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Revista Brasileira de Orientação Profissional

versión impresa ISSN 1679-3390

Rev. bras. orientac. prof vol.15 no.2 São Paulo dic. 2014

 

ARTIGO

 

Exploração da carreira em reclusos: a importância das características individuais

 

Career exploration in inmates: the importance of individual characteristics

 

Exploración de carrera en los detenidos: la importancia de las características individuales

 

 

Liliana FariaI; Sandra MarquesII; Joana Carneiro PintoIII

IUniversidade Europeia, Lisboa, Portugal
IIISLA Leira, Leiria, Portugal
IIIUniversidade Católica Portuguesa, Lisboa, Portugal

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo visa analisar as competências de exploração de carreira em adultos reclusos, em função de variáveis sociodemográficas. Nesse sentido, apresenta-se uma investigação com 58 reclusos, de um estabelecimento prisional de Portugal. Os resultados indicam que os reclusos se encontram numa situação, em geral, favorável à exploração vocacional. Verificam-se ainda diferenças estatisticamente significativas no Stresse em função do estado civil, e na Certeza de Resultados e na Exploração do Meio profissional, em função do nível de escolaridade. Conclui-se que o grande desafio para profissionais de aconselhamento vocacional é facilitar o bem-estar psicológico dos reclusos, ajudando-os a compreender a realidade e a enfrentar os desafios de viver e trabalhar em sociedade, após a reclusão.

Palavras-chave: comportamento exploratório, detentos, terapia


ABSTRACT

This study aims to analyze the vocational exploration competences in adult inmates according to sociodemographic variables. The participants of this study were 58 inmates of prison in Portugal. The results indicated that the inmates were in a situation favorable to the vocational exploration. Statistical significant differences were found in Stress according to the civil status and in Results Certainty and Professional Environment Exploration according to the academic degree. It is concluded that the major challenge for counseling professionals is to facilitate the well-being of inmates, helping them to understand the reality and face the challenges of living and working in society after the incarceration.

Keywords: career exploration, prisoners, treatment


RESUMEN

Este estudio tiene como objetivo examinar las habilidades de exploración de carrera en los presos adultos, de acuerdo con las variables sociodemográficas. En este sentido, presentamos una investigación con 58 reclusos de una prisión en Portugal. Los resultados indican que los presos están en una situación, en general, favorable a la exploración de carreras. Se encuentra una diferencia estadísticamente significativa en el nivel de Estrés en función del estado civil, y en la Certeza en los Resultados de la Exploración y en la Exploración del Entorno Profesional, dependiendo del nivel de escolaridad. Se concluye que el principal reto para los profesionales en asesoramiento vocacional es facilitar el bienestar psicológico de los internos, ayudándoles a comprender la realidad y a enfrentarse a los desafíos de la vida y el trabajo en la sociedad después de su encarcelamiento.

Palabras clave: exploración de carreras, prisioneros, terapia


 

 

As carreiras são construídas à medida que as pessoas fazem as suas escolhas, e com elas definam os seus objetivos pessoais, tendo por base os seus autoconceitos (Duarte, 2009; Guichard, 2005; Savickas, 2002). E por isso, são construções subjetivas que implicam a atribuição de significados ao passado, presente e futuro, a nível pessoal e profissional (Duarte, 2009; Savickas, 2002, 2012), que constituem os pré-requisitos necessários para as pessoas se adaptarem às mudanças sociais, políticas e económicas em que de alguma maneira se inserem (Guichard, 2005). Assim, intervir a nível da carreira é ajudar as pessoas a procurarem as suas formas identitárias subjetivas, e incentivá-las a encontrar formas de implementar procedimentos para conseguir transformar a expectativa em realidade, a redefinir prioridades, a identificar e cultivar redes de suporte e apoio, e a envolver-se em atividades (Savickas, 2012). Todas estas formas de ajudar as pessoas a nível da carreira relacionam-se com a variável psicológica exploração vocacional.

O grande e crescente corpo de literatura nas últimas décadas tem demonstrado a importância da exploração vocacional no desenvolvimento de carreira (Dawes, 2012; Flum & Blustein, 2000; Gamboa, Paixão, & Jesus, 2011; Nie, Lian, & Huang, 2012; Taveira, 2000; Zikic & Klehe, 2006). A exploração vocacional tem sido definida como o processo psicológico que suporta as atividades de procura e de processamento de informação ou o teste de hipóteses acerca de si próprio e do meio envolvente, com vista à prossecução de objetivos vocacionais (Jordaan, 1963; Stumpf, Colarelli, & Hartman, 1983; Taveira, 2000). Nos últimos anos, os resultados da investigação sugerem que a exploração vocacional pode ocorrer em qualquer idade, tendo vindo a ser concebida como uma dinâmica processual que ocorre ao longo da vida, no decurso dos vários papéis de vida desempenhados pelo indivíduo e, como uma forma de lidar com as transições de carreira (Blustein, 1997; Flum & Blustein, 2000; Leitão & Paixão, 2008).

A necessidade de exploração vocacional ressurge sempre que as práticas profissionais do adulto mudam ou são suspensas, quer de modo voluntário (e.g., insatisfação profissional, prisão) quer involuntário (e.g., doença, morte), reiniciando um novo ciclo de exploração vocacional (Hall, 1986; Leitão & Paixão, 2008). Deste modo, a exploração vocacional é considerada como um mecanismo adaptativo, que ajuda os indivíduos a gerir as diversas e rápidas transformações do atual mercado de trabalho (Blustein, 1997; Zikic & Klehe, 2006).

