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Psicologia: teoria e prática

Print version ISSN 1516-3687

Psicol. teor. prat. vol.20 no.2 São Paulo May/Aug. 2018

http://dx.doi.org/10.5935/1980-6906/psicologia.v20n2p188-199 

ARTIGOS
PSICOLOGIA SOCIAL

 

Toda mulher sonha em ser princesa? Problematizações sobre escolas de princesas

 

 

Sabrina Daiana CunicoI; Alice Lopes Caldas FagundesII; Nathalia Amaral Pereira de SouzaIII; Marlene Neves StreyIV

IPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUCRS, RS, Brasil
IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, RS, Brasil
IIIPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUCRS, RS, Brasil
IVPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUCRS, RS, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Inúmeras conquistas podem ser resultado das lutas das mulheres por condições mais equânimes na sociedade. A máxima "Lugar de mulher é onde ela quiser" tem ganhado cada vez mais força. No entanto, a ideia de que há uma essência feminina ainda está muito presente socialmente, o que faz com que determinadas escolhas sejam desvalorizadas e julgadas como não pertencentes a essa essência. A partir de uma revisão narrativa, problematizamos a existência de Escolas de Princesas, as quais se propõem a ensinar meninas a como ser e estar no mundo. Ao ensinarem comportamentos tradicionais associados ao recato, à beleza e às atividades domésticas, tais escolas ignoram a importância de se posicionar socialmente em um país onde milhares de mulheres sofrem preconceitos e violências diariamente, representando um retrocesso no que se refere às conquistas já obtidas pelas mulheres que lutaram e ainda lutam por um mundo mais equânime.

Palavras-chave: gênero; mulheres; princesas; estereótipos; feminino.


 

 

Introdução

O movimento feminista, ainda que possua bases comuns, pode ser caracterizado por um discurso múltiplo e de tendências variadas. É por essa razão que o uso do termo feminismos, no plural, nos parece mais fiel à multiplicidade de lutas que as mulheres travaram - e ainda travam - na sociedade. No Brasil, o movimento feminista teve a sua maior expressão na década de 1970, tendo nascido comprometido com a oposição à ditadura militar. Os grupos feministas, os quais estavam articulados com movimentos sociais e políticos, reivindicavam tanto a busca por melhores condições de vida e a criação de creches nas fábricas e universidades como a anistia de presos políticos, lutando pelas liberdades democráticas (Mayorga, Coura, Miralles, & Cunha, 2013).

Inúmeras conquistas resultaram das lutas das mulheres por condições mais equânimes na sociedade. A máxima "Lugar de mulher é onde ela quiser" tem ganhado cada vez mais força, fazendo com que mulheres lésbicas, mulheres que não desejam ser mães, mulheres que exercem cargos de chefia, entre tantas outras formas de ser mulher no mundo, coexistam com mulheres que optam pelo casamento e pelos cuidados do lar, algo que outrora foi a única opção dada a elas. No entanto, a ideia de que há uma essência feminina, a qual incluiria elementos de cuidado, recato e sensibilidade, ainda está muito presente socialmente, o que faz com que determinadas escolhas se-jam desvalorizadas e julgadas como não pertencentes a essa essência.

Já em 1949, ano da primeira edição de O segundo sexo, Simone de Beauvoir sinalizava que, ao usarmos a palavra mulher e/ou feminino, não devemos pressupor uma essência imutável, ou seja, que evidencie verdades eternas. Ao contrário, trata-se de "descrever o fundo comum sobre o qual se desenvolve toda a existência feminina singular" (Beauvoir, 2016, p. 7). Isso equivale a dizer que não existe somente uma forma de expressar a feminilidade e que "ninguém nasce mulher: torna-se mulher" (Beauvoir, 2016, p. 11).

Na direção oposta a esse entendimento, foi recentemente divulgada, de forma ampla na mídia brasileira, a abertura da Escola de Princesas: um empreendimento que oferece cursos e eventos para meninas, e que tem como slogan "Todo sonho de menina é tornar-se uma princesa". A missão da escola, de acordo com o site de divulgação, é a seguinte:

Oferecer serviços de excelência que propiciem experiências de natureza intelectual, comportamental e vivencial do dia a dia da realeza, para meninas com idade entre quatro e quinze anos que sonham em se tornar princesas e fazê-las resgatar a essência feminina que existe em seus corações (A Escola de Princesas, 2016).

