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Psicologia em Revista

versión impresa ISSN 1677-1168

Psicol. rev. (Belo Horizonte) vol.20 no.3 Belo Horizonte set. 2014

https://doi.org/DOI-10.5752/P.1678-9523.2014v20n3p446 

ARTIGOS

DOI - 10.5752/P.1678-9523.2014v20n3p446

 

A crítica à psicanálise: um capítulo censurado?

 

The criticism of psychoanalysis: a censored chapter?

 

La crítica al psicoanálisis: ¿un capítulo censurado?

 

 

Flávio Fernandes Fontes*

 

 


Resumo

A psicanálise está bastante difundida na pós-graduação brasileira. No entanto o número de pesquisas sobre as críticas à psican álise é notavelmente pequeno, e a revisão de literatura aponta que ainda não há um claro reconhecimento da crítica à psicanálise como um campo de pesquisa. Com exceção de um autor (Beividas), tampouco há um retrato fiel da amplitude e diversidade das críticas à psicanálise. Seguindo Dufresne, propomos a denominação de Estudos Freudianos Críticos (EFC) para o conjunto de trabalhos que estudam a psicanálise e se inserem nessa perspectiva crítica. Procuramos chamar a atenção para o tema, realizando uma descrição básica do trabalho de cinco dos principais autores do campo: Ellenberger, Sulloway, Roazen, Grünbaum e Macmillan. Como conclusão, argumentamos que a inclusão dos EFC é algo fundamental no contexto do ensino e pesquisa da psicanálise, pois, sem a presença da crítica, o ensino da psicanálise corre o risco de ser alienante.

Palavras-chave: Psicanálise. Crítica. Pesquisa.


Abstract

Psychoanalysis is widely spread in Brazilian post-graduation. However, the number of researches on the criticisms upon psychoanalysis is remarkably small, and literature review indicates that there is still not a clear acknowledgment of the criticism towards psychoanalysis as a field of research. With the exception of one author (Beividas), nor is there a reliable portrait of the amplitude and diversity of the criticism towards psychoanalysis. Following Dufresnes' line, we propose the denomination of Critical Freud Studies (CFE) for the group of works that study psychoanalysis and fit into this critical perspective. We attempt to draw attention to the issue by performing a basic description of the work of five main authors in the field: Ellenberger, Sulloway, Roazen, Grünbaum and Macmillan. In conclusion, we argue that the inclusion of CFE is fundamental within the context of teaching and research in psychoanalysis, because without the presence of criticism psychoanalysis risks being alienated.

Keywords: Psychoanalysis. Criticism. Research.


Resumen

Hay una gran difusión del psicoanálisis en el posgrado brasileño. Sin embargo, el número de investigaciones sobre las críticas al psicoanálisis es muy pequeño, y la revisión de la literatura indica que aún no existe un claro reconocimiento de la crítica al psicoanálisis como un campo de investigación. Con la excepción de un autor (Beividas), ni tampoco hay una imagen fiel de la amplitud y diversidad de las críticas del psicoanálisis. Siguiendo Dufresne, proponemos la designación de Estudios Freudianos Críticos (EFC) para lo conjunto de trabajos que estudian el psicoanálisis en una perspectiva crítica. Buscamos llamar la atención para lo tema realizando una descripción básica de la obra de cinco de los autores principales del campo: Ellenberger, Sulloway, Roazen, Grünbaum y Macmillan. En conclusión, se argumenta que la inclusión de los EFC es algo fundamental en lo contexto de la enseñanza y la investigación del psicoanálisis, ya que, sin la presencia de la crítica, la enseñanza del psicoanálisis corre el riesgo de ser alienante.

Palabras clave: Psicoanálisis. Crítica. Investigación.


 

"O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado" (Lacan, 1998, p. 260).

 

 

Introdução

Nosso interesse em escrever sobre esse tema começou depois duas constatações: a grande difusão da psicanálise na pós-graduação brasileira e a presença muito pequena do estudo das críticas à psicanálise. Começaremos mostrando alguns dados para exemplificar o primeiro ponto. A plataforma de busca de currículos Lattes nos mostra 5.112 resultados de professores doutores quando usamos a palavra-chave "psicanálise" para uma busca por assunto (título ou palavra-chave da produção). Uma consulta ao Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil (diretório do CNPq) revelou-nos 328 grupos com o descritor "psicanálise". Já em uma pesquisa na qual se buscou identificar quais eram os periódicos avaliados pela CAPES em 2009 que publicavam prioritariamente em psicanálise, foi constatada a presença de 65 periódicos psicanalíticos, dos quais 46 eram brasileiros (Fontes, 2010).

