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Psicologia em Revista

versão impressa ISSN 1677-1168

Psicol. rev. (Belo Horizonte) vol.17 no.1 Belo Horizonte abr. 2011

 

ARTIGOS

 

Breves considerações sobre a concepção do objeto de estudo da Psicologia para Wundt e para Brentano

 

Brief considerations on the conception of the subject matter of Psychology for Wundt and for Brentano

 

Breves consideraciones sobre la concepción de lo objeto de estudio de la Psicología para Wundt y para Brentano

 

 

Jan Luiz Leonardi*

Universidade São Francisco.

 

 


RESUMO

O século XIX testemunhou diversas tentativas de constituição de uma Psicologia científica, com o aparecimento de diferentes sistemas psicológicos. Entre eles, destacam-se o de Wilhelm Wundt e o de Franz Brentano. Ambos buscam imputar cientificidade à Psicologia, mas discordam quanto ao ponto de partida para a elaboração de um projeto de Psicologia. Este artigo tem por objetivo introduzir a concepção do objeto de estudo da Psicologia conforme apresentada em suas obras centrais. Wundt defende que o objeto de estudo da Psicologia é a experiência consciente imediata, composta de elementos mentais básicos que podem ser divididos em sensações e sentimentos. Brentano postula que a Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos, atos mentais que têm direção para objetos cuja existência depende de tais atos.

Palavras-chave: Wundt, Brentano, objeto da Psicologia, História da Psicologia.


ABSTRACT

The 19th century has witnessed several attempts to constitute a scientific Psychology, with the birth of several psychological systems. Among those, the ones proposed by Wilhelm Wundt and by Franz Brentano stand out. Both Wundt and Brentano attempt to impute scientificity to Psychology, but they disagree on the starting point for the elaboration of a project of Psychology. The purpose of this paper is to introduce the conception of the subject matter of Psychology as it is presented in their main works. Wundt defends that the subject matter of Psychology is the immediate conscious experience, composed of basic mental elements that can be divided into sensations and feelings. Brentano postulates that Psychology is the science of psychic phenomena, mental acts which have direction toward objects whose existence depends on such acts.

Keywords: Wundt, Brentano, subject matter of Psychology, History of Psychology.


RESUMEN

El siglo XIX fue testigo de varios intentos de constituir una psicología científica, con el surgimiento de diferentes sistemas psicológicos. Entre ellos se destacan los de Wilhelm Wundt y Franz Brentano. Ambos tratan de imputar cientificidad a la psicología, aunque están en desacuerdo sobre el punto de partida para el desarrollo de un proyecto de psicología. Este artículo pretende introducir el concepto del objeto de estudio de la psicología como se presenta en sus obras centrales. Wundt sostiene que el objeto de estudio de la psicología es la experiencia consciente inmediata, que consiste en elementos mentales básicos que se pueden dividir en sensaciones y sentimientos. Brentano defiende que la psicología es la ciencia de los fenómenos psíquicos, acciones mentales direccionadas a objetos cuya existencia depende de esos mismos actos.

Palabras clave: Wundt, Brentano, objeto de estudio de la Psicología, Historia de la Psicología.


 

 

O século XIX testemunhou diversas tentativas de constituição de uma Psicologia científica, com o aparecimento de inúmeros sistemas psicológicos (Abib, 2009; Danziger, 1990; Goodwin, 2005; Rieber & Salzinger, 1998). Entre eles, destacam-se as obras de Wundt e de Brentano.

Wilhelm Maximilian Wundt (1832-1920) entrou para a Escola de Medicina da Universidade de Tubingen aos 19 anos, transferindo-se para a Universidade de Heidelberg um ano depois, lugar onde seu gosto pela ciência cresceu. Mais interessado pela pesquisa científica do que pela prática da Medicina, Wundt exerceu essa profissão por pouco tempo, pois, em 1856, seis meses depois de concluir a graduação, foi estudar Fisiologia Experimental com Johannes Muller e, de 1858 a 1865, trabalhou como assistente de laboratório de Hermann Helmholtz, período em que Wundt já advogava uma abordagem experimental para a investigação de fenômenos psicológicos básicos (Boring, 1950; Bringmann & Balance, 1975; Goodwin, 2005). Influenciado tanto pela Fisiologia de Muller e Helmholtz quanto pela Psicofísica de Gustav Theodor Fechner (1860/1966), Wundt tinha por objetivo criar uma Psicologia que utilizasse o método experimental das Ciências Naturais e que alcançasse o estatuto de cientificidade estabelecido na época pelo modelo positivista (Araujo, 2010; Blumenthal, 1998).

