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Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva

Print version ISSN 1517-5545

Rev. bras. ter. comport. cogn. vol.8 no.1 São Paulo June 2006

 

ARTIGOS

 

Avaliação de duas condições de treino de categorizadores de verbalizações de terapeutas1

 

Evaluation of two conditions for training categorizers of therapists' verbalizations

 

 

Michele Cristine Oliveira-Silva2 ; Emmanuel Zagury Tourinho

Universidade Federal do Pará

 

 


RESUMO

Tomando como referência investigações anteriores voltadas para a análise de verbalizações de terapeutas, o presente estudo adotou um sistema revisado de categorias relativas às funções básicas de verbalizações de terapeutas e leitura prévia como estratégia de familiarização, objetivando avaliar (a) o efeito do treinamento sobre o desempenho de categorizadores de verbalizações de terapeutas; (b) o efeito da familiaridade produzida por meio de leitura prévia das transcrições utilizadas sobre a concordância alcançada; e (c) o efeito acumulado da exposição continuada à atividade de categorização. Os resultados demonstram que a exposição ao treino, mas não a leitura prévia de sessões, favorece índices mais elevados de concordância, embora insuficientes para validar o sistema de categorização. Sugerem, ainda, que a complexidade das sessões categorizadas constitui uma variável com impacto sobre os índices de concordância. Além disso, algumas sobreposições consistentes de categorias sugerem a necessidade de nova revisão do sistema de categorias utilizado.

Palavras-chave: Terapia analítico-comportamental, Funções de intervenção verbal do terapeuta, Comportamento verbal, Treino de categorização.


ABSTRACT

Based on previous investigations that analysed therapists' verbalizations, the present study has adopted both a reviewed system of categories regarding basic functions of therapists' verbalizations, and prior reading of transcriptions as familiarization strategy in order to evaluate (a) the effect of training on categorizers' performances; (b) the effect of familiarity induced by prior reading of transcriptions on agreement; and (c) the cumulative effect of continued exposure to the categorization task. Results demonstrate that exposure to training (but not prior reading) produces higher percentages of agreement, although they are insufficient for validating the categorization system. Results also suggest that the complexity of categorized sessions is a variable that infuences percentages of agreement. Furthermore, some consistent category overlappings suggest the need of further review of the adopted categorization system.

Keywords: Behavior-analytic therapy, Functions of therapists verbal interventions, Verbal behavior, Categorization training.


 

 

A psicologia se constituiu como um campo de saber a partir de mudanças culturais que gradualmente propiciaram a elaboração de conceitos que a definiram como um campo de reflexão, de investigação e, também, como profissão de ajuda (Tourinho, Carvalho Neto & Neno, 2004). As psicoterapias constituem uma prática profissional na qual se realiza esta função de ajuda a um ou mais indivíduos. De um modo geral, pode-se dizer que os objetivos da psicoterapia são o desenvolvimento de habilidades do cliente relacionadas a auto-conhecimento e autocontrole, e todos os objetivos terapêuticos são alcançados a partir de uma interação predominantemente verbal entre terapeuta e cliente.

Com o objetivo final de promover o aprimoramento do trabalho do terapeuta, pesquisas voltadas para a análise de suas verba-lizações vêm sendo realizadas a partir do registro do que terapeutas e clientes verbalizam durante as sessões de atendimento. Isso permite a elaboração de conjuntos de categorias que classificam as verbalizações do terapeuta de acordo com sua função (Azevedo, 2001; Chequer, 2002; Garcia, 2004; Lima, Batista, Tourinho & Oliveira-Silva 2005; Martins, 1999; Medeiros, 2001; Souza Filho, 2001; Tourinho, 2004; Tourinho, Garcia & Souza, 2003). Tais estudos têm alcançado importantes resultados para o desenvolvimento da pesquisa na área clínica, mas ainda não foi possível estabelecer, de modo inequívoco, a validade de um sistema de categorização das verbalizações de terapeutas. O estudo de Chequer (2002) apontou dificuldades relevantes acerca das categorias empregadas em alguns estudos, mas especialmente acerca da metodologia de treino utilizada em sua própria investigação.

Chequer (2002) objetivava investigar a influência de duas formas de trabalho distintas sobre o desempenho de categorizadores, mas não obteve índices de concordância maiores que 58%, mesmo na etapa de treino. As dificuldades apontadas por ele estavam relacionadas ao caráter generalista das categorias empregadas, à falta de tempo pré-estabelecido para execução da tarefa de categorização, dificuldades relacionadas ao software utilizado, que impedia uma condição denominada por ele de “condição de contexto” e à observação de que pesquisadores da interação terapeuta/cliente encontram-se numa condição limitada, se comparada à condição do próprio terapeuta na identificação das funções de suas verbalizações.

Com relação às categorias utilizadas (as mesmas de Souza Filho, 2001, também utilizadas por Kovac, 2001), Chequer (2002) considera que o que caracteriza as definições das cate-gorias como generalistas é que há a possibilidade de haver várias interpretações para cada uma. Os participantes consideraram que algumas definições requeriam o conhecimento prévio do conteúdo de sessões anteriores do processo terapêutico, uma vez que a leitura de recortes referentes a momentos específicos não possibilitava identificar, por exemplo, relações não explicitadas verbalmente pelo interlocutor. Isso remete à desvantagem da condição do pesquisador em relação ao terapeuta que participou das sessões sob análise.

