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Revista Psicologia Política

versión impresa ISSN 1519-549X

Rev. psicol. polít. vol.15 no.34 São Paulo dic. 2015

 

MENSAGEM DA ABPP

 

Mensagem da ABPP

 

Message from ABPP

 

Mensaje de la ABPP

 

Message de la ABPP

 

 

Fernando Lacerda Jr

Presidente da ABPP (2015/2016)

 

 

O ano de 2015 foi muito importante para a Psicologia Política no Brasil. Tivemos três realizações muito importantes: (1) a retomada da página da Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP); (2) a mudança da equipe editorial da Revista Psicologia Política; e (3) a realização do I Encontro Sul-Americano de Psicologia Política.

Como parte dos esforços da diretoria da ABPP, eleita no final de 2014, durante o VIII Simpósio Brasileiro de Psicologia Política realizado em Goiânia, foi editada uma nova página no antigo domínio utilizado para divulgar as nossas iniciativas: www.psicologiapolitica.org.br. Convidamos todxs interessadxs a conhecer a página, realizar sugestões e contribuírem com a construção da ABPP. Na página há links disponíveis sobre a história da Psicologia Política, grupos de pesquisa e que explicam como uma pessoa pode se tornar associada à ABPP. Esta contribuição é de enorme importância para a sobrevivência da Revista Psicologia Política.

Em segundo lugar, em 2015 iniciamos a transição da equipe editorial da Revista Psicologia Política. Este processo começou com a publicação de um edital público que recebeu propostas de equipes editoriais para trabalhar com a edição da revista entre 2016-2019. As propostas recebidas foram avaliadas por ex-editores da Revista Psicologia Política e as considerações destes serviram para orientar a decisão tomada pela diretoria atual que selecionou a seguinte equipe: Frederico Viana Machado (UFRGS) e Aline Reis Calvo Hernandez (UERGS) como Editorxs; Frederico Alves Costa (UFAL) e Conceição Firmina Seixas Silva (UERJ) como Editorxs Associadxs. Esperamos que a nova equipe consiga contribuir na tarefa de fortalecimento da Psicologia Política no Brasil sem, ao mesmo tempo, se render à lógica produtivista que vem sendo a linha dominante da produção científica no Brasil.

Neste momento, é importante destacar o importante trabalho realizado por Alessandro Soares da Silva ao longo dos últimos oitos anos editando a Revista Psicologia Política. Mesmo nos períodos em que a ABPP não conseguiu dar a contribuição necessária para a manutenção da revista, Alessandro conseguiu, mesmo com um alto custo pessoal, manter a publicação da revista no período. Por isso, manifestamos nossa enorme gratidão e reconhecemos publicamente as suas importantes contribuições para o fortalecimento e a difusão da Psicologia Política no Brasil.

Finalmente, um terceiro acontecimento importante ocorreu entre 24 e 26 de junho de 2015, quando foi realizado o I Encontro Sul-Americano de Psicologia Política. Contando com o apoio de diversas entidades de Psicologia Política, o evento realizado pela equipe do "Grupo de Pesquisa em Psicologia Política, Políticas Públicas e Multiculturalismo" (GEPSIPOLIM) reuniu pessoas de diferentes regiões do Brasil e da América do Sul (Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela) que, de diferentes maneiras, estão implicados com a Psicologia Política.

A programação do evento apresentou cursos, sessões de comunicação oral e simpósios sobre inúmeros processos e problemas: comportamento político, ação comunitária, ideologia, mídia, políticas públicas, Estado, corrupção, problemas teóricos e metodológicos da Psicologia Política e outros. As discussões expressavam preocupações que iam desde processos psicossociais vividos por aquelas e aqueles que vivem nas periferias do capital como comunidades ribeirinhas ou a juventude negra que sofre cotidianamente com a violência policial até análises sobre a relação entre capitalismo e homossexualidade, a saúde mental de assentados da reforma agrária. As discussões abarcaram, ainda, trabalhos de análise teórica ou histórica das contribuições de correntes ou pensadores específicos para a Psicologia Política e problematizaram inúmeros desafios vividos pelos movimentos sociais hoje. A programação incluiu, ainda, ricas atividades culturais que não se resumiram ao lançamento de livros, mas também atividades como a apresentação de um sarau do Slam da Resistência mostrando a rica articulação entre arte e resistência.