Tendo por pano de fundo as representações da feminilidade veiculadas na mídia, especialmente na franquia Princesas da Disney, e com base nos escritos de Simone de Beauvoir, o objetivo deste artigo é problematizar a existência de escolas que se propõem a ensinar meninas a como ser e estar no mundo, além de compreender o impacto que tais escolas podem ter na vivência da feminilidade. Para tanto, realizou-se uma revisão de literatura, a qual, segundo a American Psychological Association (APA, 2010), é definida como um método que se detém em reunir materiais já publicados sobre determinado assunto, avaliando-os criticamente.

 

Gênero

O descobrimento do sexo do bebê para uma família grávida é, frequentemente, envolto de muita expectativa. Isso ocorre porque, com essa descoberta, um mundo repleto de construções sociais pautadas em aspectos biológicos se apresenta a essa criança e a essa família. Tais construções, ao serem baseadas apenas nas diferenças sexuais biológicas, tornam-se simplistas, uma vez que desconsideram a construção histórico-cultural que, diariamente, se dá sobre nossos corpos físicos (Botton, Cúnico, Barcinski, & Strey, 2015).

Ao tratarmos das diferenciações entre homens e mulheres, algumas características são tidas como excludentes e inflexíveis. Ao passo que o masculino é associado à força, à razão e à atividade, o feminino é tido como frágil, emotivo e passivo (Vieira & Amaral, 2013). No entanto, embora a passividade seja algo que pode se desenvolver na mulher desde seus primeiros anos, essa característica não se dá em função de uma predisposição genética, mas sim por ser esse, muitas vezes, o destino que lhe é imposto (Beauvoir, 2016).

Simone de Beauvoir (2016) apoia-se na noção do mito feminino - mecanismo socialmente criado de caráter mais forte que a coerção direta - para explicar a dificuldade da desconstrução de noções essencialistas da feminilidade. Para a autora, contra dogmas e verdades consideradas absolutas, não há luta ou diálogo possível por meio de argumentos sobre a realidade concreta: "por intermédio das religiões, das tradições, da linguagem, dos contos, das canções, do cinema, os mitos penetram até nas existências mais duramente jungidas às realidades materiais" (Beauvoir, 2016, p. 318). Nesse panorama, o mito feminino faz da mulher "Verdade, Beleza, Poesia, ela é Tudo: uma vez mais, tudo na figura do Outro, Tudo exceto ela mesma" (Beauvoir, 2016, p. 295). Assim, esse "ser tudo" retira da mulher a autonomia de ser sujeito por si só.

Sabe-se que os estereótipos de gênero alimentam desigualdades significativas entre homens e mulheres com base em uma concepção biológica e naturalista das atribuições esperadas e permitidas aos sexos. Estereótipos são produtos culturais oriundos do próprio processo de adaptação do homem à natureza. Em nossa cultura, a propagação de determinados estereótipos implicou uma dominação a mais, uma vez que o poder entre os homens que inicialmente era exercido por meio da força se transformou em violência velada, isto é, propagada por intermédio de palavras ou atos sutis (Crochik, 1996). Um exemplo é a própria divisão do trabalho, que considera os homens mais adequados ao trabalho na esfera pública, enquanto as mulheres são destinadas ao trabalho doméstico. A noção imposta como natural de pertencimento da mulher às tarefas domésticas e não às funções públicas ilustra, portanto, esse modelo anteriormente citado de existência como "não sujeito".

Assumir que há uma vocação feminina essencial para determinadas posições ou comportamentos faz com que o casamento - e aquilo que este pressupõe: maternidade e família nuclear heterossexual - torne-se o único lugar possível para que a mulher se realize. De tal forma, a valorização do matrimônio e dos bons costumes, a suposição de um "instinto materno", o direcionamento constante ao espaço privado e a afirmação de uma beleza impecável são formas reconhecidas de controle do sujeito mulher.

 

Representações da feminilidade

Diversas são as narrativas veiculadas na mídia que se sustentam em uma determinada representação da feminilidade. Novelas, revistas femininas, seriados, entre outros, se alicerçam em um modelo de feminilidade que, a rigor, não possui nenhum compromisso com a realidade concreta de muitas mulheres. Ao contrário, atuam na manutenção de um status que tem por base a subserviência feminina e sua suposta fragilidade (Sobral & Beraldo, 2015).

