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Avaliação Psicológica

versão impressa ISSN 1677-0471

Aval. psicol. vol.12 no.2 Itatiba ago. 2013

 

 

Escala de Atitudes Religiosas, Versão Expandida (EAR-20): Evidências de Validade

 

Escala de Atitudes Religiosas, Versão Expandida (EAR-20): Evidências de Validade

 

Escala de Actitudes Religiosas, Versión Expandida (EAR-20): Evidencias de Validez

 

 

Thiago Antonio Avellar de Aquino1; Valdiney V. Gouveia; Shirley de Souza Silva; Andrei Alves de Aguiar

Universidade Federal da Paraíba

 

 


RESUMO

Este estudo teve como objetivo reunir evidências de validade de construto (fatorial, convergente e discriminante) e fidedignidade da Escala de Atitudes Religiosas, considerando sua versão expandida (EAR-20). Participaram 190 pessoas com idade média de 32,2 anos, a maioria do sexo feminino, católica ou evangélica. Elas responderam a EAR-20, a Escala de Crenças Religiosas e perguntas demográficas. Por meio de análises fatoriais confirmatórias, compararam-se os modelos com um, dois e quatro fatores, tendo este último apresentado os melhores indicadores de ajuste. Os quatro fatores (comportamento, conhecimento, sentimento e corporeidade) apresentaram indicadores aceitáveis de precisão (homogeneidade, consistência interna e confiabilidade composta), além de evidências de validades convergente e discriminante. Concluiu-se que a EAR-20 pode ser adequadamente empregada para conhecer os correlatos de atitudes religiosas, principalmente em matrizes religiosas católica, evangélica e espírita.

Palavras-chave: religiosidade; atitude; crença; validade.


ABSTRACT

This study aimed to guarantee evidences of construct validity (factorial, convergent and discriminant) and reliability of the Religious Attitudes Scale, considering its expanded version (RAS-20). Participants were 190 people with a mean age of 32.2 years, mostly females, Catholic or Protestant. They answered the RAS-20, the Religious Belief Scale and demographic questions. Models with one, two and four factors were compared by confirmatory factor analyses, this latter presenting the best fit indices. The four factors solution (behavior, knowledge, feeling, and embodiment) showed acceptable reliability (homogeneity, internal consistency, and composite reliability), and evidences of convergent and discriminant validities. In conclusion, the RAS-20 can be appropriately used to know the correlates of religious attitudes, especially in the religious arrays Catholic, Protestant and Spiritist.

Keywords: religiosity; attitude; belief; validity.


RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo reunir evidencias de validez de constructo (factorial, convergente y discriminante) y fiabilidad de la Escala de Actitudes Religiosas, considerando su versión expandida (EAR-20). Participaron 190 personas con edad media de 32,2 años, cuya mayoría era del sexo femenino, católica o evangélica. Ellas respondieron a la EAR-20, la Escala de Creencias Religiosas y preguntas demográficas. Por medio de análisis factoriales confirmatorios, se compararon los modelos con uno, dos y cuatro factores, teniendo este último los mejores indicadores de ajuste. Los cuatro factores (comportamiento, conocimiento, sentimiento y corporeidad) presentaron indicadores aceptables de precisión (homogeneidad, consistencia interna y confiabilidad compuesta), además de evidencias de validez convergente y discriminante. Se concluyó que la EAR-20 puede ser adecuadamente empleada para conocer los correlatos de actitudes religiosas, principalmente en matrices religiosas católica, evangélica y espírita.

Palabras-clave: religiosidad; actitud; creencia; validez.


 

 

A religiosidade é um traço típico da cultura brasileira (Ribeiro, 1995), conformando, muitas vezes, um componente importante para compreender comportamentos e julgamentos em relação a temas cotidianos, sobretudo os que envolvem questões morais ou axiológicas, como o aborto (Silva & Di Flora, 2010), a orientação sexual (Lacerda, Pereira, & Camino, 2002) e a intenção de cometer suicídio (Aquino, 2009). Portanto, considerando a relevância desse construto, justifica-se tê-lo em conta nos estudos, o que demanda contar com instrumentos adequados para sua medição. Nesse sentido, esta pesquisa procurou reunir evidências de adequação psicométrica de uma medida de atitudes religiosas, denominada como Escala de Atitudes Religiosas. Especificamente, teve como objetivos (1) identificar a estrutura fatorial mais adequada para representar seus itens, (2) conhecer a consistência interna do(s) fator(es) resultante(s) e (3) evidências de sua validade convergente com outra medida de religiosidade. Desda forma, demanda-se descrever este instrumento, mas, antes, parece adequado entender os conceitos de religião e religiosidade, assim como tornar claro o que está sendo denominado como atitude religiosa.

Religião e religiosidade: Definições e componentes

Segundo Lactâncio (240-320 d.C.), o termo religião foi derivado do latim religio, formado pelo prefixo re (outra vez) e o verbo ligare (ligar, unir), enquanto que, de acordo com Cícero (106-43 a.C.), este deriva de relegere, que significa reler ou recolher-se para ler os textos sagrados. A religião é considerada como um vínculo, elo entre o sagrado e o profano, no qual o sagrado é considerado elemento fundamental para se tentar compreender o fenômeno religioso e suas diversas formas de manifestação, sendo considerado tudo o que liga o homem ao transcendente, sendo oposto ao profano (Eliade, 1999). Destarte, constata-se que são possíveis duas definições de religião: uma substantiva e outra funcional (Lambert, 1991). Enquanto a primeira se refere ao sagrado e aos elementos que o caracterizam (por exemplo, as deidades, os ritos e os cultos), a segunda enfatiza as funções do sistema religioso para a vida do ser humano (por exemplo, dar uma resposta ao problema do sentido último da vida) (Ávila, 2007).