Ainda sobre o sistema de categorias, as dificuldades apontadas acerca das definições sugerem que um treino de categorizadores pode ser realizado utilizando-se um sistema de categorias refinado, a fim de minimizar as sobreposições de categorias e ampliar suas descrições. O sistema de Tourinho (2004), como indica a nomenclatura - Categorias relativas às funções básicas de verbalizações de terapeutas - é utilizado para categorizar apenas os registros de verbalizações do terapeuta, não se aplicando às verbalizações de clientes, uma vez que se diferenciam em termos de função.

Ao propor um sistema de categorias relativas às funções básicas de verbalizações de terapeutas, faz-se uma tentativa de descrever as respostas do terapeuta e algumas variáveis que as controlam. Embora os sistemas propostos por pesquisadores analistas do compor-tamento tentem adotar um caráter funcionalista, algumas vezes foi indicada a necessidade de refinamento de categorias por sua descrição ser estrutural, ou seja, baseada na topografia das verbalizações. Isto ocorre porque as categorias são descritas a partir da observação do que terapeutas fazem em terapia, mas também com base num conhecimento sobre as funções às quais aquelas formas verbais costumam estar associadas num dado sistema cultural.

O conjunto de verbalizações do terapeuta possui funções em acordo com o objetivo do processo terapêutico em momentos específicos, e cada tipo de intervenção pode assumir uma função diferente. Segundo Fiorini (1987), o mais importante em conhecer os tipos de intervenções verbais do terapeuta é saber em que direção elas podem ser empregadas o que requer habilidades específicas do terapeuta - e qual o seu valor como agente de modificação, ou seja, o que se pretende alcançar com seu uso - o que diz respeito às formas como tais intervenções irão repercutir no repertório do cliente. Desse modo, ele considera que estas funções podem ser agrupadas como categorias descritivas da ação do terapeuta em ambiente clínico, com base em sua função e objetivo.

Há ainda alguns autores que listaram habilidades que refletem tipos de intervenção do terapeuta que constituem o próprio trabalho terapêutico, incluindo habilidades como ob-servar sistematicamente, reforçar diferencialmente, solicitar e dar informações, orientar para a ação, para análise e mudança de contingências, para reflexão (Meyer & Vermes, 2001), levantar questões que levem o cliente a descrever seus comportamentos e a relacionálos com o ambiente, oferecer modelos ao cliente, sugerindo relações comportamentais não apontadas anteriormente por ele, sistematizar informações, levantar hipóteses etc (Guilhardi, 2001). Isso aponta para certas semelhanças entre estas descrições e aquelas definições das categorias apresentadas por Tourinho (2004).

Acerca da diferença entre os trabalhos de pesquisador e terapeuta, o que se considera é que, para fins de pesquisa, o terapeuta apresenta a vantagem de ser uma audiência relativamente constante das respostas verbais de seu cliente e, amparado por um referencial teórico e metodológico, deve ser capaz de identificar padrões e levantar hipóteses acerca das variáveis envolvidas nos comportamentos relatados por seus clientes. Por outro lado, o pesquisador da relação terapêutica encontra algumas dificuldades para investigar o fenômeno em questão, quando tem acesso somente a uma pequena fração do que acontece em terapia, aquilo que é registrado, sem que tenha sido o próprio agente da interação (Chequer, 2002).

Esta desvantagem poderia ser solucionada utilizando os próprios terapeutas como categorizadores das transcrições de suas próprias sessões de atendimento, o que constituiria uma condição de familiaridade com o caso clínico empregado para categorização. No entanto, algumas dificuldades referentes à adoção de terapeutas como categorizadores de material produzido por eles próprios podem ser citadas. Uma delas diz respeito à dificuldade em recrutar profissionais que se disponham a participar de estudos cedendo as transcrições de seus próprios atendimentos. O mais comum é obter-se autorização para acesso a transcrições de sessões realizadas por alunos estagiários em clínicas-escola, empregando-as em estudos que prevêem a análise daquelas sessões por outros terapeutas. Disso resulta que nesses estudos os avaliadores/categorizadores não têm familiaridade com o conteúdo que está sendo categorizado.

O presente estudo buscou avaliar uma alternativa de produção de familiaridade por meio da leitura prévia de parte ou de todas as transcrições das sessões de atendimento a serem categorizadas em seguida, como uma possível solução para eliminar as dificuldades citadas por Chequer (2002). A leitura prévia de um conjunto de sessões permitiria que no momento da categorização, o participante já conhecesse em certa medida alguns produtos das intervenções do terapeuta e os assuntos abordados por terapeuta e cliente em momentos anteriores e/ou posteriores àquele que estaria sendo categorizado.

Ao adotar esta alternativa, além de um sistema de categorias revisado, a delimitação de tempo para a execução da tarefa e a forma de apresentação impressa dos registros a serem categorizados, este estudo objetivou avaliar (a) o efeito do treinamento sobre o desempenho de categorizadores de verbalização de terapeutas; (b) o efeito da familiaridade pro-duzida por meio de leitura prévia de transcrições de sessões de atendimento e (c) o efeito acumulado da exposição continuada à ativiade de categorização. A avaliação do desempenho dos categorizadores baseou-se na aferição da concordância de suas categorizações com um gabarito previamente definido.