Em meio a tanta pesquisa e publicação que se utiliza da psicanálise, é digno de nota a relativa falta de estudo das críticas à psicanálise no cenário brasileiro. Rudge (2001) cita os trabalhos de Karl Popper, Paul Roazen, Malcolm Macmillan, Jeffrey Masson, Frederick Crews e Frank Cioffi, e realiza uma crítica da crítica, valendo-se da concepção lacaniana da psicanálise como ética. Consideramos o seu argumento muito interessante, mas, infelizmente, a autora julga toda a chamada "nova" crítica à psicanálise como um bloco só, caracterizado como sendo um grupo de defensores do empirismo lógico, o que é um retrato extremamente inexato.

Inexato porque, mesmo entre aqueles mais próximos do rótulo de "positivistas", tal representação da crítica como se ela fosse homogênea esconde fortes discordâncias, como a que existe entre Frank Cioffi e Adolf Grünbaum, e entre ambos e Karl Popper, todos críticos da psicanálise, mas por razões diferentes.

Há também integrantes da nova crítica que Rudge (2001) não cita e que têm embasamento ainda mais afastado de uma epistemologia positivista, como Borch-Jacobsen (1996), que poderíamos qualificar de construcionista, dado que ele se define como "um cético que acredita que os fatos em ciências humanas são sempre artefatos, construções, resultantes de interações complexas" (Borch- Jacobsen, 2007a, p. 141). Além desse exemplo, acrescentaríamos também que muitas críticas históricas não recorrem à Filosofia da Ciência, mas atacam Freud justamente no campo ético, como faz, por exemplo, Swales (2007).

Mezan (2006) discute a obra de Grünbaum (1984), mas não a relaciona suficientemente ao contexto maior das críticas à psicanálise, deixando de mencionar, por exemplo, a discussão que Robinson (1993) e Cioffi (1998) fazem sobre sua obra, e o apoio que Macmillan (1997) lhe oferece.

O trabalho nacional que melhor retrata a complexidade da crítica à psicanálise é o de Beividas (2009), que apresenta a diversidade dos estudos críticos dividindoos em:

a) críticas documentais,
b) epistêmicas;
c) estilísticas; e
d) naturalistas.

Sintomaticamente, Beividas (2009) lamenta o fato de que a psicanálise responde muito pouco a tais críticas. De fato, as respostas que conhecemos não são numerosas: podemos citar, além de Mezan (2006) e Rudge (2001), as respostas de Holt (1999), Lear (1995) e Robinson (1993). O mais recente Livro negro da psicopatologia contemporânea (Jerusalinsky & Fendrik, 2011) não entra exatamente no mesmo plano de discussão, já que, mesmo sendo uma reação ao Livro negro da psicanálise (Meyer, 2007), não se dedica propriamente a realizar um exame das críticas à psicanálise contidas na obra de Meyer, mas sim responde oferecendo um exame crítico do DSM-IV.

Por último, o recente artigo de Xavier (2010) chama a atenção para o desconhecimento da obra de Henri Ellenberger, um historiador fundamental da psicanálise, cuja obra tem sido considerada um marco, que abriu um novo campo de pesquisa. Como afirmam Roudinesco & Plon (1998, p. 175), Ellenberger "deve ser considerado como o fundador da historiografia erudita do freudismo, da psicanálise e da psiquiatria dinâmica". O trabalho de Ellenberger traz contribuições enormes por oferecer uma versão extremamente bem documentada da história da psicanálise em contraponto à versão de Ernest Jones, mais idealizadora de Freud.

O pequeno número de textos que a nossa revisão encontrou sobre as críticas à psicanálise também revelou que, com exceção de Beividas (2009), não parece haver na literatura brasileira um reconhecimento pleno e uma discussão mais substancial desse tema como um campo específico de pesquisa, o qual, inclusive, desenvolveu-se bastante nas últimas décadas.

Na verdade, como mostra Dufresne (2006, 2007a), as críticas à psicanálise constituem todo um campo delimitado de estudos, os Estudos Freudianos Críticos (EFC), que apresentam uma variedade enorme entre si. Existem críticas epistemológicas (Cioffi, 1998; Grünbaum, 1984), críticas históricas (Ellenberger, 1970; Roazen, 1978; Sulloway, 1979), críticas que fazem o entrelaçamento entre a história, a crítica teórica e a epistemologia (Borch-Jacobsen, 1996; Esterson, 1993; Macmillan, 1997; Sulloway, 1991; Webster, 1999), obras de aberta polêmica (Crews, 1999; Meyer, 2007), de divulgação e popularização da crítica (Eysenck, 1993), e até as que beiram a difamação pessoal de Freud (Thornton, 1983).