A religião é concebida como um sistema de crenças, ritos e símbolos que têm como funções ajudar o indivíduo a se aproximar do sagrado e organizar a vida comunitária. Assim, ela se constitui como um processo de busca de significado por meio de caminhos relacionados com o sagrado (Durkheim, 2001; Koenig, McClloug, & Larson, 2001; Pargament, 1997). De acordo com Koenig e cols. (2001), as religiões possuem doze dimensões, organizadas como seguem: (1) crenças religiosas, que é a base de todas as religiões; (2) afiliação religiosa, que se refere à identificação do indivíduo com uma determinada crença, mas que não diz seu nível de engajamento; (3) religião organizacional, que corresponde à dimensão social e se refere à participação em igrejas, templos e sinagogas; (4) religião não-organizacional, em oposição à dimensão organizacional, envolve a prece privada, o comportamento individual; (5) religião subjetiva, que é o quanto o indivíduo se sente religioso; (6) compromisso religioso, que indica o nível de religiosidade do indivíduo; (7) religiosidade como busca, que se refere à utilização da religião na tentativa de compreender conflitos e tragédias; (8) experiência religiosa, que se refere à conversão religiosa, experiências místicas e transcendência; (9) bem-estar religioso, que envolve a satisfação com a vida e o sentimento de um sentido pessoal de vida; (10) coping religioso, compreendendo a utilização de componentes cognitivos/comportamentais no enfrentamento de situações estressantes da vida; (11) conhecimento religioso, que são conhecimentos específicos sobre dogmas e doutrinas; e, finalmente, (12) consequências religiosas, traduzidas como comportamentos decorrentes da religiosidade do indivíduo, tais como pagamento de dízimo, trabalho voluntário.

Autores como Tarakeshwar, Stanton e Pargament (2003) propõem cinco dimensões para o estudo da religiosidade em diferentes culturas: ideológica, ritualística, experiencial, intelectual e social. A dimensão ideológica refere-se às crenças religiosas; em geral estão associadas à natureza de Deus, o destino final do ser humano e o propósito da vida. Já a dimensão ritualística diz respeito ao comportamento religioso, como, por exemplo, a frequência com que a pessoa participa de sua religião, dos ritos e das orações coletivas. A dimensão experiencial corresponde aos aspectos emocionais da experiência religiosa, como a sensação de bem-estar derivada de alguma prática religiosa. A dimensão intelectual corresponde ao conhecimento acerca da fé religiosa, sobre dogmas e doutrinas. Por fim, a dimensão social das religiões aponta que as práticas religiosas ocorrem em um contexto social em reuniões ou cultos, gerando um sentimento de pertencimento a um determinado grupo.

As tentativas para definir o termo religião comumente levam em consideração os traços semelhantes e a comparação das características identificadas em cada uma das manifestações religiosas, podendo a definição do termo ser estudada por diferentes ângulos, a partir do conceito, da cerimônia, da organização e da experiência vivenciada no ritual religioso. Considera-se que a religião não é vinculada apenas ao intelecto, uma vez que, além deste aspecto cognitivo, são envolvidas também as dimensões afetiva e comportamental, presentes na maioria delas, como, por exemplo, o ato de extravasar emoções pela música/canto, considerado uma forma de expressão da religiosidade (Gaarder, Hellern, & Notaker, 2005).

No que concerne à saúde mental, duas posições opostas se destacam no modo de conceber a religiosidade: uma que considera a crença religiosa como manifestação negativa, enquanto que a outra a concebe de forma positiva (Benko, 1981; Fizzotti, 1992, 2006). Como manifestações negativas, encontram-se autores como Freud (1927/1974) que considera a atitude religiosa por si só uma patologia neurótica; a propósito, indica o seguinte: “a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva da criança, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai” (p. 57). Não obstante, Allport (1955/1975) concebe que as ideias da teoria psicanalítica sobre a religião estão equivocadas, já que a religiosidade não seria um mecanismo de defesa do ego, mas um núcleo integrador do ego. Outros teóricos também concebem a religião/religiosidade como um sinal de saúde mental, promovendo efeitos psico-higiênicos (Frankl, 1992; Jung, 1958). A origem da palavra saúde pode ser elucidativa nesse debate; etimologicamente, saúde e salvação derivam da mesma raiz (salus, soteria, olon, salvus, suastha, whole, heil, health, hall), sugerindo uma unidade conceitual entre ambas que remete ao fim da religiosidade como garantia de segurança e estabilidade (Terrin, 1998). Além do aspecto da saúde, a religiosidade pode ser ainda compreendida como uma atitude perante um objeto, demandando-se tratá-la por meio de seus componentes afetivo, cognitivo e comportamental.

