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Revista Brasileira de Orientação Profissional

versão On-line ISSN 1984-7270

Rev. bras. orientac. prof v.7 n.1 São Paulo jun. 2006

 

ARTIGOS

 

 

A escolha profissional entre os bombeiros militares1

 

Professional choice by military firemen

 

La elección profesional entre los bomberos militares

 

 

Michelle Regina da Natividade,2 I* Vanderlei BrasilII **

I Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis
II Universidade do Sul de Santa Catarina, Palhoça

 

 


RESUMO

Este artigo tem como foco a compreensão que os Bombeiros Militares da região da Grande Florianópolis têm sobre sua escolha profissional. Optou-se pelo estudo dessa profissão em decorrência da sua importância no contexto da segurança pública. Trata-se de um estudo do tipo exploratório e descritivo. A obtenção e a análise dos dados foram realizadas quantitativa e qualitativamente. Os participantes da pesquisa foram os Praças da 1ª e 2ª Companhia do 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros, sendo esta população constituída por 391 sujeitos, dos quais 266 responderam ao questionário semi-aberto. Foi possível concluir que os fatores que mais influenciaram na escolha profissional foram relativos ao conteúdo da profissão e a casualidade. Evidenciou-se, também, que a escolha profissional e a ocupação são fatores fundamentais na constituição da identidade do sujeito.

Palavras-chave: Escolha profissional, Bombeiro militar, Identidade profissional.


ABSTRACT

This article aimed at investigating the comprehension that military firemen in Florianópolis have about their professional choice. This occupation was selected due to its great importance for public security. This is an exploratory-descriptive research. Gathering and analysis of data were done quantitatively and qualitatively. The participants of this research were firemen from the 1st and 2nd companies of the 1st fire department, 266 of whom answered a semi-structured questionnaire. It was possible to conclude that the factors which most influenced their professional choice related to the contents of the occupation and/ or were random. It was also verified that the professional choice and the occupation itself are essential factors that constitute the subjects’ identity.

Keywords: Professional choice, Military firemen, Professional identity.


RESUMEN

Este artículo se refiere a la comprensión que los bomberos militares de la región de la gran Florianópolis tienen sobre su elección profesional. Se optó por el estudio de esta profesión a causa de su gran importancia en el contexto de la seguridad pública. Se trata de un estudio de tipo exploratorio y descriptivo. La obtención y el análisis de los datos fueron realizados cuantitativa y cualitativamente. Los participantes de la investigación fueron los soldados de las 1ª y 2ª Compañías del 1er Batallón del Cuerpo de Bomberos, con una dotación de 391 sujetos, de los cuales 266 respondieron al cuestionario semiabierto. Se concluyó que los factores que más influenciaron en la elección profesional fueron los relativos al contenido de la profesión y a la casualidad. Se puso en evidencia, también, que la elección profesional y la ocupación son factores fundamentales en la constitución de la identidad del sujeto.

Palabras clave: Elección profesional, Bombero militar, Identidad profesional.


 

 

Na sociedade do século XXI tem-se discutido muito a questão da segurança pública, devido ao crescimento assustador da violência, principalmente nas grandes cidades. Como tentativas de proteção, constroem-se condomínios fechados, carros blindados, dentre outras alternativas.

De acordo com Brasil (1998)1:

“A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícia militar e corpos de bombeiros militares.”

Assim, são os órgãos da segurança pública os responsáveis por zelar pela segurança dos cidadãos brasileiros. Todavia, percebe-se que este conjunto de órgãos é formado por categorias profissionais diferentes, que apresentam particularidades em sua estrutura organizacional, bem como no papel social que representam frente à sociedade.

É possível constatar que frente a vários eventos de violência policial veiculados na mídia e apontados por Amador (2002), a Polícia Militar se apresenta em uma linha tênue entre as disposições constitucionais e a “violência policial ilegítima” (p. 65). Sendo assim, diante da violência policial, observa- se na população em geral um questionamento sobre o papel original dos Policiais Militares. De modo oficial, as Organizações de Bombeiros Militares, como já foi pontuado, também são consideradas órgãos da segurança pública, embora realizem atividades diferenciadas. Em matéria veiculada pela Revista Veja (2002), sobre a confiabilidade das profissões, percebe-se que a visão da população sobre a profissão2 de Bombeiro Militar aparece em primeiro lugar nas profissões mais confiáveis, apresentando um índice de 98% de confiabilidade, o que evidencia uma excelente imagem profissional. Entretanto, considerando a relevância do tema, é espantosa a precariedade de estudos que abordam a problemática das atividades profissionais dos militares. Mediante revisão bibliográfica, constatou-se a existência de poucos textos que debatam esta questão e sobre a temática da escolha profissional de militares não se localizou nenhum estudo. A maior parte de referências encontradas são laudatórias, nas quais os próprios militares falam sobre si mesmos. Algumas referências encontradas foram: Alegria (1999/2000) que apresenta um inquérito sociológico sobre a população militar dos regimes de voluntariado em Portugal; Vieira (1997) que realiza um perfil profissiográfico do soldado Policial Militar e Bombeiro Militar e Campos (1999) que discute sobre o estresse profissional dos Bombeiros Militares de Florianópolis.

