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Revista Brasileira de Orientação Profissional

versão On-line ISSN 1984-7270

Rev. bras. orientac. prof vol.13 no.1 São Paulo jun. 2012

 

ARTIGO

 

Carreira e Família: Divisão de tarefas domiciliares na vida de professoras universitárias

 

Career and family: Sharing housework tasks with women university teachers

 

Carrera y Familia: División de tareas domésticas en la vida de profesoras universitarias

 

 

Maria da Gloria Vitório GuimarãesI, 1; Eucia Beatriz Lopes PeteanII

IUniversidade Federal do Amazonas, Manaus-AM, Brasil
IIFaculdade de Filosofia Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto-SP, Brasil

 

 


RESUMO

Este estudo tem por objetivo conhecer como acontece a divisão das tarefas domésticas e de cuidados com os filhos pequenos, a partir da percepção de professoras universitárias da cidade de Manaus. Utilizou-se o Questionário Famwork com 86 professoras que possuíam filhos menores de sete anos. Os resultados mostraram que as mulheres despendem mais horas no trabalho doméstico e nos cuidados com os filhos que seus companheiros. Entretanto, consideram justa esta divisão das tarefas entre o casal e não se sentem sobrecarregadas com os cuidados relativos aos filhos. Em tempos pós-modernos, apesar de homens e mulheres ambicionarem e considerarem desejável uma divisão mais igualitária do trabalho doméstico e de cuidado dos filhos, tais atividades continuam a ser uma responsabilidade predominantemente feminina.

Palavras-chave: família, carreira, tarefas domésticas, professoras universitárias


ABSTRACT

This study aimed to understand how work and the care small children is done, from the perspective of women university teachers in Manaus, Brazil. The Famwork Questionnaire was used with 86 teachers who had children under seven years of age. The results showed that those women spent more time doing housework and caring for their children than their male partners. However, they considered that task sharing between the couple to be fair and did not feel overloaded with their children's care. It can be concluded that although men and women consider a more egalitarian sharing of housework and children's care desirable, those activities continue to be predominantly performed by women.

Keywords: family, career, housework, women university teachers, children's care


RESUMEN

Este estudio tiene el objetivo de conocer cómo ocurre la división de las tareas domésticas y del cuidado de los hijos pequeños a partir de la percepción de profesoras universitarias de la ciudad de Manaus. Se utilizó el Cuestionario Famwork con 86 profesoras que tenían hijos menores de siete años. Los resultados mostraron que las mujeres se ocupan más horas en el trabajo doméstico y en el cuidado de los hijos que sus compañeros. Sin embargo, consideran justa esta división de las tareas entre la pareja y no se sienten sobrecargadas con los cuidados relativos a los hijos. En tiempos posmodernos, a pesar de que hombres y mujeres ambicionan y consideran deseable una división más igualitaria del trabajo doméstico y del cuidado de los hijos, tales actividades continúan siendo una responsabilidad predominantemente femenina.

Palabras clave: familia, carrera, tareas domésticas, profesoras universitarias


 

 

A literatura tem revelado grande interesse na investigação sobre família, considerando as mudanças pelas quais ela tem passado nos últimos tempos e suas implicações no desenvolvimento de seus membros. Do ponto de vista pós-modernista, estas alterações podem ser atribuídas a tendências sociais, tais como: maior participação das mulheres no espaço público e determinadas mudanças na ideologia quanto aos papéis dos sexos.

Segundo Petzold (1996), a estrutura familiar está presente em todos os países e culturas, com diferentes estruturas e modelos, de acordo com suas formas históricas. A constituição familiar no Brasil apresenta-se a partir do patriarcado, resultado da adaptação da família portuguesa, que se pautava por valores extremamente voltados à obediência, respeito e deveres para com o chefe, dando base para uma estrutura paternalista da sociedade (Biasoli-Alves, 2000). O homem despontava como provedor do sustento e senhor da vida e dos destinos no âmbito da família. Neste contexto, a mulher ocupava o papel de procriadora, permanecia em casa, cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos, dentro de um sistema que destituía seu valor e sua autoestima.

