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Revista Brasileira de Orientação Profissional

versão On-line ISSN 1984-7270

Rev. bras. orientac. prof v.7 n.1 São Paulo jun. 2006

 

RESENHA

 

 

Problemáticas da psicologia da orientação: construindo uma ponte entre a teoria e a prática1

 

 

Izildinha Maria Silva Munhoz2 *

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP

 

1 Resenha do livro: Guichard, J. & Huteau, M. (2001). Psicologia da Orientação. Lisboa: Instituto Piaget.

Modelos buscando explicar a escolha de uma profissão e a maneira de se ajudar as pessoas a terem sucesso e realização profissional estão se desenvolvendo continuamente no campo da Orientação Vocacional / Profissional. De tempos em tempos, surgem autores que procuram organizar essas contribuições e se tornam referência para as pessoas que trabalham na área, como Osipow (1968), Crites (1969) e Brown & Brooks (1996). O livro Psicologia da Orientação, dos franceses Jean Guichard e Michel Huteau (2001)1, representa uma bem sucedida tarefa nesse sentido, além de se ter acesso a uma versão em português, de grande utilidade para orientadores brasileiros.

O objetivo dos autores é o de “fornecer tanto aos que trabalham com práticas da consulta em orientação como aos investigadores em Psicologia e aos estudantes, uma síntese das problemáticas da psicologia da orientação” (Guichard & Huteau, 2001, p.10). Como todos os manuais, é um livro denso, com grande volume de informações, mas uma leitura instigante e necessária, do ponto de vista do conhecimento da área. O texto em português “lusitano” provoca algumas dificuldades de entendimento, mas não compromete a compreensão do texto como um todo, na medida em que o leitor brasileiro se acostume com termos utilizados, como por exemplo, a expressão “a questão da orientação” que se refere aos direcionamentos ou escolhas que o jovem faz / pode fazer em relação aos estudos e às profissões, e não a questões das práticas de orientação realizadas pelos “conselheiros”.

Em quatro amplos capítulos, os autores apresentam um estudo minucioso, ainda que sintético, do desenvolvimento dos estudos no campo da Orientação Profissional, com detalhamentos sobre a realidade francesa sem, contudo, menosprezar a realidade internacional. No primeiro capítulo, Guichard e Huteau procuram explicar como os quadros ideológicos e os contextos da organização do trabalho e da formação profissional nas sociedades influenciaram as mudanças nas práticas de orientação. Os autores analisam ainda as contribuições de modelos teóricos da psicologia da orientação, citando a Psicologia Diferencial, as Abordagens Desenvolvimentistas e a Entrevista Psicológica de Carl Rogers. As considerações finais desse capítulo são relativas à necessidade de uma reflexão ética sobre os objetivos e as finalidades das práticas de orientação.

O segundo capítulo é dedicado ao estudo da problemática das diferenças individuais. Três grandes grupos de modelos de práticas de orientação são descritos: (1) os que consideram o indivíduo passivo, com características estáveis, como a psicometria clássica e a teoria de adaptação ao trabalho de Dawis e Lofquist; (2) aqueles que consideram a escolha profissional como meios de exercer competências ou satisfazer necessidades, com especial atenção àquelas que consideram os interesses e os valores como os aspectos mais importantes a serem observados, como Roe e Holland e (3) os modelos que consideram o indivíduo ativo cujo comportamento resulta de interações múltiplas e constantes com o meio. Neste ultimo tópico, os autores destacam as contribuições de Bandura, com os conceitos de aprendizagem por observação e sentimento de auto-eficácia, o modelo de Lent, Brown e Hackett e as contribuições da psicologia cognitiva para as práticas da orientação.

No terceiro capítulo, são analisados os modelos teóricos desenvolvimentistas, reunidos em três grupos: (1) os que atribuem ao passado um papel fundamental na gênese das preferências e identidades profissionais, como os modelos de Krumboltz, baseado em Bandura e o de Bordieu, com forte inspiração sociológica; (2) os que enfatizam a idéia de que há uma seqüência previsível no desenvolvimento das identidades pessoais e profissionais, cujo representante mais conhecido é Donald Super, mas também são citados Ginzberg, Ginzburg, Axerlrad e Herma, Bernadette Dumora, Erik Erickson e Linda Gottfredson e (3) os autores que questionam a previsibilidade de fases e trajetórias no mundo do trabalho atual e que se dedicam ao estudo dos contextos, interações sociais e transições, como Bill Law, Vondraceck, Lerner e Schulenberg, Schlossberg e Dubar. Para encerrar este tema, os autores descrevem as idéias centrais, muito resumidas de um modelo geral, que julgam ser capaz de integrar as diversas perspectivas inventariadas ao longo dos capítulos anteriores, com base em Winnicott, Super e teorias cognitivistas, mas o pouco espaço destinado a ele não permite tecer maiores considerações.