Franz Clemens Brentano (1838-1917) iniciou aos 16 anos os estudos para se tornar padre, tendo estudado Filosofia com o ilustre Friedrich Adolf Trendelenburg e Teologia com Johann Joseph Ignaz von Döllinger. Graduouse em Filosofia na Universidade de Tubingen em 1864, ano em que entrou para um convento dominicano após ser ordenado padre. Brentano começou a lecionar Filosofia em 1866 e, quatro anos depois, abandonou a Igreja sob a alegação de não concordar com a doutrina da infalibilidade papal, determinada pelo Concílio Vaticano I, mantendo suas convicções católicas até o fim de sua vida (Maciel, 2003; Macnamara, 1999). Brentano era profundo conhecedor da filosofia aristotélica e escolástica e também tinha por objetivo criar uma Psicologia científica empírica, mas com uma abordagem não experimental (Brentano, 1874/1995; Marías, 1941/2004).

Wundt e Brentano buscam imputar cientificidade e autonomia à Psicologia e definir seu objeto de estudo, mas, apesar de convirem quanto aos seus objetivos, discordam fundamentalmente quanto ao ponto de partida para a elaboração de seus sistemas. Wundt parte da diferença entre experiência consciente imediata e experiência consciente mediata, e Brentano, da distinção entre fenômenos psíquicos e fenômenos físicos (Brentano, 1874/1995; Wundt, 1896/2004).

Ambos os autores estão no cerne do surgimento da Psicologia científica. Eles são fundadores de teorias psicológicas que, direta ou indiretamente, deram origem a diferentes sistemas de Psicologia (Danziger, 1990; Goodwin, 2005; Schuhmann, 2004). Contudo, enquanto Wundt é geralmente reconhecido como "o pai da Psicologia moderna"(Blumenthal, 1979), Brentano raramente figura nos livros de História da Psicologia, embora tenha lecionado e influenciado (seja por afinidade ou por divergência) Edmund Husserl, fundador da fenomenologia, Sigmund Freud, criador da psicanálise, Christian von Ehrenfels, iniciador da Psicologia da Gestalt e Carl Stumpf, influente psicólogo da Universidade de Berlim, entre outras personalidades importantes (Boring, 1950; Macnamara, 1999; Schuhmann, 2004). Nesse sentido, conhecer os sistemas teóricos desses autores significa apreender parte da origem da multiplicidade de teorias e práticas hoje presentes na Psicologia.

Compreender as obras de Wundt e de Brentano, no que diz respeito à sua fundamentação filosófica, definição de objeto de estudo e método, é uma tarefa árdua. Ambos detêm ampla produção bibliográfica cuja maior parte nunca foi traduzida do original em alemão, o que levou os interessados a utilizarem fontes secundárias no lugar do que os próprios autores escreveram (Bringmann & Balk, 1992; Goodwin, 2005).

Em vista disso, o objetivo deste artigo é introduzir a concepção do objeto de estudo da Psicologia de Wundt, exposta em sua obra Grundzuge der physiologischen Psychologie (Wundt, 1874/1904), e a de Brentano, desenvolvida no livro Psychologie vom empirischen Standpunkte (Brentano, 1874/1995). Essas publicações foram escolhidas por serem consideradas, pelos próprios autores e pelos historiadores da Psicologia, as mais representativas de suas produções, e por apresentarem explicitamente suas definições do objeto da Psicologia (Jacquette, 2004b; Wozniak, 1999). Ademais, tendo em vista que a última edição do Grundzuge der physiologischen Psychologie nunca foi traduzida na íntegra para qualquer idioma, outro livro de Wundt foi selecionado por ser de grande auxílio para a problemática discutida no presente artigo: o Grundriss der Psychologie (Wundt, 1896/2004), que contém uma apresentação resumida de seu sistema e foi considerada pelo autor como a melhor sistematização de sua obra (Wozniak, 1999).