Para Romanelli (1997), a família é uma unidade dinâmica de convivência composta por pessoas com posições diferenciadas e portadoras de experiências variadas, em razão da idade, gênero e ocupação, onde as informações oriundas de fontes pessoais e formais são interpretadas e sintetizadas, permitindo a seus componentes elaborarem representações e formas de conduta para se relacionarem com o domínio público.

As mudanças de percepção em relação ao papel da mulher, o processo de urbanização e a propagação da ideia de uma cultura globalizada ocasionaram mudanças no porte da estrutura familiar e no casamento ao longo dos anos. Dentro deste novo contexto, surgem as famílias matrifocais, ou seja, famílias com chefia feminina, derivadas de uniões conjugais desfeitas, ou interrompidas, ou de mães solteiras. O número de mulheres que sustentam o domicílio, responsáveis por, pelo menos, setenta por cento das despesas do lar, está em crescimento no Brasil. De acordo com o senso demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2007), nas seis principais regiões metropolitanas, estas mulheres já somam 2,7 milhões e trabalham, na sua maior parte, nos segmentos de serviços domésticos, educação, saúde e administração pública, sendo que 29,6% são responsáveis pelo sustento da família.

De acordo com Jablonski (2010, p. 264), "o modelo herdado dos anos 50, no qual o pai sai para trabalhar e a mulher fica em casa, dedicada ao lar e aos filhos, parece estar deixando de ser hegemônico". Segundo Castells (1999), a representação familiar baseada na autoridade/dominação contínua do homem, como cabeça do casal sobre toda a família, está enfraquecida e deve desaparecer no terceiro milênio.

Segundo Kozovitz (2007), o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho é uma tendência que tem progredido nos últimos anos e está relacionada com mudanças socioculturais, como a emancipação feminina, destacando, entre elas, o fato de que muitas mulheres, na contemporaneidade, viverem sozinhas ou apenas com os filhos. Compõem também este cenário de mudanças sociais e de estilo de vida as famílias recompostas, em que um dos parceiros ou ambos já tiveram uma primeira união com filhos e vivem com novos companheiros. Esta diversidade de arranjos domésticos mostra que a família tem aspectos comuns, no entanto, não é homogênea.

Todavia, em decorrência da participação da mulher no mercado de trabalho, ocorreram várias mudanças de percepção em relação ao casamento e ao divórcio, visto que o casamento era para a maioria das mulheres, até o início do século XX, a única maneira de se protegerem contra a insegurança material. Com a inserção da mulher no mercado de trabalho, estes padrões de comportamento se modificam e despontam novas formas culturais na sociedade.

No Brasil, onde a força produtiva para o sustento da família pertencia apenas ao homem, a mulher gradativamente deixa de ser apenas procriadora, a mulher-mãe, a dona de casa, a que cuida dos filhos. Este tipo de estrutura familiar perde força, deixando de ser a configuração familiar predominante, principalmente a partir dos anos 60, quando a estrutura familiar sofre profundas mudanças em decorrência da industrialização, urbanização, e principalmente, com o ingresso da mulher no mercado de trabalho.

Para Matheu (2001), a valorização das habilidades profissionais da mulher ainda é muito recente e, mesmo sufocadas pelo machismo, elas passam a notabilizar-se no mercado de trabalho brasileiro, no final do século XX. A tendência, na contemporaneidade, é valorizar qualificação e resultados, independente do sexo. As mulheres estão na arquitetura, engenharias, administração de empresas, economia, medicina, agronomia, política, pelo que é razoável supor que elas encontram-se inseridas em áreas cruciais da sociedade, que, antes, eram dominadas pelo sexo masculino. A pesquisa realizada pela National Foundation for Women Business Owners (2009) aponta que oito milhões de empresas são de propriedade feminina e geram 2,3 trilhões de dólares por ano. Destas empresas, 32% situam-se na Austrália, 35% no Canadá, 31% no Japão e 42% em Portugal.

