SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.19 número1La relación entre el burnout y la calidad de vidaFútbol y funciones ejecutivas: un estudio de revisión índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Revista

Articulo

Indicadores

Compartir


Cadernos de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento

versión impresa ISSN 1519-0307versión On-line ISSN 1809-4139

Cad. Pós-Grad. Distúrb. Desenvolv. vol.19 no.1 São Paulo enero/jun. 2019

 

Influência da terapia neuromotora intensiva no controle de cabeça de uma criança com paralisia cerebral do tipo quadriplegia espástica

 

Influence of neuromotor intensive therapy on control of the head of a child with spastic quadriplegia cerebral palsy

 

Influencia de la terapia neuromotora intensiva en el control de cabeza de niño con parálisis cuadriplejia espástica

 

 

Jheniffer FreitasI; Tainá Ribas MéloII; Alexandre Aguiar SabbagIII; Ana Cláudia Martins Szczypior CostinIV; Eduardo Borba NevesV

ICentro de Pesquisa Vitória, Curitiba, PR, Brasil. E-mail: jhenifferfreitas@hotmail.com
IICentro Universitário Campos de Andrade, Curitiba, PR, Brasil E-mail: ribasmelo@gmail.com
IIIClínica Neuroconcept, Curitiba, PR, Brasil. E-mail: sabugo_1984@hotmail.com
IVCentro de Pesquisa Vitória, Curitiba, PR, Brasil. E-mail: anascostin@yahoo.com.br
VUniversidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Curitiba, PR, Brasil. E-mail: borbaneves@hotmail.com

 

 


RESUMO

A paralisia cerebral ocasiona distúrbios da postura e do movimento, e, em pacientes quadriplégicos, acomete os quatro membros, o tronco e a cabeça. A terapia neuromotora intensiva (TNMI) surge como possibilidade de intervenção fisioterapêutica. Assim o presente estudo objetivou investigar a influência da TNMI com traje Pediasuit® sobre o controle de cabeça de uma criança com quadriplegia espástica. A paciente foi submetida à TNMI e avaliada por meio dos seguintes instrumentos: escala GMFM-88 nas dimensões A (deitar e rolar) e B (sentar), por concentrarem o repertório motor amplo da criança com GMFCS V, GMFM-66 e sistema de eletrogoniometria wi-fi (Biofeed®), com sensor localizado na cabeça (osso frontal), avaliando a oscilação no plano sagital, nos tempos de 30, 60 e 90 segundos. Com a GMFM-88, obteve-se melhora de 17,65% na dimensão A e de 1,67% na dimensão B com ganho de 9,66% na pontuação geral, e de 1,11% na GMFM-66. Pela análise do Biofeed®, houve diferenças entre as avaliações inicial e final em todos os tempos analisados (30, 60 e 90 segundos), indicando que o protocolo terapêutico proporcionou ganhos no controle motor de cabeça. Os resultados evidenciaram uma melhora discreta no controle de cabeça na GMFM-88 e melhora pelo Biofeed®, o que a GMFM-66 não identificou.

Palavras-chave: Fisioterapia. Paralisia cerebral. Quadriplegia. Intensivo. Terapia.


ABSTRACT

Cerebral palsy causes postural and movement disorders and quadriplegic patients affects all four limbs, trunk and head. The neuromotor intensive therapy (NMTI) appears as a possibility of physical therapy intervention. The aim was investigate the influence of NMTI with PediasuitTM on the control head of a child with spastic quadriplegia. The patient underwent NMTI and evaluated by GMFM-88 scale in the dimensions A (drop and roll) and B (sit), by concentrating the gross motor function of the child with GMFCS V; the GMFM-66, and the wifi electrogoniometry system (Biofeed®), with sensor located on the head (frontal bone), evaluating the oscillation in the sagittal plane, in the times of 30, 60 and 90 seconds. For the GMFM-88, there was an improvement of 17.65% in the dimension A, and 1.67% in the dimension B with a gain of 9.66% in the overall score and 1.11% in the GMFM-66. Biofeed® identified differences between baseline and final in all analyzed times (30, 60 and 90 seconds), indicating that the treatment protocol provided gains in the control head. The results showed a slight improvement in the control head in the GMFM-88 and improvement by Biofeed®, which the GMFM-66 did not identify

Keywords: Physiotherapy. Cerebral palsy. Quadriplegia. Intensive. Therapy.


