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Psicologia USP

versão On-line ISSN 1678-5177

Psicol. USP v.17 n.2 São Paulo jun. 2006

 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

A psicanálise e o complexo de Édipo: (novas) observações a partir de Hamlet1

 

Psychoanalysis and the Oedipal Complex: (new) observations from Hamlet

 

La psychanalyse et le complex d’Oedipe: (nouvelles) considérations sur Hamlet

 

 

Mauricio Rodrigues de Souza2

Universidade Federal do Pará - UFPA

 

 


RESUMO

Este artigo se constitui como um exercício de compreensão do Complexo de Édipo em Psicanálise. Neste sentido, além de traçar o desenvolvimento do conceito na obra de Freud, adota a história de Hamlet como um recurso ilustrativo para evidenciar, por meio da arte, as possíveis manifestações do fenômeno edipiano. Em termos conclusivos, evidencia ainda as possíveis inter-relações entre a Psicanálise e o contexto da tragédia.

Palavras-chave: Psicanálise. Complexo de Édipo. Hamlet. Tragédia.


ABSTRACT

This article is an exercise of comprehension of the Oedipal Complex in Psychoanalysis. Therefore, beyond tracing the development of the concept in the Freud’s work, it takes the story of Hamlet as an illustrative device to testify through art the possible manifestations of the oedipian phenomenon. In conclusion, it also emphatises the possible inter-relations between psychoanalysis and tragedy.

Keywords: Psychoanalysis. Oedipal complex. Hamlet. Tragedy.


RÉSUMÉ

Cet article est un exercice pour comprendre la question du complexe d’Oedipe dans la psychanalyse. Au-delà de tracer le dévellopement de cette concept dans l’ oeuvre de Freud, il prend l’histoire de Hamlet comme ilustración pour mettre en evidenc e dans l’art les posibles manifestations du phenomene oedipien. Pour concluire, il fait quelques liaisons entre la psychanalyse et la tragédie.

Mots-clés: Psychanalyse. Complex d’ Oedipe. Hamlet. Tragédie.


 

 

O presente trabalho se constitui fundamentalmente como um exercício de compreensão do complexo de Édipo em Psicanálise. Com isso, detém pelo menos dois objetivos maiores: caracterizar este conceito em seus princípios básicos e, ainda, traçar um breve perfil da sua evolução ao longo da obra de Freud. De maneira a tentar viabilizar esta tarefa &– fornecendo um quadro o mais “palpável” possível da descoberta freudiana &–, optamos aqui, além da revisão bibliográfica, pela utilização de outro recurso metodológico, qual seja, a análise de um neurótico famoso: Hamlet.

Como provavelmente percebeu o(a) leitor(a) atento(a) &– em particular aquele(a) conhecedor(a) do universo psicanalítico &–, esta, sem dúvida, não é uma idéia nova, uma vez que as desventuras de Édipo e Hamlet já foram alvo de um sem número de escritos, a começar pelos do próprio Freud, aos quais se seguiram análises outras, como as de Jones (1970) e Lacan (1986). Ou seja, trata-se aqui de uma aproximação “clássica”. Apostamos, contudo, que tal característica, ao invés de desmerecer a amplitude de nossa tarefa, fornece-lhe contornos bastante promissores. Afinal, a riqueza do tema em questão, tão característico daquilo que, parafraseando Nietzsche, podemos tomar na qualidade de “humano, demasiado humano”, seguramente garante a atualidade de novas e recorrentes investidas. Esperamos que esta aqui se justifique. Para tanto, mãos à obra.

 

O Complexo de Édipo: definição e evolução do conceito na obra de Freud

Uma boa maneira de iniciarmos este percurso pelas especificidades do Complexo de Édipo é defini-lo como conceito. Para tanto, contamos com a ajuda do consagrado verbete de Laplanche e Pontalis (1992), que o caracteriza como um:

Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob a sua forma dita positiva, o complexo apresenta-se como na história de Édipo-Rei: desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob a sua forma negativa, apresenta-se de modo inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto. Na realidade, essas duas formas encontram-se em graus diversos na chamada forma completa do complexo de Édipo. Segundo Freud, o apogeu do complexo de Édipo é vivido entre os três e os cinco anos, durante a fase fálica; o seu declínio marca a entrada no período de latência. É revivido na puberdade e é superado com maior ou menor êxito num tipo especial de escolha de objeto. O complexo de Édipo desempenha papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. Para os psicanalistas, ele é o principal eixo de referência da psicopatologia. (p. 77)

Já em tal definição se fazem presentes alguns pontos importantes e que orientarão sobremaneira as idéias desenvolvidas aqui. Por exemplo, a filiação do complexo psicanalítico descrito por Freud ao mito grego Édipo Rei, popularizado graças à tragédia escrita por Sófocles; e o caráter trifásico (positivo, negativo e completo) atribuído pelo pai da Psicanálise a este fenômeno. Vejamos, então, por meio de um breve histórico, a evolução do Édipo como conceito, ao longo da obra de Freud.

