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Revista Mal Estar e Subjetividade

versão impressa ISSN 1518-6148

Rev. Mal-Estar Subj. vol.9 no.3 Fortaleza set. 2009

 

AUTORES DO BRASIL
ARTIGOS

 

Do diário íntimo ao blog: o sujeito entre a linearidade e a espacialidade

 

 

Nádia Laguárdia de LimaI; Ana Lydia Bezerra SantiagoII

IDoutora em Educação (UFMG), Mestre em Educação (UFMG), Psicóloga, Psicanalista, Professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e do Unicentro Newton Paiva em Belo Horizonte, M. G. End.: R. Professor Otávio Coelho Magalhães, 324. Mangabeiras. Belo Horizonte, MG. Cep. 30210300. E-mail: nadialaguardia@uai.com.br
IIProfessora da Faculdade de Educação da UFMG, Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, USP, Psicanalista, membro da EBP - Escola Brasileira de Psicanálise e membro da AMP - Associação Mundial de Psicanálise. End.: R. Espírito Santo, 2727, sala 704. Lourdes. E-mail: a.lydia@terra.com.br

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta uma reflexão sobre o suporte material utilizado na prática da escrita de si e a dimensão espaço-temporal que o envolve, pensando a noção de sujeito implicada nesta dimensão. O diário é uma forma de escrita de si que originalmente se caracterizava pelo seu caráter íntimo e confessional. O blog pode ser considerado como um diário on-line, contemporâneo, de caráter público. Com relação ao suporte material, os diários íntimos são "escritos de si" reunidos em folhas encadernadas, seguindo uma ordem cronológica, que favorece uma leitura linear, sequencial e contínua. Os blogs, como diários virtuais, são textos fragmentados, descontínuos, móveis e abertos, escritos no ciberespaço e lançados no espaço público. Do diário íntimo ao diário público opera-se uma passagem, da linearidade à espacialidade. Buscamos fazer uma aproximação entre a noção de espacialidade do espaço virtual e a noção de "constelação" utilizada na literatura e na psicanálise. A partir das considerações sobre a lógica constelar no ciberespaço, buscamos fazer uma reflexão sobre as mudanças ocorridas no estatuto de sujeito, da lógica linear à lógica constelar.

Palavras-chave: diários, blogs, linear, espacial, constelar, psicanálise.


ABSTRACT

This article poses a reflection on the material support used in a practice here referred as a writing practice about oneself, represented by the personal diaries, and the temporal-spatial dimension involved in this task, having the notion of subject embedded in such dimension. Personal diaries were originally characterized by their intimate and confessional feature. In relation to the material support, personal diaries are writings about oneself which follow a chronological sequence, allowing a linear and continuous reading of hand-written thoughts in/ traditional notebooks. On the other hand, blogs have been regarded as on-line diaries resulting in a public and contemporary format: their contents consist of fragmented and discontinuous texts, written in the cyberspace and launched in a public space. The shift from personal diaries to the so called "public diaries" has led to a change from linearity to spatiality. Having this in mind, we have made an attempt to approximate the notion of spatiality of virtual space with the notion of "constellation" as it is viewed in both the literature and psychoanalysis fields. From considerations about the constellar logics within the cyberspace, this article eventually reflects on the changes occurred in the subject status, focusing on the passage from a linear logics to a constellar logics.

Keywords: personal diaries, blogs, linear, spatial, constellar.


 

 

...O fragmento é como a ideia musical de um ciclo: cada peça se basta, e, no entanto, ela nunca é mais do que o interstício de suas vizinhas: a obra é feita somente de páginas avulsas (Barthes, 2003, p. 110).

 

Introdução

Os diários íntimos são "escritos de si" reunidos em folhas encadernadas, seguindo uma ordem cronológica, que favorece uma leitura linear, sequencial e contínua. Os blogs são textos fragmentados, descontínuos, móveis e abertos, escritos em páginas virtuais e lançados no espaço público. Do diário íntimo ao diário público opera-se uma passagem, da linearidade à espacialidade. Buscamos fazer uma aproximação entre a noção de espacialidade do espaço virtual e a noção de "constelação" utilizada na literatura e na psicanálise. A partir das considerações sobre a lógica constelar no ciberespaço, buscamos fazer uma reflexão sobre as mudanças ocorridas no estatuto de sujeito, da lógica linear à lógica constelar.

Para que a escrita de si fosse possível, era necessário um suporte material que possibilitasse um texto contínuo, linear, que proporcionasse ao escritor os meios para alcançar o domínio do tempo que passa e uma representação estável de si. Esse esforço de apropriação de sua história a partir de uma escrita de si exigia um suporte material que facilitasse e possibilitasse essa narrativa. Os suportes materiais de escrita foram sendo construídos a partir das exigências que a prática fazia e, ao mesmo tempo, esses mesmos suportes favoreciam o desenvolvimento de novas práticas.

Analisando a relação da prática da escritura pessoal com seus suportes, Hébrard (2000) comenta que o scriptorium1, e depois a oficina do impressor, tiveram que construir suportes apropriados para administrar as continuidades narrativas e argumentativas praticadas nos livros. O autor acrescenta que articular o tempo da escritura e o tempo social e aprender a manifestar a continuidade de uma sensibilidade durante muito tempo continuou a depender de soluções improvisadas, da singularidade de toda escritura pessoal.

O hábito de escrever um diário, difundido a partir do século XVI, esbarrava na dificuldade de obter os suportes de escrita e prepará-los. Até o primeiro terço do século XIX, as folhas eram compradas de um fabricante de papel e depois confiadas a um encadernador, que as trabalhava em função de seu uso. Para Hébrard (2000), a articulação entre o gênero de escritura do diário pessoal e o suporte que o recebe se constitui em torno da exigência da continuidade textual, que era dificultada pelo uso de folhas separadas. A escrita do diário exigia, pois, um caderno com folhas presas, que não se soltassem. O diário íntimo é então possível quando se afasta o uso de folhas separadas e quando se pode assegurar de que as folhas não sairão da ordem. A possibilidade de ordenação dos textos com seu encadernamento facilitou a escrita dos diários íntimos. A encadernação favoreceu a escrita linear, com uma ordem cronológica, temporal, sequencial.

