SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.19 número1Como Freud falava do que fazia? Uma análise discursiva da conferência XXVIII sobre "A terapia analítica" de 1917Símbolo e relação simbólica em Freud índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Natureza humana

versão impressa ISSN 1517-2430

Nat. hum. vol.19 no.1 São Paulo jul. 2017

 

DOSSIÊ

 

Atos falhos: interpretação e significação

 

Parapraxes: interpretation and meaning

 

 

Suely Aires*

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

No presente artigo, buscaremos discutir alguns aspectos da primeira parte das Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917), dedicada aos atos falhos, de modo a indicar um dado modo de construção e endereçamento de Freud ao ouvinte/leitor. Pretendemos acompanhar o desenrolar argumentativo das palestras e destacar a construção de um procedimento de leitura que necessariamente implica o lugar do intérprete. Nessa direção, destacamos três passos constitutivos da argumentação freudiana: a suposição de uma alteridade, a equivalência entre sentido, significação e intenção e a apresentação de pressupostos teóricos ao longo de seu procedimento de leitura.

Palavras-chave: atos falhos; Freud; psicanálise.


ABSTRACT

In this article, we will try to discuss some aspects of the first part of the Introductory Lectures to Psychoanalysis (1916-1917), dedicated to the faulty acts, in order to indicate a certain way of construction and addressing of Freud to the listener/reader. We intend to follow the argumentative development of the lectures and highlight the construction of a reading procedure that necessarily implies the place of the interpreter. In this direction, we highlight three constitutive steps of the Freudian argument: the assumption of an alterity, the equivalence between meaning, meaning and intention, and the presentation of theoretical assumptions throughout its reading procedure.

Keywords: parapraxis; Freud; psychoanalysis.


 

 

[…] é seu ardente desejo [do autor] que o livro envelheçarapidamente –que o que nele, uma vez, foi novidade, possa tornar-se geralmente aceito e que o que nele estiver imperfeito possaser substituído por algo melhor.
Freud, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905

 

As conferências introdutórias de Freud, apresentadas no inverno de 1915-1916 e 1916-1917, foram destinadas a um público amplo, formado por médicos interessados nos fundamentos da psicanálise e leigos curiosos quanto a essa nova "ciência". Trabalhando com temasgerais e iniciando suas apresentações pela psicopatologia da vida cotidiana – atos falhos e lapsos –, Freud produziu um material acessível e de fácil compreensão. Sua proposta de divulgação da psicanálise obteve sucesso: as conferências introdutórias foram amplamente lidas e traduzidas, tendo havido "[…] pelo menos quinze traduções, inclusive para o chinês, o japonês, o servo-croata, o hebraico, o iídiche e o Braille" (Gay, 1989, p. 340).

No presente texto, buscaremos discutiralguns aspectos da primeira parte das Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917), dedicada aos atos falhos, de modo a indicar um dado modo de construção e endereçamento da obra ao leitor. Pretendemos ainda acompanhar o desenrolar argumentativo das palestras e destacar a construção de um procedimento de leitura que necessariamente implica o lugar do intérprete.

 

1) Uma alteridade suposta

"Senhoras e senhores: Não sei o quanto cada um dos senhores sabe sobre psicanálise[…].Todavia, os termos com que anunciei estas conferências […] obrigam me a tratá-los como se nada soubessem […]" (Freud, 1916/2014, p. 19). Inicia-se assim a primeira das conferências de Freud, prenunciando seu lugar de endereçamento ao outro, o qual se mantém ese modifica ao longo de sua fala.

Na condição de nada saber, o público suposto necessitará de explanações e exemplos que permitam certa apreensão da psicanálise. No entanto, essa tarefa, segundo Freud (1916/2014, p. 26 e ss.), enfrenta obstáculos específicos: a dificuldade própria ao ensino da psicanálise, a aversão que certos pressupostos psicanalíticos provocam, as dificuldades da formação médica que tem como base a anatomia, a biologia e que, por consequência, pouco valor dá à dimensão psíquica. Dificuldades que impelem Freud a uma mudança de posição frente ao seu público: "Apenas não se irritem se, de início, eu os tratar como neuróticos" (Freud, 1916/2014, p. 20).