 

Método

Participantes: Oito categorizadores participaram do estudo, divididos em dois grupos. Os participantes deveriam atender aos seguintes critérios: (a) ser terapeuta iniciante com orientação teórica analítico-comportamental, ou (b) ser estudante concluinte da disciplina Estágio Supervisionado em Psicologia Clínica - Abordagem Comportamental. Foram selecionados três participantes do sexo masculino e cinco participantes do sexo feminino, com idades variando entre 22 e 27 anos. O Grupo 1 foi formado por dois homens e duas mulheres, e o Grupo 2 por um homem e três mulheres (os grupos serão descritos a seguir, na seção “Delineamento”). Todos os participantes tinham experiência em pesquisas de Iniciação Científica em Análise do Comportamento, excluindo-se a área clínica.

Material: Transcrições de sete sessões de um atendimento realizado por terapeuta analítico-comportamental não participante do estudo, residente fora do estado em que a pesquisa foi realizada.

Delineamento: Os participantes foram identificados de acordo com seu grupo (indicado pelos números 1 e 2) e com o planejamento da Condição para realização da etapa de Testes (indicado pelas letras A, B, C e D), de modo que os participantes do Grupo 1 foram identificados como 1A, 1B, 1C e 1D, e os participantes do Grupo 2 como 2A, 2B, 2C e 2D.

O delineamento foi traçado para cada grupo, adotando o critério de familiaridade com o caso clínico. A familiaridade foi definida no presente estudo com base no contato prévio que o participante teve com as transcrições a serem categorizadas e era produzida pela oportunidade de o participante fazer a leitura de um conjunto de transcrições de sessões, antes de ser exposto às etapas de Treino e/ou Teste. Foram consideradas, então, duas condições para estas etapas: uma com leitura prévia dos registros das sessões (CL) e outra sem leitura prévia do mesmo material (SL). O Grupo 1 foi submetido ao Treino na Condição CL e o Grupo 2, na Condição SL. Para isso, os participantes do Grupo 1 realizaram, na sessão Leitura 1 (L1), uma nova leitura da transcrição utilizada na sessão Pré-Teste (PT) e a leitura prévia de duas sessões transcritas que seriam utilizadas em seguida nas sessões Treino 1 (T1) e Treino 2 (T2). Na etapa de Testes (TS), participantes dos dois grupos categorizaram sessões com ou sem leitura prévia, conforme explicado adiante.

Para a etapa de Treino, os participantes foram organizados em duplas formadas por participantes do mesmo grupo, cada dupla realizando as sessões de Treino separadamente, de acordo com sua disponibilidade de horário. No Grupo 1, as duplas formadas foram 1A-1D e 1B-1C. No Grupo 2, as duplas foram 2A-2B e 2C-2D. Na etapa de Testes, as duplas passaram a ser formadas por um participante do Grupo 1 e um participante do Grupo 2. Assim, foram formadas as duplas 1A-2A, 1B-2B, 1C-2C e 1D-2D. Os pares realizaram cada sessão de teste em condições específicas para cada um, da seguinte forma: O par formado pelos participantes 1A e 2A realizou todas as sessões de teste na condição CL; o par 1B-2B realizou a primeira sessão de teste na condição SL e as três seguintes na condição CL; o par 1C-2C realizou as duas primeiras sessões de teste na condição SL e duas últimas na condição CL; o par 1D-2D realizou as três primeiras sessões na condição SL e a última na condição CL.

A condição CL era introduzida, como descrito anteriormente, por meio da leitura prévia, na sessão de Leitura 2 (L2), da(s) transcrição(ões) que seria(m) categorizada(s) em seguida. A Tabela 1 sumariza o delineamento descrito.

 

 

O delineamento foi planejado para controlar tanto a familiaridade, quanto a quantidade de exposições à situação de categorização, permitindo também verificar os efeitos da inversão da condição de familiaridade na etapa de Testes.

Considera-se uma verbalização toda fala do terapeuta entre a verbalização anterior do cliente e a verbalização seguinte deste. Uma verbalização poderia conter ocorrências de mais de uma categoria, desde que correspondentes a períodos diferentes da verbalização. As categorias utilizadas e suas respectivas definições foram:

Informar (IFO): Verbalizações que informam sobre aspectos do processo terapêutico, ou sobre assuntos abordados pelo cliente e pelo terapeuta. Têm a função de alterar o conhecimento do cliente sobre o processo terapêutico ou sobre assuntos mencionados por terapeuta e cliente (Ex: “Há vários tipos de reação, reação passiva, reação agressiva...”).

Investigar (INV): Verbalizações com ou sem a forma interrogativa que solicitam novas informações ao cliente. Têm a função de produzir novas informações sobre a história ambiental do cliente e ensinar, ao cliente, posicionar-se de uma forma investigativa diante de fatos ocorridos (Ex: “E hoje, o que te deixa ansioso no teu trabalho atual?”).

Dar Feedback (FBK): Verbalizações de aprovação, desaprovação ou correção de verbalizações específicas do cliente, qualificando de algum modo sua verbalização anterior. Têm a função de fortalecer ou enfraquecer verbalizações do cliente sobre si mesmo ou sobre aspectos de sua história ambiental (Ex: “Isso é muito bom pra ti”).

