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Cadernos de Psicologia Social do Trabalho

versão impressa ISSN 1516-3717

Cad. psicol. soc. trab. v.11 n.2 São Paulo dez. 2008

 

Alguns sentidos atribuídos ao trabalho doméstico por serventes de limpeza

 

Some senses of domestic labor for women who work with cleaning and conservation for service providers

 

 

Maria Fernanda Diogo1; Kátia Maheirie2

Universidade Federal de Santa Catarina

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Buscamos neste artigo a compreensão de alguns sentidos atribuídos à esfera reprodutiva por mulheres que trabalhavam como serventes de limpeza, a partir do significado emergente em suas narrativas. Os trabalhos doméstico e remunerado assemelhavam-se, pois ambos configuravam serviços de limpeza e conservação, apesar do doméstico compreender maior quantidade e complexidade de tarefas. A partir de um estudo de caso, realizamos entrevistas individuais semi-estruturadas, tendo a perspectiva sócio-histórica como base para análise das informações. Utilizamos o método progressivo-regressivo, destacando a objetivação das subjetividades e focando a particularidade no universal. Os significados conferidos às esferas produtiva e reprodutiva ora se aproximaram, ora se distanciaram. Evidenciamos a subordinação da reprodução à produção e uma dupla jornada fisicamente desgastante. As narrativas trouxeram que as trabalhadoras eram as responsáveis pela realização do serviço doméstico, sendo por vezes "ajudadas" pelas filhas-aprendizes, reproduzindo lugares socialmente ocupados pelo masculino e pelo feminino. O fórum doméstico adquiriu significações de "fatalidade" (conseqüência "natural" das relações de gênero), repetitividade, "heroísmo", valorizando a dignidade da submissão e a abnegação feminina. Por outro lado, também apresentou um aspecto extremamente importante das relações sociais cotidianas, manifesto na noção de cuidado para com o núcleo familiar e em sentimentos de satisfação e prazer pela sua realização.

Palavras-chave: Sentidos do trabalho, Trabalho doméstico, Relações de gênero.


ABSTRACT

This article has tried to understand some senses attributed to the reproductive sphere for women who work with cleaning and conservation for service providers, starting from meaning in their narratives. The domestic and paid works are alike, because both are configured as services of cleaning and conservation, although the domestic labor includes greater amount and complexity of tasks. In a case study, we accomplished individual semi-structured interviews, with the sociohistorical perspective as base for analysis of the information. The method was progressive-regressive, detaching the objectivity of subjectivity and focusing the particularity among the universal. The meaning given to the productive and reproductive spheres sometimes were closed by, others went away. This project evidenced the subordination of the reproduction to the production and a double works physically stressful. The narratives marked that the workers were responsible for the accomplishment of the domestic labor, being per times "helped" by the apprentice-daughter, reproducing social places occupied for males and females. The domestic labor acquired "fatality" meaning ("natural" consequence of gender relationships), to be tiring, repetitive, endless and, "heroic" meaning, valuing the dignity of the feminine submission and self-denial. On the other hand, it also presented an extremely important aspect of the daily social relationships, which takes place in the caring notion to the family nucleus and in satisfaction and pleasure feelings for the accomplishment for the domestic labor.

Keywords: Meaning of labor, Domestic labor, Gender relationships.


 

 

Introdução

Ao desenvolvermos uma pesquisa visando compreender alguns sentidos atribuídos aos trabalhos de limpeza e conservação (LC) por mulheres que realizavam funções de serventes de limpeza em uma empresa prestadora de serviços, deparamo-nos com um outro trabalho não-remunerado de grande importância realizado no cotidiano das entrevistadas: o trabalho doméstico. Inquietamo-nos com as semelhanças entre ambos, pois apesar de o serviço doméstico possuir maior quantidade de tarefas e apresentar algumas características peculiares, um e outro configuraram-se, prioritariamente, como trabalhos de LC. Neste artigo, nossa proposta foi analisar alguns sentidos do trabalho doméstico para essas mulheres a partir dos significados que emergiram em suas narrativas, sob o olhar de uma perspectiva sócio-histórica.

As significações atribuídas ao trabalho remunerado apresentaram-se plurais e freqüentemente ambivalentes. Contudo, pudemos destacar, a partir das narrativas, alguns aspectos depreciativos e desvalorizantes, sendo o trabalho de LC descrito como "cansativo", "mal remunerado" e socialmente não-reconhecido. Fatores como "necessidade" e "baixa escolaridade" foram motivações para o ingresso na área, determinações essas relacionadas à privação, à carência e à falta. Em outros trabalhos (Diogo, 2005; Diogo & Maheirie, 2007) pôde-se encontrar que os sentidos que estavam na gênese da escolha dessa profissão repercutiram naqueles atribuídos ao cotidiano do trabalho, compreendido como pouco atrativo, em que a mudança de emprego permanecia na dependência de surgir alguma outra possibilidade de inserção profissional.

A partir das entrevistas aqui realizadas, o trabalho doméstico apresentou significações semelhantes à esfera produtiva e outros particulares. Foi possível destacar a subordinação da reprodução à produção e a dupla jornada de trabalhos fadigosos. Todas as entrevistadas narraram que eram as protagonistas desse trabalho em suas residências, "ajudadas" pelas filhas mulheres na condição de aprendizes, perpetuando a reprodução das relações de gênero no seio familiar. O masculino raramente apareceu como coadjuvante nesses serviços. O trabalho doméstico adquiriu a conotação de "fatalidade" (conseqüência "natural" das relações de gênero), repetitividade, ser cansativo, interminável e, sobretudo, "heróico", valorizando a dignidade da submissão e da abnegação daquelas que o exercia. Como as significações não são imutáveis, mas se transformam por meio das mediações que o sujeito vivência em suas relações, também surgiram nas narrativas sentimentos de satisfação e prazer em servir ao núcleo familiar e a noção de "cuidado" que o serviço doméstico embute.

 

Perspectiva teórica

A partir de uma ótica sustentada no materialismo histórico e na dialética, a perspectiva sócio-histórica3 focaliza o ser humano como tendo seu desenvolvimento real sustentado pelas condições materiais, significadas a partir da relação com o outro. "Como vemos, são sempre indivíduos determinados, com uma atividade produtiva que se desenrola de um determinado modo, que entram em relações sociais políticas determinadas" (Marx & Engels, 1846/1981, p. 24). Dialogando com pensadores como Vygotski (1935/1992, 1986/2000) e com alguns de seus interlocutores mais contemporâneos – como Pino Sirgado (2000), Smolka (2000), Gonçalves e Bock (2005), Zanella (2005), Aguiar e Ozella (2006) –, podemos afirmar que todo sujeito se faz a partir da objetividade mediado pela subjetividade, não podendo ser considerado puro objeto nem tampouco sujeito absoluto. Através da produção de sentidos, a subjetividade dialetiza a opacidade da objetividade (Maheirie, 2003).

