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Avaliação Psicológica

versão impressa ISSN 1677-0471

Aval. psicol. vol.9 no.2 Porto Alegre ago. 2010

 

 

Reflexões sobre os parâmetros psicométricos do Inventário Home versão Infant Toddler1

 

Reflections infant Toddler Home Inventory version psychometrics parameters

 

 

Letícia Gabarra Macedo2; Naiane Carvalho Wendt Schultz; Ângela Hering de Queiroz; Maria Aparecida Crepaldi; Roberto Moraes Cruz

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 


Resumo

O ambiente domiciliar e os comportamentos dos cuidadores da criança são considerados fatores relevantes para o desenvolvimento infantil. O Inventário HOME versão Infant Toddler propõe-se a avaliar os aspectos físicos e sociais do contexto familiar e os comportamentos dos cuidadores primários da criança. Este artigo visa descrever o Inventário HOME versão Infant Toddler, considerando as suas características psicométricas, e refletir sobre a sua utilização em pesquisas científicas e seu uso no Brasil. Foi realizada uma descrição da medida considerando as suas características psicométricas, tais como validade, critérios para a construção dos itens e definição do fenômeno avaliado. Com base no processo de reflexão observaram-se lacunas na construção de itens, a falta de padronização do instrumento no Brasil, especialmente na falta de uniformização na tradução do inventário para a língua portuguesa. Apesar disso, considera-se que o instrumento possui vantagens como a fácil aplicação e mostra-se pertinente para o screening do ambiente familiar, auxiliando na criação de programas preventivos adequados para a realidade das famílias estudadas.

Palavras-chave: Desenvolvimento Infantil; Ambiente familiar; Inventário HOME versão Infant Todler.


Abstract

The home environment and child carer behaviour are considered relevant factors for childrens' development. Infant Toddler HOME Inventory Version proposes to evaluate physical and social aspects of the family context as well as the behaviour of the primary child carer. This article aims to describe the Infant Toddler HOME Inventory Version, considering its psicometric features and also to think about its use in scientific research in Brazil. To that end a description of the measure was made, taking into account its psychometric features such as validity, criteria for the construction of the items, definition of the evaluated phenomena. Based on these considerations it was observed that there were gaps in the item building, a lack of standardization of the tool in Brazil, particularly in the lack of uniformity of the translation of the inventory questionnaire into the Portuguese language. In spite of this, it was observed that the instrument has advantages such as easy application and that it is pertinent for home environment screening, helping in the creation of preventive programs suited to the reality of the families studied.

Keywords: Child Development; Family Environment; Infant Toddler HOME Inventory Version.


 

 

Introdução

Nas últimas décadas o ambiente domiciliar tem se constituído no foco de pesquisas sobre o desenvolvimento humano, com o intuito de verificar a sua influência nesse processo (Aiello, 2006; Zamberlan & Biasoli-Alves, 1997). A forma de organização do ambiente físico e a interação dos cuidadores com a criança influenciam no desenvolvimento desta, configurando-se como indicadores de saúde para o desenvolvimento infantil (Martins, Costa, Saforcada & Cunha, 2004).

A fim de sistematizar o estudo do ambiente domiciliar e verificar a influência dinâmica entre fatores genéticos e ambientais, Caldwell e Bradley (1984) desenvolveram o Inventário HOME (Home Observation for Measurement of the Environment Inventory) para observação e medida do ambiente a partir do instrumento original proposto em 1966 por Caldwell, Heider e Kaplann (Rodríguez, 2003). Existem quatro versões deste inventário, que avaliam o ambiente desde o nascimento até a préadolescência: 1. Inventário Home versão Infant Toddler, também chamado de IT-HOME, avalia crianças desde o nascimento até os três anos; 2. Inventário Home versão Early Childhood, denominado EC-HOME e destinado a faixa etária de crianças entre três a seis anos; 3. Inventário Home versão Middle Childhood, com nome reduzido de MC-HOME, o qual avalia crianças com idades entre seis a 10 anos; e 4. Inventário Home versão Early Adolescent, denominado EA-HOME, destinado a crianças e pré-adolescentes entre 10 a 14 anos.

