SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 número1Coping de pacientes crónicos, cuidadores y profesionales de la salud índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Revista da SPAGESP

versión impresa ISSN 1677-2970

Rev. SPAGESP vol.16 no.1 Ribeirão Preto  2015

 

ARTIGOS

 

Parentalidade adotiva e psicopatologia infantil: uma revisão de literatura

 

Adoptive parenthood and child psychopathology: a literature review

 

Paternidad adoptiva e psicopatología de niños: una revisión de la literatura

 

 

Nicole Medeiros Guimarães Eboli1; Patrícia Leila dos Santos2; Ana Maria Pimenta Carvalho3; Sonia Regina Pasian4

Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto-SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A adoção de crianças é uma medida de proteção de infantes cujas histórias de vida trazem marcas de vitimizações diversas. Buscando conhecer o que a literatura científica tem revelado sobre os fatores de risco e proteção envolvendo psicopatologia infantil e cuidados parentais em filiações adotivas, realizou-se um levantamento de trabalhos indexados nas bases de dados Scielo, Lilacs, PsycInfo e Pubmed, cruzando-se os termos "Adoptive Parents" e "Child Psychopathology". Os resultados reiteram a relevância de adequado processo de seleção, preparo e acompanhamento psicológico de pais adotivos, garantindoaos infantes a inserção em ambiente emocionalmente adequado à sua proteção.

Palavras-chave: adoção; psicopatologia infantil; parentalidade.


ABSTRACT

Child adoption is a protective measure for infants whose life stories carry varioussigns of victimization. Seeking to know what the scientific literature has revealed about risk factors and protection involving child psychopathology and parental care in adoptive affiliations, a research with indexed articles was made in Scielo, Lilacs, PsycInfo and PubMed databases, using the terms "adoptive parents" and "child psychopathology". It was confirmed the importance of appropriate selection process, psychological preparation and counseling for adoptive parents, which assure infants insertion in an emotionally appropriate environment for their protection.

Keywords: adoption; child psychopathology; parenthood.


RESUMEN

La adopción de niños es una medida de protección de infantes cuyas historias de vida traen diversas marcas de victimización. Tratando de saber lo que la literatura científica ha revelado acerca de los factores de riesgo y protección relacionados con la psicopatología infantil y la crianza de los hijos en las afiliaciones de acogida, se realizó una encuesta de artículos indexados en las bases de datos Scielo, Lilacs, PsycInfo e PubMed, cruzando los términos "padres adoptivos" y "psicopatologia infantil". Los resultados subrayan la importancia de adecuado proceso de selección y la preparación psicológica de los padres adoptivos, asegurando la inserción de niños en adecuado ambiente para su protección.

Palabras clave: adopción; psicopatología de niños; paternidad.


 

 

Em meio às diferentes realidades que psicólogos brasileiros vivenciam em suas práticas, a área da Psicologia Jurídica é caracterizada por temáticas e desafios bastante específicos, que demandam constantes e aprofundados estudos sobre o desenvolvimento psicológico dos indivíduos e dos elementos intervenientes nas relações interpessoais. Dentre as atribuições dos psicólogos judiciários, quando inseridos numa Vara da Infância e Juventude, encontram-se a seleção e a preparação das chamadas famílias substitutas, desenvolvendo atividades de orientação e de aconselhamento aos pretendentes à adoção. No geral, considera-se que, na constituição de uma nova família, é fundamental proporcionar para crianças/adolescentes que já sofreram ruptura afetiva anterior, um ambiente acolhedor e favorecedor do estabelecimento de novos vínculos. Além disso, existe a preparação desses casais, com o encaminhamento a programas de orientação e grupos de auxílio, sempre visando otimizar e qualificar os processos de adoção (Shine, 2005).

No Brasil, a legislação preconiza que os candidatos à adoção participem de programas oferecidos pela Justiça da Infância e Juventude, visando a preparação psicológica e orientação dos mesmos (Lei nº 12.010, 2009). Além desta tarefa, o psicólogo também irá, junto com a equipe interprofissional, acompanhar o desenrolar do processo da adoção e realizar intervenções necessárias para o estreitamento dos vínculos familiares entre pais e filhos adotivos (Paiva, 2004). Trata-se de atividade bastante complexa, exigindo criterioso trabalho do profissional de Psicologia, e seu constante aprimoramento, visando à garantia da qualidade deste tipo de avaliação e intervenção psicológicas num campo de elevada multiplicidade de variáveis envolvidas. O tema tem despertado interesse de pesquisadores que se dedicam à área da adoção de crianças na perspectiva da Psicologia, produzindo investigações e estudos de caso que contribuem para o incremento do conhecimento nesse campo e, assim, colaboram para que a atuação dos psicólogos esteja suficientemente subsidiada do ponto de vista científico.