"O que é o homem? Para Hegel é o sujeito lógico. Para Pavlov é o soma, organismo. Para nós é a personalidade social – o conjunto de relações sociais, encarnado no indivíduo (funções psicológicas, construídas pela estrutura social)" (Vygotski, 1986/2000, p. 33). A teoria vygotskiana pressupõe que a produção de sentidos via relações sociais encarnadas possui caráter histórico-dialético: histórico na medida em que a capacidade de pensar é produto do desenvolvimento histórico, constituindo uma teoria das condições materiais e sociais de produção ao longo do processo de transformação que o homem opera na natureza – e sobre ele mesmo, como parte integrante desta natureza. E dialético, dado que as relações sociais são definidoras das funções psicológicas superiores. Para o autor, a psique é um sistema em constante movimento, possuindo sua gênese no social e possibilitada pela mediação semiótica. Assim, subvertendo o pensamento psicológico clássico, a partir de uma leitura ancorada no materialismo histórico e na dialética, é possível postular que não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência, "pois os conceitos são nada mais do que representações e percepções re-elaboradas. Em uma palavra, ao pensamento precedem sensações, percepções, representações etc., mas não o contrário" (Marx & Engels, 1846/1981, p. 34).

Sob essa ótica, a história humana é uma história de dupla e simultânea transformação, da natureza e do homem. Por meio da atividade, a qual se faz semioticamente mediada, o ser humano transforma o seu contexto social e, nesse processo, constitui a si mesmo como sujeito, ou seja, constitui o seu psiquismo. Uma vez transformada pela ação humana, a natureza transforma-se em natureza significada e, portanto, cognoscível. Pino Sirgado (2000, p. 64) explica que a tese das relações sociais, proposta por Marx e Engels e aprimorada por Vygotski, é uma questão que envolve dois planos diferentes, mas interligados: "o plano estrutural da organização social, com suas dimensões políticas e econômicas, e o das relações pessoais entre indivíduos concretos". Sujeitos em interação produzem continuamente as significações, compartilhadas coletivamente por meio dos signos existentes em determinado contexto histórico-cultural, e tais significações têm as marcas das instituições sociais.

Vygotski e seus colaboradores privilegiaram o estudo dos signos, principalmente dos signos lingüísticos, para a compreensão dos processos históricos de constituição de um sujeito. Os signos trazem ao indivíduo a possibilidade de acesso às significações partilhadas coletivamente e aos sentidos, como dimensão mais complexa e singular dos processos de significação. Para compreender as dimensões do coletivo e do singular na mediação semiótica, Vygotski (1935/1992) utilizou "significado" para designar aqueles sentidos que se constituem e são compartilhados coletivamente e "sentido" para aqueles que se singularizam e são vivenciados por determinado sujeito4.

Por consiguiente, el sentido de la palabra es siempre una formación dinámica, variable y compleja que tiene varias zonas de estabilidad diferente. El significado es solo una esas zonas del sentido, la más estable, coherente y precisa. La palabra adquiere su sentido en su contexto y, como es sabido, cambia de sentidos en contextos diferentes. Por el contrario, el significado permanece invariable y estable en todos los cambios de sentido de la palabra en los distintos contextos. Las variaciones de sentido representan el factor principal en el análisis semántico del lenguaje (Vygotski, 1935/1992, p. 333)

Essa distinção na obra vygotskiana centraliza a questão da existência de um duplo referencial semântico intrínseco aos processos de significação: um formado pelos sistemas construídos coletivamente e outro constituindo-se, mais relativamente, a experiência singular da pessoa, entrelaçada às formas como ela singulariza-se enquanto sujeito. Cabe ressaltar que não há dicotomia entre coletivo e singular, pois o estabelecimento de significados e sentidos é sempre uma produção social, tecida na conjuntura das relações entre sujeitos.

Todo sentido tem por detrás um pensamento e todo pensamento tem uma base afetivovolitiva fornecendo inteligibilidade aos sentidos. Ainda para Vygotski (1935/1992), o pensamento nasce na esfera motivacional de nossa consciência, que abarca nossas necessidades, interesses e afetos: "detrás de cada pensamiento hay uma tendencia afectivovolitiva. Sólo ella tiene la respuesta al último '¿por qué?' em el análisis del proceso de pensar" (p. 342).

O processo de significação é dinâmico, construído em relação dialética com a realidade e sempre mediado pelo outro (Zanella, 2005). Os sentidos produzidos pelos sujeitos por vezes reafirmam os significados compartilhados e, por outras, produzem novos e diferentes sentidos. Assim, toda criança ao nascer encontra um universo sócio-cultural constituído, um mundo significativo e comunicável, singularizando-se fundada na arena das relações sociais, ou seja, nas arenas de um campo semântico. A apropriação das significações culturais implica na reelaboração dos seus próprios referenciais e, dessa forma, toda criança é produção social, contudo participando na condição de sujeito.

Fica claro que a significação é a mediadora universal nesse processo e que o portador dessa significação é o outro, lugar simbólico da humanidade histórica. (...) Portanto, o que é internalizado das relações sociais não são as relações materiais, mas a significação que elas têm para as pessoas. Significação que emerge na própria relação. Dizer que o que é internalizado é a significação destas relações equivale a dizer que o que é internalizado é a significação que o outro da relação tem para o eu; o que, no movimento dialético da relação, dá ao eu as coordenadas para ele saber quem ele é, que posição social ocupa e o que se espera dele (Pino Sirgado, 2000, p. 66, grifo do autor).

Uma significação que adquire especial importância para a compreensão das relações estabelecidas entre homens e mulheres em nossa sociedade é a análise pela ótica das relações de gênero. Elas são construções sociais que possuem base material e representam um processo da produção dos lugares de poder em determinada sociedade (Scott, 1995). Assim, gênero não se configura como um atributo individual, mas como uma forma de dar sentido às transações: sua esfera é a social.

Como gênero é relacional, quer enquanto categoria analítica, quer enquanto processo social, o conceito de relações de gênero deve ser capaz de captar a trama de relações sociais, bem como as transformações historicamente por ela sofridas através dos mais distintos processos sociais, trama esta na qual as relações de gênero têm lugar (Saffioti, 1992, p. 187).