Para cumprir esse objetivo, a teorização acerca do objeto de estudo da Psicologia apresentada por Wundt e por Brentano nas obras supracitadas foi sistematizada, organizada e analisada. Além disso, foram utilizados como suporte diversos textos de historiadores da Psicologia e da Filosofia que examinam os aspectos das obras de Wundt e de Brentano considerados no presente trabalho (e.g., Araujo, 2006, 2009; Blumenthal, 1975; Danziger, 1979, 1980; Goodwin, 2005; Jacquette, 2004a; McAlister, 2004; Mischel, 1970; Mulligan, 2004).

 

O objeto de estudo da Psicologia para Wilhelm Wundt

Wundt postula uma divisão entre as Ciências Naturais e a Psicologia. O autor explica que elas diferem quanto ao ponto de vista no estudo de um fenômeno: as Ciências Naturais estudam os objetos da experiência independentes do sujeito, enquanto que a Psicologia investiga-os na sua relação com o sujeito. Entretanto, Wundt argumenta que as formas de interpretação das Ciências Naturais e da Psicologia são complementares, enquanto lidam com diferentes características do conteúdo de uma experiência (Hatfield, 1997; Leary, 1979; Wundt, 1896/2004). Ao delimitar o domínio dessas ciências, Wundt aponta que as Ciências Naturais se ocupam da experiência mediata e que a Psicologia estuda a experiência imediata (Hatfield, 1997; Leary, 1979; Rosenfeld, 2003; Wundt, 1896/2004).

A experiência imediata é a experiência consciente subjetiva tal como ocorre em um exato momento, em que o acesso à realidade é direto, intuitivo e independe das características constitutivas do sujeito e de constructos auxiliares. A experiência mediata, por outro lado, ultrapassa os elementos da experiência em si e, com base em interpretações e inferências, proporciona um conhecimento distinto daquele da própria experiência. Em outras palavras, as Ciências Naturais buscam, pelo estudo da experiência mediata, descobrir a natureza dos objetos sem referência ao sujeito, isto é, realizam uma abstração que separa o objeto representado do sujeito (Araujo, 2006, 2009; Hatfield, 1997; Leary, 1979; Wundt, 1896/2004). Segundo Wundt (1896/2004, p. 2-3):

Cada experiência concreta imediatamente se divide em doisfatores: em um conteúdo que nos é apresentado, e nossa apreensão desse conteúdo. Chamamos o primeiro desses fatores de objetos da experiência e o segundo de sujeito que experiencia. Essa divisão indica dois modos de tratamento da experiência. Um é o modo das ciências naturais, que se interessam pelos objetos da experiência, vistos como independentes do sujeito. O outro é o modo da Psicologia, que investiga o conteúdo global da experiência em suas relações com o sujeito e também com relação aos atributos que esse conteúdo deriva diretamente do sujeito. O ponto de vista da ciência natural pode, por isso, ser considerado como o da experiência mediata, pois só se torna possível depois da abstração do fator subjetivo que está presente em toda experiência real; o ponto de vista da Psicologia pode, ao contrário, ser considerado como o da experiência imediata, pois propositadamente afasta essa abstração e todas as suas consequências. (grifos do autor)

Em síntese, toda experiência pode ser analisada com base em dois pontos de vista diferentes: pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata), em que o olhar está no objeto externo à experiência, ou pelo seu conteúdo subjetivo (experiência imediata), no qual a ênfase recai na interioridade do sujeito que experiencia (Araujo, 2006, 2009; Wundt, 1896/2004). Assim, a Psicologia tem como objeto os aspectos subjetivos da experiência.