Em sua grande maioria, esses trabalhos têm sido muito pouco citados e quase nunca discutidos na produção acadêmica nacional. Ao contrário do que podem parecer à primeira vista, as críticas à psicanálise são extremamente variadas e têm muito a oferecer para o entendimento que os próprios psicanalistas têm a respeito do seu campo de atuação e pesquisa. Alguns autores críticos têm demonstrado leituras tão atentas e detalhadas de Freud quanto as de qualquer psicanalista, tendo inclusive realizado contribuições dignas de nota para a discussão de temas específicos da história da psicanálise1.

A discussão da literatura crítica ainda está incipiente, e a disparidade entre a literatura internacional e a nacional nesse quesito foi algo ressaltado por Fontes (2011). Por tudo isso, acreditamos ser importante realizar, neste artigo, um trabalho introdutório que possa apresentar alguns dos principais autores do campo da crítica à psicanálise (entendido aqui como um conjunto complexo de diferentes trabalhos que constituem uma área de pesquisa própria, cujas referências formam uma tradição de debate). Esperamos chamar a atenção para o tema como um todo, como um primeiro passo para estimular a discussão dessas pesquisas que se acumulam a partir da década de 1970 e formam os Estudos Freudianos Críticos (EFC). Além disso, apontamos duas das principais discussões suscitadas por esse material e que podem servir de direcionamento para novos estudos.

 

Alguns dos principais autores críticos da psicanálise

 

Henri F. Ellenberger

Em The discovery of the unconscious (Ellenberger, 1970), Henri F. Ellenberger escreveu uma história da descoberta do inconsciente que vai desde os primórdios, nas sociedades primitivas, até os sistemas modernos do início do século XX. A sua história, no entanto, concentra-se na Europa dos séculos XVI ao XIX, e está muito bem fundamentada em fontes primárias. Ellenberger busca os originais das obras literárias, médicas, científicas, passando também pelos jornais, eventos públicos e congressos. Tudo isso para contextualizar devidamente os acontecimentos históricos e a evolução das pesquisas sobre o inconsciente, campo que ele denomina de psiquiatria dinâmica.

A sua erudição está bem fundamentada em um bom conhecimento de línguas. Ellenberger cita trabalhos em francês, alemão e inglês com a mesma facilidade.2 Somada a essa habilidade de poliglota está a de um pesquisador detalhista e incansável, capaz de consultar uma grande quantidade de documentos, e, por último, a habilidade de historiador capaz de identificar grandes tendências e agrupar fatos de modo a dar um sentido para uma vasta gama de acontecimentos que, do contrário, pareceriam sem relação uns com os outros. Tudo isso faz com que o livro em questão tenha se tornado uma realização ímpar e referência obrigatória para o estudo da história da psicanálise3.

Ao mostrar a psicanálise em um contexto histórico muito maior do que Freud e seus discípulos enxergavam na sua época, Ellenberger se tornou um marco da historiografia da pesquisa em história das ideias psicológicas de um modo geral. Além disso, sua perspectiva não era de crítica à teoria da psicanálise, na verdade Ellenberger era um grande simpatizante da teoria psicanalítica; sua crítica se dirigia à história da psicanálise que existia em sua época, seja a escrita pelo próprio Freud ou a biografia deste escrita por Ernest Jones, que ele julgava mistificadora e cheia de erros.

O que faz com que listemos sua obra dentre aquelas que oferecem críticas à psicanálise é o fato de que a pesquisa histórica realizada por Ellenberger o fez revelar que havia nos relatos de Freud muito de mitologia e lenda. Ao inaugurar a aplicação da pesquisa histórica de longo alcance e com método mais profissional de consulta de documentos na área da Psicanálise, Ellenberger abriu as portas para toda uma série de obras que iriam citá-lo invariavelmente e que iriam levar o questionamento histórico da psicanálise a um novo patamar4.

