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Natureza humana

versão impressa ISSN 1517-2430

Nat. hum. v.6 n.1 São Paulo jun. 2004

 

ARTIGOS

 

Imposturas intelectuais: algumas reflexões

 

Intellectual impostors: some reflections

 

 

Jairo José da Silva

UNESP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

neste artigo, relato os aspectos mais salientes do affair Sokal-Bricmont - uma paródia que evoluiu para uma crítica articulada dos excessos de um certo pensamento pós-modernista - e analiso algumas das reações que suscitou em artigos publicados na Folha de S. Paulo. Termino com algumas reflexões sobre a nefasta negligência para com as ciências exatas na educação em geral e, em particular, na formação dos profissionais das áreas de filosofia e ciências humanas.

Palavras-chave: Pós-modernismo, Sokal e Bricmont.


ABSTRACT

in this paper I summarize some of the most relevant aspects of the so-called Sokal and Bricmont affair - a parody that evolved to a full-fledged criticism of the excesses of post-modernism - and analyze the reactions it elicited in some articles published in Folha de São Paulo. I close with a reflection on the unfortunate neglect of the exact sciences in education in general and, in particular, the education of philosophers and social scientists.

Keywords: Post-modernism, Sokal and Bricmont.


 

 

A história é conhecida, mas convém relembrá-la. Em 1996, um professor de Física da Universidade de Nova York, Alan Sokal, publicou, na revista de estudos culturais Social Text, um artigo com o suspeito título "Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica".

Social Text é uma revista simpática ao ideário pós-moderno, o que significa dizer que, para ela, alguns dos pressupostos mais basilares das ciências naturais, como a existência de uma realidade independente e a possibilidade de se obterem verdades objetivas a seu respeito, não passam de instrumentos ideológicos a serviço de interesses mais ou menos escusos. Para o pós-modernista, a ciência é apenas mais um "discurso" - ou "narrativa" - entre tantos outros, como religião e ética, cuja "verdade" está em relação direta com o seu papel nas relações sociais de poder e, mais precisamente, a quão bem ele serve o grupo dominante nesse jogo. O título mesmo da revista é uma profissão de fé: a ciência é um "texto" socialmente produzido.

O artigo de Sokal pretendia "mostrar" que a ciência contemporânea, em particular uma suposta já existente teoria quântica da gravitação, minava certos "dogmas metafísicos" da ciência tradicional, a saber, que existe uma realidade independente regulada por leis em princípio cognoscíveis, e que esse conhecimento, quase sempre imperfeito, pode ser aperfeiçoado seguindo-se à risca os preceitos do método científico. Segundo o Sokal pós-modernista de "Transgredindo as fronteiras", "as disciplinas ligadas à crítica social e cultural [podem] ter algo a contribuir" para a ciência, mostrando-lhe a invalidade objetiva de seus pressupostos dogmáticos. Para ele, a crítica social e cultural mostra que

[A] "realidade" física, não menos que a "realidade" social, é no fundo uma construção social e lingüística; que o conhecimento "científico", longe de ser objetivo, reflete e codifica as ideologias dominantes e as relações de poder da cultura que o produziu; que as afirmações da ciência são intrinsicamente dependentes da teoria e auto-referenciais; e, em conseqüência, que o discurso da comunidade científica, apesar de seu inegável valor, não pode pretender um status epistemológico privilegiado em relação às narrativas anti-hegemônicas emanadas das comunidades dissidentes ou marginalizadas.

