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versão impressa ISSN 1415-8809

Psicol inf. vol.17 no.17 São Paulo dez. 2013

 

Artigo

 

 

Avaliação psicológica e da personalidade e o estudo normativo do rorschach para o uso em crianças brasileiras

 

Psychological assessment and personality and study of regulatory Rorschach for use in Brazilian children

 

Carla Luciano Codani Hisatugo*; Eda Marconi Custódio**

*Pós-doutoranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo. Doutora em ciências pelo Departamento de Pós- -graduação em Psiquiatria e saúde mental da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina. Coordenadora do Curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo.
**
Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo. Supervisora da primeira autora em sua pesquisa de Pós-doutorado pela Universidade de São Paulo. Professora Titular da Graduação e da Pós- Graduação do Curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo.

 

 


RESUMO

A avaliação psicológica e da personalidade abrange uma complexidade de fatores associados a limitações e abrangências para esta atuação. Por meio do uso do Rorschach, pode-se analisar importantes aspectos da personalidade bem como tendências de comportamento, fatores associados a quadros psicopatológicos e tolerância e capacidade para lidar com o estresse – para mencionar alguns exemplos. Esta pesquisa apresenta algumas discussões resultantes de dados preliminares de estudos normativos com o Rorschach pelo R-PAS (Rorschach Performance Assessment System) em crianças, considerando importantes repercussões do uso deste sistema à nossa população.

Palavras-chave: Rorschach; Testes; Avaliação.


ABSTRACT

The psychological assessment and personality assessment encompasses a complexity of factors associated with limitations and range for this professional activity. By using of the Rorschach one can analyze important aspects of personality and behavior trends, factors associated with psychopathological and tolerance and ability to cope with stress situations – to mention a few examples. This research presents some prelim discussions resulting from normative studies of the R-PAS (Rorschach Performance Assessment System) with children, given relevant repercussions of using this system to our population.

Keywords: Rorschach; Testing; Assessment.


 

A avaliação psicológica abrange uma importante contribuição à atuação clínica, organizacional, psicoeducacional, jurídica e comunitária do psicólogo. Neste contexto, o psicólogo que realiza a avaliação psicológica pode auxiliar em diversas áreas de atuação dado o seu conhecimento sobre importantes aspectos psicopatológicos; o sofrimento psíquico e os dados de personalidade das pessoas. Cabe ao profissional do Campo da Psicologia ter critérios e parâmetros adequados ao uso de uma série de instrumentos de avaliação, bem como de manejos abrangentes à compreensão da complexidade humana em suas vertentes subjetivas e coletivas. Isto indica que, independente da área de atuação do psicólogo, ele deverá dispor de instrumentos e procedimentos adequados ao contexto de avaliação proposto. Deste modo, devem ser consideradas as demandas do ambiente, aspectos culturais, socioeconômicos, educacionais, políticos e situacionais.

Além disso, a avaliação psicológica requer a consideração acerca da faixa etária da pessoa, do seu histórico de doenças, de eventos ocorridos em sua vida e dados atuais de sua atuação relacional e laboral, quando existentes. As diferentes fases de desenvolvimento humano são constituídas por importantes aspectos peculiares, envolvendo dados neuropsicológicos, biológicos, sociais, educacionais, sexuais, entre outros fatores. E, todos estes aspectos são contemplados mediante a avaliação psicológica de uma pessoa é compreendida por teorias psicológicas, filosóficas ou sociológicas diversificadas, nas quais o ser humano é interpretado em suas emoções e sentimentos, desejos, comportamentos, perspectivas, expectativas e temores. Uma das maneiras que o Campo da Psicologia encontra para avaliar a personalidade de uma pessoa é dada pelo uso de um importante instrumento de avaliação, chamado Rorschach. O Rorschach é derivado de estudos de Hermam Rorschach que datam de 1921, dos quais muitos outros autores utilizaram como parâmetro para atribuir impressões e interpretações psicanalíticas, humanistas, comportamentais e behavioristas, além de considerarem a análise de aspectos psicopatológicos contribuindo aos estudos médicos psiquiátricos. Cada intepretação derivada da obra inicial de H. Rorschach foi chamada de Sistema de Rorschach.

No Brasil, estudos de padronização com utilização do Rorschach têm sido realizados desde os anos 1950 e o interesse por esta área tem crescido desde então (RASPANTINI; FERNANDES; PASIAN, 2011, RIBEIRO; SEMER; YAZIGI, 2012; PASIAN; LOUREIRO, 2010). Atualmente, no Brasil, existem quatro Sistemas de Rorschach em uso, considerados adaptados e padronizados para a utilização na população brasileira. Os Sistemas Utilizados são os seguintes: 1) Sistema Compreensivo; 2) Sistema Klopfer; 3) Sistema da Escola Francesa de Psicanálise e 4) Sistema de Anibal Silveira.

O Sistema Compreensivo de Exner é derivado de estudos com cinco Sistemas Utilizados nos Estados norte-americanos durante as décadas de 60 a 80, dentre eles o Sistema de Klopfer. O principal aspecto relacionado com este sistema é o estudo intensificado de aspectos psicométricos do instrumento.