O achado mais polêmico e emblemático de Ellenberger foi publicado em um artigo de 1972 (Ellenberger, 1993), em que revelou que havia encontrado documentos relativos à internação de Bertha Pappenheim (paciente conhecida pelo pseudônimo de Anna O.) em um sanatório. Segundo Breuer, o tratamento da paciente havia terminado em junho de 1882, e o caso foi um sucesso, tendo por resultado a cura da paciente. No entanto documentos do sanatório de Bellevue mostram que Pappenheim ficou internada nessa instituição de 12 julho de 1882 até 29 de outubro de 1882, com sintomas semelhantes aos descritos por Breuer. Esses documentos mostraram que ela não havia sido curada, colocando em dúvida a veracidade do caso fundamental da psicanálise e a própria reputação de Freud e Breuer de uma maneira que nunca havia sido feita antes5.

 

Frank J. Sulloway

O principal trabalho de Sulloway (1979), Freud, biologist of the mind, pode ser criticado por exagerar a tese de que Freud seria um criptobiólogo, isto é, um teórico fundamentado na Biologia, mas que esconderia essa realidade sob uma fachada psicológica. Pode ser criticado também por exagerar o papel de Fliess, atribuindo a ele muito do conteúdo que viria a ser compreendido posteriormente como psicanalítico.

No entanto, embora essas duas ideias ocupem lugar de destaque na exposição de Sulloway, existem outros motivos que fazem com que o livro em questão seja uma contribuição perene para os estudos sobre Freud. Uma dessas contribuições é o estudo das ideias de Freud no contexto do darwinismo e do surgimento da sexologia, fazendo com que Freud seja visto menos como um gênio solitário que inventou a psicanálise sozinho, mas como um produto da sua época, que tinha, na cultura ao seu redor, recursos abundantes para produzir a sua teoria.

Outro mérito de Sulloway é seguir o método de pesquisa histórica de Ellenberger para questionar o que entende como uma quantidade enorme de mitos psicanalíticos. A lista fornecida por Sulloway de mitos e suas refutações é extensa e realiza uma revisão de alguns episódios da história da psicanálise tal como contados por Freud. Sulloway questiona que a recepção às ideias de Freud foi tão hostil quanto ele fez crer, questiona o dito isolamento intelectual de Freud e também a sua originalidade, que teria sido enormemente exagerada. Todos esses mitos trabalhariam em conjunto para reforçar o mito central de Freud como herói.

Por fim, em seus capítulos finais, Sulloway aborda o papel desses mitos na propagação da psicanálise como movimento e procura explicitar como a censura, a distorção e a propaganda têm seu papel no estudo da psicanálise como ideologia e movimento. A atualidade do trabalho de Sulloway se deve ao fato de que a mitologia psicanalítica continua sendo repetida sem maiores questionamentos e referências a trabalhos historiográficos como esse.

Além do livro Freud, biologist of the mind, é importante ressaltar outro texto: Reassessing Freud's case histories: the social construction of psychoanalysis (Sulloway, 1991), que tem o mérito de concentrar em um só artigo as contribuições de um grande número de publicações e, por isso, merece ser lido com muita atenção. Ele trata dos principais casos clínicos de Freud e mostra como as evidências trazidas por publicações posteriores evidenciam o quanto eles não são confiáveis. Para Sulloway (1991), Freud distorceu significativamente aquilo que aconteceu na clínica e não levou em consideração informações que poderiam facilmente levar a interpretações diferentes e mais acertadas.

 

Paul Roazen

Roazen começou suas pesquisas na mesma época de Ellenberger, mas sua ênfase foi diferente. Em vez de buscar documentos, Roazen (1978) concentrouse em entrevistar pessoalmente um número enorme de psicanalistas e pessoas importantes na história da psicanálise. Graças a seu registro da história oral da psicanálise, temos hoje um retrato bem mais humano de Freud e de vários personagens dos primeiros anos de desenvolvimento da psicanálise. Foi Roazen quem revelou, pela primeira vez, que Freud havia analisado sua filha Anna, o que continua a ser um choque para o padrão de ética psicanalítico. Roazen também explorou as decisões éticas bastante questionáveis de Freud em relação ao caso de Victor Tausk, que acabaria cometendo suicídio. Crítico da biografia de Jones, Roazen se esforçou por encontrar o homem Freud que se escondia por trás de Freud, o mito. Burston (2006) e Dufresne (2007b) fornecem um resumo de sua vida e obra.