RESUMEN

La parálisis cerebral ocasiona disturbios de la postura y del movimiento, y en pacientes cuadripléjicos acomete a los cuatro miembros, tronco y cabeza. La terapia neuromotora intensiva (TNMI) surge como posibilidad de intervención fisioterapéutica. Así el presente estudio objetivó investigar la influencia de la TNMI con Pediasuit® sobre el control de cabeza de un niño con cuádruple espía. La paciente fue sometida a TNMI y evaluada a través de la escala GMFM-88 en las dimensiones A (acostarse y rodar) y B (sentar), por concentrar el repertorio motor amplio del niño con GMFCS V; por el GMFM-66, y por el sistema de electrogoniometría wifi (Biofeed®), con sensor localizado en la cabeza (hueso frontal), evaluando la oscilación en el plano sagital, en los tiempos de 30, 60 y 90 segundos. Por el GMFM-88, se obtuvo una mejora del 17,65% en la dimensión A, y del 1,67% en la dimensión B con una ganancia del 9,66% en la puntuación general y del 1,11% en la GMFM-66. Por el análisis del Biofeed® hubo diferencias entre la evaluación inicial y final en todos los tiempos analizados (30, 60 y 90 segundos), indicando que el protocolo terapéutico proporcionó ganancias en el control motor de cabeza. Los resultados evidenciaron una mejora discreta en el control de cabeza en la GMFM-88 y mejora por el Biofeed®, lo que la GMFM-66 no identifico.

Palabras clave: Fisioterapia. Parálisis cerebral. Cuadriplejia. Intensivo. Terapia.


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente, a paralisia cerebral (PC) é denominada encefalopatia crônica não progressiva da infância (ECNPI) e designa um grupo de desordens sensório-motoras que acarreta distúrbios no tônus muscular, na postura e na movimentação voluntária, decorrentes de uma lesão estática que afeta o sistema nervoso central (SNC) em fase de maturação estrutural e funcional, durante a gravidez ou no período pré, peri e pós-natal (BRASILEIRO; MOREIRA, 2008). A ECNPI tem um caráter crônico e seu prognóstico depende do grau de dificuldade motora, da intensidade de retrações e deformidades esqueléticas e da disponibilidade e qualidade da reabilitação (PERES; RUEDELL; DIA-MANTE, 2009).

A quadriplegia/paresia ou tetraplegia/tetraparesia é ocasionada por extensas lesões encefálicas, o que leva a comprometimento dos quatro membros, do tronco e da cabeça, sendo os membros superiores mais acometidos que os inferiores (REBEL et al., 2010), e, por esse conjunto de características, é considerada a forma mais grave da ECNPI (ASSIS-MADEIRA; DE CARVALHO, 2009). Em alguns estudos (SHEVELL; DAGENAIS; HALL, 2009) é considerada a forma mais prevalente (35%) e com pior desempenho funcional, sendo classificada entre os níveis IV e V da Classificação da Função Motora Grossa (Gross Motor Function Measure - GMFCS).

Na tentativa de ajudar na reabilitação e na consequente aquisição de habilidades motoras dos indivíduos com PC, existem vários métodos terapêuticos disponíveis. No caso da quadriplegia espástica, sugerem-se atualmente protocolos de tratamento por meio da terapia neuromotora intensiva (TNMI), que associa o uso de suit (órtese dinâmica em forma de traje) ao conceito Bobath e à cinesioterapia convencional (CASTILHO-WEINERT; NEVES, 2016). Para o tratamento, indicam-se o PediaSuit®, a Ability Exercise Unit (AEU) ou "gaiolas" e o TheraSuit®. A TNMI atualmente tem se apresentado benéfica para crianças com diagnóstico de ECNPI, tendo como objetivo melhorar a flexibilidade, a resistência, a força muscular, o equilíbrio e a coordenação (NEVES et al., 2012; SCHEEREN et al., 2012), com efeitos positivos em crianças com ECNPI, mesmo em quadro de maior dificuldade funcional, como GMFCS IV e V (MÉLO et al., 2017a, 2017b), sendo os ganhos mais expressivos observados no primeiro módulo da criança (MÉLO et al., 2017a). O tema da TNMI intensiva foi o mais discutido na III The Society of Trust and Estate Practitioners (Step) Conference, tanto pelos efeitos promissores que a terapia promete ocasionar como por questões relacionadas a eficácia, custo e benefício (CHRISTY et al., 2010). Exercícios intensivos têm sido descritos como efetivos no ganho de habilidades motoras, independentemente da modalidade da vestimenta e/ou do método associado: fisioterapia convencional, conceito neuroevolutivo ou terapias com trajes (CHRISTY et al., 2010). Esses ganhos funcionais e de força são evidenciados em terapias intensivas, como foco no fortalecimento de grupos musculares mesmo na ausência dos trajes, com impactos positivos na funcionalidade e qualidade de vida (DILENNO; ATKINSON, 2006), atendendo não só aos domínios de função e estrutura, mas também favorecendo a funcionalidade nos domínios de atividade e participação da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF).