O profissional Bombeiro Militar3 coloca sua vida em risco para salvar a vida de terceiros e para defender bens públicos e privados da sociedade. Sabese que o risco é inerente a esta atividade profissional e de acordo com o Estado Maior das Forças Armadas, “o exercício da atividade militar, por natureza, exige o comprometimento da própria vida” (Brasil, 1995, p.11).

A organização militar tem uma estrutura pautada na hierarquia e na disciplina4; a comunicação é formal e hierarquizada e quando ocorre algum tipo de problema interno é esta hierarquia que deve ser seguida para sua resolução. Devido a estas características da organização, os sujeitos que nela trabalham devem seguir algumas regras de comportamento para estarem de acordo com as diretrizes propostas. O respeito e o cumprimento destas regras acabam padronizando o comportamento dos sujeitos que ali trabalham em diversos aspectos de suas vidas, como por exemplo, no modo como atendem uma pessoa. Em outros termos, mediante imposições rigorosas de comportamento por parte da organização, os sujeitos acabam incorporando tais diretrizes em sua vida pessoal e ampliam seu padrão de comportamento para outros setores além do campo profissional, como família e grupos de amigos.

Admitindo-se que as pessoas constituem suas identidades mediante as relações que estabelecem nos diversos espaços sociais e compreendendo também que as organizações onde se fundamentam e se desenvolvem as atividades profissionais constituem um espaço privilegiado na formação destas identidades, pode-se entender então o efeito que uma organização nos moldes militares exerce em seus membros.

Contudo, a significação que um sujeito atribui a determinada profissão irá se construir ao longo de sua vida e não apenas a partir do momento em que ele passa a exercer tal atividade. Compreende-se que a realidade objetiva não é uma realidade pronta e acabada, mas está em constante transformação. O sujeito, desde o início de sua vida, estabelece relação com esta realidade, na qual ele se constitui e também a modifica, pois conforme Zanella “(...) via atividade, o ser humano se apropria da cultura e concomitantemente nela se objetiva, constituindo-se assim como sujeito” (2005, p. 99). Sendo assim, seguindo a visão de Jacques (2001), Ciampa (1997) e Zanella (2004), pode-se afirmar que o sujeito é autor e ator5 de sua própria história, pois há “forças sociais” que agem sobre o sujeito, mas sobre as quais ele próprio interfere. O sujeito é autor, pois como afirma Zanella (2004), ele pode atribuir sentidos diferentes ao que é socialmente estabelecido e é ator, pois suas possibilidades estão circunscritas às condições sócio-históricas.

Nesta pesquisa, baseada nos pressupostos da abordagem sócio-histórica de Orientação Profissional, partiu-se da premissa de que o sujeito escolhe uma determinada profissão a partir de todas as suas vivências e das interações que estabelece em seu meio social. De acordo com Bock (2002), não se trata de dizer que o meio social do qual o sujeito faz parte lhe determine mecanicamente seu modo de ser. Entretanto, também não se pode desprezar o papel desta interação do sujeito com seu meio nem se fazer uma apologia de uma escolha meramente individual, desvinculada de qualquer relação com o coletivo. De acordo com a referida teoria, a orientação profissional deveria superar a dicotomia indivíduo e sociedade e não pensar as escolhas como atitudes individuais e fora de contexto. Isto porque o meio social coloca ao sujeito possibilidades e impossibilidades nas suas escolhas. Entretanto, como o sujeito é personagem desta história de cuja construção ele próprio participa, ele é responsável por suas escolhas, ou seja, por mais que o meio lhe limite as opções, ele tem a possibilidade de refletir sobre o que está lhe acontecendo e de posiciona-se diante dos fatos. Quando o sujeito faz uma escolha, além de ter que avaliar as suas efetivas condições de possibilidade, ele tem que admitir que deixou de escolher várias outras coisas, ou seja, nos termos de Bohoslavsky (1993), tem que elaborar o luto das outras opções.

