SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 número2Estudo comparativo da integração ao contexto universitário entre estudantes de diferentes instituiçõesAdaptação e validação da escala de significados atribuídos ao trabalho - ESAT índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Revista Brasileira de Orientação Profissional

versão impressa ISSN 1679-3390

Rev. bras. orientac. prof vol.13 no.2 São Paulo dez. 2012

 

ARTIGO

 

Pessoas versus Coisas: Sobre as diferenças de género nos interesses profissionais

 

People versus things: On gender differences relating career interests

 

Personas versus Cosas: Sobre las diferencias de género en los intereses profesionales

 

 

Renato Gil Gomes Carvalho1

Universidade da Madeira, Funchal, Portugal

 

 


RESUMO

Neste trabalho, inserido no âmbito do estudo das diferenças individuais, analisamos a relação entre o género e os interesses profissionais, a partir dos dados obtidos com 468 adolescentes portugueses do 9º ano de escolaridade. Através de análise multivariada de variância, verificamos um efeito significativo do género nos interesses, com o sexo masculino a revelar, em média, mais interesse pelo trabalho com coisas (áreas das tecnologias e exterior) e o sexo feminino pelo trabalho com pessoas (áreas da comunicação, serviços e arte). Apesar de este ser um padrão semelhante ao que a literatura indica, na área das ciências não foram identificadas diferenças. Os resultados são discutidos sob a perspetiva da necessidade de se considerar o papel do género na tomada de decisão na carreira.

Palavras-chave: Orientação Vocacional, Interesses Profissionais, Género, Estereótipos de Género


ABSTRACT

In this study we analyse the relationship between gender and career interests of 468 Portuguese adolescents at the end of 9th grade school. Through multivariate analysis of variance, we found a significant effect of gender on interests, with boys revealing, on average, more interest in working with things (in domains such as technology and outdoor jobs) and girls preferring chiefly working with people (communication, services, and arts). Although this pattern is similar to what the literature indicates, there were no differences verified in relation to sciences. Results are discussed considering the gender role in career decision making.

Keywords: Career Guidance, Vocational Interests, Gender, Gender Stereotypes


RESUMEN

En este trabajo, incluido en el ámbito del estudio de las diferencias individuales, analizamos la relación entre el género y los intereses profesionales de 468 adolescentes portugueses del 9º año de escolaridad. Mediante análisis multivariado de varianza, verificamos un efecto significativo del género en los intereses, con el sexo masculino revelando, en media, más interés por el trabajo con cosas (áreas de las tecnologías y exterior) y el sexo femenino por el trabajo con personas (áreas de la comunicación, servicios y arte). A pesar de ser este un patrón semejante al que la bibliografía indica, en el área de las ciencias no se identificaron diferencias. Los resultados se discuten bajo la perspectiva de la necesidad de considerar el papel del género en la toma de decisión en la carrera.

Palabras clave: Orientación Vocacional, Intereses Profesionales, Género, Estereotipos de Género


 

 

Os interesses ocupam há muito um lugar de destaque no âmbito da psicologia vocacional, sendo a sua avaliação e exploração valorizadas nas intervenções com estudantes em processos de orientação em contexto escolar, sobretudo na promoção do seu autoconhecimento e no apoio à tomada de decisão. De facto, os interesses associam-se ao desenvolvimento e consolidação da identidade individual (Leitão & Miguel, 2001) e têm vindo a ser identificados como um preditor muito significativo das escolhas vocacionais, da conclusão de um curso ou ciclo de estudos, ou mesmo da satisfação no trabalho (Su, Rounds, & Armstrong, 2009), existindo uma tendência para que os indivíduos procurem ambientes nos quais possam expressar os seus interesses (Holland, 1997).

Face à relevância que os interesses têm no desenvolvimento da carreira, consideramos importante analisar que variáveis contribuem para a expressão diferenciada dos interesses nos indivíduos. Uma dessas variáveis, abordada neste trabalho, corresponde ao sexo, que numa recente meta-análise (Su et al., 2009) é identificada como uma das que mais significativamente se associa à variação dos interesses nos indivíduos. No presente estudo, procuramos verificar este padrão de resultados que a literatura veicula com uma amostra de estudantes portugueses que participaram num programa de orientação vocacional no final do ensino básico (9º ano de escolaridade). Este programa, constituído por diversas sessões temáticas ao longo do ano letivo, envolveu a utilização de questionários de interesses, pelo que, face à quantidade de dados que foi possível recolher, procuramos analisar se as diferenças de género se relacionam com as áreas que recolhem maior interesse dos estudantes no final da escolaridade mínima obrigatória.