Frente a isto, a família defronta-se, assim, com uma situação nova, onde a mulher sai de casa e assume outras responsabilidades alem das domésticas, inserindo-se no mercado de trabalho, objetivando uma carreira profissional. Tornam-se corresponsáveis pelo sustento do lar, sendo que muitas delas suportam totalmente o seu grupo familiar. Gradativamente, as mulheres foram absorvendo uma sobrecarga de trabalho, sem que, no entanto, ocorresse a divisão das atividades domésticas com seu companheiro.

Neste sentido, Wagner, Predebon, Mosmann e Verza (2005, p. 182) apontam que "a divisão das tarefas domésticas, criação e educação dos filhos parecem não acompanhar de maneira proporcional as mudanças decorrentes da maior participação da mulher no mercado de trabalho e do sustento econômico do lar". Persiste ainda a "visão conservadora em relação à divisão de papéis entre os cônjuges", situação na qual a maior responsabilidade pelas atividades relacionadas com os cuidados dos filhos, a saúde, a educação isto é, pelas atividades ditas domésticas, ainda é das mulheres (Jablonski, 2010, p. 265).

Cancian e Oliker, (2000), em estudo realizado na Europa, concluíram que o movimento das mulheres casadas em direção ao trabalho remunerado não foi acompanhado por um aumento equivalente na quantidade de trabalho doméstico, realizado pelos maridos, ou seja, as atividades domésticas como cuidar da casa e dos filhos continuam sendo, em sua grande maioria, responsabilidade das mulheres. O mesmo pode ser observado no Brasil, onde os estudos de Rocha-Coutinho (2005) relatam que tanto os homens como as mulheres cariocas consideram que são responsabilidade da mulher os cuidados para com a casa e com os filhos, sendo do homem a responsabilidade pelo provimento financeiro. Para Araújo e Scalon (2005), a entrada da mulher no mercado de trabalho não resultou em uma divisão igualitária dos trabalhos domésticos.

Consideradas como "ganha-pão" secundário, as mulheres é que devem adequar-se, a fim de alcançarem um maior equilíbrio entre o trabalho remunerado e o doméstico não remunerado. Apesar de ter havido um aumento do tempo desprendido pelos pais (homens) no cuidado dos filhos, isto não foi suficiente para compensar e equilibrar a situação como constata Perista (2002).

Dupla jornada de trabalho composta pelas atividades profissionais, os cuidados com a casa, com os filhos e, para muitas delas, o estudo, ocasionam conflitos marido-mulher e trabalho-família. Os estudos de Frone, Russell e Cooper (1992), realizados nos Estados Unidos e de Kinnunen e Mauno (2001), realizados na Europa, indicam que, cerca de 40% a até 78% dos pais (homens e mulheres) empregados experimentam conflito trabalho-família, pelo menos vinte vezes ao ano, entre eles: equilibrar horários, apanhar as crianças na escola, fazer supermercado, ajudar nas tarefas escolares das crianças, preparar refeições, levar as crianças a médicos e dentistas, entre outras atividades da rotina doméstica.

Kinnunen e Mauno (2001) apontam que o esgotamento trabalho-família é uma experiência negativa em relação ao funcionamento familiar, bem como para a experiência do conflito trabalho-família, em especial, para os homens. De acordo com Almeida, Wethington e Chandler (1999), nos dias em que pais (homens) passam por fatos estressantes como sobrecarga no trabalho ou exigências em casa, eles ficam duas vezes mais propensos a deixarem a tensão extravasar e contaminar a relação com suas esposas e filhos do que em dias sem estresse, mas, para as mães, esta relação é mais baixa.

Equilibrar a interação trabalho-família tem sido alvo de estudos, principalmente de mulheres empregadas, visto que elas têm de desenvolver as atividades decorrentes da vida profissional e familiar. A divisão do trabalho familiar e suas avaliações, em particular, terão consequências importantes para o relacionamento marido e mulher e para o bem- estar pessoal de ambos, homens e mulheres, conforme foi constatado nos estudos de Baxter (2000), Kirchler e Venus (2000), Van Willigen e Drentea (2001), realizados na Europa.