Diante das diversas influências, como a família, o grupo de amigos, as possibilidades de retorno financeiro, a concorrência no vestibular, a representação social da profissão, o mercado de trabalho e, conforme Whitaker (2002), tantos outros fatores “ocultos” (p. 52), o sujeito acaba tendo que se posicionar frente às diferentes opções profissionais e fazer uma escolha, admitindo sua responsabilidade neste ato e arcando com as conseqüências. Pode-se pensar, porém, que esta opção é realizada com plena liberdade. Entretanto, Ferretti (1997) não considera que todos os sujeitos tenham a mesma liberdade para determinar seu futuro profissional, isto porque a realidade social concreta impõe certos limites que, embora o sujeito deseje superar, não o conseguirá sempre, porque ultrapassam a questão individual.

Conforme Bock (2002), o sujeito “escolhe e não escolhe sua profissão” (p. 69), pois afirma que dependendo da classe social terá mais ou menos liberdade de escolher realmente sua profissão. Isso não quer dizer que sujeitos oriundos das parcelas mais pobres da população não possam ascender socialmente, pois Bock (2002) admite “(...) a possibilidade de mudança, de alteração histórica, ao reconhecer que os indivíduos podem, de certo modo, intervir sobre as condições sociais, por meio de ações pessoais e/ou coletivas” (p. 69). Todavia não basta o desejo de mudança, pois assim como Ferretti (1997), Bock (2002) admite que nem todos os obstáculos colocados pelo meio social podem ser superados, e que é necessária a permanente luta por mudanças sociais.

Considerando, conforme já exposto, que a escolha profissional se dá em uma relação dialética entre o sujeito e seu contexto sócio-histórico e, portanto, deve sempre ser compreendida de acordo com os respectivos contextos onde acontece, a pesquisa teve como principais objetivos6 estudar o modo como os Bombeiros Militares da região da Grande Florianópolis entendem a sua escolha profissional e como consideram que sua profissão é percebida pela sociedade civil.

 

MÉTODO

Caracterização da Pesquisa

Constitui-se de um estudo exploratório e descritivo; configura-se como exploratória ao buscar familiaridade com a realidade específica dos Bombeiros Militares delimitados como população desta pesquisa; e é descritiva, pois, de acordo com Gil (1991), o estudo descritivo se caracteriza exatamente por ter “como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou, então, o estabelecimento de relação entre variáveis.” (p. 46). Quanto ao seu delineamento, configura- se como um levantamento.

Participantes

De acordo com uma estatística interna atualizada em 04/06/2002 e disponibilizada pelo Comando do Corpo de Bombeiros (CCB), o efetivo da Corporação dos Bombeiros Militares de Santa Catarina, era em torno de 1758 homens. Todavia definiu-se que a população da pesquisa seria constituída apenas dos praças, ou seja, soldados, cabos, sargentos e subtenentes, pertencentes às unidades operacionais da região da Grande Florianópolis, a qual constituiu- se de 391 praças. Sendo assim, a referida pesquisa teve como local de sua realização as seguintes unidades operacionais, pertencentes ao 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros: 1ª Companhia – CBM – São José, incluindo o 1º Pelotão – PBM – Estreito e 2ª; Pelotão – PBM – São José; 2ª Companhia – CBM - Grupo Busca e Salvamento – GBS, incluindo o 1º Pelotão – PBM – Centro, 2º Pelotão – PBM – Trindade, 3º Pelotão – PBM – Aeroporto e 4º Pelotão - PBM - Centro (GBS).

A partir da estatística disponibilizada pelo CCB, utilizaram-se procedimentos estatísticos e selecionouse aleatoriamente uma amostra da população, com uma margem de erro estabelecida em 3% e nível de confiança de 95%, a qual totalizou 289 praças. Esta margem de erro permitiu que nas conclusões os resultados da pesquisa fossem generalizados a toda a população. Todavia, durante a realização da pesquisa não foi possível alcançar este número, sendo que a amostra definitiva totalizou-se em 266 participantes. Esta população se constituiu integralmente de homens, com faixa etária entre 26 e 50 anos, sendo 82,3% casados e 55,1% deles possui o Ensino Médio completo. A maioria dos participantes de pesquisa (55,3%), já trabalha como militar entre 10 e 20 anos.