Segundo Wundt (1896/2004), a experiência consciente imediata é composta de elementos básicos, que podem ser divididos em sensações e sentimentos. Esses elementos são conteúdos mentais que não podem ser divididos em partes mais simples (Blumenthal, 1975; Mischel, 1970; Wundt, 1896/2004). Por isso, diversos historiadores da Psicologia sugeriram erroneamente que Wundt teria utilizado a Química como modelo para sua teoria e que talvez estivesse tentando desenvolver uma espécie de "tabela periódica"da mente (e.g., Schultz & Schultz, 2005). Todavia, Danziger (1979) explicita que, para Wundt, a análise dos elementos "era limitada, preliminar e uma tarefa auxiliar em termos dos objetivos da Psicologia como um todo"(p. 221). Nesse sentido, Goodwin (2005) aponta que a análise e a classificação dos elementos mentais eram aspectos secundários no sistema de Wundt, o que corrobora a explicação de Rosenfeld (2003) de que "Wundt sempre se esforçou por evitar que se tirassem conclusões atomísticas do seu processo de análise"(p. 105). Além disso, Blumenthal (1975) afirma que a analogia é falsa porque a síntese química é inteiramente determinada pelos seus elementos, enquanto que a maneira pela qual os elementos psicológicos se combinam é completamente diferente da maneira como os átomos interagem: para Wundt, a síntese psicológica é uma nova formação que supera a soma de suas partes.

Cabe, aqui, uma breve digressão. A teorização acerca dos elementos da experiência consciente imediata levou à visão distorcida de que Wundt seria o fundador da escola estruturalista. Tal concepção foi perpetuada por E. B. Titchener que, ao traduzir textos de Wundt para o inglês, alterou o sistema deste para fazê-lo compatível ao seu. Na verdade, os sistemas de Wundt e de Titchener são diferentes, sendo a designação estruturalista apropriada apenas para a Psicologia do último (para uma análise comparativa entre os sistemas de Wundt e de Titchener, ver Leahy, 1981). A distorção no sistema Wundtiano foi propagada por E. G. Boring, aluno de Titchener, que escreveu o livro A History of Experimental Psychology (Boring, 1950), a principal referência na formação de várias gerações de psicólogos. Por exemplo, Marx e Hillix (1973/2004), autores de outro importante livro sobre a constituição dos sistemas psicológicos ao longo da história, reproduziram a visão errônea de Boring ao afirmarem que "o sistema de Titchener era basicamente idêntico ao de Wilhelm Wundt"(p. 154).

Wundt postula que os elementos da experiência imediata são organizados em um todo coerente por meio da fusão. A fusão é o processo ativo de organização dos elementos mentais básicos que ordena e sintetiza as sensações e sentimentos para compor a unidade fenomênica. Wundt declarou: "todo composto psíquico é dotado de características que, de modo algum, consistem na mera soma das características dos elementos"(Wundt, 1896/2004, p. 321). A percepção de um objeto da realidade é o produto da síntese composta pelos conteúdos da experiência imediata, isto é, o resultado de um processo ativo que organiza as informações provenientes dos elementos em um todo significativo (Araujo, 2006; Mischel, 1970; Wundt, 1896/2004).

A fusão é um dos conceitos centrais no sistema psicológico de Wundt, denominado por ele de voluntarismo, que diz respeito à maneira pela qual a mente organiza as experiências por meio de um ato volitivo. Assim, toda a experiência imediata é construída sob controle de um processo interno de vontade (Araujo, 2006; Wundt, 1896/2004). Os conteúdos psíquicos organizados e sintetizados pela fusão são trazidos à consciência pela apercepção, um processo de atenção seletiva.

a mente organiza as experiências por meio de um ato volitivo. Assim, toda a experiência imediata é construída sob controle de um processo interno de vontade (Araujo, 2006; Wundt, 1896/2004). Os conteúdos psíquicos organizados e sintetizados pela fusão são trazidos à consciência pela apercepção, um processo de atenção seletiva.