A investigação demonstra que a exploração vocacional está associada a uma série de variáveis, das quais destacamos: 1. melhor progresso na transição para os papéis de vida (Lapan, Aoyagi, & Kayson, 2007). 2. melhor desempenho no treino de competências profissionais (Rowold, 2007); 3. melhor sentido de direção e maior envolvimento no trabalho (Lapan, et al., 2007; Rowold & Staufenbiel, 2010); 4. maiores níveis de autoeficácia profissional (Hirschi, 2011; Teixeira & Gomes, 2005); 5. maiores níveis de satisfação profissional, de satisfação com a vida, e de comprometimento com a carreira (Bardagi & Hutz, 2010; Lapan, et al., 2007); 6. redução de mudanças voluntárias de emprego (Wanous, 1977); e 7. maiores descobertas de oportunidades que ajudarão o indivíduo a aumentar as suas possibilidades de empregabilidade (Fugate, Kinicki, & Ashforth, 2004).

A população reclusa passa muito tempo afastada da sociedade e do mercado de trabalho e, por esse motivo, apresenta um maior risco de desemprego e de exclusão social, onde as competências de exploração vocacional poderão constituir uma oportunidade única para aumentar a probabilidade do ex-recluso ter sucesso na transição da prisão para a comunidade (Loretta, 1985; Pope, 2011). A grande dificuldade ou mesmo impossibilidade de inserção profissional desta população deve-se sobretudo à baixa escolaridade dos reclusos, à dificuldade de ajustamento entre as suas características individuais (interesses, capacidades, valores; metas irrealistas, impulsividade) e às características dos postos de trabalho (Crewe, 2011; Polaschek, 2012), à doença mental e ao estigma social (Nogueroles, 2007; Trulson, DeLisi, Caudill, Belshaw, & Maquart, 2010).

O Relatório de Estatísticas Prisionais de 2006 faz notar que 39.01% dos reclusos portugueses têm como nível de escolaridade apenas o primeiro ciclo do ensino básico, seguidos por 25% dos reclusos com o 2º ciclo, 18.3% com o 3º ciclo e .5% dos reclusos com frequência universitária. A população com baixas habilitações académicas tem, à partida, uma desvantagem na entrada do mercado de trabalho devido à sua pouca escolaridade e ao défice de algumas competências profissionais, dirigindo-se para postos de trabalho não especializados e com um ordenado reduzido, o que cria também uma desvantagem económica (Creed, Hood, & Patton, 2010). Esta desvantagem é agravada devido ao isolamento social e ao afastamento do mercado laboral, por vezes, de muitos anos, o que leva a uma dificuldade de ajustamento e adaptação ao mercado de trabalho que encontram aquando da sua libertação (Pager, 2006; Ramakers, Wilsem, & Apel, 2012; Tyler & Kling, 2006). Além de que, os reclusos adquirem hábitos dentro da prisão que, de certa forma, os distancia da sociedade, nomeadamente ao nível do vestuário, dos métodos de trabalho, da aceitação de um papel inferior, e da adoção da linguagem utilizada neste meio e, portanto, adaptam-se a toda a dinâmica da prisão, a que Clemmer (citado em Cunha, 2008) chamou de fatores universais de enclausuramento. Por sua vez, as adaptações prolongadas às privações e as frustrações da vida dentro da prisão, criam hábitos de pensar e de agir que podem ser disfuncionais e que levam à diminuição da autoestima, confiança, motivação e valor pessoal (Bjorngaard, Rustad, & Kjelsberg, 2009), e diminuição da criatividade (Eisenman, 1992).

De acordo com estudos relativamente recentes (e.g., Bender, 2006; Bradley, 2009; Wolff, 2005), a taxa de doença mental em reclusos é três vezes maior do que na população em geral. Um estudo realizado por Lamb e Weinberger (2006) revelou que mais de 24% da população reclusa tem uma doença mental grave. A tudo isto se acrescenta o estigma social de que são vítimas. Os empregadores julgam os ex-reclusos com base nos estereótipos sobre os criminosos (Ore, 2009) e sentem imensa desconfiança (Clear, Rose, & Ryder, 2001; Iwamoto et al., 2012). Estes fatores podem, de facto, contribuir para uma reinserção social e profissional mais difícil, sendo que quanto mais os reclusos se integram na dinâmica prisional, mais difícil é a sua reinserção na sociedade (Cunha, 2008; Gomes, 2008).

Assim, ao contrário dos indivíduos proativos sobre os quais se debruçaram a maioria dos estudos, os reclusos podem estar mais relutantes à exploração, uma vez que possuem menos oportunidades, confiança ou competências para começar esse processo, e não estão conscientes desta necessidade de explorar devido a uma falta de encorajamento do próprio meio (Blustein, 2001). Para que o comportamento exploratório aconteça, é necessário que haja estímulos no meio que encorajem e apoiem o desenvolvimento desse comportamento (Flum & Kaplan, 2006; Zikic & Hall, 2008).

Tendo em consideração que os custos económicos e sociais da reclusão exigem esforços para promover a reintegração bem sucedida na comunidade, e dado não existir investigação com esta população no que respeita à exploração vocacional, considerou-se importante avaliar as crenças, os comportamentos e as reações destes adultos à exploração de carreira, bem como, analisar diferenças em função de variáveis sociodemográficas.

