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Avaliação Psicológica

versão impressa ISSN 1677-0471

Aval. psicol. vol.9 no.3 Porto Alegre dez. 2010

 

 

Avaliação psicológica e neuropsicológica de crianças e adolescentes

 

 

Juliane Callegaro Borsa1

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Hutz, C. S. (Org.) (2010). Avanços em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica de Crianças e Adolescentes. São Paulo: Casa do Psicólogo. 373 pg.

A avaliação psicológica de crianças e adolescentes configura-se como um recurso indispensável na prevenção de problemas futuros. Neste sentido, é essencial que este procedimento seja conduzido de maneira ética, contextualizada e fundamentada, mediante instrumentos psicológicos adequados.

O livro, organizado pelo Prof. Dr. Cláudio Simon Hutz, recentemente lançado pela Casa do Psicólogo, tem como objetivo apresentar e discutir os avanços na área da avaliação psicológica e neuropsicológica de crianças e adolescentes. Trata-se de um esforço do Grupo de Trabalho Avaliação Psicológica de Crianças e Adolescentes, da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), coordenado pelo organizador deste livro, o qual vem atuando, intensamente, nos estudos e pesquisas sobre o tema.

O livro é composto por treze capítulos nos quais são discutidos diferentes aspectos da avaliação psicológica de crianças e adolescentes através de diferentes perspectivas e instrumentos. A bibliografia utilizada pelos autores, nos diferentes capítulos, cumpre o propósito de abarcar as contribuições mais significativas na área, servindo como uma relevante fonte de referências bibliográficas aos leitores.

No primeiro capítulo, Souza tem como propósito oferecer recursos para a compreensão das relações entre pares bem como apresentar o modelo empírico de Robert Selman sobre as relações de trocas de papéis, aceitação social e características de amizade no decorrer da infância. Apresenta, ainda, pesquisas brasileiras sobre as habilidades sociais de crianças e os instrumentos pertinentes para avaliar a qualidade das relações de amizade infantis, como por exemplo, o Friendship e o Friendship Qualities Scale. Ao finalizar o capítulo, a autora afirma a relevância das relações de amizade para o desenvolvimento de bons relacionamentos interpessoais futuros.

O segundo capítulo, de Weschsler, Nakano, Nunes e Minervino, aborda os aspectos multidimensionais da avaliação cognitiva de crianças e adolescentes. Discute a complexidade e a evolução do conceito de inteligência bem como os diferentes modelos explicativos do construto. As autoras destacam a importância da psicometria para a avaliação da inteligência, abordando desde os primeiros estudos de Galton e Binet, à descoberta do Fator G, por Spearman, até as perspectivas mais atuais de avaliação da inteligência propostas por Woodcock e Johnson. Apresentam relação entre criatividade e inteligência bem como os instrumentos úteis para avaliar a criatividade figurativa em crianças, como é o caso do Teste de Torrance. Por fim, as autoras tratam acerca das dificuldades da avaliação da leitura e da escrita em casos de dislexia, propondo uma abordagem multidimensional na avaliação cognitiva de crianças e jovens.

Em seguida, Zanini e Mendonça apresentam um estudo de adaptação de um instrumento de medida para avaliação de coping em adolescentes brasileiros. O referido estudo contou com jovens entre 12 e 18 anos, estudantes de escolas da região metropolitana de Goiânia. Para coleta de dados utilizou-se o Coping Response Inventory – Youth Form, para avaliar as estratégias de enfrentamento de problemas específicos ocorridos no último ano. Como resultado, constatou-se que o referido instrumento apresenta-se como uma boa medida de coping em adolescentes, podendo servir como um recurso válido para avaliação deste construto em amostras de jovens brasileiros.