Assmar e Ferreira (2004), em uma ampla revisão da literatura sobre relações de trabalho e gênero, apontam que as imagens construídas sobre as mulheres são apropriadas por homens e mulheres, essencializando e legitimando posições sociais assimétricas entre esses grupos. Essas posições são, de modo geral, hierárquicas e desiguais, ocorrendo a dominância do masculino sobre o feminino. No mercado de trabalho, por exemplo, percebemos algumas peculiaridades da mão-de-obra feminina: ainda observa-se segregação ocupacional, maior dificuldade de inserção, desvalorização cultural, acentuada desigualdade salarial entre os sexos, taxas de desemprego proporcionalmente maiores, dupla jornada de trabalho, discriminações quanto aos direitos sociais e trabalhistas e aumento da presença feminina em ocupações precárias (Diogo, 2007). Além disso, as possibilidades de trabalho das mulheres freqüentemente são limitadas pelas suas responsabilidades domésticas e familiares, responsabilidades essas acumuladas mesmo por aquelas que executam trabalhos extradomésticos (Diogo & Maheirie, 2007).

Elaborar uma perspectiva de análise que incorpore a categoria gênero como ferramenta permite a identificação das complexas articulações entre as relações de produção e as relações de gênero, contribuindo para a compreensão sobre como as mudanças no "mundo do trabalho" e suas significações tensionam e significam as relações entre os âmbitos produtivo e reprodutivo da vida social (Stecher, Godoy & Díaz, 2005). Sendo assim, é imprescindível às pesquisas que estudam o trabalho feminino que estajam atentas às produções de sentidos que emergem das relações de gênero, pois elas explicam os atributos que cada cultura impõe ao masculino e ao feminino. Principalmente ao estudarmos o trabalho doméstico, reinado predominantemente feminino, podemos perceber esses lugares sociais e culturalmente construídos como uma relação de poder entre os gêneros. O domicílio e a família são os espaços da produção material e simbólica da vida cotidiana. "E as mulheres continuam ocupando o lugar de responsáveis por esta produção, num mundo marcado pelo seu ingresso no trabalho pago e pelas exigências de sua contribuição financeira para a família" (Araújo & Scalon, 2005, p. 20).

 

O caminho percorrido

Realizamos uma pesquisa de campo de metodologia qualitativa, na forma de estudo de caso, a partir de um olhar sócio-histórico que possibilitou a construção da análise. As pesquisas qualitativas possibilitam maior compreensão sobre os processos mediante os quais as pessoas constroem sentidos e significados, permitindo ao pesquisador uma imersão nas vivências e nos modos de pensar e de agir dos sujeitos em reação à temática investigada (Biasoli-Alves, 1998).

A pesquisa teve como sujeitos seis trabalhadoras assalariadas do setor de LC que trabalhavam para a Alfa5, uma empresa especializada em prestação de serviços de LC, serviços especiais (telefonia, recepção, portaria etc.) e de vigilância. Todas as entrevistadas trabalhavam para uma instituição de ensino localizada na Grande Florianópolis (SC).

Utilizamo-nos de entrevistas individuais semi-estruturadas para a busca das informações. "As questões seguem uma formulação flexível e a seqüência e minuciosidade ficam por conta do discurso dos sujeitos e da dinâmica que acontece naturalmente" (Biasoli-Alves, 1998, p. 145). Como salienta Pino Sirgado (2000), aquilo que pensamos, rememoramos, sentimos e falamos não está pronto em nossas mentes para o uso: enquanto objetos semióticos, as idéias e as palavras têm que ser produzidas. Dessa forma, as questões das entrevistas tiveram o objetivo de suscitar sentidos que expressassem o modo de pensar ou de agir das entrevistadas face aos temas focalizados. Todo sujeito fala de um lugar social, sua narrativa está vinculada a sua vida, que compreende a relação com os outros e com condições sociais e históricas. É o outro quem deflagra a produção de sentidos, dessa forma, o ato verbal humano pode ser colocado numa posição dialógica.

As mulheres entrevistadas

As mulheres entrevistadas foram escolhidas aleatoriamente dentre as funcionárias da Alfa. As entrevistas trouxeram informações variadas, mesclaram mulheres que trabalhavam na empresa de dois meses a doze anos, as quais atribuíam diversas significações aos trabalhos realizados e com diferentes histórias de vida e projetos.

Mariana foi uma das mulheres entrevistadas. Ela tinha cinqüenta e um anos, era casada, mãe de três filhos e seu marido era jardineiro autônomo. Morava em residência própria com seu marido e os dois filhos, uma menina de oito anos e um rapaz de vinte anos. Ela cursou até a quinta série do ensino fundamental. Trabalhava nesse cliente como prestadora de serviços há onze anos. Joana tinha quarenta e dois anos, era divorciada e mãe de cinco filhos. Morava em residência alugada com um filho adolescente de dezesseis e uma menina de onze anos. Ela parou de estudar no primeiro ano do ensino médio, porém, em 2003, decidiu investir em um curso de formação de vigilantes, mas não conseguiu emprego nessa área. Joana trabalhava nesse cliente há dois anos e meio, porém possuía dez anos de experiência em LC, tendo passado por outras empresas. Laura tinha trinta e cinco anos, era casada, mãe de uma menina de sete anos e seu marido trabalhava em um órgão público. Ela concluiu o supletivo do ensino médio em 2003, narrou que pretendia fazer um curso pré-vestibular e tentar entrar no ensino superior. Laura estava há doze anos trabalhando nesse cliente. Rosa tinha trinta e nove anos, era viúva e morava com seus dois filhos, uma adolescente de dezesseis anos e um menino de dois anos. Ela estudou até a quarta série do ensino fundamental. Sempre trabalhou como empregada doméstica, sendo esta sua primeira experiência em uma empresa. Estava na Alfa há cinco meses. Lúcia tinha vinte e quatro anos. Morava com seu marido e dois filhos, uma menina de oito e um menino de um ano. O marido de Lúcia era instalador de piscinas autônomo. Ela realizou vários trabalhos como doméstica e faxineira, esta também era a sua primeira experiência em uma empresa e estava na Alfa há dois meses. Ana tinha quarenta e nove anos, era separada e morava com seus três filhos, o mais velho tinha dezesseis anos, o segundo tinha doze e o caçula, nove anos. Ela prestava serviços nesse cliente há onze anos. Ana estava cursando supletivo no período noturno e pretendia, depois de concluído o ensino médio, prestar vestibular.

O método de análise das informações

Para a teoria vygotskiana, o conhecimento é determinado pelo objeto e pelo pesquisador. "Por um lado, o conhecer depende das possibilidades cognitivas do sujeito num determinado momento histórico. Por outro lado, o objeto do estudo científico é da ordem da significação" (Maheirie & França, 2007).