A pluralidade dos trabalhos e o predomínio de preocupações progressistas no interior desse I Encontro Sul-Americano de Psicologia Política serviu como ponto de partida para pensarmos como a Psicologia Política é um espaço muito importante e frutífero para a história do pensamento crítico na América Latina. Os encontros e as publicações da Psicologia Política são espaços de importantes análises sobre o político que expressam algumas conquistas importantes. Não há uma redução do político ao estatal e ao público, mas há importantes problematizações sobre as interfaces entre política e vida cotidiana, sexualidade ou subjetividade. Da mesma forma, o campo da Psicologia Política no Brasil não é dominado por reducionismos que psicologizam o político ou que eliminam o papel do sujeito na história. Finalmente, ao invés de um predomínio do processo de diálogo com os clássicos centros de pesquisa que marcaram, por exemplo, a história da Psicologia, o campo é caracterizado por um consciente diálogo latino-americano.

Neste sentido, penso que o I Encontro Sul-Americano de Psicologia Política, de certa forma, recapitula um aspecto interessante do que Martín-Baró (1988/2013) esperava ao propor a construção de uma Psicologia Política Latino-americana: não se trata de apenas estruturar mais um campo que serve para aglutinar panelinhas acadêmicas ou reproduzir saberes e práticas assépticos que pouco respondem aos problemas dos setores populares latinoamericanos. O autor via a Psicologia Política Latino-americana como um campo de conhecimento consciente de seus próprios fundamentos que intencionalmente estudaria processos e comportamentos significativos para a estruturação e o funcionamento de uma ordem social específica com o fim de criticá-la e transformá-la de acordo com os fins e os interesses das maiorias populares. A Psicologia Política Latino-americana seria, desta forma, um campo original de saberes e práticas implicado com a desideologização e politização do cotidiano, a intensificação de lutas por libertação e o fortalecimento de organizações e movimentos populares.

Obviamente, este é apenas um dos vários projetos que atravessam a Psicologia Política, mas parece ser um projeto sumamente importante no contexto atual. Articulando alguns dos debates presentes no I Encontro Sul-Americano de Psicologia Política com alguns processos políticos vividos na conjuntura atual do Brasil, penso que três desafios são sumamente importantes para a Psicologia Política enfrentar:

1. Analisar as bases políticas do espaço reconquistado por direitas organizadas na América Latina. Trata-se da manifestação de uma suposta "onda conservadora" ou das consequências psicopolíticas produzidas pela adesão de segmentos significativos das esquerdas ao neoliberalismo e ao ordenamento capitalista?

2. Estudar e compreender as diversas lutas insurgentes que explodem hoje em diferentes situações e momentos. É preciso analisar os inúmeros processos, os limites e as possibilidades de movimentos como as explosões de rebeldia das jornadas de junho de 2013 ou como a primavera feminista que se manifestou respondendo aos diversos ataques empreendidos contra as mulheres e a comunidade LGBT por setores conservadores representados pela draconiana figura de Eduardo Cunha.

3. Problematizar as possibilidades de articular as diversas lutas sociais específicas em um projeto societário comum. Apesar de inúmeras lutas travadas no cotidiano e nas ruas, parece que as possibilidades de diálogo entre os diferentes setores em luta ainda são reduzidas. Não poderia a Psicologia Política pensar as bases da fragmentação das lutas sociais ou os nexos que podem promover articulações de lutas específicas em redes e ações mais amplas e intensas contra a ordem existente? Será que não existe nenhuma possibilidade de diálogo entre a pauta feminista contra o conservadorismo de Cunha e a pauta sem-terra contra o latifúndio? Que projetos societários podem articular essas distintas pautas?

Pensados a partir de uma conjuntura específica esses desafios são exemplos ilustrativos de possíveis contribuições da Psicologia Política para aquelas e aqueles preocupados com a emancipação humana. A capacidade de enfrentar e elaborar desafios como esses foi o que orientou os esforços de Martín-Baró e outras figuras latino-americanas para a estruturação da Psicologia Política. Esperamos que esse tipo de motivação marque o desdobramento futuro da Psicologia Política no Brasil e na América do Sul, pois, tal como indica a conjuntura brasileira marcada por profunda polarização social, as iniciativas golpistas não desapareceram de nossa história. Por isso, fóruns como o I Encontro Sul-Americano de Psicologia Política são de grande importância para todas e todos implicados com as lutas por emancipação humana.

 

Referência

Martín-Baró, Ignacio. (1988/2013). Psicologia Política Latino-Americana. Revista Psicologia Política, 13(28),555-573.

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