Apesar de os interesses serem frequentemente referidos como uma dimensão relevante para a explicação do comportamento humano e particularmente das escolhas vocacionais, tem existido alguma diversidade de perspetivas sobre o seu significado e nem sempre os autores se referem ao mesmo quando abordam este construto. Neste sentido, consideramos útil começar por clarificar a que nos referimos quando falamos em interesses, para depois explorarmos os principais resultados da literatura sobre as diferenças entre os sexos nos mesmos.

 

O conceito de interesse

Quando procuramos definir o conceito de interesse, uma das primeiras distinções que consideramos importante efetuar corresponde ao contraste entre uma perspetiva situacional e uma perspetiva disposicional. No primeiro caso, os interesses correspondem a um estado de experiência emocional, curiosidade e motivação momentânea, estando por isso associados a um estado num determinado contexto. Pelo contrário, num enfoque disposicional, os interesses são encarados como mais estáveis no indivíduo, refletindo as suas preferências por comportamentos, situações ou contextos nos quais as atividades ocorrem (Su et al., 2009). Trata-se, no fundo, de distinguir o estar interessado do interesse enquanto traço da personalidade, que traduz um esforço complexo e uma intencionalidade na ação (Savickas, 1999).

Os interesses refletem, numa perspetiva disposicional, uma tendência estável para a satisfação de necessidades e valores pessoais, envolvendo o processamento cognitivo gerador de emoções e volição (Leitão & Miguel, 2001) e predispondo o indivíduo para responder a estímulos ambientais específicos, que poderão corresponder a objetos, atividades, pessoas ou experiências (Godoy & Noronha, 2010; Noronha & Ottati, 2010; Savickas, 1999). Por esse motivo, associam-se à atenção, a estados emocionais positivos e à orientação em direção a um objeto (Savickas, 1999). Como Leitão e Miguel (2001, p.82) referem, o interesse corresponde a um estado de consciência caracterizado pela prontidão na resposta a estímulos ambientais específicos que, uma vez ativado, predispõe para o conhecimento através de atenção seletiva relativamente ao estímulo percecionado. Esta focalização da atenção é acompanhada de um estado afetivo caracterizado por um sentimento de agrado e por uma avaliação desse sentimento em termos de satisfação e gratificação antecipadas.

A constituição e o desenvolvimentos dos interesses decorrerá, neste sentido, da interação entre o indivíduo e o seu meio, já que, como mencionam Leitão e Miguel (2001), será do confronto entre as representações de si e do meio que decorrerá a orientação seletiva, traduzida em interesse por um determinado objeto, meio ou atividade. Isto significa, portanto, que o interesse resulta não apenas das características pessoais percebidas, das crenças de autoeficácia ou expetativas de sucesso, mas também dos recursos, oportunidades e experiências disponíveis na envolvente.

Numa perspetiva disposicional, um dos modelos mais referidos na literatura é o de Holland (1959, 1997), que concetualiza os interesses vocacionais como a expressão da personalidade no trabalho, nos hobbies, nas atividades recreativas e preferências ocupacionais (Su et al., 2009). No modelo hexagonal de Holland, os interesses organizam-se em seis tipos, expressos no acrónimo RIASEC: Realista, que envolve o trabalho com coisas (ferramentas, objetos) e/ou ar livre; Investigativo, que inclui o interesse na ciência, incluindo a matemática, a física, as ciências sociais, as ciências médicas e biológicas; Artístico, que envolve a expressão criativa, incluindo a escrita e as artes visuais e performativas; Social, associado ao interesse em ajudar e lidar com pessoas; Empreendedor, relacionado com a liderança e desempenho de papeis persuasivos direcionados a objetivos económicos; e Convencional, que reflete preferências pelo trabalho em ambientes bem estruturados, por exemplo de escritório (Godoy & Noronha, 2010; R. Lippa, 1998).

Baseado no modelo de Holland, Prediger (1982) propôs posteriormente duas dimensões de análise, transversais aos vários tipos de interesses: (1) trabalhar com dados versus com ideias; (2) trabalhar com coisas versus com pessoas. A primeira dimensão, ideias-dados, envolve o grau em que os indivíduos preferem ocupações que envolvem tarefas criativas intrapsíquicas (resolução de problemas, discussão de temas teóricos) ou então ocupações que envolvem tarefas mais "externas", inserção e registo de dados (contabilidade, organizar ficheiros, escrever). Por outro lado, a dimensão coisas-pessoas envolve o grau em que os indivíduos preferem ocupações que envolvem tarefas interpessoais (pensar sobre, gerir, instruir, aconselhar ou orientar os outros) ou, pelo contrário, tarefas impessoais, como trabalhar com máquinas, materiais, ferramentas, animais e processos físicos estandardizados (R. Lippa, 1998; R. A. Lippa, 2005). No hexágono que representa o modelo de Holland, esta dimensão vai do tipo Social (contato com pessoas) ao tipo Realista (preferência pela utilização de coisas) (Lubinski & Benbow, 2006) e tem sido identificada como aquela em que as diferenças de género mais se expressam (R. A. Lippa, 2005).