O Inventário HOME (em suas diferentes versões) é um dos instrumentos mais utilizados para avaliar o ambiente domiciliar, existindo registros de sua utilização tanto em pesquisas como em intervenções na Europa, América do Norte, América do Sul, Ásia, África e Austrália (Bradley, Mundfrom, Whiteside, Casey, & Barrett, 1994a; Bradley e colaboradores, 1994b; Laude, 1999; Rodríguez, 2003; Trapero, 1992). No Brasil, tem sido usado principalmente em pesquisas referentes à detecção de riscos e recursos familiares e os efeitos no desenvolvimento da criança (Andrade e colaboradores, 2005; Bastos & Santos, 1999; Graminha & Martins, 1997; Zamberlan, 1997).

O aumento da vulnerabilidade ambiental na população brasileira, a conseqüente exposição das famílias a riscos diversificados e a existência de poucos instrumentos válidos e padronizados que detectem tais riscos, torna necessária uma avaliação crítica dos instrumentos existentes. O objetivo deste artigo foi realizar uma descrição do Inventário ITHOME, ou Inventário HOME versão Infant Toddler, ou seja, sua versão para a faixa etária de 0 a 3 anos, considerando suas características psicométricas - tais como validade, critérios para a construção dos itens, definição do fenômeno avaliado - e discuti-las, bem como refletir sobre utilização da medida em pesquisas científicas e no Brasil, com vistas a contribuir para a melhoria do instrumento.

 

Método

Para a concretização do objetivo do presente estudo utilizou-se como método o levantamento de dados de artigos completos nas bases bvs-psi, ovid, scielo, Google acadêmico. A princípio fez-se o levantamento de material de todas as versões do instrumento. Os descritores utilizados foram: ITHOME, Home Observation for Measurement of the Environment, Inventário HOME versão Infant Toddler e HOME Inventory. Nas bases scielo e bvspsi os artigos completos encontrados foram quatro e um, respectivamente. Na base de dados ovid foram encontrados 88 artigos que utilizam em sua metodologia o Inventário HOME em suas diferentes versões.

Em seguida, deteve-se nas fontes referentes à aplicação e utilização do Inventário HOME versão Infant Toddler. Desse modo, foram utilizados os artigos que contemplavam essas especificidades, que foram: quatro artigos encontrados na base de scielo (Santos, Santos, Bastos, Assis, Prado. & Barreto, 2008; Andrade e colaboradores, 2005; Martins e colaboradores, 2004 e Bastos, Urpia, Pinho & de Almeida Filho, 1999), dois artigos do Google acadêmico (Aiello, 2006; Bastos & Santos, 1999) e nove artigos na base de dados ovid, sendo que apenas um (1) artigo encontrado na base de dados ovid (Totsika & Sylva, 2004) continha informações sobre os parâmetros psicométricos do Inventário HOME versão Infant Toddler. A escolha desta versão para esta reflexão ocorreu em razão da familiaridade dos autores com o instrumento, em virtude da sua utilização em pesquisa anterior (Wendt, 2006).

O processo de análise das propriedades psicométricas do Inventário HOME versão Infant Toddler, realizado neste trabalho, partiu da descrição dos itens e posteriormente a análise e reflexão sobre suas características. Como o instrumento possui validade e padronização em outros países, nossa proposta foi identificar o seu processo de construção e descrever suas propriedades psicométricas e posteriormente relacionar com a literatura nacional sobre o uso do instrumento.

 

Resultados e Discussão

Características do Inventário HOME versão Infant Toddler

O Inventário HOME versão Infant Toddler para observação e medida do ambiente configura-se como uma escala descritiva, com nível de mensuração nominal. Seus itens foram baseados numa revisão da teoria do desenvolvimento infantil e em pesquisas de profissionais que trabalhavam com crianças e famílias, dentre eles pediatras, enfermeiros, educadores e assistentes sociais (Bradley e colaboradores, 1994a ; Bradley & Whiteside-Mansell, 1998).

