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Revista da SBPH

versão impressa ISSN 1516-0858

Rev. SBPH vol.21 no.2 Rio de Janeiro jul./dez. 2018

 

ARTIGOS

 

Acompanhamento psicoterápico no contexto da hospitalização pediátrica: percepção das mães

 

Psychotherapeutic follow-up in the context of pediatric hospitalization: mothers' perception

 

 

Renata de Sá Teixeira1; Tatiana Prade Hemesath2

Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Porto Alegre/RS

 

 


RESUMO

A doença e a hospitalização infantil acarretam um impacto emocional para familiares e, principalmente, para mães que usualmente são as principais acompanhantes durante a hospitalização. O objetivo do estudo foi avaliar a percepção de mães de crianças, internadas em centro terciário de saúde, sobre o acompanhamento psicoterápico que receberam nesta fase. Uma entrevista foi utilizada para a coleta dos dados e a análise de conteúdo foi realizada para a categorização dos resultados. Estes evidenciaram que o tratamento psicoterápico possibilita que as mães se apropriem das limitações impostas pelo diagnóstico e prognóstico da criança, facilitando a reorganização de mecanismos defensivos frente às demandas hospitalares. As participantes também perceberam que a psicoterapia auxiliou no reconhecimento do sofrimento decorrente da experiência, oportunizando o aprimoramento de recursos psíquicos adequados para lidar com a mesma.

Palavras-chave: psicoterapia; hospitalização; pediatria.


ABSTRACT

Childhood disease and hospitalization has a huge emotional impact on family members, especially on mothers who usually play the role of caregivers during admission. The present study aimed to evaluate how mothers of children, admitted to a tertiary hospital perceive the psychotherapeutic follow-up provided in this context. An interview was used for data collection and content analysis was performed to categorize the results. It showed that psychotherapeutic treatment allows the mothers to understand the limitations imposed by the child’s diagnosis and prognosis, facilitating the reorganization of defensive mechanisms against hospital demands. The participants also realized that psychotherapy helped in the recognition of suffering resulting from the experience, allowing the improvement of adequate psychic resources to deal with it.

Keywords: psychotherapy; hospitalization; pediatric.


 

 

Introdução

A doença e a hospitalização de uma criança acarretam enorme impacto emocional, tanto para o paciente como para a sua família, podendo desencadear sofrimento psíquico, principalmente no familiar que se envolve diretamente no acompanhamento da criança no contexto da internação. Este processo envolve necessidade de profunda adaptação, pois a separação do convívio familiar e os procedimentos terapêuticos agridem, física e emocionalmente, além de serem visto como desestruturantes psíquicos. Percebe-se que o sofrimento se torna mais ou menos intenso dependendo do significado atribuído à doença, à gravidade da doença, à experiência de internação e o que esta provoca diariamente. A vivência desse sofrimento psíquico pode desencadear o surgimento de transtornos emocionais, além de tornar o acompanhamento do filho uma tarefa penosa, sobretudo quando não há a utilização de recursos internos prévios capazes de dar conta da situação geradora de angústia. Em situações em que não é possível a expressão do sofrimento, pode haver desorganização psíquica grave, o que impediria a funcionalidade adequada da mãe frente ao acompanhamento da criança (Costa, Mombelli & Marcon, 2009).

Segundo Silva, Sampaio, Ferreira, Ximenes Neto e Pinheiro (2010) quando a mãe compreende sua importância no processo de cuidar de seu filho hospitalizado, sua permanência fortalece o vínculo e propicia segurança e apoio à criança. Durante a internação, podem surgir diversas formas de sentimentos, que vão desde o empoderamento da total responsabilidade pelo filho até a culpa da impossibilidade de fazer algo mais para ampará-lo neste momento (Toledo, Graça, Cortizo, Barbosa & Henrique, 2012). Nessa perspectiva, a capacidade da mãe em lidar com este evento dependerá de suas percepções sobre a situação e de sua disponibilidade emocional para lidar com as dificuldades que surgem durante a internação (Silva et al., 2010).

Diversas pesquisas vêm sendo realizadas e salientam a importância da psicoterapia psicanalítica (Axmacher, Kessler & Waldhauser, 2014; Campezzato, Nunes & Silva, 2014; Cassel et al., 2015; Costa & Melnik, 2016; de Greck et al., 2013) como um meio de apoio para pacientes com diferentes demandas, que necessitam obter melhora de seu funcionamento psíquico. A utilização da técnica da Psicoterapia Breve Dinâmica, que pressupõe um tempo específico de acompanhamento, tem demonstrado bons resultados na capacidade para lidar com situações de crise (Cortiñas, 2013; Honda & Yoshida, 2013; Younes, Lessa, Yamamoto, Coniaric & Ditzz, 2010).