Observa-se que não se trata apenas de um dilema entre carreira profissional e família, trata-se de adquirir as competências necessárias para lidar com os desafios de equilibrar a carreira profissional e a vida familiar e ainda acrescentar novas habilidades intrafamiliares. Os estudos apresentados mostram a inserção, cada vez maior, da mulher no mercado de trabalho e apontam para as diversas consequências que isto tem acarretado, principalmente, no que diz respeito à "dupla jornada de trabalho", que passou a enfrentar, pois suas "responsabilidades" como dona de casa, esposa e mãe se mantiveram.

Assim, este estudo teve por objetivo explorar a relação entre trabalho e família, especificamente, os arranjos familiares (formas de conciliação) na divisão das tarefas de mulheres professoras do ensino superior da cidade de Manaus, Brasil.

 

Método

Participantes

Definiu-se a amostra de mulheres professoras do ensino superior pelo fato de que elas representam uma parcela da sociedade cujo grau de exigência quanto à escolaridade, à cultura e aos resultados do trabalho são maiores, estando estas submersas nas demandas trabalho e família. Justifica-se o critério de inclusão na amostra de mães com filhos pequenos, uma vez que crianças entre zero e sete anos apresentam maior dependência física e afetiva com relação aos pais, sobrecarregando-os e colocando-os à prova, frente a questões de gênero na esfera familiar (Souza, Wagner, Branco, & Reichert, 2007), como também, o projeto da EU FAMWORK, orienta que o instrumento deve ser aplicado a mulheres com filhos pequenos.

Participaram deste estudo 86 mulheres da cidade de Manaus, Estado de Amazonas, professoras do ensino superior, casadas ou em união estável que possuíam filhos entre recém- nascidos e sete anos de idade, sendo que 17,4% delas cursaram o Ensino Superior, 39,5%, a especialização e 43,0%, o mestrado. Têm em média 37 anos de idade, dois filhos, vivem com seus companheiros e ganham, em média, três mil reais ao mês. Todas assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que informava sobre os objetivos da pesquisa e o uso dos dados, garantindo-se assim o anonimato e o caráter voluntário da participação.

Instrumento

Para coleta de dados foi utilizado o questionário autoadministrado sobre a vida familiar e profissional, o EU PROJECT FAMWORK: "Family Life and Professional Work: Conflict and Synergy" (2003), composto por 380 perguntas (exceto a parte demográfica) abrangendo seis diferentes dimensões: Profissão, Divisão de Tarefas, Vida Familiar, Conciliação, Vida Pessoal e Vida em Comum; e uma folha de rosto com instruções e esclarecimentos sobre o preenchimento do questionário.

Esta pesquisa está vinculada a um estudo de natureza intercultural, desenvolvido, inicialmente, por pesquisadores de diversos países da Europa, denominado FAMWORK. Participaram do projeto os países: Portugal, através da Universidade do Porto, Centro de Psicologia; Alemanha, Universidade de Munich, Departamento de Psicologia; Suíça, Universidade de Fribourg, Departamento de Psicologia; Áustria, Universidade de Graz, Unidade de Psicologia Social; Netherlands, Universidade de Nijmegen, Instituto de Estudos da Família; Bélgica, Universidade de Mons, Centro de Investigação e Inovação em Sócio-Pedagogia Familiar; e Itália, Universidade de Palermo, Unidade de Investigação da Família, e tem por objetivo a caracterização das diferentes modalidades de conciliação da vida familiar e profissional, adotadas por famílias com filhos pequenos. O objetivo central do projeto Famwork reside na caracterização das diferentes modalidades de conciliação da vida familiar e profissional, adotadas por famílias com filhos pequenos e duplo rendimento. Como, também, são analisados os aspectos relacionados com as estruturas de apoio disponíveis e os papéis de gênero, procura-se verificar a importância das variáveis individuais e relacionais, no modo como homens e mulheres avaliam, gerem e conciliam quotidianamente a sua vida familiar e profissional. Analisa-se, ainda, o impacto que as diversas formas de conciliação têm em termos do bem-estar e da satisfação pessoal, familiar e profissional. O caráter intercultural do projeto permite obter informação específica para cada cultura/país, bem como realizar uma análise comparativa das diferentes opções efetuadas pelos casais, nos diferentes contextos em que estão inseridos.