O Inventário HOME versão Infant Toddler visa medir a qualidade e quantidade de estimulação e suporte disponíveis nos lares, e a relação destes com o desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança. Essas informações são obtidas através da combinação da observação e da entrevista semiestruturada, que requerem aproximadamente uma hora e são realizadas quando o cuidador principal e a criança estão em casa, e esta esteja acordada. Outras pessoas, familiares ou não, também podem estar presentes, mas a presença dos mesmos não é fundamental para aplicação do inventário (Bradley e colaboradores, 1994a; Caldwell & Bradley, 1984). Bradley e Caldwell (1979) orientam que é necessário cuidado para que a entrevista seja realizada em um horário conveniente para o adulto responsável e que seja feita em clima de informalidade a fim de reduzir a ameaça e aumentar a probabilidade de respostas realistas.

A versão para crianças de 0 a 3 anos do Inventário HOME, isto é, a versão Infant Toddler, é composta por 45 itens divididos em seis subescalas, a saber: responsividade emocional e verbal da mãe; evitação de restrição e punição; organização do ambiente físico e temporal; provisão de materiais apropriados, envolvimento materno com a criança; oportunidade de variação da estimulação cotidiana. Totsika e Sylva (2004) descreveram essas seis subescalas do Inventário HOME versão Infant Todler baseados no Manual do Inventário de 2001, uma versão reeditada e revisada por Caldwell e Bradley, como consta na Tabela 1.

 

 

3A avaliação dos itens, sugerida como aplicação-padrão segundo Zamberlan e Biasoli-Alves (1997), acumula escores dicotômicos (“sim” e “não”) em cada subescala, totalizando 45 pontos como pontuação máxima se a medida for completa e adequadamente preenchida pelo pesquisador. A avaliação do instrumento permite acessar o potencial para riscos e recursos de um modo geral no ambiente familiar a partir da análise de toda a escala, bem como em cada uma das dimensões propostas nas subescalas. A análise da medida possibilita classificar o ambiente como de baixo risco (quando o escore bruto total varia de 37 a 45), médio risco (quando o escore varia de 26 a 36) e alto risco (quando o escore total está entre 0 e 26 pontos). A análise das dimensões propostas nas subescalas segue o mesmo método, variando o número total de pontos para cada uma delas e conseqüentemente, o intervalo de pontos. Desta forma o Inventário HOME versão Infant Toddler utiliza uma escala nominal (sim/não) e sua avaliação é intervalar, porém Caldwell e Bradley (1984) sugerem que, ao usar o Inventário HOME versão Infant Toddler no contexto clínico o entrevistador além de completar sim/não, faça também notas das suas impressões gerais em cada visita, considerando assim a quantidade e a qualidade dos estímulos.

Diversas pesquisas já foram realizadas utilizando o Inventário HOME versão Infant Toddler com diferentes enfoques do processo de mensuração. Com o enfoque centrado no desempenho, os estudos avaliaram como cada família se apresenta diante deste inventário, verificando a relação do ambiente com o desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança visando futuros programas de intervenção sobre o desenvolvimento da criança e sua família (Boffman, Clark & Helsel, 1997; Wendt, 2006). As pesquisas focadas nos estímulos objetivam verificar a validade e a fidedignidade do instrumento (Ferron, Ng’andu, Garrett, 1994; Johnson, Swank, Howie, Baldwin, Owen & Luttman, 1993; Mundfrom, Bradley & Whiteside, 1993). Por fim há o enfoque centrado nos indivíduos, no qual o Inventário HOME versão Infant Toddler foi utilizado como instrumento para avaliar os indivíduos/famílias de uma determinada comunidade (Santa-Maria Mengel, 2007).