Mas não se pode deixar de considerar que o texto encadernado é também um texto híbrido. Nas diversas fontes de escritura pessoal que estiveram presentes nos diversos períodos da história, observa-se como, num mesmo caderno, diferentes tipos de escritura se misturam: o pessoal e o profissional, o escolar e o informativo, o subjetivo e o objetivo, sem limites rígidos que os demarquem, compondo um texto muitas vezes marcado por turbulências e contradições. Registros profissionais, escolares, jurídicos ou religiosos eram associados aos lembretes e pensamentos; registros de caráter público convertiam-se em notas pessoais e informações sobre fatos e eventos eram gradativamente substituídos por reflexões pessoais, formando um texto híbrido, multifacetado.

Mesmo quando o diário se configura como um texto pessoal e íntimo, ele combina diferentes temas, ritmos e formas de escrita. O diarista não precisa escrever diariamente, pode variar o ritmo da escrita, sem obedecer a uma sequência lógica na ordenação dos temas, pode utilizar outros recursos além da escrita de palavras, como colagens de objetos, fotos e desenhos. O texto impresso apresenta suas descontinuidades, diferentes recursos visuais e gráficos, recortes e rupturas. O diário também permite ao leitor percorrer diferentes caminhos, em um ritmo complexo, descontínuo. O leitor se aproxima e se afasta do texto, interrompe a leitura, consulta referências, retorna ou avança na leitura, estabelecendo uma relação particular com o texto.

 

Um novo texto: o hipertexto do ciberespaço

Se todo texto é híbrido e não linear, o texto do ciberespaço potencializa essa não linearidade, com seus inúmeros recursos, que permitem uma multiplicidade de caminhos e ritmos e pelo seu caráter fragmentário. O blog é um texto escrito no ciberespaço. A leitura e a escrita no ciberespaço possibilitam a criação de um texto fundamentalmente diferente do texto no papel, o hipertexto que é, segundo Lévy (2000, p.56): "um texto móvel, caleidoscópico, que apresenta suas facetas, gira, dobra-se e desdobra-se à vontade frente ao leitor". Esse novo espaço de leitura e escrita interfere também nas formas de aprendizagem, nas interações sociais e na relação do sujeito com a escrita.

O termo hipertexto foi utilizado pela primeira vez por Ted Nelson, na década de 1960, em que o prefixo hiper expressa generalidade, extensão, designando sistemas textuais não lineares, ou seja, uma escritura eletrônica não sequencial e não linear. O hipertexto possui uma textualidade eletrônica virtual. Segundo Costa (2005), trata-se de um texto composto de blocos de palavras ou imagens, conectados eletronicamente, conforme múltiplos percursos, numa textualidade sempre aberta e infinita.

O hipertexto compreende a noção de hipermídia, o que inclui modos de informação visuais, animados, como outras formas de organização de dados. O hipertexto é uma estrutura de rede, cujos elementos textuais são nós, ligados por relações não lineares e pouco hierarquizadas.

As principais características do hipertexto (Marcuschi, 2004) são: a não linearidade, a volatilidade, a topografia (sem limites espaciais definidos de leitura ou escritura), a fragmentação, a acessibilidade ilimitada, a multissemiose (integra linguagem verbal e não verbal), interatividade (interconexão interativa do leitor-navegador com uma multiplicidade de textos e autores) e a iteratividade (intertextualidade). Segundo Levy:

Se definirmos um hipertexto como um espaço de percurso para leituras possíveis, um texto aparece como uma leitura particular de um hipertexto. O navegador participa, portanto, da redação do texto que lê. Tudo se dá como se o autor de um hipertexto constituísse uma matriz de textos potenciais, o papel dos navegantes sendo o de realizar alguns desses textos colocando em jogo, cada qual à sua maneira, a combinatória entre os nós. O hipertexto opera a "virtualização" do texto (Levy, 2000, p. 57).

Os processos discursivos que ocorrem na Internet revelam uma comunicação viva, característica da oralidade. Se na oralidade as mensagens circulam em espaço e tempo reais, numa interação face a face, quando os interlocutores compartilham da mesma situação de produção discursiva, a escrita rompe com essa partilha da situação de produção e com a interação face a face, como já foi abordado. O hipertexto, com sua dinâmica e características próprias, mistura formas, processos, funções da oralidade, da leitura e da escrita.

Várias características da oralidade, como as pausas, entonações e expressões fisionômicas, são transportadas para a linguagem do computador, criando códigos de escrita específicos desse universo virtual, como alongamento de letras, sinais de pontuação, uso de letras maiúsculas, caracteres (emoction), além do alfabeto tradicional, como podemos ver nos recortes feitos em diferentes blogs de adolescentes:

Oiee!!

Abração!!!!!!!!!!

Querido diário, hoje é o primeiro dia de nossa caminhada..... Blá, blá, blá, blá....

A vida é tão complikada

Estou ficando nervosa com o simples fato de não estar sabendo usar um negócio que fiz aqui na web, e isso é totalmente irritante. Mas vou tentar e tentar até conseguir. Aff.

Bom meu plimeiro post...

meiu sem u qi iscrever...us outrus jujubb i jujubb2 saum meus tbm...sow qi eu perdih a senha....i agora mi deu uma saudade di blog..intaum resolvih fazer outruh...aki eu vow desabafar mtu...msm qi poukus vejam...=[[

Amigus...amu v6!!!!