A adoção é um tema bastante complexo, conforme apontam alguns autores, por exemplo, Levinzon (2006). Neste aspecto, a ação de adotar proporciona à criança uma família, um lar onde receberá carinho e cuidados para crescer sadiamente, incluída numa base social segura. Aos pais, a adoção oportuniza que realizem o desejo de ter um filho.

Boing e Crepaldi (2004) ressaltam arelevância dos cuidados em saúde mental no processo de desenvolvimento infantil, com ênfase na maneira como a criança é tratada por seus pais, sobretudo pelo cuidador principal que, em sociedades ocidentais, geralmente é a mãe. Ainda neste estudo, as autoras apontam o abandono materno como fator de risco ao desenvolvimento, ao passo em que ressaltam os benefícios da maternagem adotiva como fator de proteção para o desenvolvimento do bebê, possibilitando a ele o recebimento do cuidado e carinho de que tanto necessita.

Em outro estudo nacional, apresentado por Otuka, Scorsolini-Comin e Santos (2012), são destacados ganhos e possibilidades deste tipo de iniciativapara as crianças que se encontram desprovidas de possibilidades de permanência junto de suas famílias biológicas. Nas palavras dos autores: "O desafio, portanto, passa pela necessidade de que a nova família seja capaz de oferecer um ambiente seguro e estável no qual a criança possa crescer, identificar-se, tomar contato com a sua história e, enfim, criar a sua própria experiência" (p.56).

Sendo assim, o encaminhamento de crianças para famílias substitutas, seja como medida definitiva (adoção) ou provisória (guarda, tutela) é considerado como elemento potencialmente atenuador de riscos ao desenvolvimento de crianças cujas histórias de vida trazem marcas de vitimização, abandono e ruptura de vínculos. No entanto, embora o encaminhamento de crianças para famílias substitutas seja considerado tecnicamente e judicialmente uma medida de proteção, há elementos que apontam para possíveis riscos ao desenvolvimento nestes processos, relacionados a diferentes situações e contextos, conforme indicamalguns autores no Brasil.

Lee e Matarazzo (2001), por exemplo, verificaram que crianças adotivas são frequentemente levadas a serviços de saúde mental, além de referirem que tal constatação foi apresentada por diversos outros pesquisadores nos últimos 30 anos. Segundo os autores, esta observação sugere que, mesmo sendo benéfica à maioria das crianças e dos adolescentes adotivos, a condição de viver em umlar substitutoparece, de alguma forma, aumentar a possibilidade de desenvolvimento de conflitos psicológicos.

Segundo Chaves (2002), apesar de não haver consenso na literatura científica, a maior parte das pesquisas considera existir associação positiva entre vulnerabilidade psicológica e adoção. Tais pesquisas apontam para diversas origens de referidos problemas: fatores biossociais ou genéticos, patogênese dos processos de adoção, efeitos a longo prazo dos cuidados pré-adotivos e problemas nas relações pais-criança adotiva. Assim, são destacadas as possibilidades de interferências de diversos fatores como possíveis geradores de problemas nas adoções: tanto aqueles relativos à origem biológica da criança, como elementos relativos aos pais adotivos, seus sentimentos e modos de se relacionar com os filhos que acolhem.

Ao focalizar o estudo das características de pais adotivos, temos no Brasil trabalhos como o de Rosa (2008), em que a autora aponta para questões relacionadas a aspectos inconscientes dos pais adotivos. Ao analisar fantasias que podem emergir ao se decidir pela adoção diante da impossibilidade de gerar filhos biológicos, a pesquisadora sugere que oscomponentes internos podem interferir noadequado estabelecimento de vínculos com os filhos e, assim, desfavorecer a efetivação da adoção afetiva. Segundo a autora

Uma gestação simbólica só pode ser realizada com sucesso depois que o luto pelo filho biológico que não veio for trabalhado internamente, para não deixar na vida familiar esse espaço como não-dito, referenciando a todo instante o filho real ao filho ideal. Articulada à idealização dos pais, reafirma-se a rejeição sentida pelo filho, e o ciclo continua (p. 107).

Nesse contexto, Rosa (2008) aponta a necessidade de intervenções e apoio psicológico junto às famílias adotivas, sobretudo ao considerar a elevada frequência de adoções disparadas por situação de infertilidade dos pais. Embora existam muitos casais que adotam mesmo possuindo filhos biológicos, a infertilidade, na visão desta autora, pode incluir complicadores afetivos. Tais intervenções, focalizando também a família adotante (e não somente as crianças adotadas), teriam a finalidade deevitar possíveis problemas que ameaçariam o sucesso da adoção.