Em fase de estudos normativos e psicométricos para a nossa população, apresenta-se atualmente, em âmbito mundial, a proposta mais recente de interpretação de dados da personalidade humana por meio do Rorschach, com a criação do Sistema denominado R- -PAS, Rorchach Performance Assessment System. Em português, Sistema de avaliação de desempenho no Rorschach.

O R-PAS foi desenvolvido para melhorar as bases empíricas da avaliação da personalidade, tendo como referência principal o Sistema de Exner (MEYER; VIGLIONE; MIHURA; ERARD; ERDBERG, 2011).

Com a utilização de padrões internacionais, a proposta dos criadores do R-PAS envolve a padronização regional de normas de uso e também a aplicação de normas comuns a todo o contexto mundial, considerando diferentes culturas, etnias e idiomas (MEYER; ERDBERG; SHAFFER; 2007). Dentro deste contexto, um dos estudos atuais envolvendo o estudo das normas para o uso na população brasileira infantil do sistema R-PAS é apresentado. Dados preliminares deste estudo, em andamento, permitem algumas importantes considerações sobre o uso deste Sistema no Brasil e no mundo. Cabe informar que estes dados também estão sendo utilizados por pesquisadores norte-americanos, criadores do R-PAS para comparação mundial de amostras infantis.

 

Método

Participantes

Participaram deste estudo 120 crianças, sendo 72 meninas e 48 meninos, com idades entre 7 anos e 10 anos, sem sinais de psicopatologias e com desenvolvimento e funcionamento cognitivo considerado normal, provenientes de 11 escolas públicas.

Instrumentos

a) Entrevista de avaliação de dados psicopatológicos e sociais de crianças – Child Behavior Checklist; CBCL – (ACHENBACH, 1991; SILVARES; SANTOS; MEYER, GERENCER, 2006) foi aplicada nos pais ou responsáveis pelos participantes. Este instrumento foi utilizado para identificar sinais de psicopatologia e considerar inclusão na amostragem. As crianças que apresentaram sintomatologias psicopatológicas em qualquer momento da pesquisa foram encaminhadas para atendimento psiquiátrico e psicológico gratuitos.

b) O teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (ANGELINI; ALVES; CUSTODIO; DUARTE; DUARTE, 1999) é constituído por um livro contendo uma série de imagens de desenhos diversos, com uma parte em branco, havendo em seguida a indicação de pedaços de imagens que podem preencher estes desenhos. Cabe ao avaliando usar o pensamento lógico para indicar a resposta considerada mais adequada em cada desenho. Este instrumento foi utilizado para a identificação de déficits cognitivos.

O Rorschach pelo Sistema R-PAS é um instrumento de avaliação da personalidade constituído por dez pranchas contendo manchas de tinta, das quais servem de estímulo para a atribuição de respostas sobre com o que estas manchas se parecem. Este instrumento permite a avaliação de aspectos subjetivos, perceptivos, projetivos e comportamentais do avaliando, sendo possível interpretar diferentes aspectos de sua personalidade distribuídos em eixos de interpretação, a saber: 1) Envolvimento e Processamento Cognitivo, 2) Percepção e Pensamento; 3) Stress e Distress; 4) Representação de Si Mesmo e do Outro. Este Sistema de Rorschach não apresenta uma linha teórica restrita, tendo como base estudos de linhas diversas da personalidade.

Procedimento

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética na Universidade, e portanto, seguiu-se as diretrizes do CNS e das leis 196/96 e 466/12. Os responsáveis pelas crianças foram informados e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE. As crianças foram avaliadas nas escolas, em ambiente adequado que assegurasse a privacidade e sigilo na avaliação, e de acordo com o procedimento padrão para o R-PAS. A aplicação do Rorschach pelo R-PAS é diferenciada ao apresentar desde o início uma proposta de controle do número de respostas dadas pelo avaliando. Nos outros sistemas isto não ocorre de modo tão explícito e enfático. Este procedimento permite ter um número de respostas adequado do ponto de vista estatístico para a análise dos eixos de interpretação contendo uma série de variáveis. O argumento utilizado é que por meio desta aplicação pode-se obter uma média de 20 a 30 respostas por protocolo, evitando protocolos com poucas respostas ou com excesso de respostas. No caso de existirem poucas respostas em um protocolo, a interpretação de dados pode ficar prejudicada frente à ausência de informações que tenham sido ocultadas. Nos protocolos com excesso de respostas há uma repetição dos mesmos dados de modo desnecessário, com o risco de patologização de casos não patológicos. Para a aplicação infantil, foi utilizado o método similar à aplicação do adulto.

 

Resultados e discussão

A estatística descritiva foi utilizada para indicar as médias de variáveis pertencentes aos eixos de interpretação do R-PAS. Dois aspectos importantes são aqui destacados: o percentual de número de respostas (R) e o percentual de respostas com qualidade formal distorcidas (FQ-%). O primeiro, R, indica dados do desempenho e da capacidade de realizar uma atividade proposta. A variável FQ-% apresenta dados relativos ao percentual patológico de distorção da percepção da realidade, sendo este um critério de avaliação de transtornos mentais psiquiátricos voltados aos quadros de esquizofrenia.