O artigo termina apontando na direção de uma nascente ciência pós-moderna livre dos conceitos de verdade e realidade objetivas e a serviço de fins e interesses progressistas. Na busca afoita desses objetivos o autor desse artigo supostamente sério massacra a ciência e o bom senso todas as vezes que pode. Alguns exemplos: ele coloca em pé de igualdade uma teoria científica - a teoria quântica - e teorias no estilo "Nova Era", como uma certa teoria dos campos morfogenéticos; afirma a mutabilidade da constante matemática p - a razão entre o perímetro e o diâmetro de qualquer circunferência - e não das estimativas desse valor ao longo da história; apresenta a teoria matemática dos números complexos como uma teoria física, ao lado da mecânica quântica e a teoria do caos (ela também uma teoria matemática); associa o axioma da escolha da teoria dos conjuntos (que afirma que podemos montar um conjunto escolhendo um elemento de cada um dos conjuntos de uma coleção não vazia de conjuntos não vazios) com o liberalismo do século XIX e o movimento pelo direito ao aborto chamado de "direito de escolha" ("right to choose"); leva o construtivismo cultural ao paroxismo afirmando que a própria realidade física (e não nossas teorias sobre ela) é um constructo social e lingüístico; pressupõe a existência de uma teoria física - a teoria quântica da gravitação - que ainda está a duras penas sendo elaborada, atribuindo-lhe conseqüências absurdas; e inúmeras outras sandices do gênero.

Sokal temperou esse caldo indigesto de modo a torná-lo apetecível ao gosto pós-moderno com uma quantidade enorme de citações e referências bibliográficas (sempre verídicas), cuja função precípua era substituir o argumento e a lógica pela força da autoridade, além do uso freqüente de termos "pós-modernos" como complexidade, não-linearidade, não-localidade, incerteza (sempre associado ao princípio de incerteza de Heisenberg), relatividade, descontinuidade e que tais.

Qualquer referee que lesse esse artigo e que tivesse um mínimo de formação científica (digamos, equivalente à de um segundo grau completo) seria certamente assaltado por sérias dúvidas (e por convulsões de riso, se tivesse cursado pelo menos Física I em nível universitário), mas Social Text aceitou-o e publicou-o.

Ato contínuo, Sokal escreveu outro artigo revelando que tudo não passara de uma paródia escrita com a finalidade de desmascarar absurdos pós-modernistas que passam por reflexão séria, ridicularizar a estratégia de mistificação que alguns autores pós-modernos freqüentemente adotam - junto com o palavreado oco, pomposo e ininteligível (mas supostamente profundo) que acompanha o pacote -, e, em última análise, denunciar o desserviço que prestam à causa libertária que crêem promover e ao diálogo necessário entre as ciências sociais e naturais. Pega com as calças nas mãos, a Social Text decidiu não publicar esse segundo artigo, alegando não reconhecer nele o "padrão intelectual" exigido. Mas a confissão da farsa foi publicada, ainda em 1996, em outras revistas. No ano seguinte, em associação com o professor de Física Teórica da Universidade de Louvain, Jean Bricmont, Sokal publica na França o livro Impostures Intellectuelles (Sokal e Bricmont 1999), em que a paródia de "Transgredindo as fronteiras" adquire os contornos de uma crítica articulada às claras. E, principalmente, dão-se nomes aos bois, todos gordos bois franceses. A partir daí a coisa adquiriu dimensões de um escândalo internacional.

A reação dos criticados e seus admiradores e seguidores (inclusive no Brasil) foi irada. Sokal e Bricmont foram acusados de tudo o que há de mal e pior. Em especial, de mascarar suas verdadeiras intenções: atacar a filosofia francesa e municiar a direita ideológica. Mas quem quer que leia com atenção e sem parti pris o livro de Sokal e Bricmont há de reconhecer, se não lhe falta honestidade intelectual, que os autores são extremamente cautelosos com suas críticas, sempre muito bem focadas e substanciadas, evitando generalizações indevidas e extrapolações indesejadas, e que, além disso, ambos identificam-se como homens de esquerda, que até simpatizam com certos objetivos da crítica cultural, mas que se recusam a cooptar com métodos desonestos de convencimento (que não podem ser chamados de argumentação), erros grosseiros e mistificação desenfreada.

