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Avaliação Psicológica

versão impressa ISSN 1677-0471

Aval. psicol. vol.9 no.1 Porto Alegre abr. 2010

 

 

Validação da Escala de Lembranças sobre Práticas Parentais (EMBU)

 

Validation of the Scale of Memories on Parenting Practices (EMBU)

 

 

Ana Paula Ribeiro Kobarg; Viviane Vieira; Mauro Luís Vieira1

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 


RESUMO

As práticas educativas parentais podem ser entendidas como conjuntos de comportamentos de pais e mães no processo de socialização dos filhos. O presente estudo teve como objetivo fazer a validação de uma escala que avalia as lembranças de práticas de criação na infância. Participaram do estudo 454 universitários, de ambos os sexos. O instrumento era composto de 23 itens para cada um dos pais, em que os sujeitos respondiam numa escala de quatro pontos. A escala abrange três dimensões: suporte emocional, rejeição e superproteção. A primeira análise dos componentes principais confirmou os três fatores, com índice de fidedignidade de 0,78 (Alpha de Cronbach), além de fatorabilidade KMO=0,89 e Bartlett significativos (p<0,01). No método de extração utilizado, dois itens foram excluídos e um item mudou de dimensão. Os resultados indicaram a importância da validação do instrumento, que necessita ser contextualizado à cultura em que é aplicado.

Palavras-chave: memórias da infância; práticas parentais; validação; precisão.


ABSTRACT

The parenting practices can be understood as sets of parental behaviors related in the socialization of children. This study aimed to validate a scale that assesses memories on parenting practices during childhood. In total, 454 undergraduate students of both sexes participated in the study. The instrument was composed of 23 items for each parent that answered through a scale of four points. The scale covers three dimensions: emotional support, rejection and overprotection. The first analysis of main components confirmed the three factors, with reliability index of 0.78 (Cronbach's Alpha), furthermore with factor = 0.89 KMO and Bartlett significant (p <0.01). In the method of extracting, two items were excluded and an item changed its factor. The results indicated the importance of validation of the instrument, which needs to be contextualized according to the culture where it is applied.

Keywords: memories of childhood; parenting practices; validation; precision.


 

 

INTRODUÇÃO

O modo como os pais educam seus filhos, assim como os efeitos que as práticas educativas parentais produzem no desenvolvimento psicossocial dos jovens e adultos, tem sido objeto de investigação de diversas pesquisas nos últimos anos aqui no Brasil (Bardagi, 2002; Piccinini, Frizzo, Alvarenga, Lopes & Tudge, 2007; Reppold, 2001; Salvo, Silvares & Toni, 2005; Teixeira, Bardagi & Gomes, 2004; Weber, Selig, Bernardi & Salvador, 2006) e no exterior (Juang & Silbereisen, 1999, 2002; Laible & Carlo, 2004; Lamborn, Mounts, Steinberg & Dornbusch, 1991; Meesters & Muris, 2004; Shucksmith, Hendry & Glendinning, 1995). Essas pesquisas sugerem que as práticas parentais estão associadas a diversos indicadores de desenvolvimento psicológico e comportamental na infância, adolescência e na idade adulta, tais como auto-estima, depressão, ansiedade, desempenho acadêmico, competência interpessoal e comportamentos agressivos.

As práticas educativas parentais podem ser entendidas como conjuntos de comportamentos que pais e mães apresentam no processo de educação ou socialização dos filhos (Darling & Steinberg, 1993; Piccinini & cols., 2007, Salvador & Weber, 2005; Weber & cols., 2006). Um exemplo seria o esforço parental para que um filho desenvolva um senso de autonomia. Para isso, um pai ou uma mãe pode incentivar o filho a ter suas próprias idéias, estimulálo a dar o máximo de si ou deixá-lo aprender algumas coisas por experiência própria. Nem sempre, contudo, esse resultado é deliberadamente planejado pelos pais – o modo de agir em relação aos filhos pode ser muitas vezes guiado por valores e crenças passadas através de gerações, normalmente muito difíceis de serem modificadas (Weber & cols., 2006) As relações entre mãe/pai e filhos são extremamente significativas, sendo consideradas como fatores de risco ou de proteção, pois ora promovem o sentimento de segurança e a auto-estima e concorrem para o bem estar global do indivíduo, ora geram condições adversas de existência e implicam considerável sofrimento (Canavarro, 1999).