Além disso, as pesquisas de Cucco (2006) e Silva et al. (2010) reforçam que o acompanhamento das mães à internação de seus filhos desencadeia sofrimento físico e emocional, devido às angústias e dificuldades que são mobilizadas durante este processo. Percebe-se que essas mães necessitam de um espaço para lidar com a angústia e o sofrimento psíquico. De Fraga, Linhares, Carvalho, & Martinez (2008) realizaram um estudo sugerindo que o apoio psicológico realizado com as mães de bebês durante a internação foi evidenciado como fator de proteção aos efeitos negativos da hospitalização. Muitos estudos têm se ocupado a investigar eficácia e/ou efetividade da psicoterapia psicanalítica em pacientes com diferentes tipos de sofrimento psíquico ou sintomas. Porém, ainda são escassas pesquisas sobre o processo psicoterapêutico no Brasil (Serralta, Nunes & Eizirik, 2007). Faz-se necessário que sejam realizados estudos sobre as consequências desta forma de acompanhamento e suas implicações (Campezzato et al., 2014).

Diante da percepção deste sofrimento psíquico subjetivo, torna-se fundamental, para os profissionais que assistem a estas mães, compreender a importância do espaço de psicoterapia e como este atendimento repercute no processo singular de cada uma delas. Assim, o presente estudo teve como objetivo avaliar como as mães perceberam o acompanhamento psicoterápico que receberam na unidade de internação pediátrica, os fatores que desencadeiam a avaliação psicológica, os aspectos trabalhados durante o atendimento psicoterápico e a sua importância para a mãe que está vivenciando a hospitalização de seu filho.

 

Método

Delineamento

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, exploratório, retrospectivo, apresentado no formato de casos múltiplos, sendo cada um deles uma unidade de análise. O estudo do tipo qualitativo valoriza a subjetividade e singularidade que cada caso possui (Yin, 2005).

Participantes e características da amostra

A amostra deste artigo foi selecionada por conveniência e constituída por seis mães participantes que estavam acompanhando seus filhos na Unidade de Internação Pediátrica de um hospital terciário de Porto Alegre. As participantes tinham de 21 a 38 anos. Cinco dos pacientes que estavam hospitalizados tinham menos de dois anos e apenas um estava na etapa escolar. Estes pacientes estiveram hospitalizados em média 165 dias (61-280) e durante este período suas mães foram acompanhadas sistematicamente por psicólogas contratadas da instituição, psicólogas residentes ou estagiárias de psicologia, recebendo em média um total de 21 atendimentos cada uma.

Uma das participantes realizou psicoterapia com a psicóloga responsável pela unidade de internação pediátrica. Três participantes realizaram psicoterapia com psicólogas residentes, uma participante realizou psicoterapia com a estagiária do serviço de psicologia, todas estas supervisionadas uma vez por semana pela psicóloga contratada descrita acima. Uma das participantes realizou psicoterapia com outra psicóloga contratada do hospital que também atua nesta unidade hospitalar.

Ao longo da apresentação dos resultados, as participantes serão identificadas pela letra M, seguida do número do caso em questão, buscando exemplificar o conteúdo trazido por cada uma delas.

Instrumentos

Inicialmente, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi explicado e assinado pela participante da pesquisa. Para a coleta de dados, foi utilizada uma entrevista com um roteiro previamente elaborado, de aspecto qualitativo, baseado na experiência clínica da psicóloga responsável pelo serviço de psicologia na internação pediátrica. A entrevista continha perguntas abertas que permitiam maior aprofundamento durante sua realização, abordando diversos temas, como: recebimento de atendimento psicológico anteriormente; motivo que deu início ao atendimento atual; avaliação do acompanhamento psicoterápico; percepção de como estava antes do atendimento; percepção de alguma diferença no modo de ver e enfrentar as coisas após o atendimento; principais temas trabalhados durante a psicoterapia; questionamento acerca do efeito do atendimento psicológico durante o processo de hospitalização; possíveis modificações advindas do acompanhamento; sentimento após os atendimentos realizados.

Procedimentos

Coleta de Informações

As mães que estavam recebendo acompanhamento psicoterápico durante a hospitalização de seus filhos foram convidadas a participar da pesquisa, após o aceite foram aplicados o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e a entrevista. Todas as entrevistas foram aplicadas pela mesma pesquisadora e foram realizadas na sala da psicologia, que está situada no mesmo andar que a internação pediátrica do hospital, visando não afastar as participantes de seus filhos por um longo período.

Análise das Informações

O projeto de pesquisa foi aprovado na Plataforma Brasil sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE): 52995016.6.0000.5327. As entrevistas realizadas foram gravadas e posteriormente transcritas literalmente pelo pesquisador e examinadas a partir da análise de conteúdo conforme Bardin (1977). Após a transcrição, as entrevistas foram apagadas. A partir da transcrição integral do material gravado das entrevistas, foi realizada a análise de conteúdo com o objetivo de criar categorias oriundas do corpus de análise, que receberam denominação conforme a temática. A análise de conteúdo das entrevistas gerou três grandes temas que foram divididos em doze categorias temáticas, que receberam denominações com objetivo de agrupar eventuais semelhanças e peculiaridades nas respostas encontradas. Três grandes temas foram gerados, a saber: Aspectos prévios à psicoterapia, Percepções sobre a psicoterapia, Resultado da psicoterapia. Cada um destes temas engloba categorias específicas, que serão apresentadas utilizando as falas das participantes para exemplificar o seu conteúdo. Por fim, os resultados são discutidos a partir da literatura encontrada.