Para começar, torna-se interessante mencionar trabalhos como os de Marini (1996), Mezan (1998a) e Roudinesco e Plon (1998), os quais apontam para o fato de que, curiosamente, embora seja um tema presente em praticamente todos os escritos de Freud, este nunca dedicou ao Édipo uma exposição sistemática. De qualquer forma, a associação entre o saber psicanalítico e a história de Édipo é antiga e pode ser remontada particularmente ao dia 15 de outubro de 1897. Nesta data, Freud envia uma carta destinada ao amigo Wilhelm Fliess em que aquele, em meio à sua auto-análise e abandono da neurotica3, estabelece, a partir do seu próprio exemplo, a validade universal da lenda grega como uma importante chave para a compreensão das vicissitudes do psiquismo humano:

Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância (...) Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex (...) a lenda grega capta uma compulsão que toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Cada pessoa da platéia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual. (Freud, 1897/1996, p. 316)

Por hora, cabe destacar o caráter essencial desta primeira aproximação freudiana do Édipo. Também conhecido como modelo “simples” ou “positivo”, este se fundamenta no pressuposto de uma simetria onde tanto os meninos quanto as meninas se sentiriam naturalmente atraídos pelo progenitor do sexo oposto, repudiando ainda aquele do mesmo sexo.

Conforme Mezan (1998a), tal perspectiva voltaria à tona em um trecho de “A Interpretação dos Sonhos” (Freud, 1900/1996)4, aparecendo ainda, embora com menos clareza, na descrição feita por Freud do “Caso Dora”5, onde a atração da jovem pelo pai desempenhava importante papel na sua vida pulsional. Enquanto produtos da época, podem ser acrescidos ainda os seguintes trabalhos: “Sobre as Teorias Sexuais das Crianças” (Freud, 1908/1996), “Romances Familiares” (Freud, 1909/1996) e “Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos” (Freud, 1909/1996).

Em corroboração com estes avanços, é em um artigo publicado pouco depois, intitulado “Um Tipo Especial da Escolha de Objeto Feita pelos Homens” (Freud, 1910/1996), que a expressão “Complexo de Édipo” figuraria pela primeira vez nos escritos de Freud. Para além da sua qualidade de marco histórico, torna-se grande a relevância do trabalho em questão uma vez que, nele, ao desenhar o que considerava como algumas características eróticas específicas da eleição objetal masculina6, Freud postula que todo este processo seria derivado de uma única fonte: a fixação infantil e carinhosa na figura materna.

Cabe aqui chamar atenção para o seguinte detalhe: o termo “complexo de Édipo” é atribuído à nova situação emocional vivida pelo menino em sua puberdade, e não aos desejos que remontariam aos primórdios da infância. Isso porque, neste momento, Freud ainda permanecia atido à hipótese de uma anarquia auto-erótica no contexto da sexualidade infantil, o que inicialmente o conduziu à negação quanto a qualquer possibilidade de uma escolha genital de objeto no período anterior à adolescência (Mezan, 1998a).

Feitas estas considerações, alcançamos a possibilidade de compreender a virada freudiana rumo a um segundo modelo edipiano, agora de natureza eminentemente estrutural. Para tanto, contamos mais uma vez com os esclarecedores comentários de Mezan (1998a):

Restrita ao campo da escolha de objeto, a problemática edipiana não encontra espaço para ampliar-se (...) Com o surgimento dos conceitos de narcisismo e identificação, o Édipo passa para um plano de maior destaque, pois a escolha narcisista de objeto, pelas próprias condições da constelação narcisista, reflete-se sobre o ego, enquanto a identificação, que inicialmente é identificação com os pais, introduz a possibilidade de traçar a gênese do ego, na qual paulatinamente os fatores intersubjetivos e edipianos vão assumindo o papel de molas fundamentais. É no terreno do ego que o Complexo de Édipo assumirá sua significação completa, e por esta razão, estes passos iniciais da vinculação dos dois temas revestem-se de importância particular. (p. 194)

Neste sentido, a menção a dois importantes trabalhos clínicos de Freud adquire uma natureza estratégica. São eles relativos ao “Caso Schreber” e ao “Homem dos Lobos”7. Quanto ao primeiro, voltado à paranóia, sua relevância reside nas bases que forneceu tanto para a compreensão de um Édipo infantil quanto para o descobrimento da forma dita “negativa” do complexo. Ou seja, uma escolha narcísica e homossexual de objeto onde reinaria o amor com o progenitor do mesmo sexo e a rivalidade com aquele do sexo oposto.

Já o segundo caso em questão &– relativo à fobia e pautado pela coincidência entre a identificação de um menino com a figura de seu pai e, simultaneamente, a eleição deste último como objeto amoroso &– acabaria por engendrar uma ambigüidade que, mais tarde, forneceria a Freud elementos para a ilustração do que viria a se chamar a forma “completa” do Édipo. Trata-se da ambigüidade entre afeto de um lado e rivalidade do outro, possivelmente voltados a um progenitor do mesmo sexo.

Deve-se, portanto, notar que a introdução dos conceitos de narcisismo e identificação aos poucos forneceria novos contornos ao complexo de Édipo, alçando-o à qualidade de elemento central e estruturante da sexualidade humana. Conforme expresso em “Sobre o Narcisismo: uma Introdução”:

Descobrimos, de modo especialmente claro, em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu alguma perturbação, tais como pervertidos e homossexuais, que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como modelo não sua mãe, mas seus próprios eus. Procuram inequivocamente a si mesmas como um objeto amoroso, e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado “narcisista” (...) Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais &– ele próprio e a mulher que cuida dele &– e ao fazê-lo estamos postulando a existência de um narcisismo primário em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal. (Freud, 1914/1996, pp. 94-95)