As práticas parentais refletem em diversas dimensões da vida da pessoa, incluindo na forma que a mesma exerce sua parentalidade. Uma forma de investigar como essas práticas foram realizadas ocorre através do discurso dos filhos, que identificam e assinalam, por meio de lembranças, quais as características das práticas de seus pais. Alguns estudos nacionais já utilizam a percepção dos filhos para identificar estilos ou práticas parentais (Montandon, 2005; Teixeira, Oliveira & Wottrich, 2006; Weber, Prado, Viezzer & Brandenburg, 2004). Em âmbito internacional, a escala Egna Minnen Beträffande Uppfostran – “nossas memórias sobre educação parental” – (EMBU) é um instrumento utilizado para recorrer às lembranças dos filhos sobre a educação recebida durante a infância/adolescência.

A escala sobre Lembranças de Práticas Parentais- EMBU

O instrumento (EMBU) avalia as lembranças de práticas de criação na infância e adolescência. Em 1980, na Suécia, Perris, Jacobson, Lindström, Von Knorring e Perris formularam a escala EMBU. Os autores constataram em seus estudos que adultos com problemas psiquiátricos, na sua maioria, tiveram privação de cuidado parental na infância, separação ou divórcio, além de outras variáveis em idade de desenvolvimento.

Perris e colaboradores interessaram-se pelas experiências durante a infância em um grande grupo de pacientes que sofriam de desordens afetivas e encontraram em pessoas com diagnósticos comuns uma similaridade de privação na infância. No artigo de 1980, os autores definem privação na infância como a falta, perda ou ausência de uma relação de sustentação emocional antes da adolescência. Além disso, apontam para uma carência que poderia depender de uma real privação de ambos os pais ou práticas de criação por um dos pais.

Inventários prévios foram compostos de questões para serem respondidas “sim ou não”, as quais constam de um grande número de itens, como por exemplo 192 itens no Inventário do Comportamento Parental Informado pelas crianças) de Schaefer (1959). No EMBU os autores incluíram o número de respostas alternativas para quatro, de acordo com as definições: 1- Isto nunca ocorreu; 2- Isto ocorreu excepcionalmente; 3- Isto ocorreu com freqüência; 4- Isto sempre ocorreu. A forma final do EMBU também permitiu uma resposta para o comportamento de ambos os pais, em contraste com os inventários similares anteriores. O questionário final foi estabelecido compondo 81 questões agrupadas em 15 subescalas e outras duas questões: no que diz respeito com a severidade, rigor do comportamento parental e sua consistência (Perris & cols., 1980).

Um primeiro passo necessário foi testar o EMBU em pessoas sem distúrbio afetivo. Para esse propósito uma amostra de 152 sujeitos foi coletada: 108 homens e 44 mulheres. Esse estudo do EMBU foi ministrado como um inventário de auto-avaliação (Perris & cols., 1980). A partir de várias análises psicométricas os autores encontraram três principais fatores, já identificados também em outros estudos (Jacobson & cols., 1980; Perris & cols. 1980), quais sejam: Calor emocional, rejeição e superproteção.

A escala foi validada em outros países, tais como: Inglaterra (Ross, Campbell & Clayer, 1982); Japão e Estados Unidos (Huang, Someya, Takahashi, Reist & Tang, 1996); Portugal (Canavarro, 1996); Espanha (Castro, Pablo, Gómez, Arrindell & Toro, 1997); Hungria, Guatemala, Grécia e Itália (Arrindell & cols., , 1999; Alemanha (Arrindell & cols., 2001); e Austrália e Venezuela (Arrindell & cols., 2005). A primeira aplicação de uma versão traduzida do questionário EMBU foi realizada pelos autores britânicos Ross, Campbell e Clayer (1982). Os resultados indicaram altos e comparáveis índices de confiabilidade nas correlações da versão britânica, além de estrutura similar de fatores. Apesar de que algumas adaptações na escala foram realizadas, especialmente na área da linguagem por se tratar de uma cultura diferente, os autores concluem que o instrumento parece ser excelente para medir o ambiente familiar e ser usado na área de pesquisas com pessoas mentalmente saudáveis (Ross Campbell & Clayer, 1982).Diferenças culturais nas atitudes parentais e práticas de cuidado infantil entre países europeus têm sido demonstradas nos primeiros estudos usando a escala EMBU para acessar as memórias de criação. No estudo piloto realizado por Huang e colaboradores (1996) foi avaliado o EMBU em duas populações: uma de cultura homogênea – Japão (N=105) – e outra em uma cultura heterogênea (imigrantes e estadunidenses) no sul da Califórnia (N=73). Os resultados sugerem que pais japoneses, comparados aos europeus, são emocionalmente mais distantes com seus filhos, ao mesmo tempo os pais do sul da Califórnia são similares aos europeus encontrados nos estudos anteriores (Huang & cols,1996).