 

Reflexões sobre a medida

O processo de mensuração em Psicologia caracteriza-se por medir grandezas, de acordo com critérios previamente estabelecidos, utilizando-se dos axiomas fundamentais e operacionais. Para que esse processo ocorra torna-se necessário caracterizar o fenômeno a ser medido, identificar os seus atributos, definir os itens, elaborar a medida, verificar os critérios científicos da medida e avaliar o construto (Pasquali, 2003).

Na pesquisa bibliográfica realizada neste estudo atentou-se, ainda, para a definição do fenômeno medido pelo Inventário HOME versão Infant Toddler. Porém, no Manual publicado em 1984 por Caldwell e Bradley embora se encontre a descrição dos itens, não há a definição do fenômeno estudado pelo instrumento. Há lacunas em relação à definição do construto “ambiente familiar” que a medida se propõe a avaliar além dos demais atributos avaliados como, por exemplo, a conceituação de “punição” e “disciplina”. Esses atributos mostram-se fundamentais para o instrumento, porém a falta de clareza pode gerar equívocos entre os pesquisadores.

Pasquali (2003) afirma que no processo de validação e padronização de uma medida, os pesquisadores devem estar atentos para seguir os critérios de validade e fidedignidade da mesma. Segundo o autor, faz-se necessário seguir uma série de parâmetros mínimos para que a medida psicométrica constitua-se em um instrumento legítimo e válido.

Aiello (2006) salienta os problemas referentes à tradução da medida como uma das dificuldades principais no tocante ao Inventário HOME versão Infant Toddler. Pode-se considerar como uma das dificuldades proeminentes no Inventário relacionadas à tradução, o fato do Inventário avaliar os comportamentos dos pais ou cuidadores principais, relativos à estimulação e suporte no lar e, em todas as traduções brasileiras os itens referirem-se apenas às mães.

O Manual de 2001 (Caldwell & Bradley citado por Totsika & Sylva, 2004) apresenta diferenciações com relação ao Manual de 1984 (Caldwell & Bradley, 1984). O manual mais antigo indica que se avalie o comportamento da mãe, enquanto o material mais atual utiliza o termo “cuidador primário” (PC). Esta diferenciação pode ocasionar diferenças quantitativas no momento da aplicação, assim como imprecisão na pontuação do instrumento, pois por cuidador primário podem-se considerar todas as pessoas envolvidas no cuidado e responsabilização pela criança, por exemplo, pai, avó, avô, tios, madrasta, padrasto, entre outros, não apenas a mãe.

Segundo Aiello (2006), no Brasil há três traduções diferentes para a escala: uma na Bahia, uma em São Paulo e outra no Rio Grande do Sul. A autora enfatiza a necessidade de realizar uma tradução adequada após a aquisição do instrumento, seguida de uma “retradução” (back-translation) por um profissional capacitado na língua original do instrumento, visando à identificação de problemas com tradução de termos técnicos e adequação à nova linguagem. No processo de tradução e retradução seria pertinente o uso do Manual Revisado e Reeditado do Inventário HOME, que inclui todas as versões do instrumento, inclusive a versão Infant Toddler (Cadlwell & Bradley citado por Totsika & Sylva, 2004). Além disso, salienta-se a necessidade de sistematizar as traduções brasileiras, a fim de que o instrumento seja utilizado da mesma forma nas diferentes regiões do país, o que possibilitaria a montagem de um banco de dados, a realização de novas pesquisas e a verificação da qualidade ambiental nos lares infantis em todo o país.

De acordo com Aiello (2006), no caso do Inventário que ela denomina HOME sem especificar qual versão do Inventário, há estudos com a preocupação em obter indicadores psicométricos para a população brasileira, tal como o de Martins e colaboradores (2004). Estes autores realizaram um estudo prospectivo de caráter populacional, no qual utilizaram o MC- HOME para avaliar a qualidade do ambiente nos lares de 630 crianças de 4 anos de idade. Com base nos resultados do estudo, e em análise estatísticas pertinentes, Martins e colaboradores (2004) afirmaram que o Inventário MC-HOME possui alta confiabilidade e que todos os itens da escala mediam os aspectos do construto.