Atitude religiosa

Segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), a atitude se refere a uma organização de crenças e cognições em geral, dotada de carga afetiva pró ou contra um objeto social definido, e que predispõe a uma ação coerente com as cognições e os afetos relativos a dito objeto. Coerentemente, as definições de atitude tendem a caracterizá-la como sendo composta por três dimensões principais. A cognitiva se refere às crenças sobre o objeto; a afetiva, considerada como a mais nitidamente característica, diz respeito às emoções do indivíduo, geradas a partir da experiência afetiva da situação; e, por fim, a comportamental compreende a tendência de o indivíduo se comportar de maneira específica. Portanto, a atitude cria um estado de predisposição à ação que, quando combinado com uma determinada situação, resulta em um comportamento concreto (Hockenbury & Hockenbury, 2003). Destarte, a religiosidade também pode ser investigada como um elemento atitudinal, visto que pode apresentar os mesmos componentes, como estados afetivos, conhecimentos prévios sobre o que se considera sagrado ou divino e comportamentos esperados e/ou prescritos pela instituição religiosa a qual os indivíduos aderem.

Nessa perspectiva, concebeu-se a Escala de Atitudes Religiosas levando em conta a descrição proposta por Gaarder, Hellern e Notaker (2005). Dessa forma, procurou-se representar os componentes atitudinais de modo a inferir o quão religiosa ou atraída pela religiosidade a pessoa se considera. Sua primeira versão (Aquino, 2005) foi composta por quinze itens, tendo sido respondida por 169 estudantes de psicologia de universidades pública e privada de Campina Grande (PB), além de 96 participantes de um encontro ecumênico (Encontro da Nova Consciência) realizado nesta cidade. Então, identificouse uma estrutura unifatorial que explicava 39,4% da variância total, apresentando consistência interna, avaliada por meio do alfa de Cronbach (α) de 0,90 (Aquino, França, & França, 2002). Posteriormente, o instrumento foi administrado em estudantes universitários e pacientes com doencas crônicas (por exemplo, portadores de AIDS, câncer e pacientes renais crônicos). Descrevemse a seguir alguns desses estudos.

Escala de Atitudes Religiosas (EAR-15): Evidências Empíricas

Panzini e Bandeira (2005), em um estudo de elaboração e validação de uma escala de coping religioso-espiritual (CRE), utilizaram a Escala de Atitudes Religiosas (EAR-15) como parâmetro para avaliar evidências de validade de construto (convergente) de sua medida, encontrando uma correlação forte entre os fatores gerais destas duas medidas (n = 616, r = 0,78, p < 0,001). Em uma amostra de conveniência de 169 estudantes de psicologia, Aquino (2005) encontrou uma associação positiva entre EAR- 15 e crenças tipicamente ocidentais (por exemplo, Deus é o criador, é o todo poderoso e é único; r = 0,28, p < 0,01), porém o mesmo não ocorreu com as crenças orientais (por exemplo, O divino se expressa em muitas divindades; p > 0,05). No que se refere ao seu coeficiente de consistência interna (α), esse autor observou um valor de 0,91. Posteriormente, Aquino e cols. (2009), com objetivo de avaliar a relação entre atitude religiosa e percepção do sentido de vida em diversas fases da vida, realizaram estudo com 299 pessoas, de ambos os sexos, tanto estudantes universitários como pessoas da população geral, na faixa etária de 18 a 84 anos. Seus resultados indicaram que a atitude religiosa aumenta em função do período do ciclo de vida. Além disso, foi possível identificar uma associação entre atitude religiosa e realização existencial (por exemplo, Tenho na vida metas e objetivos muito claros; r = 0,36, p < 0,001), indicando que quanto maior a atitude religiosa maior a realização existencial. Finalmente, a atitude religiosa se correlacionou negativamente com os fatores de vazio (por exemplo, Minha experiência pessoal é inteiramente sem sentido ou propósito; r = -0,19, p < 0,001) e desespero existencial (por exemplo, Se eu pudesse escolher, nunca teria nascido; r = -0,26, p < 0,001).

Refosco (2008) estudou a relação entre espiritualidade e resiliência. Seus resultados, obtidos com uma amostra de 229 estudantes universitários, apontaram uma associação entre as pontuações da EAR-15 e um fator de resiliência denominado como autodeterminação (por exemplo, Quando eu faço planos, eu levo até o fim; Eu sou determinado; r = 0,20, p < 0,001).

Carneiro (2009), contando com 94 idosos institucionalizados, procurou dividir a amostra em duas, segundo as médias da atitude religiosa (alta e baixa, tomando a mediana como referência). Quando esses grupos foram avaliados com base em uma escala de qualidade de vida, observaram-se diferenças nas pontuações médias nos seguintes domínios: saúde mental, vitalidade e estado geral de saúde. Especificamente, os idosos com atitude religiosa alta revelaram melhor desempenho nesses aspectos de qualidade de vida, corroborando a literatura que aponta a religiosidade como uma variável que está diretamente associada com melhores índices de saúde (Gonçalves, Giglio, & Ferraz, 2005; Lawler & Yonger, 2002).

Apesar do anteriormente comentado, parece ser que nem sempre a religiosidade se associa positivamente com a qualidade de vida; por exemplo, o estudo de Medeiros (2010), considerando pacientes portadores de HIV, não encontrou qualquer associação entre tais variáveis. Uma explicação possível, nesse caso concreto, pode ter sido a pouca qualidade de vida comum a todos os participantes do estudo.