O que poderiam fazer os autores criticados (e seus peões intelectuais) diante de tal desnudamento? Admitir que, sim, o rei está nu? Pedir desculpas pelos trajes (ou falta de)? Claro que a estratégia óbvia era procurar motivações escusas na paródia e no livro, o que transferiria para Sokal e Bricmont a pecha de logro e engodo. Os atingidos, como afogados de um barco a pique, foram lépidos em abraçar essa tábua de salvação (mas tantos se agarraram ofegantes que ela, de pesada, foi ao fundo). Outra estratégia de defesa adotada é conhecida de todo marido infiel: negue sempre, mesmo ante as evidências mais incontestáveis. Essa também foi largamente utilizada, em particular sob a forma: isso que escrevemos (já que está no papel e não dá para negar) não é o que vocês estão pensando, mas apenas metáforas (ou analogias) que só mesmo cientistas pouco sofisticados e avessos ao estilo da prosa filosófica podem tomar literalmente.

Um sinal evidente de que os petardos lançados por Sokal e Bricmont atingiram o alvo é que ninguém logrou desmenti-los, mostrando, por exemplo, que, sim, o(s) teorema(s) de incompletude de Gödel (um favorito) têm, de fato, algo a dizer sobre sistemas sociais (e não apenas sistemas axiomático-dedutivos formais de um certo tipo) ou que, sim, os argumentos de Bergson refutam efetivamente a teoria da relatividade de Einstein, ou, ainda, que a independência da hipótese do contínuo (o contínuo tem a menor cardinalidade infinita não-enumerável) dos outros axiomas da teoria standard dos conjuntos tem, sim, como conseqüência o triunfo da política sobre o realismo sindical (essa pérola é de Alain Badiou, citada em Imposturas Intelectuais à página 179). Mesmo aqueles que não viram essas críticas com bons olhos (para dizer o mínimo), reconheceram que não se poderia atacá-las diretamente. Daí a predileção pelo ataque enviesado, via as estratégias acima mencionadas.

Um apanhado minimamente compreensivo dos desdobramentos do affair Sokal e Bricmont excederia de muito as pretensões deste artigo, por isso limito-me a alguns poucos ecos e respingos, especialmente na imprensa brasileira. Mas uma reação que não se pode ignorar é de um dos melindrados mais notáveis, Jacques Derrida. Num artigo publicado no Le Monde de 20 de novembro de 1997 com o título "De Gauleano": "Sokal e Bricmont ne sont pas sérieux" ("Sokal e Bricmont não são sérios") Derrida se defende como pode e ataca quando possível. Para começar, espertamente, lembra o leitor que ele não é assim tão criticado por Sokal e Bricmont. Logo depois desfere o primeiro golpe baixo. "Lamenta" que o "pobre" Sokal não seja conhecido por nenhum trabalho científico, mas apenas pela farsa que criou (eu me pergunto como ele sabe disso, imagino-o buscando sofregamente na Internet qualquer menção a trabalhos de Sokal). Depois acusa a dupla Sokal e Bricmont de atacar só os franceses e especialmente esses franceses (o que, de imediato, muda as características do embate, trazendo-o para a arena dos preconceitos chauvinistas e das motivações políticas: cultos franceses civilizados contra bárbaros caipiras americanos ou americanófilos - Bento Prado Jr. prefere o inadequado termo red neck -, esquerda versus direita).

Mas a principal estratégia de defesa de Derrida é apelar para a liberdade de uso filosófico de metáforas científicas. Nice try, but it doesn't work. O fato é que nas pouquíssimas vezes em que há realmente um uso metafórico da ciência, a coisa melhora muito. Um exemplo merece menção. Sokal e Bricmont citam a seguinte passagem de Lacan (Sokal e Bricmont 1999, p. 37):

Se vocês me permitem usar uma dessas fórmulas que me ocorrem quando escrevo minhas anotações, a vida humana poderia ser definida como um cálculo no qual o zero seria irracional. Esta fórmula é apenas uma imagem, uma metáfora matemática. Quando digo "irracional", não estou me referindo a algum estado emocional insondável, mas exatamente àquilo que é chamado número imaginário. A raiz quadrada de menos um não corresponde a nada que esteja sujeito à nossa intuição, nada de real - no sentido matemático do termo -, e no entanto precisa ser mantida, juntamente com suas funções complexas.

Sokal e Bricmont notam, corretamente, que Lacan confunde número irracional com número imaginário (um número irracional é sempre real, portanto não imaginário). Na melhor das hipóteses, digo eu, Lacan utiliza o termo "irracional" de modo ambíguo e sugestivo de confusão. Mas, apesar do uso abusivo e freqüentemente ininteligível que ele faz da metáfora matemática, pelo menos no trecho acima ela faz sentido e me parece até interessante. Os números imaginários (raízes quadradas de números negativos) apareceram na matemática há muito tempo (por volta do século XVI) como entidades em si sem sentido, mas desempenhando, apesar disso, um papel importante no contexto geral das manipulações algébricas, o que no fim lhes conferia algum sentido global (hoje, no entanto, os números imaginários têm em si mesmos um sentido matemático perfeitamente estabelecido). Pensar a vida humana como um número imaginário antes do século XIX, desprovida em si de sentido, mas exigindo ser mantida a despeito disso em função de um contexto mais amplo, parece-me pelo menos uma metáfora legítima.

Mas eu não consigo encontrar outro exemplo de uso metafórico de conceitos científicos nas muitas citações de Imposturas Intelectuais ou "Transgredindo fronteiras". Está claro (pelo menos para mim) que os autores citados por Sokal e Bricmont não compreendem a ciência que pretendem usar (o que já invalida até o seu uso metafórico, se esse fosse mesmo o caso), talvez saibam que não a compreendem (e se não o sabem, deveriam), e mesmo assim posam como connaisseurs (o que caracteriza desonestidade intelectual) ou, ainda, na pior das hipóteses, saibam que não conhecem a ciência que utilizam, mas o façam explicitamente para criar uma aura de "seriedade científica" para suas especulações e devaneios (o que é nada menos que charlatanismo). Convenhamos que é difícil, diante dessas alternativas, empenhar-se, como sugere Lacan, numa discussão séria. Se Sokal preferiu a farsa é porque não se pode levar a sério esse tipo de prestidigitação intelectual. Fazê-lo é já desculpá-la.

Mas eu quero agora me concentrar em algumas reações brasileiras ao affair Sokal e Bricmont, algumas a favor, outras contra. As favoráveis o são por boas ou más razões, as contra, sempre por más. A 15 de setembro de 1996, Cláudio Weber Abramo publicou um artigo na Folha de S. Paulo ("O telhado de vidro do relativismo") em que confessava que a farsa de Sokal realizava uma antiga fantasia sua. No geral, o artigo de Cláudio Abramo é um canto de louvor às intenções de Sokal e o modo como as realizou. Já no artigo de Roberto Campos ("A brincadeira de Sokal..."), publicado no mesmo jornal, a coisa muda. Figura de proa da Ditadura de 64, Roberto Campos não desperdiçou a chance de tentar fazer a crítica de Sokal respingar sobre a filosofia como um todo, especialmente a que identifica como "de esquerda'.

O artigo de Roberto Campos começa equiparando a crítica pós-moderna à oposição stalinista à teoria da relatividade (vista como ciência judia) e à genética de Mendel (contrária à teoria de Lissenko, a prata da casa), mas "esquece" as "teorias científicas" racistas dos nazistas e fascistas. Na continuação, tenta identificar o mau trato pós-modernista da ciência com a crítica esquerdista à direita ideológica, como se o pensamento de direita fosse simplesmente a ciência e o de esquerda a encarnação viva do obscurantismo. A desonestidade dessa tentativa é tão evidente que dispensa comentários.

Porém, algumas afirmações de Roberto Campos merecem destaque. Diz ele que "[n]ão é de hoje, naturalmente, que pensadores sérios reclamam contra o facilitário com que praticantes das chamadas `ciências sociais' - e da filosofia - abusam dos critérios de racionalidade e da semântica, às vezes em defesa de interesses ideológicos imediatistas". Bem, ele devia entender de abusos da inteligência para fins ideológicos (como esse seu artigo demonstra). Mas o que teria querido dizer Campos, que as (chamadas) ciências sociais não existem ou que não são de fato ciências? Mesmo uma das mais ilustres, a economia? Que todos os praticantes da filosofia, de Platão a Wittgenstein, abusam de critérios de racionalidade? Ou só alguns deles e, neste caso, quem são os "pensadores sérios"?

Ele nos indica algumas respostas no parágrafo seguinte, pela menção à crítica de Carnap a não especificados "filósofos da moda". Certamente ele está se referindo à crítica de Carnap à filosofia de Heidegger, "esquecendo" que ela provém de outra filosofia, não de um suposto campo neutro da ciência. Mas ainda mais surpreendente é a afirmação de que os "esforços críticos", entre eles a "desconstrução" "pode[m] ser útil[úteis] para balizar nosso pensamento e mostrar alguns dos nossos limites". Esses esforços, segundo ele, são muito antigos, e originaram os paradoxos eleáticos, o paradoxo de Russell, e um outro paradoxo não especificado, sobre o qual supostamente se debruçou Gödel. Essas afirmações são dignas dos autores criticados por Sokal e Bricmont. Em primeiro lugar, nem os paradoxos de Zenão, nem o paradoxo do mentiroso, nem os paradoxos lógicos, nem os da teoria dos conjuntos têm nada a ver como "nossos limites", entendidos em algum sentido como limites da nossa capacidade de pensamento racional. Depois, Gödel, efetivamente, utiliza na demonstração de seus teoremas de incompletude (há dois deles) uma técnica que lembra uma forma do paradoxo do mentiroso, mas não há nada de paradoxal nessas demonstrações - nem podem esses teoremas ser interpretados como impondo algum limite ao pensamento. Roberto Campos seguramente não entendia muito desse assunto. O artigo termina exortando os brasileiros a praticar a semântica do sujeito-verbo-predicado. (Não seria a sintaxe?)

Sokal responde ao artigo de Roberto Campos na Folha de S. Paulo de 6 de outubro de 1996 ("A razão não é propriedade privada"). Obviamente, Sokal critica Roberto Campos por recrutá-lo "para sua cruzada ideológica direitista", pois, como Sokal reafirma, ele é um homem de esquerda e sua farsa tinha o objetivo político de fortalecê-la pela crítica de seus excessos.

Nesse mesmo número da Folha de S. Paulo há um artigo de Jesus de Paula Assis ("As razões do relativismo civilizado") em que se faz uma distinção entre um relativismo "civilizado" ("a ciência natural assenta em bases que têm condicionantes históricos e sociais") e um relativismo "enlouquecido" ("esses condicionantes são totalmente responsáveis pelo conteúdo das asserções científicas"). Segundo Jesus de Paula Assis, Sokal confundiu indevidamente esses dois relativismos, jogando na mesma vala comum Feyerabend e Derrida. Ademais, segundo o autor, Sokal escolheu um adversário fraco para o seu "experimento", já que, ainda segundo ele, Social Text é uma revista inexpressiva nas áreas de filosofia e sociologia da ciência.

Há outras críticas pertinentes nesse artigo de Jesus de Paula Assis. De fato, não se pode negar, como ele acha que Sokal nega, que há estudos sérios sobre os condicionantes sociais da produção científica. O que não quer dizer de modo nenhum, eu afirmo, que a ciência, por ser um produto cultural, não tenha validade objetiva. Confundir isso é confundir contexto de descoberta com contexto de justificação.

Já o artigo de Olavo de Carvalho ("Sokal, parodista de si mesmo"), publicado na Folha de S. Paulo de 21 de outubro de 1996, é apenas um achaque de direitismo. Esses autor, uma figura que orbita os círculos periféricos da vida intelectual carioca, é um desses anticomunistas ardorosos que se viram privados de seus moinhos de vento com a derrocada do comunismo, mas que continuam com a sua catilinária habitual porque é só isso que sabem fazer. Desta vez, veio à luz para criticar Sokal pela sua resposta ao artigo de Roberto Campos, ambos já mencionados acima. Segundo ele, a paródia de Sokal atinge toda a esquerda sem exceções, até o próprio Sokal. Esse ponto de vista é "sustentado" por um "argumento" de ordem moral: que tenha havido esquerdistas que aplaudiram a paródia de Sokal é apenas um episódio de malandrismo autopreservatório, pois esses esquerdistas são assim mesmo, entregam os anéis (i.e. traem) para não perder os dedos. Segundo Olavo de Carvalho, não se pode deslindar o nó da esquerda. Será, eu me pergunto, que isso também vale para a direita, Olavo de Carvalho se sente irmanado a fascistas e co-responsável pelos seus atos? (E em seu artigo Roberto Campos havia se referido a Olavo de Carvalho como um "filósofo de grande erudição"!)

Saltando um par de anos, a Folha de S. Paulo publicou, em 11 de abril de 1998, uma resenha do livro de Sokal e Bricmont assinada pelo matemático Roberto Fernández ("O rei está nu"). Apesar de resumir os pontos centrais de Imposturas Intelectuais, Roberto Fernández comete alguns deslizes. Segundo ele, o livro de Sokal e Bricmont tem uma posição filosófica que "contraria o relativismo cognitivo e questiona as teses de Popper, Quine, Kuhn e Feyerabend (que nutrem o ceticismo epistemológico)". Na verdade, as menções a esses autores na obra em questão não permitem tal conclusão. Além disso, qualquer pessoa que conheça, de fato, esses autores não pode sequer sonhar em colocá-los no mesmo saco com os pós-modernistas cujas "idéias" e estilo Sokal parodiou e Sokal e Bricmont criticaram. Os estudos de Kuhn e Feyerabend em história e filosofia da ciência, o estilo elegante e claro da prosa de Quine, a profundidade do pensamento de Popper não têm rigorosamente nada a ver com a ignorância científica, o nonsense da expressão e a desonestidade intelectual expostas por Sokal e Bricmont.

O último artigo que quero comentar é talvez o mais interessante. Escrito por Bento Prado Jr. foi publicado na Folha de S. Paulo, Jornal de Resenhas, de 9 de maio de 1998 ("Quinze minutos de notoriedade"). Comecemos com as epígrafes. A primeira lembra, corretamente, que realismo e idealismo são já posturas filosóficas. E que, portanto, infere-se, não se pode querer que uma crítica realista (como pode ser interpretada a crítica de Sokal e Bricmont) seja filosoficamente isenta. A segunda, de Wittgenstein, afirma (e aqui Bento Prado desfere um golpe baixo) que "matemáticos são maus filósofos". Bem, claro que, do ponto de vista da concepção de filosofia de Wittgenstein, até Platão é mau filósofo. Mas se entendermos filosofia como usualmente se entende, basta lembrarmo-nos de Leibniz, Descartes, Husserl, Frege ou Bolzano, todos eminentes filósofos e todos matemáticos profissionais, para neutralizar o veneno dessa epígrafe.

Bento Prado não gosta do livro de Sokal e Bricmont. Ao que parece, o que mais lhe desagrada são a imprecisa delimitação - ele crê - do objeto de ataque do livro e a epistemologia de seus autores. Mas o tom da crítica é tão rancoroso que se desconfia de algo mais. Bem, Sokal e Bricmont dedicam o capítulo 11 de Imposturas Intelectuais a Bergson e seus sucessores. Como se sabe, Bergson se meteu a disputar com Einstein sobre a teoria da relatividade, errou, foi corrigido, mas o erro persiste ainda nas hostes pós-modernas, como mostram Sokal e Bricmont. Ora, Bento Prado é tido como um "expert" em Bergson, e ademais ele gosta de Bergson. Voilà, tout est compris.

Bento Prado tenta "livrar a cara" de Bergson, afirmando que ele não criticou a teoria de Einstein, mas apenas as suas interpretações filosóficas, e que, além disso, Bergson se retratou dos erros de seus argumentos técnicos. Sokal e Bricmont responderam a Bento Prado na Folha de S. Paulo, Jornal de Resenhas, de 13 de junho de 1998 ("Imposturas e fantasias"), mostrando que nenhuma das afirmações corresponde à verdade.