Nossa análise foi baseada no método progressivo-regressivo (Sartre, 1960/1987). Ele está pautado na lógica que orienta nosso processo de investigação por ser dialético e buscar a compreensão do sujeito em uma perspectiva histórica, visando compreender o ato pela sua significação e devir, a partir de determinadas condições objetivas. Nele a análise movimenta-se da singularidade à universalidade, retornando à singularidade, ao mesmo tempo em que envolve as dimensões temporais de passado, presente e futuro. Afinal, apreender o sentido de uma conduta pressupõe sua compreensão. "O movimento da compreensão é simultaneamente progressivo (em direção ao resultado objetivo) e regressivo (remonto em direção à condição original)" (Sartre, 1960/1987, pp. 178-179).

Tendo como bússola esse método, realizamos uma leitura sócio-histórica das significações do trabalho doméstico para mulheres serventes de limpeza. Partindo de suas narrativas, buscamos suas perspectivas de vida historicamente situadas para, a partir daí, produzirmos algum conhecimento acerca de seu universo semântico. Nas entrevistas, buscamos a gênese da escolha da profissão de LC, o cotidiano de trabalho das entrevistadas e suas perspectivas de futuro. Discutir o trabalho doméstico não era o foco inicial de nossa pesquisa, contudo as narrativas também o descortinaram como central na vida dessas mulheres, ocupando boa parte de seu tempo e, por vezes, determinando sua inserção na esfera produtiva, além de assemelhar-se em muitos aspectos ao serviço que elas realizavam na Alfa. Assim, dada a riqueza do material colhido, buscamos também a compreensão dos sentidos atribuídos pelas entrevistadas à esfera reprodutiva. Essa análise é o alvo do presente artigo.

 

Os sentidos atribuídos ao trabalho doméstico

O trabalho doméstico é econômica e culturalmente desvalorizado na sociedade patriarcal, não sendo muitas vezes reconhecido nem mesmo por quem o consome, ou seja, pela própria família. Ele tornou-se categoria debatida no pensamento marxista com o movimento feminista, depois que as militantes feministas marxistas empenharam-se em estudar as bases materiais da opressão das mulheres sob a égide do capitalismo. O tema gerou acirrados debates sobre as características e propriedades do trabalho doméstico, debates espinhosos e muitas vezes inconclusos.

A ausência de uma base conceitual fez com que o serviço doméstico sem remuneração permanecesse por muito tempo ignorado nos estudos sobre o trabalho. Bruschini (2006) aponta que a maioria das pesquisas oficiais ainda apresenta uma concepção de trabalho associada ao capitalismo, considerando o serviço doméstico "inatividade econômica". Suas metodologias priorizam a análise das relações de produção capitalistas em detrimento dos setores marginalmente integrados ao capital, como é o caso do trabalho doméstico. Dado o elevado montante de tempo que os indivíduos (em sua maioria mulheres) ocupam-se com essa atividade, a autora defende a legitimidade das pesquisas passarem a considerar essa categoria como "trabalho não-remunerado"6.

Uma argumentação possível acerca da desvalorização econômica do trabalho doméstico é que ele não gera mercadorias e não produz mais-valia, sendo assim, trabalho improdutivo. Contudo, este deve ser distinguido não pelos seus produtos, mas pelas suas relações de produção, distintas da produção de valor, afinal, a força de trabalho só é capaz de reproduzir-se através do consumo dos valores de uso produzidos pelo trabalho doméstico. Melo, Considera e Di Sabbato (2007) apontam que esse trabalho não é contabilizado no Produto Interno Bruto (PIB) dos países. Porém, analisando dados da PNAD/IBGE no período de 2001 a 2005, os autores concluem que o trabalho doméstico no Brasil corresponde a aproximadamente 11,2% dos PIB brasileiro no período citado. Ainda segundo os autores, esse nãoreconhecimento origina-se na histórica discriminação sofrida por aquelas que o exercem, reforçando a invisibilidade que caracteriza esse tipo de trabalho e a inferioridade do papel da mulher na sociedade.

A desvalorização econômica reforça a ausência de reconhecimento social:

Nas relações e nas práticas sociais, [o trabalho doméstico] é um trabalho: 1) subestimado – uma série de atividades indispensáveis para a manutenção da formação social e efetivamente realizadas pelas mulheres não aparecem como "trabalho"; 2) desvalorizado – às esferas domésticas, mesmo reconhecidas, é atribuída pouca importância; 3) isolado – é realizado, na maior parte do tempo, nas unidades domésticas; 4) invisível, dos pontos de vista psicológico, econômico, e ideológico, além de ser "consumido" na mesma proporção e velocidade com que é realizado (Preuss, 1997, p. 53).

Pesquisas que tenham foco no trabalho feminino devem considerar que as mulheres realizam grande quantidade de trabalho não-pago, independente da camada social na qual estão inseridas. O crescimento da força de trabalho feminina no Brasil revela uma contundente mudança no perfil: até os anos 1970, as mulheres que disputavam colocações no mercado de trabalho eram, em sua maioria, jovens, solteiras e sem filhos; hoje, elas são mais velhas, casadas e com filhos (Dieese, 2001; Yannoulas, 2002). Destaca-se a tendência das trabalhadoras permanecerem ocupadas durante toda a idade reprodutiva.

As mulheres pertencentes às camadas populares são as que mais vivenciam os serviços domésticos e muitas vezes têm sua inserção no mercado de trabalho limitada em função dessa atividade não-remunerada, pois não podem delegar os afazeres da casa e o cuidado dos filhos. Geralmente o número de creches da rede pública é insuficiente para atender toda demanda e, nesses casos, os filhos pequenos ficam sob o cuidado dos mais velhos, de vizinhas, avós ou outras mulheres pertencentes ou não ao círculo familiar para que suas mães possam trabalhar (Diogo, 2005). Evidenciamos o impacto desse dado em nossa pesquisa, como podemos observar na fala de uma das entrevistadas narrando que só pôde assumir uma jornada de meio-período na Alfa, pois não conseguiu uma vaga em creche para o filho de dois anos.

[E quem cuida [do filho de dois anos] pra você poder trabalhar?] De manhã eu cuido dele e à tarde a minha filha [de dezesseis anos] que fica com ele. Que eu não consegui creche pra ele. (...) Eu ia pagar uma creche particular pra ele, mas não vale a pena. Eu disse: "o que eu vou ganhar, não vale a pena, eu vou pagar tudo em creche pra ele" (Rosa).

O acúmulo de trabalho nos âmbitos doméstico e remunerado gera sobrecarga, a conhecida dupla jornada de trabalho feminina. As entrevistadas narraram que elas eram as principais encarregadas pelo serviço das suas casas. Em alguns casos havia atores coadjuvantes, mas, em última análise, cabia a elas dirigir, decidir, limpar, lavar, cozinhar e gerenciar todos os fatores que afetavam o bom andamento da vida familiar. Rosa, por exemplo, dividia as tarefas da casa com sua filha de dezesseis anos, mas ela salientou que a maior parte das atividades ficava sob sua responsabilidade.