Pouco depois, ambos os temas voltariam a aparecer com força renovada quando Freud se volta ao estudo da melancolia, psicopatologia que, segundo ele, ocorreria devido a um prejuízo de natureza inconsciente na qualidade das escolhas objetais e que teria como resultado um investimento narcísico da libido no próprio ego do melancólico. Este, então, identificando-se com o objeto perdido, adentraria em um processo de auto-desvalorização:

Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa particular; então, devido a uma real desconsideração ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relação objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal &– uma retirada da libido desse objeto e um deslocamento da mesma para um novo &–, mas algo diferente (...) a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali, contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado. Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pôde, daí por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado (...) A identificação narcisista com o objeto se torna, então, um substituto da catexia erótica, e, em conseqüência, apesar do conflito com a pessoa amada, não é preciso renunciar à relação amorosa. Essa substituição da identificação pelo amor objetal constitui importante mecanismo nas afecções narcisistas (...) Ele representa, naturalmente, uma regressão de um tipo dscolha objetal para o narcisismo original. (Freud, 1917/1996, pp. 254-255)

Dos trechos acima cabe destacar dois pontos essenciais: a identificação do ego com um objeto perdido e a conseqüente introjeção deste último, resultando em uma clivagem egóica exigente, conflitante e mesmo auto-punitiva. Afinal, a ênfase nestes aspectos se torna fundamental para a compreensão de um outro desdobramento deste segundo modelo estrutural do complexo de Édipo: a formação do Superego, também denominado por Freud, em um primeiro momento, de “ideal de ego”.

Seguindo o desenvolvimento da teoria freudiana, tal temática aparecerá mais claramente em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (Freud, 1921/1996), que, além de qualificar a identificação como: “... a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa” (p. 115), destaca ainda o grande papel por ela desempenhado na formação do complexo de Édipo. Primeiro, suportando a identificação com o pai e o enamoramento da mãe. Depois, com tal identificação passando a assumir um colorido hostil, vinculado, por sua vez, ao desejo de substituir a figura paterna em relação à mãe &– o chamado Édipo “normal”. Com isso, eis para Freud o caráter ambivalente da identificação, envolvendo os temas da admiração e da substituição (assimilação versus aniquilação).

Contudo, prossegue Freud (1921/1996), poderia acontecer também de todo este processo adquirir outro contorno e desfecho. Em tal caso, o menino, ao invés de se identificar com o pai, assumiria uma posição feminina, elegendo o genitor do sexo masculino como objeto sexual.

Uma terceira possibilidade, diz-nos Freud (1921/1996), seria um tipo de identificação egóica sem qualquer relação objetal mais íntima com a pessoa copiada, mas resultante de alguma qualidade partilhada. Neste contexto, quanto mais importante(s) o(s) atributo(s) em comum, mais poderosa a identificação.

Freud (1921/1996) dá continuidade ao seu texto, afirmando o quanto a pesquisa psicanalítica ampliaria o escopo da identificação para outros casos menos imediatamente compreensíveis. Como exemplo, cita a gênese do homossexualismo masculino, destacando aqui a remodelagem do ego quanto a um dos seus principais aspectos: o caráter sexual. Ao mesmo tempo, demonstra de que maneira tal situação se ligaria ainda à identificação com um objeto renunciado ou perdido, o que, como vimos há pouco, a aproximaria da melancolia.

Com efeito, Freud retoma parte da discussão anteriormente presente em “Luto e Melancolia” (1917/1996) para enfatizar que uma característica essencial nestes casos seria a de uma inflexível auto-crítica e/ou depreciação egóica por parte do melancólico. Tais censuras seriam, na verdade, aplicáveis ao objeto perdido, representando a vingança do ego sobre aquele. Cabe notar que, em tal processo, a introjeção do objeto se daria diante de um ego dividido (clivado), sendo que esta segunda parte (a odiada) corresponderia à alteração perpetrada no ego precisamente pela introdução do objeto em questão. Eis a origem do “ideal do ego” (ou Superego), associado à moral, censura e repressão do Inconsciente.

É, porém, mais adiante, em “O Ego e o Id” (Freud, 1923/1996), que toda esta discussão viria a se apresentar de uma maneira mais ordenada. Nestes termos, ao mesmo tempo em que reafirma a possibilidade da ocorrência de uma modificação egóica em decorrência da perda objetal (questão de assimilação), Freud associa a este aspecto o grande valor atribuído pela Psicanálise às identificações efetuadas na mais primeira infância enquanto processo estruturante da personalidade individual. Em outras palavras, o ego conteria em si a história das suas escolhas objetais, o que enaltece o valor do complexo de Édipo, agora defendido em sua forma “completa”8. Nos termos do próprio Freud:

O amplo resultado geral da fase sexual dominada pelo complexo de Édipo pode, portanto, ser tomada como sendo a formação de um precipitado no ego, consistente dessas duas identificações unidas uma com a outra de alguma maneira. Esta modificação do ego retém a sua posição especial; ela se confronta com os outros conteúdos do ego como um ideal do ego ou superego (...) o ideal do ego tem a missão de reprimir o complexo de Édipo; em verdade, é a esse evento revolucionário que ele deve a sua existência (...) O superego retém o caráter do pai, enquanto que quanto mais poderoso o complexo de Édipo e mais rapidamente sucumbir à repressão (sob a influência da autoridade do ensino religioso, da educação escolar e da leitura), mais severa será posteriormente a dominação do superego sobre o ego, sob a forma de consciência (conscience) ou, talvez, de um sentimento inconsciente de culpa (...) O ideal do ego, portanto, é o herdeiro do complexo de Édipo, e, assim, constitui também a expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id. (pp. 49-51)