Retomando o estudo de Chaves (2002), mencionado anteriormente, em sua comparação dos cuidados maternos em mães adotivas e biológicas, verificou-se tendência das mães adotivas a apresentarem comportamentos que denotavam maior intrusividade e responsividade, elementos que podem vir a interferir na capacidade de individuação do bebê, afetando seu processo de separação. Por outro lado, no mesmo estudo identificaram-se sinais de maior expressão de afeto por parte das mães adotivas no contato com seus filhos, quando comparadas às mães biológicas. Como possível explicação para estes resultados, a autora aponta que as expectativas das mães adotivas, em sua trajetória diferenciada rumo ao exercício da maternidade, podem conduzi-las a um nível de envolvimento mais intenso com seu bebê, resultando em maior intrusividade e maior necessidade de sucesso no desenvolvimento de seu filho, e, portanto, de seu desempenho como mãe (Chaves, 2002). Portanto, trata-se de uma situação peculiar de maternidade, envolvendo aspectos afetivos que precisam ser devidamente examinados e cuidados ao longo deste processo.

Diante dos estudos apresentados, ao analisarmos produções científicas brasileiras voltadas para os processos de adoção, verifica-se a relevância de se atentar para aspectos relativos aos sentimentos e comportamentos de pais adotivos. Isso porque esses componentes têm sido apontados como fatores cruciais nas possibilidades de sucesso das adoções, bem como relevantes elementos intervenientes no desenvolvimento e saúde mental das crianças encaminhadas para famílias substitutas.

Assim, justifica-se a investigação sistemática do conhecimento produzido e dos estudos que visemà compreensão de possíveis características de pais adotivos que configurem risco ou proteção para os filhos, sobretudo no que se refere à saúde mental dessas crianças, inclusive em âmbito internacional, visando subsidiar práticas psicológicas no contexto da adoção de crianças. Existem diferenças legais, econômicas e culturais entre os países no que se refere aos procedimentos que envolvem os processos de adoção de crianças, com maior ou menor intervenção do Estado a depender de onde ela é realizada, podendo se dar de forma direta ou intermediada. Entretanto, torna-se relevante conhecer estes possíveis fatores psicológicos e comportamentais de risco, referentes aos pais adotivos, dadas as peculiaridades deste tipo de relações intrafamiliares, independente da legislação em vigor.

Diante desse percurso argumentativo, o objetivo do presente trabalho é conhecer o que a literatura científica no âmbito da Psicologia, da Saúdee das Ciências Biomédicas tem revelado sobre os possíveis fatores de risco e proteção envolvendo psicopatologia infantil e cuidados parentais em filiações adotivas.

 

Método

Frente ao objetivo proposto, realizou-se uma revisão de literatura científica sobre o tema da parentalidade adotiva em associação à psicopatologia infantil. Para tanto, utilizou-se as bases de dados Scielo, Lilacs, PsycInfo e Pubmed, cruzando-se os termos "adoptive parents" e "child psychopathology".

Como critérios de inclusão no presente trabalho, foram utilizados: estudos publicados no período de 2003 a 2012 (dez anos de levantamento da literatura científica), em formato de artigos em periódicos (journals), objetivando-se, assim, retratar produções científicas contemporâneas e que tenham sido avaliadasquanto a sua adequação e qualidade científica, antes de serem publicadas. Após leitura dos títulos e abstracts, foram excluídos da amostra inicialmente identificada de artigos, aqueles duplicados nas bases de dados, além dos publicados em línguas diferentes do inglês, português e espanhol, bem como os que não retratassem pesquisas envolvendo o tema central deste trabalho: fatores de risco e proteção envolvendo características/comportamentos dos pais adotivos e suas relações com psicopatologias infantis. Foram ainda excluídos da amostra, estudos teóricos ou que retratassem revisões de literatura científica a respeito do tema, selecionando-se assim apenas os que representassem relatos de pesquisa originais com seres humanos acerca da temática abordada.

Os trabalhos selecionados foram acessados na íntegra, para leitura e adevida análise, mediante categorias pré-definidas relacionadas ao perfil dos trabalhos (ano de publicação, país de origem, objetivos, principais métodos e resultados). Ainda, buscou-sesistematizar as informações sobre os artigos apenas após sua leitura completa, verificando-os em relação aos critérios de inclusão na amostra, excluindo-seaqueles que não os preenchessem. Por fim, realizou-se uma análise do conjunto dos trabalhos encontrados, em termos descritivos, almejando-se retratar evidências científicas acumuladas na área, bem como a amplitude de pesquisas encontradas.