 

Resultados e Discussão

A seguir, cada grande tema será apresentado, com suas respectivas categorias discutidas e ilustradas com vinhetas. Nestas, as participantes serão identificadas com um número, por exemplo, (M1), e o nome próprios serão substituídos pelo seu substantivo entre parênteses. Quando se tratar do nome do filho nas verbalizações das mães, este será definido por F e o número da respectiva participante, por exemplo, (F1M). Por fim, os resultados serão discutidos a partir da literatura existente sobre este assunto.

Tema 1: Aspectos prévios à psicoterapia

Nas entrevistas realizadas, aspectos emocionais prévios ao início do tratamento psicoterápico foram trazidos pelas participantes. Este tema foi dividido em três categorias: Relação mãe/criança, Impacto emocional diante da hospitalização e Reações emocionais prévias à psicoterapia. A seguir as categorias de cada tema serão apresentadas separadamente.

Relação Mãe/Criança

Esta categoria temática se refere a todos os aspectos que envolvem a relação descrita entre mãe e filho. Diante da hospitalização, a criança se apresenta dependente do auxílio e envolvimento afetivo de sua mãe, que está como acompanhante durante a hospitalização. Nesse sentido, as participantes identificam uma modificação na relação com a criança, que passa a ser permeada pela situação de sofrimento da díade. Sentimentos de identificação entre ambas, em muitos momentos, trazem impacto na capacidade materna de proporcionar a continência emocional que a criança necessita. Este aspecto fica evidenciado na fala de algumas participantes (M1, M2 e M6): "...tenho momentos de altos e baixos. Normalmente quando o (FM2) não tá muito bem, eu caio também." (M2). "Eu conto com a ajuda dos profissionais, mas eu quero estar presente e dar todo amor e carinho que eu puder para ele." (M6).

Eu ficava muito mal com tudo que acontecia algo com ele, não aguentava ver ele passando mal... ficava muito preocupada com tudo dele. Várias vezes eu nem conseguia mais aguentar ficar aqui no hospital, dava vontade de fugir. Largar tudo e sair correndo, fugir mesmo. Eu não aguentava mais ficar aqui vendo ele ficar mal. Às vezes eu ia pra casa e deixava ele aqui porque eu não conseguia ficar aqui e ver, sabe? (M5).

M1 e M6 salientam questões de aprendizado e resiliência em relação à função materna no ambiente hospitalar. Descrevem o processo de aceitação das limitações e dificuldades que vão sendo elaboradas durante a hospitalização, favorecendo o vínculo mãe-criança: "e agora eu consegui aprender muito com tudo que aconteceu comigo, ela me ensinou muito.... não consigo me imaginar sem ela." (M1). "Aos poucos o medo da perda vai diminuindo e eu fui entendendo que cada dia com ele é importante, além de poder conhecer todas as limitações da doença dele." (M6).

Impacto emocional diante da hospitalização

Nesta categoria as participantes trouxeram o sofrimento diante da mudança abrupta trazida pela necessidade de hospitalização dos filhos. M1 e M2 salientaram o afastamento inicial da criança, como uma forma defensiva de lidar com o temor pela perda do filho, e a necessidade de encontrar um sentido para as limitações encontradas nos mesmos. Estes aspectos ficam evidentes diante das falas da mãe: "Aí quando ela nasceu eu nem pude pegar ela no colo, ela não ficou comigo. Eu ficava numa enfermaria com as outras mães, então era difícil né." (M1).

A mudança em vários aspectos da vida e o longo tempo de permanência no hospital foram trazidos como aspectos geradores de ansiedade e preocupação, sendo ilustrados através das colocações: "...eu tô há 6 meses vivendo neste ambiente de hospital, ele nunca foi para casa, é uma coisa absurda" (M2). "O mundo parecia que ia acabar, não achavam o diagnóstico e eu nem conseguia escutar o que eles tinham para me falar sobre o prognóstico" (M6).

Reações emocionais prévias à psicoterapia

Nesta categoria estão envolvidas as reações emocionais descritas pelas mães no momento anterior ao início da psicoterapia. Estes aspectos foram trazidos por quatro participantes que salientaram o sentimento inicial de desamparo e o humor ansioso como manifestações principais diante do adoecimento e internação da criança. As colocações das participantes (M1, M2, M5 e M6) ilustram estes aspectos: "Ah, eu me sentia muito triste. Desamparada... ficava sofrendo muito com tudo que estava acontecendo." (M1).

Estava mais nervosa, irritada, muito estressada, nível de estresse muito alto que estava prejudicando todos aspectos da minha vida, todos. Ele estava muito pior, esteve muito pior, então quando começou os atendimentos ele estava numa fase muito ruim. E eu também. (M2).

Muitas participantes trouxeram a necessidade de expressar sua dor e fragilidade através de reações de choro. M5 e M1 elucidam este aspecto diante das colocações:

(...) me dava um aperto no peito e chorava sem parar. Sempre era assim, eu via ele mal eu ia pra casa ou tinha que ficar aqui acompanhada, senão eu não conseguia ficar. Qualquer coisa que acontecia eu já me desesperava e chorava (M5).