Um exemplo dessas narrativas são os contos de fadas. Desde a infância, os contos de fadas nos apresentam a frase: "Era uma vez uma princesa que se casou com um príncipe e viveram felizes para sempre". Histórias que, na maioria das vezes, são permeadas pelo amor romântico, pela espera do amor verdadeiro e encerradas pelo final feliz (Bastos & Nogueira, 2016; Sobral & Beraldo, 2015; Xavier Filha, 2011). Entendemos que, a partir desses contos, meninas e meninos têm nas princesas e nos príncipes modelos de feminilidade e de masculinidade. O significado compartilhado pelas crianças é o mesmo que a sociedade constrói e espera da identidade de gênero de homens e de mulheres (Xavier Filha, 2011).

Reconhecemos que talvez não seja possível crescer em um universo infantil isolado de influências sociais e desvinculado de exposição midiática, mas ressaltamos a importância de buscar outras narrativas - desenhos, filmes e livros - que abarquem modelos de feminilidade e masculinidade diversos. Afinal, o problema não reside no ensino das práticas voltadas ao espaço privado, mas em considerá-las intrínsecas ao sujeito mulher, tratando-as como responsabilidade única de meninas e, consequentemente, privando-as de outras possibilidades de existência. Além disso, é necessário discutir o modo como as imagens estereotipadas desencadeiam efeitos nas subjetividades infantis, tendo em vista que a cultura é uma construção social e psíquica (Cechin, 2014).

Os filmes animados mais clássicos das princesas Disney já foram verdadeiros indicativos de um processo de perpetuação do mito feminino antes apontado por Simone de Beauvoir. Criadas de acordo com os moldes de uma sociedade tradicionalista, é possível perceber que as "primeiras" princesas - Branca de Neve, Cinderela e Aurora de A bela adormecida - se encaixavam no modelo correspondente das mulheres enaltecidas, idolatradas e idealizadas pelos homens segundo o perfil "esposa-mãe-dona-de-casa" (Lopes, 2015). De fato, durante muito tempo, além dessas características atreladas ao papel passivo da mulher na sociedade, outros valores culturais tradicionais estiveram incorporados nas histórias da Disney, como o amor romântico, os padrões de beleza, a heterossexualidade, a coragem e a bondade (Cechin, 2014).

Já a segunda geração de princesas mais "rebeldes", como Ariel de A pequena sereia, Bela de A Bela e a Fera, Jasmine de Aladdin e Pocahontas, por sua vez, possui como principal característica o desvio das regras previamente impostas, mesmo que de forma sutil, valorizando a libertação do conformismo por meio de atos de coragem, força e independência. E as princesas contemporâneas - Tiana de A princesa e o sapo, Rapunzel de Enrolados, Merida de Valente e Anna e Elsa de Frozen: uma aventura congelante - são transgressoras ao serem mais autônomas e seguirem o modelo de uma mulher que busca o equilíbrio entre sua individualidade e suas emoções, tendendo a revisitar alguns valores e costumes tradicionais das princesas "antigas" de forma cômica (Lopes, 2015).

Outra história que desafiou os estereótipos de gênero apresentados até então nos contos de fadas é Mulan. Sua criação ocorreu no ano de 1998, também pela Disney, e, mesmo não sendo tecnicamente uma "princesa", a produtora a inseriu na franquia. Embora não seja a mais popular, é considerada a mais progressista da série Disney. No filme, há um recrutamento geral para combater uma invasão na China. Como seu pai está doente, Mulan representa sua família e integra o Exército chinês com uma aparência masculina. No decorrer do filme, ela prova suas habilidades como guerreira e ganha o respeito de todos/as (Souza, Pedroso, Fontes, Santos, & Prado, 2016).

Simone de Beauvoir (2016) inquietava-se ao reconhecer que a juventude da mulher era desvanecida pela espera do homem. O homem, embora também esperasse a mulher, não a tinha como o centro de sua vida, pois o jovem tinha outros objetivos e intenções, enquanto a mulher era preparada durante toda sua vida para ser protegida pelo futuro "príncipe encantado". Tendo em vista a época em que Simone de Beauvoir realizou seus escritos e o momento contemporâneo que estamos vivendo, a modernidade da autora nos impressiona ao contrastar com o atraso de nossa sociedade atual no que diz respeito à equidade de gênero. Necessitamos atentar-nos ao modo como a feminilidade e a masculinidade são apresentadas para as meninas e os meninos em seus cotidianos. Nos contos infantis mais conhecidos, como Branca de Neve, Cinderela e A bela adormecida, as princesas esperam a chegada do príncipe forte, herói e corajoso que irá despertá-las, socorrê-las ou libertá-las de alguma situação perigosa e ameaçadora.