 

Os homens preferem tecnologias e as mulheres humanidades?

A investigação tem mostrado diferenças significativas entre homens e mulheres na tomada de decisão na carreira (Pocinho, Correia, Carvalho, & Silva, 2010) e particularmente na escolha dos campos profissionais. Com efeito, apesar das mudanças ao longo do tempo, as mulheres permanecem subrepresentadas em domínios como a tecnologia, a engenharia ou a matemática (Godoy & Noronha, 2010; Su et al., 2009), uma realidade que tem gerado muito interesse nos investigadores e frequentemente relacionada com o leaky pipeline effect (efeito do oleoduto que pinga, numa tradução literal) que ilustra uma redução progressiva, neste caso de mulheres em determinadas áreas, ao longo da escolaridade e da carreira. Esta tendência parece ser comum à maioria dos países da União Europeia, em que a proporção de mulheres nas áreas de ciências, engenharias e tecnologias (CET) continua ser reduzida (cerca de um terço em 2007), um padrão que não tem revelado alterações substanciais nas últimas décadas (Saavedra et al., 2011). Estas diferenças nas CET, no entanto, não são atribuídas a distinções consideráveis no desempenho escolar no ensino secundário, por exemplo em física ou em matemática, que pudessem baixar as expetativas de sucesso das alunas para aquelas áreas (Saavedra et al., 2011).

As frequências distintas de mulheres e de homens nas CET têm, todavia, vindo a ser atribuídas aos também diferentes interesses profissionais nos sexos, isto é, ainda que homens e mulheres possam apresentar o mesmo desempenho em disciplinas relacionadas com as CET, as mulheres tendem a interessar-se menos por estas áreas (Faria, Taveira, & Saavedra, 2008; R. A. Lippa, 2005; Lubinski & Benbow, 2006; Su et al., 2009). De facto, ao longo de décadas, vários estudos têm documentado um efeito do sexo na exploração e definição de projetos vocacionais e nos interesses profissionais (Pocinho et al., 2010), com o padrão de resultados e as dimensões do efeito - um dos mais elevados no âmbito do estudo das diferenças individuais - a se mostrarem transversais aos diversos instrumentos de avaliação dos interesses utilizados (Su et al., 2009).

No âmbito do modelo de Holland, os homens expressam tendencialmente mais interesses Investigativos e Realistas (mecânico, carpinteiro, engenheiro), revelando maior interesse nas áreas CET, e as mulheres têm interesses predominantes por atividades no plano mais Artístico, Social e Convencional, revelando assim menos interesse pelos domínios CET (R. A. Lippa, 2005; Su et al., 2009; Williams & Subich, 2006). Neste sentido, as diferenças entre os sexos são proeminentes na dimensão coisas-pessoas, com as mulheres a dirigirem os seus compromissos de carreira para atividades e profissões orientadas para as pessoas, ao passo que os homens expressam preferência pelo trabalho com coisas (Faria et al., 2008; Lubinski & Benbow, 2006; Su et al., 2009).

Estas diferenças têm vindo a ser explicadas de diversas formas, sendo de nomear a influência de fatores relacionados com a educação-socialização, com as aptidões, com o estatuto sociocultural ou com os traços da personalidade (R. Lippa, 1998). De entre estes fatores, um dos que tem vindo a recolher maior destaque corresponde ao peso dos estereótipos de género (Faria et al., 2008). Muitas das profissões preferidas pelas mulheres (professora, enfermeira) ou pelos homens (polícia, engenheiro) exprimem uma orientação tradicional para profissões consideradas socialmente mais apropriadas para cada género, em termos de tarefas, papeis e posturas (Gottfredson, 2002; Saavedra, 2010). Como refere Gottfredson (2002), desde muito novas que as crianças começam a assimilar uma estrutura sobre as profissões mais adequadas a cada sexo, através da socialização e do condicionamento do meio, em que se incluem a família, os amigos, a escola e a comunidade alargada. Estes efeitos de estereotipia de género poderão ainda exercer influências significativas nas expetativas de autoeficácia, com as mulheres a apresentar níveis mais elevados de autoeficácia em domínios tradicionalmente femininos e níveis de autoeficácia menos elevados em ocupações "tradicionalmente" masculinas (Faria et al., 2008; Martins, 2011; Saavedra, 2010).