Finalmente, apesar de inicialmente essa medida ser pensada como unifatorial, a partir de Aquino (2009) se percebeu a possibilidade de uma estrutura diferente. Especificamente, considerando respostas de estudantes universitários, esse autor observou também a viabilidade de contar como estrutura bifatorial, cujos fatores foram denominados como Religiosidade Dogmática (α = 0,92) e Religiosidade Vivencial (α = 0,87). A primeira se relaciona com o aspecto normativo das religiões e a segunda com um caráter mais pessoal da experiência religiosa. Nesse mesmo estudo foi observado que a pontuação total da medida de atitude religiosa foi uma das variáveis que predisseram as atitudes sobre o suicídio, inibindo ou reduzindo a predisposição à ideação suicida. Contudo, a partir desse estudo se conjeturou a possibilidade de incluir ao menos outro componente de atitudes religiosas, procurando tornar o conceito de religiosidade mais inclusivo, dando ênfase, sobretudo, à dimensão corporal, que parece relevante em diversas orientações religiosas, como na matriz cristã, onde rituais de ajoelhar-se e curvar-se diante do altar são práticas recorrentes (Hock, 2010).

Escala de Atitudes Religiosas (EAR-20): Proposta Inicial

Essa versão agregou itens referentes à expressão corporal no contexto religioso, tendo sido objeto de estudo de Diniz e Aquino (2009). Esses autores pretendiam conhecer a relação entre as visões de morte e a religiosidade em estudantes universitários, contando com a participação de 190 pessoas com idades entre 17 e 58 anos, a maioria do sexo feminino (69,8%). Contudo, eles se limitaram a descrever a consistência interna dessa medida (α = 0,94), admitindo uma estrutura unifatorial, mas sem verificá-la. Portanto, esses cinco itens foram assim incorporados à EAR-15, configurando sua versão ampliada (EAR-20).

Recentemente, Silva (2010), com o objetivo de conhecer a relação entre a religiosidade e a qualidade de vida (QV) em pacientes com câncer de mama, teve em conta 100 mulheres com dito diagnóstico, com idades variando de 32 a 82 anos (m = 50,0, dp = 10,45), a maioria casada (59%), com filhos (87%) e apresentando nível de escolaridade fundamental (48%). Apesar de ausência de correlação entre tais variáveis, quando considerado o grupo total, constatou-se que, dividindo-o em subgrupos com idades inferior e superior aos 47 anos, a religiosidade se correlacionou negativamente com queixas de insônia (r = -0,30, p < 0,05), no primeiro grupo, e evidenciou a presença de sintomas na área da mama (r = -0,29, p < 0,05), no segundo grupo. Além disso, observou-se que, a fim de lidar com a situação de adoecimento e as perdas decorrentes do tratamento, as pacientes frequentemente relataram adotar práticas religiosas, como a oração individual.

Em resumo, diversos têm sido os estudos com a Escala de Atitudes Religiosas, quer com a versão abreviada (EAR-15) ou expandida (EAR-20), enfocando, sobretudo, a religiosidade como (1) uma estratégia de enfrentamento para recuperar a saúde e (2) um fator de proteção existencial, isto é, uma atitude que nega o vazio existencial. Apesar do valor explicativo dessa medida, provavelmente ainda restam lacunas quanto a seus parâmetros psicométricos. Por exemplo, embora tenha sido frequentemente considerada como unifatorial, teoricamente pode representar mais de um fator (Aquino, 2009), cobrindo quatro domínios distintos da religiosidade: cognitivo, afetivo, comportamental e corporeidade. Destaca-se, igualmente, que as análises estatísticas empregadas para conhecer evidências da estrutura fatorial da EAR-15 foram estritamente exploratórias, sem confrontar modelos alternativos. Diante desses aspectos, o presente estudo foi realizado com o objetivo de reunir evidências complementares de validade de construto da versão expandida dessa escala. Especificamente, pretendeu-se comparar modelos fatoriais alternativos, conhecer sua validade convergentediscriminante e consistência interna.

 

Método

Participante

Contou-se com uma amostra de conveniência, formada por 190 participantes que, contatados, concordaram em colaborar voluntariamente com o estudo. A maioria era estudante universitário (n = 102); 36 possuíam o ensino superior completo, 36 estavam cursando o ensino médio, nove pessoas afirmaram estar cursando o ensino fundamental e sete deixaram a pergunta em branco. A amostra de religiosos foi constituída por católicos, evangélicos e espíritas, tendo sido obtida após as reuniões ou os cultos respectivos. De forma geral, a idade média foi de 32,2 anos (dp = 13,40; amplitude de 15 a 70 anos), sendo majoritariamente do sexo feminino (74,2%) e católicos (44,7%); os demais indicaram ser evangélicos (24,2%), espíritas (16,3%), não ter religião (8,4%), ser cristãos (2,6%) ou ateus (1,1%).