Nesse espaço virtual, leitor e autor se cruzam, on-line, participando da edição do texto que leem e escrevem. Dessa maneira surgem novos gêneros discursivos, novas modalidades de linguagem, novos códigos e novos estilos de leitura, escrita e conversação (Costa, 2005).

Diversos autores (Frade, 2005) confirmam que os movimentos entre o oral e o escrito demonstram a não existência de uma oposição entre eles, mas um contínuo entre os modos de utilização dessas linguagens. A escrita proporcionou a virtualização da fala, ou seja, tornou a fala virtual, existindo em potência e podendo ser atualizada. Nesse sentido, o texto escrito, seja qual for o suporte (papel, papiro, pergaminho, tábua, barro, livro ou a tela do computador), é sempre virtual; o leitor atualiza o texto, por meio de leitura e interpretação. Mas a revolução numérica introduzida pela cultura digital tornou ainda mais complexas as relações entre os termos oralidade e escrita, fazendo surgir textos híbridos entre essas duas modalidades, como os da comunicação on-line.

Com o hipertexto, ou o texto da Internet, o trânsito informacional se dá em um ciberespaço, um não lugar. Na verdade, a informática simula um espaço e essa simulação permite atualizar um texto. Com a Internet não precisamos mais de um espaço geométrico, apenas de sua simulação na tela do monitor. A informática eliminou a dependência espacial, assim como a escrita eliminou a dependência temporal. (Ribeiro, 2005).

Chartier (2002) descreve várias rupturas introduzidas pela revolução do texto digital. Uma delas refere-se à ordem dos discursos. Na cultura impressa, essa ordem se estabelece numa relação entre tipos de objeto, como os livros, o diário ou a revista, as categorias de textos e as formas de leitura. Essa vinculação está arraigada a uma história antiga da cultura escrita e surgiu devido a três inovações fundamentais: a difusão de um novo tipo de livro composto de folhas e páginas reunidas numa mesma encadernação (códex), a partir do século II; o aparecimento do livro unitário, ou seja, a presença dentro de um mesmo livro de obras compostas em língua vulgar por um único autor, no final da Idade Média, nos séculos XIV e XV; e, por último, a invenção da imprensa no século XV.

Essa ordem dos discursos foi profundamente alterada com a textualidade eletrônica. Um único aparelho, o computador, apresenta diante do leitor os diversos tipos de textos que tradicionalmente eram distribuídos entre objetos diferentes. O computador cria uma continuidade que não diferencia os diversos discursos a partir de sua materialidade. A percepção da obra como obra se torna mais difícil em função da leitura diante da tela ser geralmente descontínua. A partir de palavras-chave, busca-se o fragmento textual do qual se quer apoderar, sem que sejam percebidas a identidade e a coerência da totalidade do texto que contém esse elemento. Chartier (2002) acrescenta, que quanto à ordem dos discursos, o mundo eletrônico provoca três rupturas: introduz uma nova técnica de difusão da escrita, provoca uma nova relação com os textos e impõe-lhes uma nova forma de inscrição. Essa revolução digital obriga o leitor a abandonar todas as heranças que o fundaram nesse universo da leitura, pois o universo virtual não utiliza a imprensa, ignora o "livro unitário" e desconhece a materialidade do códex.

É possível fazer uma caracterização dos blogs, utilizando os parâmetros que definem o texto digital. Os blogs são diários localizados em um espaço virtual, não material, onde seu autor pode também desenvolver pesquisas, fazer compras, conversar no MSN e entrar em salas de bate-papo, abrindo simultaneamente diversas telas, como num continuum, transitando nesses diversos espaços ao mesmo tempo em que escreve seu diário. Esses espaços virtuais funcionam em uma lógica completamente diferente da lógica do livro impresso, na qual o diário tem as características de um "livro unitário".

Outra ruptura provocada pelo texto digital diz respeito à ordem das razões (as modalidades das argumentações e os critérios ou recursos de que o leitor pode dispor para aceitá-las ou dispensá-las). O texto eletrônico introduz uma lógica que já não é necessariamente linear nem dedutiva, mas aberta, clara e racional, graças à multiplicação dos vínculos hipertextuais. O leitor pode comprovar a validade de qualquer demonstração consultando pessoalmente os textos e imagens que são o objeto de sua análise, e se estiverem acessíveis numa forma digitalizada. Assim, a revolução textual é também uma mudança epistemológica que transforma as formas de construção e crédito dos discursos do saber.

Essa nova lógica também interfere na escrita e na leitura dos blogs. O escritor de um blog pode, ao escrevê-lo, consultar autores, poetas, letras de música e imagens e utilizar tudo isso em seu texto. Ele pode fazer consultas a outros blogs, copiar imagens e frases, e consultar diretamente autores citados por outros blogueiros. Essa liberdade de percurso pôde ser vista nos textos dos blogs pesquisados.

Uma terceira ruptura refere-se à ordem das propriedades que, segundo Chartier (2002), abrangem tanto um sentido jurídico (propriedade literária) quanto um sentido textual (propriedades dos textos). O texto eletrônico é um texto móvel, maleável, aberto. O leitor pode intervir no conteúdo do texto, pode deslocar, recortar, estender, recompor as unidades textuais e modificá-las. A atribuição dos textos ao nome de seu autor pode, nesse processo, desaparecer, e o texto é modificado por uma escritura coletiva, múltipla, polifônica. A possibilidade de o leitor interferir pode modificar a escrita do próprio texto, e sua elaboração deixa de ser individual, passa a ser coletiva.