O instrumento de pesquisa foi, inicialmente, desenvolvido em cooperação com sete diferentes grupos de pesquisadores europeus, conforme apresentado anteriormente. Para a presente pesquisa, trabalhou-se com a versão elaborada para os pesquisadores da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, sendo permitida a possibilidade de adequação, a fim de se resguardarem especificidades socioculturais, presentes entre os dois países, Brasil-Portugal, como também adequar aos objetivos desta pesquisa.

O projeto Famwork: vida familiar e profissional, conflito e sinergia, está sendo desenvolvido desde o ano 2001 e é apoiado financeiramente pela Comissão Europeia, por meio do consórcio multinacional de investigação, incidindo, principalmente, sobre os aspectos psicológicos. Para fins desta publicação, são apresentados os resultados referentes às dimensões: divisão de tarefas e conciliação.

 

Resultados

Para a análise dos dados utilizou-se o software SPSS, (Statistical Package for the Social Sciences, versão 16) e foi calculada a distribuição de frequência e a média. Em relação à jornada de trabalho das professoras que constituem a amostra deste estudo, pode-se constatar, na Tabela 1, que das 86 professoras, 63% delas têm jornada de trabalho integral, ou seja, 40 horas semanais e 37% declaram ter jornada de trabalho parcial em suas instituições de ensino.

 

 

Quanto à divisão de tarefas entre o casal, no que diz respeito às atividades domésticas, pode-se constatar, na Tabela 2, que o tempo médio semanal dedicado aos trabalhos domésticos, pelas professoras, é quase o dobro da média de horas despendidas por seus companheiros, sendo que o mesmo acontece em relação aos trabalhos relativos com as crianças: foi encontrada uma correlação positiva com 99,9% de força da associação entre tempo gasto, numa semana, em trabalhos domésticos e tempo gasto, numa semana, nos trabalhos relativos aos cuidados com as crianças. Ao se comparar o tempo dispendido pelas mulheres, com os cuidados com os filhos, com o tempo que as auxiliares domésticas dedicam-se a esta atividade, observa-se que este também é maior.

Ao se comparar a média referente às horas dedicadas semanalmente à atividade profissional, entre as professoras e seus companheiros, conforme Tabela 3, constata-se que são iguais, ou seja, em torno de 40 horas semanais. Em relação à média de horas de tempo livre, as mulheres têm duas horas a menos do que os homens.

 

 

Ao avaliarem a divisão de tarefas entre elas e os seus companheiros, referentes ao trabalho doméstico e aos cuidados com as crianças, 61% das professoras consideram muito justa ou justíssima a divisão de tarefas referentes aos trabalhos domésticos e 54,2% avaliam como muito justa e justíssima a divisão de tarefas em relação aos cuidados com as crianças, como se observa na Tabela 4. E como mostra a Tabela 5, não se consideram sobrecarregadas em terem que realizar estas tarefas.

 

 

 

 

Discussão

Os resultados deste estudo mostram que a maioria das professoras trabalha em tempo integral, ou seja, 40 horas por semana, carga horária igual à de seus companheiros, o que denota que a inserção da mulher no mercado de trabalho, no que diz respeito à carreira docente, está equiparada à dos homens. Estes dados diferem dos encontrados no estudo realizado por Amato, Booth, Johnson e Rogers (2007), nos Estados Unidos, nos quais a relação de horas despendidas no "trabalho fora de casa" é maior para os homens.

Conforme percepção das participantes deste estudo, em relação à divisão de tarefas constatou-se que, embora o homem/companheiro esteja ajudando, o seu engajamento é maior nas atividades relativas aos cuidados com os filhos do que nos afazeres domésticos, tais como lavar a louça, cozinhar, entre outros. Estes resultados corroboram com os de Bruschini e Lombardi (2004), que encontraram em seu estudo realizado na cidade de São Paulo (Brasil) que os homens paulistas gastavam em atividades domésticas, em média, 10 horas e 6 minutos por semana e as mulheres, 27 horas e 2 minutos. Jablonski (2010, p. 272) ressalta que, em relação às atividades domésticas, os homens têm uma "função coadjuvante, colaborativa ou periférica", sendo que a responsabilidade ainda é das mulheres: elas teriam maior responsabilidade com a administração da casa, dos empregados e com o supermercado.