Instrumentos

Os participantes responderam um livreto formado por três instrumentos:

Escala de Atitudes Religiosas (EAR-20). Esse instrumento é composto por 20 itens, distribuídos equitativamente em quatro fatores atitudinais (Diniz & Aquino, 2009): afetivo (por exemplo, Extravaso a tristeza ou alegria através de músicas religiosas; Sinto-me unido a um “Ser” maior), comportamental (por exemplo, A religião/religiosidade influencia nas minhas decisões sobre o que eu devo fazer; Ajo de acordo com o que a minha religião/religiosidade prescreve como sendo correto), cognitivo (por exemplo, Leio as escrituras sagradas: bíblia ou outro livro sagrado; Costumo ler os livros que falam sobre religiosidade) e expressivo (movimentos corporais de expressões religiosas; por exemplo, Costumo levantar os braços em momentos de louvores; Ajoelho-me para fazer minha oração pessoal com Deus). Com o fim de respondê-los, o participante utiliza uma escala de cinco pontos, com os extremos 1 (Nunca) e 5 (Sempre).

Escala de Crenças Religiosas. Esse instrumento, elaborado por Andrade e cols. (2001), permite avaliar o quanto o respondente concorda com diferentes crenças religiosas, podendo ser um indicativo de seu grau de religiosidade. Seus 18 itens se dividem equitativamente entre as crenças católicas (por exemplo, Imagens de santos devem ser respeitadas; É importante fazer a primeira comunhão), protestantes (por exemplo, A vocação para o trabalho é um dom divino; Jesus Cristo é o único intercessor entre Deus e o homem) e espíritas (por exemplo, É possível a comunicação com pessoas que já faleceram; Jesus foi um espírito evoluído que passou pela terra). Para respondê-los, o participante utiliza uma escala de sete pontos, variando de 1 (Discordo totalmente) a 7 (Concordo totalmente). Em seu estudo original, foi realizada uma análise de componentes principais (rotação varimax) que permitiu identificar claramente os três tipos de crenças (consideraram-se itens com cargas fatoriais superiores a |0,30|), que explicaram conjuntamente 61,4% da variância total. Observaram-se os seguintes índices de consistência interna (alfa de Cronbach): 0,96 (crenças católicas), 0,93 (crenças espíritas) e 0,65 (crenças protestantes).

Questionário Demográfico. Foram incluídas perguntas com a finalidade de caracterizar os participantes do estudo, contemplando o sexo, a idade, a escolaridade, o estado civil e a religião.

Procedimento

No caso dos universitários, a coleta de dados foi realizada de forma coletiva em ambiente de sala de aula, após a permissão do professor. Porém, as respostas foram individuais, tendo os participantes recebido instruções de como responder o questionário. No caso dos religiosos, a coleta teve lugar em locais de seus encontros como centros espíritas, igrejas evangélicas e católicas. A todos foi dito que sua participação era voluntária, podendo deixar o estudo a qualquer momento, sem que houvesse penalização. Enfatizou-se que não existiam respostas certas ou erradas e que seria assegurado o anonimato dos participantes. Todos assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, sendo os mesmos advertidos que se tratava de uma pesquisa científica com fins de publicação. Esta pesquisa seguiu os procedimentos éticos em pesquisa com seres humanos, como determina a Resolução 196/96. O tempo médio de resposta foi de 15 minutos.

Análise dos dados

Os dados foram analisados com o PASW e o AMOS (ambos versão 19). Foram calculadas estatísticas descritivas (medidas de tendência central e dispersão), correlações de Pearson e consistência interna (alfa de Cronbach). Foram realizadas análises fatoriais confirmatórias, considerando a matriz de covariância e adotando o estimador ML (Maximum Likelihood). Os seguintes índices de ajuste foram tidos em conta (Byrne, 2010; Tabachnick & Fidell, 2007): (1) o χ2 (qui-quadrado) indica a probabilidade de o modelo teórico se ajustar aos dados, sendo sensível ao tamanho da amostra; alternativamente, considera- se como mais apropriada a razão entre seu valor e os graus de liberdade (χ2/gl), aceitando-se como indicativo de ajuste valores entre 2 e 3; (2) o Goodness of Fit Index (GFI) e seu correspondente ponderado (AGFI) sugerem a quantidade de variância-covariância que o modelo está explicando, admitindo-se como adequados valores próximos ou superiores a 0,90; (3) o Comparative Fit Index (CFI) compreende um índice comparativo de ajuste, sendo recomendados valores na casa de 0,90 ou mais; e (4) a Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA), cujos valores altos indicam que o modelo não se ajustou ao dados empíricos; sugerem-se como adequados valores entre 0,05 e 0,08 ou inferiores, admitindo-se até 0,10.

Além dos índices anteriormente citados, com o fim de comparar os modelos alternativos, consideraram-se os seguintes: (1) o Consistent Akaike Information Criterion (CAIC), (2) o Expected Cross-Validation Index (ECVI) e (3) a diferença entre os qui-quadrados e os respectivos graus de liberdade dos modelos (Δχ2). Valores menores de CAIC e ECVI e Δχ2 significativo, penalizando o modelo com maior χ2, são evidências de maior adequação do modelo.

Finalmente, com o propósito de reunir evidências complementares de validade de construto dessa medida, calcularam-se a variância média extraída (VME) e a confiabilidade composta (CC) (Hair, Black, Babin, Anderson, & Tatham, 2006; Škerlavaj & Dimovski, 2009). Valores iguais ou superiores a 0,50 e 0,60, respectivamente, asseguram a adequação da medida. A VME é indicação de validade convergente de cada fator, isto é, o quanto ele explica o conjunto de itens; já a validade discriminante é assegurada quando a raiz quadrada do valor da VME é superior à associação entre dois fatores (Φ). No caso do valor da CC para cada fator, é útil para dirimir dúvida quanto ao alfa de Cronbach, que é influenciado pelo número de itens (Pasquali, 2003).