Instrumento

O instrumento de coleta de dados utilizado foi um questionário semi-aberto, por este possibilitar a investigação em um grande número de sujeitos e ao mesmo tempo permitir a familiaridade com o tema proposto. As pesquisas de Vieira (1997), Campos (1999) e Alegria (1999/2000) e as referências utilizadas para contextualizar a profissão de Bombeiro Militar (Bastos, 2001; Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, 1999; Polícia Militar de Santa Catarina, 1997; Regis e cols., s/d), foram utilizadas com o objetivo de auxiliar na construção do questionário.

Realizou-se inicialmente uma pré-testagem dos questionários em 10 Bombeiros Militares pertencentes ao CCB. A partir deste pré-teste, foram realizadas algumas mudanças no instrumento de coleta de dados e depois se iniciou a aplicação na amostra selecionada.

Procedimento de Coleta

Na etapa de coleta de dados, foram realizadas duas visitas a cada quartel dos Bombeiros Militares, as quais foram sempre iniciadas às 8 horas da manhã, visto que é neste horário que ocorre a troca de guarnição (troca de turno).

Cada quartel teve sua especificidade. Em alguns a aplicação foi realizada em sala de aula, com grupos de 20 a 40 sujeitos; em outros quartéis a aplicação foi feita em pequenas salas com grupos de aproximadamente 10 sujeitos.

Procedimentos de Análise

A partir dos questionários, obtiveram-se dados objetivos, que foram analisados de forma quantitativa. Estes dados foram agrupados em seu conjunto sem distinção entre os quartéis; foram distribuídos de acordo com o percentual de freqüência das respostas assinaladas e apresentados em forma de gráficos e tabelas. Também se procedeu à análise qualitativa dos dados pautada neste caso pela análise de conteúdo (Bardin, 2000).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Duas perguntas do questionário foram de fundamental importância para a compreensão da escolha profissional dos Bombeiros Militares. Na primeira questionava-se: “Você realizou sua escolha profissional baseando-se em que fatores?”; apresentaramse dezesseis itens e solicitou-se que cada participante assinalasse os três itens que considerava mais importantes em sua escolha profissional. Os itens propostos foram: influência de familiares; influência de amigos; foi a oportunidade de emprego que surgiu (falta de alternativa de emprego); sempre quis ser bombeiro (sonho de criança); gostar da vida militar; vocação; prestígio social; servir à Pátria; espírito de aventura; ambiente estruturado (disciplina, regras, hierarquia, etc.); atender e ajudar as pessoas; boa remuneração; possibilidade de crescimento dentro da carreira militar; não tinha outras habilidades; segurança (estabilidade) profissional; tradição familiar.

Dentre estas alternativas, os itens que obtiveram maiores escores foram referentes ao conteúdo da profissão, ou seja, o conjunto das atividades realizadas na profissão, o fazer profissional (atender e ajudar as pessoas com 69,7% e gostar da vida militar com 29,8%) e a casualidade (foi a oportunidade de emprego que surgiu com 31,5%). Considera-se que o item casualidade apontado como segundo maior escore, pode ser relacionado com o que Bock (2002) e Ferretti (1997) afirmam sobre os limites efetivos da escolha profissional, devido às condições objetivas de vida do sujeito. Entende-se que a escolha profissional desses sujeitos, na época em que a realizaram, estava condicionada à existência de pouca oportunidade de emprego.

Este fator ainda pode ser relacionado com a segunda pergunta realizada, a qual foi: “Se pudesse voltar atrás, escolheria a mesma profissão de novo?”, onde 89,6% dos sujeitos afirmaram que sim. Isto nos faz pensar que, embora 31,5% dos sujeitos escolheram esta profissão devido à casualidade, existem, além de fatores materiais e financeiros envolvidos na permanência desses sujeitos no Corpo de Bombeiros, também um elemento afetivo, ou seja, o gosto elevado pela profissão que exercem.

A partir da análise dos dados, conclui-se que embora possam existir dificuldades na organização ou durante a execução de sua atividade profissional, os sujeitos se realizam profissionalmente devido ao conteúdo de sua profissão. Conforme o próprio relato dos profissionais, sua missão é ajudar o próximo, transcendendo a suposição presente no senso comum que seja apenas apagar fogo. O cuidado com a vida e com os bens do próximo é entendido como o fim maior da atuação profissional do Bombeiro Militar. Isto também pôde ser corroborado durante a aplicação dos questionários, pois vários sujeitos comentavam que se não gostassem tanto da atividade que exercem, não continuariam trabalhando como Bombeiro Militar; demonstravam orgulho e realização com sua atividade profissional, muito embora apresentassem reclamações da organização e das condições de serviço.