Em relação ao tempo gasto nos cuidados com filhos, embora este ainda seja maior para as mulheres, há um maior envolvimento dos homens/companheiros, demonstrando que, em relação aos filhos, os homens se comprometem mais do que em relação ao trabalho doméstico. Estes dados corroboram com os de Jablonski (2010, p. 273), em que foi encontrada uma maior participação dos homens nas atividades com o filho. Entretanto, o autor ressalta que "são as mulheres que ainda dão conta da maioria das tarefas, frequentam reuniões da escola, faltam ao trabalho em caso de doença das crianças, além de qualquer tipo de acompanhamento necessário, seja escolar, médico".

Não somente as mulheres fazem significativamente mais trabalho doméstico, de acordo com Perista (2002), mas também homens e mulheres desempenham diferentes tipos de tarefas no lar. O pai preocupa-se e envolve-se mais com a educação dos filhos, principalmente nas áreas de desenvolvimento moral, tipificação sexual e competência escolar, todavia não compartilha igualmente com a esposa/companheira as atividades domésticas de acordo com Dessen e Braz (2000). Como apontado na literatura, as mulheres tendem a desempenhar tarefas que ocorrem no interior da casa, que são rotineiras, que requerem mais tempo e que sejam de fácil assimilação.

Souza et al. (2007), concluíram, através de um estudo realizado na região Sul do Brasil,que a divisão do trabalho doméstico revelou-se desigual, geralmente, havendo nas famílias pesquisadas uma tendência para as mulheres serem responsabilizadas pelo bem-estar familiar, abarcando a maioria de tais demandas. A contribuição dos homens apareceu de forma mais intensa no cuidado e no acompanhamento do desenvolvimento dos filhos e, em atividades de lazer e de culinária, nos finais de semana.

Educar os filhos sempre foi uma tarefa complexa para os pais, embora isto não signifique que tais responsabilidades sejam compartilhadas de forma igualitária pelo casal, destacam Dessen e Braz (2000). As autoras apontam que as mães tendem a envolver-se mais do que os pais nas tarefas do dia-a-dia da criança, mas deve-se enfatizar que o pai é um dos membros mais importantes da rede social no que tange ao apoio oferecido à mãe e à família.

Wagner et al. (2005) salientam que a partir da década de 80, os papéis entre homens e mulheres passaram por transformações mais consistentes e, apesar de suas representações ainda estarem relativamente marcadas por modelos tradicionais, em muitas famílias, já se percebe uma relativa divisão de tarefas, na qual pais e mães compartilham aspectos referentes às tarefas de organização do dia-a-dia da família. Benites e Barbarini (2009) apontam que a vida das mulheres brasileiras melhorou nos últimos trinta anos, embora ainda tenham prioritariamente de lidar com o peso das tarefas domésticas e com muitas responsabilidades na criação dos filhos.

Em relação a esta divisão de tarefas e à possível sobrecarga de trabalho, os resultados deste estudo mostram que as participantes consideram muitíssimo justa ou muito justa a divisão das tarefas domésticas, e não se sentem sobrecarregadas, principalmente, em relação às atividades direcionadas aos cuidados com os filhos. Pode-se supor que a percepção delas sobre a divisão do trabalho na família esteja associada à herança patriarcal, transmitida de geração a geração, uma vez que é incutida na mente feminina, desde cedo, a ideia da mãe, dona de casa e submissa. E no momento em que o homem se apresenta mais participativo na divisão das tarefas domésticas, mesmo que ainda em desigualdade, visto que, na maioria das vezes se faz nos cuidados com os filhos, gera satisfação e diminuem as reclamações e cobranças dentro dos relacionamentos. Para Coltrane (2000), os valores e os costumes refletem e perpetuam os entendimentos culturais sobre a família e estruturam as relações de gênero e de classe.