Preocupados com a representação dos itens do Inventário com relação ao mesmo conjunto de construtos para diferentes grupos e, com as estruturas dos fatores de avaliação correspondentes nos atuais conjuntos de subescalas nas versões do HOME de 0 a 3 e de 3 a 6 anos, Bradley e colaboradores (1994a) realizaram um estudo no qual administraram as duas versões do inventário a três grupos de crianças: brancas, negras e hispânicas. Os referidos autores acreditavam haver diferenças entre esses três grupos de crianças devido a diversidades étnico, culturais, socioeconômicas e familiares. Além disso, os autores aplicaram as versões do Inventário HOME versão Infant Toddler em 985 famílias de crianças nascidas pré-termo, com baixo peso (<2.500 gr), em oito diferentes cidades americanas. Deixaram fora do estudo apenas crianças que apresentavam sérios problemas de saúde e mães que não estavam aptas para se comunicar adequadamente, segundo avaliação dos mesmos. Dessas, 33.3% eram filhas de mães brancas, 52.9% de mães negras e 10.5% de hispânicas, com idades semelhantes e aproximadamente a mesma quantidade de filhos. A porcentagem de crianças em cada grupo foi representativa da porcentagem desses grupos nos Estados Unidos.

O estudo foi realizado com crianças prematuras, pois de acordo com Bradley e colaboradores (1994a), tais crianças costumam apresentar mais freqüentemente problemas de comportamentos aos 3 anos e as diferenças entre essas crianças e famílias deveriam ser refletidas no Inventário HOME versão Infant Toddler. Os resultados indicaram que havia mais semelhanças na amostra de mães brancas e negras em comparação com a amostra de mães hispânicas, mas que no geral, o instrumento aparentemente capturou as mesmas estruturas nos lares de todas as amostras. Contudo, Bradley e colaboradores (1994a), salientam a importância de aplicar o mesmo estudo com diferentes grupos culturais para ampliar a validade do instrumento para outras culturas.

A validade do inventário é descrita por autores internacionais e nacionais (Bradley & Caldwell, 1979; Martins e colaboradores, 2004; Totsika & Sylva, 2004). Os autores colocam que a medida consegue medir o que se propõe, de forma que os itens evidenciam os aspectos do construto, demonstrando alta confiabilidade do instrumento. Embora haja a validade de construto e consistência interna já que a medida reflete a teoria, conforme os autores indicam (Bradley & Caldwell, 1979; Totsika & Sylva, 2004), a validade aparente ou de face possui limitações, já que muitos itens não abarcam os critérios de construção discutidos por Pasquali (1999). É importante observar que os autores acima citados não referem detalhes sobre a precisão do teste, nem tampouco discutem outros tipos de validade, como a de critério, por exemplo.

Os critérios de construção de itens mais prejudicados são simplicidade, clareza e objetividade. O critério de simplicidade, segundo Pasquali (1999), pressupõe que um item deve expressar uma única idéia para que não ocorram equívocos no momento de preencher o instrumento. No critério de clareza, segundo o mesmo autor, o item deve ser inteligível, com frases curtas e evitando negativas. E o critério de objetividade preconiza que “os itens devem cobrir comportamentos de fato, permitindo uma resposta certa ou errada” (Pasquali, 1999, p.48).

No Inventário HOME versão Infant Toddler há itens nos quais mais de uma idéia são expressas, contrariando o critério simplicidade, por exemplo, no item 34 “a mãe dá brinquedos de música e de literatura”, torna-se inviável o adequado preenchimento da escala, caso a criança possua apenas um dos tipos de brinquedo citado. Também o item 17 “mãe não interfere em ações com a criança ou restringe seus movimentos não mais de três vezes durante a visita, incluindo aspectos verbais” consta duas idéias num mesmo item, além de apresentar muitas informações, o que gera ambigüidade e dificuldade de preenchimento para o pesquisador.

