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Psic: revista da Vetor Editora

versão impressa ISSN 1676-7314

Psic v.4 n.1 São Paulo jun. 2003

 

ARTIGOS

 

Dos laços de sangue aos laços de ternura: o processo de construção da parentalidade nos pais adotivos

 

 

Manoel Antônio dos Santos; Renata Loureiro Raspantini; Letícia Araújo Moreira da Silva; Mariana Visconti Escrivão

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A construção do processo de adoção caracteriza-se inicialmente pela impossibilidade de os pais biológicos permanecerem com seus filhos e pela disponibilidade de outras pessoas, motivadas por diferentes razões, cuidarem dessas crianças. Dentro desse contexto, a adoção, em seus diversos aspectos, vem obtendo um papel de destaque dentro de nossa sociedade, o que, conseqüentemente, a torna um tema socialmente relevante. O presente trabalho tem como objetivo compreender o processo de construção da parentalidade no casal adotivo e avaliar os recursos psicológicos dos pais e da criança adotada. Para tanto, avaliou-se uma família composta por pai, mãe e dois filhos adotados do sexo masculino, de 6 e 10 anos de idade. Foram aplicados os seguintes instrumentos: (1) pais - Roteiro de Entrevista Semi-estruturada, (aplicada ao casal), Escala A2 de Rutter (aplicada à mãe), Desenho da Família (aplicado individualmente); (2) filhos - Hora de Jogo Diagnóstica, Escala de Stress Infantil de Lipp, Desenho da Figura Humana, Desenho da Família, Teste das Fábulas de Düss, CAT-A, Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (escala especial), todos aplicados individualmente. Os resultados indicaram que a motivação para a adoção foi a infertilidade de ambos os pais. As adoções foram tardias, o que se distancia do perfil típico dos processos brasileiros. A avaliação dos recursos psicológicos das crianças mostrou perfis contrastantes, denotando que estas assumiram papéis complementares (timidez versus hiperatividade; introversão versus extroversão), na tentativa de se adaptarem às expectativas parentais e ambientais. Conclui-se pela necessidade de intervenção psicológica centrada na família, que a auxilie a potencializar seus recursos e a buscar meios mais adaptativos para minimizar os possíveis riscos para o desenvolvimento infantil.

Palavras-chave: Adoção, Parentalidade, Avaliação psicológica, Vulnerabilidade, Fatores de risco.


ABSTRACT

Two important characteristics of an adoption process are the impossibility of biological parents to stay with their children and the availability of other people to foster these children. In this context, the adoption has gained an outstanding role in the society and has become an important social issue. This work aimed at comprehending the construction process of the foster couple parenthood and to evaluate the foster parents' and child's psychological resources. Hence, it was evaluated a family composed by father, mother and two male foster children, aging 6 and 10. The following instruments were applied: (1) parents - Semi-structured interview script (applied to the couple), Rutter A2 scale (applied to the mother), Family Drawing Test (applied to mother and father individually); (2) children - one diagnostic ludotherapy session, Lipp Child Stress Scale, Human Figure Drawing Test, Family Drawing Test, Düss Tales Test, CAT-A, Raven Colored Progressive Matrices (special scale), all of them, individually applied. The results indicate that the motivation for adoption was both, mother and father, infertility. Both children were four years old when they were adopted, differently from typical Brazilian context of early adoptions. Psychological evaluation of children's resources showed different profiles, suggesting that they have assumed complementary roles (shyness versus hyperactivity; introversion versus extro-version) as they try to meet parents' and environmental expectations and to adapt themselves to such demands. Psychological intervention focused on the family is presented as a possible support since it can catalyze family resources and promote more adequate means to minimize possible risks in their children development.

Keywords: Adoption, Parenthood, Psychological evaluation, Vulnerability, Risk factors.


 

 

Introdução

A construção do processo de adoção caracteriza-se inicialmente pela impossibilidade de os pais biológicos permanecerem com seus filhos e pela disponibilidade apresentada por outras pessoas, motivadas por diversas razões, de cuidarem dessas crianças. Na base de toda adoção encontramos uma história de rompimento precoce de vínculos afetivos.

Do ponto de vista psicológico, a adoção se fundamenta na premissa de que a integração a uma nova família possibilita à criança reconstruir sua identidade a partir do estabelecimento de um relacionamento satisfatório com as novas figuras parentais. Esses pais substitutos podem oferecer à criança uma base segura para o desenvolvimento de suas potencialidades, proporcionando a satisfação de suas necessidades básicas e uma elaboração dos traumas provenientes da ruptura dos primeiros laços afetivos (Pereira & Santos, 1998). No entanto, para que haja a formação de vínculos saudáveis nesse novo relacionamento, é imprescindível que os pais adotivos estejam preparados para receberem um novo membro em sua família, o que requer uma série de adaptações do contexto familiar que vão exigir capacidade de tolerância e permeabilidade a mudanças.