Para além disso, as questões de masculinidade versus feminilidade associadas a muitos cursos contribui para a antecipação de obstáculos na formação e no mercado de trabalho (ter de comprovar capacidades ou dificuldades de subida na carreira e em ocupar lugares de chefia), o que por sua vez concorre para um evitamento destes cursos por parte do(a)s jovens (Saavedra et al., 2011). Saavedra (2010) acrescenta ainda a antecipação do conflito família-trabalho como potencial barreira à tomada de decisão de acesso a profissões no domínio CET por parte das estudantes, na medida em que aquelas profissões, frequentemente com melhores remunerações, podem implicar menos contacto com a família. Acrescenta ainda a perceção face às condições estruturais do trabalho, em que se incluem a competição e a discriminação em organizações industriais, onde são exercidas muitas das profissões CET.

 

Estudo

Neste trabalho analisamos as diferenças de género nos interesses profissionais, avaliados através de um inventário de interesses que foi utilizado ao longo de vários anos, desde o ano letivo de 2005/2006 até ao ano letivo de 2011/2012, num programa de orientação vocacional com adolescentes no final do ensino básico (9º ano). Pretendemos analisar os dados relativos aos interesses, recolhidos a partir da experiência profissional, e verificar, com esta amostra, se se confirma o efeito de género nos interesses profissionais que os diferentes estudos têm vindo a identificar, isto é, que as mulheres têm interesses predominantes orientados para as pessoas e os homens para a dimensão "coisas".

 

Método

Participantes

A amostra foi constituída por 468 estudantes do 9º ano (final do 3º ciclo do ensino básico) que frequentaram um programa de orientação escolar e profissional. A maioria dos estudantes é do sexo feminino (270, perto de 60%) e a idade média de 15 anos (DP = 1.18). Os participantes viviam numa zona rural da Madeira, Portugal e, relativamente ao estatuto sociocultural das famílias, há homogeneidade, situando-se num nível baixo, tendo em conta que a esmagadora maioria dos pais e encarregados de educação apresentam um nível máximo de escolaridade inferior à escolaridade mínima obrigatória (Carvalho, 2012).

Instrumento

De forma a avaliarmos os interesses vocacionais dos alunos, recorremos à versão portuguesa para investigação do COPS - Career Occupational Preference System Interest Inventory (COPS) (Knapp & Knapp, 1979; Knapp & Knapp-Lee, 1995) - um questionário de autorrelato, constituído por 168 afirmações, correspondentes a atividades profissionais e em relação às quais cada estudante tem de assinalar o grau em que gostaria de a realizar (Gostaria Muito, Gostaria Moderadamente, Não Gostaria Muito, Não Gostaria Nada). Estes itens agrupam-se depois em clusters de interesses, descritos na Tabela 1, cujos resultados brutos foram depois analisados. 

Procedimento

Em cada ano letivo, desde 2005/2006 até 2011/2012, o questionário foi aplicado numa sessão, em contexto de turma, no âmbito do programa de orientação escolar e profissional, destinado a alunos do 9º ano. Apesar de, no presente estudo, nos concentrarmos nos resultados brutos do questionário - e, portanto, sem considerar normas populacionais - e particularmente nas diferenças entre os sexos, importa referir que, no contexto do programa de orientação, os resultados do questionário são enquadrados num conjunto mais vasto de informação, discutidos com os estudantes e analisados numa perspetiva não apenas dimensional (clusters de interesses com resultados mais elevados/baixos), mas também configuracional e contextual (relação entre as áreas, como se interpreta essa relação entre os resultados, como se situam os resultados no questionário no contexto de vida do aluno, na construção que faz dela, quer de outras provas a que se tenha recorrido). No desenvolvimento do estudo foram atendidos os aspetos éticos da pesquisa envolvendo seres humanos, tal como expostos na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Considerando as características específicas deste estudo, destacamos, de entre essas recomendações, o consentimento informado dos estudantes e respetivos encarregados de educação, a confidencialidade no tratamento dos dados e ainda uma análise prévia do estudo, em que foram ponderados potenciais riscos e benefícios do estudo.

