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Natureza humana

versão impressa ISSN 1517-2430

Nat. hum. vol.19 no.1 São Paulo jul. 2017

 

DOSSIÊ

 

Dificuldades na transmissão da psicanálise: dossiê em comemoração aos 100 anos de publicação das Conferências introdutórias à psicanálise

 

Difficulties in the transmission of psychoanalysis: a dossier commemorating the 100th anniversary of the publication of the Introductory Lectures on Psychoanalysis

 

 

Caroline Vasconcelos Ribeiro1, I; Suely Aires2, II

IUniversidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
II
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar o segundo volume do Dossiê em comemoração aos 100 anos de publicação das Conferências introdutórias à psicanálise, de Sigmund Freud. Ao longo do texto, seguimos a argumentação freudiana, indicando as dificuldades na transmissão da psicanálise, em especial em relação à objetividade da formação médica em contraposição ao tratamento psicanalítico. Este último é baseado em trocas de palavras entre o analisando e o médico, o que, adverte Freud, não se mostra visível ou palpável. Nesse sentido, é necessária uma mudança de leitura dos fenômenos em questão. Propomos ainda, ao final da apresentação, comentar, de modo resumido, cada artigo que compõe o dossiê.

Palavras-chave: Freud; conferências introdutórias; filosofia da psicanálise.


ABSTRACT

The present article aims to present the second volume of the Dossier in commemoration of the 100 years of publication of the Introductory Lectures to Psychoanalysis, by Sigmund Freud. Throughout the text, we follow the Freudian argument, indicating the difficulties in the transmission of psychoanalysis, especially in relation to the objectivity of medical formation, what is in opposition to the psychoanalytic treatment. The psychoanalysis is based on exchanges of words between the patient and the analyst and this practice, Freud warns, is not visible or palpable. In this way, it is necessary a change of interpretation of the phenomena in question. We also propose, at the end of the presentation, to comment, briefly, each article that composes the dossier.

Keywords: Freud; Introductory lectures; Philosophy of psychoanalysis.


 

 

Este artigo tem o objetivo de apresentar o segundo volume do Dossiê em comemoração aos 100 anos das Conferências introdutórias à psicanálise. Tais conferências foram proferidas por Freud no inverno dos anos de 1916 e de 1917 para um público composto de médicos e leigos. As palestras foram divididas em três partes: "os atos falhos", "os sonhos" e "teoria geral das neuroses". Dada a importância desta obra para a divulgação e transmissão do saber psicanalítico, a revista Natureza Humana apresenta um dossiê em comemoração aos 100 anos de sua publicação, dividido em dois volumes. Na apresentação do primeiro volume, destacamos o esforço freudiano em introduzir as ideias centrais da psicanálise com bastante perícia argumentativa. Nesta apresentação – relativa ao segundo volume do dossiê –, destacaremos as dificuldades que Freud teve que lidar com relação à transmissão da psicanálise para um público sem familiaridade com esse campo.

Nas duas primeiras etapas das conferências – "os atos falhos" e "os sonhos", proferidas em 1916 –, Freud apostou numa linguagem informal e na possibilidade de o público reconhecer os fenômenos em questão. Os sonhos e atos falhos não são eventos desconhecidos e, por conseguinte, os ouvintes podiam recorrer a experiências prévias e acompanhar o argumento do pai da psicanálise. Já os temas que foram considerados no inverno de 1917, ou seja, na terceira fase das conferências – relacionada a uma teoria geral das neuroses e a aspectos da clínica psicanalítica –, eram fruto de um trabalho árduo e aprofundado, decorrente de uma prática que não era familiar aos interlocutores. Para Freud (2014, p.266), não só o público em geral não tinha contato habitual com pacientes neuróticos, como também os médicos3. Estes prestavam tão pouca atenção ao que diziam os doentes dos nervos que obstruíam a possibilidade de efetuar observações acuradas a respeito do assunto. Essa condição impeliu Freud a emitir um alerta para que o ímpeto para julgar e condenar fosse contido em prol de uma escuta atenta; alerta que se mostrou válido tanto para os médicos diante de seus pacientes quanto para a plateia diante do orador.