Para mensurar ganhos terapêuticos de forma mais quantitativa, existe a GMFCS e a Medida da Função Motora Grossa (Gross Motor Function Measure - GMFM) que são mundialmente utilizadas (SPOSITO; RIBERTO, 2010; GARÇÃO, 2011; MÉLO, 2011b). O Biofeed® consiste em um sistema de análise de movimento que utiliza o biofeedback como forma eficaz para adaptações e readaptações de estratégias motoras de pacientes com alterações ou déficit neurológico durante a execução dos movimentos (NEVES et al., 2013).

Para as crianças quadriplégicas, a melhora do controle de cabeça contra a gravidade aparece como um dos objetivos primários, e, por esse motivo, o presente estudo objetivou investigar a influência do protocolo de TNMI na melhora do controle de cabeça de uma criança com ECNPI do tipo quadriplegia espástica, utilizando medidas objetivas de avaliação: a GMFM e o Biofeed®.

 

MÉTODO

O presente estudo é um relato de caso que analisa retrospectivamente os dados coletados no prontuário de uma paciente atendida no Vitória - Centro de Reabilitação e Terapia Neuromotora. Trata-se de uma paciente nascida em 10 de novembro de 2007 com diagnóstico de ECNPI e atendida por fisioterapeuta experiente na área. O estudo teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Campos de Andrade, nº 36665614.0.0000.5218. O responsável pela criança submetida à pesquisa assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Caso

A paciente do presente estudo não apresentou intercorrências na gestação nem no parto, que foi do tipo cesariana por opção da mãe; nasceu com 3,250 kg e 52 cm, a termo, e Apgar de 7/9. O teste do pezinho apresentou resultado normal. Com dez dias após o nascimento, a paciente apresentou conjuntivite. Com três meses de idade, a mãe notou que a criança ainda não controlava a cabeça e, por isso, realizava acompanhamento médico pediátrico. Com quatro meses, a mãe notou piora, pois a criança manifestava falta de controle cervical. Aos sete meses, apresentou infecção urinária, e a primeira consulta com o neurologista confirmou diagnóstico clínico de PC com diagnóstico fisioterapêutico de quadriplegia espástica grave, GMFCS nível V. A paciente foi encaminhada para Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Com um ano de idade, realizou correção do fluxo urinário, porém continuou a ter infecções recorrentes. Com um ano e três meses, começou a usar sonda. Iniciou a equoterapia com um ano e cinco meses. Após consulta a três neurologistas diferentes, identificou-se a PC em decorrência da exposição fetal ao citomegalovírus (CMV). Aos dois anos de idade, iniciou reabilitação na Associação Paranaense de Reabilitação (APR). Aos três anos, como consequência das alterações motoras, identificaram-se no raio X de quadril subluxação de coxofemoral à direita, coxa valga bilateral e sinais de osteopenia. Com cinco anos, o ortopedista indicou o uso de cadeira de rodas (GMFCS V, dependente de locomoção) e início da TNMI aos seis anos de idade.