Uma das primeiras questões envolvendo a aplicação infantil foi a dúvida quanto a reação dos participantes perante a proposta de existir um número mínimo e máximo de respostas em cada cartão. Os resultados indicaram que as crianças não apresentaram dificuldades em lidar com a tarefa, atendo-se ao número de respostas de modo natural e sem queixas a respeito deste procedimento. A média de respostas obtida no grupo foi de 24 com desvio padrão de 4.4, o que indica um percentual maior de respostas perante estudos normativos com outros sistemas para a população brasileira infantil (RASPANTINI; FERNANDES; PASIAN, 2011; RIBEIRO, SEMER; YAZIGI, 2012; PASIAN; LOUREIRO, 2010).

O grupo de crianças apresentou um menor número de respostas de qualidade formal distorcida (FQ%-), havendo uma média de 23,6% com desvio padrão de 10,8. Este dado corrobora com estudos sobre o R-PAS com diferentes amostras, indicando que, em relação ao Sistema Compreensivo, o R-PAS indica um percentual menor de respostas distorcidas (MIHURA; MEYER; DUMITRASCU; BOMBEL, 2012; MEYER; VIGLIONE; MIHURA; ERARD; ERDBERG, 2011). Este dado sugere que o Sistema do R-PAS permite diminuir o risco de patologização do avaliando no sentido em que apresenta mais critério para indicar a distorção da percepção da realidade, evitando generalização excessiva dos sintomas psicopatológicos.

Deste modo, os dados preliminares indicam importantes dados qualitativos no que tange à adesão ao procedimento de aplicação do R-PAS pelas crianças. Além disso, os dados quantitativos referentes ao número de respostas e de qualidade formal distorcida indicam relevantes resultados sobre o desempenho infantil e o grau de distorção da percepção. Esses dados estariam mais adequados aos aspectos da amostra, ou seja, condizem com as características das crianças indicando adequação do Sistema para o uso nesta população.

 

Referências

ACHENBACH, T. M. Manual for the Child Behavior Checklist/ 4 – 18 and 1991 profile. Burlington: University of Vermont, Department of Psychiatry, 1991.

ANGELINI, A. L., ALVES, I. C. B., CUSTÓDIO, E. M., DUARTE, W. F. & DUARTE, J. L. M. Manual das matrizes progressivas coloridas de Raven: Escala especial [Handbook of Raven's Color Progressive Matrices: Special Scale]. São Paulo, Brasil: Centro Editor de Testes e Pesquisas em Psicologia, 1999.

EXNER, J. E. A Rorschach Workbook for the Comprehensive System. 5 ed Ed. Rorschach Workshops: Asheville, N.C, 2004.

MEYER, G. J.; ERDBERG, P; SHAFFER, T. W. Towards international normative reference data for the Comprehensive System. Journal of Personality Assessment, v. 89, p. 201- 216, 2007.

MEYER, G. J.; VIGLIONE, D. J.; MIHURA, J. L.; ERARD, R. E.; ERDBERG, P. Rorschach Performance Assessment System: Administration, Coding, Interpretation, and Technical Manual. Toledo, OH: Rorschach Performance Assessment System, 2011.

MIHURA, J. L.; MEYER, G. J.; DUMITRASCU, N.; BOMBEL, G. The Validity of Individual Rorschach Variables: Systematic Reviews and Meta- Analyses of the Comprehensive System. Psychological Bulletin. v 139, n.3, p.548-605, mai, 2012.

National Committee for Research Ethics – Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, CONEP. Retrieved March 12, 2013, from: http://conselho.saude.gov.br/web_comissoes/conep/index.htm.

PASIAN, S. R. ; LOUREIRO, S. R. Reflexões sobre princípios e padrões normativos do Rorschach. In:. PASIAN, S. R (Org.). Avanços do Rorschach no Brasil. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.p. 31-54.

RASPANTINI, R. L.; FERNANDES, S.; PASIAN, S. R. The Rorschach in Brazilian children: Normative data from a 9- to 11-year-old nonpatient sample. Rorschachiana, v.32, n. 2,199-222., 2011.

RIBEIRO, R. K. S. M.; SEMER, N. L.; YAZIGI, L. Rorschach comprehensive system data from a sample of 211 nonpatient children in Brazil. Journal of Personality Assessment, v.94, n.3, p. 267-275, 2012.

SILVARES, E. F. M.; MEYER, S. B.; SANTOS, E. O. L.; GERENCER, T. T. Um estudo em cinco clínicas escolas brasileiras com a Lista de Verificação Comportamental para Crianças [CBCL]. In: SILVARES, E. F. M. (Org.). Atendimento psicológico em clínicas escola. Campinas, SP: Editora Alíneas, 2006, p. 59-72.

 

 

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Telefone: (11) 4366-5000
Email: carla.hisatugo@metodista.br

 

Recebido em: 15/08/2013
Aceito em: 13/10/2013

 

 

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