Análise de dados

O estudo, realizado com uma amostra transversal, é de natureza quantitativa e inscreve-se numa metodologia diferencial inter sujeitos. Para tal, realizámos uma análise da variância multivariada (MANOVA) de modo a verificar se há diferenças estatisticamente significativas entre os sexos nos interesses profissionais, expressos nos resultados brutos do COPS. Consideramos assim como variável independente (VI) o sexo e como variáveis dependentes (VD) cada uma das áreas de interesse profissionais.

Apesar de termos identificado apenas uma VI, a nossa opção pela MANOVA procurou responder à necessidade de reduzir a possibilidade de erro de tipo I, bem como ao facto de consideramos que as VD se encontram relacionadas. Efetuámos uma verificação preliminar das assunções da MANOVA, nomeadamente normalidade, linearidade, ausência de outliers univariados e multivariados, homogeneidade de matrizes de variância-covariância e ausência de multicolinariedade (Maroco, 2007). Tendo em conta a não verificação do pressuposto de homogeneidade em algumas variáveis, optámos por um nível de significância mais conservador de 0.01 (Tabachnick & Fidell, 2007). É ainda de acrescentar que a opção por uma análise conjunta de todos os dados, ainda que obtidos em diferentes anos letivos, deveu-se à homogeneidade das características sociodemográficas da amostra, bem como ao facto de, num estudo piloto prévio, em que os dados foram analisados por ano, termos verificado a inexistência de diferenças significativas. Nesta perspetiva, ao consideramos a totalidade da amostra, procurámos evitar a redundância da informação.

 

Resultados

A análise de variância começa por revelar uma influência do género nos interesses profissionais, F(14,453) = 78.60, p < .001, Λ de Wilks = . 29, ηp2 = .71, com uma dimensão do efeito muito forte e com as diferenças a se estenderem à maioria das áreas de interesse, tal como expresso na Tabela 2.

 

 

Relativamente às áreas específicas em que se observam diferenças significativas, verificamos que, comparativamente ao sexo feminino, os estudantes do sexo masculino têm resultados superiores na Tecnologia (níveis superior e técnico), Exterior e Negócios (nível técnico). De entre as dimensões em que se observaram diferenças, a magnitude do efeito mais elevada ocorre na Tecnologia, quer no nível técnico, F(1,466) = 479.51, p < .001, ηp2 = .51, quer no nível superior, F(1,466) = 236.57, p < .001, ηp2 = .34.

Estes resultados revelam que os estudantes do sexo masculino apresentam, em média, interesses mais significativos em atividades profissionais relacionadas com a engenharia e projetos, bem como envolvendo o trabalho manual em áreas como a construção, a manufatura, a instalação ou a reparação de produtos (informática, eletrónica ou mecânica). Tendencialmente, interessam-se também mais por profissões que se realizam ao ar livre e que incluem o cuidar do crescimento de plantas e animais, o semear e cultivar em áreas como a agricultura, produção florestal, pescas, e ainda pelas vendas e promoção comercial.

Por outro lado, comparativamente ao sexo masculino, as estudantes do sexo feminino têm resultados superiores em clusters de interesses como os Serviços, Secretariado, Arte e Comunicação. A maior dimensão do efeito é constatada nos Serviços (superior), F(1,466) = 92.50, p < .001, ηp2 = .17. Assim, as estudantes têm tendência para se interessarem mais por profissões que implicam o providenciar serviços e a responsabilidade no cuidar do bem estar e das necessidades das pessoas, quer em profissões que envolvam formação superior (Serviço Social, Saúde, Educação), quer em profissões desta dimensão associadas a níveis intermédios de formação (hotelaria, serviço ao cliente, atendimento, entre outros). Os resultados médios superiores das estudantes do sexo feminino na Arte (níveis superior e técnico) associam-se ainda a interesses por profissões que implicam a expressão individualizada de talentos criativos ou musicais (pintura, escultura, arquitectura, composição musical) e a aplicação de aptidões artísticas (design, fotografia, artes gráficas). Por fim, registamos ainda os interesses superiores das estudantes em profissões que implicam competências de comunicação oral e escrita de conhecimentos e ideias.