Procedimentos

Protocolo de tratamento

A TNMI é uma denominação recente que vem sendo utilizada (NEVES et al., 2013) para descrever o protocolo fisioterapêutico desenvolvido com a carga horária de 2 horas e 45 minutos por dia a três horas, durante cinco dias na semana, com finais de semana livres, durante quatro semanas. Na TNMI, o protocolo segue a avaliação do fisioterapeuta que elege quais condutas irá utilizar. Após o módulo, a paciente realiza uma manutenção três vezes por semana durante duas horas. O Quadro 1 descreve os objetivos e as respectivas atividades realizadas no protocolo de tratamento.

 

 

Protocolo de avaliação

As avaliações e intervenções foram realizadas em um ambiente amplo, arejado e iluminado, com colchão de superfície lisa e firme, e com uso de brinquedos para estimular e facilitar as tarefas motoras. Como método avaliativo para controle de cabeça, foi utilizado um sistema de eletrogoniometria wi-fi (com sensores sem fio) denominado Biofeed®, em que a paciente foi posicionada numa cadeira com joelhos flexionados a 90 graus, estabilizada nas coxas e no tronco com fixadores de tecido não extensível (Figura 1). Colocou-se o sensor na cabeça (osso frontal), e o plano de análise da oscilação foi o plano sagital, com tempos de análises de: 30", 60" e 90" (NEVES et al., 2013).

 

 

Instrumentos

Ambos os instrumentos (GMFM e Biofeed®) foram aplicados pré e pós o protocolo de tratamento, por um fisioterapeuta experiente e familiarizado com o método. A avaliação pré foi realizada no primeiro dia do módulo e a avaliação pós no último dia (30 dias após início da intervenção). Para análise dos padrões de oscilação com o Biofeed®, utilizou-se a angulação média (dos ângulos de flexão em cada segundo, durante o período de avaliação considerado) para comparar os momentos do início e final do módulo.

A análise da GMFM - dimensões A (deitar e rolar) e B (sentar) - foi feita por comparação dos resultados obtidos na avaliação pré e pós o módulo terapêutico. As dimensões A e B foram escolhidas por concentrarem o repertório motor amplo da criança com GMFCS V (5). Após a avaliação GMFM-88, os dados também foram analisados pelo software GMAE (Gross Motor Ability Estimator - Estimador da Habilidade Motora Grossa) que permite verificar a pontuação média pela GMFM-66.

Análise estatística

Para a análise estatística dos dados, utilizaram-se medidas descritivas (média, desvio padrão e erro padrão).

 

RESULTADOS

A paciente realizou 70 horas de tratamento em quatro semanas. O Gráfico 1 apresenta os valores da GMFM 66 com relação à GMFCS da paciente nos momentos pré-avaliações (inicial) e pós-avaliações (final).

 

 

A Tabela 1 apresenta a evolução das dimensões da escala GMFM 66 e 88 pré e pós-tratamento, indicando que a criança apresentou ganho total de 1,1% após a TNMI, valor gerado pelo software do programa GMAE.

 

 

Já na avaliação estratificada da GMFM-88 pelas dimensões avaliadas, a paciente obteve melhora de 17,65% na dimensão A e de 1,67% na B. Assim, observa-se que a criança apresentou mais avanços na dimensão A relacionada a deitar e rolar. Se considerarmos os escores inicial e final apenas das áreas metas, observamos um ganho de 9,66%.

O Gráfico 2 apresenta os resultados gerados pelo Biofeed® quanto aos três tempos de 30, 60 e 90 segundos (a, b e c, respectivamente) de coleta dos dados realizados.

Para análise dos padrões de oscilação, foi utilizada a angulação média (dos ângulos de flexão em cada segundo, durante o período de avaliação considerado) para comparar os momentos do início e final do módulo. Dessa forma, pode-se observar que a paciente apresentou, no início do módulo terapêutico, angulações médias maiores (nos três tempos avaliados) do que no final do módulo terapêutico.

Pode-se observar que houve uma tendência a controle de cabeça quando se observam a diminuição das oscilações no Gráfico 2 (a, b e c) e os valores médios entre a avaliação inicial e a final em todos os tempos analisados - 30, 60 e 90 segundos (Tabela 2). Esses resultados sugerem que o protocolo terapêutico proporcionou ganhos no controle motor de cabeça.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Na avaliação estratificada pelas dimensões avaliadas, a paciente obteve melhora nas dimensões A (deitar e rolar) e B (sentar). Os maiores avanços foram na dimensão A relacionadas a deitar e rolar e que exigem menor controle antigravitacional que a dimensão B, a qual também seria uma área meta, mas exige maior controle da cabeça e do tronco.