A motivação mais freqüentemente observada entre os pais que adotam é a infertilidade ou esterilidade (Pizeta, 2002). Para que a relação entre pais e filhos adotivos seja satisfatória, é necessário que, ao se decidirem pela adoção, os pais tenham realizado o luto e a reparação pelo filho biológico que não se viabilizou (Fiori, 1984). Outro ponto que deve estar superado é o fato de que, quando se cogita adotar um filho, há uma admissão tácita de que não se encontrará nele a identificação no seu sentido biológico. Porém, segundo Schettini Filho (1999), todos os filhos são, simultaneamente, biológicos e adotivos: "Biológicos, porque essa é a única maneira de existirmos concreta e objetivamente; adotivos, porque é a única forma de sermos verdadeiramente filhos" (Schettini, 1999, p. 43).

Quando nasce um bebê, a família toda necessita de um tempo de adaptação à nova situação e isso não é diferente na adoção (Nascimento, 1999). Quando se coloca uma criança em um lar substituto, há a formação de uma nova rede de relações e, nesse novo ambiente familiar é indispensável que os componentes emocionais dispensados à criança sejam o amor, o carinho, a devida atenção, o comprometimento sério e o total respeito à sua história pretérita (Martins, 2001).

Assim, pode-se compreender que é a relação afetiva que produz os recursos e instrumentos que solidificam a ligação familiar. É precisamente nesse contexto do cuidar que se situa a parentalidade adotiva (Schettini, 1999).

Dentro desse panorama, a adoção, em seus diversos aspectos, vem conquistando um papel extremamente importante em nossa sociedade, o que torna esse tema socialmente relevante, justificando a proposta de estudos que focalizem os aspectos psicossociais do adotar.

 

Objetivo

O presente trabalho tem como objetivo compreender o processo de construção da parentalidade no casal adotivo, a partir de uma avaliação dos recursos psicológicos dos pais e da criança adotada.

 

Método

Trata-se de um estudo descritivo, conduzido dentro de um enfoque qualitativo, do tipo estudo de caso.

A estratégia metodológica consistiu na avaliação psicológica de uma família composta por pai, mãe e dois filhos adotados, ambos do sexo masculino, de 6 e 10 anos de idade.

Os dados foram coletados em local reservado, na Clínica Psicológica do Centro de Psicologia Aplicada da USP de Ribeirão Preto, em uma sala com condições adequadas de conforto e privacidade. O acesso à família se deu por meio dos registros clínicos da instituição. Primeiramente, os pais das crianças foram contatados e convidados a participar do estudo. A anuência foi formalizada mediante a assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Foram aplicados os seguintes instrumentos:

(1) Pais: Roteiro de Entrevista Semi-estruturada, delineado especialmente para a presente investigação; a entrevista foi aplicada ao casal; além disso, aplicou-se a Escala A2 de Rutter, tendo por informante a mãe, e o Desenho da Família, aplicado individualmente aos pais.

(2) Filhos: Hora de Jogo Diagnóstica, Escala de Stress Infantil de Lipp, Desenho da Figura Humana (DFH), Desenho da Família (DF), Teste das Fábulas, CAT-A e Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (escala especial). Todas as técnicas foram aplicadas individualmente, ao longo de duas sessões de avaliação.

 

Resultados

Entrevista psicológica:

Casal: Sônia e Evandro1

Sônia e Evandro são casados há dez anos. Ela tem 40 anos e é secretária em um hospital. Ele tem 45 anos e trabalha como garçom em um restaurante. O casal conta que, desde a época do namoro, já pensavam em adotar uma criança. A justificativa de Evandro baseia-se no fato de ele próprio ter sido "praticamente uma criancinha adotiva", pois sua mãe falecera quando ele tinha dez meses e, desde então, um casal cuidou dele "sem o processo de adoção" formal. Sônia também afirma que o desejo da adoção nasceu antes do casamento; seu propósito era de que, caso não se casasse até completar 25 ou 26 anos, adotaria uma criança. O desejo da adoção, despertado de maneira diferente nessas duas pessoas e nascido antes mesmo de eles descobrirem a impossibilidade de gerar filhos pelo método dito natural, impulsionou o casal a seguir em frente e buscar, na adoção, a realização da maternidade-paternidade. Todavia, antes de ser concretizada a adoção, eles tiveram que passar pela elaboração do luto de não poderem ter filhos biológicos. Evandro conta que, para ele, a descoberta da infertilidade despertou um profundo sentimento de tristeza e decepção. Já a esposa relata que essa descoberta foi tratada com mais "naturalidade" por ela. O tratamento da infertilidade não foi visto como uma solução viável para o casal, pois além dos custos econômicos e da demora que acarreta, a incerteza de que o tratamento desse certo também os desmotivou na busca da reprodução assistida. Sônia conta que, anteriormente à descoberta da impossibilidade de gerar filhos, eles já haviam entrado com o pedido de adoção, pois a intenção era buscar a adoção mesmo que tivessem um filho biológico.

