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Avaliação Psicológica

versão impressa ISSN 1677-0471

Aval. psicol. vol.9 no.3 Porto Alegre dez. 2010

 

 

Adaptação e validação do Questionário sobre Traumas na Infância (QUESI) para uma amostra não clínica

 

 

 

Sally Karina Brodski; Cristian Zanon; Claudio Simon Hutz

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Introdução

O abuso emocional define-se como um padrão repetitivo no comportamento do cuidador, que comunica às crianças, que elas não têm importância, não são dignas de serem amadas, e somente têm valor quando atendem às necessidades do outro (Myers & cols. 2002). Esta forma de abuso independe do nível sócio-cultural e deixa marcas emocionais profundas que poderão acompanhar a criança na vida adulta e que poderão se tornar psicopatologias (Egeland, 2009; Finzi-Dottan & Karu, 2006)

O Questionário Sobre Traumas na Infância (QUESI: Grassi-Oliveira, Stein & Pezzi, 2006) é um instrumento de auto-relato retrospectivo, baseado no Childhood Trauma Questionnaire (Bernstein & cols. 2003), que serve para mensurar diversas formas de abuso como: abuso emocional, abuso físico, abuso sexual, negligência emocional e negligência física (Grassi-Oliveira, Stein & Pezzi, 2006). Há evidências que indicam que a solução de cinco fatores é adequada e que a consistência interna das escalas é satisfatória (Seganfredo & cols. 2009). O QUESI é um instrumento para adolescentes (a partir de 12 anos) e adultos, em que o participante assinala 28 assertivas relacionadas com situações ocorridas na infância e adolescência. A chave de respostas do teste apresenta-se em uma escala Likert de cinco pontos em que “1” significa que nunca ocorreu; “2” significa que ocorreu poucas vezes; “3” significa que ocorreu às vezes; “4” significa que ocorreu muitas vezes; e “5” significa que ocorreu sempre.

Esse teste vem sendo utilizado principalmente em pesquisas, na área forense e na área clínica. O objetivo desse estudo foi adaptar e validar o QUESI para avaliar memórias de várias formas de abuso (especialmente o emocional) em uma amostra nãoclínica.

 

Método

Participantes

Participaram deste estudo 293 estudantes universitários de Porto Alegre (RS), 65,4% dos quais do sexo feminino, com idade média de 20,7 anos (DP = 2,7). A amostra foi de conveniência e a participação dos alunos foi voluntária.

Procedimento

Os participantes responderam o teste coletivamente em sala de aula. No primeiro momento foi realizado um rapport de apresentação da pesquisa e dos procedimentos, explicitando seu caráter voluntário e não obrigatório e que as informações obtidas seriam mantidas em anonimato. Os estudantes que concordaram em fazer parte do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Logo após a assinatura do termo de consentimento, foi solicitado aos participantes que lessem atentamente as instruções e respondessem aos itens de acordo com suas opiniões. A coleta de dados foi realizada em uma única sessão para cada turma de estudantes e o total de tempo utilizado para a realização do estudo foi de aproximadamente 15 minutos por turma. Este procedimento foi realizado em diversas turmas até completar a amostra.

 

Resultados

Os 28 itens do QUESI foram submetidos a uma análise fatorial exploratória para verificar qual seria a solução mais apropriada. Optou-se por utilizar uma rotação obliqua (Oblimin) por esperar correlação entre os fatores. Inicialmente, verificaram-se cinco fatores com eigenvalue maior que um. Itens com comunalidades inferiores a 0,20 foram eliminados. Na segunda análise fatorial emergiram quatro fatores com eigenvalue maior que um. A solução de quatro fatores foi inadequada, pois apresentou fatores com baixas consistências internas e itens que carregavam em vários fatores. A solução trifatorial foi considerada mais adequada, pois apresentou propriedades psicométricas adequadas e fazia sentido teórico, pois produziu um fator para abuso emocional, um para abuso físico e um para abuso sexual.