O autor do blog pode responder aos comentários, dialogar com seus leitores através da escrita no próprio blog, manter contato com eles também pelo MSN, por e-mail e outros, não responder aos comentários, selecionar alguns etc. Tanto o autor do blog quanto o leitor têm autonomia para seguir um rumo próprio. A presença de links nos blogs revela suas possibilidades de incursão, para diferentes "caminhos". O leitor tem acesso a outras páginas que o autor do blog costuma visitar, a lista com os blogs favoritos do autor da página, comentários e alguns links de outros blogs. O leitor do blog pode acompanhar o caminho percorrido pelo autor, visitando outros blogs, conhecendo as preferências do autor e entrando em contato com esses outros autores. O navegante da rede pode abrir várias "janelas" para observar sites diferentes em paralelo.

A leitura e a escrita de um texto na tela apresentam, portanto, características distintas da leitura e da escrita do texto impresso. Segundo Marcuschi (2004), a deslinearização e a constituição plurilinearizada do texto virtual (hipertexto) trazem como grande novidade o rompimento com a ordem da construção textual, tornando-se um princípio de sua construção.

O texto do blog é um hipertexto eletrônico, o que o diferencia do texto impresso. O hipertexto é não linear e uma forma de apresentar e consultar informações. Ele vincula as informações contidas em seus documentos (ou hiperdocumentos) criando uma rede de associações complexas através de links (Lévy, 2000, p. 254). O hipertexto envolve a atualização constante, em qualquer lugar e em tempo real, com utilização de links e outros recursos audiovisuais. A interface oralidade/escrita encontra-se então dissolvida na Internet, que fez surgir novos gêneros textuais, ligados à interatividade verbal. A emergência de novos suportes de escrita influencia o surgimento de novos gêneros de escrita, e o leitor amplia seu leque de possibilidades de leitura à medida que entra em contato com esses novos suportes e gêneros, mais híbridos.

Para discutir sobre as especificidades de um determinado gênero virtual, podemos utilizar as considerações de Souza (2007). Segundo o autor, um gênero virtual é um gênero interativo guiado por funcionalidades, com uma natureza dialógica e hipertextual. As formas de enunciação, por conseguinte, não são monológicas, mas dialógicas. Do ponto de vista da recepção, quando um sujeito interage com um gênero virtual, não apenas constrói uma representação desse gênero, mas reconstrói uma representação de um gênero já existente. Um gênero virtual é sempre identificado na relação que estabelece com o suporte; essa relação chamada de "modelos mentais" ajuda os indivíduos a operarem com esses gêneros de forma intuitiva. Para Souza (2007) para ser rotulado de e-mail, por exemplo, um gênero deve ter: endereço de destinatário ou destinatários, assunto, local, data e modo de enunciação de acordo com o "Eu co-enunciador".

Para ser denominado blog, o gênero deve ter um eu que enuncia, um eu que processa essa enunciação, um local para comentários desse segundo eu, dados relevantes sobre quem enuncia. Em substância, o sujeito possui "internalizada" (Souza, 2007) a forma que um gênero virtual comporta e se apresenta, e a forma de enunciação que está diretamente ligada àquele gênero.

Circulando pelo universo virtual, gradativamente nos familiarizamos com as particularidades de cada gênero virtual. Assim, o adolescente, ao conduzir-se no universo virtual, transita com facilidade de um gênero ao outro, conhecendo as especificidades de cada um e sabendo como utilizar os diversos recursos de que dispõe. Os jovens, nos textos de seus blogs, evidenciam essa grande familiaridade com os diversos gêneros virtuais.

As mudanças no letramento introduzidas pelo texto eletrônico são destacadas por Soares (2002). Ela comenta as alterações que o texto impresso promoveu na leitura e na escrita, para discutir as novas alterações introduzidas pelo texto eletrônico. Ainda segundo a autora, a tecnologia da impressão, mais do que o rolo e o códice, "enformou" a escrita em algo estável, monumental e controlado. Estável, porque o texto impresso é passível de ser reproduzível em cópias sempre idênticas; monumental, porque sobrevive e persiste como um monumento a seu autor e a seu tempo; controlado, porque numerosas instâncias intervêm em sua produção e a regulam.

As tecnologias de impressão e difusão da escrita permitem instaurar a propriedade sobre a obra, que se expressa de maneira concreta no surgimento da figura do autor, que nos livros manuscritos apareciam em geral de forma difusa e não identificada. As tecnologias de impressão e difusão da escrita instituem os direitos autorais, a criminalização da cópia e do plágio (Soares, 2002).

Sabemos que as tecnologias de impressão e difusão da escrita criam várias instâncias de controle do texto, de sua escrita e de sua leitura. O texto é produto não só do autor, mas também do editor, do diagramador, do programador visual, do ilustrador, de todos aqueles que intervêm na produção, reprodução e difusão de textos impressos em diferentes portadores (jornais, revistas, livros...) (Soares, 2002). Assim, com o surgimento do texto impresso, se altera fundamentalmente o estado ou condição dos que escrevem e dos que leem. O texto impresso marca uma profunda alteração no letramento com relação ao texto manuscrito.

A cultura do texto eletrônico traz uma nova mudança no conceito de letramento, segundo Soares (2002). No entanto, em certos aspectos, essa nova cultura do texto eletrônico traz de volta características da cultura do texto manuscrito: como o texto manuscrito, e ao contrário do texto impresso, também o texto eletrônico não é estável, não é monumental e é pouco controlado. Segundo Soares (2002), assim como os copistas e os leitores frequentemente interferiam no texto, também os leitores de hipertextos podem interferir neles, modificar e definir seus próprios caminhos de leitura; não é monumental em função de sua instabilidade, que faz com que o texto eletrônico seja fugaz, impermanente e mutável; e, finalmente, pouco controlado, porque é grande a liberdade de produção de textos na tela e quase totalmente ausente o controle da qualidade e conveniência do que é produzido e difundido.