Uma retrospectiva da evolução do conceito de complexo de Édipo que se pretenda exaustiva teria necessariamente de percorrer praticamente a totalidade dos trabalhos de Freud. Assim, por uma questão de espaço, contentar-nos-emos em finalizar esta primeira parte, destacando dois outros textos cuja importância reside na sua qualidade de corolários de um terceiro e último modelo edipiano. São eles: “A Dissolução do Complexo de Édipo” (Freud, 1924/1996) e “Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos” (Frud, 1925/1996). Ambos perpetuam o modelo estrutural que acompanhamos até o momento, a ele acrescentando uma temática até então sub-representada no pensamento do pai da Psicanálise: a questão da sexualidade feminina.

Como sugere o título do trabalho, um dos principais interesses de Freud em “A Dissolução do Complexo de Édipo” (Freud, 1924/1996) reside em uma determinação mais precisa da possibilidade de destruição do complexo edipiano. Neste sentido, a experiência clínica de nosso autor indicava a ocorrência de desapontamentos ou experiências de frustração amorosa na batalha inconsciente da criança pela viabilização do incesto.

Em tal contexto, não nos deve passar despercebida mais uma importante reorientação teórica: o deslocamento do Complexo de Édipo da puberdade para a infância. Isso graças ao postulado da existência de um novo período do desenvolvimento sexual da criança, representado pela fase “fálica” ou “genital” que, demarcando a época entre os três e os cinco anos de idade, seria caracterizada por uma grande relevância conferida pelos enfants aos órgãos sexuais, em particular o masculino. Entretanto, pode-se perguntar, qual a relação estabelecida entre o Édipo e a fase genital? Este é um ponto crucial, já que, segundo Freud (1924/1996), ambas se encerrariam concomitantemente.

Para responder tal indagação devemos levar em conta o seguinte: no período em questão, a valorização infantil do pênis seria acompanhada tanto da sua freqüente manipulação por parte do menino quanto da ocorrência da enurese (o “molhar a cama”). Ocorre que a criança rapidamente descobriria a desaprovação destes comportamentos por parte dos seus cuidadores graças, inclusive, a possíveis ameaças de castração. Estas últimas seriam então, ao menos em parte, responsáveis pela destruição da organização fálica do garoto.

Contudo, não agiriam sozinhas, pois, novamente para Freud (1924/1996), é a vivência de uma outra experiência que corroboraria com este processo: a visão da genitália feminina &– de uma colega ou irmã, por exemplo. Esta sim causaria no menino um verdadeiro terror, resultando no chamado “complexo de castração”9 e também na fase de “latência”, um novo período do desenvolvimento da personalidade sugerido pela Psicanálise:

Se a satisfação do amor no campo do complexo de Édipo deve custar à criança o pênis, está fadado a surgir um conflito entre seu interesse narcísico nessa parte de seu corpo e a catexia libidinal de seus objetos parentais. Nesse conflito, triunfa normalmente a primeira dessas forças: o ego da criança volta as costas ao complexo de Édipo (...) As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto (...) As tendências libidinais pertencentes ao complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas (coisa que provavelmente acontece com toda transformação em uma identificação) e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição. Todo o processo, por um lado, preservou o órgão genital &– afastou o perigo de sua perda &– e, por outro, paralisou-o &– removeu sua função. Esse processo introduz o período de latência, que agora interrompe o desenvolvimento sexual da criança. (Freud, 1924/1996, p. 221)

Juntamente com a chegada ao período de latência, alcançamos também uma maior ênfase na relação entre o Édipo e a sexualidade feminina. Para Freud (1924/1996), também aqui seria possível perceber uma organização fálica e uma castração. Entretanto, no caso da menina, as coisas ocorreriam de uma outra maneira: inicialmente, o seu clitóris desempenharia a função de um pênis. Contudo, a diferença de tamanho evidenciada pela comparação com um colega a conduziria a um sentimento de injustiça e inferioridade, mal-estar cujo consolo residiria na esperança de, algum dia, também alcançar um órgão semelhante.

É neste ponto que, conforme Freud (1924/1996), o complexo feminino se ramificaria, pois, diferentemente do menino, a menina não associaria a sua falta de pênis a uma dimensão sexual, mas sim, a uma castração anterior, a qual, inclusive, seria aceita naturalmente. Uma decorrência disso seria que, no caso da criança do sexo feminino, já castrada, poderia ocorrer um certo prejuízo, quer seja no estabelecimento do Superego, quer seja na finalização do período da organização genital infantil.

Talvez já prevendo futuras &– e justificáveis &– discordâncias de cunho feminista, o ano seguinte traria consigo a publicação do artigo “Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos” (Freud, 1925/1996), voltado a uma retomada destas questões. Neste sentido, torna-se interessante que o mestre de Viena tenha optado por adotar aqui uma medida conciliatória: a maioria dos homens também estaria muito aquém de um ideal de caráter absolutamente íntegro e balizado por um Superego sólido. Destarte, todos os seres humanos combinariam em si mesmos tanto características masculinas quanto femininas em termos de maior ou menor flexibilidade moral ou emocional, restando à masculinidade ou feminilidade “puras” a qualidade de construções teóricas.