É eu e a minha filha [quem faz o serviço de casa]. De manhã eu deixo a casa toda organizada, a roupa, tudo. À tarde ela recolhe, passa pra mim e cuida do irmão dela, dá lanche pro irmão à tarde, pros dois, né. À noite quando eu chego já tão os dois tomadinho banho. Mas o maior é comigo. Faço comida tudo pra ela. (...) [Tá, então você e ela acabam dividindo o serviço da casa?] É, a gente divide. Mas mais é pra mim porque ela estuda e não quero sobrecarregar muito ela, que ela tem bastante trabalho (Rosa).

As entrevistadas denominaram de "ajuda" essas intervenções. Essa narrativa aponta um sentido que denota a naturalização das tarefas domésticas como "obrigações femininas": as mulheres permanecem responsáveis pela reprodução, ou seja, pelo cuidado com a casa e com os filhos, enquanto os homens ficam vinculados prioritariamente à esfera produtiva, ao desenvolvimento de atividades que gerem o sustento familiar. Essa estrutura mantém-se a despeito da mulher exercer ou não trabalho remunerado extradoméstico (Diogo, 2007).

A partir dessa narrativa, é possível apontar o sentido do trabalho produzindo-se na dialogia (Bakhtin, 1979/2003) com a perspectiva ideológica dominante na contemporaneidade. O pensamento que está envolto pelo sentido e a base afetivo-volitiva que o sustenta apontam para a atividade tomada como responsabilidade feminina, "obrigação" da mulher que ocupa um lugar social de quem faz e deve continuar a fazer o serviço doméstico. Produto singularizado e único, o sentido de Rosa particulariza um coletivo amparado na estrutura do contexto social, revelado por processos de significação compartilhados na sua comunidade.

A "ajuda" masculina foi considerada bem vinda, mas as narrativas destacaram que a responsabilidade pelo serviço doméstico mantem-se nas mãos femininas. Das mulheres entrevistadas, Laura foi a única que disse receber colaboração masculina: seu marido lava a louça e faz as compras da casa. As demais negaram qualquer participação de maridos, companheiros e filhos na manutenção da ordem doméstica.

Só a minha filha [realiza atividades domésticas], às vezes. Que eu procuro ensinar ela, né. Aí ela me ajuda, dobra roupa pra mim. [A de oito anos? O que ela faz?] Ela dobra roupa, às vezes ela enxuga a louça, assim pra aprender, né. [E o seu marido?] Não faz nada. Desse negócio ele não faz nada. Só trabalha fora. Só serve pra trabalhar fora, em casa ele não faz nada (Lúcia).

Ah, meu filho e meu marido não cuida porque... meu filho ainda organiza alguma coisa dele, mas louça, nem pensar: "Mãe, eu não lavo louça, não sou mulher pra lavar louça" (Mariana).

Observam-se nessas narrativas a produção de um sentido amparado na subordinação da reprodução à produção e, conseqüentemente, a subordinação do feminino ao masculino, reproduzindo geracionalmente lugares socialmente engendrados. "A dupla jornada de trabalho das mulheres mantém-se praticamente inalterada, uma vez que a despeito de seu trabalho extradoméstico, a divisão sexual do trabalho na família vem sendo perpetuada, sem que haja redistribuição de responsabilidades neste âmbito" (Siqueira, 2002, p. 26). Entre as mulheres pertencentes às camadas populares, como era o caso das nossas entrevistadas, o acúmulo de tarefas fez-se mais evidente, pois inexistia a possibilidade econômica de contratar alguma espécie de "ajuda" externa, como exemplificou Laura:

Tu é obrigada a limpar a tua casa, não tem como, né, deixar tua casa suja não dá. E pagar faxineira tu não pode, não tem como tu arrumar outra pessoa. Então, como eu já entendo do ramo, não tem como eu pagar outra pessoa pra trabalhar pra limpar a minha casa (Laura).

É importante ressaltar a perpetuação geracional das ditas "obrigações femininas". Considerando que a vida determina a consciência (Marx & Engels, 1846/1981), da mesma forma como essas mulheres foram introduzidas por suas mães às lides domésticas e aos "modos de ser" femininos, elas os ensinavam às suas filhas como sendo a forma correta de se comportar e agir, transmitindo conhecimentos práticos e, ao mesmo tempo, ideológicos. Dado que a significação emerge nas relações sociais, nos processos de alterização, a família perpetua o lugar de inferioridade e submissão da mulher na sociedade. O sujeito fala de um lugar social, sua narrativa adquire sentidos no seu contexto. As crianças subjetivam as significações que o(s) outro(s) da relação lhes oferece(m), forjando-se lugares masculinos e femininos que permeiam o imaginário familiar e que se reproduzem nos modos de vida e nas escolhas realizadas, em uma rede de significados social e culturalmente construída: é "natural" que seja assim. A ideologia da maternidade e da domesticidade (Siqueira, 2002) mantém-se proeminente, na mediação do outro, forjando os pensamentos, sentimentos e devires que vão constituindo os projetos de ser, configurando sentidos que apontam os modos de ser para o futuro.

Menina de dez, doze anos, pô. Pode tá em casa, fazendo crochê, fazendo tricô, aprendendo uma costura. (...) A família da minha sogra e a minha, nós fomos acostumados tudo assim. Eu não quero a minha filha na rua soltando pipa, não é ambiente pra mim como mãe, não é coisa boa pra minha filha. (...) Aí, ontem, ela varreu lá na frente: "Aí, mãe, varri". "Tá, querida, tu varresse, então tá bom, tá bonito, né, filha". Tem que incentivar, né. A gente não pode dizer o contrário, senão eu tô tirando ela do caminho bom e colocando no caminho ruim (Mariana).

Percebemos nas narrativas das mulheres entrevistadas que não houve questionamentos ao trabalho doméstico como "lugar feminino". Mesmo nas queixas referentes ao cansaço pelo acúmulo de tarefas e à repetitividade do serviço, foi possível discriminar com precisão esses "lugares", pois advém de uma fatalidade, conseqüência do fato de ser mulher, apontando esse fazer no olhar que se tem para um horizonte futuro.

Ah, é um trabalho cansativo, né. Tu faz, todo dia tem que fazer, todo... Mas não tem outra opção, a gente que é mulher tem que se virar com a casa (Rosa).

Ai, é muito chato, todo dia é a mesma coisa. Assim, de vez em quando é bom fazer, mas todo dia não dá. Se eu pudesse chegar em casa e ter a roupinha limpa, não precisar lavar, louça limpa, comida feita era uma maravilha, né. É chato (Lúcia).