Outra hipótese a ser considerada está no fato de que, a partir da internalização dos conceitos e normas que ditam quais obrigações são femininas, a mulher resiste em dividir e, consequentemente, perder o seu espaço ou descaracterizar o seu papel. As mulheres, deste estudo, não percebem a desigualdade na divisão do trabalho do lar como injusta, porque isto não viola seu senso de direito. Os dados sugerem que as mulheres podem estar resistindo a um maior engajamento dos companheiros nas tarefas domésticas, por considerarem esta função originariamente feminina, considerando que a sociedade tem expectativas sociais em relação ao papel feminino sob o prisma do devotamento natural aos filhos e a casa.

É importante entender que as mudanças comportamentais são lentas, uma vez que estão cristalizadas, nas mais variadas instâncias e relações sociais, nas instituições, símbolos, formas de organização social, discursos e doutrinas e maneiras de proceder, como salientam Lopes, Meyer e Waldow (1996). Ainda se dá como certo, neste século, que existe um elemento implícito ao contrato de casamento: que as mulheres tenham a responsabilidade primária pelo trabalho doméstico. De acordo com Coltrane (2000), o trabalho doméstico é um ato simbólico das relações entre os sexos, não uma escolha racional, conforme disponibilidade de tempo, possibilidades de maximização das tarefas, entre outras.

 

Considerações finais

Os resultados encontrados corroboram diversos estudos na área, evidenciando que, apesar de todas as mudanças ocorridas no papel social da mulher, na sua inserção cada vez maior no mercado de trabalho, a divisão das tarefas domésticas ainda está muito aquém do ideal enquanto divisão equitativa. Ainda existe um longo caminho a ser trilhado para que homens e mulheres possam viver no mundo do trabalho e familiar de forma mais equilibrada. Devem-se abolir comportamentos arcaicos enraizados, batalhas entre gêneros, papéis predeterminados e descobrir novas estratégias familiares que atendam às necessidades de todos os seus membros.

A tarefa reservada às mulheres não é fácil. Na verdade, nunca foi fácil. Não existem duas categorias de mulheres, as que trabalham e as que não trabalham. Todas as mulheres trabalham, em casa ou fora de casa. As que trabalham fora de casa assumem as exigências empresariais/profissionais e, ainda, os encargos das tarefas do lar e da educação dos filhos. As que trabalham apenas em casa, cozinham, lavam e consertam roupas, passam a ferro, levam as crianças ao médico, à escola, arrumam a casa, e, muitas vezes, são discriminadas socialmente e sentem as limitações impostas ao consumo. Não se trata apenas do dilema entre carreira profissional e família, mas de buscar um equilíbrio e acrescentar habilidades às já existentes, construindo relações mais igualitárias, que possam reduzir os conflitos entre trabalho e família. Ademais, as empresas e governos devem considerar que as estruturas de apoio, fora da esfera familiar, podem contribuir para aliviar o estresse e a tensão que as famílias com dupla-renda são frequentemente confrontadas, é razoável supor que a existência de boas estruturas de apoio (creches/escolinhas), podem gerar consequências positivas para o relacionamento entre marido e mulher, contribuindo, assim, para o bem-estar pessoal do casal e da família.

Embora o estudo tenha limitações e os resultados obtidos não permitam fazer generalizações, espera-se que os achados possam contribuir com reflexões sobre a conciliação da vida familiar e profissional no âmbito individual, organizacional e na sociedade em geral.

 

Referências

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Recebido: 23/07/2011
1ª Revisão: 13/01/2012
2ª Revisão: 15/02/2012
Aceite final: 06/03/2012

 

 

Sobre as autoras
Maria da Gloria Vitório Guimarães é Professora Adjunta da Universidade Federal do Amazonas, Doutora em Ciências/Psicologia pela Universidade de São Paulo, Tutora do Programa de Educação Tutorial do MEC, Avaliadora do INEP-MEC, Oito anos coordenando cursos de Pós-Graduação Lato Sensu/UFAM, Chefe do Departamento de Administração/UFAM.
Eucia Beatriz Lopes Petean é Professora Associada do Departamento de Psicologia e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP-USP.
1 Endereço para correspondência: Av. Efigênio Sales, 428, apto. 602, 69057-050, Manaus-AM. Fone: 92 32139082. E-mail: gloriavitorio@gmail.com