Estabelecido que o objeto de estudo da Psicologia é a experiência consciente imediata, torna-se necessário um método para a sua observação. Wundt postula a percepção interna (innere Wahrnehmung) como o meio de investigação, uma vez que somente o indivíduo que vive a experiência é capaz de examiná-la. O autor defende que uma Psicologia científica deve criar condições para que a percepção interna seja tão fidedigna quanto à observação empírica conduzida pelas Ciências Naturais, o que torna necessário o controle experimental das condições da experiência (Araujo, 2009; Danziger, 1990; Mischel, 1970). A percepção interna é a análise que a mente faz dela própria para observar e relatar seus conteúdos, e deve ser realizada em condições controladas de laboratório para que possa produzir, repetir ou alterar fenômenos mentais. Como explica Goodwin (2005), essa forma de percepção interna

só poderia gerar dados científicos válidos se os seus resultados pudessem ser replicados. Para Wundt, isso queria dizer que a pesquisa de laboratório teria de limitar-se a uma estreita faixa de experiências. Na prática, elas seriam então experiências sensórias/ perceptuais/atentivas básicas (p. 122).

De fato, Danziger (1980) aponta que, nos 20 volumes do Philosophische Studien, periódico que publicava os relatos das pesquisas realizadas no laboratório de Wundt, a maioria dos estudos é sobre medidas objetivas de processos sensoriais e perceptuais básicos.

Por fim, é essencial destacar que Wundt defende que o estudo da experiência consciente imediata é limitado, pois possibilita apenas o conhecimento de processos psicológicos simples. Os processos mentais superiores (linguagem, raciocínio, moral, arte, religião, entre outros) só poderiam ser estudados por meios não experimentais, tais como a análise comparativa das culturas e a investigação histórica. Wundt escreveu Völkerpsychologie, uma obra em dez extensos volumes em que discorre sobre os temas citados acima (Farr, 1983).

 

O objeto de estudo da Psicologia para Franz Brentano

Brentano divide a totalidade do mundo em dois grandes grupos de fenômenos: fenômenos físicos e fenômenos psíquicos. Ao fazer tal distinção, o autor postula que as Ciências Naturais investigam os fenômenos físicos e que cabe à Psicologia o estudo dos fenômenos psíquicos (Brentano, 1874/1995; McAlister, 2004).

Os fenômenos físicos são os objetos dados pela percepção. Eles não têm existência em si, mas existem apenas na experiência. Exemplos de fenômenos físicos são as cores, os sons, os sabores, os cheiros, as sensações, etc. (Brentano, 1874/1995). O autor ilustra, com o seguinte exemplo, a inexistência dos fenômenos físicos:

John Locke realizou um experimento no qual, após aquecer uma mão e esfriar a outra, mergulhou ambas simultaneamente em uma mesma bacia de água. Ele sentiu calor em uma mão e frio na outra, provando assim que nem o calor e nem o frio existem realmente na água (Brentano, 1874/1995, p. 9).

Os fenômenos psíquicos são atos mentais e, diferentemente dos fenômenos físicos, são reais em si mesmos: eles existem fenomenal e realmente (Brentano, 1874/1995; McAlister, 2004; Smith, 1996). Ao discorrer sobre os fenômenos psíquicos, Brentano (1874/1995, p. 10) afirma que

de sua existência nós temos aquele claro conhecimento e completa certeza.... Consequentemente, ninguém pode realmente duvidar de que o estado mental que ele percebe em si existe, e de que ele existe assim como ele o percebe.

Brentano explica que postular os fenômenos psíquicos como o objeto da Psicologia remove o elemento metafísico presente na definição tradicional, isto é, estudo da alma. Brentano não nega a existência da alma, mas argumenta que sua concepção de Psicologia é passível de fundamentação dentro das exigências da filosofia positivista por afastar os pressupostos metafísicos. Em suas palavras:

Haja ou não almas, o fato é que os fenômenos psíquicos existem.... Nada, portanto, nos impede de adotarmos a definição moderna ao invés de definirmos Psicologia como ciência da alma. Talvez ambas sejam corretas. As diferenças que ainda existem entre elas é que a antiga definição contém pressupostos metafísicos dos quais a moderna é livre.... Consequentemente, a adoção da concepção moderna simplifica nosso trabalho.... Ela mostra que os resultados de nossa investigação são dependentes de menos pressupostos e, portanto, conduz com maior segurança às nossas convicções (Brentano, 1874/1995, p. 18).