 

Adolf Grünbaum

O principal livro de Grünbaum (1984) pode ser definido como um forte ataque ao método da associação livre. Nessa obra, ele argumenta basicamente que todos os dados clínicos coletados pela associação livre estão contaminados pela sugestão. A enunciação do método da associação livre pede que o sujeito fale tudo o que vier à sua cabeça, mesmo que pareça sem importância, mas o comportamento do lado do analista não tem uma orientação correspondente que seja clara o suficiente para chamarmos de método. Temos uma instrução verbal clara e precisa para o analisando, mas o material que se segue não é escutado passivamente pelo analista, ele reage de acordo com uma teoria. Assim, junguianos descobrem material junguiano; freudianos, material freudiano; lacanianos, material lacaniano ad infinitum.

 

Malcolm Macmillan

Macmillan (1997) explora todo o percurso teórico de Freud de uma perspectiva crítica, dando especial atenção ao papel da sugestão na criação dos dados e nas contradições internas na teoria psicanalítica. Destaca-se seu grande conhecimento da literatura psicanalítica como um todo, que utiliza de forma peculiar para atacar a própria tradição psicanalítica. Embora prejudicado pelo compromisso com uma epistemologia derivada das ciências naturais e experimentais, Macmillan procura convencer o leitor de que existem razões convincentes para abandonarmos a teoria psicanalítica como infrutífera e incapaz de resolver seus problemas internos. Para ele, a psicanálise não consegue descrever, de forma melhor que outras teorias, os aspectos que procura explicar do comportamento humano. Seu trabalho se destaca por ser talvez o exame crítico mais abrangente e exaustivo do percurso teórico freudiano disponível.

 

O problema da sugestão e o papel da pesquisa histórica

O conjunto das críticas mencionadas brevemente aqui provoca diversos questionamentos sobre a prática da psicanálise, que podem levar a reavaliações importantes da sua teoria e história. Gostaríamos de apontar aqui somente duas questões que nos parecem especialmente centrais e que podem suscitar outras pesquisas.

A primeira delas é a reconsideração do papel da sugestão na psicanálise. A psicanálise se funda justamente por uma pretensão de ir além da sugestão hipnótica, e a metáfora de Freud (2006) na qual se compara a pintura (que seria o trabalho de sugestão, funcionando per via de porre) e a escultura (que seria a psicanálise, funcionando per via de levare) é especialmente emblemática dessa pretensão.

Porém se a eliminação da sugestão é uma tarefa impossível, como parecem sugerir especialmente Grünbaum e Macmillan, então é preciso rever o papel do analista como mais ativo e interveniente do que a imagem proposta por Freud permite reconhecer. Afinal, o quão diferente pode ser a escultura revelada por dois analistas diferentes a partir do mesmo mármore inicial? Quanta diferença pode haver entre o percurso de análise de um paciente ao fazer sua análise com um ou com outro analista e o quanto essa diferença é devida à sugestão?

A reconsideração do papel da sugestão, por sua vez, parece iluminar de outra maneira também a posição epistemológica da psicanálise. Afinal, qual o estatuto de um conhecimento que deve reconhecer o desejo e a intencionalidade consciente e inconsciente do seu artesão na fabricação e manipulação dos dados e das provas que são a argamassa da sua construção argumentativa? O caso clínico revela tanto sobre o analista quanto sobre o paciente, e fica sempre interrogado sobre de quem se está falando efetivamente.

O conhecimento analítico é produzido sob um relacionamento específico, fruto de uma interação verbal entre duas pessoas, mas há uma assimetria de poder: quando chega o momento de escrever o produto final, o analista está sozinho. O que nos leva à segunda questão que gostaríamos de destacar como sendo possível extrair dessa literatura crítica: a pesquisa histórica parece deslocar o lugar de poder em que se situa o discurso do analista em seu relato de caso, que não comparece mais como único especialista a ter voz sobre o que aconteceu nas sessões.

Agora ele se vê tendo de dividir suas interpretações com outros: seja com o próprio paciente, seja com outro analista do mesmo paciente, seja com quem quer que seja que consulte as notas deixadas pelo analista ou outro documento/ discurso que se manifeste como acessível ao pesquisador da história e que permita construir o caso de forma diferente. Podemos ver um exemplo de discurso do paciente questionando a interpretação dada pelo analista (nesse caso, Freud) em uma entrevista com o Homem dos Lobos, na qual este afirma:

Na minha história, que é que foi explicado pelos sonhos, decisivamente? Eu não saberia dizer. Freud remeteu tudo à cena primária, que ele deduziu do sonho. Mas, no sonho, ela não aconteceu. Por exemplo, quando ele viu nos lobos brancos os camisolões de dormir, ou alguma coisa desse gênero, quando viu neles os lençóis da cama ou as roupas, afinal, é uma coisa sem pé nem cabeça na minha opinião [...] a interpretação de Freud, é, não sei... Acho que é ir longe demais (Obholzer, 1993).