 

Resultados

A partir do levantamento da literatura científica, alcançou-se um total de 59 artigos sobre o tema em foco, sendo 18 no Pubmed e 41 no PsycInfo. As buscas no Scielo e Lilacs não resultaram em indicações de estudos científicos relativos a parentalidade adotiva em associação com psicopatologia infantil. Aplicando-se os critérios de inclusão e exclusão adotados para o presente trabalho, chegou-se a um total de nove artigos, conforme descrito na Tabela 1.

 

 

Em relação aos trabalhos excluídos, após a leitura dos abstracts, estes totalizaram oito, o que foi realizado pelas seguintes razões: dois artigos consistiam emrevisões de literatura (Haugaard & Hazan, 2003; Nickmanet et al., 2005); um focalizou efeitos dos comportamentos dos filhos sobre a saúde mental dos pais adotivos (Finley & Aguiar, 2002); um se constituía como revisão crítica sobre outro trabalho (Lévy-Soussan, 2011), e os outros quatro estavam repetidos nas bases de dados, sendo, portanto, contabilizados apenas uma vez. Após a leitura na íntegra de todos os artigos selecionados, verificou-se que um deles (Iacono & McGue, 2002) mostrou-se pouco relacionado à temática, não enfatizando relações entre pais e filhos adotivos, razão pela qual foi excluído da presente amostra.

Ao analisar os nove trabalhos selecionadospara o presente estudo, verificou-se que a maioria dos artigos (78,0%) foi publicada no período de 2008 a 2012, embora o levantamento tenha compreendido publicações de 2003 a 2012. Já no que se refere à procedência dos investigadores, em todos os artigos estudados os autores eram originários dos Estados Unidos, sendo que em quatro trabalhos (44,4%) foram retratados estudos multicêntricos, envolvendo também pesquisadores de outros países (Finlândia, Inglaterra, Nova Zelândia e Suécia).

Observou-se ainda que quatro estudosanalisados (44,4%) pertenciam a um mesmo grupo de pesquisa, unindo investigadores de diferentes estados norte-americanos (Oregon, Washington, California, Pensilvânia e Louisiana). Retratavam, portanto, facetas diferentes de um mesmo projeto longitudinal de pesquisa envolvendo crianças adotivas, publicados no intervalo entre 2008 e 2012.

No que tange aos objetivos dos trabalhos, verificou-se que a principal finalidade esteve relacionada à busca de evidências empíricas acerca da interação entre características genéticas e ambientais no desenvolvimento das crianças. Mais especificamente, foram focalizados fatores de risco para psicopatologias (histórico dos pais biológicos) e características emocionais e comportamentais dos pais adotivos que poderiam interferir na concretização ou não desse risco desenvolvimental.

Nesse contexto, os principais problemas da infância/adolescência focalizados no histórico de vida dos pais adotivos foram: abuso de substâncias (Kendler et al., 2012; Riggins-Caspers, Cadoret, Knutson, & Langbehn, 2003), ajustamento social/comportamento agressivo (O'Connor, Caspi, DeFries, & Plomin, 2003), depressão (Pemberton et al., 2010) e esquizofrenia (Roisko, Wahlberg, Hakko, Wynne, & Tienari, 2011).

Em relação à metodologia adotada, verificou-se que cinco artigos (55,5%) retratavam pesquisas com delineamento longitudinal, avaliando crianças em diferentes momentos de seu desenvolvimento. Já os outros quatro trabalhos (44,4%) eram transversais, ou seja, avaliações realizadas em um momento específico do desenvolvimento, sendo que, destes, metade referia-se a estudos realizados mediante a comparação de grupos, utilizando o formato "caso clínico versus controle", enquanto os demais tinham um caráter retrospectivo.

Mais especificamente, foi bastante frequente a utilização do chamado "Adoption design", delineamento de pesquisa de aproximadamente 67,0% dos artigos estudados. Trata-se de metodologia de pesquisa que busca avaliar não somente as crianças e seus pais adotivos, mas também seus pais biológicos (ao menos a mãe). Esse tipo de estudo está voltado para focalizar interações entre influências genéticas e ambientais no desenvolvimento.