Bandeira, Borsa, Arteche e Segabinazi, no quarto capítulo, escrevem sobre a possibilidade de avaliar os problemas de comportamento internalizantes e externalizantes de crianças e adolescentes através do Child Behavior Checklist (CBCL). Primeiramente, as autoras apresentam uma breve descrição das características funcionais do instrumento, bem como de suas propriedades psicométricas. Apresentam, por fim, os dados do Centro de Avaliação Psicológica da UFRGS, onde o CBCL vem se mostrando útil nos processos de triagem e caracterização da clientela infanto-juvenil. Através deste instrumento, está sendo possível classificar e categorizar as queixas, bem como obter informações iniciais, facilitando o planejamento dos procedimentos de investigação.

O quinto capítulo, de Moraes, Yates, Sokolovsky e Trentini, propõe verificar correlações entre inteligência global e funções executivas de crianças e adolescentes, através de um estudo empírico que contou com 479 estudantes portoalegrenses, os quais foram avaliados através do Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (WSCT) e dos subtestes Vocabulário e Cubos da Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC III). Os autores apontaram correlações baixas a moderadas entre as funções avaliadas pelo WSCT e pelo WISC III, sugerindo que os testes de inteligência podem não ser apropriados para avaliar funções executivas.

O capítulo de Pacheco, Bardagi, Reppold e Hutz, por sua vez, objetiva apresentar uma revisão dos modelos teóricos, bem como de instrumentos brasileiros utilizados na avaliação das práticas educativas parentais. Para isso, discutem as definições das variáveis mediadoras das práticas educativas parentais segundo diferentes autores e perspectivas teóricas e salientam a importância de medir tal construto. Apresentam os instrumentos brasileiros para a avaliação das práticas educativas parentais, como é o caso do Inventário de Estilos Parentais e da Escala de Práticas Parentais. Finalizam atentando para a importância de investigar os padrões das interações familiares e o impacto das práticas parentais no desenvolvimento de crianças e adolescentes.

sétimo capítulo, de Joly, Reppold e Dias, aborda a avaliação da linguagem através da Bateria Informatizada de Linguagem Oral (BILOv2). As autoras discutem o processo de aquisição da linguagem e sua relação com a escolarização. São apresentados os resultados de um estudo conduzido com estudantes de educação infantil e ensino fundamental, em que se comparou, através do BILOv2, o desempenho em compreensão oral de crianças paulistas e gaúchas, considerando diferentes variáveis sóciodemográficas. O capítulo demonstra que o BILOv2 possui propriedades psicométricas que atestam sua validade e precisão, sendo um instrumento útil para avaliar a compreensão da linguagem oral de crianças.

A avaliação das tarefas de memória implícita é o tema que Salles, Holderbaum, Bernardi e Kreitchmann abordam no oitavo capítulo do livro. Os autores discutem os conceitos de memória explícita e implícita e apresentam as diferentes tarefas possíveis para a avaliação da memória implícita, como por exemplo, a identificação perceptual, as tarefas de completar fragmentos e as tarefas de julgamento. Esclarecem o conceito de priming semântico, discutindo-o à luz de diferentes perspectivas teóricas e apresentam alguns estudos nacionais que vêm sendo desenvolvidos sobre o tema.

Vendramini e Wechsler trazem importante contribuição, no que se refere à representatividade das amostras de normatização de testes psicológicos. Discutem quais os critérios importantes para a obtenção de amostras representativas quando se tem por objetivo validar um teste psicológico para uma população e apresentam e descrevem os tipos de amostragens probabilísticas e não-probabilísticas possíveis. Por fim, as autoras discutem aspectos fundamentais sobre os testes estatísticos, trazendo uma breve descrição sobre o cenário brasileiro na normatização de testes.

O décimo capítulo discute aspectos da avaliação psicológica das funções executivas na infância e adolescência. Apresentam os processos envolvidos nestas funções e os principais instrumentos para medi-las, como é o caso do Inventory Executive Function (BRIEF), do Iowa Gambling Task, da Bateria de Avaliação Neuropsicológica do Desenvolvimento (NEPSY), do teste de Fluência Verbal (FAS), etc. Apontam a relevância das pesquisas para fornecer medidas eficazes de avaliação das funções executivas.

No capítulo onze, Teodoro e Escanhuela discorrem acerca da avaliação das relações familiares e investigam a percepção da afetividade e dos conflitos familiares de dois grupos de crianças e adolescentes gaúchos: um vivendo em instituições de abrigo e outro vivendo com a família. A avaliação foi efetuada através de uma entrevista estruturada, do Familiograma e do Inventário de Depressão Infantil. Os resultados indicaram menor afetividade e maior conflito no grupo de crianças institucionalizadas no que se refere às relações parentais. Ambos os grupos apontaram o relacionamento fraterno como o menos conflitivos. Os achados apontam para importância de se avaliar os aspectos afetivos de jovens institucionalizados bem como compreender a relevância das relações familiares.

As dificuldades na escolha profissional e a relação deste fenômeno com os traços de personalidade é o tema do capítulo doze. Nunes, Noronha, Nunes e Primi apresentam resultados de uma investigação conduzida com adolescentes participantes de um processo de orientação profissional no estado do Paraná, os quais responderam ao Inventário de Dificuldades de Decisão Profissional (IDDP) e da Bateria Fatorial de Personalidade (BFP). Os resultados apontaram associações entre as dificuldades de decisão profissional e fatores de personalidade, como é o caso dos fatores Extroversão e Socialização. Finalmente, apontam para a relevância da avaliação psicológica na prática da orientação vocacional.

Finalmente, o último capítulo, de autoria de Fonseca, Oliveira, Gindri, Reppold e Parente, apresenta o Teste Hayling e sua proposta de avaliação de funções executivas. Em um primeiro momento, as autoras trazem um breve histórico do instrumento para, em seguida, apresentar o processo de adaptação para o português brasileiro. Trazem, ainda, aspectos gerais de aplicação, rapport e procedimentos de registro das respostas e pontuação dos escores.

O livro reúne diferentes perspectivas da avaliação psicológica e neuropsicológica de crianças e adolescentes. Propõe apresentar os avanços da área, bem como trazer contribuições atuais para o processo. O objetivo inicial deste livro foi o de contribuir para a formação de estudantes e profissionais envolvidos na avaliação de crianças e adolescentes. Contudo, observam-se limitações, sobretudo no que se refere à integração entre os capítulos. O livro configura-se como uma compilação de artigos científicos, com diferentes objetivos e estruturas, faltando, assim, uma unidade. Ademais, a linguagem apresentada pelos autores é complexa e pouco acessível ao público iniciante, uma vez que preza por expressões e denominações científicas, tais quais exigidas pelas revistas científicas da área. A diversidade de temas apresentados também é uma característica desta obra. Este fato está diretamente atrelado à heterogeneidade do GT que, atualmente, conta com um grande número de participantes, atuantes nos mais diversos temas relacionados à avaliação psicológica e neuropsicológica de crianças e adolescentes.

Entende-se que o livro representa uma importante fonte de consulta para profissionais experientes e estudantes de pós-graduação. Contudo, permanece a urgência por uma obra direcionada ao público iniciante, que apresente uma linguagem acessível e que contemple os aspectos mais relevantes da avaliação psicológica e neuropsicológica com crianças e adolescentes enquanto processo, de maneira integrada e coesa.

 

 

Sobre a autora

Juliane Callegaro Borsa: Psicóloga, mestre em Psicologia (PUCRS), doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista CNPq. É integrante do Grupo de Estudo, Aplicação e Pesquisa em Avaliação Psicológica - GEAPAP/UFRGS e da equipe do Centro de Avaliação Psicológica CAP/UFRGS. Tem experiência na área de pesquisa em Psicologia e Psicologia aplicada, atuando principalmente nos seguintes temas: avaliação psicológica, psicometria, comportamento agressivo infantil e demais problemas de comportamento na infância.

1Contato:
E-mail: psicojuli@yahoo.com.br

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