Na solução trifatorial, verificou-se a presença de um fator mais relevante (abuso emocional) com eigenvalue de 7,3, que explicou 33,8% da variância total. O segundo fator (abuso sexual) apresentou eigenvalue de 2,4, que explicou 12,9% da variância e o terceiro fator (abuso físico) apresentou eigenvalue de 1,6, que explicou 7,5% da variância total. Foi observado KMO = 0,85 e teste de Bartlett significativo (p < 0,001). As comunalidades variaram entre 0,22 e 0,80. As consistências internas (alphas de Cronbach) dos três fatores foram satisfatórias (0,90; 0,86 e 0,69) respectivamente. As cargas fatoriais dos itens e demais propriedades psicométricas são apresentadas na Tabela 1.

 

 

Verificou-se que aproximadamente 91% dos participantes assinalaram “1” em todos os itens que mensuravam abuso sexual, ou seja, relataram não ter memórias desse tipo de abuso. Aproximadamente 46% dos participantes relataram não ter memórias de abuso físico e apenas 10% dos participantes relataram não ter memórias de abuso emocional.

 

Conclusão

A solução de cinco fatores, verificada em outras investigações, não foi encontrada nesse estudo. Observou-se que para essa amostra de estudantes a melhor solução foi a de três fatores. Uma possível explicação para essa diferença talvez se deva ao fato de que a amostra desse estudo é uma amostra não clínica e que as amostras dos outros estudos têm sido amostras clínicas. Porém, chama à atenção o elevado índice de memória de abuso emocional apresentado por essa amostra. Aproximadamente 90% dos estudantes apresentaram alguma memória de abuso emocional, 54% alguma memória de abuso físico e 9% de abuso sexual. Evidentemente esses percentuais não devem ser interpretados como incidência de casos de abuso na amostra. Eles apenas refletem ausência ou não de memórias de certos eventos relacionados a abuso emocional, físico ou sexual. Porém, são dados que sugerem a necessidade de mais atenção e mais estudos para identificar casos de abuso, especialmente abuso emocional e para desenvolver estratégias de proteção às crianças e adolescentes.

A estrutura trifatorial do QUESI apresenta validade fatorial, e índices de consistência interna satisfatórios, para cada uma das dimensões. Portanto, a versão apresentada nesse estudo é válida e pode ser usada em estudos subseqüentes com amostras nãoclínicas e pode ser um instrumento útil para auxiliar na detecção de casos de abuso emocional de crianças e adolescentes.

 

Referências

Bernstein, D. P., Stein, J. A., Newcombc, M. D., Walker, E., Pogge, D., Ahluvalia, T., Stokes, J., Handelsman, L., Medranoh, M., Desmondh, D., & Zule, W. (2003). Development and validation of a brief screening version of the Childhood Trauma Questionnaire. Child Abuse & Neglect, 27, 169–190.

Egeland, B. (2009). Taking stock: Childhood emotional maltreatment and developmental psychopathology. Child Abuse & Neglect,33, 22-26.

Finzi-Dottan, R., & Karu, T. (2006). From emotional abuse in childhood to psychopathology in adulthood a path mediated by immature defense mechanisms and self-esteem. The Journal of Nervous and Mental Disease, 194(8), 616-621.

Grassi-Oliveira, R., Stein, L. M., & Pezzi, J. C. (2006). Tradução e validação de conteúdo da versão em português do Childhood Trauma Questionnaire. Revista de Saúde Pública, 40(2), 249-55.

Myers, J. E. B. , Berliner, L., Briere, J., Hendrix, C. T., Jenny, C. & Reid, T. A. (2002). The APSAC Handbook on Child Maltreatment. CA. Sage Publications.

Seganfredo, A. C. G., Torres, M., Salum, G. A., Blaya, C., Acosta, J. & Eizirik, C. (2009). Gender differences in the associations between childhood trauma and parental bonding in panic disorder. Revista Brasileira de Psiquiatria,31(4), 314-321.

 

 

Sobre os autores:

Sally Karina Brodski: Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985). Possui especialização em Psicologia Clínica pelo Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia (IEPP). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Cristian Zanon: Psicólogo graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (2006), mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2009) e atualmente doutorando em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Claudio Simon Hutz: Psicólogo, Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutorado na University of Iowa (1981). Foi presidente da ANPEPP e do IBAP.

1Contato:
E-mail: claudio.hutz@terra.com.br

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