Nas narrativas sobre os sentidos do trabalho doméstico, tal qual Preuss (1997), também encontramos sentimentos de subestimação, desvalorização, isolamento e invisibilidade. Contudo esses sentimentos são confrontados com o "heroísmo" que esse tipo de trabalho significa.

O serviço da casa da mulher é triste. A gente arruma a mesa, desarruma. Arruma a cama, desarruma. Banho, roupa do banho, não é fácil, né. (...) Porque nem todos têm a responsabilidade que a mulher agora tá tendo. (...) Essa parte toda a mulher é muito heroína. Em matéria de, pensando bem, a mulher é bem heroína (Mariana).

Por trás desse "heroísmo" reside a herança cultural e familiar de naturalização das funções femininas e de submissão ao masculino. Em troca, é oferecida à mulher a figura heróica que a dignifica, dado que ela se sacrifica em prol da família. A responsabilidade assumida na exaustão das tarefas domésticas tem sentido moral: ser mãe e dona-de-casa significa desenvolver um padrão familiar baseado em valores como dedicação, doação e, também, heroísmo. Os sentimentos e a racionalidade de que o serviço doméstico é um "mal necessário" apontam para a produção de um sentido cuja base afetivo-volitiva (Vygotski, 1935/1992) indica sofrimento no fazer e cuja mobilização é movida pelo desejo de sentir-se e poder ser vista como "heroína", o reconhecimento recompensando todo o esforço e sofrimento.

Conforme Sarti (1996),

Neste entrelaçamento do trabalho com a família, aparece a mesma positividade do trabalho no discurso das mulheres, mas, neste caso, tendo como foco o trabalho doméstico que, muito além do sentido concreto de lavar, passar, cozinhar, limpar e arrumar, significa, junto com a maternidade, o substrato fundamental da construção da identidade feminina, definindo um jeito de ser mulher sempre enredado em intermináveis lides domésticas, neste mundo social fortemente recortado pela diferenciação de gênero (p. 75, itálicos nossos).

Tecendo aproximações sobre os sentidos atribuídos ao trabalho de LC nas esferas produtiva e reprodutiva, podemos apontar que ambos foram construídos na história pessoal de cada uma das entrevistadas. O serviço na Alfa foi considerado "simples" justamente pela sua semelhança com o serviço doméstico, que elas dominavam através de anos de treinamento informal. Uma significação corriqueiramente atribuída ao trabalho remunerado foi o de "costume", sugerindo a facilidade em aprender, em "pegar" o serviço.

Acho que a gente já nasce já limpando, já nasce já aprendendo, já nasce já sabendo limpar alguma coisa, uma casa. (...) Então, a gente aprende em casa a fazer o serviço (Joana).

Peguei o serviço [na Alfa], que é dois toque, também que a gente pega o serviço, pronto. Você tá tão habituada com o serviço, que a gente tá acostumada com o pessoal, o ambiente é tão bom, a gente se acostumou, pronto (Mariana).

Nessas narrativas, os sentidos remetem ao conforto do "familiar", da "tarefa conhecida", aquela que não demanda uma superação constante de si com desafios capazes de colocar essas mulheres em situações não-experienciadas. A mediação afetiva do outro, "acostumada com o pessoal" e com o "ambiente", proporciona o calor do lugar (Sawaia, 1995), significando bons afetos e confortando as tarefas rotineiras, como se elas se passassem no âmbito doméstico-familiar. Mas, por outro lado, a narrativa ampara um pensamento cuja base entrelaça-se ao contexto ideológico da mesmice, no qual a mudança é um desafio penoso a ser evitado.

Outra aproximação acerca dessas atividades é que ambos os trabalhos foram significados como desvalorizados, cansativos, cíclicos, consumidos paralelamente à sua execução e invisíveis7 .

Que limpeza é cansativo e as pessoas não dão tanto valor pra ti (Rosa, referindo-se ao trabalho remunerado).

Contudo, houve também distanciamentos nas significações atribuídas ao trabalho doméstico e remunerado: enquanto o primeiro era realizado no isolamento do lar, o trabalho na Alfa possibilitava importantes contatos extradomésticos. Podemos citar a fala de Mariana, que pediu aposentadoria, contudo estava decidida a não ficar em casa, pois o lugar de trabalho tomou as cores de "meu lugar" devido à convivência diária com os colegas, pessoas investidas afetivamente.

Eu não quero ficar em casa, eu pedi pra [supervisora], eu vou pedir a aposentadoria, mas eu quero continuar trabalhando, depende de vocês. (...) É a nossa casa, a nossa casa bem dizer é aqui, porque nós sai de manhã e vai pra casa pra dormir e no outro dia tá de volta. Então, é um ambiente bom, sabe? (Mariana).

Além disso, o trabalho na Alfa compreendia menor quantidade de tarefas do que o realizado em suas casas. O serviço na empresa restringia-se à limpeza seca (varrer, recolher o lixo e passar pano) e à lavação de banheiros e pisos; a descrição dos afazeres domésticos referiuse a lavar e passar roupas, lavar louças, limpar e organizar a casa, lavar banheiros, fazer comida e cuidar de filhos e de outros parentes, principalmente pessoas idosas.

Mas pelo menos, assim, é todo dia a mesma coisa [o trabalho na Alfa]: varrer, passar pano, tira o pó, limpar parede, essas coisa. E... e não tem louça pra lavar, não tem roupa pra estender, não tem que passar (Lúcia).

A grande quantidade de afazeres descrita no serviço doméstico em relação ao tempo escasso para a sua execução fez com que todas as entrevistadas enfatizassem a importância da organização, sobretudo porque, tão importante quanto lavar, passar e cozinhar, era ter tempo para se dedicar à família: conversar com o marido ou companheiro e, principalmente, acompanhar pessoalmente o desenvolvimento escolar e individual dos filhos.

A noção de "cuidado" enquanto atenção social, física, psíquica e emocional às pessoas é um aspecto extremamente importante das relações cotidianas domésticas, citado por Araújo e Scalon (2005) como constitutivo da vida social familiar, ultrapassando um enfoque puramente centrado na realização de atividades mecânicas e rotineiras. Percebemos em nossa pesquisa que cuidar da família foi um componente fundamental dos afazeres domésticos citado nas entrevistas, apresentando elementos emocionais importantes e consumindo grande parcela do tempo dedicado aos serviços domésticos.