Ao tratá-los como neuróticos, Freud faz um duplo movimento:alerta os ouvintes quanto às dificuldades do processo, o tempo que este vai demandar, os esforços que vai exigir e a ausência de garantias de sucesso. E, por conseguinte, os desaconselha a escutá-lo uma segunda vez – estranha forma de se dirigir ao público, que, no entanto, cumpre função retórica. Em um movimento complementar, Freud os convida a, caso queiram prosseguir na aproximação em relação à teoria e à clínica psicanalíticas, lançar o olhar sobre si mesmos. Para aqueles que insistirem em escutar Freud, caberá considerar que a psicanálise, como "algo que aprendemos, em primeiro lugar, em nós mesmos" (Freud, 1916/2014, p. 25), requer necessariamente a inclusão do ouvinte/leitor.

Mas de que modo esse ouvinte/leitor pode vir a se incluir? Não se trata de autoobservação (Freud, 1916/2014, p. 25), pois tal procedimento, assim como a introspecção,concebe uma transparência do agente em relação a si mesmo (Politzer, 1998), em uma ótica que despreza o conceito central da psicanálise: o inconsciente (Aires, 2003). Trata-se, na perspectiva freudiana, da possibilidade de considerar certos fenômenos, muito frequentes e conhecidos por todos – e, portanto, pelo próprio ouvinte –, como fenômenos psíquicos dignos de serem investigados à luz da teoria psicanalítica. Nesse sentido, tomar em consideração os atos falhos, lapsos e sonhos como fatos psíquicos insere a possibilidade de supor que determinados acontecimentos nãointencionais não são casuais, mas determinados por razões inconscientes.Caberia, então, alguma "instrução sobre a técnica psicanalítica" (Freud, 1916/2014, p. 25) que tornasse possível que o próprio ouvinte fosse intérprete dos fenômenos que vivencia, observando-os como fatos psíquicos distintos da intencionalidade racional, consciente e volitiva.

A alteridade assim constituída – do sujeito em relação às vivências cotidianas dos atos falhos e sonhos –se dá por meio de uma construção do lugar de intérprete. Ora, a novidade freudiana é supor e fazer supor que o intérprete inicia seu trabalho de interpretação em uma posição de suspeita (Ricœur, 1965) frente ao material a ser interpretado e a si mesmo. Ou seja, apenas na condição de intérprete que avalia e julga algo enunciado pelo próprio sujeito – dito queo surpreende em sua formulação, não podendo ser reconhecido como "si mesmo"– que uma prática psicanalítica pode vir a se instituir. Nessa direção, nãoé possível distinguir interpretans e interpretandum (Foucault, 1994), o que implica, sob certo ângulo, o retorno da interpretação sobre si mesma ao infinito, gerando, como consequência, um questionamento em torno de quem interpreta (Foucault, 1994). Apenas na condição de pensar sobre os próprios atos falhos e sonhos, pode o ouvinte de suas conferências vir a seguir a argumentação freudiana em sua teorização que se endereça ao singular.

No entanto, vê-se uma alternância de posições de endereçamento. Freud dirigese a um público geral e recorre retoricamente à singularidade das vivências psíquicas de cada ouvinte que se encontra na audiência, visando à necessária contextualização dos fenômenos psíquicos em relação à cadeia associativa daquele que cometeu o ato falho. Esse movimento só se torna possível, no entanto, se houver um questionamento do sujeito em relaçãoao sentido do ato falho, colocando-se em certa exterioridade frente ao fenômeno. Trata-se, portanto, da construção de sentido em uma relação de alteridade. Não por acaso, Freud assevera que:

Avançaremos muito mais se nos deixarmos analisar por um analista qualificado, experimentando os efeitos da análise em nosso próprio Eu e nos valendo da oportunidade de aprender com o outro a técnica mais refinada do procedimento. Mas, embora excelente, é claro que esse caminho só pode ser percorrido por um indivíduo, jamais por toda uma sala de aula. (Freud, 1916 /2014, p. 25-26).