Confrontar (CFR):Verbalizações que afirmam a ocorrência de condições, eventos ou relações entre eventos, pertinentes a questões abordadas pelo cliente, acrescidas ou não de um pedido formal de confirmação. Têm a função de confrontar o cliente com seu relato anterior, ou com uma compreensão/interpretação do terapeuta para os fatos/eventos relatados, produzindo confirmação ou não de sua compreensão/interpretação (Ex: “As decisões passam sempre por você, não é?”).

Dar Conselho (CON): Verbalizações que sugerem ao cliente, comportar-se de determinado modo. Têm a função de prover ao cliente, uma indicação de comportamento com maior probabilidade de ser reforçado (Ex: “Você poderia, num determinado momento, se tiver oportunidade, chamar ele, ou se acontecer uma outra situação desse tipo, chamar ele à parte e explicar o que tá acontecendo”).

Verbalizações Mínimas (MIN): Verbaliza-ções que sinalizam a atenção do terapeuta e/ou uma aprovação genérica do comportamento de verbalizar do cliente. Têm a função de promover a continuidade da verbalização do cliente (Ex: “Hum hum”).

Outras Verbalizações (OUT): Outras verbalizações do terapeuta. Tem funções diversas. As orientações adicionais fornecidas buscaram evitar sobreposições anteriormente identificadas entre algumas categorias e foram as seguintes:

1) Verbalizações curtas são consideradas Dar Feedback quando de algum modo qualificam a verbalização anterior do cliente (por exemplo: “Isso”, “Muito bem”, “Certo”). São consideradas Verbalizações Mínimas quando não qualificam a verbalização ante-rior do cliente (por exemplo, “Hum hum”, “Entendo”, “Sei”).

2) Algumas verbalizações que não têm a forma interrogativa têm a função de Investigar. Por exemplo, a verbalização “Conte-me como foi sua vida escolar”.

3) Uma ocorrência de Confrontar pode encerrar com um complemento interrogativo (por exemplo, “não é?”, “né?”). Em geral, verbalizações do cliente que iniciam com Sim/Não são antecedidas por verbalizações do tipo Confrontar (quando concluídas com um pedido de confirmação, como “não é?”) ou Investigar (quando o período principal da verbalização é interrogativo, como “Você acha que isso pode prejudicar você?”). Assim, a verbalização “Como foi o seu final de semana?” tem a função de produzir uma informação sobre a história do cliente, portanto, é uma instância de Investigar. Já uma verbalização do tipo “Você queria ter ficado em casa para dormir, não é?” constitui uma ocorrência de Confrontar, pois tem a função de produzir uma confirmação ou não de sua interpretação.

Procedimento

O material utilizado para a categorização foi obtido após autorização de terapeuta e cliente por meio de Termos de Consentimento Livre e Esclarecido para ambos. Para todas as sessões, as verbalizações do terapeuta foram categorizadas de forma independente por dois a quatro pesquisadores, dando origem aos gabaritos utilizados para aferição dos índices de concordância dos participantes submetidos aos procedimentos descritos adiante. O conjunto de transcrições utilizado correspondeu aos registros de 7 sessões de atendimento que, embora seguissem a seqüência em que ocorreram, eram intercalados, como apresentado na Tabela 2.

 

 

Da elaboração dos gabaritos participaram um pesquisador experiente em categorização de verbalizações de terapeutas, uma pesquisadora familiarizada com o procedimento de categorização, tendo sido treinada por meio do sistema que antecedeu ao sistema aqui adotado, e duas pesquisadoras que estavam sendo treinadas na categorização de verbalizações de terapeutas. Os gabaritos foram resultado das categorizações realizadas durante o estudo no qual as duas pesquisadoras inexperientes foram treinadas. Seu treino envolvia condições nas quais as pesquisadoras categorizaram de modo independente as sessões transcritas e tiveram sua concordância aferida e discutida por um terceiro pesquisador, não realizando discussões entre si acerca dos critérios empregados em suas categorizações (Lima et.al., 2004).

Após elaboração dos gabaritos e aprovação do projeto pelo Comitê de Ética na Pesquisa - NMT/UFPA, o estudo foi iniciado com o convite aos participantes. Após a obtenção da concordância das pessoas consultadas, documentada através de Termo de Compromisso, os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos de quatro participantes cada, obedecendo à condição prevista para cada grupo.

O estudo consistiu da realização de uma sessão de Pré-Teste, duas sessões de Leitura, duas sessões de Treino e quatro sessões de Teste, descritas a seguir:

Pré-Teste (PT)

Consistiu da categorização das verbalizações do terapeuta em uma sessão de atendimento, com base numa lista de categorias contendo o nome e a descrição de cada uma delas, sem exemplos ou observações adicionais. A sessão foi programada para ter a duração de três horas. O material utilizado foi: uma lista contendo os nomes e a descrição das categorias a serem empregadas e um formulário contendo a transcrição da sessão a ser categorizada, com espaço em branco ao lado das verbalizações do terapeuta, onde o participante deveria indicar a(s) categoria(s) referente(s) a cada verbalização. Não havia intervenção da pesquisadora, tirando dúvidas ou discutindo o teor das verbalizações. Ao final da categorização pelo participante, a pesquisadora limitava-se a marcar uma nova data para realização da sessão seguinte.