Essa ausência de controle de qualidade permite também a maior liberdade de expressão nos blogs. Existem os mais diferentes blogs de adolescentes. Encontramos blogs completamente sem "identidade", verdadeiras "cópias" de outros blogs.

Há uma nova diferenciação entre o texto impresso e o eletrônico. No texto impresso, é grande a distância entre autor e leitor. Já no texto eletrônico, a distância entre autor e leitor se reduz, porque o leitor se torna, ele também, autor, tendo um papel ativo e podendo construir, independentemente, a estrutura e o sentido do texto.

Essa maior proximidade entre o autor e o leitor pôde ser vista nos blogs pesquisados. Os autores pedem comentários, gostam de recebê-los e escolhem aqueles que querem responder. Acompanhamos como os adolescentes ficam incomodados com alguns comentários que recebem, satisfeitos com outros ou "ignoram" aqueles que não interessam comentar.

O hipertexto é construído pelo leitor no ato mesmo da leitura, pois, optando entre várias alternativas propostas, é ele quem define o texto, sua estrutura e seu sentido. Soares explica que, no texto impresso, cuja linearidade por si só já impõe uma estrutura e uma sequência, o autor procura controlar o leitor, lançando mão de protocolos de leitura que estabeleçam os limites da interpretação e impeçam a "superinterpretação" (Soares, 2002). No texto eletrônico, ao contrário, o autor será tanto mais competente quanto mais alternativas de estruturação e sequenciação o texto possibilitar, ou quanto mais opções de interpretação oferecer ao leitor. A autora comenta que, na verdade, o hipertexto não tem propriamente um autor; pois a intertextualidade, presente no texto impresso, quase exclusivamente por alusão, no hipertexto se materializa. Ela se dá pela articulação de textos diversos, de diferentes autorias. No hipertexto, não há uma autoria, mas uma multiautoria.

A discussão sobre a autoria de um texto deve ser problematizada. Qualquer autor, na construção de um estilo próprio, sofre influências de vários autores com os quais ele se identifica durante todo o percurso que fez (e faz) enquanto leitor. A psicanálise nos ensina que o sujeito se constitui no campo do Outro, campo simbólico que o determina. A dimensão da alteridade está, portanto, presente em qualquer escrita, por mais íntima que seja. A dimensão da multiautoria está presente em qualquer autoria. No entanto, o hipertexto é o produto da escrita de vários sujeitos, que se encontram no ciberespaço.

Vários autores analisam o hipertexto de acordo com a sua organização. Marcuschi (2005) destaca que no hipertexto a forma de organização não é hierárquica e linear: a maneira de o hipertexto organizar a informação é o bricolage e a justaposição, numa perspectiva flexível, ou seja, sem uma relação de natureza lógica ou outra que lhe pareça evidente ou imediata. Dessa forma, pode-se esperar uma fragmentação do conteúdo. O autor acrescenta que os links, interconectores que guiam de forma objetiva e direta a textos ou blocos informacionais novos, estão submetidos a uma complexa retórica. Para Marcuschi (p.197), tanto o texto impresso quanto o hipertexto eletrônico são emergentes, incompletos, maleáveis, não determinísticos, multidimensionais, plurineares, multifocais e interativos. Para o autor, as diferenças entre o texto impresso e o eletrônico não são tão definidas. Ele comenta que lidar com o hipertexto é lidar com o texto. O autor e o leitor continuam ativos e com papéis bastante claros. Mas podemos pensar que, se todo texto é multidimensional, plurinear, emergente e interativo, o ciberespaço expande e potencializa essas características.

Podemos aproximar o diário íntimo do romance clássico, que busca uma ordenação das séries temporais, numa lógica retrospectiva e prospectiva, visando a construção de um sentido para a vida. Não poderíamos aproximar o blog do romance moderno? O romance moderno é aquele que denuncia o caráter descontínuo do real, que é formado de elementos justapostos sem razão, todos eles únicos, difíceis de serem apreendidos, pois surgem de forma imprevista e aleatória. Assim, esse romance "moderno" inclui o arbitrário, rompe com a representação tradicional do romance como história coerente e totalizante. Essa é exatamente a lógica do ciberespaço.

O hipertexto evidencia, em suas diversas manifestações, o efêmero, desprovido de limites, indefinido, multilinear, composto por textos verbais e não verbais, como imagens e sons, apresentando um amplo aparato paratextual, como referências, gráficos e dados informacionais. A rede possibilita múltiplos percursos e construções, considerando sua textualidade aberta, sem fronteiras definidas. Podemos fazer uma aproximação entre o texto no ciberespaço e as reflexões das teorias pós-estruturalistas, que analisam a contemporaneidade. Nessas teorias (Foucault, Barthes, Benjamin), o texto é caracterizado pela ausência de um início e de um fim definidos, que permite múltiplos percursos, abolindo-se qualquer forma de organização hierárquica.

Com a emergência de novos suportes e novos recursos, mais confortáveis e ágeis, surgem também leitores mais rápidos e mais íntimos desse material. O leitor amplia seu leque de possibilidades de leitura à medida que entra em contato com esses suportes e gêneros reconfigurados, por vezes híbridos. Essa questão abordada por Ribeiro (2005) nos remete a uma diferenciação entre os diários tradicionais e os diários virtuais. Os textos dos blogs apontam para a lógica do ciberespaço: escrita mais ágil, fracionada, muitas imagens, sons e interatividade. Discutiremos essa lógica do ciberespaço a partir das considerações psicanalíticas.