O desenvolvimento de uma das formas reduzidas do EMBU foi realizado por Arrindell e colaboradores (1999), avaliando estudantes da Grécia, Guatemala, Hungria e Itália. A forma reduzida do EMBU consiste de três dimensões (Rejeição, Calor emocional e Super-Proteção) com 7, 7 e 9 itens, respectivamente, desenvolvida a partir da versão original de 81 itens. A validade e confiabilidade fatorial e da construção do EMBU reduzido foi examinada em 2442 estudantes da Itália, Hungria, Guatemala e Grécia, com o alfa de Cronbach nos diferentes países igual ou superior a 0,72 e os itens com carga fatorial entre 0,2 e 0,7.

Para maximizar a diversidade das regiões dos países pesquisados foi usado como público alvo estudantes universitários de várias áreas e de diferentes regiões dos países (Arrindell & cols., 1999). A partir desse estudo, o EMBU reduzido (também chamado de s-EMBU – “s” de short; o termo em inglês foi utilizado por que é uma escala internacional validada em vários países e publicada em periódicos de língua inglesa) é recomendado como equivalente ao EMBU de 81 itens.

Outro estudo teve como objetivo verificar e estender a utilização do s-EMBU em novas culturas, principalmente para conhecer o cuidado parental em diferentes contextos e ver o que é resultado da cultura e o que pode ser considerado como uma característica de caracter mais abrangente e transcultural (Arrindell & cols., 2001). O s-EMBU foi aplicado na Alemanha (Leste) e Suécia em uma amostra de aproximadamente 800 estudantes. A qualidade psicométrica do s-EMBU, obtida no primeiro estudo (Arrindel & cols., , 1999), também foi encontrada na pesquisa com dados coletados na Alemanha e Suécia. Arrindell e colaboradores (2001) concluíram que os 23 itens do s-EMBU são confiáveis e válidos, e que correspondem aos fatores sem variância em estudos trans-culturais.

A comparação das diversas versões reduzidas do EMBU foi realizada por Aluja, Del Barrio e Garcia (2006), por meio da exploração dos fatores de análises para verificar a sua confirmação. O objetivo deste estudo foi analisar as propriedades psicométricas das diferentes versões de 64, 37, 24 e 23 itens do EMBU em uma amostra de adolescentes saudáveis. Todas as versões tiveram seus fatores confirmados e apresentaram similar confiabilidade dos coeficientes. Os 23 itens em Arrindell e colaboradores (1999) foram selecionados por meios empíricos (consistência cruzada de países) e conteúdo (amostragem de diferentes elementos de uma construção específica).

A versão utilizada por Arrindell e colaboradores (1999) foi traduzida e validada para a língua portuguesa pela autora Canavarro (1996, 1999). Essa versão, utilizada nesse estudo, é composta de 23 itens e conta com três fatores. O primeiro fator chamado de Suporte ou Calor emocional é definido como uma série de comportamentos parentais que geram nos filhos a sensação de conforto e a certeza de ser aprovado como pessoa pelos pais. A rejeição é compreendida como comportamentos com a intenção de mudar a vontade do filho, entendidos como rejeição do filho como indivíduo. O terceiro e último fator é a Superproteção, caracterizado pelo comportamento parental com excessiva preocupação indutoras de estresse, intrusão nas atividades dos filhos, altos níveis de padrão de realização e imposição de regras rígidas (Canavarro, 1999).

Diante do exposto, fica explícita a transculturalidade da escala EMBU nas suas diversas versões. Alguns autores que trabalharam com validação de escalas transculturais apontam algumas diretrizes sobre esse procedimento, que deve ser fiel à escala original em termos de conteúdo, ao mesmo tempo que permite fazer algumas adaptações em termos de palavras para a cultura que será aplicada (Hambleton, 2005; Solano-Flores, Contreras-Niño & Backhoff-Escudero, 2006; Tanzer, 2005; Vijver & Hambleton, 1996; Vijver & Poortinga, 2005). A validação nas diferentes culturas precisa respeitar alguns padrões de uniformidade do instrumento para que os fenômenos e constructos possam ser avaliados da mesma forma em todos os locais de aplicação, apesar das adaptações necessárias.

Uma vez que a escala s-EMBU foi validada em vários países da Europa, Ásia, América do Norte e América Central, constatou-se a necessidade de ampliar essa validação também para a América do Sul, mais especificamente no Brasil. Nesse sentido, a presente pesquisa tem com objetivo fazer a validação da escala reduzida do EMBU (denominada de s- EMBU). A versão da autora portuguesa Canavarro (1996,1999) será utilizada nesse estudo. A escolha dessa versão deriva das similaridades das línguas e das culturas entre Brasil e Portugal.

 

MÉTODO

Participantes

Responderam o questionário 454 universitários. Entretanto, foram retirados sujeitos que não responderam as questões pertinentes a um dos pais e aqueles que foram criados em orfanatos ou por outros parentes. A validação foi, então, realizada com 447 participantes, sendo 282 mulheres (63,1%) e 165 homens (36,9%). A idade média dos respondentes foi de 21,48 anos (desvio padrão de + 2,97), com idade mínima de 16 anos e máxima de 29 anos de idade. A maioria dos participantes era solteiros (83%), 71 eram casados ou com união estável (15,9%) e 1,1% (5) eram separados ou divorciados. Com relação à separação ou divórcio de seus pais durante a infância, 339 pessoas (75,8%) responderam que não e 24,2% (108) afirmaram que sim.

Todos os respondentes cursavam o ensino superior em universidades públicas ou particulares, localizada no litoral catarinense, em algum dos seguintes cursos: Administração, Psicologia, Serviço Social, Ciências Contábeis, Direito, Economia, Pedagogia e Engenharia Ambiental. Além disso, 2,9% dos participantes já tinham outro curso superior completo e 0,7% tinham alguma pós-graduação.

Instrumentos

O questionário s-EMBU aplicado era composto de 23 itens para o pai e 23 itens para a mãe, estes separados, mas iguais e na mesma ordem para ambos os pais. O participante respondia cada item em uma escala de quatro pontos: 1- não, nunca; 2- sim, ocasionalmente; 3- sim, frequentemente; e 4- sim, a maior parte do tempo.

As questões abrangiam três dimensões de práticas educativas parentais: suporte ou calor emocional (com sete itens, como por exemplo: “os meus pais incentivavam-me a ser melhor em tudo que eu fazia”), rejeição (composto de sete itens, como por exemplo: “os meus pais criticavam-me na frente dos outros”) e super-proteção (com nove itens, como por exemplo: “os meus pais é que decidiam sobre como eu devia me vestir ou parecer”). O instrumento é baseado na primeira versão de 81 itens de Perris e colaboradores (1980). A versão reduzida utilizada nessa pesquisa foi validada para a população de Portugal por Canavarro (1996), sem alterações significativas na escrita dos itens, em função das similaridades entre o português de Portugal e do Brasil.

Procedimento

Os questionários EMBU foram aplicados coletivamente em estudantes do ensino superior nas suas respectivas universidades, na sala de aula. O aplicador treinado explicava a todos os presentes o propósito da pesquisa e solicitava que aqueles que desejassem participar, assinassem o termo de consentimento. Após isso, as instruções foram lidas em voz alta e retiradas todas as dúvidas restantes. O responsável pela atividade se mantinha a disposição durante toda a aplicação. O tempo médio de aplicação foi de 30 minutos em cada grupo.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Catarina, sob o número 039/07. Todos os participantes da validação assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, com todas as informações referentes ao estudo, inclusive dados para o contato com os pesquisadores responsáveis.

Análise de Dados

Os dados foram analisados utilizando-se a análise fatorial. Foi realizada análise dos fatores principais e fatores axis para verificar quantos fatores haviam na escala e quais itens pertenciam a cada fator. A carga fatorial mínima aceitável foi de 0,30

 

RESULTADOS

Com o objetivo de obter a validação de uma escala única sobre lembranças de práticas de criação parental, as respostas emitidas pelos participantes referentes a cada um dos pais foi unida. A primeira análise fatorial realizada confirmou a fatorabilidade dos dados obtidos, com KMO= 0,89 e o teste de esfericidade de Bartlett de 6045,78 (p< 0,01). A partir da análise dos fatores principais sem rotação, foram encontrados três fatores. A Figura 1 apresenta através da inspeção do Scree Plot e dos eingevalue, os três fatores.

Em seguida, realizou-se a análise fatorial com extração dos principais fatores axis, com rotação varimax. A variância total explicada pelos três fatores foi de 44,14%. Como explicado anteriormente, somente os itens com carga fatorial acima de 0,3 permaneceram na escala. O Alfa de Cronbach da escala já validada (com os 21 itens) foi de 0,75, confirmando a confiabilidade desta. A Tabela 1 apresenta os itens de cada fator. O Fator 1 (variância explicada de 16,49%) corresponde a Suporte ou Calor emocional, o Fator 2 (variância de 12,48%) é Rejeição e o Fator 3 (variância de 8,09%) é Superproteção.

 

 

O fator Suporte ou Calor Emocional foi o único que permaneceu com os itens iniciais da escala. O fator Superproteção finalizou com seis itens, sendo dois excluídos (itens 5 e 17) e um transferiu de dimensão, pertencendo ao fator Rejeição. O fator 2 ficou com oito itens, um item a mais que a versão portuguesa utilizada (Canavarro, 1996). No total a escala EMBU validada nesse estudo contabiliza 21 itens, dois a menos que a versão inicial.

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

A análise dos dados mostra que o instrumento com 21 itens apresenta bons coeficientes de fidedignidade (Alfa de Cronbach de 0,75), permanecendo com três dimensões – como no estudo original. Apesar de algumas mudanças, o s-EMBU validado nesse contexto mostra-se muito próximo à versão de Portugal (Canavarro, 1996). Algumas diferenças podem ser apontadas em comparação com o instrumento validado em Portugal. O item 17 (Os meus pais não se preocupavam muito com a minha saída) não teve carga fatorial suficiente para aparecer em nenhuma das dimensões do estudo. Supõe-se que, por se tratar de um item invertido, houve problemas de compreensão por parte dos sujeitos. Na literatura sobre validação de instrumentos, autores tem mencionado problemas em relação aos itens invertidos, pois estes exigem mais atenção e compreensão por parte do participante (De Moraes & Primi, 2002; Giacomoni & Hutz, 2008). Na presente pesquisa, o item 17 era o único invertido da escala, característica que se tornou um obstáculo para a diferenciação dos outros itens apresentados.

Outro item eliminado da escala foi o quinto (Quando eu chegava em casa tinha que contar tudo o que tinha feito). Esse item pertenceu a duas dimensões – Superproteção e Calor Emocional – com cargas fatoriais muito próximas. A hipótese é que a frase não enfatizou suficientemente a obrigação envolvida no item de se contar assuntos pessoais para os pais, com a possibilidade de parecer apoio parental em ouvir o filho sobre seu dia. Essa ambigüidade no item foi decorrente da tradução do inglês para o Português, em que na versão original inglesa o termo utilizado era have to, que indicava claramente a obrigação. A tradução para o português não foi suficiente para o contexto brasileiro, pois na versão de Portugal esse item permaneceu no fator Superproteção. Alguns autores já apontam as dificuldades em tradução de testes e escalas, (Hambleton, 2005; Solano-Flores, Contreras-Niño & Backhoff-Escudero, 2006; Tanzer, 2005; Vijver & Hambleton, 1996; Vijver & Poortinga, 2005). Esses autores indicam também que a dificuldade se acentua em decorrência de escalas transculturais, pois as modificações realizadas podem impedir que o mesmo constructo seja medido.

Contudo, as escalas transculturais não necessitam permanecer idênticas em todas as culturas nas quais são aplicadas, pois adaptações na tradução são essenciais para que o teste ou escala seja fiel ao contexto no qual se deseja direcionar (Solano-Flores & cols., 2006; Tanzer, 2005; Vijver & Hambleton, 1996; Vijver & Poortinga, 2005;). Porém o item ou termo alterado deve ser somente modificado caso encontre-se alguma dificuldade de tradução como o termo não existir ou não ser algo comum na rotina da cultura (Solano-Flores & cols., 2006; Tanzer, 2005; Vijver & Hambleton, 1996; Vijver & Poortinga, 2005).

