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Stylus (Rio de Janeiro)

versão impressa ISSN 1676-157X

Stylus (Rio J.)  no.36 Rio de Janeiro jan./jun. 2018

 

TRABALHO CRÍTICO COM OS CONCEITOS

 

Uma re-volta a mais no ensino e na transmissão... para continuar fazendo Escola em Fórum1

 

One more turn-around in teaching and transmitting... to continue doing School in Forum

 

Una re-vuelta más en la enseñanza y la transmisión... para seguir haciendo Escuela en Foro

 

Encore un tournant dans l'enseignement et la transmission... pour continuer faire l'École dans le Forum

 

 

Rita Bícego Vogelaar

 

 


RESUMO

O artigo pretende trabalhar as questões: O que é ensinar? O que é ensinar psicanálise? O que é ensinar psicanálise nos Fóruns do Campo Lacaniano? Com o levantamento dessas questões, discute as nuanças dos conceitos de transmissão e ensino no âmbito do estudo dos textos e da teoria lacaniana para quem se aproxima dos Fóruns do Campo Lacaniano. Como conclusão, propõe que o ensino da psicanálise (na vertente "extensiva") deve estar subordinado, eticamente, à sua transmissão (na vertente "intensiva").

Palavras-chave: Lacan; Transmissão; Ensino; Escola; Fórum.


ABSTRACT

The article intends to work out the questions: What is teaching? What is teaching psychoanalysis? What is teaching psychoanalysis in the Forums of the Lacanian Field? With the survey of these questions, it discusses the nuances of the concepts of transmission and teaching in the context of the text studies and Lacanian theory for those who approach the Forums of the Lacanian Field. As a conclusion, it proposes that the teaching of psychoanalysis (in the "extensive" section) must be ethically subordinated to its transmission (in the "intensive" section).

Keywords: Lacan; Transmission, Teaching; School; Forum.


RESUMEN

El artículo pretende trabajar las cuestiones: ¿Qué es enseñar? ¿Qué es enseñar psicoanálisis? ¿Qué es enseñar psicoanálisis en los Foros del Campo Lacaniano? Con el levantamiento de estas cuestiones, discute los matices de los conceptos de transmisión y enseñanza en el ámbito del estudio de los textos y de la teoría lacaniana para quienes se acercan a los Foros del Campo Lacaniano. Como conclusión, propone que la enseñanza del psicoanálisis (en la vertiente "extensiva") debe estar subordinada, éticamente, a su transmisión (en la vertiente "intensiva").

Palabras clave: Lacan; Transmision; Ensenãnza; Escuela; Foro.


RÉSUMÉ

Cet article a pour but de réfléchir aux questions suivantes : Qu'est-ce que l'enseignement ? Qu'est-ce qu'enseigner la psychanalyse ? Qu'est-ce qu'enseigner la psychanalyse dans les Forums du Champ Lacanien ? Avec l'étude de ces questions, on se propose à discuter les nuances des concepts de transmission et d'enseignement dans le cadre de l'étude des textes et de la théorie lacanienne pour ceux qui approchent les Forums du Champ Lacanien. Il propose, en guise de conclusion, que l'enseignement de la psychanalyse (dans sons « extension ») doit être éthiquement subordonné à sa transmission (dans son « intension »).

Mots-clés: Lacan; Transmission; Enseignement; École; Forum.


 

 

O que é ensinar? O que é ensinar psicanálise? O que é ensinar psicanálise nos Fóruns do Campo Lacaniano, mais especificamente, em minha experiência, no que chamamos aqui em São Paulo de Formações Clínicas, "uma instância de ensino, pesquisa e transmissão que o Fórum do Campo Lacaniano-SP oferece à comunidade e que possibilita diversos tipos de engajamento para quem quiser inscrever-se num estudo", conforme consta em nosso boletim?

Pretendemos que os Fóruns sejam orientados pela Escola com seus dois pilares: o cartel e o passe. Temos tentado que os cartéis, jornadas de cartéis, café-cartéis etc. tenham maior espaço no programa de atividades anuais, mas é um caminho a ser percorrido ainda. Diante disso, o questionamento "o que é ensinar" não teria de ser constantemente retomado, re-voltado por nós, para que haja a possibilidade de se fazer Escola, não só nos Fóruns, mas em Fórum?

E, quando falo em "fazer Escola em Fórum", quando brinco com essa preposição (que faz referência à preposição entre), é para aludir, para privilegiar e para não esquecermos nossos laços, o que os orienta e a importância de sua natureza. Nossos laços são de trabalho (transferência de trabalho), e por eles passa nosso pertencimento a uma Escola, bem como os dispositivos do cartel e do passe que favorecem e propiciam, na Escola, esse tipo de laço.