Resultados

Procurando organizar a apresentação dos resultados, decidiu-se estruturar esta seção em três tópicos principais, enfocando os parâmetros da EAR-20: validade fatorial, precisão e validade convergente-discriminante.

Comprovação de Modelos Fatoriais da Escala de Atitudes Religiosas

Procurando conhecer evidências de validade fatorial dessa medida, três modelos fatoriais foram testados no presente estudo, tendo em conta evidências empíricas prévias sobre a estrutura da EAR-15 e a inclusão de um quarto fator: (a) modelo unifatorial, que prevê a saturação de todos os itens em um único fator, (b) modelo bifatorial, que pressupõe a existência de dois fatores compostos pela junção de comportamento e conhecimento religioso, por um lado, e sentimento e corporeidade religiosa, por outro. Por fim, foi utilizado um modelo com quatro fatores, correspondendo aos seguintes domínios de religiosidade previamente teorizados: comportamento, conhecimento, sentimentos e corporeidade. Os resultados dessas análises podem ser observados na Tabela 1.

 

 

Levando em conta o conjunto de indicadores de ajuste dos modelos testados, percebe-se que o terceiro modelo, admitindo quatro fatores, apresenta os resultados mais promissores, demonstrando maior adequação aos dados empíricos (χ2/gl = 2,23, GFI = 0,84, CFI = 0,90 e RMSEA = 0,08). Complementarmente, outros dois critérios dão conta da maior adequação desse modelo (CAIC e EVIC), uma vez que apresentou valores inferiores. Contudo, com o fim de obter uma prova de significância da adequabilidade do modelo tetrafatorial, comparou-se seu qui-quadrado com os dos modelos uni [Δχ2 (1) = 606,09, p < 0,001] e bifatorial [Δχ2 (9) = 205,07, p < 0,001]. Portanto, fica evidente que o modelo com os quatro fatores é o mais adequado para representar a atitude religiosa da forma que foi operacionalizada. A Figura 1, a seguir, resume esse modelo, apresentando as saturações (Lambdas, λ) de cada item.

Como é possível comprovar na Figura 1, todas as saturações se encontram no intervalo comumente esperado (0-1), sendo estatisticamente diferentes de zero (λ ≠ 0; z > 1,96, p < 0,05). Destaca-se que quatro pares de erros precisaram ser correlacionados, uma vez que tornavam o modelo mais ajustado; dois deles eram entre os itens do fator comportamento e outros dois envolveram itens deste fator com um de sentimentos. Essas pareceram restrições admissíveis, considerando, sobretudo, a correlação entre tais fatores (Φ = 0,83). Embora as correlações desses erros não fossem previstas, podem ser justificadas em razão dos fatores de pertença dos itens, e acentuam também a natureza peculiar da medida, que demonstra interdependência de alguns erros. A seguir são apresentados os resultados da precisão dos fatores.

Homogeneidade, Consistência Interna e Confi abilidade Composta

O fator comportamento religioso apresentou homogeneidade (correlação média item-total) de 0,65, com amplitude de 0,59 (Item 11: Faço orações pessoais) a 0,71 (Item 10: Frequento as celebrações de minha religião), consistência interna (alfa de Cronbach) e confiabilidade composta de 0,82 e 0,76, respectivamente. No caso do fator conhecimento religioso, sua homogeneidade foi de 0,63, variando de 0,61 (Item 2: Costumo ler livros que falam sobre religiosidade) a 0,73 (Item 3: Procuro conhecer as doutrinas ou preceitos da minha religião), apresentando consistência interna de 0,85 e confiabilidade composta de 0,73. Já o fator sentimento religioso teve homogeneidade de 0,48, oscilando de 0,42 (Item 13: Extravaso a tristeza ou alegrias através de músicas religiosas) a 0,57 (Item 15: Quando entro numa igreja ou templo, despertam-me emoções), seu alfa de Cronbach foi 0,65 e confiabilidade composta de 0,70. Por fim, o fator corporeidade religiosa apresentou homogeneidade 0,89, variando de 0,52 (Item 17: Ajoelho-me para fazer minha oração pessoal com Deus) a 0,78 (Item 18: Bato palmas nos momentos dos cânticos religiosos), com alfa de Cronbach de 0,90 e confiabilidade composta de 0,80.

Evidências de Validades Convergente e Discriminante dos Fatores

Inicialmente, tomaram-se a VME e as correlações (Φ) entre construtos latentes (fatores) como indicadores dessa validade. De acordo com a Tabela 2, os quatro fatores apresentaram evidências de validade convergente, pois os valores de suas respectivas VMEs foram superiores a 0,50. No caso da validade discriminante, excetuando os fatores comportamento e conhecimento, cujos valores de raiz quadrada de suas VMEs não foram superiores à correlação entre ambos (Φ), para os outros dois (sentimento e corporeidade) as evidências deste tipo de validade parecem incontestes.

Tentando reunir evidências complementares de validades convergente-discriminante, as pontuações nos quatro fatores supracitados foram correlacionadas a crenças religiosas, considerando diferentes orientações. Os resultados a respeito são apresentados na Tabela 3.