No que tange às amostras utilizadas nessas pesquisas, verificou-se que as principais fontes de recrutamento foram as chamadas "agências de adoção", a partir das quais eram alcançados dados paratriagem e contato com possíveis participantes, para posterior convite ao estudo. Sobre estas "agências de adoção", trata-se de instituições privadas que intermediam as adoções em várias partes dos Estados Unidos (local de origem da maioria dos estudos apontados), sendo este procedimento bastante diverso da realidade brasileira. Conforme dados obtidos em publicação eletrônica do Senado Federal Brasileiro, sobre as adoções nos EUA

Cerca de 41% das crianças são adotadas junto aos serviços sociais públicos e vêm de lares provisórios (foster cares) - a guarda das crianças disponíveis para adoção é entregue a famílias que ganham pelo trabalho, e não a abrigos. Outros tipos de processo - como a adoção privada por meio de agências ou advogados, as de indígenas, e as feitas por parentes - somam cerca de 46%" (Senado Federal, 2013).

As amostras compreenderam, no geral, grupos acima de 150 crianças/adolescentes, acompanhados ao menos de seus pais adotivos. A maioria dos estudos (55,5%), no entanto, envolveu número superior a 300 infantes, com total de participantes maior que 900 indivíduos (entre pais adotivos, biológicos e, em alguns casos, professores).

O estudo que alcançou menor número de participantes, dentre os presentemente analisados, foi transversal e comparativo de grupos (Roisko et al., 2011). Nesse trabalho foram avaliadas famílias adotivas de 46 crianças, filhas de mães esquizofrênicas, e um grupo controle numérica e demograficamente similar. Já o estudo que alcançou número maior de participantes foi o realizado com amostra proveniente da Suécia (Kendler et al., 2012), no qual se alcançou um total de 18.115 crianças adotadas, nascidas entre 1950 e 1993, além de mais de 78 mil pais biológicos e irmãos, bem como 51 mil pais adotivos e irmãos.

No que se refere aos procedimentos de coleta dos dados, verificou-se que, na maioria dos casos (89,0% dos artigos), houve uso de instrumentos padronizados de avaliação (escalas, inventários, questionários, testes psicológicos), com grande variabilidade nos materiais utilizados. Especificamente, o Child Behavior Checklist esteve presente na maioria dos estudos (55,5% dos artigos), como forma de avaliar problemas de comportamento das crianças e adolescentes estudados, sendo respondido geralmente pelos pais adotivos e, em alguns casos, pelos professores. Trata-se de técnica de exame psicológico amplamente utilizada em âmbito nacional e internacional nas pesquisas que focalizam problemas de comportamento infantil, avaliados a partir do relato do responsável pelo cuidado cotidiano das crianças (frequentemente as mães) (Gauy & Guimarães, 2006).

Também foi frequente (55,5% dos artigos) a utilização de algum instrumento padronizado relacionado ao diagnóstico de psicopatologias (por exemplo: Diagnostic Interview Schedule e Escalas Beck, principalmente as de ansiedade e depressão). Em umdos trabalhos (Riggins-Caspers et al., 2003), além de técnicas padronizadas, foram elaboradas entrevistas específicas para o estudo. Em várias pesquisas também foi utilizada a observação do comportamento das crianças em interação com os pais adotivos e/ou entre o casal parental (O'Connor et al., 2003; Leve et al., 2007; Leve et al., 2009; Pemberton et al., 2010; Roisko et al., 2011; Lipscomb et al., 2012).

No artigo com a maior amostra dentre os analisados (Kendler et al., 2012), a coleta dos dados não compreendeu entrevistas ou avaliações individuais, mas a análise de registros de prontuários de saúde e dados demográficos, constantes em bancos de dados organizados na Suécia. Observou-se ainda que a utilização de entrevistas por telefone e/ou preenchimento de questionários e reenvio pelos correios foi razoavelmente frequente (55,5% dos casos), de modo que a coleta de dados em processos individuais não se configurou como procedimento mais comum no conjunto de trabalhos presentemente identificados.

Em relação aos resultados apontados pelos estudos, foram verificadas características ou situações relativas aos pais adotivos que podem atuar como elementos fortalecedores de fatores de risco (sobretudo fatores genéticos) para psicopatologias ou abuso de substâncias nas crianças adotivas, a saber:

a) Instabilidade conjugal, separação dos genitores e comportamentos criminais no lar adotivo (Kendler et al., 2012; O'Connor et al., 2003);

b) Comportamento parental excessivamente rígido ou diretivo, ou com baixa tolerância a falhas dos filhos, diante de crianças/adolescentes com baixo risco genético para psicopatologias ou problemas de comportamento (Leveet al., 2009; Lipscomb et al., 2012; Riggins-Caspers et al., 2003);

c) Sofrimento emocional dos pais adotivos como elemento interferente na comunicação e relacionamento familiares, prejudicial à qualidade dos cuidados e supervisão dos filhos (Pemberton et al., 2010; Roisko et al., 2011);

d) Fatores de risco relativos ao período anterior à adoção, relacionados a vitimizações das crianças na companhia da família biológica ou durante sua permanência em "foster cares", tais como: abuso sexual, negligência e permanência em muitos lares substitutos diferentes (Simmel, 2007).