 

Discussão

Com este trabalho, pretendemos, a partir de dados recolhidos em contexto profissional ao longo de vários anos, refletir sobre o papel do género da tomada de decisão na carreira e particularmente da definição dos interesses profissionais. Procurámos ainda verificar se o padrão de resultados que a literatura tem vindo a reportar se manifesta com esta amostra. Os resultados revelaram um efeito do género nos interesses profissionais, numa tendência para que os estudantes tenham preferências superiores às estudantes em domínios como a tecnologia, ar livre e negócios (nível técnico), e que estas tenham interesses superiores aos estudantes do sexo masculino na comunicação, arte e serviços (nível superior). No caso da tecnologia, as diferenças não só são estatisticamente muito significativas, com também a dimensão do efeito é muito elevada. Por outro lado, as diferenças na comunicação e serviços têm uma dimensão do efeito moderada. Globalmente, podemos afirmar que este padrão de resultados vai ao encontro do que a investigação tem vindo a revelar, com o sexo masculino a mostrar-se tendencialmente mais orientado para atividades e profissões envolvendo o trabalho com coisas e o sexo feminino mais orientado para o trabalho com pessoas (Lubinski & Benbow, 2006; Su et al., 2009).

Os resultados obtidos neste estudo permitem-nos identificar algumas linhas de discussão. No plano teórico, chamam à atenção para a importância das questões de género e de identidade de género na tomada de decisão e no desenvolvimento de uma identidade vocacional (Pocinho et al., 2010; Saavedra et al., 2011). Os trabalhos de Gottfredson (1981, 2002), como referimos anteriormente, referem o surgimento, em idades precoces, de uma estrutura sobre as profissões adequadas a cada género, que vai sendo reforçada ao longo do tempo e é dificilmente modificável, pelo que consideramos relevante que estas dimensões sejam mais consideradas na literatura vocacional.

Em todo o caso, é de assinalar que na dimensão Ciência (relacionada com a ciência, planeamento e condução de investigações) não se verificaram diferenças significativas entre os sexos, o que a nosso ver contribui para a ideia de que é importante evitar a generalização abusiva quando nos referimos às diferenças de género nas áreas CET. Com efeito, parece-nos útil particularizar os ramos dentro de cada uma destas áreas de conhecimento, em especial porque muitos cursos específicos apresentam percentagens muito elevadas de estudantes do sexo feminino (Saavedra et al., 2011). Assinalamos também o facto de termos analisado resultados médios, sendo que em alguns casos os desvios-padrão são elevados em relação à média de cada cluster de interesses, observada por género. Esta circunstância, que sugere variabilidade no interior de cada género, alerta-nos para a importância de análises mais aprofundadas sobre os interesses, em que se inclua uma maior diversidade de variáveis. Em suma, consideramos que estes dados abrem algum espaço de reflexão, que merecem ser desenvolvido, na medida em que poderá indicar que a influência do género na escolha de cursos poderá assumir heterogeneidade.

Numa perspetiva de intervenção, estes resultados remetem para a importância de se considerarem as questões de género no modo como os estudantes fazem as suas escolhas vocacionais, já que a sua compreensão poderá permitir reflexões e novas práticas (Faria et al., 2008). De facto, nos processos de orientação escolar e profissional, especialmente em momentos importantes de tomada de decisão, as intervenções deverão contemplar o peso que os estereótipos de género poderão estar a assumir no modo como os estudantes, quer do sexo feminino, quer do sexo masculino, pensam na sua carreira e decidem. Para além disso, é essencial que os vários agentes educativos, em que se incluem pais, professores e psicólogos, evitem estereótipos de género - que, por sinal, povoam o espaço social e cultural das escolas (Saavedra et al., 2011) - encarando a diversidade de objetivos, experiência de vida, valores e interesses dos estudantes e, nesse sentido, admitindo as várias possibilidades de escolha e os múltiplos percursos individuais possíveis. Com efeito, assumindo a orientação vocacional em contexto escolar um contributo importante para o desenvolvimento global dos alunos, para a sua inserção social e autorrealização (Carvalho, 2010), os agentes educativos deverão ter em conta o grau em que variáveis como sexo ou o género, numa perspetiva de construção social, poderão ter influência na tomada de decisão.

Para além disso, sublinhamos a importância do acesso a oportunidades de exploração, reflexão e autoconhecimento, fornecidas pelas escolas e comunidades, especialmente a alunos de estatuto sociocultural inferior. Apesar de não ter sido possível efetuar uma comparação entre diferentes níveis socioculturais neste estudo, dada a homogeneidade da amostra, consideramos que esta variável poderá exercer uma influência significativa nos interesses vocacionais dos estudantes, na medida em que o estatuto sociocultural está frequentemente associado ao acesso a experiências e oportunidades de desenvolvimento pessoal e exploração, que poderão contribuir para uma maior amplitude de interesses e autoconhecimento (Carvalho & Novo, 2012).