A respeito disso, Cechin (2014) elucida a importância da linguagem e dos discursos na formação de identidades infantis. A linguagem constitui objetos sobre os quais narra. Nesse sentido, determinados modos de agir, pensar e ser são entendidos e reconhecidos como legítimos para as crianças. A percepção da cultura é identificada por brinquedos, filmes, imagens e revistas que permeiam as subjetividades.

Vale mencionar que nos clássicos supracitados, além de a figura da mãe ser inexistente (salvo nos casos em que há a madrasta má), não há relações de amizade entre as mulheres. Em suas vidas solitárias - sem amigos(as) -, o objetivo parece ser sempre a espera pelo príncipe encantado (Sobral & Beraldo, 2015). A aparência das personagens, por sua vez, também ocupa um lugar de destaque nas narrativas. As protagonistas são representadas como jovens brancas, bonitas e com corpos esbeltos, reproduzindo padrões hegemônicos de beleza que privilegiam a magreza e a juventude. Embora seus vestidos contenham uma riqueza de detalhes, o que é destacado é a naturalidade de suas aparências, ou seja, as princesas não fazem uso de maquiagens para embelezar suas feições, elas são representadas como naturalmente belas e atraentes. Para conquistar o príncipe, portanto, as princesas não precisam ter voz, já que possuem a linguagem do corpo (Rael, 2007).

Embora atualmente possamos encontrar histórias que buscam quebrar os estereótipos da princesa jovem, branca, magra, bela, que espera seu príncipe para ser feliz, a pesquisa empregada por Xavier Filha (2011) identificou concepções bastante tradicionais no que se refere ao modo como as meninas imaginam que uma princesa deva ser. Para elas, ser princesa é possuir a pele branca, ser magra e ter cabelos loiros e longos. Além disso, ser delicada, inteligente, meiga, amável e poder cozinhar para o príncipe são características almejadas por elas. Para os meninos, porém, as princesas podem ter cabelos ruivos e curtos, usar jeans, ser desajeitadas e usar vestidos na cor azul.

A própria divisão do mundo em rosa ou azul, carrinhos ou bonecas, indica uma separação estereotipada de homens e mulheres. De fato, a indicação das cores azul e rosa para meninos e meninas, respectivamente, ultrapassa a questão do agrado das crianças. Essa é uma realidade que se apresenta às crianças desde cedo, na escola, a partir da observação nos desenhos, nas novelas, além de muitos pais ensinarem a elas que esses elementos diferenciam homens e mulheres. Claramente, é uma construção social transmitida às crianças em todos os momentos no decorrer da vida.

Inevitavelmente, as consequências desse tratamento desigual podem provocar incômodos no futuro. Um exemplo é a persistente necessidade dos homens de provar a todo momento que são homens e que estão distantes do ser feminino. Já as mulheres não passam pela mesma situação, pois, caso não se identifiquem com nada da feminilidade, ainda são consideradas mulheres. Há uma apreensão maior de que os meninos não possuam atitudes femininas (Rosistolato, 2009).

De fato, os modelos de gênero se estabelecem a partir de um panorama relacional, que expressa os padrões de masculinidade e feminilidade socialmente aceitos. Assim, o que é percebido como masculino em determinada cultura só produz sentido a partir do feminino, e vice-versa. Nesse contexto, as identidades de homens e mulheres se afirmam por meio das aproximações e dos afastamentos em relação a comportamentos, atitudes e emoções considerados próprios de cada gênero (Gomes, 2008). Numa realidade em que as mulheres ainda são subjugadas e vistas como inferiores, não causa espanto o receio que alguns homens têm de serem vistos como femininos, uma vez que isso supostamente os rebaixaria a um nível inferior.

Essa relação desigual entre homens e mulheres vai ao encontro do que Simone de Beauvoir (2016) nomeou como o mito da feminilidade, citado no começo deste artigo. A armadilha da dominação e da passividade se apresenta para as mulheres quando as coloca em uma posição acima do que é ser humano, ou seja, as mulheres passam a ser vistas quase que como "deusas". Sendo deusa, a mulher precisa de cuidado, carinho e reverência. Essa estratégia faz com que, mesmo sendo tratada como serva, a mulher seja convencida de que está sendo tratada como rainha.