Algumas participantes (M3, M4 e M6) trazem uma percepção sobre reações emocionais desorganizadas frente ao sofrimento ligado ao quadro clínico da criança. Dessa forma, entendem que antes de terem acesso ao tratamento psicoterápico, uma das formas de lidarem com a situação de sofrimento era através de episódios de compulsão alimentar, ou mesmo de um choro catártico, como bem ilustram as seguintes verbalizações: "O motivo do que eu comia… engordei 5kg, 6kg. Comecei a fumar. Era um motivo para eu descarregar e é da ansiedade. O motivo é estar aqui já faz um tempo." (M3) "Eu chorava o tempo todo, não aceitava de jeito nenhum. Chorava sem parar e nem conseguia falar no assunto." (M6).

Uma das mães reforça a necessidade de ter um espaço diferenciado para que o sofrimento possa ser acolhido de uma forma adequada: "Eu não queria chorar com alguém conhecido, sabe? Preocupar as pessoas da minha família, não sei, ficava com medo de preocupar eles e não queria que eles me vissem assim." (M1).

Tema 2: Percepções sobre a Psicoterapia

Nas entrevistas realizadas, o segundo dos temas gerados foi relativo às percepções das mães sobre o processo psicoterápico em si, objetivo principal do presente trabalho. Reunidas dentro desse grande tema estão 7 categorias temáticas, a saber: demanda de atendimento psicológico, frequência do atendimento psicoterápico, aliança terapêutica, processo reflexivo, luto do bebê ideal, atendimento psicológico aos pais, tratamento psiquiátrico. A seguir, estas categorias serão apresentadas separadamente.

Demanda de atendimento psicológico

Esta categoria engloba os aspectos que deram início ao processo de acompanhamento psicológico das mães durante a hospitalização de seus filhos. Todas as participantes colocam que a internação foi geradora de ansiedade e de preocupações referentes ao quadro clínico, diagnóstico e prognóstico da criança. A partir disso surge a demanda inicial para psicoterapia, evidenciada pela fala da mãe: "Eu acho que foi mais para me apoiar e entender o que estava acontecendo com elas. Acho que pelo meu sistema nervoso também. No começo eu fiquei muito nervosa com tudo." (M4).

Diante do sofrimento devido à condição clínica que seus filhos apresentavam, as participantes salientam que os profissionais de saúde identificaram a demanda para avaliação psicológica. M1, M3 e M5, trazem sobre como estas demandas foram percebidas pela equipe que assistia seus filhos: "A primeira vez que pediram pra psicóloga falar comigo foi porque eu não tava mais aguentando ver ele mal, a enfermeira viu que eu só chorava e não tava mais conseguindo aguentar." (M5).

Frequência do atendimento psicoterápico

Esta categoria traz questões sobre a frequência do atendimento psicológico durante o tempo de permanência no hospital. Assim, M1, M2 e M4 salientaram que o atendimento sistemático acontece uma vez por semana. Já M3 e M5 trouxeram que os atendimentos se dão numa frequência de 2 a 3 vezes por semana, como colocado a seguir: "Uma vez por semana ela vem." (M4). "A gente conversa umas 2 ou 3 vezes por semana" (M3). Outra participante refere que: "Ela vem pelo menos uma vez na semana, mas normalmente vem duas vezes." (M6).

M1, M5 e M6 identificam que a frequência dos atendimentos se adequa às necessidades das mães naquele momento da internação da criança. A partir disso, fica evidente que a psicóloga que vem prestando assistência às mães tem o papel de estar alinhada com a equipe médica responsável pelo caso, em busca de identificar momentos críticos para os pacientes e, consequentemente, para as mães. Assim, torna-se possível identificar intercorrências que podem acarretar mobilização emocional e, a partir disso, disponibilizar o acompanhamento psicológico de uma forma mais frequente, de acordo com a necessidade individual de cada mãe atendida. Isto fica evidente diante das falas a seguir: "Às vezes vem mais, às vezes menos. Depende do quanto preciso." (M5). "Normalmente era assim, elas que me procuravam, e parecia que elas sempre sabiam que eu tava precisando. Sempre nos momentos mais difíceis assim, mais críticos que elas apareciam." (M1).

Aliança terapêutica

Esta categoria trata sobre a relação de trabalho estabelecida entre paciente e psicoterapeuta através de mecanismos de transferência, identificação e empatia, visando o processo terapêutico. A maioria das mães participantes (M2, M3, M5 e M6) traz a dificuldade inicial de compartilhar suas histórias e seus sentimentos. Porém, percebem que, progressivamente, foi possível o estabelecimento de um vínculo de escuta, acolhedor e empático, para que a aliança terapêutica se construísse e os conteúdos pudessem ser trabalhados. Isto também fez com que elas se sentissem seguras para buscar sua terapeuta em momentos em que sentiam necessidade. Uma das mães (M5) percebe que há uma disponibilidade da terapeuta para com ela, de forma que a terapeuta se preocupa com a mãe em momentos em que a criança passa por procedimentos ou que apresenta intercorrências clínicas. A aliança terapêutica é trazida por M2 e M5. M5 exemplifica: "Ela é bem preocupada comigo, me acompanhou na cirurgia do (FM5). Veio aqui todos os dias antes da cirurgia e no dia da cirurgia também. Ela é bem preocupada comigo, sempre quer saber como eu estou." (M5).