A releitura dos mitos fundadores também é uma tendência na pesquisa histórica em Psicologia, que chega a um momento em que vários episódios clássicos são questionados, como o Pequeno Albert (Beck, Levinson & Irons, 2009, 2010; Fridlund, Goldie, Beck & Irons, 2012; Harris, 1979, 1980, 2011; Samelson, 1980), a transmissão das ideias de Wundt nos Estados Unidos (Danziger, 1979) ou a fundamentação da psicologia social em Comte, reivindicada por Gordon Allport (Samelson, 1974).

A psicanálise, como a Psicologia, não é mais uma ciência jovem. A produção historiográfica cada vez maior e frequentemente revisionista faz com que o passado da psicanálise se torne um lugar de múltiplas interpretações e disputas, que interroga a todo o momento a prática analítica do presente.

 

Considerações finais

Neste texto, limitamo-nos a poucos autores que julgamos estarem entre os mais influentes e importantes. Mas o conjunto dos EFC é muito mais amplo do que pudemos citar, envolvendo também Jeffrey Masson, Frederick Crews, Robert Wilcocks, Sebastiano Timpanaro, Edward Erwin, Max Scharnberg, John Farrell, François Roustang, Han Isräels e muitos outros.

A disparidade de abordagens, temas e posicionamentos epistemológicos somente torna essa literatura ainda mais interessante e relevante para qualquer estudante de psicanálise. Considerando que continua sendo uma atitude comum o estudo dos casos fundadores (Anna O., Dora, Pequeno Hans, Homem dos Lobos, Homem dos Ratos, Schreber) bem como de toda a obra teórica de Freud a partir somente de uma leitura dos textos originais e de autores psicanalíticos igualmente ortodoxos, o estudo de autores críticos se faz mais necessário do que nunca para que a formação do psicanalista não tenha um viés alienante.

Embora a resenha de livros individuais seja louvável, ela não é suficiente para uma correta apreciação da crítica à psicanálise como uma área de pesquisa. Somente o reconhecimento dos EFC (Estudos Freudianos Críticos) como um conjunto pode levar o pesquisador a ter uma noção satisfatória do que esses estudos representam. Isso se dá pelo forte diálogo existente entre os autores do campo, que citam comumente uns aos outros seja para confirmar uma posição, continuar o trabalho de um pesquisador anterior ou se opor a ele.

O silêncio acadêmico em torno dos EFC no Brasil é, no mínimo, curioso, dado que sua importância é muito maior do que o que está sendo representado na literatura atual. A falta de traduções para o português de muitos desses trabalhos críticos certamente é um fator importante para o atual estado de abandono desse tema, mas insuficiente para explicar tamanha indiferença.

Faz-se necessário um esforço editorial que torne acessível essa literatura crítica já disponível em âmbito internacional e um esforço acadêmico de integração desse conhecimento ao estudo, ensino e pesquisa da psicanálise. Concordemos ou não com elas, as críticas à psicanálise não podem continuar sendo um corpo estranho a ser expulso do debate, mas sim devem ser encaradas como contribuições dignas de serem discutidas e que merecem um lugar no ensino e na pesquisa em psicanálise. O ensino da psicanálise, seja nas universidades ou nas instituições psicanalíticas, deve incluir o estudo de tais obras críticas no currículo e fazer sua discussão sem "pré-conceitos".

 

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Texto recebido em outubro 2013 e aprovado para publicação em fevereiro de 2014.

 

 

* Doutorando em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mestre em Psicologia pela UFRN, psicólogo. Endereço: Avenida Jaguarari, 4980, casa 44 - Candelária, Natal-RN. CEP: 59064-500. E-mail: flaviofontes@ outlook.com.
1 Conferir o trabalho de Cioffi (1998) e Esterson (1993) no que diz respeito à teoria da sedução em Freud.
2 Micale (1993) nos informa que Ellenberger conhecia igualmente o espanhol, o holandês e o russo.
3 Ver ensaio de Micale (1993), para uma apreciação da obra de Ellenberger, sua importância e influência.
4 Como Sulloway (1979) e Borch-Jacobsen (1996).
5 Conferir também Borch-Jacobsen (1996).


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