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Revista Mal Estar e Subjetividade

versão impressa ISSN 1518-6148versão On-line ISSN 2175-3644

Rev. Mal-Estar Subj. v.6 n.2 Fortaleza set. 2006

 

RESENHAS DE LIVROS

 

 

Daniella Coelho de Oliveira

Correspondente do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM-RJ), doutora em Psicologia Social. E-mail: c.daniella@gmail.com

 

 

 

Helion Póvoa Neto & Ademir Pacelli Ferreira (Orgs.)
Cruzando fronteiras disciplinares: um panorama dos estudos migratórios
Editora Revan/FAPERJ, 2005, 424 p.

Cruzando fronteiras disciplinares: um panorama dos estudos migratórios é um desses raros livros que consegue traduzir o dialogar próprio das apresentações orais, transportando o leitor para esse momento fértil do debate de idéias sem a pretensão da convergência estéril dos acordos teóricos estabelecidos. Produto do primeiro seminário promovido pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM-RJ), reúne os esforços do grupo no sentido de agregar em torno de seu eixo temático inúmeras variantes de percepção, enfoques e formatos de pesquisa, constituindo essa travessia tão profícua pelos limites disciplinares. É essa marca do Núcleo, que congrega pesquisadores e militantes da causa migrante e que resulta numa aposta na potência do encontro entre ciência, artes, cultura e ações transformadoras, que fica impressa nessa publicação.

A primeira seção, intitulada Migração, território e identidade, reúne artigos que abordam os processos de migração internacional e exílio que tiveram como um dos pólos o Brasil. O traço comum aos autores é o aspecto critico de suas formulações, destacado pelo uso do recurso histórico como estratégia de mapeamento de seus objetos de investigação e forma de contextualizar os registros identitários disseminados, seja pela figura dos próprios migrantes, seja pelos nativos brasileiros, Estado ou teorias sociais cunhadas sob o esteio de políticas governamentais. É esse tom que conduz a reflexão sobre as colônias alemãs e italianas no sul do Brasil, que pontua o estudo sobre os exilados anti-salazaristas ou que transparece nas análises dos fluxos migratórios Brasil-Japão. Tal acento nos permite trafegar pelo tema multifacetado das migrações e seus personagens, descobrindo aí uma série de opositores, espelhos que fazem com que a identidade migrante se reconfigure a cada momento: a imagem do colono versus a do brasileiro; os bárbaros, selvagens da terra e os construtores do progresso, em um revezamento de qualificações e atributos que ora projetam esse estrangeiro a modelo de civilização, ora associam-no a um amplo conjunto de identidades espúrias.

Migração e subjetividade nos brinda, por sua vez, com textos que deslizam por esses bastidores da questão migratória, enredando-nos nesse terreno da alteridade, do estranho, mostrando-nos a força e o impacto da recusa social da diferença sobre a particularidade do sujeito e dos grupamentos sociais. O ritmo dos ensaios e as tantas interlocuções que sugerem entre si vão definindo esse lugar de solidão tão freqüentado pelo intruso - migrante, exilado, deslocado, itinerante - que, diante da perda de suas referências e do choque com uma nova cultura e racionalidade, arrisca-se nesse lugar de fronteira, cujos extremos são a despersonalização, a diferença radical representada pela loucura. A construção dos textos e essa conversa que eles estabelecem nos mostram que não somos somente expectadores dessa experiência. Em um mundo onde a circulação espacial compõe-se com o ideário difusor da globalização, que define um imperativo de homogeneização e a defesa de diferenças minimamente sustentadas, vemo-nos todos nessa condição itinerante, quase de beira, tantas vezes aproximando-nos e vivendo essa sensação de não pertencimento capturada pela escrita dramática de Clarice Lispector. Vivemos este momento ambíguo em que a promessa da convivência pacífica convive com a explosão dos integrismos, dos fanatismos religiosos, da expulsão do outro do campo da cultura. Seguimos aqui entre esse mergulho nessa sensibilidade e as novas formas do adoecer contemporâneo, da inspiração literária à psicanálise em seus desafios como teoria e como intervenção, nesse terreno híbrido, composto, limítrofe, que tanto se aproxima da condição existencial do migrante.

Migração, fronteiras e poder é o espaço dos teóricos repensando os próprios métodos de construção de seus estudos. A crítica das produções acadêmicas economicistas e apolíticas inscreve-se aqui como tema de pesquisa, mas também e principalmente como um posicionamento dos autores que estão dando outro destino às ciências sociais, estruturando seus estudos a partir da consideração de toda uma trama de poder que envolve as questões migratórias. Esse espaço instrumentaliza a reflexão sobre os novos esquemas de segregação, coerção e criminalização do imigrante ou do refugiado em condição de miséria e marginalidade. A aproximação das categorias de pobreza e delito relacionadas a esses bárbaros invasores reedita-se nesse tempo e nesses dias e nos revela como se reacendem antigos temores sociais, redefinindo potentes formas de exclusão.

As considerações sobre a mobilidade espacial entre as regiões ou localidades brasileiras estão reunidas em Migrações internas: da metrópole ao território nacional. A região metropolitana do Rio de Janeiro destaca-se como foco privilegiado de análise, em trabalhos que focalizam a migração de nordestinos e as questões que advêm da equação trabalho/moradia ou ainda que se referem aos processos de deslocamento intra-urbanos, enfocando zonas específicas da localidade. O descenso econômico da região aparece aqui modulado em números - a reversão do fluxo de entrada/saída de migrantes, a evolução das favelas, o processo de periferização da pobreza. As lentes dos autores posicionam-se diante dessa realidade mais objetiva, que é a circulação na cidade, concedendo ao leitor essa observação das mudanças estruturais ocorridas no tecido urbano, flagrantes de uma mobilidade forçada por uma crescente pauperização.

Vemos, portanto, que as idéias, descobertas, conceitos-chaves presentes nas seções anunciadas podem ser cruzados entre si, aproximando pesquisa quantitativa e qualitativa, temas relativos ao racismo e à construção da psicanálise, exílio e adoecimento psíquico. Seguimos cada artigo nessa movimentação entre passado e presente, movimentos migratórios nacionais e internacionais, na exploração de um terreno fascinante para todos os que se inquietam ante as mudanças espaciais e sua repercussão sobre as questões identitárias, a produção de subjetividades. São essas paragens que o livro nos convida a freqüentar, produzindo um saber-movimento, que instrumentaliza o próprio exercício do pensar e a ação transformadora.

 

 

Recebido em 10 de maio de 2006
Aceito em 01 de junho de 2006
Revisado em 20 de junho de 2006

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