Leitura 1 (L1)

Esta sessão consistiu da leitura das transcrições de três sessões, uma utilizada na sessão PT e outras duas que seriam posteriormente utilizadas na etapa de Treino. Apenas os participantes do Grupo 1 realizaram esta sessão, como descrito na seção “Delineamento”. As sessões de leitura foram realizadas de forma independente por cada participante, de acordo com sua disponibilidade de horário. Cada participante deveria realizar a leitura de todo o material, ou seja, de todas as verbalizações de terapeuta e cliente referentes às três sessões entregues, na ordem de numeração das sessões (Sessão 1, Sessão 2 e Sessão 5).

Leitura 2 (L2)

Esta sessão (realizada após o treino, em diferentes momentos por cada dupla de participantes, conforme explicado na seção “Delineamento”) consistiu da leitura das transcrições que cada participante utilizaria posteriormente na etapa de Testes. Por isso, o número de transcrições lidas por cada um nesta sessão foi variável; o momento em que cada participante realizou esta sessão também foi diferenciado, ocorrendo de acordo com a introdução da Condição CL, programada previamente para cada par, conforme descrito na seção “Delineamento”. Cada participante recebia de uma a quatro sessões transcritas e deveria realizar a leitura de todo o material (de todas as verbalizações de terapeuta e cliente) na ordem da numeração das sessões (Sessão 6, Sessão 8, Sessão 10 e/ou Sessão 11).

Treino 1 (Tr1)

Nas sessões de Treino, o procedimento foi o mesmo para os participantes dos dois grupos. Para esta etapa, os participantes foram agrupados em duplas, descritas na seção “Delineamento”. As sessões de Treino aconteciam separadamente para cada dupla, de acordo com a disponibilidade de horário dos participantes. Primeiramente, foram retomados os formulários categorizados pelos participantes na sessão de Pré-Teste, discutindo-se as concordâncias e discordâncias dos participantes com o gabarito previamente elaborado, nas 20 primeiras verbalizações do formulário. Ao final da discussão deste bloco de 20 verbalizações, cada membro da dupla deveria categorizar uma nova sessão de atendimento dividida em blocos de até 20 verbalizações de terapeuta e cliente, até que todas as verbalizações da sessão tivessem sido categorizadas. Após a categorização de cada bloco, havia discussão entre a pesquisadora e os participantes acerca das concordâncias e discordâncias entre as categorizações dos participantes e o gabarito previamente elaborado para a sessão. O material utilizado foi: uma nova sessão de atendimento e uma lista das categorias contendo não somente os nomes e descrições das categorias, como também exemplos e orientações adicionais sobre algumas delas.

Treino 2 (Tr2)

A segunda sessão de Treino (TR2) também foi realizada por cada dupla separadamente das demais, e o procedimento de categorização alternada com discussão descrito na sessão TR1 foi repetido nesta sessão. Todas as verbalizações foram categorizadas pelos participantes e discutidas com a pesquisadora em blocos de até 20 verbalizações, até a conclusão da categorização desta sessão. O material utilizado foi: a transcrição de uma nova sessão de atendimento e uma lista de categorias, igual à utilizada na sessão anterior (TR1), contendo os nomes e descrições das categorias, além de exemplos e orientações adicionais sobre algumas delas. Não houve discussão sobre verbalizações da sessão anterior, uma vez que ela havia sido completamente categorizada e discutida em TR1.

Testes (TS1, TS2, TS3 e TS4)

Esta etapa do estudo foi realizada pelas duplas formadas por um membro de cada grupo. Os pares e as condições para cada um ao longo das sessões de teste foram descritos na seção “Delineamento”. Cada sessão desta etapa consistia da categorização de um novo registro de atendimento com base numa lista de categorias contendo apenas os nomes e definições de cada um, sem exemplos ou observações adicionais. O material utilizado foi: o registro de um sessão de atendimento para cade uma das seções de teste e a lista de categorias descritas anteriormente. Não houve intervenção da pesquisadora em nenhuma das quatro sessões da etapa de testes.

 

Resultado e Discussão

Os resultados descritos a seguir apresentam, para cada participante, a evolução dos seus indices de concordancia com gabarito ao longo das etapas de Pré-Teste, Treino e Testes, em comparação as índices de seus pares. Além disso, serão apresentadas também as médias de concordância de cada participante para cada uma das etapas. Para comparação entre participantes, foram considerados os pares formados para realização da etapa de Testes (1A-2A, 1B-2B, 1C-2C e 1D-2D), o que permite avaliar o efeito do treino em cada condição prevista. A descrição dos resultados por categoria levam em consideração as médias gerais de cada categoria.

A fórmula utilizada para aferição dos índices gerais de concordância entre cada participante e os gabaritos elaborados pelos pesquisadores para cada sessão de categorização foi a seguinte:

 

 

Onde x é igual ao número de categorias encontradas pelo participante e registradas no gabarito. Para aferição dos índices de concordância, considerou-se a correspondência com o gabarito, como no exemplo da Tabela 3.

 

 

A fórmula utilizada para aferição dos índices de concordância por categoria foi:

 

 

Onde y é igual ao número de ocorrências de uma categoria particular encontradas pelo participante e registradas no gabarito no total. Para aferição dos índices de concordância por categoria, foram consideradas as ocorrências no gabarito e na categorização dos participantes, e o total de concordâncias entre elas, como exemplificado na Tabela 4.