Ainda assim, uma avaliação crítica do pensamento de Freud quanto ao tema do Édipo feminino parece invariavelmente apontar algumas lacunas de ordem teórica. Esta é, pelo menos, a perspectiva de Marini (1996):

Ao construir o complexo de Édipo em torno da figura paterna e do conceito de castração, Freud constitui assim o feminino como “continente negro”, a mulher como “enigma” e obstáculo no caminho da psicanálise (...) ele rejeitou tudo o que lhe parecia ameaçar a doutrina que estava empenhado em edificar (...) Em contrapartida, Freud aceitou as descobertas clínicas das mulheres psicanalistas que evidenciavam a persistência, na mulher, da relação primária com a mãe, sua importância e complexidade (...) Tolerou, assim, a noção de um pré-Édipo centrado na figura materna, desde que fosse afirmada sua subordinação ao complexo de Édipo, o único capaz de lhe conferir sua verdadeira significação. A questão do Édipo é verdadeiramente, portanto, a pedra angular da ortodoxia freudiana: toda teoria divergente leva à exclusão ou à marginalização. (p. 139)

Com isso, uma vez expostas em maiores detalhes a natureza e a evolução do complexo de Édipo, temos agora melhores condições de passar à segunda etapa do nosso trabalho, onde nos voltaremos à tragédia de Hamlet. Assim, iniciaremos por uma breve recapitulação do contexto histórico e do conteúdo geral da peça e, aos poucos, inseriremos progressivamente algumas observações de ordem psicanalítica.

Antes, porém, cabe dizer que, a despeito do impressionante legado antropológico de Freud, é certo que a aplicação do instrumental teórico da Psicanálise na abordagem de manifestações como aquelas próprias à arte - as quais extrapolam o contexto específico do atendimento clínico &– corre alguns riscos nada desprezíveis. O maior deles provavelmente é o de produzir uma falsa impressão de acabamento e/ou completude que nada acrescenta, quer seja à(s) obra(s) analisada(s), quer seja à própria Psicanálise (Hanly, 1995).

Conscientes desta ressalva, gostaríamos de esclarecer que, de maneira alguma, pretendemos “explicar” a tragédia de Hamlet pela via do Complexo de Édipo, congelando assim tanto o pensamento de Shakespeare quanto o de Freud. Ao contrário &– conforme exposto anteriormente &–, nossa intenção aqui é a de utilizá-la como ponto de partida para um exercício do pensar analítico, tomado aqui enquanto vida e movimento. Feitas estas considerações, partamos rumo a novas interpretações sobre o que havia de “podre” no reino da Dinamarca.

 

A Tragédia de Hamlet e a Atualidade de um Complexo

Peça composta por Shakespeare aproximadamente entre 1601 e 1602 e encenada pela primeira vez poucos anos depois, ainda no primeiro quarto do século XVII, Hamlet: príncipe da Dinamarca, demarca um período considerado “sombrio” na vida e produção do dramaturgo inglês. Provavelmente, uma espécie de resposta psíquica à execução do conde de Essex, seu protetor e amigo particular (Medeiros, 1981). O conteúdo geral da trama, em geral associado ao tema da vingança, parece-nos bem conhecido. De qualquer maneira, vale a pena retomar alguns dos seus contornos mais amplos.

A história tem início com o retorno de Hamlet à terra natal em virtude da notícia do súbito falecimento de seu pai. Para além do luto naturalmente atribuível ao teor da situação, causa ainda uma enorme e desfavorável impressão no jovem príncipe a visão do apressado casamento de sua mãe, Gertrudes, com Cláudio, irmão do rei morto. Logo, tio do próprio Hamlet.

Mas as surpresas destinadas a Hamlet não parariam por aí, já que, entrementes, Horácio, um amigo íntimo, acompanhado de dois oficiais, informa ao príncipe de recorrentes aparições noturnas do espectro do rei morto nas imediações do castelo da família. Intrigado, Hamlet parte em busca do pai e, para sua amarga desilusão, o resultado deste encontro reside na revelação, por parte do fantasma, de que este fora na verdade assassinado por Cláudio, atual ocupante do trono e também herdeiro dos favores da rainha. Este é um momento chave para a compreensão da peça, pois, além da sua qualidade de porta-voz, o espírito de Hamlet pai clama ao filho por vingança contra o seu malfeitor. Ao mesmo tempo, solicita que sua viúva fosse deixada em paz, relegada a uma eventual punição divina pela traição representada pelo novo matrimônio:

Escuta, escuta, escuta! Se você algum dia amou seu pai (...) vinga esse desnaturado, infame assassinato (...) eu dormia, de tarde, em meu jardim, como de hábito. Nessa hora de calma e segurança teu tio entrou furtivamente, trazendo, num frasco, o suco da ébona maldita, e derramou, no pavilhão de meus ouvidos, a essência morfética que é inimiga mortal do sangue humano (...) Assim, dormindo, pela mão de um irmão, perdi, ao mesmo tempo, a coroa, a rainha e a vida (...) Se você tem sentimentos naturais não deve tolerar; não deve tolerar que o leito real da Dinamarca sirva de palco à devassidão e ao incesto. Mas, seja qual for a tua forma de agir, não contamina tua alma deixando teu espírito engendrar coisa alguma contra tua mãe. Entrega-a ao céu, e aos espinhos que tem dentro do peito: eles ferem e sangram. Adeus de uma vez! (Shakespeare, 2004, pp. 80-83)