Ressaltamos, no entanto, que, a despeito da alteridade constituída, o sentido dos atos falhos só poderá ser explicitado, para cada ato falho, por aquele que produziu esse fenômeno. Cada ouvinte/leitor deverá se lançar na aventura de produzir uma interpretação do ocorrido a partir de uma chave de leitura que tem princípios e pressupostos teóricos geraise um percurso associativo singular. A apreensão geral do fenômeno, para um público não afeito à psicanálise, se tornará uma tarefa a ser construída, não sendo, portanto, demonstrável (Freud, 1916/2014, p. 25).

É nesse sentido que Freud pode afirmar: "Senhoras e senhores: Começaremos não com pressupostos, mas com uma investigação" (Freud, 1916/2014, p. 31). A investigação proposta por Freud refere-se à busca de sentido, na condição de reconhecer que determinados fenômenos psíquicos ocorrem não apenas em neuróticos, mas em qualquer indivíduo saudável e, portanto, poder afirmar a existência de processos inconscientes universais. Como policiais, cabe seguir pistas (Freud, 1916/2014, p. 34) e se perguntar a razão de um dado lapso ocorrer precisamente dessa maneira e não de outra.

Tendo como guia tal questão, busca-se a determinação de cada ato falho e pressupõe-se a existência de uma razão inconsciente para o ocorrido. Com esse movimento aparentemente simples, Freud institui, como possibilidade de leitura dos fenômenos, a noção de inconsciente, de determinismo psíquico e, por conseguinte, a necessária técnica da associação livre em lugar da prática de introspecção.

 

2) Sentido, significado e intenção

Em sua conferência, Freud enumera diferentes atos falhos: Versprechen [lapso verbal], Verlesen [lapso de leitura], Verhören [lapso de audição], Vergessen [lapso de memória], Verlegen [extravio de objeto], Verlieren [perda de objeto] e alguns equívocos [Irrtümer]. O íntimo parentesco desses acontecimentos "se expressa [em alemão] na designação com o mesmo prefixo (ver-), são de natureza desimportante, e a maioria possui duração bastante fugaz, sem grande significado na vida das pessoas" (Freud, 1916/2014, p. 32-33). Cabe a Freud destacar que, em sua diversidade, esses diferentes fenômenos têm, em geral, caráter temporário, sendo algo banal e cotidiano, sem relação com enfermidades neurológicas ou da memória.

A atenção de Freud recairá sobre o significado dos atos falhos, em especial sobre o significado dos lapsos verbais, em pessoas comuns. Olapso verbal será considerado por Freud como o mais apropriado para investigação, pois, ao enunciar algo distinto do que intencionava, o que cada sujeito encontra é perplexidade ou irritação. Por vezes, esse fenômeno sequer é reconhecido pelo falante, sendo revelado pela reação do interlocutor. A perplexidade ou irritação, como breve resposta afetiva, leva o sujeito a se questionar sobre o que esse fenômeno específico quer dizer.

Quem aí fala? É esse ponto de enigma que interessa a Freud em sua argumentação e que permite diferenciar sua proposição teórica das produções de outros autores sobre o tema nos campos da linguística e da psiquiatria: não se trata do ato falho, em si, como objeto direto de estudo, mas da intencionalidade do falante diante do fenômeno; intencionalidade desconhecida à atenção consciente, mas suposta em um recurso à noção de inconsciente.

Se, de início, Freud examina as condições em que o lapso acontece, as influências que o determinam, o tipo de operação e de deformação do conteúdo, recorrendo a autorese estudos sobre o tema, seu passo original consiste em buscara explicitação do sentido do ato falho. O sentido de um processo psíquico como o ato falho "nada mais é que a intenção a que esse processo serve e a posição dele em uma cadeia psíquica" (Freud, 1916/2014, p. 52). A equivalência entre sentido, significado e intenção, proposta por Freud, sustenta-seno pressuposto de que há mais de uma intenção em jogo. A interferência ou confronto de duas intenções diferentes permite que uma dada expressão ou frase seja enunciada, a despeito da intenção consciente do falante. Teoricamente, o confronto entre intenções se apoia na suposição de que há uma distinção entre sistemas psíquicos e que um possível conflito – pressuposto da teoria freudiana desde os seus primórdios (Freud, 1893-1895/2016) – se dá a ver no fenômeno em questão. Como formação do inconsciente, o ato falho permite um modo de acesso aos conteúdos que são recusados pela consciência.