 

 

Foram considerados satisfatórios para a validação do sistema de categorias e do procedimento de familiarização e treino, os índices de concordância iguais ou maiores que 80%.

 

Resultados por pares

Os dados referentes ao desempenho dos participantes a cada sessão (Figuras 1 e 2) evidenciam uma elevação nos índices de concordância de cada um na sessão TR1 em comparação aos índices da sessão de Pré-Teste, o que sugere a eficácia do procedimento de treino. No entanto, essa sugestão é contrariada quando comparados os índices de PT com aqueles das demais sessões (TR2, TS1, TS2, TS3 e TS4), que não representam resultados consistentes na direção de uma maior eficácia dos participantes após o treino. Além disso, os índices apresentados pelos participantes do Grupo 2 são consistentemente superiores aos índices dos participantes do Grupo 1, com exceção da dupla 1B-2B. Isso tanto pode significar que o treino não produz categorizações mais consistentes, quanto que outras variáveis podem ter comprometido um possível efeito positivo do procedimento de treino.

 

 

 

Estes resultados refletem parcialmente os efeitos das variáveis manipuladas (treinamento, familiaridade e exposição continuada), mas parecem ser reflexo também de uma variável não controlada: a complexidade das sessões categorizadas. Esta variável fica sugerida quando observamos, por exemplo, que na eta-pa de Testes, os índices das sessões TS2 e TS4 apresentam quedas consistentes para todos os participantes, em comparação às sessões imediatamente anteriores a cada uma.

Em linhas gerais, esse problema resume-se ao fato de que os registros empregados nas sessões PT, TR1 e TR2 eram mais simples, apresentando um percentual muito alto de verbalizações do tipo Investigar (INV) (60,17% em PT; 65,87% em TR1; 30,98% em TR2; 40,34% do total de categorias nas sete sessões) e um percentual muito menor de ocorrências de cada uma das demais categorias. Nas sessões de testes, os percentuais de ocorrência da categoria Investigar (INV) foram 39,44%, 25,90%, 43,44% e 28,73% sucessivamente.

Somando-se as ocorrências de Investigar (INV) indicadas pelos gabaritos de todas as sessões do estudo, encontra-se o total de 422 ocorrências. Comparando com o número de ocorrências das demais categorias, a que mais se aproxima de Investigar (INV) é Confrontar (CFR), indicada 321 vezes nos gabaritos das sete sessões. Nenhuma outra categoria teve número de ocorrência superior a 100, somando todas as ocorrências indicadas pelos sete gabaritos elaborados pelos pesquisadores. Disso resultou que, nas primeiras etapas, os participantes encontraram menos dificuldade para realizar as categorizações (seja porque a categoria INV é uma das de mais fácil aplicação, seja porque tiveram mais treino justamente com respeito a esta categoria).

Esse fato explica parcialmente a queda nos índices de concordância nas sessões TS1, TS2, TS3 e TS4 (especialmente nas sessões TS2 e TS4), quando havia maior freqüência de categorias de mais difícil categorização e para as quais os participantes receberam menos treinamento. Explica também parcialmente as oscilações nos índices de concordância nas sessões de testes, maiores nas sessões com maior freqüência de INV (TS1 e TS3) e menores nas sessões com menor freqüência desta mesma categoria (TS2 e TS4).

Isto é, que a complexidade das sessões constituiu uma variável importante para explicar os resultados fica evidenciado pela consistência na direção da oscilação dos índices de concordância ao longo das etapas para todos os participantes. Em particular, a queda nos índices de concordância nas sessões TS2 e TS4 é bastante sugestiva, mas também para as demais sessões parece haver certa consistência entre as variações de todos os participantes. Assim, mostra-se necessário avaliar o grau de complexidade das sessões no planejamento de novos estudos, no sentido de buscar empregar em todas as etapas sessões que apresentem uma distribuição mais equilibrada das verbalizações por categoria.

Além disso, a familiarização produzida pela leitura preliminar do material das sessões não foi suficiente para produzir diferenças sistemáticas de desempenhos, quando se comparam as duplas 1A-2A, 1B-2B, 1C-2C, 1D-2D, em que os membros dos pares foram submetidos a quantidades diferentes de leitura nas sessões TR1 e TR2, mas cada dupla à mesma quantidade de leitura nas sessões TS1, TS2, TS3 e TS4. Também quando se comparam os desempenhos intragrupos, o efeito acumulado de leituras das etapas de treino e de testes não produziu melhores desempenhos. Assim, o desempenho na etapa de testes (TS1 a TS4) do sujeito 1A não é consistentemente superior ao 1B, ou ao 1C, ou ao 1D. O mesmo vale para o desempenho dos participantes do Grupo 2. Isto sugere que a introdução da leitura não foi suficiente para produzir familiaridade, ou que a familiaridade (limitada) produzida não afetou o desempenho dos participantes.

À parte do procedimento de familiarização por meio de leitura, os resultados indicam, ainda, que a exposição continuada ao processo de categorização não foi suficiente para produzir melhor desempenho dos participantes. Também com respeito a esse aspecto, é possível que os resultados fossem diferentes, caso as sessões categorizadas não fossem crescentemente complexas, o que pode ser de-vidamente avaliado em um novo estudo que envolva o controle desta variável.