Duas das participantes (M5 e M6) trazem um sentimento de conexão emocional com sua terapeuta, o que lhes garante a possibilidade de acioná-la nos momentos em que há necessidade: "Quando eu preciso também chamo ela, às vezes eu vejo que não estou bem, aí também posso chamar." (M5).

M5 traz a percepção sobre uma relação perpassada pela confidencialidade, em que há uma seleção entre o que é transmitido à equipe e o que permanece em sigilo entre paciente e terapeuta: "Porque não é tudo que a gente fala aqui que vocês levam para a equipe né." (M5).

Processo reflexivo

A partir do estabelecimento da aliança terapêutica torna-se possível trabalhar os aspectos geradores de sofrimento e angústia durante a hospitalização. O impacto gerado pela comunicação de más notícias pela equipe, diagnósticos e prognósticos, é revisado durante o processo de psicoterapia visando à elaboração dessas adversidades. A maioria das mães participantes (M1, M2, M3, M5 e M6) trazem percepção sobre o potencial reflexivo existente em uma relação psicoterápica, o que seria um catalisador do processo de elaboração das situações adversas oriundas do adoecimento e hospitalização da criança. A verbalização a seguir ilustra essa categoria:

Pensar nas coisas que tão acontecendo é a melhor forma de ir levando tudo aqui no hospital. Porque é muito sofrido e muito difícil de falar disso tudo, mas deixa as coisas mais leves. Eu já tô aqui há muito tempo, vejo as pessoas indo e as vezes até voltando e eu e ele ainda estamos aqui. Às vezes dá vontade de jogar tudo pra cima e ir embora, mas aos pouquinhos as coisas estão se ajeitando e eu vou conseguindo ficar aqui do lado dele. (M5).

Diante da necessidade de compreender o impacto do diagnóstico e prognóstico na vida dos pacientes e de seus familiares, o espaço de psicoterapia se propõe a refletir sobre as dificuldades e potencialidades futuras, como salienta uma das mães em suas colocações:

(...) sobre as coisas que estavam acontecendo com ela, com a hospitalização e sobre como eu ia lidar com as coisas no futuro e também sobre como ela também ia enfrentar, que era mais isso que me preocupava e com elas eu podia falar disso. (M1).

Luto do bebê ideal

Durante o período gestacional os pais planejam, através da imaginação e idealização, o bebê que irá nascer. Após o nascimento há a percepção de diferenças entre o bebê que foi idealizado e o bebê real. Após o nascimento, acontece o luto pelo bebê imaginário, para que se faça espaço, no psiquismo das mães, ao bebê real que nasceu. M1, M2 e M6 trazem estes aspectos, que são elucidados através de suas falas, como mostra o exemplo abaixo:

(...) eu tinha planejado um bebê já, imaginado ele, sabe? já pensava na minha cabeça em como ele seria e quando ela nasceu, era diferente do bebê que eu já estava esperando. Então foi uma perda que eu tive na verdade, eu tive que aprender a lidar com isso porque a (FM1) veio diferente dos meus pensamentos. Então eu tive que trabalhar o meu sentimento pelo bebê que eu estava esperando e por esta perda, tive que aceitar e receber esse bebê que eu tinha ganhado (M1)

Este processo é esperado após o nascimento de um bebê saudável, mas o impacto se torna ainda maior quando o bebê gerado apresenta uma condição clínica de gravidade ou necessita intervenção médica e hospitalização. As mães demonstram sofrimento pelo luto do bebê imaginário, além de lidar com a possibilidade real de morte e perda de seu bebê.

Atendimento psicológico aos pais

O processo de hospitalização da criança interfere de diversas formas na relação do casal de pais. As mães participantes desta pesquisa acompanhavam seus filhos durante a hospitalização e recebiam acompanhamento psicológico sistemático durante este período. M1, M2 e M6 trazem o envolvimento dos pais durante a hospitalização e pontuam que em alguns momentos foi fundamental a participação deles nas intervenções psicológicas: "Realmente tá ajudando bastante, não só a mim, mas ao meu marido também. Ela já teve oportunidade de falar com ele junto, nós dois, ou então só com ele também. Então tá ajudando os dois." (M2). Através da possibilidade de realizar atendimentos destinados aos pais é possível trabalhar os aspectos relacionados ao sofrimento diante da doença de seus filhos, mas também trazer à tona aspectos que estão dificultando a relação do casal neste momento de maior afastamento. Na colocação de uma das mães isto fica evidente: "Ela conversou com o meu marido também, que no tempo a gente não tava se acertando muito." (M3).

M6 coloca que acredita que seria importante para seu marido poder utilizar deste espaço de escuta, mas que ele ainda se mostra resistente ao atendimento psicológico. "Eu vejo que ele está sofrendo muito e que para ele seria muito bom poder falar com a psicóloga e entender tudo o que está acontecendo. Ele não é muito de falar, mas eu acredito que faria muito bem." (M6).