Quando questionados sobre o que os seus familiares acham de sua profissão, a grande maioria (93,9%) percebe que sua família aprova sua profissão. Isto é um fator positivo, visto que, para a construção da identidade é necessário que o próprio sujeito se reconheça no papel que exerce, como igualmente perceber que o outro também lhe reconhece neste papel, principalmente quando este outro é um outro significativo, como no caso da família. É este outro quem confirma o papel que o sujeito exerce em suas relações, e isto é essencial para a construção da identidade, pois, de acordo com Vigotski (2000), “Através dos outros constituímo-nos” (p. 24).

Tais apontamentos são corroborados com outra pergunta, a qual questionou “O que você acha que a sociedade (população civil) pensa sobre sua profissão?”, onde foram apresentados nove itens e solicitou-se que cada participante assinalasse no máximo três. Os itens propostos foram: heróis; iguais à polícia; profissionais úteis na sociedade; profissionais sem utilidade para sociedade; profissionais que não cumprem com suas obrigações; profissionais que estão sempre prontos a atender; educados; grosseiros; não conhecem.

Através da análise, foi possível verificar que os participantes consideram que a população civil tem uma boa imagem de sua profissão, pois os itens com maiores escores foram: profissionais que estão sempre prontos a atender, educados, úteis na sociedade e heróis. Pôde-se constatar que somente 5,5% dos sujeitos consideram que a população civil os percebem como iguais aos policiais.

Considerando-se que, conforme Whitaker (2002), tanto o conteúdo – considerado como o conjunto de atividades que uma profissão realiza - quanto à forma – considerada como a aparência ou a representação social de uma profissão -, exercem um peso significativo na escolha, foi possível perceber com esta pesquisa que o principal motivo da escolha profissional entre os Bombeiros Militares está sustentado na questão do seu conteúdo. Além disso, no que se refere à imagem da profissão, podemos perceber que tanto o Bombeiro Militar avalia positivamente a sua escolha profissional como também julga que sua profissão é bem vista pela população civil. Se a imagem da profissão não foi necessariamente um elemento central no momento da escolha para estes sujeitos, podemos, com certeza, afirmar que ela é um forte motivo de orgulho pessoal e profissional.

 

REFERÊNCIAS

A Confiabilidade das Profissões. (2002, 30 de outubro). Veja, 1775, 114.

Alegria, Ten. L. (1999/ 2000). Inquérito sociológico aos militares em regime de voluntariado e de contrato do exército português: Um estudo exploratório de âmbito nacional. Revista de Psicologia Militar 12, 42-56.

Amador, F. S. (2002). Violência Policial: Verso e reverso do sofrimento. Santa Cruz do Sul: EDUNISC.

Bardin, L. (2000). Análise de Conteúdo. Lisboa, Portugal: Edições 70.

Bastos, E. J. Jr. (2001). Corpo de Bombeiros da Polícia Militar de Santa Catarina – 75 anos. Palestra apresentada na comemoração dos 75 anos do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, Florianópolis.

Bock, S. D. (2002). Orientação profissional: A abordagem sócio-histórica. São Paulo: Cortez.

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Campos, C. C. (1999). O Estresse profissional e suas implicações na qualidade de vida no trabalho dos bombeiros militares de Florianópolis. Trabalho de Conclusão de Curso não-publicado, Graduação em Serviço Social, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC.

Ciampa, A. C. (1997). Identidade. Em S. T. M. Lane & W. Codo (Orgs.). Psicologia Social - O homem em movimento. (pp. 58-75). São Paulo: Brasiliense.

Corpo de Bombeiros de Santa Catarina. (setembro de 1999). Revista 193. 1 (1), página inicial-final.

Dubar, C. (1997). A socialização: Construção das identidades sociais e profissionais. Porto, Portugal: Porto Editora.

Ferretti, C. J. (1997). Uma nova proposta de orientação profissional. (3ª ed.). São Paulo: Cortez.

Gil, A. C. (1991). Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas.

Jacques, M. G. (2001). Identidade. Em: M. N. Strey e colaboradores. Psicologia social contemporânea: Livro – texto. (pp.159-167). (5ª ed.). Petrópolis: Vozes.

Policia Militar de Santa Catarina. (1997). O Estresse Profissional e o Cotidiano dos Bombeiros Militares. Diretoria de Saúde e Promoção Social - Hospital Comandante Lara Ribas. Florianópolis: Setor de Serviço Social.