Se considerarmos os escores inicial e final apenas das áreas metas, observaremos um ganho de 9,66%, o que não é identificado quando usamos a GMFM-66. Embora não tenha sido realizada análise estatística no presente estudo por se tratar de um estudo de caso clínico, diferenças acima de 6% dos escores da GMFM podem ser consideradas clinicamente significativas em crianças com ECNPI (RUSSELL et al., 2011). Podemos observar uma representação mais precisa da função motora da criança através da GMFM-66 que considera e estratifica os itens mais relevantes ao desempenho motor geral por dificuldades de itens (RUSSELL et al., 2011). No entanto, a GMFM-66 considera poucos itens da dimensão A em seu escore, devendo-se então, em caso de crianças mais graves (GMFCS IV e V), associar os valores percentuais da GMFM-88 em cada dimensão e total, assim como o escore da GMFM-66 obtido pelo programa do GMAE.

Num estudo comparativo entre a fisioterapia convencional e a fisioterapia intensiva, como o uso de metas gerais e de metas específicas (PINA; LOUREIRO, 2006), observou-se que a fisioterapia intensiva apresentou um melhor efeito que a convencional, e o fator mais relevante foi associado com o aumento das habilidades motoras estabelecidas por meio de metas mais específicas. Isso justifica o fato de ter sido utilizada a meta controle de cabeça da paciente em estudo ao considerar o seu caso e suas possibilidades funcionais. Pina e Loureiro (2006) ainda afirmam que o aumento da intensidade da fisioterapia pode acelerar a aquisição das habilidades motoras em crianças com ECNPI, além da utilização de metas específicas analisadas pela GMFM, que também gera um aumento dessas habilidades. Isso foi evidenciado no presente estudo ao se estabelecer a meta específica do controle de cabeça e observar que realmente o desempenho motor geral pouco modificou com o protocolo estabelecido pela GMFM, mas, quando se analisaram os itens relacionados ao controle de cabeça pelo Biofeed®, as diferenças foram observadas. Funcionalmente o controle de cabeça relaciona-se a uma melhor manutenção da postura e às possibilidades de seguimento visual, que são importantes para a criança até mesmo para facilitar aquisições motoras futuras.

Pelas curvas da GMFM-66 versus GMFCS, quando se observaram os valores da GMFM-66, poucas mudanças foram identificadas, o que nos leva à reflexão de que, embora avaliações quantitativas por meio de escalas sejam fundamentais para verificar evoluções do perfil geral da criança, instrumentos quantitativos de análise de movimento como o Biofeed® podem ser mais sensíveis às evoluções. No entanto, em estudo com número de amostra maior, identificou-se que mesmo pequenos esses ganhos são considerados significativos para crianças com ECNPI (MÉLO et al., 2017a), especialmente para as dimensões A e B em crianças com GMFCS IV e V.

É importante salientar que a avaliação item a item e o mapa de itens fornecido pelo GMAE são importantes para o acompanhamento de pequenas evoluções e para nortear o terapeuta quanto a objetivos de tratamento. Ao cruzarmos a GMFM-66 com a GMFCS, outras informações são relevantes (HANNA et al., 2008). Pela Figura 1, observa-se que a paciente com seis anos encontra-se na fase de platô da curva, onde pequenas alterações são observadas. Esse platô de desenvolvimento também foi observado quando se trabalharam estímulos psicomotores e o conceito Bobath com duas crianças, uma com diparesia espástica GMFCS II e outra com atetoide GMFCS III (NOVAKOSKI, 2014). Assim, mesmo em crianças menos comprometidas, observa-se uma estabilização do quadro motor a partir de uma certa idade, sendo mais difícil identificar ganhos expressivos em termos quantitativos pela GMFM.

Embora a ECNPI seja não progressiva, o prognóstico dessas crianças se altera ao longo do tempo por causa das alterações biomecânicas, como encurtamentos e deformidades articulares (REBEL et al., 2010; MÉLO, 2011a; MÉLO et al., 2017b). Essas alterações podem provocar uma piora em termos de desempenho motor, principalmente para crianças gravemente acometidas, o que leva a uma necessidade de acompanhamento constante da função motora dessas crianças.