 

O constelar no ciberespaço: um hipertexto de fragmentos

Escrever por fragmentos: os fragmentos são então pedras sobre o contorno do círculo: espalho-me à roda: todo o meu pequeno universo em migalhas; no centro, o quê? (Barthes, 2003, p. 108)

A mudança do texto impresso para o hipertexto envolve a passagem da linearidade para a espacialidade. Mesmo sabendo que a leitura de um texto impresso nunca é totalmente linear, que todo texto é maleável e multidimensional, o ciberespaço potencializa e expande essa "espacialidade". O ciberespaço ilustra a dimensão constelar, noção utilizada na literatura e na psicanálise. Walter Benjamin (1994) aproxima "as ideias" das constelações intemporais, que apreendem os elementos como pontos luminosos nessas "constelações". Se cada estrela localiza-se em um ponto em relação a um conjunto, a constelação mostra o ponto em que dois extremos se encontram.

O termo constelação aparece diversas vezes na teoria de Lacan. Em O mito individual do neurótico, Lacan (1987) utiliza o termo constelação para se referir às relações familiares que estruturam a união de um casal. Ao se referir ao "Homem dos Ratos", Lacan sublinha que "a constelação do sujeito é formada na tradição familiar pela narração de um certo número de traços que especificam a união dos pais" (p.54). Ao narrar o mito familiar desse paciente neurótico obsessivo, ele apresenta "a constelação familiar do sujeito". Para Lacan:

A constelação - e por que não? No sentido em que dela falam os astrólogos - a constelação originária que presidiu ao nascimento do sujeito, ao seu destino, e diria quase à sua pré-história, a saber as relações familiares fundamentais que estruturam a união de seus pais, mostra ter uma relação muito precisa, e definível talvez por uma fórmula de transformação, com o que aparece como sendo o mais contingente, o mais fantasmático, o mais paradoxalmente mórbido do seu caso, a saber o último estado de desenvolvimento da sua grande apreensão obsidiante, o cenário imaginário ao qual chega como a solução da angústia ligada ao desencadear da crise (Lacan, 1987, p. 53-54).

O termo constelação aqui aparece relacionado a uma reunião de traços que estruturam e organizam o mito familiar. Para Lacan, a narrativa do sujeito, no decorrer da análise, apresenta uma série de "fragmentos" que são reunidos pelo analista para compreender os elementos essenciais que levam ao desencadeamento da neurose.

No seminário A angústia, Lacan2 demonstra que a psicanálise, em conformidade com a ciência moderna, denuncia o cosmo como lugar de engano. Num primeiro tempo, o mundo. Num segundo tempo, o palco em que fazemos a montagem desse mundo. "O palco é a dimensão da história. A história tem sempre um caráter de encenação" (Lacan, 2005/1962-63, p. 43). Ele acrescenta que tudo o que chamamos de mundo ao longo da história deixa resíduos superpostos, que se acumulam sem se preocupar com as contradições. "O que a cultura nos veicula como sendo o mundo é um empilhamento, um depósito de destroços de mundos que se sucederam e que, apesar de serem incompatíveis, não deixam de se entender muito bem no interior de todos nós" (p.43). E mais adiante destaca: "...Nada é mais legítimo do que o questionamento do que é o mundo da visão cósmica no real. Isso com que acreditamos lidar como mundo, será que não são simplesmente os restos acumulados do que provinha do palco, quando ele estava, se assim posso me expressar, em turnê?" (p.43).

A perspectiva de mundo sugerida nesse texto é a de que ele não passa de restos acumulados, empilhados, superpostos, empório de épocas que se sucederam. A noção de cosmo para a psicanálise é a de um lugar de engano e o mundo deixa de ser idealizado, o que coincide com a perspectiva da ciência moderna. O sujeito, portanto, não está sustentado em um conjunto harmonioso de significantes, mas exatamente nas falhas significantes.

Em Lituraterra (2003/1971), Lacan comenta que o sujeito japonês, devido às particularidades de sua língua, "é dividido pela linguagem como em toda parte, mas um de seus registros pode satisfazer-se com a referência à escrita, e o outro, com a fala" (Lacan, 2003/1971, p. 24). Lacan destaca a divisão do sujeito entre a letra e o significante. A letra aqui é apontada como servindo de apoio ao significante. Ele evidencia a modificação do status do sujeito, promovendo a letra a um "referencial tão essencial quanto qualquer outra coisa..." (p.24).

Relacionando a constelação com a identificação, Lacan destaca que o sujeito se apóia num céu constelado e não apenas no traço unário, para sua identificação primordial. O sujeito japonês, além de se apoiar nas leis de polidez para sua identificação, ou seja, numa estrutura de ficção da verdade nos graus de cortesia que marcam as relações entre os japoneses, num "império dos semblantes", ele se apóia também na escrita, no vazio escavado pela escritura. É essa segunda dimensão que está sempre pronta a dar acolhida ao gozo, "ou, pelo menos, a invocá-lo com seu artifício" (Lacan, 2003/1971, p. 24-25).

Em Observações sobre o relatório de Daniel Lagache3, Lacan (1998/1960) observa que é no Outro que o sujeito encontrará as marcas de resposta que tiveram o poder de fazer de seu grito um apelo. Ele comenta que assim ficam circunscritas na realidade, pelo traço do significante, as marcas onde se inscreve a onipotência da resposta do Outro. Essas realidades são chamadas de insígnias. Ele destaca que "é a constelação dessas insígnias que constitui para o sujeito o Ideal do Eu" (p.686). Miller, em Los signos del goze (2006)4, compreende que Lacan introduz nesse momento o termo "constelação de insígnias" para diferenciá-la da cadeia significante. Ele apresenta uma oposição conceitual entre a "cadeia" e a "constelação". Ao se referir à constelação de insígnias, Lacan sugere que esses significantes introduzem um modo de identificação diferente daquele que é o apagamento dos traços em cadeia significante. Miller (1998) observa que o estatuto significante da insígnia é o de um significante solto, que não tem par, que não está articulado em uma cadeia.