Desse modo, a feminilidade aparece desde cedo nas meninas a partir de diferentes tratamentos, sendo "paparicadas" e protegidas pelos pais em diversos momentos, além de serem apresentadas a elas as tarefas do "mundo feminino" contrárias às dos meninos, que são incentivados e autorizados a atos corajosos e aventureiros. Portanto, as narrativas do ideal da feminilidade atingem em maior escala as meninas justamente pelo fato de elas conviverem desde que nasceram com as pedagogias normativas relacionadas ao gênero feminino (Xavier Filha, 2011).

 

Escola de Princesas

A Escola de Princesas foi fundada na cidade de Uberlândia, no estado de Minas Gerais, no ano de 2013, idealizada por um casal, ela psicopedagoga e ele administrador. O conceito surgiu a partir de um sonho em que ela se viu trabalhando em uma "escola de princesas". Após a realização de pesquisas e incentivada pela visão empreendedora do marido, a ideia foi posta em prática. A proposta veiculada pela escola baseia-se nos valores que tradicionalmente são vinculados às princesas, tais como a humildade, a solidariedade e a bondade. Em entrevista publicada no site do jornal O Estado de S.Paulo, a fundadora relatou o sucesso da escola e de seu curso tradicional de três meses, e acrescentou que, se tivesse uma filha, gostaria de matriculá-la em uma instituição como essa (Freitas, 2016). Os fundadores almejam que a escola seja um "centro educacional de referência mundial, no que diz respeito aos valores e princípios de comportamento e caráter, inovador em suas propostas" (A Escola de Princesas, 2016). Atualmente, há franquias da Escola de Princesas nas cidades de Manaus (AM), Cuiabá (MT), Uberaba (MG), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

A escola oferece duas modalidades de cursos. A apresentação dessas modalidades se dá pelo atrativo do "caráter precioso das meninas" e da "necessidade de prepará-las desde cedo para que seu coração seja capaz de discernir entre o certo e o errado, entre a ação que produz algo bom e o gesto que traz constrangimentos" (A Escola de Princesas, 2016). Assim, o site da escola divulga que a proposta principal de ensino está em "ministrar ao coração das meninas valores e princípios éticos, morais e sociais, que as ajudarão a conduzir sua vida com sabedoria e discernimento" (A Escola de Princesas, 2016).

A primeira modalidade, "Vida de Princesa", é um curso de três meses de duração focado nas características entendidas como necessárias a uma princesa: identidade bem definida, relacionamentos heteronormativos - por suposição evidente, regras de etiqueta, cuidados com a estética e com o "Castelo" - apresentando-se uma clara limitação às atividades domésticas - e, por fim, um casamento "feliz para sempre" como maior objetivo para a vida. Já a segunda modalidade de curso não difere da anteriormente citada no que diz respeito aos tópicos de ensino, apenas apresenta uma proposta semelhante a uma colônia de férias. A modalidade "Férias de Princesa" funciona como um test drive ou modelo compacto da "Vida de Princesa", no qual "as meninas terão a oportunidade de conhecer o Castelo e 'degustar' um pouquinho de cada aula do curso" (A Escola de Princesas, 2016).

A psicopedagoga responsável pela liderança das Escolas de Princesas no Brasil defende, em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, que seu método não é um retrocesso, pois afirma que as meninas não precisam abrir mão de ser mães, de ter um relacionamento ou de cuidar da casa por causa da carreira (Mena, 2016). Em um falso contraponto, é possível observar a defesa de um parâmetro mais "moderno" do modelo de ser princesa, que chega a considerar a inserção da mulher no mercado de trabalho. Porém, esse mesmo modelo acaba desconsiderando o real peso de uma jornada dupla na vida futura da menina.

O padrão de felicidade das primeiras princesas (Branca de Neve, Aurora, Cinderela), que hoje são vistas pelas próprias princesas mais transgressoras como tendo vivido em retrocesso, é aquele reconhecido como unicamente possível, dependente da beleza impecável e do sucesso no matrimônio. Dito isso, argumentamos que um empreendimento como a Escola de Princesas visa tão somente à afirmação desse padrão estético e relacional hegemônico enquanto afasta meninas que não se encaixam nessa realidade - ou ainda as faz crer que o necessário seria moldar-se o suficiente para que se encaixem nesse universo.