Cabe, no entanto, destacar que a equivalência, proposta por Freud, entre sentido, significado e intenção não pode ser considerada uma questão de evidências (Wittgenstein, 1967), um achado decorrente de sua prática de investigação. Trata-se de uma construção teórica que se sustenta em uma especulação, em um tipo de explanação que convence, que somos inclinados a aceitar (Wittgenstein, 1967) e que deve, sob certo ângulo, ser aceita por aquele que produziu o ato falho. Ou seja, a perplexidade ou irritação inicialmente vivenciada pelo sujeito deve dar lugar a uma aceitação do sentido do fenômeno em questão; caso contrário, a inquietação daquele que cometeu o ato falho permanecerá. É necessário, portanto, reencontrar a palavra buscada, no caso do esquecimento, ou atinar para o possível sentido da troca de palavras, no ato falho.

Quando Freud, por exemplo, refere-se ao ato falho "Ich fordere Sie auf, auf das Wohlunseres Chefs aufzustossen" [Convido os senhores a arrotar à saúde de nosso chefe], ele parte da intenção consciente do falante – brindar ao chefe – para indicar a intenção difamatória e, por conseguinte, confirma o conflito de intenções. O reconhecimento desse sentido, da agressividade contida no ato falho, produz, em geral, uma reação de desagrado, no sujeito, e um efeito cômico, na plateia. Na teorizaçãofreudiana, o prazer seria vivenciado por uma instância em detrimento da outra, seguindo um princípio econômico e sua adequação à realidade. O afeto geral – ou, dito de outro modo, a polaridade econômica – seria uma desregulação na relação prazer/desprazer no nível da consciência. Talvez o falante possa reconhecer a ambivalência em relação ao chefe, mas,ao deparar-se com a inadequação da agressividade demonstrada, tenderia a vivenciar certo mal-estar no campo social.

No entanto, se, por acaso, o sentido de um ato falho não for reconhecido pelo sujeito, o próprio lapso verbal, como formação do inconsciente, será colocado em questão. Freud se ocupa dessa possibilidade, visto que o falante que cometeu o ato falho no brinde ao chefe encontra-se diante de uma plateia e, portanto, não se permite enunciar as razões de seu lapso. Sem o depoimento do sujeito quanto às intenções contraditórias de seu ato falho, o sentido do lapso pode restar obscuro. É nesse contexto que Freud recorre à ideia geral de uma certa relação com a linguagem – reconhecida nos chistes, em suas deformações e possibilidade de descarga afetiva da agressividade (Freud, 1916/2014, p. 57) – que permite a compreensão do ato falho em sua dimensão reveladora para além do que o sujeito conscientemente confirma. Avançando nessa direção, Freud discute a significação do fenômeno, como mensagem endereçada pelo falante ao público em seu contexto social, e que inquieta aquele que cometeu o ato falho, pois mantém-se como enigma inicialmente formulado – o que isso quer dizer? A intenção, reconhecida posteriormente, é tornada equivalente ao significado do ato falho.

É nesse sentido que a distinção entre intenção e descrição posterior (Cioffi, 1998, p. 207) merece ser ressaltada, pois se coloca em relação à perplexidade e à aceitação por parte do sujeito. A interpretação proposta por Freud pode ser entendida como esclarecimento de um ponto de sentido que fez enigma para o sujeito que produziu o ato falho; ou seja, o fim da perplexidade parece indicar uma intenção realizada, mas, ao mesmo tempo, pode serapenas a aceitação de um dado modo de interpretação que acomoda o sentido. Freud parece tratar a aceitação do paciente em relação às razões de um ato falho como critério de validade que corrobora sua intenção inconsciente. Ou, dito de outro modo, na leitura proposta por Cioffi (1998), a hipótese psicanalítica parece confundir uma hipótese de compreensão do lapso com uma descrição posterior que o justifica, fazendo com que o fenômeno entre na rede de significações de um sujeito, na cadeia psíquica que o insere em certa racionalidade que considera o inconsciente.