Com a desaparição da alma penada, Hamlet parte decidido a executar, imediatamente, a tarefa que lhe foi designada. Porém, é inexplicavelmente acometido de uma forte hesitação em seu impulso homicida, acompanhada por acessos de aparente delírio e grave melancolia10. É precisamente a referida hesitação de Hamlet em vingar o pai que fornece a Freud o mote para o estabelecimento de uma ponte original entre o conceito de complexo de Édipo e a tragédia pessoal vivida pelo personagem de Shakespeare. Conforme um trecho de “A Interpretação dos Sonhos”:

Hamlet é capaz de fazer qualquer coisa &– salvo vingar-se do homem que eliminou seu pai e tomou o lugar deste junto a sua mãe, o homem que lhe mostra os desejos recalcados de sua própria infância realizados. Desse modo, o ódio que deveria impeli-lo à vingança é nele substituído por auto-recriminações, por escrúpulos de consciência que o fazem lembrar que ele próprio, literalmente, não é melhor do que o pecador a quem deve punir. (Freud, 1900/1996, p. 281)

Assim, vemos que, na perspectiva freudiana, a razão última da loucura e hesitação de Hamlet detém uma natureza inconsciente e relativa ao teor sexual, parricida e conflitante do complexo infantil do próprio príncipe, reatualizado a partir da morte de seu pai. Afinal, este evento teria aberto caminho para a viabilização do desejo incestuoso que, como vimos, constitui-se em uma das peças estruturantes da teoria edipiana.

Neste mesmo sentido, acompanhando Freud (1900/1996), podemos inferir que se torne difícil para Hamlet executar a ordem homicida do fantasma, por uma identificação inconsciente com Cláudio. Isso porque este último, a despeito das suas qualidades de assassino e usurpador do trono da Dinamarca, também representa o homem que conseguiu viabilizar o duplo desejo infantil e edipiano do próprio príncipe, ao afastar de seu caminho um rival monopolizador e, ainda, tomar para si a sua mulher.

Intimamente associado ao tema da identificação, devemos ainda considerar um outro aspecto do complexo edipiano que parece corroborar com a hipótese de Freud acerca da etiologia do conflito de Hamlet. Trata-se da possibilidade de o príncipe já haver vivenciado o seu Édipo infantil e dele ter saído de uma maneira presumivelmente natural por meio da introjeção da figura e da lei paternas (ou seja, da identificação com elas). Diante disso, vale a pena recordarmos que Cláudio não deixa de ser o marido da rainha, lugar este extremamente rico em seu simbolismo, o que complicaria ainda mais a tarefa de Hamlet de executar o pedido de um pai, no sentido de tirar a vida de uma outra figura, também paterna.

Sob a influência direta de Freud, caberia a Jones (1970) dedicar todo um livro ao esmiuçamento das possíveis inter-relações entre as desventuras de Édipo e Hamlet. Contudo, enriquecendo a perspectiva inaugurada por seu mestre, o psicanalista inglês confere grande importância a uma análise separada da atitude do personagem de Shakespeare quanto aos dois diferentes crimes que se lhe apresentavam: o assassinato do pai e o envolvimento incestuoso da mãe:

Intelectualmente, é claro, ele abomina ambos, mas não pode haver dúvida sobre qual dos dois lhe desperta a mais profunda repugnância. Enquanto que o assassinato de seu pai nele provoca indignação e um franco reconhecimento do seu óbvio dever de vingá-lo, a conduta criminosa da mãe suscita em Hamlet o mais intenso horror. (pp. 61-62)

Portanto, de acordo com este ponto de vista, podemos buscar a chave para uma interpretação psicanalítica da loucura de Hamlet não somente na relação entre si e o tio homicida, mas também &– e fundamentalmente &– na decepção e revolta do príncipe quanto ao novo e apressado enlace amoroso de sua mãe. Seguindo o raciocínio de Jones (1970), compreenderemos melhor a natureza do comportamento do jovem Hamlet diante da rainha Gertrudes se nos remetermos à gênese dos laços afetivos presentes entre os dois personagens, estabelecida ainda na mais tenra infância:

Em criança, Hamlet sentira a mais fervorosa afeição por sua mãe e, como sempre acontece, tal sentimento continha elementos de um disfarçado teor erótico (...) A presença de dois traços do caráter da Rainha concordam com tal suposição: a sua natureza acentuadamente sensual e a ternura e apego excessivos pelo filho. (p. 80)

Mas o que podemos deduzir daí? Uma possibilidade de leitura é a de que o novo matrimônio de Gertrudes teria motivado em Hamlet a transformação de sentimentos de amor e ternura em outros de raiva e rancor. Isso por reeditar o ciúme de um pequeno Édipo diante do reconhecimento de que também sua mãe é um sujeito sedutor e desejante. Pior ainda: capaz de mais uma vez preteri-lo, frustrando-o narcisicamente em suas preciosas intenções amorosas.

Ao mesmo tempo, é possível pensar em um interessante paradoxo: o casamento de Gertrudes, embora certamente pudesse ser tomado por Hamlet como uma nova barreira à sua antiga escolha objetal infantil, também poderia sugerir ao príncipe que seu pai não seria, de fato, insubstituível. Ou seja, apontaria a real possibilidade de que sua mãe se entregasse a um outro homem que, conforme o exemplo de Cláudio, poderia, ainda por cima, ser bastante próximo em termos familiares.