 

Método

Participantes

A população do nosso estudo foi constituída por todos os reclusos detidos num estabelecimento prisional da região centro de Portugal (65 reclusos adultos). Contudo, sete dos reclusos não quiseram participar no estudo, pelo que a nossa amostra, de conveniência, é constituída por 58 adultos reclusos, com idades compreendidas entre os 22 e os 68 anos (M = 40.21, DP = 11.44). Grande parte dos reclusos possui o 9º ano de escolaridade (37.9%), 29.3% possuem o 4º ano, 27.5% possuem o 6º ano, 3.4% possuem o 12º ano e, finalmente, 1.7% possui um curso de ensino superior. Em relação ao estado civil, 44.8% são solteiros, 20.7% são divorciados, 13.8% são casados, e 20.7% vivem em união de facto, sendo que 39 (67.2%) têm filhos. Em relação à duração da pena de prisão, verifica-se que esta varia entre menos de 1 mês (1.7%) e mais de 8 anos (5.2%), constatando-se uma grande percentagem de reclusos com penas entre 2 e 4 anos (n = 13, 22.4%) e 4 a 6 anos (n = 18, 31%).

Instrumento

Utilizou-se a Escala de Exploração da Carreira (EEC, Silva & Taveira, 2010), a versão portuguesa do Career Exploration Survey (CES; Stumpf, et al., 1983), destinada a adultos não universitários portugueses. A escala é composta por 56 itens, com escala de tipo likert, com cinco categorias de resposta, correspondendo o valor mínimo 1, por exemplo, a "muito pouca", e o valor máximo 5 "muitíssimo".

Esta escala é composta por três componentes principais, crenças, comportamentos e reações, e doze dimensões distintas de exploração vocacional (Silva, 2010). O componente Crenças de Exploração Vocacional inclui as subescalas: 1. Estatuto de Emprego (exemplo de item: "Indique quais lhe parecem ser as possibilidades de se conseguir emprego na(s) profissão(ões) que mais lhe interessa(m) ou poderiam interessar"); 2. Certeza dos Resultados de Exploração (exemplo de item: "Indique até que ponto, logo que termine a sua pena, tem a certeza de conseguir trabalhar na profissão específica que prefere?"); 3. Instrumentalidade Interna e Externa (exemplo de item: "Para conseguir trabalhar na área que prefere, no emprego que prefere, na empresa que prefere e na posição que prefere, até que ponto acha importante avaliar-se para arranjar um emprego que vá ao encontro das suas necessidades"); 4. Instrumentalidade do Método e da Tomada de Decisão (exemplo de item: "Para conseguir trabalhar na área que prefere, no emprego que prefere, na empresa que prefere e na posição que prefere, até que ponto acha importante falar com pessoas que trabalham nas áreas que prefere"); 5. a Importância da Posição Preferida (exemplo de item: "Até que ponto é importante para si, neste momento ocupar uma determinada posição profissional?"). O componente Comportamentos de Exploração Vocacional inclui as subescalas: 1. a Exploração de Si Próprio (exemplo de item: "Até que ponto, nos últimos três meses, experimentou alguns trabalhos específicos e perguntou a si próprio se gostava deles?"); 2. Exploração do Meio Profissional (exemplo de item: "Até que ponto, nos últimos três meses, procurou realizar algumas atividades, no seu emprego, ou fora dele, só para experimentar as suas capacidades?"); 3. Exploração do Meio Educacional (exemplo de item: "Até que ponto, nos últimos três meses, comparou as suas opções escolares com as expectativas da sua família"); 4. Exploração Sistemática Intencional (exemplo de item: "Até que ponto, nos últimos três meses, pensou na sua vida e compreendeu a importância da sua história pessoal para o seu futuro escolar e profissional?".); 5. Quantidade de Informação (exemplo de item: "Qual a quantidade de informação que tem sobre as profissões e o mercado de trabalho?). Por último, o componente Reações à Exploração Vocacional inclui as subescalas: 1. Satisfação com a Informação (exemplo de item: "Sei como poderá ser o meu desempenho e a minha satisfação em diferentes profissões?"); 2. Stresse face à Exploração e à Tomada de Decisão (exemplo de item: "Indique que grau de tensão (nervosismo ou stresse) lhe causaria, quando comparado com outros acontecimentos de vida, decidir-se por um emprego, relacionado com a sua área profissional preferida") (ver Tabela 1).

A cotação de cada subescala do EES obtém-se adicionando o valor de cada uma das respostas aos itens que a compõem. Quanto maior a pontuação nas escalas avaliadas pelo EES, mais positivas serão as Crenças de Exploração, os Comportamentos Exploratórios e/ou as Reações à Exploração. Os resultados da versão adaptada do EES, na população em estudo indicam uma consistência interna satisfatória do instrumento, com um Alpha de cronbach de .955.

Procedimento

O estabelecimento prisional regional da zona centro de Portugal foi contactado com o objetivo de averiguar a possibilidade de recolha de dados. Após a confirmação por parte da direção, contactou-se a Direção Geral dos Serviços Prisionais que autorizou esta investigação, mediante o projeto apresentado, focando a pertinência e objetivos do presente estudo, bem como o instrumento de avaliação a utilizar.