Certamente, houve outras manifestações contra e a favor do livro de Sokal e Bricmont no Brasil, mas eu as desconheço. Em todo o caso, as acima mencionadas dão uma idéia das paixões envolvidas, aqui e alhures. O affair todo é muito esclarecedor, e até educativo, se bem que pelos piores meios, e muitas lições podem ser tiradas desse vexame. A mais interessante, pelo menos para mim, é a constatação da situação ambígua que goza a ciência na sociedade de hoje.

Mais do que em qualquer outra época da história, estamos envolvidos pela ciência e pela técnica, mesmo nas situações mais comezinhas. Talvez não se passe uma hora sem que a ciência mais sofisticada se esmiúce em nossas vidas, sob as formas mais variadas e insuspeitas. Mas, ao mesmo tempo, esta é uma época de um quase escandaloso desprezo pela ciência própria e verdadeira. Basta abrir um jornal ou revista, passar uma vista d'olhos pela lista de best sellers, passear pelos canais de TV, conversar com pessoas, até as mais bem educadas, para constatarmos a reverência que se presta a toda e qualquer forma de charlatanismo, chamanismo, pseudociência e embuste, não importa o que, desde que ofereça alguma espécie de conforto, um porto seguro para a complexidade da existência e, claro, ofenda a razão e a lógica sem dó nem piedade.

Talvez essa seja uma forma de a ignorância e o obscurantismo prestarem uma homenagem à ciência, imitando-a de modo grotesco e ridículo para se apropriarem da sua "aura" de respeitabilidade. Muitos homens comuns ou um ou outro intelectual humanista conhecem o poder da ciência, mas não se dispõem a aprendê-la - o que demandaria um tempo em geral indisponível e um esforço que a educação formal, quando é o caso, não fez nada para abrandar. Isso cria as condições ideais para o vicejar dos charlatanismos diversos, y compris os absurdos criticados por Sokal e Bricmont. Pois, que diferença há em trazer os teoremas de Gödel como suporte de teorias políticas e "explicar" o poder curativo dos cristais por suposta "energia telúrica"? Tout se tient, crêem os astrólogos e os que confundem sistemas termodinâmicos e sistemas sociais só porque são ambos, em algum sentido do termo, sistemas.

Uma pessoa tida por culta se envergonharia de ser flagrada incapaz de diferenciar concretismo de futurismo, mas essa mesma pessoa se orgulha de "odiar" a matemática e ignorar o que seja um fenótipo. Num filme delicioso - Zelig -, Woody Allen mostra as agruras por que passa um pobre coitado que se crê obrigado a mentir que leu Moby Dick. Pode-se imaginar algo semelhante com alguém que desconheça o teorema de Pitágoras? E pensar que Platão requeria anos de estudo de matemática dos guardiões de sua república antes de submetê-los ao estudo da filosofia!

Mas qual curso superior de Filosofia tem ciências e matemática em seu currículo? Esquece-se que Descartes ou Leibniz são incompreensíveis se dissociados de suas matemáticas, que as maiores criações do espírito humano dos últimos dois séculos vêm das ciências "duras", e que as modernas inovações em engenharia genética, por exemplo, levantam imensas questões éticas (e de Ética, quando muito, só se discute a de Espinosa; necessária, mas não suficiente).

É nesse "caldo de cultura" que se perpetram as imposturas intelectuais de todos os matizes, pós-modernas ou "nova-eristas". Uma nova ênfase no ensino científico, inclusive para as humanidades, talvez fosse uma boa vacina para os bacilos aí fermentados.

 

Referência

Sokal, Alan e Bricmont, Jean 1999: Imposturas Intelectuais. Rio de Janeiro, Record.

 

 

Endereço para correspondência
E-mail: jairomat@linkway.com.br

Recebido em 31 de abril de 2004
Aprovado em 8 de dezembro de 2004