Se considerarmos a presença, há pouco mencionada, da dimensão sedutora no papel da rainha Gertrudes (potencializada na fantasia de seu filho), podemos acrescer ainda a este torvelinho sentimental o reavivamento de uma culpa original e incestuosa. Por que? Ora, porque matar Cláudio seria, para Hamlet, colocar a si mesmo na perigosa posição de objeto do desejo materno, agora sem o anteparo representado por um homem mais velho. Daí o temor da conjunção fatal entre os dois desejos (o seu e o dela).

Neste ponto, vale a pena destacar uma outra cena da tragédia de Hamlet que funciona como uma espécie de corolário geral de tudo o que foi dito até aqui. Afinal, representa o impasse entre o desejo por uma mãe sedutora e, ao mesmo tempo, a interdição de uma lei e figura paternas que inviabilizam o acesso a este objeto.

Pois bem, trata-se de uma passagem verdadeiramente impressionante na qual, após ser convocado por sua apreensiva mãe aos aposentos desta última para uma entrevista supostamente particular, Hamlet, em um acesso de fúria, desembainha a espada e mata Polônio, bisbilhoteiro lorde camarista. O desenrolar dos acontecimentos prossegue com um furioso embate verbal em que nosso herói expõe à Gertrudes toda a sua revolta diante do inoportuno casamento desta com Cláudio. Como uma espécie de recurso retórico, o príncipe manuseia dois pequenos retratos de seu pai e do tio para, comparando-os, pronunciar as seguintes palavras:

Veja a graça pousada neste rosto: os cabelos de Apolo, a fronte do próprio Júpiter (...) um conjunto e uma forma na qual cada deus fez questão de colocar sua marca para garantir ao mundo a perfeição de um homem. Este era seu marido. Vê agora o que se segue; aqui está o outro marido, como uma espiga podre contaminando o irmão saudável. A senhora tem olhos? E deixa de se alimentar nesta montanha límpida para ir engordar num lamaçal? (...) Não pode chamar isso de amor; na sua idade, o zênite do sangue já passou, está domado. E obedece à razão; e que razão trocaria isto por isto? (...) Qual foi o demônio que a vendou para essa sinistra cabra-cega? Olhos sem tato, tato sem vista (...) Que vergonha! Onde está o seu rubor? (Shakespeare, 2004, pp. 172-173)

Tais frases parecem exercer um forte impacto sobre a rainha que, demonstrando vergonha e temendo pela própria vida, suplica a Hamlet que não mais prossiga. Este, contudo, visivelmente alterado, persiste nas censuras, execrando o que qualifica como a imperdoável concupiscência da mãe. Então, mais que de repente, surge das sombras diante dos incrédulos olhos de Hamlet o espírito de seu falecido pai. Suas palavras reiteram tanto o pedido original de vingança quanto a ressalva (em tal contexto, praticamente uma ordem de continência) de que tal desforra não deveria se estender à sua viúva.

Lívido e assustado frente à aparição fantasmagórica, o príncipe imediatamente refreia os seus impulsos e passa a uma atitude respeitosa e visivelmente submissa, questionando o bem-estar da mãe. Com o esvaecimento do espectro, seguem-se pedidos de Hamlet para que a rainha se arrependesse de seus atos passados, voltando-se a um futuro mais casto e promissor.

De volta à nossa análise, vale dizer que também Mezan (1998b) corrobora a linha interpretativa exposta há pouco, ao localizar o traço patológico da atitude de Hamlet não no luto em si mesmo diante da morte do pai, mas sim no desprezo que nosso herói passa a nutrir pela própria mãe:

O primeiro traço patológico aparece no ódio e no desprezo que passa a sentir por sua mãe, como que projetando nela a sua própria libido &– ela lhe parece como um monstro abjeto e sedento de sexo. A culpa que poderia experimentar pela mobilização dos fantasmas edipianos é deslocada para o casal Gertrudes-Cláudio (...) Na verdade, obrigado a se deparar com seus próprios impulsos edipianos, o herói se defende deles tanto pelos “escrúpulos de consciência” a que se refere Freud, quanto pela retirada do investimento libidinal de todos os membros do sexo feminino, num movimento de regressão relativamente claro. (p. 89)

Seguindo este raciocínio, temos agora melhores condições de compreender dois outros aspectos subseqüentes à “loucura” de Hamlet: a misoginia e a rejeição ao amor, reflexos “da poderosa ‘repressão’ a que seus sentimentos sexuais estão sendo submetidos” (Jones, 1970, pp. 86-87). Entra aqui a figura de Ofélia, antiga paixão de nosso príncipe que, com o desenrolar da peça, subitamente se vê desprovida de encantos, relegada ainda à solidão, aos maus tratos e, posteriormente, à demência e morte.

Antes de encerrarmos, cabe ainda uma observação: é bem verdade que, no último ato, Hamlet efetivamente vinga seu pai ao trespassar o tio com uma espada. Todavia, talvez seja de alguma relevância salientar que isso somente ocorre quando a rainha Gertrudes já se encontrava morta. Em decorrência, podemos inferir o fim da ambigüidade inconsciente do príncipe em relação à figura de Cláudio, agora não mais um misto de rival a ser odiado e exemplo a ser seguido. É neste contexto que, ao término da peça, a hesitação cede lugar à vingança.

 

Considerações Finais

Como procuramos demonstrar ao longo do presente estudo, o conceito de Complexo de Édipo se apresenta na qualidade de uma ferramenta privilegiada para qualquer tentativa de compreensão da Psicanálise. Assim, ainda que não tenha sido desenvolvido de maneira linear ao longo da obra de Freud, este foi aos poucos ocupando um espaço cada vez maior a ponto de adquirir o status de “complexo nuclear” das neuroses, distinguindo, inclusive, a ortodoxia freudiana das demais modalidades psicanalíticas ulteriores.