Regis, Maj. C. Q. e colaboradores. (s/d). Livro Comemorativo do 1º Centenário da Força Pública do Estado de Santa Catarina: 1835 – 1935.

Rugiu, A. S. (1998). Nostalgia do Mestre Artesão. Campinas, SP: Autores Associados.

Vieira, E. M. (1997). Perfil Profissiográfico do Soldado PM/BM. Trabalho de Conclusão de Curso nãopublicado, Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO). Florianópolis.

Vigotski, L. S. (2000). Manuscrito de 1929. Educação e Sociedade. Campinas, 21(71), 21-44. Retirado em 10/ 06/2005, do Scielo (Scientific Eletronic Library Online) no World Wide Web: http://www.scielo.br/

Whitaker, D. (2002). Escolha da carreira e globalização. (11a ed.) São Paulo: Moderna.

Zanella, A. V. (2004). Atividade, significação e constituição do sujeito: Considerações à luz da Psicologia Histórico-Cultural. Psicologia em Estudo. Maringá, 9(1), 127-135. Retirado em 06/05/2005, do Scielo (Scientific Eletronic Library Online) no World Wide Web: http://www.scielo.br/

Zanella, A. V. (2005). Sujeito e alteridade: Reflexões a partir da psicologia histórico-cultural. Psicologia e Sociedade, 17 (2), 99-104.

 

Recebimento: 15/08/05
1ª Revisão: 20/01/06
Aceite final: 04/05/06

 

 

Notas:

1 Título V – Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, Capítulo III – Segurança Pública, art. 144.
2 A conceituação de termos como profissão, ocupação, ofício e trabalho envolve um debate bastante extenso e rico. Há na literatura
específica uma discussão sobre as diferenças entre as artes liberais e artes mecânicas, que historicamente constituiriam as profissões
e ofícios, separadas pelas oposições entre atividades intelectuais e manuais. Para aprofundar esta discussão ver Dubar (1997) e Rugiu
(1998). Neste artigo, que não pretende discutir conceitualmente tais termos, propõe-se a noção de profissão como uma atividade
regular para a qual um indivíduo se preparou e que a exerce para seu sustento, caracterizando portanto a necessidade de uma
preparação formal para o exercício e a conseqüente aquisição de um conjunto de habilidades específicas para a realização das
atividades pertinentes.
3 A Classificação Brasileira de Ocupações – CBO (www.mtecbo.gov.br/) apresenta a descrição dos Praças do Corpo de Bombeiros
Militar em dois títulos: “cabos e soldados” e “subtenentes e sargentos”. A descrição sumária das atividades dos cabos e soldados é:
“Realizam resgates e salvamentos; combatem incêndios; previnem acidentes e sinistros; preparam-se para ocorrências. Atendem
ocorrências com produtos perigosos. Trabalham conforme normas e procedimentos técnicos, de segurança e preservação do meio
ambiente. Estabelecem comunicação, triando e transmitindo informações, transmitindo e recebendo mensagens.” E a descrição
sumária das atividades dos subtenentes e sargentos é: “Previnem sinistros e acidentes; realizam salvamento, combatem incêndios e
prestam atendimento pré-hospitalar. Controlam acidentes com produtos perigosos, comandam equipes de serviços de prontidão e
chefiam guarnições. No desenvolvimento das atividades, a rapidez e a eficácia da comunicação são cruciais, tanto para atender
ocorrências como para tranqüilizar vítimas e orientar a população.”
4 Conforme a Constituição Estadual, Título V- Da Segurança Pública, Capítulo III - Da Polícia Militar, art. 107.
5 Jacques (2001) e Ciampa (1997) utilizam o termo personagem ao invés do termo ator.
6 A pesquisa que deu origem a este artigo, envolveu outros aspectos que não foram abordados no presente relato, como por exemplo,
identidade profissional e qualidade de vida no trabalho. Desta forma, nem todas as questões propostas no instrumento de coleta de
dados são pertinentes ao objetivo deste artigo e, portanto, não foram analisadas no tópico “resultados e discussão”.

 

Sobre os autores
* Michelle Regina da Natividade é Mestranda no curso de Pós-Graduação em Psicologia na Universidade
Federal de Santa Catarina; e Psicóloga formada pela Universidade do Sul de Santa Catarina.
** Vanderlei Brasil é Professor do curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina; e Mestrando
pelo curso de Pós-Graduação em Sociologia Política na Universidade Federal de Santa Catarina.

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