Tratamento psiquiátrico

Três mães participantes trazem a necessidade de realizar tratamento psiquiátrico, visando o uso de medicação, como forma de auxiliar a lidarem com o sofrimento gerado pela hospitalização de seus filhos. M3 e M4 referem ter realizado consulta com psiquiatra a partir da percepção da psicóloga que estava acompanhando e posterior discussão com a equipe assistente para solicitação de consultoria psiquiátrica. Uma das participantes descreve este processo: "Até a outra psicóloga sugeriu, no caso se eu quisesse que ela podia me encaminhar pra um psiquiatra para me conseguir um remédio por causa da depressão" (M4).

Devido ao intenso sofrimento psíquico gerado pela doença de seus filhos, em alguns casos a intervenção psiquiátrica se mostra complementar ao processo de psicoterapia, visando à diminuição de sintomas depressivos ou ansiosos que interferem de forma negativa no cuidado realizado.

M6 conta que iniciou tratamento psiquiátrico anterior à sua gravidez e que necessitou retomar o acompanhamento psiquiátrico devido a sua desorganização inicial com a investigação diagnóstica de seu filho. "Eu tive que contar com a ajuda de medicamentos, sem medicamento não tinha como, estava muito pesado e doendo muito." (M6).

Tema 3: Efetividade da Psicoterapia

Este grande tema trata da percepção que as mães participantes tiveram sobre os resultados, ou a efetividade, do processo psicoterápico. Duas categorias foram encontradas e serão descritas abaixo: Percepções sobre o resultado da psicoterapia, e Comunicação com a equipe.

Percepções sobre o resultado da psicoterapia

Todas as mães identificaram mudanças positivas a partir do acompanhamento psicoterápico. Inicialmente, perceberam que o atendimento psicoterápico é um espaço de escuta ao sofrimento emocional gerado pelo adoecimento e hospitalização do filho. As mães participantes trouxeram que a psicoterapia auxilia não apenas a lidarem melhor com o ambiente físico do hospital e suas rotinas, como também no reconhecimento das limitações do filho, impostas pela doença ou pelas suas malformações congênitas (quando era o caso). Dessas últimas, só se sentiram suficientemente apropriadas a partir da evolução dos atendimentos psicoterápicos, já que isso diz respeito à elaboração da ferida narcísica dos pais, gerada pela "imperfeição" da criança. No momento em que ocorreu o reconhecimento tácito dessas limitações, as mães utilizaram o espaço para reorganizar seus recursos internos de modo a permanecerem acompanhando a internação, visando contribuírem no tratamento da criança. Esse processo, que costuma ser prolongado, é visto como essencial no rearranjo dos mecanismos defensivos, possibilitando uma mudança positiva no comportamento das mães, como fica evidenciado a partir das seguintes verbalizações: "Agora eu consigo cuidar dela, ficar mais tranquila, entender as limitações e dificuldades que ela tem, e ajudar... acho que é isso... assim, me ajudou a enfrentar tudo isso que estava acontecendo." (M1).

Quando questionadas sobre como se sentem após algum tempo do acompanhamento psicoterápico, todas as participantes referem o alívio da ansiedade e da preocupação. Uma das falas evidencia este aspecto: "Eu me sentia bem tranquila, ficava bem mais calma." (M4).

Já outra participante traz percepção semelhante em sua fala: "...me ajudou bastante a tratar dessa minha preocupação, ansiedade sabe" (M5). Além disso, ainda enfatiza que o espaço de psicoterapia possibilita que ela expresse seu sofrimento através do choro e que tenha a continência necessária neste espaço:

Muito mais calma, mais tranquila. Eu consigo ir lá, chorar. Eu sou difícil de colocar as coisas pra fora assim e de falar com outras pessoas das coisas que eu tô sentindo. Mas com ela eu preciso. Vou lá às vezes e passo o tempo todo chorando, converso e saio de lá muito mais leve. Parece que eu consigo não ficar mais tão preocupada. (M5).

Além disso, M3 e M6 contam que a partir do processo reflexivo que o tratamento psicoterápico possibilitou, o processo de hospitalização ganhou maior sentido: "Me ajudou a assimilar tudo que está acontecendo, ter esse espaço pra entender tudo que está mudando nas nossas vidas e que tudo que está acontecendo também tem um lado bom pra nossa família." (M6). Também diante do espaço de escuta terapêutica, M2 pôde refletir sobre como o autocuidado é parte fundamental para conseguir acompanhar o filho diante da possibilidade de uma hospitalização que pode se prolongar. Através da identificação de dificuldades, pôde reconhecer seus limites e suas capacidades: "...então eu tenho que me preservar um pouco, porque eu sei que o caminho vai continuar sendo longo." (M2).

Comunicação com a equipe assistente

Nesta categoria M3, M5 e M6 elucidam que a partir da psicoterapia foi possível reconhecer a dificuldade que estavam tendo para levar os questionamentos para a equipe assistente. "[...] essas coisas da equipe mudar toda hora fica mais difícil de conseguir falar com eles. Porque o residente já muda, tá, a gente acostuma com isso. Mas o professor mudava... Isso dificulta a comunicação." (M5).