A chegada do primeiro filho:

Mesmo percebendo a adoção como o melhor caminho para a realização do desejo de serem pais, persistiam ainda alguns medos que precisavam ser elaborados para que a chegada do primeiro filho do casal pudesse se dar de forma satisfatória. Certo dia, o casal soube, por meio do pastor da igreja que freqüentam, de uma criança que poderia ser adotada e, assim, deu-se o contato do primogênito com seus futuros pais. Apesar de Sônia contar que "sentiu que a criança era deles", o casal não a levou para casa de imediato - estavam com medo de que ela não se adaptasse, segundo relatam. Sônia refere que passou seis meses pensando se realmente iria adotar a criança e, nesse período, seus sonhos com o futuro filho eram constantes. Depois de finalmente decidido, o casal assumiu a criança e Sônia relata que o medo de adaptação revelou-se depois uma "bobeira", pois Leonardo se adaptou muito bem ao novo ambiente.

O segundo filho:

O casal conta que o segundo filho chegou dois anos depois, por meio do Fórum, pois eles continuavam cadastrados no livro de registros. Maurício estava com dois anos e oito meses e era de outra cidade, assim como o irmão. Evandro conta que, quando o casal foi conhecê-lo, o menino estava com "os dentinhos podres e com o cabelo raspado". Sônia comenta que a criança chegou nesse estado porque seus pais biológicos eram andarilhos e não tinham um lugar para morar. Ela fala que o medo de adaptação, que foi sentido na primeira adoção, dessa vez não ocorreu e, por isso, "assim que bateu os olhos em Maurício, quis levá-lo para casa". Evandro diz com muita satisfação que a boa adaptação foi mútua.

Escala A-2 de Rutter:

Essa escala, adaptada por Graminha (1998), é utilizada para o estudo dos distúrbios emocionais e comportamentais das crianças. Os pais respondem a questões relacionadas aos seus filhos. A escala é composta por 36 itens, distribuídos em 3 tópicos: problemas de saúde, hábitos e afirmações comportamentais. Cada item consiste em uma breve afirmação acerca do comportamento da criança, em que os pais são solicitados a indicar: a freqüência do comportamento, o grau de severidade e a extensão com que a afirmação se aplica àquela criança.

A cotação dessa escala permite avaliar se a criança necessita de ajuda psicológica ou psiquiátrica, ou se apresenta um transtorno neurótico ou anti-social.

Os dados obtidos indicaram que Leonardo apresentou, segundo o instrumento, um escore neurótico e Maurício, um escore anti-social.

Desenho da Família:

Sônia mostrou, em sua produção gráfica, indicadores sugestivos de uma internalização positiva das figuras parentais. Aparenta ter consciência dos aspectos positivos e negativos de sua função materna e mostra-se disposta a rever certos pontos que julga estarem "atrapalhando" na dinâmica familiar, em especial seu jeito "perfeccionista" de ser. Sônia identifica-se com seu filho mais velho, dizendo que os dois se parecem muito e que, em certos aspectos, considera importante que essa identificação ocorra.

Já Evandro mostrou ser um pai muito preocupado com a educação dos filhos, principalmente com sua formação religiosa. Aparenta ser carinhoso e zeloso, e também demonstrou uma introjeção positiva das figuras parentais. Deixou bem claro que amava os filhos, parecendo haver uma certa preocupação em deixar isso evidente. Chama a atenção em seu desenho a figura feminina, que aparece duplicada, uma em forma de mulher e outra, de criança. Ele conta que o aparecimento da menina no desenho deve-se ao seu desejo de ter uma filha. Evandro identifica-se com seu filho mais novo, dizendo que o menino "tem muito de mim na maneira de ser".