O estabelecimento prisional regional foi novamente contactado para organizar a coleta de dados de forma a reduzir a perturbação do funcionamento do espaço. No momento da recolha de dados, os guardas prisionais chamaram os reclusos por grupos de aproximadamente 20 pessoas, previamente elaborados por parte dos guardas e comunicaram que sete dos reclusos não estavam interessados em participar no estudo. Os dados foram recolhidos por uma das autoras da investigação e foi explicado a cada grupo o contexto, a pertinência e os objetivos do estudo, ressalvando que todos os dados recolhidos seriam tratados de forma confidencial e que o preenchimento do instrumento de avaliação não era de caráter obrigatório. Após esta pequena introdução, foram dadas a preencher a ficha de dados sociodemográficos e a Escala de Exploração de Carreira (Silva & Taveira, 2010). O preenchimento teve a duração de 20 a 30 minutos em cada grupo, sendo que os dados foram todos recolhidos no mesmo dia. De realçar que foram recolhidos 69 questionários, contudo, apenas 58 foram considerados válidos devido à falta de preenchimento de todas as questões do questionário.

Análise dos dados

Os dados foram analisados com recurso ao SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 22.0 para Windows. Foram realizadas análises de estatística descritiva para a caracterização sociodemográfica dos participantes. Seguidamente, foram realizadas análises de estatística inferencial com a finalidade de se averiguar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre os resultados de exploração vocacional obtidos na amostra e o respetivo ponto médio de cada subescala, com recurso ao t-teste, bem como, a existência de diferenças estatisticamente significativas nos níveis de exploração vocacional entre os grupos com características sociodemográficas distintas, com recurso a t-testes para amostras independentes e ANOVAS.

 

Resultados

A tabela 2 apresenta os resultados descritivos da exploração vocacional, por subescala, para a amostra global de reclusos, bem como, os resultados da análise de diferenças entre a média obtida pelo grupo de participantes por subescala e o respetivo ponto médio.

Como se pode verificar, os participantes obtiveram resultados superiores ao ponto médio nas subescalas Certeza dos Resultados, Instrumentalidade Interna e Externa, Instrumentalidade do Método e da Tomada de Decisão, Importância da Posição Preferida, Exploração de Si Próprio, Exploração do Meio Educacional, Exploração Sistemática Intencional, Quantidade de Informação, e Stresse face à Exploração e à Tomada de Decisão. As exceções verificam-se nas subescalas Estatuto de Emprego, Exploração do Meio Profissional, e Satisfação com a Informação. As diferenças entre os resultados médios obtidos pelos participantes e os respetivos pontos médios em cada uma das subescalas de exploração vocacional foram estatisticamente significativas para as subescalas Certeza dos Resultados, t(57) = 4.088, p < .001, Instrumentalidade Interna e Externa, t(57) = 8.269, p < .001, Instrumentalidade do Método e da Tomada de Decisão, t(57) = 8.177, p < .001, Importância da Posição Preferida t(57) = 5.144, p < .001, Exploração de Si Próprio, t(57) = 2.515, p = .015, Exploração do Meio Educacional, t(57) = 2.552, p = .013, Exploração Sistemática Intencional t(57) = 2.64, p = .011, Satisfação com a Informação, t(57) = -12.443, p < .001, e Stresse face à Exploração e à Tomada de Decisão, t(57) = 4.300, p < .001.

A análise dos resultados em função do estado civil demonstrou que, de um modo geral, o grupo dos casados obtém resultados superiores em todas as subescalas de exploração vocacional, quando comparado com os grupos dos restantes estados civis. No entanto, tal como se pode observar na tabela 3, verifica-se que estas diferenças entre grupos são apenas estatisticamente significativas para a subescala Stresse face à Exploração e à Tomada de Decisão, F(3) = 3.666, p = .018. Mais especificamente, os testes post-hoc de Scheffé indicaram que a diferença é estatisticamente significativa entre o grupo dos casados e o grupo em união de facto (Diferença média = 11.75, p = .026).

A figura 1 apresenta a representação gráfica dos níveis médios de stresse face à exploração e à tomada de decisão em função do estado civil.

 

 

Relativamente ao grupo etário, a análise de diferenças entre as médias obtidas em cada um dos grupos, grupo 1 [22-29 anos] apresenta resultados superiores nas subescalas Certeza dos Resultados (G1: M = 24.92, DP = 4.08), Importância da Posição Preferida (G1: M = 16.50, DP = 4.12), Exploração de Si Próprio (G1: M = 15.25, DP = 3.44), Exploração do Meio Profissional (G1: M = 9.67, DP = 2.46), Exploração Sistemática Intencional (G1: M = 10.83, DP = 1.90) e Quantidade de Informação (G1: M = 12.50, DP = 3.09), quando comparado com os restantes grupos etários. Verifica-se ainda que o grupo 2 [30-39] apresenta resultados superiores nas subescalas Instrumentalidade Interna e Externa (G2: M = 29.89, DP = 6.52), Instrumentalidade do Método e da Tomada de Decisão (G2: M = 25.22, DP = 5.83), Exploração do Meio Educacional (G2: M = 14.72, DP = 4.42), e Satisfação com a Informação (G2: M = 15.11, DP = 5.14), quando comparado com os restantes grupos etários. Por sua vez, o grupo 3 [40-49] apresenta resultados médios superiores aos restantes grupos nas subescalas Estatuto de Emprego (G3: M = 9.93, DP =3.24) e Stresse face à Exploração e à Tomada de Decisão (G3: M = 17.67, DP =7.65). No entanto, verifica-se que estas diferenças entre grupos não são estatisticamente significativas para nenhuma das subescalas consideradas (ver Tabela 3).