 

3) Uma hipótese necessária: o recalque1

No entanto,uma outra possibilidade se apresenta e merece ser investigada por Freud. As situações em que o falante, aquele que cometeu o ato falho, repudia a interpretação apresentada. Como, nesse caso, validar a interpretação? O analista, ao interpretar a intenção de um ato falho, cujo sentido não é corroborado pelo sujeito, não se aproximaria das produções de paranoicos que se sustentam em indícios (Freud, 1916/2014, p. 89) e que produzem sentido, ainda que não estejam em consonância com a realidade? A produção de sentido e a certeza de seu valor, independentemente da confirmação na realidade, não colocariam o analista na condição de um paranoico de gênio? Como afirmar o sentido de um ato falho a despeito da rejeição e do reconhecimento da intencionalidade do falante que cometeu esse mesmo ato?

É ainda sobre o lapso verbal – como representante de todo o gênero de atos falhos (Freud, 1916/2014, p. 82) – que Freud se detém para destacarque a convivência de tendências opostaspode não ser claramente reconhecida pelo sujeito. Se os atos falhos resultam da interferência mútua de duas intenções diversas, das quais uma sofreu perturbação, e outra produz a perturbação, convém perguntar como as intenções perturbadoras incidem sobre a fala do sujeito. Até esse momento, Freud conduz a conferência tomando os ouvintes como parceiros de investigação, seguidores de pistas, a quem caberia aprender a reconhecer os sinais. Apenas na introdução, ele destacou o risco da discordância e os exortou a não o escutar uma segunda vez. Agora, mostra-se útil apresentar a hipótese de um processo psíquico que escapa radicalmente ao sujeito. Reportando-se aos lapsos verbais, Freud afirma:

Se examinarmos toda uma série de exemplos com esse fim, eles logo se dividirão em três grupos distintos. Ao primeiro grupo pertencem aqueles casos em que a tendência perturbadora é conhecida de quem fala e, além disso, foi sentida por ele anteriormente ao lapso verbal. […] O segundo grupo se constitui dos casos em que o falante reconhece igualmente como sua a tendência perturbadora, mas não sabe que, pouco antes do lapso, ela se encontrava ativa nele. […] No terceiro grupo, a interpretação dada à intenção perturbadora é rechaçada com veemência pelo falante.(Freud, 1916/2014, p. 85)

O rechaço do falante é justamente a confissão de sua pertinência. Não apenas Freud reduz a importância da confirmação por parte daquele que cometeu o ato falho, como pretende sustentar imperturbavelmente sua interpretação, tendo como apoio os indícios. Diferentemente de uma paranoia combinatória (Freud, 1916/2014, p. 89), Freud reconhece os limites de sua interpretação e, em substituição à confirmação da intenção por parte do sujeito, recorre ao sentido socialmente compartilhado, aos equívocos de linguagem na literatura (Freud, 1916/2014, p. 47-51), aos pensamentos que ocorrem ao interlocutor diante do ato falho cometido. Não se trata, nesse sentido, de uma afirmação de sentido unívoco em que o analista-intérprete teria sempre razão, mas um modo de colocar a interpretação em relação à linguagem e à cultura, que permite conceber uma maneira específica de se equivocar.

E novos exemplos são elencados em prol de seu argumento, de modo queum modelo de interpretação (Freud, 1916/2014, p. 89) venha a ser seguido. Isso não o exime de se dirigir à plateia e retoricamente provocar a audiência:

Diante de uma hipótese tão nova e de consequências tão graves, os senhores se detêm. Mas estabeleçamos uma coisa: se os senhores desejam aplicar de forma coerente essa concepção dos atos falhos […], é necessário que se decidam em favor dessa estranha hipótese. Se não puderem fazê-lo, terão de renunciar à compreensão ainda nem bem adquirida.(Freud, 1916/2014, p. 86)

Sem dúvida, para seguir adiante, é necessário compartilhar da noção de recalque, da suposição de uma operação psíquica que impede o acesso à consciência de material que viria a produzir desprazer. E Freud afirma: "A repressão da intenção de dizer algo é condição imprescindível para que o lapso verbal ocorra" (Freud, 1916/2014, p. 87).

Ora, tal afirmação só pode ser compreendida se for precedida por dois argumentos centrais: a concepção do ato falho como uma solução de compromisso e a fuga psíquica do desprazer, ambos apoiados na distinção entre instâncias psíquicas e na disjunção entre psíquico e consciente. A formação de compromisso é apresentada por Freud, em relação ao lapso verbal, como duas intenções que se manifestam nesse estranho fenômeno e que atingem satisfação parcial – são ao mesmo tempo bemsucedidas e malsucedidas. A intenção perturbadora não é recalcada por completo, nem tampouco consegue manifestar-se de forma plena. Um arranjo permite ao falante enunciar conteúdos contraditórios ou destoantes e, em maior ou menor grau, obter prazer.

Essa concepção dinâmica dos fenômenos psíquicos mantém um jogo de tensionamento que se coloca não apenas no campo do sentido, mas também implica afetos. Nesse contexto, o uso da noção de intenção mostra-se mais adequado para os fins de Freud, visto que o uso dos termos significado ou sentido parece desconsiderar a dimensão energética de seu argumento. A equivalência proposta por Freud entre sentido, significado, intenção, tendência e posicionamento em uma série de nexos psíquicos (Freud, 1916/2014, p. 80) oblitera a necessidade de se considerar a relação entre prazer e desprazer na produção dos atos falhos. As rápidas aproximações com os chistes, com a descarga aceitável da agressividade do falante, é um dos poucos momentos em que Freud se detém de forma mais pormenorizada sobre o tema(Freud, 1916/2014, p. 56-57).

Para abordar a evitação do desprazer, Freud recorre a outro fenômeno: o esquecimento de nomes próprios e estrangeiros. Trata-se, para Freud, da possibilidade de argumentar em prol da aversão da memória em se lembrar de acontecimentos efatos vinculados ao sentimento de desprazer. A referência ao esquecimento temporário mostra-se mais profícua por furtar-se à argumentação em torno do confronto entre duas intenções, ambas buscando realização. O esquecimento permite indicar de forma mais clara a operação de recalque por meio da retirada de um dado conteúdo da consciência,o qual não se dá a ver nem mesmo de forma disfarçada.

Essa intenção de evitar o desprazer, apresentada como "fuga psíquica do desprazer" (Freud, 1916/2014, p. 101), é identificada como motivação última e eficaz para a produção de atos falhos e sintomas, sendo reconhecida como um dos princípios do funcionamento psíquico (Freud, 1911/2010b). Nesse contexto, Freud apresenta a vida psíquica como um campo de batalhas para tendências opostas que, em seu jogo dinâmico, permite diferentesconfigurações. Se, tal como fez Freud, juntarmos o princípio do prazer, o determinismo psíquico que se deixa reconhecer no caminho associativo percorrido e a noção de recalque – ou seja, se apresentarmos o inconsciente em sua dimensão tópica, como instância psíquica com leis próprias (Freud, 1915/2010a)–, temos apresentado o arcabouço conceitual que sustenta a psicanálise como técnica interpretativa.

 

4) Um procedimento linguístico, uma estratégia retórica

Por que dar aos atos falhos, ao fenômeno cotidiano, o lugar de abertura das conferências introdutórias? Dentre outras razões, podemos supor que tais fenômenos, assim como os sonhos, tema da conferência seguinte, podem ser reconhecidos facilmente pelo ouvinte/leitor. Para tanto, basta que ele, o ouvinte, faça uso do método interpretativo apresentado por Freud, que, em sua consistência interna, permite o reconhecimento desses fenômenos como fatos psíquicos e não meros restos de uma atividade consciente. Trata-se de um modelo interpretativo a ser seguido, guardado na memória (Freud, 1916/2014, p. 89), e que possibilita uma compreensão de fenômenos psíquicos mais complexos, tais como os sintomas em uma teoria geral das neuroses, última parte de suas Conferências introdutórias. Iniciar a apresentação da teoria psicanalítica, a um público leigo,tendo como objeto os atos falhos éuma estratégia retórica de Freud.

A técnica freudiana, o método de investigação e interpretação, o modelo a ser seguido, pode, a nosso ver, ser compreendido como um procedimento de linguagem (Foucault, 2006). Distinguindo-se de uma fórmula ou protocolo (Deleuze, 1997), o procedimento freudiano é, por excelência, um procedimento que envolve o sentido – como intenção – e a suposição da operação de recalque2. A equivocidade em jogo no método de investigação e interpretação freudiano permite que o funcionamento linguístico na psicanálise rompa parcialmente com a designação, implicando, no entanto, a produção de uma significação e a possibilidade deuma tradução ou transcrição entre instâncias psíquicas (Freud, 1915/2010c). Nesse contexto,o procedimento freudiano reafirma a equivalência entre sentido, significado e intenção no campo da linguagem e, por conseguinte, produzindo um giro interpretativo.

Nas Conferências introdutórias (1916-1917), o procedimento freudiano sustenta-se grosso modo em três movimentos que se mostram contínuos: (1) reconhecer o fenômeno, questionar sua causa, investigaro fenômeno em si mesmo e as razões que o fizeram vir à tona – passo a ser dado pelo ouvinte; (2)investigar o sentido, associar palavras, linguagem e esquecimento,considerar a possível existência de intenções contrárias e conceber a relação de prazer e desprazer entre instâncias psíquicas – passo a ser dado pelo analista; (3) efetivar a interpretação do fenômeno em um movimento que aproxima e reduplica ouvinte/leitor e analista, produzindo encontro e reconhecimento do sentido, com liberação de afeto.

Após o terceiro e último passo, não se torna mais possível distinguir claramente o ouvinte-intérpretedo analista-intérprete. Pelo menos, não após ter acompanhado o argumento freudiano até o seu fim. Apenas aquele ouvinte/leitor que decidiu não escutar Freud uma segunda vez, como ele mesmo exortou ao início de sua conferência sobre os atos falhos, pode manter a distância que o impede de se fazer intérprete do fenômeno psíquico, cujo sentido deve ser procurado na cadeia associativa produzida pelo próprio sujeito. Caso ele, o ouvinte/leitor, tenha seguido os passos freudianos, nesse procedimento, restará ao fim como intérpretedos próprios fenômenos e cada ato falho parecerá ter sentido, em uma relação simultânea de alteridade e singularidade.

O retorno da interpretação sobre si mesma e a reduplicação do lugar do intérprete – ouvinte e analista – gera, ao menos, duas consequências: um questionamento em torno de quem interpreta – como consequência, Freud pode autorizar-se a interpretar aquilo que o falante recusa dar sentido – e uma circularidade temporal da interpretação, possibilitando novas formas de leitura dos atos falhos. Esse ponto é importante por indicar que o sentido pode vir a ser construído em cada prática interpretativa diante de um mesmo ato falho; ou seja, aquilo que foi expresso, sem a intenção consciente do sujeito, pode vir a ganhar uma forma que se faz reconhecer em diferentes momentos de diferentes modos, produzindo-se no tempo imediatamente consecutivo ao encadeamento associativo que o sujeito oferece para dar sentido ao ato.

Entre falar sem querer, falar uma palavra no lugar de outra, esquecer, perder e encontrar sentido, o sujeito aventura-se a buscar uma forma e uma intenção que se faça reconhecer e, ao mesmo tempo, se façaproduzir no momento imediatamente posterior ao ato falho. Uma circularidade temporal e um giro interpretativo – entre intérprete e fato interpretado – que permitem a Freud encerrar suas conferências sobre atos falhos em um relançamento ao ouvinte/leitor.

Se, como vimos em tantos exemplos, as pessoas chegam tão próximas da compreensão dos atos falhos, se com frequência se comportam como se pudessem desvendar seu sentido, como é possível que, de modo geral, elas os caracterizem como casuais, desprovidos de sentido e importância e, ademais, resistam com tanta veemência ao esclarecimento psicanalítico desses mesmos fenômenos?