Para melhor fornecer ao leitor a dimensão desta importância, realizamos aqui um exercício de interpretação psicanalítica sobre o drama de Hamlet, movimento esse pautado na teoria edipiana. Agora, uma vez chegado o momento de concluir, optamos por evidenciar as possíveis inter-relações entre a Psicanálise e o contexto mais amplo da tragédia em si.

Neste sentido, como sugere Mezan (1995), tais ressonâncias podem ser buscadas em diversas fontes. Por exemplo, na constatação de que tanto a tragédia quanto a Psicanálise operam um doloroso desvendamento do sujeito, construído, por sua vez, a partir de numerosos fragmentos e resistências emocionais. Ainda segundo este autor, tal analogia adquire maiores proporções se levarmos em conta que o trabalho clínico e o dramatúrgico são pautados pela mimese enquanto imitação ou reatualização da vida que visa, em última instância, a purgar ou a purificar sentimentos reprimidos (questão de catharsis).

Uma perspectiva semelhante é adotada por Meiches (2000), que sustenta uma aproximação dos universos da Psicanálise e da tragédia no privilégio que ambas concedem à busca da verdade por meio das origens. Em outras palavras, nos dois casos se faria presente a ênfase na ambígua, inevitável e, por vezes, avassaladora relação entre a descendência filial e o destino ulterior de uma vida psíquica. De maneira alguma podemos subestimar o valor deste vínculo, uma vez que: “A partir de uma circunscrição desse originário, o novo pode advir sem resvalar para a repetição que obedece a um automatismo imperceptível” (Meiches, 2000, p. 80).

Eis aí um legado que, graças a autores como Sófocles, atravessou os séculos e foi muito bem captado por Freud. Assim, cabe a nós &– Édipos e Hamlets que, em maior ou menor escala, reconhecemos a nós mesmos em trabalhos como este que agora se encerra &– seguirmos o exemplo do mestre de Viena, escutando com atenção as sábias vozes advindas da arena grega.

 

Referências

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Recebido em: 14/07/2005
Revisto e revisado em: 12/07/2006
Aceito em: 31/07/2006


 

1 Este trabalho foi desenvolvido como pré-requisito à conclusão do curso Fundamentos da Psicanálise e sua Prática Clínica, oferecido pelo Instituto Sedes Sapientiae - SP e ministrado pelo Professor Antonio Geraldo de Abreu Filho, ao longo do ano letivo de 2004. Cabe aqui um agradecimento ao professor citado, bem como aos demais colegas de sala de aula, pelos debates e sugestões de idéias, que aparecem aqui, em maior ou menor escala.
2 Docente do Departamento de Psicologia Social e Escolar da Universidade Federal do Pará, doutorando em Psicologia Experimental no Instituto de Psicologia - USP e bolsista do CNPq. Endereço para correspondência: Trav. Timbó, 1568/105, Bairro da Pedreira. CEP 66085-654 - Belém, Pará. Endereço eletrônico: mrodri@usp.br
3 Ou “teoria da sedução”, onde Freud inicialmente caracterizava o comportamento das suas pacientes histéricas como resultante de reais tentativas de sedução paterna no contexto da infância. Já a virada teórica rumo à preponderância mais tarde conferida ao complexo de Édipo se daria tanto pela descoberta da sexualidade infantil quanto do papel da fantasia e dos desejos no terreno clínico da psicopatologia.
4 Cf. Capítulo V, seção D: “Sonhos Típicos”
5 Cf. “Fragmento da Análise de um Caso de Histeria” (1905[1901]/1996).
6 Em termos gerais, pensava Freud (1910/1996), trata-se da predileção e enamoramento por mulheres de atitudes “suspeitas” ou pertencentes a outros homens, bem como a fantasia de “salvar” tais figuras objetais da “perdição”.
7 Cf. respectivamente: “Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um Caso de Paranóia (Dementia Paranoides)” (1911/1996) e “História de uma Neurose Infantil” (1918/[1914]/1996)
8 Como vimos, composto de uma parte simples ou positiva e outra invertida ou negativa, ambas dependentes do tipo de identificação (paterna ou materna) estabelecida na infância do sujeito.
9 Para Laplanche e Pontalis (1992, p. 73), temos aqui um “Complexo centrado na fantasia de castração, que proporciona uma resposta ao enigma que a diferença anatômica dos sexos (presença ou ausência de pênis) coloca para a criança (...) A estrutura e os efeitos do complexo de castração são diferentes no menino e na menina. O menino teme a castração como realização de uma ameaça paterna em resposta às suas atividades sexuais, surgindo daí uma intensa angústia de castração. Na menina, a ausência do pênis é sentida como um dano sofrido que ela procura negar, compensar ou reparar. O complexo de castração está em estreita relação com o complexo de Édipo e, mais especialmente, com a função interditória e normativa”.
10 Tal atitude (ou falta de) é recorrente ao longo da peça, quer seja na forma de monólogos em que Hamlet se queixa quanto à sua aparente e miserável covardia, quer seja em uma cena posterior em que, tendo diante de si o rei Cláudio prostrado em oração, Hamlet mais uma vez hesita em matá-lo, alegando para tanto o caráter sagrado da atitude do patife.