Na concepção de "agrupamento em cadeia", trata-se da ordem da representação, na qual o significante representa o sujeito para um outro significante. O sujeito surge dividido entre dois significantes. Na concepção de "constelação de insígnias", diz respeito a captar a identificação onde ela não é uma representação, ali onde o sujeito se toma por um só. Miller (2006) diferencia, portanto, dois tipos de identificação aqui. No caso clássico citado por Freud da histérica que tosse como seu pai, a identificação estabelece uma relação com o pai e se decifra a partir dessa relação. Trata-se da ordem da identificação representativa. No caso da identificação que tem valor de insígnia, é outra coisa. Nesta identificação o sujeito não está representado pelo Outro, mas está no lugar do Outro. Nesse caso, "o sujeito se toma pelo Um, por uma substância, uma entidade" (Miller, 2006, p. 149).

Destacamos aqui duas vertentes de sujeito, que não são excludentes entre si, mas que se complementam: a que se refere à lógica simbólica e a que se refere à dimensão real. Na primeira, o campo dos semblantes, as palavras e as imagens. Na segunda, o campo do real, a escritura. Acompanharemos brevemente a evolução do pensamento lacaniano com relação à noção de sujeito para fazer essa articulação.

Num primeiro tempo de seu ensino, Lacan define o sujeito como efeito da cadeia discursiva, como já foi visto. Nos anos 60, Lacan menciona a constelação de insígnias que constituem para o sujeito seu Ideal do Eu. Agora, para além do agrupamento em cadeia, onde um significante representa o sujeito para outro significante, é possível identificar uma constelação de insígnias. No seminário Mais, ainda..., Lacan (1985 [1972-73]) sublinha que o significante é signo de um sujeito. Ele lembra que o sujeito não é jamais senão pontual e evanescente, só é sujeito por um significante e para um outro significante. O significante Um é um-entre-outros, referido "a esses outros", "sendo somente a diferença para com os outros" (p.196). Ele então se refere ao S1, que é o significante-mestre, como um enxame: S1 (S1 (S1 (S1 S2) ) ).

O Ideal do Eu passa a ser apresentado como uma constelação de insígnias, que podem representar o sujeito e fazer com que ele seja reconhecido pelo Outro, e que podem também se soltar da cadeia significante e se transformar em insígnias, operando fora do sistema simbólico na sua face representativa e comunicativa. Dos Ideais do Outro tomados na vertente significante, aos traços tomados Um a Um. O império dos significantes transforma-se em um império dos semblantes, com sua multiplicidade.

O significante funciona como insígnia sempre quando está solto, fora do sistema. Um significante que faz parte de um sistema só adquire valor de insígnia quando é extraído deste, quando não funciona mais com este estatuto, quando funciona como redução do Outro (Miller, 2006). Lacan indica que os traços do sujeito emprestados ao Outro, que o representam e que o fazem ser reconhecido pelo Outro, podem se soltar do sistema significante e se transformar em insígnias, operando fora do sistema simbólico na sua face representativa e comunicativa, fundada na lógica simbólica. Neste sentido, eles operam como letra. Assim, o império do significante transforma-se em um "império de semblantes".

Acompanhamos a mudança do estatuto de sujeito, da linearidade à espacialidade. Na perspectiva da linearidade, o simbólico tem uma função organizadora e apaziguadora e o inconsciente é estruturado como linguagem. Na perspectiva da espacialidade, há a substituição do Nome-do-Pai por uma pluralização. Surge a constelação de insígnias que constituem para o sujeito seu Ideal do Eu. O império dos significantes transforma-se em um império dos semblantes, com sua multiplicidade. Agora a própria linguagem é aparelho de gozo. O conceito de letra reúne significante e gozo.

Essa perspectiva não linear, da lógica da multiplicidade e da espacialidade, marcada pelo império dos semblantes, é claramente exemplificada pelo ciberespaço. Como na literatura, o caráter constelar manifesta-se pelo predomínio do fragmentário sobre o sistemático, pela retomada constante dos mesmos temas com várias significações e pelas rupturas ou passagens bruscas de um tópico para outro5. O hipertexto do ciberespaço ilustra a contingência do múltiplo, a lógica fragmentar e multifacetada. Sua forma de organização não é hierárquica nem linear, sua informação é organizada na forma de bricolage e de justaposição, numa perspectiva flexível. Isso leva a uma maior fragmentação do conteúdo. Os links, interconectores que guiam de forma objetiva e direta a textos ou blocos informacionais novos, estão submetidos a uma complexa retórica.

Essa lógica do hipertexto pode ser ilustrada pelo texto "escrevível", definido por Barthes em S/Z (1992). O autor diferencia o texto escrevível (scriptible) do texto legível (lisible). Para ele, um texto escrevível é aquele que convida o leitor a reescrevê-lo, a ponto de torná-lo não um simples consumidor do texto, mas um produtor do texto. O texto escrevível não tem compromisso com a legibilidade. Já o legível é aquele que pode ser lido, mas não escrito. Sua leitura não convida o leitor a se engajar na escritura. Barthes define o texto escrevível como um texto onde as redes são múltiplas e se entrelaçam, sem dominação de uma sobre a outra; ele apresenta-se como uma galáxia de significantes, e não como uma estrutura de significados; não tem início; é reversível; tem várias entradas; seus códigos perfilam-se a perder de vista e não são dedutíveis nem submetidos a um princípio de decisão; os sistemas de sentido podem apoderar-se do texto, que é plural e infinito; trata-se de afirmar a pluralização do ser, "que não é o ser do verdadeiro, do provável ou até do possível" (Barthes, 1992, p. 40).