Por fim, houve um artigo (Leve et al., 2007) que não detalhou dados da pesquisa, apenas apresentou suas hipóteses, objetivos e métodos, quando ainda estava em fase inicial. Alguns dos resultados dessa mesma pesquisa foram apresentados em outros estudos já citados anteriormente (Leve et al., 2009; Lipscomb et al., 2012).

 

Discussão

Analisando-se o conjunto dos resultados, foram observados indicadores de um interesse crescente dos pesquisadores, em período mais recente, relacionado ao tema dos cuidados parentais em filiações adotivas e suas relações com o desenvolvimento e saúde mental infantis. Observou-se ainda prevalência norte-americana na publicação de trabalhos relacionados ao assunto, embora também existam iniciativas em outras regiões, sobretudo na Europa.

Uma busca rápida no Pubmed, por exemplo, utilizando o termo adoption parents care identificou 480 artigos, sendo que no período 2003 a 2012 constam 201 trabalhos e, entre 2008 e 2012, encontram-se 108 estudos sobre o tema. O primeiro artigo identificado data de 1964 (Sants, 1964). Importante ressaltar que o simples fato das buscas realizadas nas bases de dados Scielo e Lilacs (que retratam produções científicas originárias do Brasil e América Latina) não terem apresentado resultados, não significa inexistência detrabalhos relativos à temática nestas regiões, inclusive porque há pesquisas conhecidas, em âmbito nacional, relativas à adoção e psicopatologia infantil, mencionadas na introdução do presente estudo (Lee & Mattarazzo, 2001; Levinzon, 2006; Otuka et al., 2012). É possível, portanto, que com outras palavras-chave obtivéssemos indicações de trabalhos adicionais, o que não foi realizado no momento a fim de padronizar os levantamentos realizados nas diferentes bases de dados. Outro aspecto a ser considerado se refere às diferenças existentes nos processos de adoção no Brasil e em outros países, desde a legislação até os programas de acompanhamento e preparo dos pais adotivos, o que dificulta a identificação da diversidade de perspectivas existentes de atuação nessa área. No Brasil, há ainda que se destacar a escassez de recursos financeiros para projetos de pesquisas, inviabilizando estudos de natureza longitudinal.

Observou-se também que, apesar do alcance da base de dados Pubmed ser maior (em número de trabalhos compreendidos), para o presente estudo forneceu menor número de trabalhos comparativamente ao PsycInfo. Essa evidência pode sinalizar tendência maior de esforços na área da Psicologia, em comparação às Ciências Biomédicas, em debruçar-se sobre a temática da psicopatologia infantil no contexto de famílias adotivas.

Em relação às metodologias utilizadas, observou-se que a maioria dos estudos retratavam pesquisas longitudinais, o que, associado ao chamado "adoption design", certamente confere qualidade aos trabalhos estudados, podendo focalizar diferentes elementos intervenientes nas relações pais-filhos adotivos e que podem refletir sobre a saúde mental das crianças e adolescentes, ao longo do seu desenvolvimento. No que se refere ao delineamento longitudinal em estudos sobre o desenvolvimento, este é reconhecido como altamente relevante no âmbito da literatura científica. Tal como destacam Nobre et al. (2009)

Há um interjogo entre fatores de riscos e mecanismos de proteção que pode atenuar os efeitos negativos do risco ao desenvolvimento da criança…. Entre os mecanismos de proteção podem ser identificados recursos do indivíduo ou do seu contexto de desenvolvimento. Os estudos com delineamento longitudinal são, nesse caso, úteis para compreensão dos riscos e proteção, recursos e dificuldades no desenvolvimento desses bebês e para subsidiar intervenções essenciais preventivas ou terapéuticas (p. 363).

Foi verificado, na totalidade dos trabalhos analisados, indicadores de efeitos ambientais (convivência com os pais adotivos) sobre o desenvolvimento emocional das crianças, agindo de forma a proteger ou exacerbar os riscos biológicos para psicopatologias e/ou abuso de substâncias. Assim, buscou-se nos trabalhos ora analisados, destacar a contraposição entre fatores biológicos e psicossociais no desenvolvimento destes infantes, sendo ainda ressaltada a relevância da qualidade e estilo da parentalidade adotiva na proteção das crianças encaminhadas para adoção.