 

 

 

 

Como é possível verificar na Tabela 3, unicamente o fator corporeidade religiosa se correlacionou com crença espírita, tendo feito de forma inversa, isto é, quanto maior a pontuação em corporeidade, menor neste tipo de crença. No caso da crença católica, ela se correlacionou inversamente com o fator conhecimento religioso, indicando menor magnitude deste tipo de atitude, e positivamente com corporeidade religiosa, talvez revelando maior incidência desta atitude ou prática religiosa. Finalmente, todos os fatores de atitude religiosa se correlacionaram positiva e significativamente com crença protestante, sugerindo que tais atitudes caracterizam em maior medida pessoas que endossam este tipo de crença.

 

Discussão

O presente estudo teve como objetivo principal conhecer evidências de validade de construto da Escala de Atitudes Religiosas, em sua versão expandida (EAR-20). Embora se considere que esse objetivo tenha sido alcançado, não é possível deixar de reconhecer limitações da pesquisa, a exemplo do número reduzido de participantes, que não representam necessariamente a população geral. Além disso, não foram incluídos deliberadamente representantes de outras matrizes religiosas, tais como judeus, mulçumanos e afro-brasileiros. Portanto, admite-se que não é possível generalizar os achados sobre atitudes religiosas para além do escopo deste estudo. Entretanto, se tomada em conta sua ênfase psicometrista, procurando reunir evidências de validade de construto de uma medida, o quantitativo é próximo do que tem sido recomendado (Pasquali, 2003; Watkins, 1989). Nesse sentido, justifica-se ter em conta os resultados apresentados, que são discutidos a seguir.

Evidências de Validade Fatorial

A Escala de Atitudes Religiosas (EAR-20) se fundamentou em bases teóricas que justificam pensar na composição de seus fatores como transcendentes às religiões ocidentais (cristãs). Nesse sentido, segundo Filoramo e Prandi (1999), o que une as diferentes religiões é mais o sistema normativo do que uma identidade entre os membros. Gaarder, Hellern e Notaker (2005) consideram que os ritos são essenciais para as religiões, sendo expressos por meio de orações e invocações de trechos de textos sagrados; acrescentam, ainda, que a religião apresenta uma dimensão afetiva, já que seus ritos e suas músicas eliciam certos tipos de emoções. Portanto, como assevera Hock (2010), as religiões apresentam dois planos: o teórico e o prático. O primeiro diz respeito a músicas, conceitos e normas, enquanto que o segundo se refere à conduta e expressão de sentimentos. Entretanto, isso não significa que essas sejam dimensões plenamente independentes.

Coerente com esse marco teórico, conforme estudos prévios, a Escala de Atitudes Religiosas poderia ser pensada como uma medida uni (Aquino e cols., 2002) ou bifatorial (Aquino, 2009), conjeturando-se, inclusive, uma estrutura tetrafatorial para sua versão com 20 itens. Ela se pautou em estudos prévios que davam conta de três fatores iniciais (afetivo, cognitivo e comportamental), aos quais foi somada a dimensão corporal (Hock, 2010). No presente estudo, essas três soluções fatoriais foram testadas e comparadas com cada outra, com os melhores indicadores de ajuste sendo verificados para o último modelo (tetrafatorial). Tais indicadores não foram excelentes, de acordo com os critérios comumente recomendados (Byrne, 2010), porém podem ser aceitáveis (Garson, 2003), apoiando a concepção teorizada da multidimensionalidade dessa medida.

Essa estrutura parece condizente com a representação de dois planos da religiosidade, propostos por Hock (2010), que são expressos nessa oportunidade pelos quatro fatores verificados. Especificamente, entende-se que os fatores comportamentos, sentimentos e corporeidade representariam o plano prático, enquanto que o conhecimento corresponderia ao plano teórico. Outros autores também apontam a religiosidade como um fenômeno multifatorial, como Tarakeshwar e cols. (2003); Hill e Pargament (2003) consideram que as medidas de religiosidade e espiritualidade não são uniformes, pois envolvem várias dimensões, a exemplo das cognitivas, afetivas, comportamentais, interpessoais e fisiológicas. Entretanto, essas possibilidades não foram testadas no presente estudo, pois vão mais além de seu escopo. Restará, porém, empreender estudos futuros que os tenham em conta, inclusive desenvolvendo os indicadores correspondentes de cada dimensão.

Apesar desse entendimento acerca da estrutura multifatorial da religiosidade, o consenso é menos evidente acerca de quantas e quais seriam suas dimensões. Sobre esse aspecto, Ávila (2007) considera que a religiosidade é tão complexa como outros construtos psicológicos mais comumente estudados (por exemplo, personalidade, inteligência, motivação), pois não há unanimidade entre os teóricos sobre o número de fatores que a representa. Nesse sentido, as medidas a respeito, de forma geral, encontram-se limitadas ao enfoque adotado pelo pesquisador. No presente caso, vale ressaltar, considerou-se o enfoque dos componentes atitudinais, segundo a concepção mais clássica da Psicologia Social (Myers, 2000).