A questão da organização do tempo está marcada pela inserção social do indivíduo, seu sexo, faixa etária, formação profissional, entre outras; dessa forma a gestão do tempo fora do trabalho expressa-se de forma muito diferenciada nos diferentes grupos. Estudo realizado com base nos dados da PNAD/IBGE de 2002 por Bruschini (2006, p. 339) demonstra que 68% dos entrevistados responderam afirmativamente à pergunta sobre terem cuidado de afazeres domésticos. Desagregando-se as informações por sexo, destacaram-se as desigualdades de gênero: aproximadamente 90% das mulheres responderam afirmativamente a essa pergunta, enquanto a porcentagem de homens foi de pouco menos de 45%. "A mesma desigualdade se verifica ao considerar, de outro ângulo, o total dos que cuidam de afazeres domésticos (95,5 milhões), segundo o sexo: 68,3% são mulheres e 31,7% homens". Ainda segundo a autora, o tempo semanal dedicado às atividades domésticas é cerca de 27 horas para as mulheres e pouco mais de 10 horas para os homens.

Visando a organização do serviço doméstico, as entrevistadas narraram que revezavam algumas tarefas antes ou depois do trabalho remunerado, enquanto a limpeza geral da casa era feita nos finais de semana. Pouco tempo era destinado para o lazer. A ausência de tempo para o descanso, citada pela maioria, potencializava o cansaço cotidiano. "Ou seja, as formas de viabilizar o cuidado nos âmbitos privado e público, numa dinâmica de tempo cada vez mais marcada por imperativos econômicos, afetam a vida dos homens, mas sobretudo das mulheres" (Araújo & Scalon, 2005, p. 22, itálicos das autoras). Nas palavras de Ana e Mariana:

Como vou dizer, assim... organização, me organizo. Aí tem dias que eu lavo mais roupa, tem dias que eu passo. Isso à noite, né. E... procuro fazer também a janta à noite, pra deixar pronta pra eles [os filhos]. (...) Não tenho muito tempo. E geralmente de fim de semana que eu faço a limpeza mais completa. (...) E aí também tem que ter tempo pra fazer essas tarefas e tem que ter tempo pra conversar com os filhos, eu sempre faço isso, acho uma coisa muito importante, dialogar, dar atenção, saber o dia-a-dia do colégio, como foi. Se tem tarefa, ajudá-los também fazer a tarefa. Eu costumo dormir é entre meia noite, uma hora da manhã (Ana).

Às vezes eu tô cansada. (...) Mas dá-se um jeito, toma um banho, tira o cansaço, vou fazendo um pouco hoje, um pouco amanhã. (...) Cada dia eu divido, até oito, nove horas eu faço tudo. A vida é assim, a vida de todo mundo é assim (Mariana).

O prazer associado ao serviço doméstico apareceu nas falas de Joana e Laura. Elas narraram a importância de manter suas casas limpas, organizadas e bonitas e como isso lhes conferia sentimentos de dignidade. A naturalização das tarefas domésticas em mãos femininas, por vezes, gera identificação com essas atividades e satisfação na sua realização, afinal, sentimentos e emoções surgem na dialética entre a subjetividade e a objetividade, ou seja, não são pulsões naturais nem funções unicamente orgânicas e biológicas. Sentimentos e emoções são objetivações da subjetividade, que, para além da singularidade, expressam determinações morais, éticas e ideológicas complexas. Essas manifestações da afetividade estão pautadas na vida cotidiana: tanto guiam os contatos humanos, como são por estes orientadas. Sentir satisfação na realização do serviço doméstico demarca um modo-mulher de ser históricosocialmente constituído. Também ressaltamos o sentido de visibilização do trabalho por meio dos seus produtos, usufruídos pelo núcleo familiar, proporcionando bem-estar à família e ampliando a noção de "cuidado" (Araújo & Scalon, 2005).

Me sinto bem deixando a minha casa limpinha, ajeitadinha, né, sentido aquele cheiro de limpeza na tua casa. (...) Acho que todo mundo se sente bem na sua casa, limpinha, cheirosa [risos] (Laura).

O trabalho doméstico eu gosto, gosto de limpar meu banheiro bem limpinho, botar um lençolzinho limpo na cama. Gosto de botar meus tapetinhos de crochê na casa, gosto de limpar (...) eu tenho satisfação em fazer o meu serviço (Joana).

É importante apontar que o serviço doméstico realizado na própria casa possui sentidos diferentes de um trabalho remunerado realizado em outras residências. Isso ficou bem evidenciado nas narrativas de Rosa e Lúcia. Ambas tinham histórias parecidas: trabalharam anteriormente como empregada doméstica e faxineira (com e sem carteira de trabalho) e a experiência na Alfa foi a primeira vivenciada em uma empresa. A opinião delas sobre o trabalho anterior foi semelhante: era cansativo, interminável, repetitivo, compreendendo maior quantidade de tarefas do que na empresa e sem os mesmos direitos trabalhistas (por exemplo, é facultativo o depósito do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço aos empregados domésticos). Esses dados assemelham-se aos encontrados por Soratto (2006). Buscando conhecer o modo como o serviço doméstico remunerado mobiliza quem dele se ocupa, a autora encontrou sentimentos de desvalorização social, manifestos nos salários e na precariedade de direitos, dificultando ou impedindo a realização pessoal pelo trabalho. A autora ainda aponta que o abandono do emprego e narrativas de descontentamento com o trabalho foram freqüentes entre as entrevistadas. Observamos esse desagrado em trabalhar na "casa da patroa" nas palavras de Rosa:

Que antigamente eu trabalhava de doméstica. Ah, mas daí eu cansei daquela vida, era muita exploração, muita. (...) Se ficasse até uma hora da manhã acordada tinha serviço. Tu não pára. Que daí tu arruma a janta, daí tu organiza a janta, tira a janta, aquilo tudo, e banho pras crianças, arruma a cama pra uma criança. Daí tudo era comigo. É muito cansativo. (...) Lá [na casa da patroa] eu fazia com mais preocupação. Na minha casa não, eu faço devagarinho, converso com o meu pequeno, sento com ele. "Ô, mãe, vamo ver uma televisão comigo". Eu paro tudo, dou atenção pra ele. E de doméstica não tem como, né, de doméstica tem que correr para dar tempo (Rosa).

A autonomia na organização do tempo na própria casa, descrita por Rosa, traduz uma importante significação acerca do trabalho, afinal eram elas quem regulavam e priorizavam as atividades, determinavam os meios e os ritmos para atingi-las, sem a pressão por "produtividade". Tanto no serviço doméstico, como no remunerado há processos organizativos que são conduzidos visando alcançar determinados objetivos, porém, diferentemente da "casa da patroa", o controle aqui é autogestionário.