No último capítulo: As práticas de ajuda à orientação, os autores destacam a importância da entrevista psicológica (referida como entrevista de consulta) e distinguem dois métodos de entrevistas: as “existenciais” – centradas na pessoa do consulente e as “vocacionais” – enfocando as escolhas de estudos e de carreira. Além de Rogers são analisadas outras propostas de entrevistas do tipo existenciais como o Método das Idealizações Pessoais de Georges Kelly; o Modelo de Ajuda para a Definição e a Realização de Objetivos de Gerard Egan; a abordagem de Robert Manthei; A Entrevista Ego – Ecológica de Marisa Zavalloni, e O Inventário do Sistema das Atividades de Jacques Curie, Alain Baubion- Broye e Violette Hajjar.

As entrevistas do tipo vocacionais, centradas na questão da orientação, são freqüentemente acompanhadas por outras técnicas. São descritas: a Entrevista de Avaliação em Aconselhamento de Emprego de Conrad Lecomte e Louise Tremblay, a Consulta de Carreira de Norman Gysbers, Mary Heppner e Joseph Johnston e o Método de Donald Super de Consulta em Orientação. São também descritas outras abordagens centradas em pontos particulares do problema de orientação.

Outro tópico descreve os “Balanços de Orientação” realizados na França, um tipo de avaliação de carreira da pessoa, que “deve permitir a uma pessoa fazer a análise, e a síntese, a respeito de suas experiências pessoais e profissionais, dos seus recursos mobilizáveis num projeto profissional, se for o caso um projeto de formação, coerente, finalizado e adaptado” (p.272). São realizadas entrevistas, analisados interesses, competências e aptidões, bem como possibilidades de evolução pessoal e profissional, com a finalidade de elaborar um projeto profissional e planejar sua realização. Uma outra seção do livro, também referente à realidade francesa, é o que se refere ao Programa de Certificação, que garante a toda pessoa que exerceu durante cinco anos uma atividade profissional relacionada com seu objeto de pedido, requerer a certificação de conhecimentos profissionais, considerada de igual valor a um diploma.

A educação para a orientação, nome dado pelos autores ao movimento denominado em inglês “career education” (educação de carreira), é uma prática amplamente difundida na França, desenvolvido inicialmente com adolescentes, nas escolas, mas que hoje inclui crianças e adultos; o objetivo básico é o de estimular o desenvolvimento de competências e atitudes necessárias à elaboração de um projeto escolar e profissional, bem como a enfrentar as transições no mundo do trabalho. São descritos métodos de educação de carreira baseados no modelo de Ativação do Desenvolvimento Vocacional e Pessoal (ADVP) de Pelletier, Noiseaux e Bujold e o de Guichard, que difere dos programas do tipo ADVP e é apresentado em três versões, segundo o grau escolar do grupo.

A seguir são analisadas as contribuições e limitações dos recursos de informática para o aconselhamento de carreira e são apresentados alguns tipos de programas informatizados de orientação. Sobre a possibilidade de tais programas substituírem os conselheiros, os autores argumentam: “a interação com os programas informáticos não reduz a procura de contatos pessoais com um conselheiro, bem ao contrário, aumenta-a” (Guichard & Huteau, 2001, p. 310).

A avaliação dos efeitos das práticas de orientação é analisada e os autores ponderam que, embora haja um consenso em relação aos objetivos gerais de tais práticas, eles não fornecem critérios que permitam avaliá-las, pois em sua maioria não são operacionais. Os métodos de avaliação tradicionais, como a observação e a experimentação são destacados e recomendados, mas são evidenciadas as dificuldades na avaliação das condutas de orientação. Também são apresentados resultados de pesquisas sobre avaliação de balanços de competências, educação de carreira e programas informatizados de orientação.

As questões éticas são retomadas no último capítulo. Para os autores, na medida em que se trabalha com pessoas, há necessidade de uma reflexão de ordem ética e/ou política que questione as intenções e os valores declarados e os confronte com as práticas exercidas. Após várias considerações em relação ao Código de Ética Profissional dos psicólogos, no contexto europeu, discutem as relações entre as práticas de orientação e os fenômenos de desigualdades, analisando o papel da avaliação psicológica e seus instrumentos e informação profissional que é realizada. Sobre a possibilidade de uma atuação neutra, os autores são taxativos: “a orientação está no cerne dos mecanismos que produzem e reproduzem a divisão social do trabalho” (Guichard & Huteau, 2001, p. 337).

 

REFERÊNCIAS

Brown, D. & Brooks, L. (Orgs.) (1996). Career choice and development: Applying contemporary theories to practice. San Francisco: Jossey-Bass Publishers.

Crites, J. O. (1969). Vocational Psychology – the study of vocational behavior and development. New York: Mc Graw-Hill.

Guichand, J. & Hutean, N. (2001). Psicologia da Orientação. Lisboa: Instituto Piaget.

Osipow, S. H. (1968). Theories of career development. New York: Appleton Century Crofts.

 

 

2 Endereço para correspondência: Rua Bento Ferreira, 486, ato. 801, Mercês, 48060-240, Uberaba, MG. E-mail: nimunhoz@terra.com.br

 

 

Sobre a autora

* Izildinha Maria Silva Munhoz é psicóloga, aluna do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FFCLRP/ USP). Participa do Programa VITA: grupo de estudos em orientação pessoal e profissional e do Centro de Pesquisas em Psicodiagnóstico (CPP) da FFCLRP/USP. Atualmente desenvolve estudos e projetos na área de Educação de Carreira.

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