Mas voltemos ao tema do texto: ensino da psicanálise. Já nos perguntamos tanto sobre o que é ensinar. Mas será que essa não é também uma daquelas perguntas (tal como: o que é um analista?) que, justamente, enquanto não cessarmos de perguntar, é o que nos mostrará que os Fóruns estão orientados pela Escola e para uma Escola?

Outra questão a que eu gostaria de dar mais uma volta é: quais as nuanças, no âmbito do estudo dos textos e da teoria lacaniana para quem se aproxima dos Fóruns, dos conceitos de ensino e transmissão? Muitas vezes, eles são usados como sinônimos.

Hoje em dia, eu fico satisfeita de esbarrar, com estranheza, em conceitos que, supostamente eu, que sou sempre convocada a ensinar no que chamamos, aqui em São Paulo, de módulos de transmissão, deveria estar cansada de saber. Sabemos, porém, que "não há saber prévio em psicanálise, nem no campo teórico-clínico, nem sobre a questão de como se faz um analista. Trata-se sempre de um saber a ser produzido" (Quinet, 2009, p. 18). Mais uma volta, então!

 

O ensino

Parto aqui de colocações que encontrei na Estranheza da psicanálise, livro escrito por Quinet (2009) e que, desde que o resenhei para a Stylus há alguns anos, sempre retomo. O fato, eu confesso, é que estou sempre às voltas com a "estranheza da psicanálise".

O ensino da psicanálise deve ser pensado a partir da posição do analisante: quem ensina é o sujeito dividido. Assim como o analisante que elabora o saber inconsciente em sua própria análise, o ensinante é um trabalhador cuja construção de saber é ordenada por aquilo que não sabe, mas interroga. Dessa maneira, é colocada em jogo no ensino da psicanálise (...) a transferência de trabalho em que o ensinante[,] dividido por uma questão, endereça sua elaboração àquele que ele pretende que produza também um saber. (Quinet, 2009, p. 55)

Dito de outra forma por Lacan no Seminário 2:

Só é ensino verdadeiro aquele que consegue despertar uma insistência naqueles que escutam, esse desejo de saber que só pode surgir quando eles próprios tomaram a medida da ignorância como tal - naquilo em que ela é, como tal, fecunda - e isso também vale para aquele que ensina. (Lacan, 1954-1955/1995, p. 260)

Não foi isso que Lacan promoveu na condução de seus seminários, ora provocando, ora instigando, ora fazendo uso de equívocos, ora aprofundando impasses?

Muitas vezes, quando sou convidada para falar em espaços que são reticentes ao estilo de Lacan, gosto de lembrar de Michel Foucault (2002, pp. 330-331) falando sobre o estilo dele.

Penso que o hermetismo de Lacan é devido ao fato de ele querer que a leitura de seus textos não fosse simplesmente uma "tomada de consciência" de suas ideias. Lacan queria que a obscuridade de seus Escritos e que o trabalho necessário para compreendê-lo fosse um trabalho a ser realizado sobre si mesmo.

Ele mesmo, Lacan (1966/1998, p. 11), na abertura de seus Escritos, orienta-nos quanto a isso: "Queremos, com o estilo que esse endereçamento impõe, levar o leitor a uma consequência em que ele precise colocar algo de si."

A ideia do cartel é exatamente esta: pôr algo de si. Porém, como disse anteriormente, a de-formação2 dos analistas nos Fóruns (no âmbito do estudo e construção da teoria) não é somente feita por cartéis, que é um dispositivo que promove e provoca isso. O problema (poderíamos assim dizer?) é que existem muitos outros meios de ensino. Logo, não deixar acostumada, re-voltar sempre à questão "o que é ensinar", fazer insistentemente furo em um ensino "consistente" me parece fundamental (já que, mesmo cuidando, usando uma expressão da Clarice Lispector [2009, p. 11], ele "renasce fácil como capim").

 

A transmissão

Trouxe um pouco o que vou apreendendo sobre esse conceito: ensino. Ensino, é claro, no âmbito do que já falamos anteriormente, em que supomos o ensinante como um trabalhador cuja construção de saber é ordenada por aquilo que não sabe, mas interroga.

Mas, e o conceito de transmissão? Muitas vezes, sobrepomos ensino e transmissão como se fossem sinônimos. Aqui em São Paulo, como já citei anteriormente, temos um espaço de ensino chamado módulo de transmissão. Mas o que garante a transmissão quando se ensina?

