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Revista Brasileira de Orientação Profissional

versão On-line ISSN 1984-7270

Rev. bras. orientac. prof vol.18 no.1 Florianópolis jun. 2017

http://dx.doi.org/10.26707/1984-7270/2017v18n1p1 

EDITORIAL

 

 

No XIII Congresso Brasileiro de Orientação Profissional e de Carreira, que acontecerá em Campinas em setembro de 2017, uma mesa redonda com o título "Orientação profissional e de carreira no Brasil: de onde viemos e para onde vamos?" vai discutir o panorama da área de OP no país sob diferentes aspectos. Neste editorial, em preparação a esta discussão, descreveremos mais detalhadamente as publicações da Revista Brasileira de Orientação Profissional entre os anos de 2003 e 2016, enfatizando algumas características como os tipos de publicação, a diversidade de autores e instituições e a participação internacional. Ainda, fazemos a apresentação dos artigos que compõem este primeiro número de 2017 e também apontamos algumas mudanças importantes já presentes e futuras no processo de editoração da revista. Como sempre, deixamos nosso agradecimento pelo esforço coletivo de autores, editores e equipe de apoio editorial para a realização desta tarefa.

Estudos de levantamento da produção científica de uma dada área do conhecimento podem auxiliar na sistemati-zação e monitoramento de informações gerais referentes ao desenvolvimento da mesma. Na área do desenvolvimento vocacional, alguns estudos de revisão já foram realizados, com diferentes focos, como avaliar o campo da avaliação psicológica em OP (Ambiel & Polli, 2011), a produção científica em congressos brasileiros de orientação (Melo-Silva, Leal & Francalozzi, 2010), sobre as práticas de orientação profissional dos psicólogos e educadores (Melo-Silva, Bonfim, Esbrogeo, & Soares, 2003), sobre os conteúdos de teses e dissertações em OP (Noronha, Andrade, Miguel, Nascimento, Nunes et al., 2006), os conteúdos ensinados em disciplinas de OP em cursos de graduação (Nunes, Noronha, & Ambiel, 2007), a avaliação de intervenções em OP no Brasil (Bardagi & Albanaes, 2016) e para mostrar uma perspectiva histórica da produção científica na área (Abade, 2006).

Teixeira, Lassance, Silva e Bardagi (2007), inclusive, já haviam realizado um mapeamento dos artigos publicados pela Revista da ABOP e pela Revista Brasileira de Orientação Profissional (RBOP), principal veículo de divulgação da área no país. Naquele estudo foram analisados 11 volumes da revista, publicados entre 1997 e 2006. Entre os resultados destes estudos, destacam-se o predomínio de clientes adolescentes da rede privada, a pouca atenção às populações em situação de vulnerabilidade de trabalho, a necessidade de políticas públicas de orientação, a necessidade de ampliação e maior rigor metodológico nas avaliações de intervenção, o aumento dos estudos sobre estudantes do ensino superior, a grande dispersão dos temas de estudo nas publicações da área, os poucos estudos em colaboração entre pesquisadores de diferentes centros, o aumento do uso das teorias socio-cognitiva, construtivista e construcionista de carreira nos últimos anos, as lacunas na formação de orientadores e o pouco interesse da área em pesquisas com os próprios orientadores.

Para este editorial sistematizou-se um novo mapeamento de características gerais das publicações da RBOP no período compreendido entre os anos 2003 e 2016. Os aspectos analisados referem-se às seguintes categorias: a) diversidade de autores que compuseram as publicações; b) tipos de produção; c) participação internacional. Para fins de organização quanto à apresentação da análise realizada, optou-se pela divisão das produções em três períodos, a saber: a) 2003-2007 (nove edições), 2008-2011 (oito edições) e 2012-2016 (dez edições). É importante ressaltar que os estudos anteriormente citados em sua maioria se concentraram no primeiro período. Nesse sentido, buscou-se identificar se os principais achados nos estudos anteriores seriam repetidos ou se novas características surgiriam a partir da análise das publicações. Os principais resultados estão descritos na sequência.

Inicialmente, no que se refere à quantidade de autores que compuseram as publicações do periódico, observa-se que no período entre 2003-2007, 105 autores participaram dos estudos publicados; no período entre 2008-2011 foram 137 autores; já no último período analisado - de 2012 a 2016 - 211 autores integraram as publicações na RBOP. Além do aumento considerável da quantidade de autores que participaram das edições nos diferentes períodos da revista, observou-se que no período entre 2008 e 2011, houve 114 novos autores em comparação com o período anterior. Já no período ente 2012 e 2016, houve 142 novos autores em comparação com os dois períodos anteriores. Tais resultados refletem o crescimento considerável da área de desenvolvimento vocacional e de carreira nos últimos anos em nível nacional e internacional, assim como o subjacente aumento tanto de sujeitos envolvidos em grupos e programas de pesquisa na referida área e o aumento de parcerias entre esses grupos e programas de pesquisa de diferentes instituições de ensino superior nacionais e internacionais. Este resultado já mostra-se oposto aos resultados anteriores, que indicavam poucos estudos de colaboração e poucas parcerias entre diferentes centros de pesquisa na área.

Considerando que a RBOP publica artigos empíricos, teóricos, além de revisões de literatura, relatos de experiência e resenhas, a Tabela 1 ilustra a concentração desses diferentes tipos de produções que compuseram os fascículos da RBOP nos três períodos analisados.

Como se pode observar, houve um aumento substancial de publicações referentes a artigos empíricos, especialmente no último período analisado. Este resultado se mantém desde as revisões anteriores sobre a produção. Além disso, observa-se nos últimos dois períodos a ampliação da divulgação de experiências de desenvolvimento vocacional e de carreira, com maior sistematização de informações sobre procedimentos - ainda que com pouca ênfase na avaliação das intervenções, especialmente se tratando das publicações nacionais. Aqui também a necessidade de maior rigor metodológico na condução e avaliação de intervenções já mencionada nos estudos anteriores se mantém.

Quanto à participação internacional, por meio do levantamento realizado verificou-se a seguinte configuração:

(a) no período entre 2003-2007 houve 13 artigos com participação de autores vinculados a universidades de outros países;

(b) no período entre 2008-2011 houve 32 artigos com participação de autores vinculados a universidades de outros países;

(c) no período entre 2012-2016, houve 35 artigos com participação de autores vinculados a universidades de outros países. Tais resultados indicam uma ampliação considerável da participação internacional nas publicações da revista. Já a A Tabela 2 descreve os países que compuseram as publicações internacionais da RBOP e a quantidade de publicações correspondentes a cada um deles.

Os resultados descritos na Tabela 2 indicam que, embora tenha havido um movimento de internacionalização da RBOP, grande parte dessas pesquisas são oriundas de Portugal, Espanha e países ibero-americanos. Sugere-se que tal fato tenha relação com a maior proximidade dos idiomas e também com a maior proximidade estabelecida entre grupos e centros de pesquisa nacionais com esses territórios.

Além disso, a partir do levantamento realizado, verificaram-se ainda algumas lacunas de pesquisa, que já haviam sido apontadas nos estudos de revisão anteriores, que devem integrar direções futuras de pesquisa, como por exemplo a escassez de materiais na área de desenvolvimento vocacional e de carreira relativos às populações em situação de vulnerabilidade, a escassez de estudos relativos às questões do desenvolvimento de carreira do próprio orientador, ou sobre

Quanto ao material que compõe este primeiro número de 2017, são nove artigos originais, sendo oito relatos de pesquisa e um relato de experiência, do Brasil e de Portugal. Ao todo são 17 autores de oito diferentes instituições, sendo duas portuguesas e seis brasileiras. Entre os artigos nacionais, encontramos autores de cinco diferentes estados (SC, BA, RJ, SP e MG).

O fascículo inicia com os dois trabalhos portugueses. No artigo "Reflexos da lógica organizacional na identidade profissional: Variações do discurso autobiográfico", o autor António Calha, do Instituto Politécnico de Portalegre (Portugal) identifica como a identidade profissional incorpora os princípios das lógicas de gestão organizacional que organizam as trajetórias profissionais dos indivíduos. Já no trabalho intitulado "Carreira e bem-estar subjetivo no ensino superior: Determinantes pessoais e situacionais", as autoras portuguesas Cátia Costa e Maria Odilia Teixeira, da Universidade de Lisboa, propõem-se a, a partir do modelo de bem-estar de Lent e Brown (2006), analisar o impacto de variáveis de carreira no bem-estar de alunos do ensino superior.

Os artigos nacionais deste fascículo iniciam com uma interlocução entre as áreas da carreira e da Psicologia do Esporte. No artigo "Carreira esportiva: O esporte de alto rendimento como trabalho, profissão e carreira", os autores Rafaella Cristina Campos, Mônica Carvalho Alves Cappelle e Luiz Henrique Rezende Maciel, da Universidade de Lavras (MG) buscam compreender as características do esporte de alto rendimento como carreira profissional.

Neste fascículo estão três artigos de revisão de literatura. Dois deles fazem a articulação do desenvolvimento de carreira com a teoria sistêmica e os aspectos familiares e ambos contam com a participação da autora Carmen Moré e são oriundos da Universidade Federal de Santa Catarina (SC). No primeiro, "Família e desenvolvimento de carreira de jovens adultos no contexto brasileiro: revisão integrativa", com as autoras Milena Fiorini e Marucia Patta Bardagi, busca-se compreender as relações entre família e carreira nas trajetórias de jovens adultos no contexto brasileiro contemporâneo. No segundo, "Revisão sistemática da literatura internacional sobre aposentadoria e redes sociais" , realizado em co-autoria com Marcos Henrique Antunes, o objetivo foi fazer uma revisão sistemática da produção científica internacional sobre aposentadoria e redes sociais entre os anos de 2006 e 2015. A terceira revisão de literatura que compõe esse número intitula-se "Inserção profissional e carreira de formandos e egressos brasileiros: revisão da literatura", de Camila Gusmão de Almeida e Vera Socci, da Universidade de Mogi das Cruzes (SP), analisa a produção científica nacional do período que compreende os anos de 2010 a 2015, referentes à inserção profissional e carreira de formandos e egressos brasileiros.

O próximo artigo, intitulado "Expectativas sobre o desenvolvimento da carreira em estudantes universitários", de Reivane Chisté Buscacio (Universidade Veiga de Almeida, RJ) e Adriana Benevides Soares (Universo, RJ) tem por objetivo identificar, a partir do discurso de estudantes universitários, as expectativas relacionadas à escolha profissional e reconhecer as suas influências sociais subjacentes. Da Universidade Federal da Bahia (BA) vem o artigo de Fernanda de Souza Brito e Mauro de Oliveira Magalhães, "Avaliação de ambientes ocupacionais: construção do Inventário de Classificação Ocupacional", com foco na criação do instrumento ICO, para avaliação de ambientes de trabalho segundo o modelo de Holland. Por fim, o relato de experiência de autoria de Camila Pereira Lisboa, da Universidade Federal de Minas Gerais (MG), intitulado "Uma experiência de orientação profissional no contexto de políticas públicas" descreve uma experiência de oferta de grupos de Orientação Profissional a jovens e adultos na Diretoria de Inclusão Produtiva (em Nova Lima, MG).

De forma convergente, alguns dos artigos que estão neste número buscam preencher lacunas apontadas no levantamento inicialmente descrito neste editorial, como as articulações das discussões do desenvolvimento de carreira com outras áreas correlatas, como os estudos que trabalham com a perspectiva sistêmica e a psicologia do esporte, por exemplo, e a presença da orientação junto a populações vulneráveis, tal como discute o material do relato de experiência de Camila Lisboa. Não são ainda estudos existentes em grande volume, mas sinalizam que as agendas de pesquisa podem estar na direção correta em termos de responderem às necessidades da área.

Uma boa leitura a todos!

 

Marúcia Patta Bardagi
Editora Científica biênio 2016-2017

Patricia Albanaes
Assistente Editorial

 

Referências

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