Visto isso, argumentamos que a própria concepção do ser "princesa moderna", trazida pela fundadora da escola, ainda abarca noções de feminilidade tradicionais e retrógradas, ignorando que existem outras possibilidades de apresentar-se como mulher que não incluam necessariamente o ser mãe, esposa e dona de casa. A valorização, acima de tudo, das lições sobre etiqueta, moral e bons costumes, indispensáveis à formação de uma lady - dócil e passiva - não leva em conta o quanto isso influencia na criação de mulheres que não questionam ou problematizam sua posição social.

 

Oficinas de "desprincesamento"

Como alternativa e em oposição às Escolas de Princesas, a equipe do Escritório de Proteção de Direitos da Infância do município de Iquique, no Chile, idealizou o projeto - apoiado pelo Serviço Nacional de Menores (Sename) - que possibilitou a primeira oficina de "desprincesamento" da América Latina ("Insólito taller...", 2016). Tal oficina, direcionada a meninas de 9 a 15 anos, visa à desconstrução das amarras sociais geradas pelas concepções do que é pertencente ou não ao feminino. Os ideais de empoderamento e emancipação feminina norteiam essa prática antagônica ao ser princesa graças às crenças da equipe de que o ser mulher em nossa sociedade atual pode ir muito além da maternidade, do matrimônio e do cerceamento doméstico.

De acordo com o jornal argentino El Patagónico, a primeira turma do projeto contou com 20 vagas, gerando uma considerável lista de espera, o que superou as expectativas do Escritório. Os encontros foram realizados na Casa de Cultura da cidade chilena, no verão do ano de 2016, e as meninas participantes vivenciaram módulos que incluíam atividades manuais, canções, práticas de autodefesa e debates ("Insólito taller...", 2016). O objetivo dos módulos vivenciados era possibilitar a reflexão sobre questões que envolvem o "ser menina", os estereótipos de beleza e de gênero, além da desconstrução do amor romântico.

O sociólogo e coordenador do projeto aponta, em entrevista para a Folha de S.Paulo, que, apesar da barreira linguística, o Brasil e os demais países em que as oficinas de desprincesamento estão em vigor atualmente - Chile, México e Argentina - apresentam culturas muito semelhantes no que tange à desigualdade de gênero (Mena, 2016). A respeito disso, argumentamos que o tipo de educação proporcionado pela Escola de Princesas, apesar de ser declarado como voltado à educação para o mundo real, peca no preparo dessas meninas para o quadro de violência contra a mulher e para as demais situações em que elas precisam se impor. Ao focar uma educação voltada para a docilidade, o cuidado e o recato, direciona-se essa futura mulher à submissão.

No Brasil, as oficinas de desprincesamento iniciaram-se em São Caetano do Sul, no ABC paulista, encabeçadas por uma jornalista e uma filósofa e pedagoga, após ambas terem obtido capacitação on-line disponibilizada pelo projeto chileno (Lima, 2016). Segundo dados de reportagem da revista Crescer, na região paulista, os espaços de reflexão sobre os papéis de feminilidade impostos socialmente também englobaram os cuidadores em um dos três dias de intervenção. Quanto aos conteúdos apresentados, os temas assemelhavam-se aos da oficina pioneira e também objetivavam desconstruir modelos limitantes, apresentando às participantes muitos caminhos alternativos aos valores dados como prontos na Escola de Princesas.

Esse modelo nacional de oficina de desprincesamento, com cursos ministrados por mulheres, que possuem de 20 a 30 vagas e têm como público-alvo meninas entre 6 e 15 anos e os seus cuidadores, expandiu-se em 2016 e ganhou muita força em 2017, mantendo basicamente as mesmas características em outras regiões do Brasil: Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e alguns estados do Nordeste. Além disso, o tópico "desprincesamento" tem constado em diversos programas de seminários, congressos e demais eventos do país.

Independentemente do local onde se ministram as oficinas de desprincesamento o conflito discutido é o mesmo: a restrição que ocorre ao se apresentar apenas um modelo do que é, necessariamente, ser mulher. Concordando com Beauvoir (2016, 185), segundo a qual "os pais ainda educam suas filhas antes com vista no casamento do que favorecendo seu desenvolvimento pessoal", as próprias responsáveis pelas oficinas paulistas questionam-se, em reportagem da Folha de S.Paulo, até que ponto afirmar que o sonho e objetivo de toda mulher é o casamento realmente se distancia da prática de venda do dote, muito comum em tempos passados (Mena, 2016).