Quero lembrar aqui que, antes de tudo, sou da escola de Manoel de Barros (1996, pp. 67-71) e concordo que "melhor que definir é aludir. Verso não precisa dar noção", e o que quero aqui, com vocês, é "versar", abrir, deixar em suspensão, e não fechar. Já faz algum tempo que ando "estranhando as palavras". Muito! E como ando com medo "da palavra acostumada", as re-voltas se fazem necessárias.

Entendo que a transmissão em psicanálise é, antes de tudo, ética; transmite-se um estilo, e o estilo marca um modo de transmissão e produção do sujeito que depende do recorte do objeto pulsional. Voltando à Estranheza (Quinet, 2009, p. 177): "O estilo é inventado na passagem de analisante a analista (...) é correlato ao desejo novo como desejo de analista, desejo epistêmico, desejo de saber. Eis a operação da transmissão pela via do estilo: transmissão de passe causando passe."

No entanto, por mais que a transmissão se articule diretamente com a questão sobre o final de análise, pressuponho que o "passe", como dispositivo institucional inventado para a verificação do final de análise e o desejo de analista, e ainda a teorização a ser feita sobre isso nos levam a aludir que o ensino da psicanálise (na vertente "extensiva") deve estar subordinado, eticamente, à sua transmissão (na vertente "intensiva").

Logo, atravessada pela questão do ensino da psicanálise, pergunto, e pergunto para manter a pergunta viva: para aqueles que ensinam psicanálise, como suportar (nos dois sentidos da palavra: ser suporte e aguentar) o estilo depreendido da experiência analítica a serviço do ensino, considerando que o que é transmitido, por exemplo, de um ensinante para alguém que pretende aprender se sustenta em que uma "insistente ausência fecunda"3 se inscreva?

E termino suportando a lógica intrínseca na pergunta que Lacan (1962- -1963/2004, p. 26) faz no Seminário da Angústia: "O que é ensinar, quando se trata justamente de ensinar o que há por ensinar não apenas a quem não sabe, mas a quem não pode saber?"

Este texto foi apenas uma re-volta... Afinal, sempre há razão para nos re-voltarmos. É um bom método. Re-voltar, re-volver, re-volucionar mantêm as coisas em movimento.

 

Referências bibliográficas

Barros, M. (1996). Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record.

Fingermann, D. (2008, Junho). A análise dos analistas. Jornal de Psicanálise, São Paulo, 41(74).

Foucault, M. (2002). 1981 - Lacan, o libertador da psicanálise. In M. Foucault. Ditos e escritos: problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise (Vera Lucia Avellar Ribeiro, Trad.; Manoel Barros da Motta, Org.) (2a ed., Vol. 1). Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Lacan, J. (1954-1955/1995). O seminário, livro 2: o Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (Marie Christine Laznik Penot, Trad. com colaboração de Antonio Quinet). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1962-1963/2004). O seminário, livro 10: a angústia (Vera Ribeiro, Trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1966/1998). Abertura dessa coletânea. In J. Lacan. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lispector, C. (2009). A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco.

Quinet, A. (2009). A estranheza da psicanálise: a Escola de Lacan e seus analistas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

 

 

Recebido: 03/04/2018
Aprovado: 30/06/2018

 

 

1 Trabalho apresentado no XVII Encontro Nacional da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (Problemas Cruciais para a Psicanálise na Atualidade), realizado em novembro de 2016 em São Paulo-SP.
2 O enfoque principal deste texto é problematizar o ensino da psicanálise e, portanto, da psicanálise em extensão. Porém, não podemos deixar de enfatizar que a formação, de-formação dos analistas não vai sem passar pela própria análise (psicanálise em intensão). "A psicanálise, experiência da transferência e de sua manobra, é uma operação lógica da qual o analista é a causa. Espera-se do psicanalista que ele suporte essa experiência. Espera-se da análise do analista que ela seja uma experiência de formação, ou melhor, de de-formação de uma pessoa que lhe dê as qualificações necessárias e suficientes para poder suportar a direção desse tratamento do começo ao fim, isto é, do começo ao fim da transferência de seus analisantes" (Fingermann, 2008, p. 2).
3 Construção minha baseada na fala de Lacan (1954-1955/1995, p. 260) no Seminário 2, mencionado anteriormente. "Só é ensino verdadeiro aquele que consegue despertar uma insistência naqueles que escutam, esse desejo de saber que só pode surgir quando eles próprios tomaram a medida da ignorância como tal - naquilo em que ela é, como tal, fecunda - e isso também vale para aquele que ensina."

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