Ainda que o delineamento empregado não tenha sido efetivo para produzir índices de concordância elevados, acima de 80%, é importante destacar que os índices obtidos foram consistentemente superiores àqueles relatados por Chequer (2002), situando-se freqüentemente acima de 70% (em 19 de 32 sessões de testes, considerados todos os participantes) e em alguns casos acima de 80% (em 3 das 32 sessões de testes, considerados todos os participantes). Dentre os casos em que o índice de 70% não foi alcançado, apenas um índice ficou abaixo de 60%, aproximandose da média encontrada por Chequer (2002). Considera-se, portanto, que o sistema de categorização, e possivelmente o procedimento de treino para seu uso, constituem um bom ponto de partida para o desenvolvimento de uma alternativa que possa conduzir a resultados consistentes de categorização.

As oscilações nos índices refletem os efeitos das variáveis citadas, inclusive ao se considerarem as médias dos índices de concordância de cada participante ao longo das etapas do estudo (Figura 3, a seguir). Para seis dos oito participantes, as médias da etapa de Treino (TR) foram maiores que seus índices na sessão de Pré-Teste (PT); para quatro dos oito, suas médias na etapa de Testes (TS) são menores que seus índices no Pré-Teste (PT); para três deles, as médias na etapa de Testes (TS) foram maiores que os índices alcançados no PréTeste (PT) e, para um deles, sua média nos Testes (TS) foi maior que seu índice em PT e que seu índice em TR. Isto é, mesmo considerando as médias de cada etapa, os maiores índices encontram-se na etapa de treino, declinando consistentemente na etapa de testes para a maioria dos participantes.

 

Resultados por categoria

Os resultados para cada categoria indicam que apenas a categoria Investigar (INV) alcançou índices de concordância considerados satisfatórios, isto é, em sua maioria, iguais ou maiores que 80%. Considerando-se a somatória das ocorrências e concordâncias de todos os participantes, em todas as sessões, para a aferição de uma média de concordância para cada categoria, tem-se: INV (88,53%), CFR (75,57%), MIN (70,15%), CON (50%), IFO (47,47%), OUT (42,25%) e FBK (44,23%). Estes resultados estão relacionados com as ocorrências das categorias ao longo do estudo. Os números de verbalizações relativas a cada uma das categorias representam percentuais diferentes de ocorrência a cada sessão. A maioria das verbalizações do terapeuta em todas as sessões do estudo era do tipo Investigar (INV) 40,34% do total. Por outro lado, a categoria Dar Feedback (FBK) representa 6,50% das verbalizações do terapeuta somando-se todas as sessões, e a categoria Dar Conselho (CON), apenas 2,58%.

Apesar de a categoria INV ter sido a única a alcançar índices satisfatórios de concordância, há categorias com respeito às quais o treino produziu uma evidente e expressiva elevação nos índices de concordância (ver Figura 4, a seguir). Esse foi, por exemplo, o caso das categorias CFR, FBK e CON. No caso da categoria CFR, a média alcançada no PréTeste foi de 34,80% e subiu para 77,77% na etapa de Testes. Para a categoria FBK, a média do Pré-Teste foi igual a 9,09% de concordância e na etapa de Testes foi igual a 51,07%. Não houve ocorência de FBK registrada no gabarito na sessão de Pré-Teste, mas a média geral da etapa de Treino para esta categoria foi igual a 40,27% e a média da etapa de Testes foi igual a 53,22%.

 

 

 

Sobreposições foram sistematicamente observadas entre as categorias INV-CFR, CFR-IFO, IFO-CON, IFO-OUT, FBK-MIN e FBK-CFR. De um modo geral, as sobreposições são devidas às definições das categorias citadas. Por exemplo, a categoria IFO foi a que mais apresentou sobreposições; sua definição torna possível atribuí-la a diversas verbalizações que poderiam ter funções semelhantes a confrontar o cliente com seu relato anterior, dar conselhos, aprovar, reprovar ou corrigir verbalizações anteriores, assim como atribuí-la a outras verbalizações.

Para o emprego da categoria IFO, os pesquisadores que elaboraram os gabaritos das sessões utilizaram critérios não descritos em sua definição ou em observações adicionais. O exemplo utilizado para ilustrar uma ocorrência da categoria representa um destes critérios, usado para diferenciar as ocorrências de IFO das ocorrências de CFR. Considerou-se que verbalizações em que o terapeuta aborda assuntos relacionados a padrões gerais de comportamento, explicações sobre como as pessoas se comportam, sem especificar a quem está se referindo, ou descreve que tipos de intervenções ele precisaria adotar diante dos assuntos mencionados pelo cliente, constituiriam ocorrências de IFO. Para diferenciálas das ocorrências de CFR, considera-se que estas informações não devem estar relacionadas a comportamentos do cliente especificamente, caso contrário, constituiriam uma ocorrência de CFR e não de IFO.

Assuntos abordados por terapeuta e cliente que não tenham relevância para o caso clínico não são considerados ocorrências de IFO. Por exemplo, há casos em que o terapeuta explica ao cliente os motivos de seu atraso, ou informa sobre seu estado de saúde e isso não representa uma função específica ou um padrão de intervenção do terapeuta, constituindo uma ocorrência de Outras Verbalizações (OUT). Informações acerca de procedimentos a serem adotados durante o processo terapêutico foram, geralmente, confundidos com ocorrências de Dar Conselho (CON). O emprego de outras categorias em verbalizações registradas no gabarito como Dar Conselho (CON) pode estar relacionado com a pouca exposição dos participantes a ocorrências deste tipo entre as verbalizações categorizadas durante o Treino.