Criança 1: Maurício

Ludodiagnóstico:

Maurício permaneceu a maior parte do tempo agitado. Explorou bastante o ambiente e o material que lhe foi proposto. A inquietação psicomotora pode ser compreendida como uma dificuldade de controle da impulsividade.

Desenho da Figura Humana e Desenho da Família:

Houve intensa identificação com sua vida familiar. Em ambos os desenhos, Maurício falou de suas preferências, citou pessoas da família e descreveu reuniões familiares. Durante o inquérito, apresentou-se muito ativo e inquieto. Mostrou grande dificuldade de prestar atenção às orientações da aplicadora.

Matrizes Progressivas de Raven:

O resultado obtido com essa técnica ficou bastante comprometido, uma vez que Maurício não conseguiu se concentrar na atividade. A atitude geral era bastante displicente; algumas vezes, ele apontava para as figuras sem ao menos olhar para o livro.

Teste das Fábulas:

Em praticamente todas as fábulas, Maurício identificou-se com o personagem principal. Nota-se, portanto, que ao identificar a fábula com sua própria vida e seus sentimentos, a criança abdica da vida da fantasia, empobrecendo de certo modo seu imaginário, o que pode gerar conseqüências dramáticas para o seu desenvolvimento. De forma geral, pôde-se analisar, pelo conteúdo de suas histórias, que há uma boa internalização da figura materna (introjeção de uma mãe provedora) e recursos para lidar com a divisão entre irmãos (rivalidade fraterna). No entanto, a criança apresenta dificuldades em lidar com sentimentos positivos - principalmente amorosos - projetados nos outros, sendo que a felicidade do outro implica sua tristeza.

CAT-A:

Houve uma identificação marcante de Maurício com o conteúdo das histórias que elaborou. Essas histórias são dotadas de intenso sentimento e percebe-se nitidamente uma oscilação: ora há referência à família biológica, ora à família adotiva.

De um modo geral, ele descreve situações de medo e abandono. No entanto, nota-se que, quando se sente em um ambiente familiar, a ação não tende à destruição, mas sim ao acolhimento. A cena familiar o leva a pensar em carinho e aconchego. Observa-se que, aos poucos, a família está sendo internalizada de forma positiva. Já ao lidar com o meio nota-se a presença de marcante agressividade nos conteúdos projetivos.

Em várias pranchas, pôde-se observar que a criança não consegue organizar as ações dos personagens e seus sentimentos, o que denota uma marcada desorganização mental.

Na tentativa de preservar seu processo adaptativo, Maurício faz uso de alguns mecanismos de defesa primitivos, tais como a negação e a dissociação, além de intensa repressão dos afetos (por exemplo, a tendência de excluir um personagem quando este lhe causa incômodo).

Escala de Stress Infantil de Lipp:

Maurício não apresentou sinais significativos de estresse; no entanto, devido à dificuldade de concentração, apontava as alternativas aparentemente sem refletir.

Criança 2: Leonardo

Ludodiagnóstico:

Leonardo permaneceu quieto e pouco responsivo durante toda a atividade. Mostrou-se apático e sem expressão facial. Pode-se pensar em uma marcada inibição, desencadeada por um intenso bloqueio interno, que não o permite fazer uso de suas potencialidades cognitivas e emocionais. Observa-se uma tendência ao isolamento social. A persistir o uso maciço de mecanismos do tipo restritivo-inibitório, pode caminhar para um estado de quase embotamento afetivo, que pode suscitar um empobrecimento crescente do mundo interno.

Desenho da Figura Humana e Desenho da Família:

Sua produção gráfica é marcada por um posicionamento negativista e por respostas evasivas no decorrer da etapa do inquérito. Leonardo apagou o desenho inúmeras vezes, o que pode ser considerado um indício de conflito emocional. Notou-se uma dificuldade de entrar em contato com seus próprios sentimentos. De fato, manteve distância em relação às perguntas do inquérito, evitando envolver-se com os conteúdos. Notou-se ainda a presença da rivalidade fraterna e dificuldade no delineamento da própria auto-imagem.

Matrizes Progressivas de Raven:

Aparentemente foi a atividade de que mais gostou. Seu nível intelectual é normal. Durante a aplicação do teste manteve uma atitude concentrada e saiu-se muito bem nessa tarefa estruturada, que exige apenas a aplicação de raciocínio abstrato, sem envolvimento de estímulos afetivos. Esse achado é sugestivo de que os prejuízos estão concentrados na área afetivo-emocional, com preservação do desenvolvimento cognitivo.