Na primeira conferência da terceira fase – intitulada "Psicanálise e psiquiatria" –,Freud (2014, p.266) confessa ter consciência de que seus opositores pensam que suas afirmações e argumentos são formados por "ideias puramente subjetivas" e baseiam-se em meras especulações. Em contrapartida, assevera aos ouvintes que a psicanalise é uma "expressão direta da observação", é resultado de uma elaboração teórica baseada numa consistente experiência prática. Por isso, se sente no direito de se apegar às suas convicções com tenacidade. O que não significa que estas não possam ser revistas, alteradas e até mesmo substituídas.

Freud lembrou aos ouvintes que já havia operado mudanças em pontos importantes de sua ciência e as tornado públicas. Muitos opositores da psicanálise, por nem sequer tomarem conhecimento disso, estavam a lhe criticar por teses que já tinham sido abandonadas ou reformuladas. Ou então, lhe criticavam justamente por tais reformulações, como se a flexibilidade para mudar e revisar conceitos a partir da experiência fosse algo que tornasse seu campo de saber indigno de confiança. Ora, problematizou o palestrante, se o pesquisador muda de opinião não merece crédito porque a nova posição pode ser tão equivocada quanto a anterior que foi abandonada, em contrapartida, se se apega ferrenhamente às suas declarações é visto como teimoso e obstinado. O que fazer diante dessas imputações contraditórias dos críticos, a não ser conduzir sua pesquisa de acordo com o seu próprio julgamento? Eis a questão e a saída que Freud apontou. Em função disso, afirmou aos seus ouvintes: "[…] não admito que me impeçam de modelar e corrigir minhas doutrinas em consonância com o que demanda o avanço de minha experiência" (Freud, 2014, p. 268). Nos anos de 1916 e 1917, o pai da psicanálise se dedicou a proferir conferências a um público leigo com o fito de falar sobre essa experiência e sobre as teses daí decorrentes.

Em vários momentos se pode notar o cuidado de Freud, diante do público, ao introduzir argumentos polêmicos e seu reconhecimento de que esses argumentos poderiam gerar dificuldades de aceitação por parte dos ouvintes. Uma das dificuldades elencadas por Freud (2014, p.17) diz respeito ao modo de instrução que requisita a psicanálise. Nas aulas de medicina, argumenta, se pode ver o objeto da aprendizagem: seja um preparado anatômico ou o encolhimento do músculo resultante da estimulação de seus nervos. Mesmo na psiquiatria, é possível ver a expressão facial do doente, seu comportamento, seu jeito de falar. Numa aula de psiquiatria se pode, por exemplo, apresentar um neurastênico aos estudantes. Ele relatará suas queixas, e os alunos poderão ter contato direto com seus sintomas. O professor de medicina conduz uma forma de ensinar que considera a possibilidade de o aprendiz travar contato direto e perceber o objeto que será alvo de seu conhecimento.

Na psicanálise, pondera Freud, isso tudo é diferente. O tratamento psicanalítico é baseado em trocas de palavras entre o analisando e o médico. Ao paciente cabe falar, relatar experiências e impressões passadas e presentes, confessar seus desejos e impulsos. Já o médico "[…]ouve com atenção, busca dirigir o curso dos pensamentos do paciente, instiga-o, compele sua atenção para determinadas direções, dá-lhe explicações e observa as reações de compreensão ou repúdio que, desse modo, desperta no doente" (Freud, 2014, p.17). Nada disso, adverte Freud, é visível e palpável. O que faculta a parentes desinformados questionar: "como se pode fazer alguma coisa contra a doença apenas com palavras?". Além disso, se numa aula de psiquiatria os alunos podem ver o paciente e a maneira como o médico o interroga, não é possível fazer de uma seção psicanalítica uma aula experimental. A comunicação sobre a intimidade de sua vida psíquica, o paciente só faz mediante uma particular ligação emocional com o médico e sem nenhuma testemunha para observar. Freud esclarece, então, que os participantes das conferências não poderão assistir a um tratamento psicanalítico com fins pedagógicos, mas poderão ouvir acerca dele. É o que o orador fará durante as preleções, esperando que certa credibilidade possa ser conferida às suas informações.