Assinalamos também a importância do desenvolvimento vocacional em níveis de ensino anteriores à tomada de decisão, de forma que possam ser promovidos padrões flexíveis de pensamento e exploração, e contrariada uma tendência para a rigidificação de crenças estereotípicas (por exemplo, de que há profissões de homens e profissões de mulheres) que venham a condicionar opções futuras. Consideramos ainda que estes dados revelam que os interesses não devem ser considerados de forma isolada (Noronha & Ottati, 2010), mas na sua relação com outras dimensões de análise no âmbito da orientação vocacional e que estão relacionadas com a escolha profissional, como sejam as aptidões, as experiências de vida, os objetivos e valores pessoais, todos inseridos numa narrativa de vida com significado para cada estudante.

Do ponto de vista da investigação, parece-nos importante uma maior exploração futura sobre os percursos e os motivos que levaram os indivíduos às áreas profissionais em que se encontram, isto é, análises mais aprofundadas e eventualmente qualitativas sobre os percursos idiossincráticos dos indivíduos e do modo como escolheram. Esta perspetiva aplica-se, não apenas aqueles que se encontram numa área profissional estereotípica do seu género, mas também daqueles que não estão nessa situação. Neste contorno, um exemplo corresponde ao trabalho de Simpson (2004), que estudou a identidade de género em homens com profissões estereotipadas como femininas. Para além de ter identificado três categorias qualitativas, correspondentes a perfis (os que ativamente procuram essa carreira, os que encontraram a profissão no processo geral de tomada de decisão na carreira, os que acabam por ir para aquela profissão após períodos de tempo noutras profissões dominadas pelos homens), Simpson verificou que os homens beneficiaram do seu estatuto minoritário através de assunção de funções de liderança (efeito de autoridade assumida), de atribuição de tratamento diferenciado (efeito de consideração especial) e por serem associados a uma atitude no trabalho mais direcionada para a carreira (efeito de carreira). Em simultâneo, a autora verificou que se sentem confortáveis ao trabalhar com mulheres (efeito da zona de conforto). Não obstante, os homens adotaram estratégias para compensar a natureza estereotípica "feminina" do trabalho, em que se incluem a renomeação das suas funções, valorização do estatuto e distanciação do estereótipo feminino.

Por fim, assinalamos que este estudo não deixa de apresentar limitações, que deverão ser tidas em conta. De entre estas limitações, fazemos referência ao facto de os dados relativos aos interesses terem sido recolhidos com apenas um instrumento de autorrelato. Consideramos ser útil para futuro considerar análises mais abrangentes sobre os interesses, recorrendo ao cruzamento de informação de diferentes fontes e ainda a análises de natureza mais idiográfica e envolvendo o modo com os indivíduos constroem os seus interesses e efetuam escolhas profissionais. Estas análises poderão inclusivamente permitir o estabelecimento de modelos mais compreensivos, que incluam não apenas os interesses, mas que integrem um conjunto mais vasto de dimensões potencialmente explicativas do modo como os indivíduos percecionam o seu percurso e dão sentido à experiência, numa lógica de narrativa de carreira. Para além disso, sublinhamos que este estudo foi realizado com uma amostra inserida numa única localidade, sujeita naturalmente a especificidades, por exemplo de natureza económica e sociocultural, pelo que os resultados deverão também ser enquadrados nessa limitação.

Consideramos, neste sentido, que será útil realizar futuramente estudos com amostras mais variadas e inseridas em diferentes contextos sociais e culturais, o que não só nos permitirá comparar e analisar a estabilidade ou replicabilidade dos efeitos do género nos interesses, como também compreender em que medida aqueles diferentes contextos, através da variação das suas características, poderão ter um papel significativo no modo como os indivíduos organizam os seus percursos.

 

Referências

Carvalho, R. G. (2010). Práticas de orientação vocacional: Algumas notas sobre o Programa de Orientação para a Carreira. In R. G. Carvalho & M. Pocinho (Eds.), Actas do Congresso Psicologia, Educação, Comunidade (pp. 24-31). Funchal: AEPSI.

Carvalho, R. G. (2012). A personalidade na compreensão do percurso escolar na adolescência. Tese de Doutorado não publicada, Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa, Lisboa.

Carvalho, R. G., & Novo, R. F. (2012, no prelo). Family socioeconomic status and students' adaptation to school life. Manuscrito submetido para publicação.

Faria, L. C., Taveira, M. C., & Saavedra, L. M. (2008). Exploração e decisão de carreira numa transição escolar: Diferenças individuais. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 9(2), 17-30.