Evidências de Precisão

Excetuando o fator sentimento religioso, os demais apresentaram alfa de Cronbach que atende o ponto de corte frequentemente adotado na literatura (0,70; Nunnally, 1991; Pasquali, 2003). Entretanto, mesmo tal fator apresentou homogeneidade que é o dobro do coeficiente mínimo recomendado (0,20; Clarck & Watson, 1995). Além isso, há que ter em conta que os fatores dessa medida não se mostraram independentes nem seus itens apresentaram saturações equivalentes, o que desaconselha empregar o alfa de Cronbach. Nesse caso, é mais prudente utilizar como indicador de precisão a confiabilidade composta (CC), recomendando-se valores a partir de 0,70 (Hair e cols., 2006), apesar de serem aceitos aqueles que superam 0,60 (Škerlavaj & Dimovski, 2009); todas as CCs foram iguais ou superiores a 0,70, atestando evidências deste parâmetro.

Evidências de Validades Convergente e Discriminante

Dois indicadores desses tipos de validade foram considerados. Primeiramente, focou-se na medida em si, tomando como referência a VME de cada fator. Nesse caso, constatou-se que os quatro fatores apresentaram evidências de validade convergente, isto é, suas VMEs foram superiores a 0,50, sugerindo que seus itens são uma representação legítima dos construtos medidos (Hair e cols., 2006). Porém, quando se considerou a validade discriminante, os fatores de conhecimento e comportamento religiosos não se diferenciaram substancialmente entre si. Portanto, admitindo que esses sejam fatores legítimos, valerá a pena elaborar itens mais específicos para representá- los, favorecendo que se diferenciem.

Utilizou-se também um critério ou uma medida externa, que permite reunir evidências desses tipos de validade. Concretamente, correlacionaram-se seus fatores com crenças de três orientações religiosas: católica, protestante e espírita. As crenças católicas se associaram com corporeidade (positivamente) e conhecimento (negativamente), refletindo o estilo de religiosidade praticado por seus membros; esta é uma religião majoritária no contexto brasileiro, com rituais corporais evidentes (por exemplo, ajoelhar-se, cantar), porém com menor preocupação acerca do conhecimento religioso (por exemplo, leio as escrituras sagradas, procuro conhecer as doutrinas ou preceitos da minha religião). As crenças espíritas, por sua vez, associaram-se apenas com a corporeidade (negativamente); de fato, estas crenças não enfatizam a expressão corporal como relevante para a manifestação religiosa, sobretudo em razão de esta orientação não ser estruturada por meio de ritos e padrões pré-estabelecidos, tendo em vista que seus membros a consideram mais como uma filosofia do que uma religião em si, pois foi idealizada inicialmente como uma religião natural (Lewgoy, 2008). Finalmente, as crenças protestantes se associaram positivamente com todos os fatores de atitudes religiosas, possivelmente refletindo, no contexto brasileiro, o maior comprometimento de membros desta orientação com os aspectos da religiosidade, incluindo conhecimentos, sentimentos, comportamentos e expressões corpóreas. Esse resultado corrobora achados de Nepomuceno (2011) quando encontra, em sua pesquisa, maiores pontuações da EAR-20 em pacientes renais crônicos evangélicos. Destaca-se, nesse caso, que evangélicos e protestantes são tratados como equivalentes, apesar de reconhecer a possibilidade de diferenciar semanticamente estes termos.

Finalmente, a Escala de Atitudes Religiosas, versão ampliada (EAR-20), foi concebida para medir explicitamente afetos, conhecimentos, comportamentos e corporeidade, dimensões que se revelam legítimas. Entretanto, dada a complexidade do fenômeno religioso, essa medida apresenta dificuldades em inferir a religiosidade de matrizes não cristãs, como é o caso dos cultos afro-brasileiros, demandando-se, pois, o emprego de outra medida ou mesmo a elaboração de uma nova que permita atender às especificidades de outras matrizes. Pensando em termos de estudos futuros com a EAR-20, poderá ser útil comprovar sua invariância fatorial por meio de diferentes grupos religiosos, assim como checar a estabilidade temporal (teste-reteste) de seus fatores. Destaca-se nesta oportunidade, entretanto, que os indicadores observados são favoráveis a essa medida, que reuniu parâmetros psicométricos que justificam seu emprego em pesquisas futuras sobre atitudes religiosas.

 

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Recebido em dezembro de 2011
1ª reformulação em fevereiro de 2012
2ª reformulação em maio de 2012
Aprovado em setembro de 2012

 

 

Sobre os autores

Thiago Antonio Avellar de Aquino: psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba. Atualmente é professor Adjunto da Universidade Federal da Paraíba do Departamento de Ciências das religiões e professor credenciado do Programa de Pós-graduação em Ciências das Religiões.
Valdiney V. Gouveia: é Doutor em Psicologia Social (1998) pela Universidade Complutense de Madri. Professor Titular na Universidade Federal da Paraíba e Pesquisador 1A do CNPq.
Shirley de Souza Silva: é Psicóloga, Especialista em Terapia cognitivo-comportamental e Mestre em Ciências das religiões. Atualmente é integrante do núcleo de avaliação psicológica do UNIPÊ e professora da pós-graduação em terapia cognitivo-comportamental da FAFIRE.
Andrei Alves de Aguiar: é Psicólogo, Mestre em Ciências das Religiões e Doutorando em Psicologia Social, pela UFPB.


1Endereço para correspondência:
Rua Mário Batista Júnior, 75, apto 301, Miramar, 58043-130, João Pessoa-PB, Tel.: (83) 3225-6914. E-mail: logosvitae@ig.com.br