Teste das Fábulas:

A atitude dominante ao longo dessa tarefa foi o baixo nível de interesse. Leonardo mostrou pouco envolvimento ao desenvolver as fábulas. Elaborou desfechos bem sucintos, nem sempre bem adaptados à situação estimuladora. De maneira geral, demonstrou pouca carga emocional, em razão da ação intensa dos mecanismos inibitórios, exceto na ultima prancha, quando emerge um intenso sentimento de insegurança.

Pôde-se notar uma boa internalização da figura materna, embora o pai apareça como uma figura emocionalmente distante.

CAT-A:

Mais uma vez observou-se marcada inibição no desenrolar da tarefa. Na maioria das narrativas produzidas não houve envolvimento emocional. Nota-se dificuldade no estabelecimento de vínculos. Nos conteúdos das histórias elaboradas foram observados freqüentemente temas relacionados com dependência e insegurança, no entanto verifica-se a introjeção de um ambiente familiar acolhedor. Por diversas vezes há introdução ou exclusão de personagens, denotando dificuldades em lidar com situações que envolvem dividir ou dar-receber.

Escala de Stress Infantil de Lipp:

Leonardo não evidenciou sintomas significativos de estresse. Apresentou-se mais descontraído na realização dessa atividade.

 

Conclusão

Tanto as crianças avaliadas como os pais apresentam indicadores de uma boa internalização das figuras estruturantes da personalidade (as imagos parentais), embora tenha sido observado um certo distanciamento emocional, particularmente marcado em Evandro e Leonardo.

As relações familiares aparecem estruturadas, uma vez que, para as crianças, o ambiente familiar foi relacionado a situações de carinho, abrigo e aconchego. Isso provavelmente é resultado da preocupação dos pais em propiciar-lhes um ambiente favorável para o desenvolvimento de suas potencialidades.

A despeito das privações decorrentes da adoção, a avaliação psicológica das crianças mostrou que ambas apresentam recursos psicológicos, ao lado de dificuldades bem marcadas.

Maurício apresentou certa desorganização ao formular suas ações e articulá-las aos sentimentos, além de um significativo déficit de atenção e concentração nas tarefas e dificuldade de reconhecer e acatar limites.

Já Leonardo apresentou dificuldades nas relações interpessoais e uma inibição acentuada, o que dificulta o estabelecimento de novos vínculos que possam enriquecer seu mundo interno.

Os pais, por sua vez, apresentaram uma estrutura psicológica com recursos adequados, parecendo ser capazes de oferecer continência às demandas emocionais dos filhos.

Pela análise dos dados, nota-se que as crianças assumiram papéis complementares (timidez versus hiperatividade, inibição versus extroversão), provavelmente na tentativa de se adaptarem às expectativas parentais, visto que há uma notável identificação da mãe com o filho mais velho e do pai com o filho mais novo.

Os quatro integrantes da família mostram uma estrutura da personalidade preservada, porém as crianças revelam prejuízos ao nível da dinâmica de funcionamento psíquico, o que torna indicada uma ajuda psicológica.

Assim, apesar de os indicadores obtidos sugerirem uma organização familiar aparentemente coesa, conclui-se pela necessidade de intervenção centrada na família (orientação para os pais, ludoterapia para as crianças), que a auxilie a buscar meios adaptativos para minimizar os possíveis riscos que os problemas emocionais acarretam ao desenvolvimento infantil.

 

Referências

Fiori, W. R. (1984). Aspectos críticos da adoção. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Martins, R. F. (2001). Evolução e atual significado da adoção. Maringá, PR. Recuperado em: http://www.uem.br/~urutagua/02adocao.htm.

Nascimento, V. H. V. (1999). Guia do bebê. Recuperado em: http://cadernodigital.uol.br/guiadobebe/artigos/adocaovera.htm.

Pereira, J. M. F., & Santos, M. A. (1998). O enfoque psicológico da adoção: revisão da literatura. In R. C. Labate (Org.). Caminhando para a assistência integral. Ribeirão Preto, SP: Scala/FAPESP.

Pizeta, F. A. (2002). O processo de construção do vínculo em famílias adotivas: uma perspectiva longitudinal. Trabalho de Conclusão de Curso. Programa de Bacharelado em Pesquisa, Departamento de Psicologia e Educação, FFCLRP-USP, Ribeirão Preto, SP.

Schettini Filho, L. (1999). Adoção: origem, segredo e revelação. Recife, PE: Bagaço.

 

 

Endereço para correspondência:
masantos@ffclrp.usp.br

Encaminhado em 16/04/03
Aceito em 08/07/03

 

1 Todos os nomes próprios utilizados no presente estudo são fictícios.