fato que indica que tal informação deve ser mais bem investigada em estudos futuros.

Devemos atentar para o fato de que temos uma amostra predominantemente feminina, e estudos apontam para o fato de que as mulheres fazem menos uso de tecnologias como a internet, por exemplo, do que os homens. A esse respeito, Simões, Heras e Augusto (2011) indicaram que as mulheres conectam-se à internet com menor frequência, dedicam-lhe menos tempo e, quando a utilizam, o fazem com objetivos diferentes em relação aos dos homens. É particularmente no contexto doméstico, continua a autora, que se evidencia o uso, tanto na quantidade de tempo on-line como na finalidade da navegação. Os interesses femininos na rede estão orientados para a procura de informações para a família (receitas, saúde, etc.) e para a comunicação com as suas redes sociais (mail, chat, etc.), enquanto os homens praticam um uso mais instrumental (questões de trabalho, downloads de programas, leitura de imprensa, etc.). Ramos e Oliveira (2009) ao estudarem a aceitação do ambiente virtual, em mulheres e homens, verificaram que no que se referiu ao perfil de uso da tecnologia, apenas a variável tempo de acesso mostrou-se significativamente diferente com relação ao gênero; porém, homens e mulheres divergem amplamente quanto à concordância com as percepções de utilidade, facilidade de uso e autoeficácia na utilização de ferramentas do ambiente virtual e, além disso, os homens mostraram-se mais propensos a concordar com as variáveis analisadas. Outro estudo (FONTES, 2007) também aponta para o fato de que a tecnologia reflete os valores de uma sociedade "masculina"; e os homens apresentaram maior propensão em adotar produtos e serviços tecnológicos do que as mulheres.

No que diz respeito ao uso e tempo em internet, Nicolaci-da- -Costa (2003, 2005) e Marcos (2011) defenderam a ideia (ou medida) de usuário "pesado" ou "leve". Em um total de 60 horas mensais ou duas horas diárias para um usuário pesado e abaixo disso como leve. Com relação ao celular, o IBOPE (2013) considera que a média do uso do celular é de uma hora diária, e de smathphone 1 hora e 24 minutos e tablet 1 hora e 19 minutos. Ao considerarmos este padrão, os resultados no presente estudo, é possível notar que todos os grupos de usuários podem ser considerados usuários pesados para internet e além da média para demais tecnologias. Contudo, não existe ainda um consenso sobre o que pode ser usuário pesado ou leve para outras tecnologias.

Para melhor visualização, foram expostos na Tabela 4 dados sobre locais, motivos e a frequência que os usuários estão habituados a utilizar as diversas tecnologias.

 

 

Os dados apresentados na tabela 4 indicam que os usuários de celular referem-se a 91 respondentes = 92,8% da amostra. Entre esses, 56 = 56,5% usam esta tecnologia em todos os locais. Este dado parece coincidir com dados apresentados, anteriormente (IBOPE, 2013), de que uma maioria de usuários de celular o utiliza em diversos lugares, como em banheiros, no trânsito, por exemplo. Também os usuários de tablet e o mp3, apontaram a variável "todos" na categoria local, no qual este dado parece coincidir com a hipótese da relação entre a portabilidade e horas de utilização. Já o computador e a TV tiveram sua demanda no uso residencial, no qual estes dados parecem coincidir com os dados do IBOPE (2011) o qual aponta que em residências brasileiras os bens duráveis com maior crescimento foi o computador. Já a TV, segundo o mesmo instituto, em quase todos os domicílios já levantados há ao menos um aparelho de televisão.

No segundo aspecto, o que diz respeito aos motivos pelo qual as tecnologias são utilizadas, a maior concentração esteve no item TV (52 usuários = 52,5%) a qual é utilizada como lazer/entretenimento. Esse dado também coincide com aqueles apresentados pelo Instituto Pró-Livro (IPL, 2012) no qual assistir TV é o lazer preferido de 85% dos brasileiros, somado ao fato de que o índice de brasileiros que preferem ler no seu tempo livre caiu de 36% entre 2007 para 28% em 2011.

É interessante também observar que o celular e o computador são usados para lazer, estudo e trabalho, ou seja, são ferramentas consideradas mais completas e que servem para múltiplas formas de utilização.

No terceiro aspecto no que diz respeito à frequência, o celular é assinalado por 72 usuários = 72,7%. Quanto ao computador, o mesmo aparece em segundo lugar, e estranhamente as horas de uso não são as mais indicadas (conforme tabela 3). Entretanto, acreditamos que esta também foi uma falha do instrumento em sua ordem de perguntas; nossa melhor hipótese é que os usuários se referiram ao computador, tablet e internet tendo a mesma natureza de uso.

 

 

A tabela 5 indica que 57,5% dos participantes não se descuidam de tarefas para passar a maior parte do tempo a utilizar tecnologias; porém, 42,5%, ou seja, um número alto de pessoas afirmou se descuidar. Com a mesma questão, Marcos (2011) verificou que, entre 85 internautas, 29% tinham o hábito de descuidar de tarefas para permanecer mais tempo conectados à internet. Na segunda questão, embora 60,5% dos usuários tenham apontado que não se privavam de suas necessidades fisiológicas para despenderem mais tempo com alguma tecnologia, também o número foi elevado daqueles que se privavam de necessidades para continuar no uso da tecnologia. Já na terceira questão, 67,5% preferiam passar a maior parte do tempo em um convívio social do que utilizando alguma tecnologia, porém 32,5% apontaram para o contrário. Esses números foram altos em comparação com o estudo de Marcos (2011) que constatou 7% de internautas que preferiram utilizar a internet que estar em um convívio social. No quarto e último aspecto, 73% apontaram que seus familiares e amigos não se queixam sobre a quantidade de tempo de utilização de alguma tecnologia, e 26% disseram que eles reclamam, já na pesquisa de Marcos (2011) o último corresponde a 20%. Também esses achados foram bem mais altos em tempo usado com tecnologia do que os encontrados por Suruki (2009), que verificou apenas uma pequena parcela com problemas de excesso de tempo.

Os dados gerais indicam que 35% dos participantes se prejudicavam pela utilização da tecnologia. Tais dados parecem corroborar com as colocações de Nicolaci-Costa (2002), ao se referir que a tecnologia traz mudança em nosso modo de ser, pensar, perceber; de maneira que se pode pensar em consequentes modificações socioculturais, educacionais, bem como nas relações afetivas.

 

Conclusão

O presente estudo possibilitou verificar as tecnologias mais utilizadas por uma amostra de universitários. E, entre as tecnologias mais usadas foi possível constatar o celular, computador/internet, como as mais utilizadas pela amostra.

Quando se tomou por base a definição "usuário pesado", observou- se que os usuários ultrapassaram o valor de 60 horas mensais, chegando a 236 horas mensais no caso os usuários de celular.

O preocupante foi a verificação do grande número de respondentes que se privavam de necessidades fisiológicas (dormir, alimentar-se, urinar ou defecar) ou ainda o descuido de tarefas escolares, domésticas ou trabalho para permanecer mais tempo empregando tecnologia.

O tipo de investigação realizado não permite generalizações, uma vez que traz os resultados de uma pequena amostra; dessa forma sugerem-se outros trabalhos futuros, pois o tema do uso de tecnologias sugere modificações tanto no modus vivendi das pessoas, quanto em possíveis modelos de aprendizagem, na época contemporânea.

 

Referências

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Recebido em: 10/07/2013
Aceito em: 02/11/2013

 

 

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