Quanto ao nível de escolaridade, de um modo geral, verifica-se que o grupo do 1º CEB apresenta resultados superiores nas subescalas Certeza dos Resultados (G1: M = 25.29, DP = 4.61), Instrumentalidade Interna e Externa (G1: M = 29.12, DP = 5.67), Importância da Posição Preferida (G1: M = 16.71, DP = 4.16) e Stresse face à Exploração e à Tomada de decisão (G1: M = 19.06, DP = 10.29), quando comparado com os restantes grupos etários. Verifica-se ainda que o grupo do Ensino Secundário e Superior apresenta resultados superiores nas subescalas Estatuto de Emprego (G4: M = 12.00, DP = 2.00), Instrumentalidade do Método e da Tomada de Decisão (G4: M = 26.67, DP = 3.51), Exploração de Si Próprio (G4: M = 16.33, DP = 1.53), Exploração do Meio Profissional (M = 10.00, DP = 2.65), Exploração do Meio Educacional (G4: M = 16.67, DP = 3.06), Exploração Sistemática Intencional (G4: M = 12.67, DP = 2.52), Quantidade de Informação (G4: M = 15.67, DP = .577), e Satisfação com a Informação (G4: M = 16.67, DP = 3.06, quando comparado com os restantes grupos etários. No entanto, verifica-se que estas diferenças entre grupos apenas são estatisticamente significativas nas subescalas Certeza de Resultados, F(3) = 3.462, p = .022, e Exploração do Meio Profissional, F(3) = 3.269, p = .028 (ver Tabela 3), sendo que os testes post hoc indicaram que as diferenças se registam especificamente entre os grupos do 1º CEB e do 3º CEB, (Certeza de Resultados: Diferença média = 6.43, p = .026; Exploração do Meio Profissional: Diferença média = 2.55, p = .050).

As figuras 2 e 3 apresentam a representação gráfica dos níveis médios de Certeza de Resultados e Exploração do Meio Profissional, respetivamente, em função do nível de escolaridade.

 

 

 

 

A análise da exploração vocacional, por duração da pena de prisão indica que o grupo 1 [<2 anos] apresenta resultados superiores nas subescalas Estatuto de Emprego (G1: M = 9.74, DP = 3.26), Certeza dos Resultados (G1: M = 23.84, DP = 6.76), Instrumentalidade Interna e Externa (G1: M = 29.42, DP = 5.07), Exploração de Si Próprio (G1: M = 14.26, DP = 4.16), Exploração do Meio Profissional (G1: M = 9.63, DP = 3.18), Exploração do Meio Educacional (G1: M = 14.21, DP = 4.79), Exploração Sistemática Intencional (G1: M = 10.63, DP = 3.04), Satisfação com a Informação (G1: M = 14.79, DP = 5.45), e Stresse face à Exploração e à Tomada de decisão (G1: M = 19.63, DP = 10.06), quando comparado com os restantes grupos etários. Verifica-se ainda que o grupo 2 [2-4 anos] apresenta resultados superiores na subescala Quantidade de Informação (G2: M = 12.54, DP = 3.86), o grupo 3 [4-6 anos] apresenta resultados superiores na subescala Instrumentalidade do Método e da Tomada de Decisão (G3: M = 24.61, DP = 5.03), e o grupo 4 [>6 anos] apresenta resultados superiores na subescala Importância da Posição Preferida (G4: M = 16.50, DP = 3.29), quando comparado entre si. No entanto, verifica-se que estas diferenças entre grupos não são estatisticamente significativas para nenhuma das subescalas consideradas (ver Tabela 3).

Por último, a análise da exploração vocacional, em função da variável ter ou não ter filhos, permite-nos verificar que o grupo sem filhos apresenta resultados superiores ao grupo com filhos nas subescalas Instrumentalidade do Método e da Tomada de Decisão (G1: M = 24.16, DP = 3.70), Importância da Posição Preferida (G1: M = 15.26, DP = 4.15), Exploração de Si Próprio (G1: M = 14.2, DP = 2.74), Exploração do Meio Profissional (G1: M = 8.8, DP = 2.65), Exploração do Meio Educacional (G1: M = 13.89, DP = 3.68), Exploração Sistemática Intencional (G1: M = 10.32, DP = 2.33), e Stresse face à Exploração e à Tomada de Decisão (G1: M = 18.53, DP = 8.17). Por sua vez, verifica-se que o grupo com filhos apresenta resultados superiores ao grupo sem filhos nas subescalas Estatuto de Emprego (G2: M = 9.26, DP = 3.36), Certeza de Resultados (G2: M = 21.64, DP = 7.12), Instrumentalidade Interna e Externa (G2: M = 28.31, DP = 7.03), Quantidade de Informação (G2: M = 12.21, DP = 3.72), e Satisfação com a Informação (G2: M = 13.67, DP = 4.54). No entanto, estas diferenças entre os grupos não são estatisticamente significativas para nenhuma das subescalas consideradas (ver Tabela 3).

 