Exemplos de falta de clareza podem ser encontrados nos itens do atributo fuga por punição e restrição (itens 12 ao 17), que utilizam negativa, como no item 12 “mãe não grita com a criança durante a visita”. Frases longas também prejudicam a clareza do inventário, como exemplificado no item 3 “mãe fala a criança o nome de algum objeto durante a visita ou diz o nome da pessoa ou objeto no estilo ‘ensinando’ ”. Além disso, o critério objetividade apresenta-se prejudicado em itens como “a linguagem da mãe é distinta, clara e audível (4)” e “quando falando da ou para a criança, a voz da mãe transmite sentimento positivo (9)”, tendo em vista que configuram uma avaliação subjetiva, dependente da percepção do pesquisador.

Outros aspectos relacionados à construção, além da clareza do instrumento, dizem respeito a faixa etária destinada para a sua aplicação. Segundo (Wendt, 2006) esta mostra-se questionável em alguns itens. Em sua pesquisa a autora demonstrou que o Inventário HOME versão Infant Toddler não se apresentou adequado para famílias de crianças com 6 meses de idade, em dois dos seus atributos: punição e restrição, e provisão de materiais. A autora coloca que os itens que compõem estes atributos não se enquadram nas características desta faixa etária, o que representa falta de objetividade nos itens. Exemplo: “item 28 – a criança tem voador, carro de criança, patinete ou um triciclo”.

Totsika e Sylva (2004) descrevem como limitação do Inventário HOME versão Infant Toddler a questão temporal de alguns itens, como o “item 15 – a mãe relata apenas uma ocorrência de punição física que tenha ocorrido durante a semana passada”. Segundo os autores supracitados a utilização da mensuração binária nestes itens pode não representar coerentemente a realidade da criança no seu cotidiano, pois focaliza apenas na última semana.

As ressalvas feitas por Bastos (1986) sobre o Inventário HOME versão Infant Toddler, de que o conteúdo de vários de seus itens não se ajustam à realidade das famílias brasileiras, demonstra a necessidade de promover novos estudos de análise e padronização do inventário. Aiello (2006) alerta sobre a dificuldade de avaliar a fidedignidade do inventário no Brasil, já que para isso seria necessária a tradução e em seguida um procedimento de teste e re-teste, com dupla aplicação do instrumento. A autora aponta que as pesquisas nacionais dificilmente utilizam este método, pois não dispõem de tempo hábil e recursos que permitam esta abordagem.

Embora o Inventário HOME versão Infant Toddler não seja validado para a população brasileira, as generalizações dos achados são pertinentes (Andrade e colaboradores, 2005). A rápida aplicação do Inventário e uma quantidade adequada de itens fazem dele um instrumento importante para pesquisas de avaliação do ambiente da criança, principalmente quando aliado a outros instrumentos e à observação do pesquisador.

 

Considerações Finais

Existem trabalhos de pesquisa que mostram a importância do Inventário HOME versão Infant Toddler como um instrumento de avaliação do ambiente familiar e a sua influência no desenvolvimento infantil (Andrade e colaboradores, 2005; Ferron, Ng’andu & Garrett, 1994; Johnson e colaboradores, 1993; Martins e colaboradores, 2004; Mundfrom e colaboradores, 1993). Os estudos nacionais mostram evidências da sua validade, porém indicam ausências de estudos aprofundados sobre a validade do Inventário HOME versão Infant Toddler, assim como limitações e dificuldades, principalmente na tradução dos itens e na ambigüidade dos mesmos. Para minimizar tais lacunas fazem-se necessários estudos centrados nos estímulos, focando o processo de mensuração, avaliação e padronização do instrumento no Brasil.