Em uma escala menor, em algumas verbalizações do terapeuta a categoria MIN foi atribuída a verbalizações registradas no gabarito como verbalizações do tipo IFO. As verbalizações em que isso ocorreu constituíam respostas curtas do terapeuta para perguntas imediatamente anteriores do cliente (outro critério não descrito na definição de IFO e em observações adicionais). Por exemplo, se o cliente pergunta ao terapeuta “É sobre isso que você está falando?” e o terapeuta responde “Hum, hum”, a verbalização do terapeuta constitui uma ocorrência de IFO, porque altera o conhecimento do cliente sobre um assunto abordado pelo terapeuta. Da mesma forma, se o cliente questionar “Você está falando sobre o meu pai ou sobre os irmãos do meu pai?” e o terapeuta responder “Não, eu estou falan-do dos irmãos da sua mãe”, isto também cons-tituiria uma ocorrência de IFO.

A análise da concordância por categoria provê ainda outras informações relevantes sobre as-pectos do treino e do sistema de categorização empregado. Como as freqüências das categorias são variadas, a referência aos índices de concordância nem sempre é suficiente como indicação da adequação ou suficiência de uma categoria e sua descrição. A categoria CON, por exemplo, alcançou uma média de concordância de 50%, considerada baixa, mas apenas 2,58% das verbalizações (n=27) foram indicados no gabarito como do tipo CON.

A concordância com respeito a categorias específicas pode também ter sido afetada por variáveis não controladas no treino. Uma evidência de que esse tipo de problema pode ter ocorrido é encontrada nos percentuais de concordância da categoria MIN. Os resultados desta categoria apontam um índice médio de concordância de 70,15%. Esse índice reflete, porém, médias bastante diferenciadas para os participantes do Grupo 1 (64,61%) e do Grupo 2 (76,75%), sugerindo que alguma instrução no treinamento para os participantes do Grupo 1 favoreceu índices mais baixos, que repercutiram na média geral da categoria. A favor dessa hipótese há o dado de que os participantes 1A e 1C chegaram a alcançar, respectivamente, índices de 25% e 20% de concordância para a categoria MIN na primeira sessão de testes após o treino.

Estes resultados apontam para a necessidade de refinamento do sistema de categorias, a princípio apenas revisando as descrições utilizadas neste estudo, tomando como base as sobreposições indicadas e os critérios que não estiveram acessíveis aos participantes, mas que foram descritos como critérios adicionais adotados pelos pesquisadores que elaboraram os gabaritos. O baixo índice de ocorrência da categoria OUT (3,63% do total) sugere que as demais categorias são suficientemente abrangentes quanto a tipos de intervenções verbais do terapeuta.

No entanto, diante desta necessidade de refinamento do sistema, considera-se que observar o sistema proposto por Fiorini (1987), que aborda os objetivos do terapeuta ao utilizar determinadas intervenções (o que envolve as habilidades que pretende ensinar ao seu cliente), cruzando suas categorias com aquelas propostas por Tourinho (2004), pode ser útil para ampliar as descrições das categorias deste último sistema, ou para criar um sistema alternativo a estes dois.

No que diz respeito a outras particularidades do estudo que podem estar relacionadas aos índices de concordância alcançados, sugere-se que os gabaritos sejam elaborados por pesquisadores que atinjam índices iguais ou superiores a 80% de concordância em todas as sessões do estudo. A primeira e a segunda sessões foram categorizadas pelos quatro pesquisadores anteriormente citados (um pesquisador experiente, uma pesquisadora familiarizada com o procedimento e duas pesquisadoras inexperientes, em treinamento) e os índices de concordância variaram de 60,43% a 88,23% na sessão 1, e na sessão 2, variaram entre 78% e 90,50% de concordância. No entanto, nas outras cinco sessões, a grande maioria dos índices ficou acima de 70% e abaixo de 80% de concordância, e apenas na sessão 6, a maioria dos índices foi superior a 80% de concordância (Lima et.al., 2004).

De um modo geral, as dificuldades apontadas indicam a necessidade de refinamento do sistema de categorias e de avaliar a complexidade das sessões cujos registros são utilizados e, com essa sugestão, o que se pretende é contribuir para a orientação de novas pesquisas sobre as funções das verbalizações de terapeutas, inclusive as voltadas para um programa de formação de terapeutas iniciantes, objetivo último de pesquisas empíricas em terapia analítico-comportamental - podendo, então, auxiliar supervisores na formação de terapeutas, e auxiliar terapeutas na observação de seus próprios comportamentos, favorecendo intervenções com maior probabilidade de serem efetivas.

 

 

Referências

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Recebido em: 31/10/2005
Primeira decisão editorial em: 14/02/2006
Versão final em: 22/02/2006
Aceito em: 20/05/2006

 

 

1 Este artigo reproduz parcialmente a Dissertação de Mestrado apresentada pela primeira autora, sob orientação do segundo autor, ao Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Universidade Federal do Pará. Trabalho parcialmente financiado pelo CNPq (Bolsas de Mestrado e Produtividade em Pesquisa).
2 E-mail: micheleoli@gmail.com
3 tourinho@amazon.com.br