O acompanhamento sistemático facilitou a organização dos questionamentos a respeito da condição clínica e o prognóstico de seus filhos e possibilitou a construção da forma singular de levar estas dúvidas para a equipe, auxiliando na melhor compreensão do processo de saúde e doença. M6 e M3 salientam isto. Abaixo, o exemplo deste fenômeno identificado pelas mães:

Como antes eu não conversava com os médicos ela disse pra mim: conversa com eles, pergunta tudo que tem dúvida, escreve num papel que eles vão te responder. É isso que eu tô tentando. Porque fica difícil tu não saber o que a tua filha tem. Eles pesquisam, fazem exames e a gente fica confusa. (M3).

Além disso, M5 entende que a psicóloga que lhe assistiu teve um papel decisivo na intermediação da comunicação entre ela (mãe) e equipe médica: "...então as perguntas que eu ia fazendo sobre o estado do (FM5), ela ia me ajudando, levava pra equipe, pedia que eles me explicassem... Outra coisa também é da alta dele, a organização e tudo." (M5).

 

Discussão

Os resultados mostraram que o tratamento psicoterápico realizado com as mães participantes trouxe resultados significativos, principalmente no que tange ao reconhecimento das limitações da criança, na elaboração da situação traumática gerada pelo adoecimento e hospitalização da criança, na reorganização de mecanismos defensivos e na ampliação da comunicação entre as mães e a equipe médica.

Todas as mães participantes, tratadas com psicoterapia durante a hospitalização de seus filhos, melhoraram seu funcionamento global e se sentiram beneficiadas com essa forma de intervenção. Muitas delas (M1, M2, M3, M5 e M6) ressaltam que um dos principais ganhos foi a ampliação de seu potencial reflexivo, possibilitando que lidem melhor com a situação adversa que enfrentam e com os lutos que sofrem a partir do diagnóstico da doença da criança. Além disso, o estudo demonstrou que a apropriação sobre o diagnóstico e tratamento clínico foi potencializado pela psicoterapia e pela intervenção das terapeutas. As demandas trazidas colocaram em foco a doença e hospitalização da criança, ao mesmo tempo em que possibilitaram a adaptação das mães ao ambiente hospitalar e a organização de estratégias para lidar com a situação de sofrimento.

Resultados semelhantes tiveram Jung, Nunes e Eizirik (2007), em estudo quantitativo com objetivo de investigar efetividade da psicoterapia de orientação psicanalítica. Os autores demonstraram que os pacientes investigados tiveram uma melhora dos níveis de funcionamento global, independente do tempo de duração do acompanhamento psicoterápico. Não houve evidências de interação entre o tempo de duração do tratamento e o resultado. Também não houve significância entre a satisfação quanto ao resultado do tratamento e a experiência do psicoterapeuta, suscitando a discussão de que alguns fatores são mais preponderantes quando se leva em conta o resultado efetivo da psicoterapia: relação terapêutica, a qualidade das relações objetais, o potencial auto-reflexivo e a reação às interpretações. Já em relação ao contexto hospitalar, Lustosa (2010) afirma que a utilização da técnica de Psicoterapia Breve, tem o potencial de substituir mecanismos de defesa inadequados, por outros mais propícios às situações que exigem maior flexibilidade, além da ampliação da consciência de possibilidades existentes e de maior ajustamento nas relações interpessoais. Cortiñas (2013), em seu estudo sobre psicoterapia psicanalítica à díade mãe-filho, preconiza a necessidade de instrumental psíquico adequado para lidar com o sofrimento psíquico, seja ele de qual origem for. Este seria atribuído à mãe através de um trabalho psicoterápico efetivo. Na perspectiva psicanalítica, a continência exercida pela mãe, a partir da transformação da experiência emocional de dor psíquica, implica que este objeto (mãe) venha a ser um provedor de sentido às vivências da criança.

A intervenção em psicoterapia psicanalítica e em psicoterapia breve vem sendo objeto de muitos estudos na atualidade (Axmacher et al., 2014; Campezzato et al., 2014; Cassel et al., 2015; Costa & Melnik, 2016; de Greck et al., 2013; Leichsering, Rabung & Leibing, 2004). As pesquisas sobre mudança em psicoterapia (Cortiñas, 2013; Honda & Yoshida, 2013; Younes et al., 2010), tendo seu foco principal na elucidação dos critérios de mudança, ou seja, que capacidades o paciente deve ter alcançado após a realização este tipo de intervenção. A ampliação da adaptabilidade do indivíduo frente à experiência de crise tem sido apontada nestes estudos como uma dos principais critérios de êxito (Honda & Yoshida, 2013).

As participantes evidenciaram exigências adaptativas, pois necessitavam lidar com as demandas da hospitalização. Essas demandas trouxeram, em algumas situações, sobrecarga ao psiquismo, provocando respostas depressivas, maníacas, ou mesmo disruptivas, conforme a experiência trazida por algumas das mães. Também foram percebidos, com o suporte da psicoterapia recebida, sentimentos de raiva, muitas vezes seguidos de formação reativa, como forma de lidar com o sofrimento. Diante disso, a psicoterapia foi necessária para a identificação e expressão dos sentimentos, auxiliando na elaboração dos conflitos geradores de alterações de humor durante a hospitalização.