Os fenômenos psíquicos têm como característica distintiva a direção para um objeto intencional. Todo fenômeno psíquico aponta para um objeto que tem existência intencional para o ato mental. O objeto intencional é o que está contido no fenômeno psíquico; portanto, ele só existe como o "conteúdo"interno do estado mental, ou seja, o ser de um objeto nunca pode ser concebido como externo à experiência do sujeito. Nesse sentido, o objeto para o qual a consciência aponta é um fenômeno físico, e o ato de se dirigir a esse objeto é um fenômeno psíquico. Portanto o que é conhecido pelo sujeito é o objeto que existe no ato mental, dado que todo objeto é imanente ao ato mental, concepção presente em toda a tradição aristotélicotomista. Nessa perspectiva, um fenômeno psíquico nunca ocorre como ato isolado, mas sempre com seu correlato, um fenômeno físico. Em suma, os fenômenos físicos são caracterizados por Brentano como o conteúdo da experiência, como a cor vista, o som ouvido ou sabor sentido, enquanto que os fenômenos psíquicos são caracterizados como atos mentais, tais como o ato de ver, o ato de ouvir ou o ato de sentir (Brentano, 1874/1995; Jacquette, 2004a; McAlister, 2004; Smith, 1996). Brentano (1874/1995) detalha a conceituação acerca dos fenômenos psíquicos ao enunciar que

toda ideia ou representação que adquirimos por meio dos sentidos ou da imaginação é um exemplo de fenômeno psíquico. Por representação eu não me refiro àquilo que é representado, mas sim ao ato de representar. Portanto, ouvir um som, ver um objeto colorido, sentir calor ou frio, assim como estados similares de imaginação, são exemplos do que me refiro com este termo.... Além disso, todo julgamento, toda lembrança, toda expectativa, toda inferência, toda convicção ou opinião, toda dúvida, é um fenômeno psíquico. Também deve ser incluída neste termo cada emoção (p. 80-81).

Dessa forma, o objeto para o qual o ato psíquico aponta não precisa necessariamente existir, como no ato de imaginar algo que não existe (por exemplo, um minotauro). Segundo Brentano (1874/1995), um fenômeno físico é, por definição, todo correlato de um ato psíquico e, assim, a imagem do minotauro, por ser correlata de um fenômeno psíquico, é considerada um fenômeno físico. Vale observar que, em alguns casos, o objeto intencionado pelo ato mental será outro ato mental, tal como ocorre na percepção interna. Por exemplo, em atos como lembrar um som ou na percepção de uma cor, o objeto do ato psíquico é outro ato psíquico. Ademais, é importante notar que, segundo a teorização de Brentano, todo e qualquer fenômeno pode ser reduzido a um fenômeno físico ou a um fenômeno psíquico. Assim, não existem, por exemplo, fenômenos originariamente morais, linguísticos ou sociais (Monticelli, 2005).

Brentano classifica os fenômenos psíquicos em três tipos de atos: representações, juízos e emoções (Brentano, 1874/1995). As representações são atos mentais cujos conteúdos são pensamentos, ideias ou imagens, isto é, tudo aquilo que está presente à consciência. As representações são os fenômenos psíquicos fundamentais, sobre os quais os outros fenômenos psíquicos se dão. Elas se referem ao primeiro grau do ato intencional, no qual um objeto está meramente presente ou ausente como algo mentalmente captado. É essencial lembrar que as representações não se referem aos conteúdos representados, mas exclusivamente aos atos de representar (Brentano, 1874/1995; McAlister, 2004; Mulligan, 2004). Os juízos consistem em admitir ou rejeitar um objeto como verdadeiro. Assim, todo e qualquer juízo pode ser reduzido a um juízo de existência, no qual a representação é afirmada ou negada. As emoções, por sua vez, colocam afeto ou repulsa na representação, ou seja, elas estimam o objeto. Os juízos e as emoções dizem respeito ao segundo grau do ato intencional, na medida em que são uma tomada de posição acerca de uma representação e, consequentemente, são um segundo ato psíquico (Brentano, 1874/1995; McAlister, 2004; Mulligan, 2004). Em suma, todos os fenômenos psíquicos são atos de representação ou se baseiam em atos de representação (Brentano, 1874/1995).