Discussão

Este estudo visou analisar as crenças, comportamentos e reações à exploração de carreira de um grupo de adultos reclusos portugueses, bem como, analisar diferenças nas competências de exploração em função de um conjunto de variáveis sociodemográficas. Os resultados obtidos para a amostra global indicam que os reclusos apresentam crenças, comportamentos e reações à exploração vocacional que são, de um modo geral, superiores ao ponto médio das respetivas subescalas. Assim, estes reclusos apresentam crenças elevadas relativamente ao grau de certeza de virem a alcançar uma posição favorável no mercado de trabalho, à importância que os comportamentos de exploração de si próprio e do meio profissional podem ter no alcance dos seus objetivos profissionais, à importância que o método utilizado na exploração vocacional e na tomada de decisão podem ter no alcance desses mesmos objetivos profissionais, e ainda à importância atribuída face à obtenção das suas atuais preferências profissionais. Para além disso, estes participantes parecem apresentar, igualmente, comportamentos exploratórios elevados, em particular no que respeita os comportamentos orientados para os seus interesses, valores, características pessoais e necessidades, e os comportamentos orientados para as profissões, empregos, organizações e mercado de trabalho (Hardin, Varghese, Tran, & Carlson, 2006), realizando-os de forma sistemática e intencional. Estes resultados fazem-nos questionar sobre o que estará a incentivar estes comportamentos dentro da prisão. Seria importante em outros estudos analisar as vivências e atividades que os reclusos têm acesso, para tentar explicar os resultados obtidos. É de salientar, igualmente, que estes comportamentos exploratórios, orientados para si e para o meio podem justificar as crenças elevadas no que respeita à certeza dos resultados de exploração e à importância da posição preferida. No entanto, estas crenças podem mesmo assim ser pouco realistas, tendo em consideração que parece existir uma maior dificuldade desta população no que concerne ao seu (re)ingresso no mercado de trabalho após o período de privação e inatividade provocado pela situação de prisão em que se encontram (e.g., Pager, 2006; Ramakers, et al., 2012; Tyler & Kling, 2006).

Em relação às suas reações face à exploração vocacional, destaca-se a quantidade elevada de stresse percebido face ao processo de exploração e de tomada de decisão, por comparação a outros acontecimentos na vida. Estes participantes parecerem, assim, sobrecarregados pela ansiedade e preocupação com as circunstâncias de suas vidas, o que poderá desencadear diagnósticos patológicos (e.g., Bender, 2006; Bradley, 2009; Wolff, 2005). Hutri e Lindeman (2002) relatam que a ansiedade, mesmo que ainda não patológica, pode levar ao embotamento cognitivo e das atividades funcionais em geral. Salienta-se, ainda, que os participantes apresentam um défice no que concerne o seu grau de satisfação face à informação adquirida acerca de profissões, do mercado de trabalho e suas características pessoais. De um modo geral, estes resultados, apesar de contraditórios em relação aos comportamentos exploratórios elevados, parecem sugerir que esta insatisfação pode estar associada ao facto dos participantes não estarem a receber qualquer tipo de orientação acerca do processo de exploração vocacional na prisão em que se encontram inseridos, o que pode traduzir-se numa limitação da procura de informações académicas, formativas e profissionais dentro das áreas acerca das quais detêm maior conhecimento, excluindo assim outras áreas que poderiam ser igualmente pertinentes para uma tomada de decisão consciente e informada (Golembeski & Fullilove, 2005; Ramakers et al., 2012).

Considerando a idade, verifica-se que os participantes nas faixas etárias mais jovens apresentam mais certezas de vir a atingir uma posição favorável no mercado de trabalho, atribuem mais importância ao alcance da preferência profissional, realizam mais comportamentos de exploração de si e do mundo profissional, de forma sistemática e intencional, e possuem quantidades mais elevadas de informação vocacional. Além disso, muitos destes participantes apresentam, igualmente, uma maior perceção de que a exploração de si próprios e do meio conduz ao alcance dos objetivos profissionais, e estão mais satisfeitos com a informação obtida. Estes resultados indicam que os reclusos mais jovens possuem crenças e comportamentos mais positivos face à exploração, em comparação com os reclusos mais velhos. Este facto pode estar relacionado com os níveis de escolaridade mais elevados alcançados pelos reclusos mais jovens, bem como com a maior consciência por parte dos jovens acerca da flexibilidade que o mercado de trabalho lhes impõe atualmente, através de mudanças verticais e horizontais enquanto os mais velhos, geralmente menos escolarizados, podem continuar ligados à ideia de permanecerem, durante uma vida, num único trabalho ou profissão (Polaschek, 2012).

Relativamente ao estado civil, os resultados obtidos indicam que os participantes casados possuem resultados superiores aos participantes que apresentam qualquer outro estado civil, em todas as subescalas consideradas. No entanto, verifica-se que estes resultados são apenas estatisticamente significativos na subescala Stresse, indicando que estes apresentam uma maior quantidade de stresse percebido face ao processo de exploração e de tomada de decisão, por comparação a outros acontecimentos na vida. Estes dados poderão estar associados ao facto de estarem longe das suas esposas e como tal terem casamentos infelizes. Orth-Gomer (2002) refere que casamentos infelizes tornam as pessoas mais vulneráveis e se correlaciona com transtornos mentais tais como ansiedade e depressão. Pelo contrário as pessoas solteiras ou em união de facto, apesar de também terem a sua vida afetada pela ausência dos companheiros, apresentam menos comprometimento afetivos que as mal casadas (Cipriano, 2002). Contrariamente a estudos prévios, que indicam que os homens solteiros que não participam em curso educativos ou profissionalizantes durante o período de prisão são os que apresentam maior risco de insucesso ao retornar para a comunidade, neste estudo os solteiros não parecem apresentar, comparativamente com os participantes dos outros estados civis, perceção de maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho (Golembeski & Fullilove, 2005).