Os senhores têm razão. Isso, de fato, salta aos olhos e demanda explicação. Contudo, em vez de lhes daressa explicação, vou conduzilos pouco a pouco às relações a partir das quais ela haverá de se impor aos senhores sem o meu auxílio. (Freud, 1916-1917/2014, p. 108)

E Freud se retira de cena, deixando o ouvinte/leitor na trilha investigativa que segue e que parece se impor ao pensamento. Após apresentar as conferências sobre atos falhos, Freud pronunciou mais 24 conferências introdutórias nos anos de 1916-1917, alcançando um público cada vez maior. E cada novo ouvinte/leitor deu um novo passo e outro e mais outro…Até hoje, cem anos depois.

 

Referências

Aires, Suely. (2003). De sistema psíquico a tropeço da fala: variações do conceito de inconsciente na psicanálise. Dissertação de mestrado, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas,Campinas.

Cioffi, Frank. (1998). Wittgenstein on Freud and Frazer. Cambridge: Cambridge University Press.

Deleuze, Gilles. (1997). Crítica e clínica (Peter Pál Pelbart, Trad.). São Paulo: Editora 34.

Foucault, Michel. (1994). Freud, Nietzsche, Marx. In Michel Foucault, Dits etécrits. Paris: Seuil.

Foucault, Michel. (2006). Sete proposições sobre o sétimo anjo. In Michel Foucault, Ditos e escritos III: Estética – literatura e pintura, música e cinema (Inês Autran Dourado Barbosa, Trad.). Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Freud, Sigmund. (1977). A psicopatologia da vida cotidiana. In Obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira). Rio de Janeiro: Imago.(Trabalho original publicado em 1901).

Freud, Sigmund. (2010a). O inconsciente. In Sigmund Freud, Obras completas, volume 12: Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914- 1916) (Paulo César de Souza,Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1915).

Freud, Sigmund. (2010b). Formulações sobre os dois princípios de funcionamento psíquico. In Sigmund Freud, Obras completas, volume 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia ("o caso Schreber"), artigos sobre técnica e outros textos (Paulo César de Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1911).

Freud, Sigmund. (2010c). A repressão. In Sigmund Freud, Obras completas, volume 12: Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) (Paulo César de Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1915).

Freud, Sigmund. (2014). Obras completas, volume 13: Conferências introdutórias à psicanálise (Sergio Tellaroli, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1916-1917).

Freud, Sigmund. (2016). Obras Completas, volume 2: Estudos sobre a histeria (1893- 1895) (Laura Barreto, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1893-1895).

Gay, Peter. (1989). Freud: uma vida para nosso tempo (Denise Bottmann, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras.

Laplanche, Jean & Pontalis, Jean-Bertrand. (1986). Vocabulário da psicanálise (Trad. Pedro Tamen). São Paulo: Martins Fontes.

Politzer, Georges. (1998). Crítica dos fundamentos da psicologia: a psicologia e a psicanálise (Marcos Marcionilo e Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva, Trad.). Piracicaba: UNIMEP.

Ricœur, Paul. (1965). De l'interprétation: essai sur Freud. Paris: Seuil.

Wittgenstein, Ludwig. (1967). Lectures and Conversations on Aesthetics, Psychology and Religious Belief. Berkeley: University of California Press.

 

Endereço para correspondência
Suely Aires
E-mail: suely.aires7@gmail.com

 

 

* Professora de teoria e clínica psicanalítica na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), doutora em filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membra do Grupo de Trabalho de Filosofia da Psicanálise da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF), membra fundadora do Centro de Pesquisa Outrarte (IEL-Unicamp). E-mail: suely.aires7@gmail.com.
1 Utilizaremos o termo recalque como tradução de Verdrängungpara nos referirmos ao processo psíquico que repele ou mantém no inconsciente as representações incompatíveis que gerariam desprazer para o aparelho psíquico. Nesse sentido, cabe conceber o recalque no triplo registro da metapsicologia: do ponto de vista tópico, dinâmico e econômico (Laplanche & Pontalis, 1986). No entanto, nas citações diretas, manteremos a escolha do tradutor, que opta por utilizar o termo repressão como tradução para Verdrängung.
2 Diferencia-se, nesse aspecto, do procedimento linguístico da psicose, cujo modo de funcionamento rompe com a designação, a significação e a tradução (Foucault, 2006), o que faz do procedimento psicótico um protocolo de experimentação ou de atividade (Deleuze, 1997).

Creative Commons License