A saúde mental dos pais adotivos foi apontada como elemento interferente no relacionamento conjugal e familiar, podendo atuar negativamente sobre o desenvolvimento dos filhos que já possuem histórico genético favorável a psicopatologias ou vitimização prévia. Deste modo, o sofrimento emocional dos pais adotivos se mostrou elemento comprometedor da qualidade do diálogo familiar e também da supervisão exercida junto aos filhos, exacerbando vulnerabilidades já existentes.

Ainda dentre os resultados, ficou destacado, em alguns dos estudos apontados, que comportamentos parentais como disciplina excessivamente rígida ou padrão educacional muito diretivo e controlador, podem ser prejudiciais nos casos de crianças adotivas que não apresentam riscos biológicos específicos para problemas de comportamento ou psicopatologias. Assim, os estilos parentais se mostram como fatores relevantes para o desenvolvimento infantil nas filiações adotivas, podendo configurar-se como elementos facilitadores ou dificultadores, a depender das situações vivenciadas nas famílias.

Nos trabalhos analisados notou-se ênfase aos fatores biológicos como elementos determinantes dos comportamentos em crianças, bem como de seu desenvolvimento. As contribuições da família adotiva foram apontadas, na maioria dos casos, como sendo relevantes na prevenção de problemas de comportamento que já estariam, de certa forma, "inscritos" na carga genética destes infantes. Desse modo, destacou-se o fator protetor da parentalidade adotiva, segundo as conclusões apontadas nas pesquisas aqui identificadas e comentadas.

Especificamente no caso de crianças que possuem histórico de vitimização de ordem sexual e/ou negligência, ou ainda aquelas que frequentaram diferentes lares substitutos antes do encaminhamento para adoção, os estudos apontaram que estas requerem maior estabilidade emocional e conjugal, por parte dos pais adotivos, bem como atitudes de acolhimento e supervisão suficientes, visando minimizar as possibilidades de concretização dos riscos existentes (Simmel, 2007). Tais apontamentos sugerem a importância dos pais adotivos terem conhecimento acerca do histórico de vida de seus filhos, a fim de que possam manejar a situação de forma adequada, buscandoassim a efetiva proteção destes infantes.

A partir desses apontamentos relativos ao panorama de publicações científicas da área, é possível concluir que, assim como ocorre no âmbito das famílias biológicas, o estilo da parentalidade adotiva exercida, a saúde mental dos adotantes e suas atitudes em relação aos filhos se mostraram elementos relevantes (como fatoresintervenientes) no desenvolvimento e saúde mental das crianças encaminhadas para adoção. Fica reiterada, portanto, a relevância de adequado processo de seleção, preparo e acompanhamento psicológico dos pais adotivos. Nesse processo, necessitam de atenção, sobretudo, os elementos relativos a saúde mental e qualidade do relacionamento conjugal dos mesmos, como forma de garantir às crianças adotivas a inserção num ambiente emocionalmente adequado e que possa protegê-la, garantindo o suprimento de suas necessidades, inclusive afetivas.

 

Referências

Böing, E., & Crepaldi, M. A. (2004). Os efeitos do abandono para o desenvolvimento psicológico de bebês e a maternagem como fator de proteção. Estudos de Psicologia (Campinas), 21(3), 211-226.

Chaves, V. P. (2002). A interação mãe-criança em famílias adotivas: um estudo comparativo. Dissertação de Mestrado (não publicada) Instituto de Psicologia da UFRGS.

Finley, G. E., & Aguiar, L. J. (2002). The effects of children on parents: Adoptee genetic dispositions and adoptive parent psychopathology. Journal of Genetic Psychology, 163(4), 503-506.

Gauy, F. V., & Guimarães, S. S. (2006). Triagem em Saúde Mental Infantil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 22(1), 5-16.

Haugaard, J. F., & Hazan C. (2003). Adoption as a natural experiment. Development and Psychopathology, 15, 909-926.

Iacono, W. G., & McGue, M. (2002). Minnesota Twin Family Study. Twin Research, 5, 482-487.

Kendler, K. S., Sundquist, K., Ohlsson, H., Palme'r, K., Maes, H., Winkleby, M. A., & Sundquist, J. (2012). Genetic and Familial Environmental Influences on the Risk for Drug Abuse. Archives of General Psychiatry, 69(7), 690-697.

Lee, F. I., & Matarazzo, E. B. (2001). Prevalência de adoção intra e extrafamiliar em amostras clínica e não-clínica de crianças e adolescentes. Revista Brasileira de Psiquiatria, 23(3), 149-155.