Os textos dos blogs são, em sua maioria, textos curtos, pessoais, que misturam recortes de cenas, imagens, fatos, mensagens, fragmentos de vida. Esses fragmentos de vida aproximam-se dos biografemas de Roland Barthes (2005) como unidades mínimas da biografia que compõem um texto aparentemente autobiográfico. Esses fragmentos revelam os desejos e iluminações fugazes, momentos físicos e textuais de seu autor. Barthes (2005) comenta que, se ele fosse escritor, já morto, gostaria que a sua vida se reduzisse, pelos cuidados de um biógrafo, a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas inflexões, ou biografemas, "cuja distinção e mobilidade poderiam viajar fora de qualquer destino e vir a tocar, à maneira dos átomos epicurianos, algum corpo futuro, prometido à mesma dispersão..." (Barthes, 2005, p. XVII). Esses fragmentos de vida, segundo o autor, são os pormenores que captam o desejo do leitor, que o levam a se identificar com o autor, como o regalo branco de Sade, os vasos de flores de Fourier, os olhos espanhóis de Inácio.

Nos fragmentos de vida dispersos nos textos dos blogs, nessa lógica constelar, o leitor seleciona os seus retalhos e percorre um caminho singular, fisgado pelos pequenos detalhes, gostos e pormenores com os quais se identifica. Esses fragmentos podem viajar para qualquer destino, compondo diferentes caminhos e se reatualizando a cada instante, permitindo ao leitor fazer o próprio percurso, construindo um arranjo particular. Assim, autor e leitor podem seguir diferentes rumos, que são refeitos e desfeitos continuamente. O sujeito adolescente tanto pode escolher a escrita do descontínuo, do fragmentário, do sem-sentido, como pode construir uma narrativa de si, seguindo uma ordem linear, sequencial, endereçada a um outro e que faça laço social.

Sábado, 16 de Agosto de 2008

Bom, decidi criar esse blog para desabafar, porque, afinal, todo adolescente passa por suas crises e na maioria das vezes nem tem com quem conversar. Não vou citar nomes nem nada, para garantir que eu continue anônima, beleza?) Por favor respeite minha decisão, afinal não são todos que querem que todos saibam da sua vida. Só digo que sou uma menina, 14 anos e moro em São Paulo - Capital. E não, o nome do blog não foi escolhido em idolatria ao filme e muito menos à Lindsy Lohan, mas sim porque eu achei/ que ele combina/ com o contexto que queria! Template temporário, ainda não sei se faço um com meus (mínimos) conhecimentos de html ou se pego um em algum site. Bem, é isso, espero que leiam o que eu escrevo, e mesmo que não, foi uma forma de desabafo para mim : D Beijos :*

http://umacrisedeadolescente.zip.net/arch2008-08-10_2008-08-16.html

A rapsódia, comentada por Barthes (2005), permite uma aproximação da lógica do ciberespaço. Barthes destaca que a rapsódia é pouco estudada pelos gramáticos da narrativa e que existe uma estrutura rapsódica da narração que é própria ao romance picaresco e, talvez, ao romance proustiano. Essa estrutura não obedece à ordenação própria de uma história, com um modelo implicitamente orgânico (nascer, viver, morrer), não segue uma ordem natural ou uma sequência lógica, com um sentido imposto pelo "Destino" para a vida, mas, ao contrário, ela é formada pela justaposição pura e simples de pedaços iterativos e móveis. O contínuo não é mais do que uma sequência de retalhos cosidos, um tecido barroco de trapos. Ele compara essa justaposição com a rapsódia de Sade, que enfileira sem uma ordem viagens, roubos, assassínios, dissertações filosóficas, cenas libidinosas, fugas, narrações segundas, programas de orgias, descrições de máquinas etc. Essa construção, segundo Barthes, constitui um escândalo do sentido: "o romance rapsódico (sadeano) não tem sentido, nada o obriga a progredir, amadurecer, terminar" (Barthes, 2005, p. 166).

Essa construção rapsódica não se aproximaria da lógica do hipertexto do blog? A justaposição de "fragmentos" iterativos e móveis, sem sentido, que não segue uma ordem própria ou uma história sequencial e evolutiva, que permite múltiplas combinações, não seria o modelo de texto do blog?

A escrita do sujeito evidencia a sua face fragmentária, o sem-sentido, o desconexo, que ele deixa "escapar". A lógica constelar no blog manifesta-se, pois, na desconexão, na desarticulação entre os significantes, que se desprendem da cadeia. O significante solto, fora do sistema, vale como insígnia e ganha o estatuto de letra, que é o significante considerado fora de sua função de produzir significações. Enquanto a palavra é escutada, a letra se escreve. Para Lacan, a escritura tem acesso direto ao gozo. Essa nova escrita é referida ao registro do ilegível, que sacrifica o efeito de significado. No blog abaixo seu autor utiliza códigos, letras, sinais e números desarticulados, da ordem do "sem-sentido", da ausência de significação. Seria essa escrita da ordem da letra, do puro gozo?

?&¨*¨**%$$$$@#!#@%$%$5466467?

Por fora está tudo confuso.

Por dentro está tudo ...

http://wastedwords.zip.net/arch2006-04-23_2006-04-29.html

 

Notas

1. Scriptorium era um local dos mosteiros destinado aos monges copistas que na época medieval elaboravam os manuscritos.

2. Lacan, Jacques. "Do cosmo à unheimlichkeit". In: O seminário. Livro 10. A angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005 (1962-63), p.38-52.

3. Lacan, Jacques. "Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: 'Psicanálise e estrutura da personalidade'" (1960). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.653-691.

4. Miller, Jacques-Alain. "La constelación y la cadena". In: Los signos del goze. Buenos Aires: Paidós, 2006, p.139-154.

5. Márcia Rosa discute a presença do constelar na obra de Fernando Pessoa em: Vieira, Márcia Rosa. Fernando Pessoa e Jacques Lacan: constelações, letra e livro. Tese Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. 2005. p. 292.

 

Referências

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Recebido em 05 de janeiro de 2009
Aceito em 18 de março de 2009
Revisado em 03 de maio de 2009

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