As pesquisas realizadas até o momento devem ser valorizadas, já que possibilitam tabulações brasileiras, permitindo que os pesquisadores e profissionais não tenham que trabalhar com dados estrangeiros na população nacional. Assim, o treinamento dos pesquisadores que usam o inventário, bem como aliar o Inventário HOME versão Infant Toddler a outros instrumentos e fazer os relatórios de impressões sobre a visita domiciliar, nos quais se incluiriam aspectos qualitativos da interação familiar, além da descrição dos estímulos ambientais disponíveis, podem ser estratégias adotadas para evitar incongruências de aplicação.

Bradley e Whiteside-Mansell (1998) referem que nenhum outro instrumento de medida do ambiente familiar possibilita que sejam coletados dados na perspectiva de uma criança em particular, tal como permite o Inventário HOME versão Infant Toddler. Quando em uma mesma família existem duas ou mais crianças participantes aplicam-se duas ou mais vezes o inventário, ou seja, aplica-se o inventário para cada criança em particular, que esteja incluída no estudo, o que possibilita verificar se num ambiente existem formas variadas de estimulação, para cada criança, na mesma família.

O Inventário HOME versão Infant Toddler mostra-se pertinente para avaliar as necessidades individualizadas da criança e de suas famílias. Utilizando-se dos resultados das subescalas é possível identificar as áreas de dificuldades do ambiente familiar, o que pode orientar a criação de programas de intervenção focados nas necessidades de cada família especificamente. Neste sentido, considera-se o Inventário HOME – Infant Toddler um instrumento pertinente no screening do ambiente familiar e das interações entre os cuidadores e a criança. Esta triagem desenvolvimental auxilia o profissional no delineamento de projetos, tanto para auxiliar famílias que apresentem dificuldade, quando para potencializar seus aspectos saudáveis.

Na realidade brasileira, a criação de programas de intervenção para famílias mostra-se importante, devido à diversidade cultural, social e econômica. Através destas iniciativas podem-se criar possibilidades para as famílias que vivem em contextos pouco favorecidos, focando em práticas preventivas. O uso do Inventário HOME versão Infant Toddler pode auxiliar a compreensão das famílias e dos seus contextos, etapa fundamental de triagem para a posterior intervenção. A sua aplicação antes e após a intervenção possibilita uma avaliação criteriosa da mesma.

Considera-se que novos estudos sobre o instrumento e sua sistematização na aplicação de uma única tradução do instrumento para a realidade brasileira sejam relevantes, bem como a uniformização da sua tradução. Destacando-se que a postura ética do profissional/pesquisador frente ao instrumento e às famílias é essencial, tornando-o eficaz para proporcionar intervenções e melhorias na qualidade de vida das mesmas.

 

Referências

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Recebido em julho de 2009
1ª revisão em janeiro de 2010
2ª revisão em fevereiro de 2010
3ª revisão em abril de 2010
Aceito em maio de 2010

 

 

Sobre os autores:

Letícia Gabarra MacedoPsicóloga, Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, Florianópolis. Pertencente ao Laboratório de Psicologia da Saúde, Família e Comunidade, LABSFAC – UFSC.
Naiane Carvalho Wendt Schultz:Psicóloga, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, Florianópolis. Pertencente ao Laboratório de Psicologia da Saúde, Família e Comunidade, LABSFAC – UFSC.
Ângela Hering de Queiroz:Psicóloga, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, Florianópolis. Pertencente ao Laboratório de Psicologia da Saúde, Família e Comunidade, LABSFAC – UFSC.
Maria Aparecida Crepaldi:Psicóloga, Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, Florianópolis. Pertencente ao Laboratório de Psicologia da Saúde, Família e Comunidade, LABSFAC – UFSC.
Roberto Moraes Cruz:Psicólogo, Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, Florianópolis.

1Trabalho apresentado como requisito para verificação da aprendizagem na disciplina Medida e produção do conhecimento em processo de saúde e trabalho (PGP 3225) do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no segundo semestre de 2006.
2Contato:
E-mail:leticiagabarra@gmail.com

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