Conforme já mencionado, os novos contos de fada (2000, atualmente) têm apresentado um maior questionamento dos papéis atribuídos à feminilidade, nos limites do que é possibilitado para filmes infantis. Percebemos, assim, um forte paradoxo entre as mudanças de estereótipo das princesas Disney e a Escola de Princesas. Esse se dá quando grandes estúdios e distribuidoras de conteúdo mundialmente consagradas repensam seus produtos midiáticos graças à busca pela desconstrução de opressões, em contraste com a existência de um empreendimento que ainda preza ideais extremamente tradicionais e limitadores.

Em suma, defendemos o constante debate sobre essas formas estereotipadas de vivenciar a feminilidade para que não caiamos no dualismo apontado por Simone de Beauvoir (2016, p. 125):

Permanecendo-lhes inacessíveis a vida e as virtudes públicas, quando a dissolução da família torna inúteis e obsoletas as virtudes privadas de outrora, nenhuma moral mais se propõe às mulheres. Elas podem escolher entre duas soluções: obstinar-se em respeitar os mesmos valores de suas avós ou não reconhecer nenhum.

Assim, afirmamos que, contemporaneamente, cabe ao estrato social possibilitar à menina ser sujeito "o suficiente" para escolher seu destino, seja como princesa ou não.

 

Considerações finais

Reconhecer a pluralidade do que é ser mulher é fundamental para prosseguirmos refletindo sobre as Escolas de Princesas e as Oficinas de Desprincesamento. Afinal, ao identificarmos a diversidade de contos de fadas e de princesas que atualmente estão na mídia para as crianças, confirmamos essa pluralidade. Não há uma forma universal, imutável e generalizante de ser mulher, assim como não há uma maneira certa ou errada de ser princesa. E, por essa razão, acreditamos que esse seja um dos eixos principais do nosso estudo. É necessário ensinar ou "desensinar" a ser princesa? O que poderá resultar esses ensinamentos na vivência da feminilidade?

Não temos como afirmar ao certo qual impacto essas Escolas de Princesas podem causar na vida das crianças, mas entendemos a importância da liberdade em ser o que desejarem. Embora haja crianças que apreciam a ideia de tornarem-se princesas, há outras que discordam dessa ideia, e isso não pode ser interpretado como algo "desviante" ou "errado". Justamente pelo fato de que não são iguais entre si, a imposição de determinados ensinamentos não garante que serão preparadas para conduzir suas vidas.

Ademais, muito embora as meninas sejam o principal alvo dessa cultura, é importante ressaltar que os efeitos da hegemonia de um único modo de ser mulher são sentidos por toda a sociedade, o que corrobora a necessidade de que a veiculação dessas escolas seja problematizada. Nesse sentido, um dos tópicos que enaltecemos nas Oficinas de Desprincesamento é a reflexão com as próprias crianças sobre as atribuições associadas à feminilidade em nossa sociedade diariamente. É enfatizado que há outras formas de ser mulher, além daquelas preconcebidas como inerentes à feminilidade.

Ao passo que percebemos a Disney produzindo contos de fadas que ampliam outros modos de ser princesa e de ser mulher, existem escolas que, ainda hoje, vendem um discurso que enaltece apenas um modo de ser mulher, hegemonizado pela cultura das princesas, rebaixando e desconsiderando a pluralidade da constituição feminina, apresentando os diferentes modos de ser mulher como desviantes ou "errados". Além de ensinar comportamentos tradicionais que estão associados ao recato, à beleza e às atividades domésticas, tais escolas também ignoram a importância de se posicionar socialmente em um país onde milhares de mulheres sofrem preconceitos e violências diariamente. Considerando esses aspectos, problematizamos o retrocesso que essas escolas podem representar no que se refere às conquistas já obtidas pelas mulheres que lutaram e ainda lutam por um mundo mais equânime.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Sabrina Daiana Cunico
Avenida Ipiranga 3491, 615/B
Porto Alegre, RS. CEP: 90610-001
E-mail: sabrinacunico@yahoo.com.br

Submissão: 12.6.2017
Aceite: 17.4.2018