Em relação às questões da parentalidade, verifica-se que os reclusos que possuem filhos têm resultados superiores ao nível da perceção das possibilidades de emprego na área preferida, da certeza em vir a atingir uma posição favorável no mercado de trabalho, da probabilidade da exploração de si próprio e do meio conduzir ao alcance dos seus objetivos profissionais, na quantidade de informação adquirida sobre o meio profissional, e também na satisfação com essa mesma informação. Estes resultados poderão estar associados à ideia tradicional de que o homem é a figura central pelo sustento monetário da família. Mas também, ao facto de a parentalidade requerer uma adaptação que pode resultar no desenvolvimento e aquisição de competências psicológicas e sociais (Monteiro, 2005). De acordo com Nomaguchi e Milkie (2003) os pais são mais satisfeitos com as suas vidas, mas sentem maior tensão do que os indivíduos sem filhos. Mas, por outro lado, ser pai traz crescimento pessoal, ativa laços sociais e promove o autoconceito.

Em relação às habilitações académicas, os resultados obtidos indicam que os participantes com o 1º CEB apresentam crenças mais elevadas em relação à possibilidade de virem a atingir uma posição favorável no mercado de trabalho, em relação ao facto da exploração de si próprios e do meio profissional conduzir à obtenção dos seus objetivos profissionais, e em relação à importância que atribuem a obtenção das suas preferências profissionais. Por sua vez, os participantes com o Ensino Secundário ou o Ensino Superior apresentam uma maior perceção das possibilidades de obtenção de emprego na sua área preferida, atribuindo uma elevada importância a essa concretização, mais comportamentos de exploração do si, e do mundo académico e profissional, realizando-os de forma sistemática e intencional, e maior quantidade de informação neste domínio, bem como, maior satisfação face a essa informação. Estes resultados poderão estar relacionados com a perceção da sociedade de que pessoas com melhores qualificações escolares encontram melhores empregos (Pais, 2003). É importante salientar, ainda, que a baixa escolaridade encontra-se muitas vezes ligada a setores profissionais primários, como a agricultura, a construção civil ou a profissão de vendedor ambulante. Estas profissões não especializadas podem ser desempenhadas de forma independente pelos indivíduos, não necessitando de uma entidade patronal. Desta forma, poderão existir reclusos que, aquando a sua libertação, poderão conseguir sustento trabalhando por conta própria e, portanto, apresentam crenças mais positivas e menores níveis de tensão face à inserção do mercado de trabalho (Campos, 1991; Crewe, 2011).

Em relação à duração da pena, salienta-se que os participantes com pena até dois anos de duração são os que apresentam melhores resultados ao nível das crenças, comportamentos e reações à exploração vocacional. Especificamente, apresentam uma maior perceção acerca das possibilidades de emprego na área preferida, uma maior certeza de vir a atingir uma posição favorável no mercado de trabalho, uma maior perceção de que a exploração de si próprio e do meio profissional conduz ao alcance dos objetivos profissionais, mais comportamentos de exploração de si e do mundo educativo e profissional, maior satisfação com a informação obtida, e maiores níveis de stresse. Este resultado é congruente com a literatura na área indicando que penas mais elevadas traduzem-se efetivamente em crenças, comportamento e reações à exploração menos positivas, pelo que as pessoas com penas de prisão mais longas poderão ter maior dificuldade na inserção no mercado de trabalho. Assim, quanto maior a pena de prisão, maior a perceção de isolamento social e afastamento face ao mercado de trabalho, e consequentemente, maior a dificuldade de ajustamento, integração e adaptação na sociedade (Ramakers et al., 2012; Tyler & Kling, 2006).

 

Conclusões

Este estudo veio contribuir com novos dados para a psicologia, uma vez que não foram encontradas investigações que relacionem a exploração vocacional com a reclusão. Os resultados obtidos permitem-nos, então, caracterizar este grupo de reclusos, permitindo uma visão interativa de várias subdimensões psicológicas relacionadas com a exploração vocacional, com as variáveis sociodemográficas.

De uma forma geral, parece-nos relevante salientar que os reclusos se encontram numa situação, em geral, favorável à exploração vocacional. E, especificamente, estes parecem estar recetivos à reconstrução de significados acerca de si próprios e do meio escolar e profissional, com o objetivo de reelaborar projetos pessoais e profissionais futuros.

Embora o presente estudo, se tenha focado mais na avaliação da exploração vocacional em função das variáveis sociodemográficas, consideramos que este processo está inteiramente ligado à reinserção social e profissional, um problema social e institucional com particular relevância. Neste sentido, os resultados acima mencionados revelam-se úteis para que os estabelecimentos prisionais possam concorrer para a promoção do desenvolvimento pessoal e profissional dos seus reclusos. Para além dos valores humanistas, são atribuídos aos estabelecimentos prisionais, objectivos gerais da Educação, tais como o desenvolvimento do indivíduo para que possa realizar todas as suas potencialidades e ter uma vida feliz (Clear et al., 2001). Logo, para ir de encontro às necessidades dos reclusos, os estabelecimentos prisionais devem, primeiro, identificá-las e percebê-las.