 

Considerações finais

Nossas entrevistadas trabalhavam em atividades direta e indiretamente ligadas à LC por salário e sem ele. Os sentidos que atribuíram aos seus trabalhos apontavam para uma multiplicidade de fatores que se entrelaçavam, principalmente, em virtude da complexidade dos movimentos de subjetivação e objetivação sempre em construção, abertos e inacabados. Neste artigo, buscamos analisar alguns sentidos possíveis do trabalho doméstico para essas mulheres a partir dos significados que emergiram em suas narrativas, onde, por meio de uma leitura sócio-histórica, buscamos aproximações e distanciamentos entre as esferas produtiva e reprodutiva de seus cotidianos.

Foi possível destacar a dupla jornada de trabalhos fisicamente desgastantes. Uma aproximação interessante está relacionada ao "peso" do trabalho. O serviço doméstico compreende maior quantidade de tarefas do que aquele realizado na empresa, contudo, aqui há a possibilidade de autogestão dos processos organizacionais. Nas narrativas destacou-se o cansaço gerado na dupla jornada de trabalhos "pesados". Nos finais de semana, quando havia a supressão do trabalho na empresa, as entrevistadas narraram aproveitar o tempo para a realização da limpeza pesada em suas casas pelas conhecidas "faxinas". Isso as enredava ainda mais na trama das lides cotidianas de LC e potencializava a fadiga, pois, como elas narraram, pouco tempo sobrava para lazer, descanso e convivência familiar.

Outro destaque deu-se na subordinação da reprodução à produção. Todas as entrevistadas narraram que elas eram "responsáveis" pelo serviço doméstico em seus domicílios, enfatizando a imagem de "obrigação feminina" que esse trabalho carrega. O serviço doméstico foi descrito como possuindo pouca margem de divisão ou cooperação – os outros moradores da casa participavam, mas quando isso acontecia, era na condição de "ajudantes". Em algumas narrativas, percebemos que o serviço doméstico pautou a forma de inserção da mulher no mercado laboral, pois, principalmente por serem oriundas das camadas populares, elas não tinham condições financeiras de delegar as tarefas da casa e o cuidado com os filhos pequenos.

Outra característica foi a perpetuação geracional do trabalho doméstico em mãos femininas, por meio da iniciação das filhas mulheres às tarefas cotidianas na condição de aprendizes. As crianças subjetivam essas significações – que emergem nas relações entre as pessoas – e vão forjando em seus imaginários os lugares ocupados pelo masculino e pelo feminino. A família é o espaço por excelência da produção material e simbólica da vida cotidiana. Assim, para além de conhecimentos práticos, os ensinamentos passados de mãe para filha também transmitem a ideologia da maternidade e da domesticidade, por uma rede de sentidos social e culturalmente construída. O trabalho doméstico, então, passa a ser concebido como fatalidade, conseqüência direta de ser mulher.

Além disso, o trabalho doméstico apresentou um componente emocional que não se evidenciou no trabalho remunerado, pois, além das tarefas concretas, era importante "cuidar" da família, destinando atenção física, psíquica e emocional aos filhos, cônjuge e demais parentes. Esse componente emocional também apareceu associado ao prazer na realização do serviço doméstico, nos sentimentos de satisfação em servir ao núcleo familiar e expor a "casa limpinha e cheirosa".

O trabalho doméstico surgiu dotado de certo "heroísmo", valorizando a dignidade da submissão e da abnegação da mulher. Percebemos nas entrevistas que esse lócus ocupado pelo feminino não foi um ponto questionado, no máximo ocorreram algumas queixas relacionadas especificamente ao tipo de serviço – ser cansativo, cíclico, isolado, subestimado, invisível. Como no sexto trabalho de Hércules8, a devoção heróica a esse tipo de serviço socialmente desvalorizado apresenta um "quê" nobre e generoso e, também, mantém o status quo.

Considerar o serviço doméstico como "trabalho de mulher" significa tratá-lo como expressão de atributos inatos aos indivíduos e diferentes entre os sexos. Essas mulheres não colocaram em dúvida essas naturalizações nem mesmo diante do evidente acúmulo de tarefas fisicamente desgastantes. Nesse aspecto, a mulher que exercia as atividades domésticas não foi encarada como trabalhadora, mas como uma simples peça na engrenagem que funcionava conforme as regras sociais, tornando "natural" as relações sociais de gênero. Como resume Mariana "A vida é assim, a vida de todo mundo é assim". Sem questionar sua legitimidade, essa ideologia é repassada às futuras gerações, perpetuando destinos biologicizados, essencializados e legitimadores de desigualdades, nos quais subjetivamos e objetivamos essa postura, "encarnada" na base afetivo-volitiva que orienta nosso pensar e faz o alicerce de nossos projetos de ser.

 

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Endereço para correspondência
E-mail: mafediogo@bol.com.br, maheirie@cfh.ufsc.br

Recebido em: 30/04/2008
Revisado em: 29/07/2008
Aprovado em: 18/08/2008

 

 

1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina.
2 Professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutora em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.]
3 A psicologia sócio-histórica vem se desenvolvendo, no Brasil, desde a década de 1980 e tem suas raízes nas obras de pensadores russos como Vygotski, Luria, Leontiev e outros (Bock, Gonçalves & Furtado, 2001). Com base epistemológica ancorada no materialismo histórico e na dialética, sua precursora no Brasil foi Silvia Lane, falecida em 2006. Atualmente, o GT "Psicologia sócio-histórica e o contexto brasileiro de desigualdade social", sob a coordenação de Bader Burihan Sawaia, tem produzido investigações visando o desenvolvimento dessa perspectiva no campo teórico-metodológico.
4 A preocupação com sentidos ou significados que os sujeitos atribuem à realidade é clássica para a psicologia. A revisão da literatura realizada por Tolfo, Coutinho, Almeida, Baasch e Cugnier (2005) identificou quatro abordagens teóricas sobre o tema: a sócio-histórica, a construcionista, a cognitivista e a humanista. Os autores apontam um ponto comum das diferentes vertentes: significados e sentidos são sempre produzidos pelos sujeitos a partir de suas experiências concretas.
5 Os nomes da empresa prestadora de serviços e das entrevistadas são fictícios.
6 A Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística introduziu duas perguntas sobre afazeres domésticos: "realizou serviços domésticos na semana de referência?" (em 1992) e "quantas horas dedica por semana aos afazeres domésticos?" (em 2001), respondendo a antigas demandas de pesquisadoras feministas (Bruschini, 2006).
7 Ver Diogo e Maheirie (2007) e Diogo (2005).
8 Esse "heroísmo" lembrou-nos um dos doze trabalhos de Hércules, a limpeza dos currais Augianos. O Rei Áugias de Élida possuía grandes rebanhos de gado, cujos currais nunca tinham sido limpos e o estrume tinha vários metros de profundidade. Hércules foi encarregado de limpar os estábulos em um único dia, tarefa impossível, mas ele resolveu a situação desviando o curso de um rio.

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