Leve, L. D., Harold, G. T., Neiderhiser, J. M., Shaw, D., Caramella, L. V., & Reiss, D. (2009). Structured Parenting of Toddlers at High versus Low Genetic Risk: Two Pathways to Child Problems. Journal of the American Academy Child and Adolescent Psychiatry, 48(11), 1102-1109.

Leve, L. D., Neiderhiser, J. M., Scaramella, L. V., Conger, R. D., Reid, J. B., Shaw, D. S., & Reiss, D. (2007). The Early Growth and Development Study: A Prospective Adoption Design. Twin Research and Human Genetics, 10, 84-95.

Levinzon, G. K. (2006). A adoção na clínica psicanalítica: o trabalho com os pais adotivos. Mudanças – Psicologia da Saúde, 14(1), 24-31.

Lévy-Soussan, P. (2011). A psychoanalytic view about "Clinical challenges of adoption, views from montreal and Tel Aviv". Infant Mental Health Journal, 32, 707-709.

Lipscomb, S. T., Leve, L. D., Shaw, D. S., Neiderhiser, J. M., Scaramella, L. V., Conger, R. D., Reid, J. B., & Reiss, D. (2012). Negative emotionality and externalizing problems in toddlerhood: over reactive parenting as a moderator of genetic influences. Development and Psychopathology, 24, 167-179.

Nickman, S. L., Rosenfeld, A. A., Fine, P., Macintyre J. C., Pilowsky, D. J., Howe, R. A., Derdeyn, A., Gonzales, M. B., Forsythe, L., & Sveda, S. A. (2005). Children in adoptive families: overview and update. Journal of the American Academy Child and Adolescent Psychiatry, 44(10), 987-995.

Nobre, F. D. A., Carvalho, A. E. V., Martinez, F. E., & Linhares, M. B. M. (2009). Estudo longitudinal do desenvolvimento de crianças nascidas pré-termo no primeiro ano pós-natal. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22(3), 362-369.

O'Connor, T. G., Caspi, J., De Fries, J. C., & Plomin, R. (2003). Genotype-environment interaction in children's adjustment to parental separation. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 44(6), 849–856.

Otuka, L. K., Scorsolini-Comin, F., & Santos, M. A. (2012). Adoção suficientemente boa: experiência de um casal com filhos biológicos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 28(1), 55-63.

Paiva, L.D. (2004). Adoção: significados e possibilidades. São Paulo: Casa do psicólogo, 1ª Ed.

Pemberton, C. K., Neiderhiser, J. M., Leve, L. D., Natsuaki, M. N., Shaw, D. S., Reiss, D. (2010). Influence of parental depressive symptoms on adopted toddler behaviors: An emerging developmental cascade of genetic and environmental effects. Development and Psychopathology, 22, 803-818.

Riggins-Caspers, K. M., Cadoret, R. J., Knutson, J. F., & Langbehn, D. (2003). Biology-environment interaction and evocative biology-environment correlation: contributions of harsh discipline and parental psychopathology to problem adolescent behaviors. Behavior Genetics, 33(3), 205.

Roisko, R., Wahlberg, K. E., Hakko, H., Wynne, L., & Tienari, P. (2011). Communication Deviance in parents of families with adoptees at a high or low risk of schizophrenia-spectrum disorders and its associations with attributes of the adoptee and the adoptive parents. Psychiatry Research, 185, 66-71.

Rosa, D. B. (2008). A narratividade da experiência adotiva: fantasias que envolvem a adoção. Psicologia Clínica, 20(1), 97-110.

Sants, H. J. (1964) Genealogical bewilderment in children with substitute parents. British Journal of Medical Psychology, 37, 133-141.

Senado Federal (2013). Adoção nos Estados Unidos. Revista de audiências Públicas do Senado Federal, 4(15). Recuperado em 23 de abril de 2015, de http://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/adocao/regras-de-adocao-ao-redor-do-mundo/adocao-nos-eua.aspx

Shine, S. (2005). Avaliação psicológica e a lei: adoção, vitimização, separação conjugal, dano psíquico e outros temas. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Simmel, C. (2007). Risk and Protective Factors Contributing to the Longitudinal Psychosocial Well-Being of Adopted Foster children. Journal of Emotional and Behavioral Disorders, 15, 237-249.

 

 

Endereço para correspondência
Sonia Regina Pasian
E-mail: srpasian@ffclrp.usp.br

Recebido: 23/02/2015
1ª reformulação: 13/05/2015
Aceite: 05/06/2015

 

 

1 Nicole Medeiros Guimarães Eboli é doutoranda em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
2 Patrícia Leila dos Santos é professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
3 Ana Maria Pimenta Carvalho é professora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
4 Sonia Regina Pasian é professora associada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Creative Commons License