Torna-se, ainda, pertinente mencionar a importância que o conhecimento descrito neste estudo assume para o planeamento da intervenção no âmbito da psicologia vocacional com estes reclusos. Sendo o ambiente prisional um contexto tão multivariado na quantidade e tipo de vivências que proporciona aos reclusos, constitui-se um contexto privilegiado para delinear intervenções de carreira que permitam aos reclusos explorar-se em diferentes papéis e, consequentemente, facilitar a sua adaptação às diferentes transições que caracterizarão a fase de vida que atravessam. Estudos prévios têm demonstrado sistematicamente a eficácia das intervenções vocacionais junto de outras populações (e.g., Brown & Krane, 2000; Faria, 2008; Pinto, 2010; Whiston, Brecheisen, & Stephens, 2003), sendo que poderia ser benéfico o seu desenvolvimento também junto de reclusos no sentido de favorecer a sua reinserção social e profissional (Rocha, 2010). Estas intervenções devem focar as especificidades desta população, em particular as suas necessidades no que concerne o desenvolvimento de competências pessoais, sociais académicas e profissionais, uma vez que estas podem contribuir para uma inserção de sucesso na sociedade, ajudando a prevenir a reincidência no crime, e a criar oportunidades para quem, à partida, encontraria várias dificuldades no acesso a um emprego e à independência (Santos, 2003). O objetivo poderá passar, por exemplo, por ajudar os reclusos a inventariar os seus interesses, capacidades, história pessoal, a fazer um questionamento pessoal, a analisar os seus objetivos, de modo a dar estrutura e forma às suas experiências (Faria & Loureiro, 2012; Pryor & Bright, 2009, 2011). Além disso, as metodologias de intervenção do reconhecimento, validação e certificação de competência (RVCC), o Balanço de Competências, a Educação e Formação de Adultos (EFA), também poderão ser vistas como estratégias para capacitar e preparar os reclusos para um processo de reinserção social (Campos, 1991).

Para além das questões que nos parecem especialmente relevantes para a prática da orientação vocacional, pensamos que é importante referir algumas das limitações desta investigação. Em primeiro lugar, precisamos tecer algumas considerações em torno dos problemas relacionados com o método de seleção da amostra. A amostra reduzida e de conveniência, bem como o número reduzido de participantes em cada subgrupo (variáveis sociodemográficas) na análise das diferenças intergrupos constituem limitações à generalização dos resultados obtidos e poderão ter condicionado os resultados.

Outra dificuldade com que nos deparamos prende-se com o instrumento utilizado. Apesar do instrumento estar adaptado à população portuguesa, pelo facto de ser de autorrelato, está sujeito a erros de interpretação e a fatores de desejabilidade social. Em futuras abordagens, será conveniente considerar a possibilidade de uma avaliação por terceiros ou até mesmo uma metodologia qualitativa. O confinar do estudo a um único estabelecimento prisional da zona centro constitui outra limitação à generalização dos resultados ao resto do país. Finalmente, embora a realização de uma avaliação pré e pós-entrada no estabelecimento prisional não constituísse como um objetivo do estudo devido ao tempo limitado para a investigação e a morosidade na recolha da amostra, teria sido conveniente a sua realização. Em estudos futuros sugere-se a replicação deste estudo junto de um grupo mais vasto de participantes e em momentos diferentes da sua exploração vocacional, como no início da pena de prisão, ao meio e no final da mesma.

Muitas questões ficam por responder, abrindo perspetivas para novas linhas de investigação. Destacam-se algumas vertentes de estudo particularmente relevantes em relação aos resultados obtidos. Também pertinente para possíveis investigações futuras, o estudo das influências do grupo de pares e da família de pertença e rede social, seriam importantes, uma vez que todos são considerados agentes fundamentais para a (re)construção do self dos indivíduos. Estudos com outros instrumentos de medida e com outras abordagens à orientação da carreira menos tradicionais devem ser, igualmente contemplados no processo de exploração vocacional em estudos futuros.

Seria interessante, também pertinente, tentar reunir diferentes dimensões de carreira tais como, aspectos motivacionais, facetas do Eu Vocacional e facetas do Eu de Carreira, num modelo multidimensional que permitisse explorar relações causais entre as várias dimensões, ou que permitisse desenhar, com base nestas dimensões, perfis de desenvolvimento para grupos específicos de reclusos, como por exemplo, para mulheres e homens, entre outros. Outra linha de investigação que consideramos importante neste âmbito refere-se à exploração acerca do conteúdo das construções de carreira, em mulheres e homens, reclusos, ou de mulheres e homens que já se encontrem inseridos no mercado de trabalho. Paralelamente ao estudo aprofundado desta população, torna-se relevante ir desenvolvendo e avaliando intervenções psicológicas e educativas que vão de encontro às variadas necessidades de carreira da população reclusa. A investigação em torno destas intervenções e das mais diversas estratégias por elas utilizadas reveste-se de especial importância, de forma a garantir a sua eficácia.

Em suma, a realização de mais estudos vocacionais com reclusos é muito necessária em Portugal. Esperamos que este trabalho tenha contribuído para encorajar mais esforços multidisciplinares no estudo e intervenção junto de reclusos portugueses. Acima de tudo, esperamos que este trilho investigatório tenha possibilitado demonstrar que a intervenção psicológica vocacional junto de reclusos é uma necessidade.

 

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Endereço para correspondência:
Liliana Faria
Universidade Europeia
Quinta do Bom Nome - Estrada da Correia, 53
1500-210, Carnide, Lisboa
Fone: 00351 917 165 417
E-mail: liliana.faria@europeia.pt

Recebido 04/10/2013
1ª Revisão 27/04/2014
2ª Revisão 28/01/2015
Aceite Final 30/01/2015

 

 

Sobre os autores
Liliana Faria é Doutorada em Psicologia Vocacional pela Universidade do Minho, e Professora Auxiliar da Universidade Europeia. Tem desenvolvido atividades de docência e investigação no âmbito da Psicologia Vocacional.
Sandra Marques é Mestre em Psicologia Social e das Organizações pelo ISLA - Leiria.
Joana Carneiro Pinto é Doutorada em Psicologia Vocacional pela Universidade do Minho. Atualmente é Professora Auxiliar na Universidade Católica Portuguesa. Tem desenvolvido atividades de docência e investigação no âmbito da Psicologia Vocacional.

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