 

 

No caso da escala s-EMBU utilizada no presente estudo, o termo inicialmente não apresentava nenhum motivo para a alteração, pois a expressão “tinha que contar tudo” implicava no mesmo sentido de obrigação que o item original. Contudo, a fatoração mostrou o mesmo pertencendo a dois fatores e, a partir do exposto anteriormente, essa ambigüidade mostra a necessidade de outra expressão com mais ênfase na obrigatoriedade. Por essa razão, a eliminação do item é explicada pela fatoração e pela literatura envolta na tradução de testes e escalas.

O item que trocou de dimensão também pode ser compreendido com base nas diferenças culturais de um mesmo termo. Na presente validação, o item 10 “Meus pais, através de seu comportamento (parecendo tristes, por exemplo), faziam-me sentir culpado por ter me comportado mal” apareceu relacionado à dimensão Rejeição, porém, na versão original, este era item da dimensão Superproteção. Com a leitura da escala original longa de 81 itens (Ross & cols., 1982) na versão inglesa – na qual a versão portuguesa foi baseada (Canavarro, 1996) – outros itens da dimensão superproteção também se aproximam de uma compreensão mais aproximada de rejeição. No contexto da escala original a palavra superproteção envolve também o controle das emoções com demonstrações negativas de afeto por parte dos pais (Ross & cols., 1982). Essa diferenciação entre a compreensão de termos nas diferentes culturas estudadas também é comum em tradução e adaptação de escalas trans-culturais (Solano-Flores & cols., 2006; Tanzer, 2005; Vijver & Hambleton, 1996; Vijver & Poortinga, 2005).

Com base no pressuposto de que adaptações necessitam ser realizadas, mas que respeitem o mesmo constructo, o item 10 permanece, porém com alteração na dimensão que pertencia originalmente. A permanência do item na escala s-EMBU mostra-se coerente com a literatura sobre escalas e testes transculturais, pois a leitura do item aproxima-se da compreensão de Rejeição, ou seja, comportamentos com a intenção de modificar a vontade do filho, entendidos como rejeição do filho como sujeito (Canavarro, 1999). As modificações realizadas tornam-se necessárias para que a escala seja validada e possa ser aplicada em um contexto sul brasileiro. Adaptações de escala precisam ser respeitadas para que o fenômeno a que ela se propõe avaliar seja corretamente medido (Solano-Flores & cols., 2006; Tanzer, 2005; Vijver & Hambleton, 1996; Vijver & Poortinga, 2005).

O presente estudo envolve esse cuidado metodológico, em que os contextos nos quais as escalas e testes são realizados necessitam de padronização e adaptação. Nessa validação fica clara a importância desse cuidado, mostrando que alterações são essenciais, porém respeitando-se a versão original para que a escala continue transcultural (Solano-Flores & cols., 2006; Tanzer, 2005; Vijver & Hambleton, 1996; Vijver & Poortinga, 2005).

Por fim, a escala ainda precisa ser aplicada em outros locais no Brasil. Estudos que investiguem evidências de validade em outros contextos brasileiros são essenciais para que o s-EMBU possa ter sua validação ampliada no território nacional. Além disso, seria interessante incluir em futuros estudos brasileiros outras faixas etárias do ciclo do desenvolvimento, tais como adolescência e adultos acima de 30 anos.

Por outro lado, existem diferentes modelos teóricos para descrever práticas parentais. O instrumento utilizado avalia três dimensões: calor emocional, rejeição e superproteção. Nesse sentido, seria importante construir e validar outras escalas que avaliem lembranças de práticas de criação que utilizem outras dimensões a partir de uma ampla revisão da literatura nacional e internacional.

Essas limitações não devem ser entendidas como restrições para se usar a escala validada, mas como um convite para a realização de novos estudos. Enquanto isso não acontece, entende-se que a presente escala representa uma contribuição relevante para a investigação de como foram vivenciadas as práticas de criação durante a infância.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em junho de 2009
Reformulado em novembro de 2009
Aceito em fevereiro de 2010

 

 

SOBRE OS AUTORES:

Ana Paula Ribeiro Kobarg: Doutoranda de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina; é pedagoga e atua na área da Educação Fundamental.
Viviane Vieira:Graduanda de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina; é bolsista de Iniciação Científica PIBIC/ CNPq na área de Desenvolvimento Infantil.
Mauro Luís Vieira:Doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo; é professor associado do Departamento de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador da área de Desenvolvimento Infantil.

1Contato:
Email: maurolvieira@gmail.com
Apoio: CNPq

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