Através da expressão dos sentimentos, o espaço de psicoterapia proporcionou o surgimento da singularidade das mães. Nesse contexto, a neutralidade e o contrato de confidencialidade foram percebidos como fundamentais.As participantes pareceram compreender a terapeuta como alguém capaz de oferecer escuta a todos os tipos de sentimentos, inclusive quando estes eram hostis em relação à criança. Da mesma forma, utilizaram desse espaço para refletir sobre um aspecto árduo na relação mãe-filho: a fragilidade de um vínculo que se inicia quando o bebê nasce com características muito divergentes do bebê idealizado durante a gravidez. Esta percepção, quando tornada consciente e expressa, pôde ser trabalhada na relação terapêutica, ganhando sentido para as mães e isentando-as de movimentos superegóicos, que em alguns momentos são reforçados pelos demais membros da equipe.

O estudo realizado por Bueno (2009) com 65 pacientes adultos atendidos com a técnica de Psicoterapia Dinâmica Breve, em um hospital escola, também reforça a importância da aliança terapêutica, evidenciando que ela foi o principal preditor de permanência na psicoterapia, e pontuada como uma influência positiva na vida dos pacientes. Além disso, a psicoterapia possibilitou um espaço para ressignificar sentimentos relacionados à hostilidade, raiva e ressentimento, dirigido aos médicos, enfermeiros e outros membros da equipe. Diante disso, o psicólogo teve como papel acolher os sentimentos subjacentes a essa situação de dor e sofrimento, buscando facilitar a elaboração de fantasias, medos e angústias. O incremento da comunicação entre a tríade mãe-terapeuta-equipe, sob a proteção do preceito de confidencialidade, foi um outro aspecto potencializado pela psicoterapia na percepção das mães. Este processo foi apontado como sendo muito importante na maior capacidade adaptativas das mães participantes.

No presente estudo, as mães salientaram alterações de humor geradas pelo impacto da comunicação de más notícias. Diante disso, os diagnósticos e prognósticos puderam ser trabalhados durante o acompanhamento sistemático, evidenciando importante melhora na capacidade reflexiva e no potencial para lidar com as demandas da hospitalização. Resultados semelhantes teve o estudo de Fraga et al. (2008), que investigou o apoio psicológico com as mães de bebês nascidos pré-termo, hospitalizados, evidenciou que o acompanhamento atuou como fator de proteção aos efeitos negativos da hospitalização. Além disso, através da avaliação dos indicadores emocionais maternos a autora percebeu que os níveis de ansiedade, estresse e depressão reduziram significativamente até a alta hospitalar, apontando para uma melhor organização das mães.

O espaço de psicoterapia no contexto hospitalar possibilitou identificar a dificuldade materna de aceitação da limitação de seus filhos e atuar diante da fragilidade deste vínculo. As intervenções, usualmente, têm objetivo de compreender os sintomas gerados a partir de perturbações relacionais, principalmente com os pacientes que eram bebês e estavam com a vinculação inicial marcada pelo surgimento da doença e da hospitalização. Nestes casos, foi destacada pelas mães participantes uma aproximação na relação dual e uma melhora da capacidade para lidar com as demandas provenientes do contexto hospitalar. Prado et al., 2009 reforçam que o tratamento conjunto pode trazer uma melhora significativa nos sintomas do bebê, nos comportamentos interativos e nas representações internas de parentalidade. Durante o tratamento, o terapeuta funciona como uma matriz de apoio capaz de sustentar a mãe, fazendo com que as funções maternas sejam facilitadas, trazendo uma importante melhora no investimento dos pais com seus filhos.

 

Considerações Finais

O processo de adoecimento e hospitalização de uma criança traz importante impacto psíquico nas mães que exercem o papel de principais cuidadoras nesse contexto. O presente estudo reforça a importância de que os profissionais possam identificar este sofrimento e, a partir disso, encaminhá-las para tratamento psicoterápico sistemático durante o período da internação hospitalar da criança. Também trouxe evidências de que a partir do processo de psicoterapia de orientação analítica, no contexto hospitalar, é possível que as mães possam identificar as limitações de seus filhos, aprimorando recursos psíquicos para lidar com o sofrimento. Apesar da amostra restrita de mães participantes, os resultados apontam para uma percepção homogênea das mesmas, que trouxeram sentimentos e vivências semelhantes diante da situação. Por se tratar de um estudo retrospectivo, não se teve oportunidade de investigar comportamentos antes e após a psicoterapia, o que impede o teste e reteste da amostra diante dessa forma de tratamento. O estudo também não pretendeu realizar investigação quanto à eficácia ou efetividade do tratamento empregado com as mães participantes. Delimitou-se a avaliar a mudança com significância clínica, a partir da psicoterapia, na perspectiva das mesmas. Sugere-se que outros estudos semelhantes possam ser desenvolvidos no contexto da internação hospitalar de crianças.

 

Referências

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1 Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Porto Alegre / RS – Psicóloga, Residente Multiprofissional em Saúde ênfase Saúde da Criança. Contato: renatadesateixeira@hotmail.com.
2 Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Porto Alegre / RS – Psicóloga Clínica contratada do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, preceptora da Residência Multiprofissional em Saúde ênfase em Saúde da Criança. Contato: themesath@hcpa.edu.br.

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