Estabelecido que a Psicologia tem por objeto os fenômenos psíquicos, fazse necessário um método preciso para a sua investigação. Brentano estabelece a percepção interna (innere Wahrnehmung) (a mesma expressão empregada por Wundt) como o método de acesso aos próprios fenômenos psíquicos, ou seja, ela é a fonte empírica de conhecimento das representações, juízos e emoções. O autor resume:

A percepção interna dos nossos próprios fenômenos psíquicos.... é a fonte primária das experiências essenciais às investigações psicológicas. E esta percepção interna não deve ser confundida com a observação interna dos nossos estados mentais, uma vez que tal observação é impossível (Brentano, 1874/1995, p. 34).

Para Brentano, a percepção interna é um juízo existencial afirmativo verdadeiro de si mesmo, pois ela é imediata, evidente e infalível, e, por ser critério seguro de certeza, não há porque querer legitimá-la por outros meios. Assim, a percepção interna é o método da Psicologia científica por excelência, uma vez que possibilita o acesso ao seu objeto de estudo por meio de uma experiência efetiva de onde provêm conhecimentos necessários (Brentano, 1874/1995; Monticelli, 2005). Contudo, o autor assevera que, se a investigação da Psicologia se restringisse à percepção dos próprios fenômenos psíquicos, ela certamente nunca poderia aspirar ao estatuto de ciência:

A base empírica da Psicologia permaneceria sempre insuficiente e não confiável se esta ciência estivesse confinada à percepção interna dos nossos próprios fenômenos psíquicos.... Entretanto, este não é o caso. Além da percepção direta de nossos próprios fenômenos psíquicos, nós temos um conhecimento indireto dos fenômenos psíquicos dos outros.... Os fenômenos da vida interior usualmente se expressam, isto é, eles causam mudanças externas perceptíveis (Brentano, 1874/1995, p. 37) (grifos do autor).

Brentano tece uma longa discussão acerca das diferenças entre percepção interna (innere Wahrnehmung) e observação interna (Selbstbeobachtung). Em resumo, ele argumenta que a observação interna é inválida na investigação científica dos fenômenos psíquicos por diversas razões que não serão tratadas aqui devido ao intuito deste artigo (ver Brentano, 1874/1995, em especial o capítulo 2).

 

Considerações finais

Wundt postula que o objeto de estudo da Psicologia é a experiência consciente imediata. Nessa perspectiva, a Psicologia é uma ciência que investiga como um sujeito apreende sensações e sentimentos (conteúdos mentais básicos da experiência imediata). Segundo Wundt, os elementos da experiência imediata são organizados em um todo coerente por meio da fusão, um processo ativo de organização dos elementos mentais que, sob controle de um processo interno de vontade, ordena e sintetiza as sensações e sentimentos para compor a experiência em um todo significativo.

Brentano defende que a Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos, atos mentais que apontam para objetos que têm existência intencional, isto é, objetos cuja existência depende da atividade mental de um sujeito. Assim, o objeto para o qual a consciência aponta é um fenômeno físico, e o ato de se dirigir a esse objeto é um fenômeno psíquico. Em outras palavras, os fenômenos físicos são caracterizados por Brentano como o conteúdo da experiência, enquanto que os fenômenos psíquicos, como atos mentais. Nesse sentido, a Psicologia não deve investigar a cor vista, o som ouvido ou o sabor sentido, mas sim o ato de ver, ouvir ou sentir.

Embora as implicações das obras de Wundt e de Brentano no desenvolvimento ulterior da História da Psicologia estejam fora do escopo deste artigo, vale notar que o trabalho de Wundt deu origem ao estudo experimental dos fenômenos psicológicos e que a forma inovadora pela qual Brentano conceitua o objeto de estudo da Psicologia exerceu grande influência sobre a Psicologia, a Filosofia e a Linguística moderna. Nesse sentido, esperase que este artigo tenha demonstrado o início de um longo debate ainda em voga: qual deve ser o objeto de estudo da Psicologia?

 

 

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* Psicólogo formado pela PUC-SP, especialista em clínica analítico-comportamental pelo Núcleo Paradigma e mestrando em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento, na PUC-SP. Atua como psicólogo clínico no Núcleo Paradigma e como docente da graduação em Psicologia da Universidade São Francisco.