Godoy, S., & Noronha, A. P. P. (2010). Interesses e personalidade: Diferenças entre série e sexo de jovens do ensino médio. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 1, 184-201.

Gottfredson, L. S. (1981). Circumscription and compromise: A developmental theory of occupational aspirations. Journal of Counseling Psychology, 28, 545-579.

Gottfredson, L. S. (2002). Gottfredson's theory of circumscription, compromise and self creation. In D. Brown (Ed.), Career choice and development (pp. 85-148). San Francisco: Jossey Bass.

Holland, J. L. (1959). A theory of vocational choice. Journal of Counseling Psychology, 6, 35-45.

Holland, J. L. (1997). Making vocational choices: A theory of vocational personalities and work environments (3rd ed.). Odessa, FL: Psychological Assessment Resources.

Knapp, R. R., & Knapp, L. (1979). Technical manual for the Career Occupational Preference System Interest Inventory (Form R). San Diego, CA: Educational & Industrial Testing Service.

Knapp, R. R., & Knapp-Lee, L. (1995). Career Occupational Preference System Interest Inventory (COPS) Technical Manual. San Diego, CA: Educational & Industrial Testing Service.

Leitão, L. M., & Miguel, J. P. (2001). Os interesses revisitados. Psychologica, (26), 79-104.

Lippa, R. (1998). Gender-related individual differences and the structure of vocational interests: The importance of the people-things dimension. Journal of Personality and Social Psychology, 74, 996-1009.

Lippa, R. A. (2005). Subdomains of gender-related occupational interests: Do they form a cohesive bipolar M-F dimension? Journal of Personality, 73, 693-729.

Lubinski, D., & Benbow, C. P. (2006). Study of mathematically precocious youth after 35 years: Uncovering antecedents for the development of math-science expertise. Perspectives on Psychological Science, 1, 316-345.

Maroco, J. P. (2007). Análise estatística com a utilização do SPSS (3rd ed.). Lisboa: Edições Sílabo.

Martins, P. (2011). Mulheres nas ciências e tecnologias: Escolhas e constrangimentos. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade do Minho, Braga.

Noronha, A. P. P., & Ottati, F. (2010). Interesses profissionais de jovens e escolaridade dos pais. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 11, 37-47.

Pocinho, M., Correia, A., Carvalho, R. G., & Silva, C. (2010). Influência do género, da família e dos serviços de psicologia e orientação na tomada de decisão na carreira. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 11, 201-212.

Prediger, D. J. (1982). Dimensions underlying Holland's hexagon: Missing link between interests and occupations? Journal of Vocational Behavior, 21, 259-287.

Saavedra, L. (2010). Assimetrias de Género e escolhas vocacionais. In T. Pinto (Coord.), Guião de educação: Género e cidadania - 3ºciclo do ensino básico (pp. 121-130). Lisboa: Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.

Saavedra, L., Vieira, C. M., Araújo, A., Faria, L., Silva, A. D., Loureiro, T., et al. (2011). (A)Simetrias de género no acesso às engenharias e ciências no ensino superior público. ExAequo, (23), 163-177.

Savickas, M. (1999). The psychology of interests. In M. L. Savickas & A. R. Spokane (Eds.), Vocational interests: Meaning, measurement and counseling use (pp. 19-56). Palo Alto, CA: Davies-Black.

Simpson, R. (2004). Masculinity at work: The experience of men in female dominated occupations. Work, Employment & Society, 18, 349-368.

Su, R., Rounds, J., & Armstrong, P. I. (2009). Men and things, women and people: A meta-analysis of sex differences in interests. Psychological Bulletin, 135, 859-884.

Tabachnick, B., & Fidell, L. S. (2007). Using multivariate statistics (5th ed.). New York: Pearson.

Williams, M. C., & Subich, C. M. (2006). The gendered nature of career related learning experiences: A social cognitive career theory perspective. Journal of Vocational Behavior, 69, 262-275.

 

 

Recebido: 04/05/2012
1ª Revisão: 06/07/2012
2ª Revisão: 24/07/2012
Aceite final: 19/08/2012

 

 

Sobre o autor
Renato G. Carvalho é Doutor em Psicologia (Avaliação Psicológica) pela Universidade de Lisboa. É professor convidado nas Universidades da Madeira e Aberta, psicólogo na Secretaria de Educação e Recursos Humanos da Madeira, Portugal, e Presidente da Associação AEPSI.
1 Endereço para correpondência: Centro de Competência de Artes e Humanidades, Campus Universitário da Penteada, 9020-105, Funchal, Portugal. Fone: 351 291 705000. E-mail: renato@uma.pt