SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.5 número1Compreendendo as estratégias de sobrevivência de jovens antes e depois da internação na FEBEM índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Revista Brasileira de Orientação Profissional

versão On-line ISSN 1984-7270

Rev. bras. orientac. prof v.5 n.1 São Paulo jun. 2004

 

RESENHA

 

 

Programa de orientação profissional: uma análise comportamental1

 

 

Priscilla Lourenço Pinheiro*; José Gonçalves Medeiros** 2

Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis

 

 

Subsídios teóricos que possam dar base para uma prática comportamental na área da orientação profissional não são encontrados de forma sistemática. Analistas do comportamento esquivam-se de tal tarefa ou, algumas vezes, realizam a função de orientador de forma imprecisa, trabalhando com base em suas próprias experiências (trabalho geralmente exercido por psicólogos clínicos) e, muitas vezes, implementam seus procedimentos com base apenas na observação do que parece estar “dando certo” nos consultórios. Deste modo, Cynthia Borges de Moura (2001), autora do livro Orientação profissional sob o enfoque da análise do comportamento, ressalta a importância de relacionar os conteúdos e práticas da orientação profissional aos conteúdos e práticas da análise do comportamento, dada a carência de trabalhos nesta área.

A autora, inicialmente, faz um breve histórico sobre a orientação “vocacional” e profissional, resgatando em seu trabalho a evolução do que se tem feito até hoje e quais as tendências atuais. A autora menciona Neiva (1995), que descreve os períodos da história da “psicologia vocacional” em: a) primeiro período (1900/1950) dominado pela psicometria, onde o objetivo foi estabelecer uma ligação entre as habilidades dos indivíduos e as oportunidades profissionais; e b) segundo período (de 1950 até a atualidade) no qual se procura resolver o problema da adaptação do homem aos processos de trabalho cada vez mais complexos, derivando um novo movimento de Orientação Profissional.

É no capítulo três que Moura relaciona o conteúdo da Análise do Comportamento e da Orientação Profissional e aponta possibilidades de integração entre eles. Este é, talvez, o capítulo mais relevante. Assim, ela enfatiza o conceito de “vocação”, mostrando seus equívocos e propondo-lhe uma nova concepção. Explica a vocação “não como uma construção pessoal do indivíduo, mas como um complexo conjunto de variáveis: filo e ontogenéticas que se arranjam de forma única para cada indivíduo”. (Moura, 2001, p. 31). O conceito de vocação deixa de ser algo inato (interior) ao sujeito e, nesta visão, passa a ser socialmente construído, já que existe um conjunto de normas e valores aos quais se espera que as pessoas respondam de forma a se adequarem às suas características, ou seja, o sujeito ao entrar em contato com o meio amplia seus conhecimentos (aprende) e como conseqüência, se torna mais capaz de atuar.

Após este relato, a autora enfoca o tema da escolha profissional e aponta para a necessidade de resgatar, através da verbalização do orientando, uma descrição dos seus dados pessoais, verificando o que existe em seu ambiente que o mobiliza para uma situação de escolha, fazendo uma relação entre o autoconhecimento e a escolha profissional. O comportamento de decidir não é a execução do ato decidido, mas o comportamento anterior responsável por ele (Skinner, 1989; Catania, 1999). Assim, o orientador procura investigar o processo pelo qual o orientando seleciona e opta pela profissão através da análise das variáveis que controlam o comportamento de decidir e amplia, dessa maneira, a compreensão da origem do repertório de escolha do orientando.

No caso do orientando que ainda não selecionou suas alternativas, o orientador sugere que o sujeito explore quantas alternativas sejam possíveis e necessárias e selecione os critérios relevantes sob os quais a decisão deve ser tomada. Segundo Skinner (1989), o comportamento de decidir é essencialmente um processo de geração de condições que tornarão um dado curso de ação mais provável que outro.

Moura aponta para a importância de aprender a decidir em que essa habilidade é requerida no momento de optar por uma profissão. Assim, mostra que a prática de orientar profissionalmente pode se utilizar de um pressuposto teórico comportamental, justificando a importância de incluir, no processo de orientação, metas voltadas tanto para o autoconhecimento, quanto para o conhecimento das profissões. Utilizando uma linguagem comportamentalista, a autora propõe promover a identificação das variáveis pessoais (abertas e encobertas) relacionadas às dificuldades de decisão para ampliar o repertório de análise das opções e possibilidades de escolha profissional pela discriminação das características pessoais.