Quando comparadas a crianças com um menor comprometimento, as crianças quadriplégicas têm curso de comprometimento da função motora menos favorável e, portanto, apresentam efeitos mais discretos no tratamento terapêutico como a criança do presente estudo (BJORNSON et al., 2007). Crianças que apresentam quadriplegia são classificadas em nível V, como a do presente estudo, e isso demonstra um quadro menos favorável de habilidades funcionais ao longo do tempo, o que dificulta ganhos mais expressivos em termos quantitativos (CUNHA et al., 2009).

Embora os escores da GMFM não sejam tão expressivos em termos de melhora com a intervenção, quando se avaliam as curvas geradas pelo Biofeed®, observa-se que, nos três testes realizados (30, 60 e 90 segundos), a paciente apresentou menores desvios da vertical nas avaliações finais quando comparados com as curvas das avaliações iniciais. Isso significa que ela conseguiu sustentar melhor o peso da cabeça, controlando sua posição e tentando mantê-la alinhada na vertical como solicitado durante a realização dos testes.

Embora poucos ganhos da função motora global tenham sido evidenciados, especificamente para o controle de cabeça, que foi o objetivo do estudo, observou-se melhora por meio do Biofeed®. Assim, percebe-se que a eletrogoniometria wi-fi (Biofeed®) é uma ferramenta que pode ser aplicada ao monitoramento e acompanhamento do processo de reabilitação de pacientes com déficits motores (CORTÉS et al., 2010).

Como a principal limitação deste trabalho foi ser um estudo de caso, os autores sugerem pesquisas com amostras maiores em que se adote a mesma metodologia.

 

CONCLUSÕES

A TNMI influenciou de maneira positiva a melhora do controle de cabeça de criança com PC do tipo quadriplegia pela análise do Biofeed® e uma melhora discreta no desempenho motor global pelas avaliações das escalas GMFM-66 e GMFM-88. Nesse sentido, a avaliação por eletrogoniometria wi-fi (Biofeed®) parece ser mais sensível às mudanças no controle de cabeça de pacientes com PC do que a GMFM. A GMGM-88 demonstrou mais itens de evolução quando comparada com a GMFM-66. Por fim, sugere-se a continuidade da TNMI na reabilitação da paciente.

 

REFERÊNCIAS

ASSIS-MADEIRA, E. A.; DE CARVALHO, S. G. Paralisia cerebral e fatores de risco ao desenvolvimento motor: uma revisão teórica. Cadernos de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 142-163, 2009.         [ Links ]

BJORNSON, K. F. et al. Ambulatory physical activity performance in youth with cerebral palsy and youth who are developing typically. Physical Therapy, v. 87, n. 3, p. 248-257, 2007. DOI: http://dx.doi.org/10.2522/ptj.20060157        [ Links ]

BRASILEIRO, I. D. C.; MOREIRA, T. M. M. Prevalência de alterações funcionais corpóreas em crianças com paralisia cerebral, Fortaleza, Ceará, 2008. Acta Fisiátrica, v. 15, n. 1, p. 37-41, 2008.         [ Links ]

CASTILHO-WEINERT, L. V.; NEVES, E. B. Use of dynamic clothes in cerebral palsy rehabilitation: systematic review. ConScientiae Saúde, v. 15, n. 2, p. 297-303, 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.5585/ConsSaude.v15n2.6224        [ Links ]

CHRISTY, J. B. et al. Parent and therapist perceptions of an intense model of physical therapy. Pediatric Physical Therapy, v. 22, n. 2, p. 207-213, 2010.         [ Links ]

CORTÉS, A. et al. Effects of biofeedback shoulder abdution in elderly with parkinsonism: a case study. Revista Neurociências, v. 18, n. 2, p. 189-193, 2010.         [ Links ]

CUNHA, A. B. et al. Relação entre alinhamento postural e desempenho motor em crianças com paralisia cerebral. Fisioterapia em Pesquisa, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 22-27, 2009. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1809-2950200900010000        [ Links ]

DILENNO, M.; ATKINSON, H. Quality of life, strength and function following an intensive strengthening program in a 17 year with cerebral palsy. Pediatric Physical Therapy, v. 18, n. 1, p. 73-74, 2006.         [ Links ]

GARÇÃO, D. C. Influência da dançaterapia na mobilidade funcional de crianças com paralisia cerebral hemiparética espástica. Motricidade, v. 7, n. 3, p. 3-9, 2011.         [ Links ]

HANNA, S. E. et al. Reference curves for the gross motor function measure: percentiles for clinical description and tracking over time among children with cerebral palsy. Physical Therapy, v. 88, n. 5, p. 596-607, 2008. DOI: http://dx.doi.org/10.2522/ptj.20070314        [ Links ]

MÉLO, T. R. Análise cinemática da marcha de crianças com diparesia espástica em plano inclinado. 2011. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2011a.         [ Links ]

MÉLO, T. R. Escalas de avaliação do desenvolvimento e habilidades motoras: AIMS, PEDI, GMFM e GMFCS. In: CASTILHO-WEINERT, L. V.; FORTI-BELLANI, C. D. (ed.). Fisioterapia em neurologia. Curitiba: Omnipax, 2011b.         [ Links ]

MÉLO, T. R. et al. Intensive neuromotor therapy with suit improves motor gross function in cerebral palsy: a Brazilian study. Motricidade, v. 13, n. 4, p. 54-61, 2017a. DOI: https://doi.org/10.6063/motricidade.13669        [ Links ]

MÉLO, T. R. et al. Physical therapy: intensive neuromotor therapy in gross motor skills of Brazilian children with cerebral palsy. Cape Town: World Confederation for Physical Therapy, 2017b.         [ Links ]

NEVES, E. B. et al. O PediaSuitTM na reabilitação da diplegia espástica: um estudo de caso. Lecturas, Educación Física y Deportes, Buenos Aires, v. 166, n. 15, p. 1-9, 2012.         [ Links ]

NEVES, E. B. et al. Benefícios da terapia neuromotora intensiva (TNMI) para o controle do tronco de crianças com paralisia cerebral. Revista Neurociências, v. 21, n. 4, p. 549-555, 2013.         [ Links ]

NOVAKOSKI, K. Intervenção fisioterapêutica no desenvolvimento de indivíduos com paralisia cerebral. 2014. Monografia (Graduação em Fisioterapia) - Universidade Federal do Paraná, Matinhos, 2014. DOI: http://dx.doi.org/10.18024/1519-5694/revuniandrade.v18n3p122-130        [ Links ]

PERES, L. W.; RUEDELL, A. M.; DIAMANTE, C. Influência do conceito neuroevolutivo Bobath no tônus e força muscular e atividade funcionais estáticas e dinâmicas em pacientes diparéticos espásticos após paralisia cerebral. Saúde, Santa Maria, v. 35, n. 1, p. 28-33, 2009.         [ Links ]

PINA, L. V. D.; LOUREIRO, A. P. C. O GMFM e sua aplicação na avaliação motora de crianças com paralisia cerebral. Fisioterapia em Movimento, v. 19, n. 2, p. 91-100, 2006.         [ Links ]

REBEL, M. F. et al. Prognóstico motor e perspectivas atuais na paralisia cerebral. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, v. 20, n. 2, p. 342-350, 2010.         [ Links ]

RUSSELL, D. et al. Medida da função motora grossa (GMFM-66 e GMFM-88): manual do usuário. São Paulo: Memmon, 2011.         [ Links ]

SCHEEREN, E. M. et al. Descrição do Protocolo PediaSuitTM. Fisioterapia em Movimento, v. 25, n. 3, p. 473-480, 2012. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S010351502012000300002        [ Links ]

SHEVELL, M. I.; DAGENAIS, L.; HALL, N. The relationship of cerebral palsy subtype and functional motor impairment: a population-based study. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 51, n. 11, p. 872-877, 2009.         [ Links ]

SPOSITO, M. M. D. M.; RIBERTO, M. Avaliação da funcionalidade da criança com paralisia cerebral espástica. Acta Fisiátrica, v. 17, n. 2, 2010.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 21.09.2018
Aprovado em: 08.11.2018

Creative Commons License Todo el contenido de esta revista, excepto dónde está identificado, está bajo una Licencia Creative Commons