Uma outra dificuldade prevista por Freud, e já anunciada na primeira das conferências, diz respeito à necessidade de os estudantes de medicina delegarem às funções orgânicas e à anatomia a causa de qualquer distúrbio psíquico. A formação médica a que muitos dos ouvintes foram submetidos lhes impunha a necessidade de uma aproximação dos pressupostos anatômicos, químicos ou fisiológicos e um distanciamento de "[…]conceitos auxiliares puramente psicológicos" (Freud, 2014, p.17). Por essa razão, adverte o palestrante, a psicanálise lhes parecerá estranha inicialmente. Se esse tipo de estranheza pode assolar o estudante em sua canônica formação médica, háoutros tipos de estranhamento que podem, segundo Freud, ofender o "mundo inteiro" e atrair sua aversão.

Logo de início, Freud apresenta as razões da aversão que a psicanálise causa: em primeiro lugar, a concepção de que"[…] os processos psíquicos são, em si, inconscientes, e os conscientes são meros atos isolados, porções da totalidade da vida psíquica" (Freud, 2014, p.22)ofende a vaidade humana em sua relação com a consciência. Ao postular e legitimar a existência de "um pensar e um querer inconsciente"(Freud, 2014, p.23), a psicanálise assumiu o risco de produzir uma ferida narcísica no homem ao colocar em dúvida a transparência de sua racionalidade consciente. A segunda razão, que infringe "uma preconcepção de caráter estético-moral"(Freud, 2014, p.22), refere-se à dimensão da sexualidade. Freud afirma que os impulsos sexuais não apenas são "os causadores de doenças dos nervos e da mente", como contribuem de modo significativo "[…]para as mais elevadas criações culturais, artísticas e sociais do espírito humano" (Freud, 2014, p.23). Esse tipo de afirmação suscita resistência, porque atinge, em cheio, uma visão estética e moral da sociedade. O movimento de recusa da concepção psicanalítica leva o crítico a transformar o "desagradável" em "incorreto", distanciando-o do campo dos argumentos lógicos e factuais inaugurado pela psicanálise. Diante de cada nova dificuldade na transmissão da psicanálise, Freud insiste para que o ouvinte deixe de lado uma crítica apressada e se permita escutar as novidades descobertas e inauguradas pelas pesquisas psicanalíticas.

Um século depois da publicação das Conferências introdutórias à psicanálise, propusemos a pesquisadores ligados ao campo da Filosofia da Psicanálise que tomassem essa obra como objeto de análise e discussão. A variedade dos temas apresentados por Freud nas conferências possibilitou uma diversidade de olhares e leituras que levaram à compilação de textosvariados, os quais buscaram manter um franco diálogo com a filosofia ou com outras correntes psicanalíticas. O resultado o leitor poderá conferir nestasegunda edição do Dossiê em comemoração aos 100 anos de publicação das Conferências introdutórias à psicanálise.

O primeiro dos artigos, intitulado "Como Freud falava do que fazia? Uma análise discursiva da conferência XXVIII sobre A terapia analítica de 1917", de Christian Dunker, discute os termos empregados por Freud para designar a própria psicanálise. Apresentada ora como tratamento (Behandlung), ora como terapia (Psychotherapie) e ainda como cura (Kur) ou como método (Methode), a psicanálise tem seus fundamentos colocados em questão. Em uma análise detalhada, o autor segue o argumento de Freud, em sua dimensão retórica e ética, possibilitando o reconhecimento do "interesse do psicanalista" pelo que faz, ao mesmo tempo que reconhece o quanto Freud modula o destinatário de seu discurso e, com isso, o tipo de argumento que ele emprega, de acordo com o aspecto da prática psicanalítica que será apresentado. Ao usar de maneira diferencial as noções de tratamento, terapia e de cura, Freud constitui uma variação que aproxima a clínica psicanalítica tanto da clínica médica quanto das práticas de sugestão.

O artigo "Atos Falhos: interpretação e significação", de Suely Aires, buscadiscutir alguns aspectos das Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917) dedicados aos atos falhos. A autora pretende indicar um dado modo de construção e endereçamento da obra ao leitor que constitui o procedimento freudiano, o qual equivale sentido, significação e intenção. Nesse contexto, recorre a diferentes autores e diferentes modos de conceber a interpretação como um uso particular da linguagem. Para atingir seu propósito, o texto acompanha o desenrolar argumentativo das palestras de Freud e destaca a construção de um procedimento de leitura que necessariamente implica o lugar do intérprete.

Ana Carolina Soliva, em seu artigo "Símbolo e relação simbólica em Freud", busca apresentar uma possível compreensão do simbólico e do símbolo na teoria freudiana. No desenrolar do texto, o argumento é cuidadosamente construído e apoia-se em diferentes conferências proferidas por Freud nos anos 1916-1917, o que possibilita uma visão ampliada do pensamento freudiano noperíodo.Para alcançar seu objetivo, a autora recorre às contribuições de Schelling, que agrega a noção de significação do outro e de identidade consigo mesmo ao simbólico, e às proposições de Gombrich, que expõe uma relação de substituição de termos díspares calcada na ação e na urgênciada reencenação do ato em questão.

O texto "Figuração e figurabilidade: no início eram as sensações", de Carlota Ibertis, examinaa relação entre a operação onírica de figuração plástica e a noção de figurabilidade, entendida como conversão dos pensamentos latentes do sonho em imagens. Para a autora, a discussão em torno da figuração inclui as ideias freudianas acerca das sensações, o que possibilita questionar em que medida sensações e imagens como as táteis, as olfativas e as de sabor fazem parte dos nossos sonhos e como elas impactam na realização onírica de desejos. Em particular, acerca das sensações, haveria na teoria freudiana uma distribuição não sistematizada quanto à relevância de cada tipo de sensação que pode ser rapidamente apresentada como uma distinção entre o papel das sensações auditivas e visuais em detrimento das restantes, quando se trata da concepção do funcionamento psíquico da linguagem e do conhecimento de objetos; e, de outro, a reivindicação do papel das sensações táteis quando se trata das vivências mais primitivas e de ordem afetiva como a de satisfação e as experiências autoeróticas da primeira infância. Essa diferenciação possibilita questionar o papel das sensações na teoria freudiana.

Após seguir o percurso que esses textos oferecem, esperamos que o leitor encontre diferentes modos de compreender e comemorar as Conferências introdutórias à psicanálise. Em sua atualidade, as Conferências introdutórias permitem reconhecer o que há de novo e de permanente no pensamento freudiano.

 

Endereço para correspondência
Caroline Vasconcelos Ribeiro
E-mail: carolinevasconcelos@hotmail.com

Suely Aires
E-mail:suely.aires7@gmail.com

 

 

1Professora Titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e organizadora deste dossiê. E-mail: carolinevasconcelos@hotmail.com.
2Professora de Teoria e Clínica Psicanalítica na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e organizadora deste dossiê. E-mail: suely.aires7@gmail.com.
3Freud, S. (2014). Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917) (S. Tellaroli, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. Todas as demais citações de Freud neste texto são provenientes desta obra.

 

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