A autora enriquece o seu texto ao fazer uma análise do comportamento de tomar decisão através do comportamento verbal como parte integrante e necessária desse processo. Ela sugere que o comportamento de decidir por uma profissão está mantido por contingências verbais que exercem maior controle nesse tipo de comportamento. Deste modo, a relação estabelecida entre o comportamento verbal e a orientação profissional, diz respeito ao fato de que tanto a problemática de escolher uma profissão quanto as estratégias utilizadas para a solução deste problema são de natureza verbal. As ações envolvidas na tomada de decisão estão relacionadas a uma formulação verbal a respeito de quais alternativas o orientando deve optar ou escolher.

A autora ainda relata que o comportamento de escolha está controlado por critérios ditados pelas regras sociais implícitas no contexto verbal, ou seja, o orientando opta pela profissão baseado em informações, sem necessariamente precisar passar pela prática profissional e, neste caso, o comportamento de decidir ocorre em função das contingências atuais que são mediadas pela comunidade verbal. O comportamento de decidir por uma profissão é um comportamento cujos eventos reforçadores atuais não são exatamente os mesmos que controlarão o desempenho futuro da profissão escolhida e tais reforçadores, isto é, as conseqüências decorrentes do exercício da profissão, não estão presentes na situação de decisão.

Para concluir o trabalho, a autora avalia a situação de escolha profissional, levando em consideração três contextos de contingências: as pessoais (controle e expectativa dos pais, nível sócio-econômico, influência dos amigos, professores, meios de comunicação, história de reforçamento para determinada atividade por modelagem), as profissionais (relação dos interesses, habilidades e capacidades do adolescente com informações obtidas) e, por fim, tomar a decisão (selecionar os critérios da escolha e restringir as opções profissionais). Assim, propõe um programa de orientação profissional em bases comportamentais dividido em três etapas: a) proporcionar uma ampliação de repertório pessoal de autoconhecimento e assim fazer um levantamento das características que são relevantes para escolher uma profissão; b) proporcionar uma ampliação semelhante ao repertório de opções profissionais que foi descoberto pelo orientando e, juntamente com ele, c) proporcionar restrição dos critérios e opções de escolha, no sentido de facilitar a tomada de decisão.

Não há dúvida da importância do presente livro na área de orientação profissional, contudo, o instrumento de coleta de dados (os questionários), utilizado pela autora para sua dissertação de mestrado, da qual se originou o livro, apóia-se, ainda, em concepções individualistas de escolha profissional. Algumas questões do questionário deixam claro esses pressupostos. Por exemplo, “gosto de tal profissão ou de algum de seus aspectos”, “gosto de fazer isso, logo sirvo para tal profissão”, podendo inclusive, ser notada, nesta última questão, referência a um modelo de orientação com base nas relações de causa e efeito. O texto não apresenta, também, uma análise das prováveis influências do meio sobre o “gostar” e nem o grau do quanto se gosta. Mesmo com essas restrições, o livro é, sem dúvida, um avanço nessa área de conhecimento.

 

REFERÊNCIAS

Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: Comportamento, linguagem e cognição. Porto Alegre: Artes Médicas.

Neiva, K. M. C. (1995). Entendendo a orientação profissional. São Paulo: Paulus.

Moura, C. B. (2001). Orientação profissional sob o enfoque da análise do comportamento. Londrina: UEL.

Skinner, B. F. (1989). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

 

 

Recebido: 02/03/04
1ª revisão: 02/08/04
Aceite final: 07/10/04

 

 

1 Resenha do livro: Moura, C. B. (2001). Orientação profissional sob o enfoque da análise do comportamento. Londrina: UEL.
2 Endereço para correspondência: Endereço para correspondência: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Laboratório de Linguagem e Comportamento Verbal. Caixa Postal 5060, 88040-970, Florianópolis, SC. Fones: (48) 331 9457 e 331 8565, Fax: (48) 331 9751. E-mail: medeiros@mbox1.ufsc.br.

 

 

Sobre os autores
* Priscilla Lourenço Pinheiro é mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, na linha de Processos Organizacionais, Trabalho e Aprendizagem. Especialista em Clínica Comportamental pelo ISPAC-DF. Psicóloga graduada e licenciada pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (UniCEUB). Professora da Faculdade ÚNICA e da Escola Técnica Geração, ambas localizadas em Florianópolis, SC.
** José Gonçalves Medeiros é professor orientador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Doutor em Psicologia Experimental pela USP; bolsista do CNPq e lotado no Departamento de Psicologia da UFSC. Atualmente exerce a função de vice-diretor do CFH e, simultaneamente, a função de Editor da Revista de Ciências Humanas (CFH).

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons